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semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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14.9.08
Correm hoje na sociedade portuguesa, a propósito do processo Casa Pia, duas teorias da cabala, mutuamente contraditórias, mas desenvolvendo-se diante dos nossos olhos todos os dias. Sempre que há um elemento novo que se acrescenta ao processo, entendido no seu sentido lato, muito para além do processo jurídico propriamente dito, indo da busca ao 24 Horas à indemnização de Paulo Pedroso, voltam de novo as cabalas com a mesma força de sempre. Existem duas teorias da cabala, uma rosa, oriunda do PS, e outra azul, com origem mais difusa. Ambas assentam, grosso modo, nos mesmos factos, ou presunções de factos, ambas coincidem em muitos aspectos mas, no essencial, são distintas na identificação de actores e responsáveis. Se tivéssemos que dividir o país entre a cabala rosa e a cabala azul, quase todos os portugueses aí encontrariam a sua camisola, embora os adeptos se distribuam de modo muito desigual. Os adeptos da cabala rosa estão confinados a uma parte de dirigentes do PS, e do "povo" PS, enquanto os adeptos da cabala azul são muito mais numerosos. A disparidade dos partidários de uma ou de outra não releva do mérito da "história secreta" de cada uma das teorias, nem as razões da disparidade são, em si mesmas, positivas. A cabala azul é claramente impulsionada pelos ventos do populismo antipolíticos, da suspeita popular de que "eles" são capazes das mais hediondas coisas e do prazer de os ver "apanhados". Na verdade, é a cabala azul que é mais poderosa, até porque é difusa e "popular". Vejamos qual é a "história secreta" de cada uma das cabalas. A cabala rosa foi exposta em sugestões, insinuações e, nalguns casos, em directas afirmações por várias pessoas, a começar por Ferro Rodrigues e a terminar por Ana Gomes. No blogue Causa Nossa, Ana Gomes, no seu estilo desbocado, fez uma recente exposição da cabala que tem a vantagem de pôr preto no branco algumas coisas só sussurradas. A história é mais ou menos esta: foram identificados casos de pedofilia quer na Casa Pia, quer no Parque Eduardo VII, que serviram a determinadas forças (no governo PSD/CDS, na magistratura, na Polícia Judiciária, em meios ligados às informações) para realizarem dois objectivos. Um, instrumental a curto prazo, foi desviar as atenções dos casos de pedofilia do Parque Eduardo VII, (envolvendo, diz Ana Gomes citando o Le Point, "dois ministros de Durão Barroso que frequentavam o Parque"); outro, com mais fôlego político, "decapitar" a direcção do PS de Ferro Rodrigues (Ana Gomes: "Uma urdidura montada para também, de caminho, decapitar politicamente o PS de uma direcção que inquietava o 'centrão' traficante de favores e negociatas à custa do Estado."). Ferro Rodrigues, Paulo Pedroso eram visados, e de passagem outros dirigentes do PS como Jaime Gama, assim como personalidades ligadas ao PS como Carlos Cruz ("figura de notoriedade insuperável e conhecida colaboração com governantes do PS", idem). Para isso, "alguém" "instrumentalizou" algumas das vítimas de abusos sexuais da Casa Pia para acusar e identificar dirigentes e simpatizantes do PS ("tem de se fazer tudo para desenterrar a verdade e para identificar, expor e julgar os canalhas que instrumentalizaram jovens da Casa Pia, vítimas de abusos pedófilos, para acusarem falsamente Paulo Pedroso, Ferro Rodrigues e Jaime Gama", de novo Ana Gomes). Segundo esta versão da cabala, o objectivo imediato foi conseguido, desligando-se o processo do Parque Eduardo VII que desapareceu no limbo da justiça, enquanto o da Casa Pia crescia exponencialmente. Um procurador, obcecado por apanhar a "classe política" toda, fez um livrinho de reconhecimento onde estavam todos os políticos, mais o cardeal-patriarca, menos os magistrados, e começou a fazer escutas telefónicas a eito e a querer analisar chamadas telefónicas de muitos milhares de pessoas. O rasto dessa devassa ficou pelo caminho em envelopes, como o célebre "envelope 14", e em fugas sobre fugas de informação. A uma dada altura, Paulo Pedroso, o "número dois" do PS na altura, é preso com espavento na Assembleia da República, numa perseguição assente num "erro judicial" tão flagrante que lhe viria dar razão numa acção de indemnização contra o Estado. Os abusos de escutas telefónicas e da utilização da prisão preventiva foram de tal monta que o PS teve que corrigir muita da legislação (parte da qual de sua responsabilidade) que permitiu a prepotência justicialista dos magistrados e polícias envolvidos na "urdidura" contra o PS. Para esta cabala ter sentido ela implica que "alguém" treinou os rapazes da Casa Pia, lhes apontou os alvos e conduziu uma série de operações que tinham que envolver desde o ministro da Justiça (então do PP), ao PGR ("o patético PGR da época recusou investigar quem eram os dois ministros de Durão Barroso que frequentavam o Parque", idem), aos magistrados e aos polícias. A cabala azul é que os rapazes da Casa Pia e o Parque Eduardo VII foram de facto molestados, abusados, violados por uma série de políticos, "figuras públicas" e poderosos. Gente habituada à prepotência, aos prazeres mais escondidos e gozando de um sentimento de impunidade, pensando que pode fazer o que quer e que está acima do comum cidadão. Um grupo de corajosos magistrados e polícias quis ir até ao fim do crime e, sem temer a importância, nomeada e cargo dos pedófilos, começou a investigá-los sem complacência. Doa a quem doer. Prenderam Pedroso, que está-se mesmo a ver o que é. E prenderiam Ferro Rodrigues se fosse preciso, ou o Presidente da República à mais leve suspeita. Pouco importa os métodos, escutas abusivas, devassas, pesca à linha fina, o que importa é que nenhum poderoso deixasse de pagar pelos seus crimes. Depois, as coisas começaram a correr mal. Pedroso é libertado e ilibado. O processo começa a encravar. Percebe-se bem porquê: as protecções dos poderosos começaram a funcionar e nelas estava envolvida a Maçonaria e as solidariedades maçónicas, fortes no aparelho judicial e no PS. E, sentença a sentença, o caso Casa Pia foi sendo desmantelado, ficando apenas para condenar o pobre do "Bibi", escapando todos os poderosos. Assustados, os políticos mudaram a legislação para se proteger, impedindo as escutas telefónicas que os podiam expor e abrindo a porta, pela dificuldade de prisão preventiva, ao surto de criminalidade dos nossos dias. O sentimento de impunidade dos poderosos continua e o "povo" revolta-se cada vez mais com esta injustiça. Aqui estão as duas cabalas nas suas linhas gerais. O uso da palavra "cabala" no seu sentido corrente, de uma conspiração ou "urdidura", é por uma vez fiel ao seu sentido religioso no judaísmo: na leitura da Tora há vários modos possíveis de entendimento, desde o sentido directo ou literal (Peshat, "simples"), ao sentido "secreto", misterioso (Sod), que constitui a cabala em si mesma. Também aqui, a realidade do processo Casa Pia, tão fugidio e contraditório ele nos parece mesmo no seu sentido "simples", nos oferece tão amplas suspeitas sobre o seu sentido "misterioso" que a existência de teorias da cabala não é surpreendente.Para qualquer cidadão comum, as decisões judiciais aparecem como sendo contraditórias entre si - como se pode entender que Pedroso ganhe uma indemnização ao Estado, ao mesmo tempo que outra decisão judicial o impede de processar os seus acusadores por considerar que o fizeram sem "dolo" e que as suas denúncias permanecem relevantes para o resto do processo - e não há argumentação jurídica que possa contrariar o bom senso mais comum que nos diz que tudo isto não se percebe. Claro que há sempre explicações intermédias, sem cabalas pelo meio, de que mais uma vez estamos perante um sistema judicial muito incompetente, que acabou, pela sua incompetência e pela ambição justicialista que ataca alguns magistrados, por "estragar" a punição de um crime que ninguém nega ter existido. Porque alguém abusou das crianças da Casa Pia, não é verdade? Mas nestas teorias da cabala, uma coisa para mim é surpreendente, a grande indiferença existente quanto ao seu esclarecimento, a aceitação de que é normal dizer que conspirações desta gravidade são possíveis na democracia portuguesa, sem tirar consequências. Porque, se qualquer das versões, e em particular a do PS, tem alguma coisa de verdade, nós não vivemos num Estado de direito, mas sim num meio em que governantes poderosos, máfias organizadas, organizações secretas ou discretas, controlam o Estado português. Não me parece que se deva cruzar os braços ao aspecto político desta questão, que está muito para além do processo Casa Pia. (Versão do Público de 13 de Setembro de 2008.) * Contrariamente a si, a principal sensação que a indiferença relativa ao esclarecimento das teorias da cabala desperta em mim não é a surpresa. É a preocupação. Pois se a generalidade das pessoas fica indiferente perante tudo isto é porque os portugueses já encaram como normal que «eles» façam destas coisas sem serem apanhados. E a indiferença nestes casos não deve nunca ser confundida com ausência de revolta. O meu principal receio é que surja um populista carismático que use esta revolta larvar para atacar toda a classe política. E, se isso acontecer, muita gente vai sofrer e, na grande maioria dos casos, serão pessoas que nem têm qualquer responsabilidade pelo actual estado da situação. (url) 10.11.07
COISAS DA SÁBADO: TOMAR A SÉRIO O CASO EM VOLTA DO CASO CASA PIA? Catalina Pestana foi escolhida para ficar à frente da Casa Pia num momento difícil da instituição. Dois governos validaram essa escolha, o que significa que, de algum modo, passou o teste de ter o lugar apenas por compadrio político. É verdade que o critério para se estar à frente da Casa Pia, como da Santa Casa da Misericórdia, é um pouco bizarro e mal esclarecido, pois corresponde a um perfil muito sui generis de pessoas, que inclui sempre alguma relação privilegiada com a Igreja e com redes de influência entre o trabalho social, o militantismo católico, mesmo heterodoxo, e algumas maçonarias sem nome, como a que existia à volta de Maria de Lurdes Pintasilgo. São também, nos últimos anos, “lugares de mulheres”, na ideia que estas serão mais sensíveis aos problemas sociais que essas instituições defrontam. É uma mescla estranha, de que Catalina Pestana faz parte, mas isso neste caso funciona mais como território de independência. O que Catalina Pestana tem vindo a dizer preto no branco em entrevistas públicas, a que se soma a informação que acrescentou em privado e confidencialmente aos responsáveis do MP e da Casa Pia, é que existe uma acção concertada, para proteger um grupo de poderosos envolvidos em crimes de pedofilia. Aponta o dedo a círculos do PS e da maçonaria. Concretiza as suas acusações reafirmando a sua convicção da culpabilidade de Paulo Pedroso e acusando os socialistas de terem alterado os Códigos para proteger os acusados no processo Casa Pia. Catalina Pestana não faz meias acusações, coloca nomes, circunstâncias e factos suspeitos na sua voz, na primeira pessoa. A resposta a Catalina por parte dos visados é, para não ir mais longe, frouxa e incomodada. Por um lado, há uma clara tentativa de a desacreditar, por outro, uma ausência de acção que só dá força às suspeitas lançadas. Por exemplo, nomeia directamente Paulo Pedroso, que no passado processou muitos dos seus acusadores e jornalistas que trataram o caso, mas que agora diz ter intenção de não o fazer à sua acusadora actual. Do mesmo modo, continua sem ser esclarecida a história das alterações aos Códigos nos seus artigos mais sensíveis para o caso Casa Pia, sem se perceber o que aconteceu às actas da Comissão e quem introduziu essas alterações. Sabe-se quem diz que não foi responsável, não se sabe quem foi o responsável e parece cada vez mais que há um encobrimento sobre essa alterações. Não me parece haver loucura especial nas palavras de Catalina Pestana e os que agora a tentam desacreditar foram alguns dos que a escolheram ou a aceitaram para as funções que exerceu. É verdade que essas palavras são diminuídas pelo clima de perseguição contra os políticos em geral para que o MP deixou descambar o processo Casa Pia cujas fragilidades são evidentes. Tanto se quis pescar de arrasto que se perdeu o foco nos primeiros peixes da rede, e há deficiências que Catalina aponta que não precisam de ser explicadas por qualquer conspiração, basta a negligência e a politização justicialista da investigação para as explicar. Mas, descontando tudo isto, alguma coisa sobra e é suficientemente grave para não ser coberta por qualquer manto de silêncio. O que Catalina Pestana diz, caso seja verdade, conduziria, em qualquer país civilizado, à queda do governo e à incriminação de todos os envolvidos naquilo que é, na verdade, o retrato de uma conspiração. Etiquetas: Casa Pia, Catalina Pestana (url) 7.8.10
COISAS DA SÁBADO: ALGUÉM ME EXPLICA O QUE SE PASSA COM O MINISTÉRIO PÚBLICO? (2) Depois a confusão instalou-se, com o PGR a pedir mais um inquérito ao inquérito (se a memória me não falha, não havia já um para se saber por que razões tudo tinha estado parado entre 2005 e 2009?) e logo a seguir a dar uma entrevista em que se compara à Rainha de Inglaterra. Embora a comparação seja perversa, porque a Rainha de Inglaterra tem muito mais poder do que aquele que lhe é comummente atribuído, eu sempre pensei que o PGR era dos homens com mais poder em Portugal. De novo, não percebo nada, porque ninguém diz aquilo que efectivamente pensa e muito menos faz corresponder os seus actos à responsabilidade que tem. Na verdade, o pano de fundo de tudo isto é uma mistura nunca inteiramente elucidada de decisões e contra-decisões com origem no chamado “caso Casa Pia”. Foi aí que no PS se começou a desenvolver uma “teoria da cabala” contra o Ministério Público e foi também aí que se começaram a mover muitas influências, nem sempre transparentes, como é o caso da Maçonaria. Verdade seja dita que, do lado do Ministério Público, começou também a crescer um justicialismo inadmissível, empurrado pelo populismo, com a tentativa de fazer uma espécie de pesca de arrasto sobre todos os políticos a pretexto do caso Casa Pia. Por isso, havia nos dois lados uma deriva perigosa, que, apenas com raras excepções, nunca foi publicamente discutida como devia. Resultou daí um ambiente malsão, em que por via da legislação se tentou evitar aquilo que era entendido como os “abusos” do caso Casa Pia (que existiam de facto), mas criando condições que vieram a afectar a investigação dos crimes que envolvem os titulares dos casos políticos e alguns crimes de “colarinho branco”.A desconfiança mútua feita de acusações surdas, em particular entre o PS, que tem uma forte presença na “justiça”, e os magistrados do Ministério Público, continua com a força poderosa que tem o ressentimento. Esse conflito centra-se muitas vezes no próprio PGR, cuja nomeação política o coloca num sistema de obrigações e dependências complexo. E por isso, passamos a ter uma guerra endémica feita tanto de fugas de informação, que destroem reputações com a facilidade de uma capa de jornal matinal, como de excessivo zelo na protecção aos políticos, como o que se tem passado com José Sócrates no Freeport e quanto ao eventual abuso de poder no “caso TVI”. E é esta guerra, entre cabalas de parte a parte, que vem ao de cima com epicentro no PGR que se classifica de “Rainha de Inglaterra”, que é o mesmo que dizer que faz parte do problema e não da solução, se é que a há. (url) 7.8.06
COISAS DA SÁBADO: SERÁ QUE O MINISTÉRIO PÚBLICO NÃO CONSEGUE FAZER AS COISAS BEM UMA ÚNICA VEZ? ![]() A mediatização da justiça podia ser inevitável, era só uma questão de tempo, mas, no caso nacional, essa mediatização foi deliberadamente procurada por um dos “agentes da justiça”, o Ministério Público. Tudo resultou de uma prática que uniu dois interesses convergentes: o Ministério Público no tempo de Narciso da Cunha Rodrigues, que exerceu o cargo de 1984 a 2000 e moldou a instituição e um jornal populista, e o Independente, destinado a combater o governo do PSD e a abrir caminho para a carreira política de Paulo Portas. Esta coligação de interesses era muito semelhante à que se tinha verificado em Itália durante os tempos da “república dos juízes” e associava o justicialismo comunista e da extrema-esquerda, muito bem representado na corporação dos procuradores, com o populismo anti-políticos e anti-parlamentar da direita radical. Com o tempo, esta aliança começou a desgastar-se e a revelar os seus efeitos perversos. O MP, afinal só anunciava não “produzia” e aqueles que viam o seu nome envolvido em suspeitas públicas e publicadas nunca eram levados a tribunal e, se o eram, saiam inocentes. Por outro lado, o principal político populista, Portas, a quem esta estratégia serviu para colocar o PS no poder (com quem objectivamente se aliou) em vez do PSD, acabou por provar da sua própria medicina no “caso Moderna”. No intervalo, os políticos do PSD, do PS, do CDS e do PCP deram ao MP quase tudo que ele exigia, em particular um modelo de autonomia quase sem limites, à italiana, com medo de parecerem pouco zelosos na luta contra a corrupção. Com a mudança do Procurador, este encontrou um MP fortalecido com poderes até ao limite da afronta às liberdades pessoais e direitos de defesa, com utilização quase indiscriminada e incontrolada das escutas telefónicas (responsável: António Costa) e da prisão preventiva como instrumento de coação. A instituição estava solidamente ancorada no justicialismo. Só que o monstro que o anterior Procurador tinha despertado, a comunicação social, já não era apenas e só um jornal e um político, mas sim uma multidão de voyeurs (no meio de alguns poucos bons jornalistas) que queria sangue dos políticos e queria resultados, queria barras da cadeia à frente de caras conhecidas. Como isso não acontecia, começou a olhar para os lados do próprio MP com uma nova curiosidade e com perguntas cada vez mais complicadas. A chave de todo este “sistema” era a violação programada do segredo de justiça, mas, a uma dada altura, o “programado” passou a ser “programado por A contra B” e vice-versa. O vice-versa estragou tudo e o caso Casa Pia explodiu no ar rarefeito. Começou a perceber-se que o MP usava e abusava das escutas telefónicas e que os métodos de investigação mostravam que esta descambara de uma procura de responsáveis para os crimes que se sabiam ter sido cometidos, para uma investigação sistemática de todos os políticos. O caso chamado do “envelope 9”, que é um subproduto do caso Casa Pia, tornou-se revelador dessa inquirição sistemática, tipo rede de arrasto, o que pouco tem a ver com a investigação de um crime. É outra coisa, é política. SERÁ QUE O MINISTÉRIO PÚBLICO NÃO CONSEGUE FAZER AS COISAS BEM UMA ÚNICA VEZ? - 2 As notícias sobre a ilibação de Nobre Guedes, cuja busca ao escritório foi precedida de indicação à comunicação social de que esta ia ser realizada, (como aconteceu também com Jorge Coelho) , obriga a condenar a forma como se fez uma penalização social gravíssima para pessoas que acabam por ser inocentadas sem nada de semelhante às parangonas com que foram culpabilizadas. Isto, junto com a negação pelo tribunal do acesso aos computadores do 24 Horas, cortando cerce uma cortina de fumo sobre o objectivo inicial do inquérito (saber por que razão estavam no processo Casa Pia listagens que não deveriam estar e quem foi responsável por esse acto), são importantes revezes do Ministério Público. Somam-se a muitos outros revezes, do caso Apito Dourado ao que aconteceu com Fátima Felgueiras e Isaltino de Morais. O MP atira para vários lados, as fugas de informação criam expectativas de culpas e de penas e depois, nada, nada, nada… No intervalo, ficam estilhaços por todos os lados, inocentes que carregarão sempre a culpa que lhes foi lançada nos jornais, culpados que se escapam no meio de métodos de investigação, que se revelam incompetentes e negligentes. Mais do que isso: os abusos entretanto cometidos revelam os efeitos perigosos de uma atitude justicialista, ou seja, de uma política que nada tem a ver com a democracia. Quando uma instituição central do nosso sistema de justiça entra na política está posto em causa o funcionamento normal da democracia. Esta é a questão de fundo do que se passa no MP e, hoje, é responsabilidade do Primeiro-Ministro e do Presidente da República. Assim não pode continuar. (url) 10.5.04
PROCESSO CASA PIA
Sempre me intrigou que uma pergunta nunca tenha sido feita. Ninguém contesta que houve violências sexuais sobre menores da Casa Pia. Este é um facto incontroverso. Ninguém pode presumir outra coisa que não seja a inocência dos arguidos, mas eles sairão do tribunal ou inocentados ou culpados. Imaginem que são, como muita gente pensa (e outra não), inocentes e nada tinham a ver com os crimes cometidos. Se for assim, quem é que os cometeu? (url) 6.1.08
Daqui a 20 anos, na verdade daqui a menos anos, porque tudo se acelera, é suposto haver estudos sobre os anos da década triste que vai do fim anunciado de Guterres ao princípio da erosão de Sócrates. Como todas as décadas tristes, não estou certo se não durará mais do que uma década, mas vamos pressupor, quase desejar, que se fique por dez anos. Que sobrará desta época que lhe dará o Zeitgeist, mais uma palavra daquelas que só o alemão é capaz de dar, o que retratará o "espírito do tempo", quando ele voa baixo, baixinho?
O que revelará melhor do que tudo esta década está em grande parte na Rede, não está em papel, mas em filmes que sobrevivem no YouTube, em blogues, em páginas pessoais, o que coloca a questão da preservação da Internet em português pela Biblioteca Nacional ou por qualquer outra instituição pública que é suposto assegurar o património da nossa memória colectiva. Há anos que levantei esta questão e tudo permanece na mesma, e o que não se perdeu, devido em grande parte às próprias características do espaço da Rede, que não gosta de esquecer e mantém quase tudo, nem sempre é fácil de encontrar. Este é hoje um dos grandes desleixos patrimoniais do Estado português. O que acontece é que, mesmo quando os mesmos filmes, ou as mesmas gravações áudio, existem nos arquivos de qualquer televisão ou rádio, é a sua forma em linha, por exemplo, enquanto filmes do YouTube e não enquanto programas de televisão, que lhes deu o valor histórico, ou, para usar uma palavra mais cara, icónico. Foi assim que foi consumido, retrabalhado, remisturado e consumido num meio que pode ser distinto do inicial. Esta prova de sobrevivência em rede cria novos mecanismos de selecção e visibilidade, que não seguem necessariamente as regras da produção original. Talvez o melhor exemplo disso seja a história de sucesso do sketch do Gato Fedorento sobre Marcelo e o aborto, vindo da televisão para o YouTube, e o insucesso do filme de Marcelo feito de propósito para o YouTube, mas com as regras da televisão clássica. Muito do que ficará serão imagens, porque este tempo é um tempo de imagens. Mesmo o som, dado o carácter fluido e efémero da rádio, só sobrevive muitas vezes quando sobreposto em imagens, uma técnica comum no YouTube. O parente pobre é a escrita, embora os blogues se tenham acrescentado ao património da memória, não só por serem escrita, mas pela sua forte ligação com o tempo presente, presos ao dia-a-dia. ![]() ![]() Nesse arquivo da década triste ficarão certamente cenas da televisão do Pathos, como o contínuo de "masturbação da dor" ocorrido com a queda da Ponte de Entre-os-Rios e os casos de crianças, uma novidade da década. A entrada em cena da pedofilia como crime máximo, crime dos crimes, trouxe para uma ribalta iluminada por uma luz muito negra a criança como símbolo máximo da violência e da disfunção da sociedade, como alvo do Mal absoluto. O caso da Casa Pia, o caso Joana, o caso Maddie, o caso Esmeralda e, ainda que de uma forma perversa, a questão do aborto, trouxeram um mundo de sombras que parece mais um teatro do medo colectivo do que uma questão de crime e castigo. Se tivermos em conta que um dos traços que se acentuaram nesta década triste foi a infantilização cada vez maior do mundo dos adultos, temos montado um palco entre o filme de terror e a casa das bonecas ou variantes do Action Man. Crianças e adolescentes, teenagers que se recusam a envelhecer, ficarão nos documentos da actualidade, porque este é o seu tempo. No YouTube mantém-se esse fabuloso documento para a história portuguesa que é o "Menino Guerreiro", a que se deve somar o "discurso da incubadora" e o blogue Pedro Santana Lopes, todos dominados por uma pulsão de crise, vitimização, afirmação, obsessão narcísica, verdadeiros mostruários psicológicos e humanos de uma década que conheceu o seu autor como primeiro-ministro de Portugal. Quer o karma, quer a repulsão se percebem muito bem nestes exemplos ingénuos do efeito da espectacularização da vida pública e da sua "patologia". Nesta antologia de imagens de identidade ficarão igualmente os festivais de bandeirinhas nacionais made in China, com pagodes em vez dos castelos, que, de uma ponta a outra do país, celebraram a pátria através do futebol, que entrou para o espectáculo público como versão moderna do circo, como nunca se vira desde os tempos salazaristas. E entrou Salazar, revisto como estrela pop, também ele pelo mecanismo do espectáculo circense, ele que o percebera fora da época dizendo que "em política o que parece é"... E entrou o nosso jet set, com a sua estética própria personificada no "Conde", que mais cedo ou mais tarde chegará a um volume da Taschen, entre as quintas dos reality shows e as fotografias encenadas, sempre mais próximo de Paris Hilton do que dos comensais dos restaurantes finos de Nova Iorque de que falava Capote. Ficarão algumas escutas colocadas em papel. A voz do telefone, ou melhor, a voz do telemóvel que fala diferente da do telefone fixo, transcrita para o papel, ganha uma imediaticidade violenta, brutal. Nos processos da década, Casa Pia, Apito Dourado e outros, a transcrição das escutas em papel, permitindo-nos ler a voz que nunca pretendia ser pública, o eco da nossa própria voz apanhada em falta, humilhada, envergonhada em público, exerce um efeito de revelação poderoso. Esse efeito é ampliado pelo contraste com uma comunicação que oscila entre o pomposo nos actos públicos e o "gerido" por assessores e agências de comunicação. O efeito de veracidade das escutas incomoda e assusta como pouca coisa que hoje se possa colocar no papel. Lembra-nos o 1984. Antero Henriques (A) - Foda-se! Não dormi um caralho! Estou com uma enxaqueca, pá. Pinto da Costa (PC) - Filhos da puta.... [...] Tínhamos morto esta merda ontem [...] A - Embora eu ache que o Mourinho, no final, também se exaltou muito! PC - É, um bocado. A - É! Aquela história de dizer que o Rui Jorge morreu em campo e... PC - Ele disse aonde? A - Ele diz que disse cá em baixo, disse cá em baixo, junto a... quando estava a malta toda ali! Mas eu liguei para a 'Bola' e para o 'Jogo' a desmentir! A dizer que ele estava a dizer que era mentira! PC - Não, não! Não... não é desmentir! A gente tem é de processar o gajo que diz! [...] A - É... e em relação à camisola, também tem de se arranjar ali uma tanga, presidente! PC - Arranjar que ele foi provocar para a porta do balneário! A - É. E que o Mourinho disse que: "Esta camisola é indigna de ser trocada. Porque se a tivesse rasgado não a mandava outra vez para o balneário do Sporting." [...] É! Temos de arranjar aí uma tanga, senão saímos por baixo desta merda toda. PC - Mas já falou com o Mourinho, não? A - Não, não, não. Vou agora com ele ver o Rio Ave, agora, às quatro horas! PC - É... mas diga-lhe, é pá! Ele que não preste dec... diga-lhe só... A - Não, por isso é que vou com ele! Por isso é que vou com ele! PC - E amanhã é um processo-crime contra... A - É... PC - Esse Bettencourt e os jornais carago! A - É que esse gajo é mesmo um cobarde!Ficarão blogues, eles também não isentos das doenças infantis do nosso tempo, do engraçadismo e do radicalismo posicional juvenil, mas "arquivando" muito do Zeitgeist. Para o debate político, os blogues trouxeram novidades que marcaram o tempo, como a discussão sobre a guerra do Iraque na Coluna Infame e no Blogue de Esquerda, a abertura para o pensamento liberal, ou a estreia de um debate presidencial pela primeira vez ocorrido na Rede com produtos genuínos e não encomendados, como foram os blogues Pulo do Lobo (pró-Cavaco) e Super Mário (pró Mário Soares). Fora dos blogues, a decadência da relevância da palavra escrita continuou, o que é típico de tempos em que quem quer dizer alguma coisa vai à televisão ou dá uma entrevista. Tomar uma posição por escrito, seja um artigo, seja uma carta aberta, seja uma declaração, está em desuso. No entanto, alguns artigos ficarão na memória da década, em particular os de Cavaco Silva sobre o "monstro" e sobre a "boa e má moeda", e ficarão colunas de opinião que dão o "tom" ao nosso tempo, como é o caso da de Vasco Pulido Valente. Olhada no seu conjunto, a década triste não é brilhante nos seus produtos, nos seus ícones, mas também seria impossível que o fosse. É uma década em que se andou para trás, se perdeu alguma coisa do adquirido, se esgotaram algumas das últimas esperanças. É uma década de escapismo do fim, de gozar os últimos tostões, de aceitar o remedeio, quase de desejar o remedeio para não se voltar à pobreza. Vistas bem as coisas, nesta década, que não segue o calendário formal mas o do Zeitgeist, o futuro parece correr depressa de mais para o presente e deixar-nos para trás. Podemos sempre ir meditar para um mosteiro, dedicarmo-nos ao budismo zen, fazer como os coelhos sem fazer muitos coelhinhos, ou enfiar uma qualquer felicidade química directamente no cérebro. Até podia ser pior. (Versão do Público, 5 de Janeiro de 2008.) (url) 17.9.10
COISAS DA SÁBADO :TROPISMO PARA O ACESSÓRIO Como estamos nestes “estreitos” tenebrosos da dívida, isto deve perturbar imenso a cabeça dos nossos marinheiros, porque perdemos o Norte, o Sul e mesmo o Nascente e o Poente, os dois pontos que basta olhar para o mar de manhã e ao fim da tarde para não oferecerem dúvida onde estão. A perturbação que nos assoma, espécie de fase muito alterada de doenças dormentes, é um forte tropismo para o acessório, como se houvesse um novo ponto cardeal que sugasse a nossa navegação para uma espécie de nada, um mar dentro mar, dentro do mar. Apanhados com o provisório fim, - em Portugal todos os fins são provisórios, - de um processo crucial para perceber os últimos anos em Portugal, vulgarmente chamado de Casa Pia, em vez de olharmos para o cerne das coisas – alguém abusou sexualmente de um grupo de crianças institucionalizadas pelo estado e foi condenado por um tribunal legítimo – andamos distraídos com os azares informáticos da divulgação da sentença. É de facto muito mau, muito terceiro-mundista, todas estas peripécias da divulgação da sentença, mas não é o mais importante. Gente prudente teria pegado nos fragmentos da sentença, tirado cópias uma a uma, fotocopiado as cópias, montando um original, para dar aos advogados em papel: Mas nós quisemos ter sofisticações electrónicas na justiça, para que pelos vistos não temos nem a literacia, nem o software, nem o hardware. Agora substituir a análise do “caso” Casa Pia, quer na sua vertente judicial, quer na sua vertente social e política, pelas peripécias electrónicas da divulgação da sentença, ou é cortina de fumo deliberada, ou é este miserável tropismo para o acessório, em que somos especialistas. E lá vamos alegremente e com grande cópia de vozes para o mar, dentro mar, dentro do mar. (url) 16.2.06
LENDO / VENDO /OUVINDO(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES) (16 de Fevereiro de 2006) ___________________________ Tudo isto vai escrito em péssimas condições por causa de "mais uma corrida, mais uma viagem". Mas os tempos estão complicados e exigem escrita. (url) 9.8.04
MAU SINAL
Na economia daquilo que o Primeiro-Ministro considera necessário chamar à sua coordenação directa, não se incluíram os fogos, mas o “caso” (muito mal contado) das cassetes “roubadas” sobre o processo Casa Pia. A escolha é muito interessante, porque o Primeiro-ministro revela a sua peculiar sensibilidade a questões que envolvam “fontes”, boatos, inconfidências, polícias, magistrados e jornalistas. Mau sinal. Nada justifica que o Primeiro-Ministro se envolva directamente nesta questão. A matéria é quando muito para o Ministro da Justiça, embora, em bom rigor, deveria ser apenas com a justiça (houve um roubo ou não houve?) e não com o Governo. Envolver o Governo, a começar por cima, no processo Casa Pia, que é onde tudo vai acabar por desaguar, é um erro que Durão Barroso não cometeria. Mau sinal. (url) 21.10.03
QUEM CONSTRUIU O "SISTEMA" DA REPÚBLICA DOS JUÍZES? (Actualizado)
Houve quem, nos últimos vinte anos, em Portugal, quisesse fazer uma "República dos Juízes" à italiana, respondendo às vantagens eleitorais do populismo justiceiro. Houve quem não tivesse coragem, com receio das consequências eleitorais negativas, devidas igualmente ao populismo justiceiro, de dizer "não" à excessiva concentração de poderes num Ministério Público que não responde efectivamente perante ninguém. A combinação destes dois factores construiu o "sistema" actual. Foram políticos do PSD, PS e PCP que construíram este "sistema" por razões estritamente políticas, numa competição por agradar (ou pelo medo de desagradar) ao populismo, debaixo dos ventos italianos. Do meu partido, recordo-me da acção de dois ministros, Fernando Nogueira e Laborinho Lúcio, mas recordo-me também que, a cada momento, nas revisões constitucionais, na discussão dos principais diplomas sobre justiça, havia uma forte e agressiva pressão para uma "República dos Juízes" à portuguesa vinda do PS e do PCP. O PS e o PCP, em particular, comportavam-se como "partidos do Ministério Público". O último ministro que prosseguiu neste caminho foi António Costa. Enquanto as vítimas eram do PSD, os justiceiros estavam no Independente (com aplauso total da esquerda política, que lhes dava continuidade no parlamento), e as fugas sistemáticas eram só de um lado e sem defesa, porque ninguém tinha coragem para a fazer; nunca houve problemas com "o sistema" e, a cada caso, o clamor era para novas medidas de reforço dos poderes judiciais. Por exemplo: quanto às escutas telefónicas. É verdade que a intenção era usá-las para a criminalidade organizada, para o branqueamento de capitais, para o terrorismo, para a corrupção. Mas convém não esquecer que este processo é sobre pedofilia (sim, porque o processo de que é arguido Paulo Pedroso é de crimes pedófilos), que toda a gente bate (ou batia) com as mãos no peito considerando um "crime hediondo", e não me venham dizer que, se se perguntasse ao então ministro António Costa, se a pedofilia era excepção ao regime das escutas, ele responderia com um sonoro "nunca". Aliás, as escutas do processo Moderna, para não ir mais longe, ou do processo que envolve o deputado António Preto, também inclui escutas que foram divulgadas indevidamente. Estão esquecidos? Não ouvi protesto nenhum de Ferro Rodrigues, de António Costa , de Paulo Pedroso, etc., nem Manuel Alegre disse que a democracia estava em perigo. O "sistema" é mau, permite abusos de poder, tem escasso controlo? Com certeza. Mas já era mau antes do caso Pedroso e havia quem o dissesse, curiosamente ninguém dos que agora clamam contra ele e o ajudaram a construir. Proença de Carvalho, Mário Soares (em defesa de Leonor Beleza), e alguns outros, disseram-no. Recordo-me de muitas discussões com José Magalhães (outro dos que construiram o "sistema"), no Flashback, sobre esta matéria, e eu próprio, quando membro da CP do PSD, me pronunciei em sede própria contra a imitação italiana e os seus riscos. Escrevi também sobre isso e portanto pouco me surpreende o que hoje acontece. Dito isto, sou obviamente defensor de alterações profundas no "sistema", mas nunca, jamais,em tempo algum, antes do fim do processo Casa Pia, por razões decorrentes do modo como deve funcionar uma democracia e um estado de direito. * Escreve o Adufe sobre a nota acima: "não são os pecadilhos passados e os telhados de vidro que agora poderão justificar uma espécie de auto-diminuição dos direitos dos visados". Inteiramente de acordo. * De uma mensagem enviada por Luis Rodrigues: "Refere (...): "Dito isto, sou obviamente defensor de alterações profundas no "sistema", mas nunca, jamais, em tempo algum, antes do fim do processo Casa Pia, por razões do modo como deve funcionar uma democracia e um estado de direito". Mas já pensou nas implicações desta ideia? Esta opinião tem implícita duas enormes perversidades: 1ª- Implica o reconhecimento de que este sistema está, afinal, errado. Mas que, por razões de oportunidade de política lato sensu, e também de política judiciária, deveremos sacrificar esta "geração" de arguidos a este sistema reconhecidamente errado, dizendo-lhes: «Desculpem lá, sabemos que isto está errado, mas não é agora oportuno mudar todo o sistema; mal o vosso caso esteja resolvido, mudá-lo-emos, de modo que a próxima "geração" de arguidos seja já abrangida por um sistema reformado e melhor... Quanto a vocês, aguentem lá "isto" por agora...». 2ª- A segunda perversidade, é que a ideia de que não se deve mudar agora o sistema, porque não se deve "legislar a quente" esquece que se a ocasião é "quente" para estes arguidos, amanhã será igualmente quente (quem sabe mais ainda) para outros arguidos, e assim sucessivamente... Nunca se mudará, portanto...? Ou já poderá mudar-se a quente para a próxima....? " * Paulo Cardoso coloca-me a seguinte questão : "O problema (...) é, como diz Vital Moreira, "a publicação das conversas telefónicas de dirigentes do PS gravadas no âmbito do caso Paulo Pedroso não constitui somente uma flagrante violação do segredo de justiça, mas também do sigilo das comunicações pessoais. Definitivamente há direitos fundamentais em perigo entre nós. O que causa a maior inquietação é que estas conversas entre pessoas alheias ao processo e manifestamente irrelevantes para a descoberta da verdade no mesmo tenham podido ser gravadas e transcritas para o processo e, agora, tenham sido disponibilizadas "oportunamente" para a comunicação social (toda a gente suspeita como...). Tratando-se de dirigentes políticos, o caso torna-se especialmente grave. O procurador-geral da República não pode manter-se alheio ao escândalo, sob pena de ter de ser responsabilizado por ele" Imagine que o MP, para investigar os casos de António Preto ou Cruz Silva, decide mandar escutar o telefone do Dr. Pacheco Pereira, só porque é um opinion maker que critica a instituição de uma Republica de Juizes e é militante no partido desses senhores investigados. O problema é, como dizia Brecht, "ele nunca se preocupou, mesmo quando foram buscar o vizinho, mas um dia bateram-lhe à porta" (url) 24.5.03
CASO CASA PIA
A bomba inteligente e a Piolheira pedem-me uma opinião sobre o caso das investigações da pedofilia . Há várias razões porque penso que neste caso nada de útil poderia dizer no blog , nem este me parece a forma apropriada para uma opinião que teria que ter mais solidez do que as “impressões” , para acrescentar alguma coisa . Porque “impressões” é o que há por todo o lado . Depois há outras razões . Primeiro porque falei sobre essa matéria em devido tempo – quando do lançamento do meu livro Vai Pensamento coincidindo com a primeira semana do escândalo - e , com toda a franqueza , não penso que valha a pena acrescentar algo mais . Quando disse o que disse ainda praticamente ninguém se tinha pronunciado a não ser para repetir os apelos ao sangue e já se percebia muito bem onde isto iria dar . Nada do que aconteceu a seguir me surpreendeu , nem quanto ao caso em si mesmo , nem quanto ao comportamento dos media e dos políticos . Uma nota breve : nessa mesma noite a Felícia Cabrita respondeu-me da solidão da sua cadeira na SIC , com as imprecações do costume . Nem ouvi . Segundo , sobre a pedofilia propriamente dita e sobre o caso belga já escrevera antes do caso Casa Pia , sobre a selvajaria do modo como mediaticamente se transforma tudo isto num espectáculo , também . Terceiro , salvo raríssimas excepções , quando há situações destas , combinando negligência criminosa , crimes de poderosos , vozearia justiceira nos media , moralismo a rodos , cabalas , perseguições e conspirações , a avalanche de palavras é tal , que me apetece é estar calado . Quarto , se pensam que isto é um grande abalo nas instituições do país , enganam-se . No que elas se podem abalar , já estão abaladas . Isto passará porque o excesso de comoção é artificial , no fundo ninguém quer verdadeiramente saber do que é relevante , mas apenas da poeira . Há mais voyeurismo do que genuína preocupação . Por último , se houver alguém interessado em ouvir uma actualização da discussão sobre o caso Pedroso e escutas ao PS , amanhã no Flashback da TSF a questão é discutida e penso que o programa ficou bom . (url) 7.1.15
CARTAS PORTUGUESAS A LUDWIG PAN, GEÓLOGO E AGRIMENSOR NA AUSTRÁLIA
(As duas primeiras aqui, a terceira aqui, a quarta aqui, a quinta aqui, a sexta aqui., a sétima aqui.
Devíamos fazer tréguas no Natal, eu desta constante guerra civil e tu dessa procura da paz pela expiação do pecado alemão de não ter culpa? Eu sei a resposta: não. Eu fiquei missionário da justiça, azorrague dos poderosos, voz dos insatisfeitos, irritação dos contentes, trombeta da moral pública, enfim uma maçada. E tu lá vais voltar para o lado de baixo do mundo a ver se, procurando ouro, consegues ser menos Siegfried e mais aborígene, o que é definitivamente impossível. Uma vez mergulhado no sangue do dragão fica-se assim. Bem sei que, como Aquiles, também tens um soft spot, onde uma folha colada ao corpo te impediu de ser totalmente coberto pelo líquido todo-poderoso do dragão, Mas isso abafa-se com schnapps.
Aqui estamos nós a fazer o que não queremos pela civilização, eu procurando um homem justo, medianamente justo, apenas um pouco de justo, talvez só não injusto e tu, virando mundo ao contrário a comer raízes. C’est la décadence mon cher. Por falar nisso já sabes que nos prometem que 2015 vai ser o ano do retorno, do optimismo, do crescimento, dos maiores rendimentos, do sair do fundo do túnel, da glória das exportações, do fim dos privilégios, dos poderosos e das injustiças. Sim, é como no Harry Potter, há por cá mágicos a mais, todos a mexer nas suas vibrantes varinhas e a transformar chumbo em ouro. Agora chamam-se agências de comunicação, ou de marketing político. Devias contratar um deles a ver se te ajudava nessa procura australiana do pó dourado, mas corrias o risco de quando a valiosa carga chegasse à Alemanha estivesse feita em areia fina.
Mas a minha verdadeira gargalhada vai para o novo mundo em que o nosso mamífero lagomorfo da família dos leporídeos nos diz que acabaram as mordomias, os privilégios, os favores, os poderosos e as injustiças, apenas porque os Espírito Santo caíram do seu pedestal para o vilipêndio do público. Foram muito empurrados por eles próprios, pela inépcia do Banco de Portugal e pelos ziguezagues governamentais, umas vezes pretendendo ser salvíficos, outras vezes hostis, até porque Ricardo Salgado colou-se demais ao engenheiro que está preso e o "bom" Espírito Santo chamava-se Ricciardi e é "amigo" de Relvas e do primeiro-ministro. Tenho sempre as maiores das dúvidas sobre estas "amizades".
Como é? Eram amigos de escola, Relvas e Passos naquelas universidades com cursos instantâneos e o "bom" José Maria saído da casa, onde brincava com o primo, para estudar "Sciences Economiques Appliquées", pelo Instituto de Administração e Gestão da Faculdade de Ciências Económicas, Políticas e Sociais, da Universidade Católica de Lovaina? Então o homem vem de estudar com os jesuítas na Bélgica e fraterniza com um pequeno mação do PSD?
Hum… Ajudaram-no a fazer a tese La Banque et la Prise de Décision d’Octroi de Crédits d’Investissement, ou foi pelo contrário o nobre banqueiro a ajudá-los a fazer os trabalhinhos de casa para a Lusófona? Frequentavam a casa uns dos outros, jogavam ténis, tinham os mesmos alfaiates, as mulheres iam às compras juntas? Investiam em conjunto comparando portfólios da Bolsa e trocando dicas sobre acções, "olha compra aquelas" e não estas, eram "empreendedores" nalguma empresa que fosse deles e não dos seus patrões? Ou pura e simplesmente nalguma esquina do poder, nalgum encontro da imprensa económica, nalgum jantar daqueles que os seus protectores angélicos organizam para os socializar e os apresentar "às pessoas certas", gostaram-se de uma amizade inquebrantável e à primeira vista? Mistérios, tão insondáveis como os divinos, não houvesse mão do Espírito Santo em todas as coisas mundanas.
O pior foram as escutas telefónicas, meu bom Pan, porque em Portugal toda a gente é escutada, tão grande é a endogamia caseira e tão frágil a investigação sem as ditas. O paroxismo foi durante o caso Casa Pia, sabes, aquela "cabala" contra o PS, que motivou as mais lamentáveis cenas no nosso parlamento? Também aí havia um responsável pela investigação que tinha a tese da pesca de arrasto e queria cruzar as chamadas feitas por todos os portugueses para ver se havia padrões com os telefonemas dos pedófilos, os verdadeiros e os imaginados. Sim, o mesmo que colocou o cardeal patriarca numa fila fotográfica de identificação.
Por falar disso, na Alemanha da chanceler também estão sempre a cair os telefones? Também fazem ruídos estranhos, também têm aqueles hiatos comprometedores? Ou já acabou a Stasi? Ou integraram os "técnicos" da outra Alemanha nos serviços federais onde eles se encontraram com os agentes que controlavam ao serviço de "Karla" numa grande festa democrática?
Bem, presumo que na tua longínqua Austrália não deve haver escutas em terras aborígenes. Who cares? Nem o telefone funciona, e as línguas locais são difíceis. Dá notícias da tua chegada, pelo velho processo das cartas, porque a probabilidade de já não haver ninguém a abri-las é grande. Com tanto telefonema, SMS, email, Skype, WhatsApp, nem o mais rico dos serviços ainda tem gente para descolar cartas a vapor e colá-las de novo. Além disso, podemos sempre comunicar como a Al-Qaeda no Afeganistão, mando-te um homem de burro com uma mensagem e um drone atrás. Recebes a carta e um míssil, e isso é que é comunicar!
Bom regresso! (url) 4.11.07
A PRIVACIDADE E O USO DOS SENTIMENTOS NA PROPAGANDA POLÍTICA A rápida erosão da privacidade é uma das consequências mais evidentes do ascenso da demagogia, da massificação das sociedades contemporâneas no consumo de bens culturais, da utilização perversa de novas tecnologias para disseminar boatos e calúnias, controlar, espiar e "revelar", culminando tudo isto numa vida pública dominada pelo espectáculo e pelo sentimento, corroendo a democracia por dentro. É verdade que, nesta matéria, como em muitas outras, há uma história social que nem sempre vemos com clareza. De facto, os mais pobres nunca valorizaram a privacidade porque nunca a tiveram. Vivendo em condições de promiscuidade num mundo da "aldeia", ou atirados para as "ilhas", para as "vilas" e depois para as várias versões dos HLM franceses, dos bairros sociais, dos subúrbios, a parte de "baixo" da sociedade não tinha "espaço" para essas delícias da riqueza que era ter quartos individuais. O luxo e o dinheiro protegiam, como ainda protegem, a privacidade limitando o "acesso", mas nem por isso se pode considerar a privacidade como um privilégio dos de "cima". A privacidade é, no seu melhor sentido, um dos adquiridos do mundo burguês, da casa, do espaço familiar ou reservado, da liberdade de mostrar ou esconder o que nos parece ser a última propriedade: o mundo próprio do ser. Nasceu, como muito do que consideramos adquirido nos nossos direitos, liberdades e garantias, do mundo dos quadros de Vermeer, da revolução vinda do capitalismo mercantil da Holanda da Idade do Ouro. Como não estou disposto a abdicar desse espírito humanista no melhor sentido da palavra, não abdico do ter nem do ser privado, em favor de uma nova forma demagógica do colectivismo voyeurista das multidões.Não é fácil, pelo modo como as coisas caminham em Portugal, seguindo, aliás, as passadas de outros países, a que se soma a habitual mediocridade do nosso meio. Hoje temos uma vida pública que se alimenta a si própria com uma "comida" sentimental e emotiva banalizada, com um discurso superficial sobre tudo, com um ataque à razão a favor da pieguice televisiva, excitada em telejornais de crimes, doenças, acidentes e "casos", caso da "pequena Maddie", caso Esmeralda, caso Casa Pia, casos de pedofilia, importantes e irrelevantes, misturados num mesmo tipo de narrativa excitada nos directos. Neste mundo, o mais pequeno pretexto serve para deixar de haver esfera íntima e privada, seja para um antigo inspector da PJ vir falar da vida sexual dos McCann, seja para uma multidão dos novos interpretadores dos sentimentos, psiquiatras, psicólogos, pedopsiquiatras e pedopsicólogos, a nova fauna comunicacional, nos explicarem as almas perdidas nos seus estados perturbados, seja do "pai do coração" versus o "pai biológico", seja na mãe matadora de um qualquer "bebé", arrastada para gaúdio de outras mulheres ululantes a gritar "assassina!", nuns pobres jeans coçados e numas algemas, seja na súbita aparição pública do novo fantasma do susto colectivo, o pedófilo que, vindo da Rede negra e obscura dos chats ou da escola e da sacristia, se prepara para assaltar o único símbolo que resta da inocência do mundo, as crianças. Este caminho é cada vez mais trilhado, está-se a tornar normal este assalto à intimidade e à privacidade. Já disse isto várias vezes, repito-me certamente, convicto de que é um protesto ineficaz nos seus resultados. E o pior ainda está para vir, porque, no plano mais vasto da educação cívica, estamos a gerar uma juventude que cada vez menos preza a privacidade e a intimidade. Os milhares de jovens que se expõem na Rede, nos blogues, nos sítios "sociais", que usam o telemóvel como instrumento de controlo, que aceitam com absoluta normalidade que este tenha uma câmara de vídeo, ou um localizador de GPS que permita a outrem saber sempre onde se está, crescem sem prezar o seu espaço íntimo e privado. O mundo em que vão viver é povoado por câmaras de vigilância, escutas, controlos electrónicos de identidade, redes de informação que vão do cartão de crédito à Via Verde, e isso parece-lhes absolutamente normal. Juntam-se assim ao povo que espreita a saída dos presos nos tribunais e que acha que só se preocupa com a privacidade quem tem coisas para esconder. A ideologia deste voyeurismo tem nas revistas cor-de-rosa a sua melhor expressão, embora na Rede também já haja sinais muito preocupantes das mesmas tendências. "Assumir" é uma das palavras-chave da nova promiscuidade pública. Nos seus raros textos editoriais, as revistas cor-de-rosa e os seus cronistas apelam a "assumir" namoros, traições, noivados, fugas, gravidezes, apetites, orientações sexuais, parceiros e outras "assunções" que servem de alimento a essas publicações. Verdade seja dita que, mais do que a "assunção" pública de qualquer destas coisas, com a consequente perda de mistério e segredo, logo de valor cor-de-rosa, o que essas revistas desejam é "assumir" o papel castigador de serem elas, em fotos indiscretas tiradas às escondidas ou em colunas "sociais" escritas numa linguagem só aparentemente críptica, a "revelar" aquilo que ou não se revela porque se deseja privado, ou porque não se deseja público. A privacidade e a sua defesa tornam-se assim uma fraqueza moral, um vício secreto que se esconde, que não se "assume".Cada vez mais essas revistas, alguns programas televisivos e locais na Rede começam a receber uma atenção já mais profissionalizada, que usa o voyeurismo público e a erosão da privacidade para intervir no mercado demagógico dos sentimentos, com objectivos quer de manipulação da opinião pública, quer de promoção social e política de personalidades, de contenção de danos, ou, menos visivelmente, para conduzir campanhas hostis contra adversários. Uma das características deste novo espaço demagógico e sentimental é a sua fácil utilização e manipulação por profissionais que o conhecem bem, com as suas regras e tendências, como é o caso da nova geração de agências de comunicação. Onde antes havia uma "assunção" pública forçada ou meio forçada pelos paparazzi que habitam o aeroporto de Lisboa ou o espaço entre o Camões e a Rua do Carmo, ou alguns locais mais in da cidade, agora existe uma "assunção" desejada, estimulada e controlada por agências de comunicação. O caso mais recente é a utilização da vida privada por Luís Filipe Menezes, de que resultou capas em todas as revistas do "coração", entrevistas, declarações e fotos, não só consentidas como encenadas, com a curiosidade de se perceber a mão da agência de comunicação, aliás admitida publicamente, na similitude da encenação e das "mensagens" do produto final. Já não é a exposição pública desejada e consentida por quem gosta de viver no mundo cor-de-rosa da Caras, da Nova Gente, da Flash, etc., etc., e a quem essa exposição é agradável e socialmente desejada, mas de quem hoje utiliza a vida privada como instrumento de acção política, como mecanismo de envio de mensagens e imagens que se destinam a obter dividendos políticos no crucial mercado do sentimento demagógico. É sempre um caminho arriscado a prazo, como Santana Lopes ou Manuel Maria Carrilho perceberam à sua custa, porque costuma dar para o torto, pela própria natureza da exposição pública e da sua procura de transgressão como valorizador da notícia. Mas, entretanto, vai dando frutos. Existe outro problema, que transcende a vontade de cada um jogar este jogo arriscado, e que é que, por cada político ou "figura pública" que se expõe, diminui o espaço de privacidade dos que não o desejam fazer, abrindo-se caminho para a impunidade voyeurista cor-de-rosa. A erosão da esfera íntima que deveria ser intocável mesmo nas chamadas "figuras públicas", e da esfera privada, mesmo com alguma perda de "espaço" nas "figuras públicas", é um mau caminho para uma sociedade que preze liberdades e direitos. (No Público de 3 de Novembro de 2007) *
Etiquetas: privacidade (url) 20.5.08
NUM BLOGUE PERTO DE SI, NUMA GALÁXIA MUITO LONGE NESTES DIAS, COISAS RARAS E VARIADAS Mérito dos seus grandes leitores que, esses sim, o tornam único. Alguma vez imaginei que existisse uma Sociedade Tristeza Marechal Carmona e Alegria General Craveiro Lopes? Existe e com foto por cá. Obrigado a Pedro Valadares e José Ferreira Fernandes. E que em Cabo Verde os eleitores foram às urnas com a informação da mesa por SMS? Obrigado a Sérgio Alves. E aos que participaram numa muito interessante discussão sobre o lockdown, o reverso da irrelevância, pela importância da questão e com esta certeira série de perguntas sem resposta, a que ninguém liga pela ofuscação futebolística, esquecidas na espuma do dia a dia? Obrigado PL. O que aconteceu à Independente, o que aconteceu ao caso BragaParques e ao caso EPUL, aos submarinos e helicópteros e veículos anfíbios comprados com defeito? Já há medidas de resultados do Túnel do Marquês? Já há decisões quanto aos radares de Lisboa? Onde anda o novo Ministro da Cultura? Já foram encontrados os assassinos da rapariga de Sacavém e do rapaz do Oeiras Parque? O que é que se passa com a famosa promessa do PM sobre a Ass. Nacional de Farmácias? O que é que se passou com aquelas 4 ou 5 fábricas que fecharam e que o Ministro da Economia prometeu ajudar, recolocando as pessoas em outras fábricas? Como é que andam os aumentos da electricidade? Como é que anda a interminável investigação sobre as práticas da concorrência entre gasolineiras? Como é que anda o Choque Tecnológico? Como é que anda a decorrer aquele plano de oferecer computadores aos miúdos do Secundário? Como é que anda aquele programa ridículo de dar formação de matemática a professores de matemática (!)? Afinal que indemnizações é que se vai dar (vamos todos dar, aparentemente) aos autarcas da zona da Ota? Onde andam as indemnizações aos agricultores que viram as colheitas destruídas por fenómenos atmosféricos anormais? Como anda o processo de Isaltino Morais? Como andam os inquéritos ao estado das pontes? Ao estado da linha ferroviária do Norte? O que se vai passar com o Tua? O que vai acontecer à casa do Douro? Onde andam as novas armas da PSP? Quem paga os coletes à prova de bala da PSP? Como andam os processos aos gangues do Porto? Como anda o inquérito ao antigo presidente da Câmara do Porto e à permuta de terrenos com o FCP? Como andam as investigações ao mesmo tipo de permutas no caso do Sporting? O que aconteceu a José Rodrigues dos Santos e às acusações que ele fez à direcção da RTP? O que aconteceu aos moradores do prédio que explodiu em Setúbal? O que aconteceu às pessoas afectadas em Setúbal, em Loures, em Odivelas, pelas cheias súbitas? Onde anda o director da Protecção Civil de Loures? Carrilho vai para a Unesco ou não? Portugal reconhece o Kosovo ou não? Fomos plataforma de passagem para aviões da CIA ou não? Quais as responsabilidades de Santana Lopes e de João Soares no estado calamitoso da CML? O que se passa afinal no Afeganistão? O que se passa na Casa Pia? O que se passa em Felgueiras? O que se passa com os consulados portugueses? O que se passa com as negociações entre Portugal e a Venezuela? O que se passa com a coincineração? Como é que andam as respostas às emergências médicas em Alijó? Como é que anda a nossa capacidade de resposta à Gripe das Aves? Como é que anda a investigação ao edifício do Casino Lisboa ? Estão resolvidas todas as nuances da lei do tabaco? (url) 18.5.06
LENDO / VENDO /OUVINDO (BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES) (18 de Maio de 2006) ![]() ![]() ![]() __________________________ Com pés para andar: as "micro-causas", uma invenção cá da casa, tem no Miniscente uma primeira análise substantiva. And now for something completely different: O QUE É QUE ACONTECEU AO INQUÉRITO "URGENTE" PARA SABER COMO É QUE LISTAS DE TELEFONES E TELEFONEMAS DE ALTAS INDIVIDUALIDADES DO ESTADO FORAM PARAR AO "ENVELOPE 9" DO PROCESSO CASA PIA? (url) 19.8.09
Não sei se isto se pode dizer como se dizia do “socialismo real”: o “real” é muito mau, mas o socialismo é bom. Ou seja, os blogues são uma boa coisa, a blogosfera (política) está muito má. Má, intriguista, mesquinha, superficial, amiguista e revanchista, muito longe do país, que desconhece, muito longe da vida, que não vive, dominada por preocupações de carreira e sucesso, cheia dos vícios que tinha e tem o jornalismo, mais os das jotas. As excepções confirmam a regra, as vozes sensatas e limpas, sejam lá de que posição forem, de direita ou de esquerda, socialistas ou social-democratas, comunistas ou bloquistas, são cada vez menos, num ambiente dominado pela intriga e pela intriga intra-partidária. Hoje fazem-se blogues destinados a “colocar” pessoas sob a atenção dos partidos, e para “gerir carreiras” em base tribal, uma especialidade das jotas que antes era feita de forma mais rudimentar. Numa frase: os vícios das redacções e das jotas partidárias emigraram para os blogues políticos com imenso furor... (url) 29.1.09
AS NOVIDADES: "CAMPANHAS NEGRAS" E "PODERES OCULTOS" Temos agora as "campanhas negras" e os "poderes ocultos". Se o Primeiro-ministro conhecesse melhor o seu país, ele, que tem acesso aos serviços de informações, perceberia que não existe em Portugal nem capacidades, nem vontades, nem know how, nem executores capazes, sem falarem de mais, sem tropeçarem nos seus pés, sem se enganarem nas deixas, de serem decentes e eficazes "poderes ocultos". A "cabala" contra o PS no caso Casa Pia? Ainda está muito por esclarecer, mas se houve cabala, houve também contra-cabala. Troca-se, como nos cromos imaginários, a queda de Ferro Rodrigues (cabala contra o PS) pela libertação de Pedroso (protecção da Maçonaria). Aquilo de que José Sócrates foi vítima em 2005? Houve de facto uma "campanhazinha negra", com origem nuns imbecis do meu partido e do PP, a brincar às coisas sérias. Mas foi também uma obra de amadores tão grosseira que tinha todos os rabos de palha de fora e foi denunciada por muito boa gente do PSD na altura. Partidos a fazerem "campanhas negras" mais profissionais só conheci na história da democracia o PS e o PCP, mas mesmo assim na sua dimensão caseira. E depois quem é que lhe quer tanto mal? Só se forem os professores, e não estou a ver um comité secreto na FENPROF a pedir aos polícias ingleses trabalhistas umas peças de desinformação. Na verdade, todos os que têm poderes, dinheiro, meios para poderem fazer "campanhas negras" a sério, gostam de si. E se eu agora me pusesse a dizer que havia uma "campanha branca" de "poderes ocultos" na justiça portuguesa para o proteger das suspeitas inglesas? Não concordava pois não? É o que dão as cabalas. Não, senhor Primeiro-ministro, pode haver mais uns amadores a usarem o que vem nos jornais, mas verdadeiramente o que está em cima da mesa é algo de muito mais grave e nada "oculto". E isso é que é preciso esclarecer, sem vitimização, até porque as pessoas genuinamente indignadas não seguem "estratégias de indignação" profissionais, nem de marketing. (url) 30.1.09
Como no caso Casa Pia há pessoas de primeira e de segunda. Sobre o "Bibi" tudo se podia dizer sem medo de consequências, a começar por tratá-lo com essa alcunha depreciativa. No caso Freeport também há pessoas de primeira e de segunda. Sobre as de primeira nem pensar se pode, e falar muito menos. É toda uma chuva de precauções, cuidados, obséquios, declarações prévias, etc. Sobre, por exemplo, o senhor Charles, o tio e o primo de José Sócrates, já tudo se pode dizer sem qualquer arrepio da língua. É assim que se fazem as coisas. (url) 1.6.08
CONCHAS, PEDRINHAS, PEDACINHOS DE OSSOS Ler jornais é uma actividade especialmente frutífera se for feita segundo as regras da entomologia, a ciência que estuda os insectos. Ou dito de outra maneira, fazendo uma colecção de coisas pequenas que existem no meio da superfície das grandes. Como dizia o nosso bom chinês Camilo Pessanha: Seixinhos da mais alva porcelana,Porque, enterrados no espaço das enormes trivialidades, no lençol da vacuidade reinante, lá estão as coisas para ficar, aquelas com que se aprende sempre, os sinais do que muda ou não muda. Eu faço uma colheita todos os dias, com uma rede muito fininha, para apanhar os "pedacinhos de ossos", o que me leva a usar a maior quantidade de diminutivos que me lembre de usar em meia dúzia de frases. Mas é de facto um trabalho de pinça, lupa e atenção, parecido com o que os velhos filatelistas fazem para medir denteados, observar filigranas, ou encontrar a marca secreta na filatelia chinesa que distingue o selo raro do vulgar. China duas vezes, hum... é para desconfiar que isto é feito para tempos muito lentos, muito lentos mesmo. Aqui vão alguns dos "dentinhos que o vaivém desengastara", cada um na sua caixinha da classificação: MUDAR CUSTA MUITO: corticeiros e conserveiros deram o seu contingente de bons anarquistas e sindicalistas revolucionários na I República. Mas para além da revolução queriam duas coisas: closed shop, ou seja, o controlo pelos sindicatos do acesso ao trabalho, e que os homens ganhassem mais do que as mulheres. Suspeitavam, como cem anos de vida laboral vieram a confirmar para muitas profissões, que o acesso das mulheres ao seu mercado de trabalho significasse menores salários e degradação da posição "social" da sua profissão. Cem anos depois, no Portugal de 2008, finalmente se anuncia, com adiamento para mais oito anos, para 2015, o fim das desigualdades salariais entre homens e mulheres corticeiras. O QUE ESTÁ A MUDAR: cada vez mais a nossa natalidade é salva pelos emigrantes. Em 2007, quase dez mil crianças portuguesas são pretinhas, amarelas, louras, têm os olhos em bico, e nasceram a ouvir crioulo, russo, romeno, moldavo, chinês, e a serem recebidas com diferentes rezas, mezinhas, altares, igrejas e mesquitas. Sejam bem-vindas a este nosso Cafarnaum ocidental que cada vez mais depende delas para não encolher. 2007 foi também o primeiro ano de saldo negativo entre a natalidade e a mortalidade desde que a pneumónica matou dezenas de milhares de portugueses em 1918. EFEMÉRIDES PARA NÃO COMEMORAR: 1918 é um ano pouco propício para se lembrar porque não só por cá passou a pneumónica, levou o nosso Amadeo de Souza-Cardoso entre outros, mas também porque foi o ano da greve geral, da carestia de vida, dos assaltos às mercearias e do início do nosso peculiar "bolchevismo". Tanta coisa parecida com 2008. Esquece. UMA ESTREIA: uma bola de futebol entrou no Processo Casa Pia pela mão de Carlos Cruz e foi mandada examinar pelo "advogado de Bibi", assim é designado o ilustre causídico que defende o sr. Carlos Silvino. Já só faltava aparecer uma bola no tribunal e ir parar ao laboratório científico da PJ, deve aliás ter graça a análise. Como a cabeça dos portugueses tem sido nos últimos tempos substituída por uma bola, convém ter muito cuidado em "escalpelizar" a dita bola, não vá ela vir de um telespectador da RTP. JÁ NÃO HÁ RESPEITO: o "capitão de Abril" Vasco Lourenço parece que esteve para entrar em vias de facto com o distinto sportinguista Dias Ferreira por este lhe ter dito que a "que aquilo [uma assembleia do clube] não era uma assembleia do MFA e que não lhe dava lições de democracia." Um sócio que estava perto descreveu a resposta épica do "capitão de Abril", que "caminhou entre as poucas cadeiras que o separavam do conhecido causídico, que meio pavilhão temeu que tão ilustres sportinguistas chegassem a vias de facto". Mas não, ficou-se "pelo gesto forte e a palavra dura" e depois saiu da sala. Já não há respeito pelo 25 de Abril. Classificar em "sinais preocupantes" e enviar ao senhor Presidente da República para celebrações futuras. AS TRADIÇÕES AINDA SÃO O QUE ERAM: Luís Fazenda é um deputado do BE subestimado face ao fogo calvinista - onde é que já ouvi isto? -, que arde sempre na palavra de Louçã. Savonarola talvez ficasse melhor do que Calvino, mas fica para outra ocasião. Fazenda vem da UDP, é mais clássico, mais sólido e mais fino. Veja-se a boa resposta que deu a Alberto Martins, que, sem imaginação e fora do contexto, lhe atirou com uns "uivos", sem evitar, numa de estereótipo antifascista, citar o Aquilino, fora aliás do contexto. Disse Fazenda com saber e elegância: "Numa concepção ontológica, animal é todo aquele que tem animação, e nesse sentido o senhor deputado é tão animal como nós." Tiro no porta-aviões. NOVAS PROFISSÕES: eu, se fosse consultor de profissões com emprego absolutamente certo, não teria dificuldade em aconselhar os pais e mães dos meninos sobre as escolhas mais seguras. Por exemplo, aprender maltês, uma língua oficial da União Europeia, com um deficit aflitivo de tradutores credenciados. Mas há mais, contrariando quem se queixa que o Governo não ajuda ao emprego. Ajuda, ajuda, por exemplo, sendo-se "consultor de segurança alimentar", um bom exemplo de um novo tipo de empresas que proliferam à custa da ASAE. As que já existem pretendem, como os nossos corticeiros e conserveiros do início do século, que o Estado lhes garanta uma espécie de closed shop. Querem leis que regulamentem o exercício da profissão: "Estamos num mercado em que qualquer empresa pode exercer esta actividade, não precisa de ter condições especiais", afirmou o presidente da Associação Nacional das Empresas de Segurança Alimentar (ANESA). Querem as "condições especiais" para impedir que "os laboratórios, empresas de higiene e segurança no trabalho, de produtos, empresas de comercialização de produtos alimentares" entrem no sector. O mercado parece lucrativo à custa do medo da ASAE. Uma senhora coordenadora da Associação de Produtores dos Suínos de Raça Bísara queixava-se de que lhes pedem 500 euros para fazer "um plano de segurança alimentar" e que tanto lhes faz que os produtores dos "Suínos de Raça Bísara" sejam grandes ou pequenos, o preço é sempre o mesmo. QUOTIDIANO: em Odivelas, um russo e dois ucranianos mandaram um taxista seguir para o metro do Senhor Roubado. Quando passavam pelo Vale do Forno, atacaram-no com gás pimenta para o roubar. O taxista teve sorte, escapou com vida, e conseguiu dar o alarme a tempo. A PSP fez tudo certo e apanhou primeiro dois dos homens e depois o terceiro, à sapatada porque resistiu. Estou a vê-los a todos, os eslavos com o seu treino militar, ou mafioso-militar, correndo rápidos, T-shirt, calças de ganga e sapatilhas, pelas ruas de Odivelas, com a nossa nova geração de polícias, imaginando-se numa cena típica dos Cops, atrás. E não é nada mau que seja assim, a ecologia do crime é cada vez mais parecida. Se alguém, há vinte anos, dissesse que em Odivelas a guerra fria entre o Leste e o Ocidente iria passar pelas suas ruas-dormitório, ninguém acreditava. * E podia continuar, dia a dia, jornal a jornal, a ver o que muda, e o que nada muda. Move-se? Claro que se move, mas não é onde nós queremos que se mova. Fica lá de pedra e cal? Fica, mas fica onde nós queríamos que mudasse. Não há nada como os coleccionadores para ouvirem o ruído do mundo, ordenado nas suas caixinhas chinesas... (Versão do Público de 31 de Maio de 2008.) (url)
© José Pacheco Pereira
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