ABRUPTO

17.8.14


CARTAS PORTUGUESAS A LUDWIG PAN, GEÓLOGO E AGRIMENSOR NA AUSTRÁLIA

(As duas primeiras aqui, a terceira aquia quarta aqui, a quinta aqui.)


Caro Pan, portador do maior nome que conheço, onde cabe tudo

Foste mordido pelas formigas dos antípodas porque lhes perturbaste um carreiro? Deixa lá, aqui estamos cheios de formigueiros e de formigas, só que tem outro nome. Mas que mordem, mordem.

O meu país está doente e, como me custa dizer-te isto, meu bom Ludwig, que procuras boas novas como o ouro que te escapa nesses rios secos de Queensland. Quem é que vai para uma terra chamada de Sturt Stony Desert? Eu conheço a resposta clássica: cães malucos e ingleses, mad dogs and englishmen. Mas tu és alemão, gostas da prussiana ordem durante meia semana e de nevoeiro místico levantando-se das florestas na outra metade. Não foste fadado para esses desertos, não ser pelo “trabalho”, pela “obrigação”, pela “disciplina”. Deixa lá mesmo assim, derretendo no deserto a revirar pedras, estás melhor do que eu.

O meu país está doente. O que se fez no meu país foi uma guerra moral aos de baixo, aos mais fracos e que não tem defesa, aos que são velhos e não tem mais saída, aos que tinham pouco e aos que ainda tinham alguma coisa, tratando-os de ricos, e essa guerra moral passou por lhes incutir uma culpa que não tinham e assim impedi-los de responder ao ataque que lhes foi feito. Esta guerra moral teve sucesso, até porque as pessoas nesta era de psicologismo, absorvem culpa como uma esponja. São culpados pelos desmandos dos filhos, são culpados por não terem emprego, são culpados por serem velhos, são culpados por terem casado com “aquela” pessoa, são culpados por se terem divorciado, são culpados porque tem pouco dinheiro e, num país de “sucesso”, isso é uma fraqueza, são culpados por “viverem acima das suas posses”. 

Atiram-lhes culpa misturada com o cola-tudo da crise, e ao mesmo tempo dão-lhes uma gigantesca martelada na vida para ficarem meio tontos, sem perceberem o que lhes aconteceu. Mudam-lhes a vida para muito pior, de um mês para o outro, de repente, sem aviso, recebiam 1000 e passam a receber 700, recebiam 700 passam a receber 650, tinham um apoio para comprar óculos, para estudar, para viver, para comprar medicamentos, para descansarem na velhice, e tudo acaba. Confiança, não dizem eles. A confiança acabou com a crise.

Os cínicos que nos governam, amorais até á sua essência, que aprendem nas carreiras partidárias uma espécie de realpolitik de bar da moda, acham que dizer isto é miserabilismo. Têm uma aptidão natural, e uma ainda maior desfaçatez, em encontrar nos outros, os bodes expiatórios que justifiquem a sua peculiar mistura de ignorância do país, incompetência e ideologia colada a cuspo, ressentimento e subserviência com os poderosos, capacidade de engolirem tudo, aquilo a que os portugueses chamam falta de vergonha.

Meu bom germano Ludwig, já foi o tempo em que nós mediterrâneos de proximidade, tínhamos como nossa a dicotomia da honra e da vergonha. Vergonha? O que é isso. Já para não falar da honra. 

A ironia disto tudo é que sobrepor a moral à hierarquia social deu muito torto. Para acusar os de baixo de se portarem mal com o seu “consumismo” de plasmas e sofás, era suposto os de cima, os modelos da livre “economia”, darem o exemplo. Ora, os ricos não deram o exemplo, os convidados de honra dos seminários pagos a peso de ouro da imprensa económica, os modelos intangíveis de muitos blogues que passam por ser liberais e que se babavam com as virtudes do “velho dinheiro”, aqueles que defenderam com unhas e dentes a senhora que “brincava aos pobrezinhos” na Comporta, esses vêem agora a “reputada” família Espírito Santo, modelo do empreendorismo, do “velho dinheiro”, que andava de braço dado com o Dr. Salazar e os reis caídos de Cascais, tratada como criminosa. E também vão lá deitar a sua pedra, porque é de sua natureza bater nos que estão caídos. 

No outro dia, um jornalista dizia na televisão que a prisão de Ricardo Salgado por um dia mostrava como o país estava a “mudar”. A palavrinha “mudar” é mágica, tanto mais que acaba por deixar sempre uma impressão positiva. Ele queria dizer que o “antigo regime”, o Portugal de antes de 2011, o “regime”, o “sistema”, o “poder corporativo”, estava a desaparecer por uma qualquer destruição criadora. É uma linguagem muito comum nos blogues, no Twitter e no Facebook pró-governamental. É um linguagem de que o poder gosta, porque legitima a “crise”, traz virtudes á “crise”, torna-a num instrumento daquela mesma guerra moral que tão importante foi para tornar impotente o protesto. 

Engano. Não mudamos nada. Estamos é mais pobres, e por isso, num sentido perverso mais iguais, mesmo quando mais desiguais. Estamos cada vez mais iguais no sentido em que os de cima já não tem o pedestal da reputação, do “velho dinheiro”, do bom nome “familiar”, e os que estão a subir para o mesmo lugar hierárquico já não querem saber disso para nada até porque nesses bens simbólicos não podem competir. Estamos no reino dos middle men. A mediocridade dos que nos mandam, mais do que nos governam, é tal que tende a igualizar. Por baixo, claro. Quem anda como peixe na água são os facilitadores, os intermediários, os confiáveis, os que abrem todas as portas. São como um fluido, passam por todas as frestas. Como as formigas que te apoquentam. 

Estás ver no que isto deu? Estas cartas parecem o Muro das Lamentações. Mas não é queixa, é fúria. Custa viver no meio disto tudo, no meio desta doença social, desta, - e uso a palavra complicada, a a palavra gasta, a palavra que se diz sempre, a palavra lugar-comum, - decadência. Abstieg, Niedergang, não sei qual a melhor palavra na tua excelente língua para estas coisas catastróficas. 

 Um abraço do teu amigo

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9.8.14


CARTAS PORTUGUESAS A LUDWIG PAN, GEÓLOGO E AGRIMENSOR NA AUSTRÁLIA

(As duas primeiras aqui, a terceira aqui, a quarta aqui.)


Meu caro Ludwig Pan, alemão perdido nos antípodas

Ouro tu ainda não descobriste, ouro dos tolos tenho eu por cá muito. Não fazes ideia de como o meu triste país está mergulhado numa nuvem de mentiras tão descaradas e tão evidentes que parece que não sabemos, ou não podemos, respirar outra coisa que não este engano continuado. Tinhas tu melhor informação sobre o que se estava a passar no banco do Ronaldo e da D. Inércia do que milhões de portugueses, consistentemente, deliberadamente, ligeiramente, irresponsavelmente, e tudo o mais que queiras acrescentar, enganados.

Este teu amigo pareceu profeta nos últimos meses dizendo que isto do “bom“ banco e do “mau” grupo era uma patetice perigosa, mas não são dotes de profecia nem argúcia analítica, é puro bom senso e desconfiança natural com os nossos poderosos, tão habituados na arte de mentir e enganar, que temos sempre de estar de pé atrás. Escrevi-te na minha última carta que “O “banco” está bem, embora as “empresas” dos Espírito Santo essas sim é que estão muito mal. Não sei muito bem onde colocam a muralha de aço, mas uma coisa parece “não contaminar” a outra. Eles são os mesmos, e presumo que sim, donos do mesmo, ou parcialmente, numa grande parte, donos do mesmo. Mas o “mesmo” tem uma parte que está má e outra que está boa, mas não comunicam.” Tretas, claro.

Os jornalistas de economia e outros faziam ponto de honra de nos dizer enfaticamente, “olhem que o banco é diferente do grupo”, o banco é “bom” o grupo é “mau”. O Presidente, o Primeiro-Ministro, a Ministra das Finanças, o Governador do Banco de Portugal, não perdiam uma oportunidade para repetir. Mas era falso, o grupo estava mal e o banco estava mal. Alguém assume a responsabilidade? Não, eram apenas os Espírito Santos que eram habilidosos e “fraudulentos” e a parafernália de reguladores, auditores, consultores, inspectores, pagos a preço de ouro, - o tal ouro que tu não encontras,- não viam nada, nem “podiam” ver alguma coisa, o argumento de Constâncio para o BPN. Até ontem. 

Na verdade, o banco faliu e foi nacionalizado, sendo que nenhuma destas palavras pode ser utilizada porque o poder as proíbe. De há muito que só uma tribo de resistentes usa as palavras que verdadeiramente descrevem as coisas e não a linguagem dúplice do poder. O novo mantra, é agora o “não se gasta o dinheiro dos contribuintes”, o “mau banco” foi para um lado, o “bom” e “novo” está aí para continuar…a melhor tradição do outro que foi bom e agora é mau. A máquina de propaganda do meu governo, esqueceu-se do que andou a dizer nas últimas semanas e agora repete mais um conjunto de mentiras “estruturadas”, como aqueles produtos que eram tóxicos. Orwell, que ambos tanto admiramos, teria aqui matéria para um tratado de doubletalk.

Tu e os teus aborígenes podem criar uma história de proveito e exemplo desta praga que caiu sobre o meu país. Contaste-me uma lenda sobre o urso que perdeu a cauda. Se bem me lembro, durante uma seca, um urso e um canguru procuraram água por todo o lado. Não havia. Até que resolveram subir o leito seco de um rio para ver se mais perto da nascente se conseguia água. Chegados lá, o urso resolveu enganar o canguru para ser ele a trabalhar a cavar um buraco, enquanto ele se fazia muito doente. Mal encontrou água, o canguru foi chamar o seu amigo urso, condoído com a sua doença, dizendo-lhe que afinal havia água. O urso perdeu logo a doença e atirou-se para dentro do buraco a beber, com a cauda espetada para fora. Enganado, o canguru pegou num boomerang, - afinal a história é australiana - , e cortou a cauda ao urso. A partir dessa data os ursos nativos ficaram sem cauda. 

Ora o urso enganador, aproveitador do trabalho alheio, dissimulador, muito “doente” da sua “bancarrota” aquosa, gerada pelos deuses alheios e primevos, queria “ajustar” o canguru. O canguru trabalhava a abrir o buraco e a encontrar água e o urso depois ia lá beber descansado. E o boomerang voou para lá vazio e voltou para cá com a cauda “ajustada”. Diz lá aos teus amigos que comem rãs, larvas, insectos, e uns bizarros marsupiais, que cá nós precisamos de uma grande provisão de boomerangs, porque há muitas caudas a sair dos buracos da água. Com a tua alemã capacidade de organização podias fazer aí uma pequena AutoEuropa para produzir boomerangs, chamas-lhes “paus curvos de adorno” e entra pela pauta alfandegária como “artesanato”. 

Como a balança comercial tem que ser equilibrada, o que é que poderei exportar para aí? Sol há aí em quantidade; praias também; vinho do Porto, a Austrália produz; móveis de Paços de Ferreira, talvez; refinados, não precisam… Talvez degredados, uma antiga importação australiana, agora em desuso no Commonwealth. Os Espírito Santos para brincarem aos pobrezinhos em Queensland. O nosso governo mais os seus altifalantes nos media, se encontrares por essa larga Austrália o Oitavo Círculo do Inferno, o mais apropriado e onde têm bons companheiros. 

Desculpa, meu bom Ludwig, que tanto fale das nossas desgraças, mas por cá todo o vento é mau e estamos soterrados em miasmas diversos que dariam um gigantesco catálogo. Ah! como seria boa a aurea mediocritas que talvez gozes aí! 

Um abraço do teu amigo português

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8.8.14


O NAVIO FANTASMA: COMO ISTO ESTÁ - OS MESMOS EM TODO O LADO 
(ENVIADO POR UM LEITOR)

Para além do "(des)governo do governo" descrito pelo leitor cujo mail foi transcrito, merecem neste caso atenção outros detalhes que, todos juntos, mostram a falta de cuidado, rigor e independência que um processo com a delicadeza e complexidade deste devia exigir. Veja-se, por exemplo, a presença da mesma empresa de auditoria, a PWC, na auditoria forense a ser feita pelo Banco de Portugal, no Conselho Fiscal do "Novo Banco" e, agora, na auditoria interna que a PT decidiu fazer aos negócios com o Grupo Espírito Santo. O mais elementar bom senso devia tornar evidente o conflito que o desempenho simultâneo de tais funções representa. Por muito independente e isenta que a PWC possa ser, por muitas "chinese walls" que se possam construir, este é um daqueles casos em que a suspeita de que possa haver transmissão de informações sensíveis e de que a condução das auditorias, bem como as medidas a tomar após a sua conclusão, sejam influenciadas por essa troca de informações é impossível de afastar (em especial nas auditorias ao GES e à PT a coincidência do auditor é absolutamente incompreensível). 

 Recordo, a este propósito, a referência que o Governador do Banco de Portugal fez na sua entrevista de ontem à necessidade de se melhorarem os modelos de governo e os procedimentos de governance. Não me parece que sejam os modelos que tenham que mudar, são as pessoas e a forma como as pessoas - as que decidem, mas também as outras - actuam que têm que mudar.

(C.G.)

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O NAVIO FANTASMA: COMO ISTO ESTÁ 
(ENVIADO POR UM LEITOR, JURISTA E FUNCIONÁRIO PÚBLICO)

(...)  sobre o assunto em epígrafe bastará afirmar que nunca vi diplomas legais publicados em Diário da República como os Decretos-Leis nºs 114-A e 114-B/2014, pois «ambos os dois» foram aprovados em reuniões do Conselho de Ministros que não existiram, nem podiam existir, em face do disposto expressa e taxativamente no artigo 184.º da Constituição.

Quanto ao Decreto-Lei n.º 114-A/2014, o Conselho de Ministros não pode ser composto apenas pelo Primeiro-Ministro, pelo Secretário de Estado Adjunto e do Orçamento (presume-se, com muito boa vontade, que em substituição da Ministro de Estado e das Finanças) e pelo Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros.
Quanto ao Decreto-Lei n.º 114-B/2014, o Conselho de Ministros não pode ser composto apenas pelo Vice-Primeiro-Ministro e pela Ministro de Estado e das Finanças.

Nem falarei da mais que óbvia falta de quórum, nem do facto incontroverso das reuniões do Conselho de Ministros terem de ser presenciais (a alusão à teleconferência feita pelo Vice-Primeiro-Ministro é ridícula e espelha bem a desorientação do Governo nesta matéria – como, aliás, noutras), nem de que os comunicados do Conselho de Ministros têm de reflectir o que neles foi aprovado…
Resta relembrar dois ditados da sabedoria tradicional portuguesa:
«Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele»;
«Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo».

Por último, expresso a minha perplexidade:
1.º Como pode o «BES-Bom/Novo Banco» funcionar desde 4 de Agosto de 2014 com uma rede de mais de 700 balcões, mais de 20.000 trabalhadores, mas sem personalidade jurídica, sem firma comercial e sem um tostão de capital social, uma vez que se desconhece quais os seus Estatutos, se sabe que a denominação se encontra registada e é propriedade de outra entidade bancária, e que nem o (Des)Governo, nem o Banco de Portugal, nem a Associação Portuguesa de Bancos se entenderam ainda quanto à modalidade e ao montante da dita “recapitalização”;
2.º Como pode o «BES-Mau» funcionar desde 4 de Agosto de 2014 sem licença bancária, mas com contas e depósitos bancários (congelados) pertencentes aos administradores do BES/GES, seus cônjuges, pais, filhos, netos e outros que tenham o azar de ostentar o apelido “Espírito Santo”…

(F.F.)

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O NAVIO FANTASMA: O QUE É QUE FEZ FALIR O BES?

Três coisas: as malfeitorias dos Espírito Santos, a incompetência, ineficácia e procrastinação dos reguladores, em particular do Banco de Portugal,  e as hesitações do Governo. Cada uma de per si não fazia falir o banco, todas em conjunto tiveram o resultado que tiveram. As duas últimas razões, ligadas ao Banco de Portugal e ao Governo, são faces da mesma moeda, já que actuaram sem autonomia uma da outra. 

Onde uma procrastinou e revelou ligeireza e irresponsabilidade, a outra, enredada nos seus demónios ideológicos e propagandistas, ficou bloqueada até que era tarde de mais. A "solução" encontrada não é apenas tardia, gerou, pelo próprio atraso, um novo problema que está longe de estar resolvido. Se houve risco de "crise sistémica", a responsabilidade é mais do modo como foi adiado o problema do BES do que da situação "fraudulenta"  de partida, cujos primeiros sinais datam de há um ano.

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6.8.14


O NAVIO FANTASMA: O BANCO DE PORTUGAL AO SERVIÇO DA "NOVA POLÍTICA" DO GOVERNO

Com o entusiasmo do propagandista, Poiares Maduro referia-se à "solução" encontrada para o BES como um exemplo da "nova política" que o governo PSD-CDS tinha trazido à vida pública portuguesa. Ora, eu pensava que a "solução" tinha tido origem em decisões do Banco de Portugal, dotado de autonomia face ao governo, quando muito contando com o suporte do Ministério das Finanças para disponibilizar o tal dinheiro "que não é dos contribuintes" e que não é público, nem privado. 

Bem sei que considerações institucionais  não estão na moda, mas o facto do Banco de Portugal funcionar como um instrumento directo do governo, actuando como uma espécie de Ministério das Finanças para a banca, executando uma "política" governamental, põe em causa a autonomia da instituição. E a verdade é que esta crise só veio confirmar aquilo que se tinha visto nos últimos anos sob responsabilidade do Governador Carlos Costa, a proximidade excessiva e a colagem da actuação do Banco em relação ao governo, com sérias consequências para a autonomia pressuposta do banco central

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5.8.14


O MUNDO EM QUE ALGUNS PORTUGUESES VÃO PARA FÉRIAS 



 – Insatisfeitos, pessimistas e sem esperança. 96% acham que a situação económica do país é má. Repito, 96%, um número daqueles que se costumam chamar “albaneses”. Só que neste caso é bem português. Ou seja, quase todos os portugueses descrêem do “milagre” económico que, com cada menos convicção, Passos Coelho, Portas e Pires de Lima propagam por todo o lado. Não lêem a imprensa económica, não lêem os blogues governamentais, não lêem os comentadores do Observador, não acreditam no PSD e no CDS, mesmo quando deles fazem parte. Nenhum país da Europa tem estes resultados, nem a Grécia. Percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas, em nenhuma circunstância, mesmo quando o argumento a seu favor é da natureza dos argumentos que eles próprios costumam usar: facilitar com alguns meses de antecipação eleitoral, a atempada preparação do Orçamento. 

 – Muito preocupados com o futuro. São gente sábia e razoável e realista e pensam na sua maioria que o “pior está para vir”. Os europeus, pelo contrário, acham que o pior já passou. Os franceses, os cipriotas, os eslovenos, os italianos e os gregos também acham que o pior está para vir, mas acham menos do que os portugueses. Nenhum povo da Europa tem tanto medo do futuro como os portugueses. Percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas. 

 – Com medo de caírem na pobreza. Quase 40% dos portugueses receiam “cair” num estado de pobreza, o que é um número altíssimo. É verdade que há mais gregos com idêntico receio, mas este número por si só dá um retrato “existencial” da situação dos portugueses que não eram pobres e agora temem estar a caminho de o serem. Muitos temem, mas muitos já sabem: já têm muitas dívidas, estão em incumprimento nos seus empréstimos, têm ameaças de penhora do fisco sobre os seus bens e o seu salário, por isso o seu mundo só pode piorar. E cada ano que passa é pior, nem sequer é preciso mais qualquer pacote de austeridade, basta os que já existem. Basta o que já perderam de salário, de pensões, de reformas, de apoios sociais. Para a frente é sempre pior a escuridão. Percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas.

 – Têm medo do desemprego e do custo de vida, estão esmagados por impostos e, se têm emprego, vêem o seu salário sempre a baixar. Já não chega o que ganham. Vão agora começar a viver acima das suas possibilidades durante uns meses, para depois deixarem de ter possibilidades e não poderem cuidar das suas necessidades básicas. Percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas. – Não acreditam em nada, nem em ninguém. Nem nos políticos, nem na política. Quase que já não acreditam na democracia. Não têm qualquer confiança no actual Governo. 85%, repito, 85%, não têm confiança no Governo. Outro número “albanês”, mas bem português, acima de todos os outros na Europa. Percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas. 

 – Humilhados, maltratados, desprezados. Tratados como ricos indevidos, eles que nunca foram ricos, só quando muito remediados. Culpados de serem velhos e estarem cá a mais a atravancar os jovens que estão a “trabalhar” para eles receberem as pensões e reformas. Culpados de terem emprego, com salários e alguns direitos, e por o terem estarem a impedir os desempregados de aceitarem receber uma miséria e poderem ir para a rua a qualquer altura. Culpados de serem pobres e receberem alguns apoios sociais. Ser pobre significa ser calaceiro e não querer trabalhar. Culpados de serem professores, ou calceteiros, ou enfermeiros, ou trabalhadores de um serviço municipal, ou auxiliares de limpeza, ou técnicos de informática, ou motoristas, ou qualquer outra coisa, se estiverem na função pública. Culpados de serem “piegas”, neo-realistas, protestantes, reivindicadores, sindicalistas, incomodados, desrespeitadores da autoridade, corporativos, não yuppies, estudantes de qualquer curso “sem empregabilidade”, cultores das humanidades em vez da gestão, do marketing, e do “empreendedorismo”. Como ninguém gosta do desprezo, a não ser que seja masoquista, percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas. 

 – Cansados de um imenso cansaço, cansados de um desesperante cansaço. Vão para férias, mas não vão ter férias. Podem mergulhar no mar, mas quando se encostam à toalha para secar, a sua cabeça não descansa. (Como é que vou pagar o carro em Setembro? Como é que vou pagar a prestação da casa? Já não posso mais receber aqueles avisos da Autoridade Tributária a explicar por um número infindo de artigos e alíneas que o meu salário vai ser penhorado. Como é que vou sobreviver com a conta bancária confiscada para pagar o IRS? Como é que vou dizer à minha mulher que saio todos os dias de manhã como se fosse para o emprego, mas há um mês que fui despedido? Será que no meu serviço serei passado para a mobilidade especial? Vou ter de mudar de casa, por que não posso pagar a nova renda que o senhorio me pediu. A nossa filha entrou na universidade, mas onde é que vou arranjar o dinheiro para as propinas? Como é que vou de novo abrir o café, quando devo dinheiro a todos os fornecedores? E como vou continuar a ter o meu empregado de sempre na oficina quando ninguém paga nada? Apetece-me fugir. Fugir.) Percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas. 

 Nota: Usando o último Eurobarómetro e não só.

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4.8.14


O NAVIO FANTASMA: HÁ UM PROBLEMA COM O BES, MAS HÁ UM AINDA MAIOR PROBLEMA COM O MODO COMO FUNCIONAM AS NOSSAS INSTITUIÇÕES E A NOSSA COMUNICAÇÃO SOCIAL (2)

Porém, o mesmo pode ser dito de muitos jornalistas que andaram no último mês a repetir que o GES era "mau" e o BES estava "bom". Quase que faziam ponto de honra de nos "prevenirem" de que era assim, não fosse alguém desconfiado retirar o dinheiro do BES ou despachar acções e obrigações. Já disse várias vezes nos últimos meses que esse não é o papel dos jornalistas. Mesmo que a informação viesse da boca do Governador, da Ministra das Finanças, do Primeiro-Ministro (e algumas  vieram), os jornalistas não são "passadores" de "informação", mas sim verificadores de informação. Podem colocar o que dizem na boca de "fontes próximas" do Banco de Portugal e assim informarem sem validarem o que outros diziam, não podem é afirmar, como afirmaram, que o GES era "mau" e o BES estava solidíssimo, a não ser que isso fosse resultado do seu próprio  trabalho de investigação. O problema é que a promiscuidade com o poder e as suas "fontes" e muitas vezes uma concordância profunda, ideológica ou "técnica", dá nesta dificuldade de distanciação.

Por isso, quando há uma crise séria, todas as instituições falham. O Governo, o Banco de Portugal, a justiça e a comunicação social. E agora, por favor, não comecem na mesma a garantir-nos que "não há dinheiro público envolvido", a solução é a melhor para "os portugueses", "engenhosa", mesmo que experimental, e com o tom populista de que os "donos" do Banco vão "perder tudo", etc., etc É que isto é só o principio, ainda há muita coisa por saber, vai haver processos judiciais, pouco se sabe sobre o papel que outros bancos vão assumir, etc., etc. Por favor, não recomecem na mesma a repetir o que o poder diz, porque nesse caso vão ir outra vez contra a parede. 

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O NAVIO FANTASMA: HÁ UM PROBLEMA COM O BES, MAS HÁ UM AINDA MAIOR PROBLEMA COM O MODO COMO FUNCIONAM AS NOSSAS INSTITUIÇÕES E A NOSSA COMUNICAÇÃO SOCIAL (1)

Quem deu as "informações" relevantes sobre a "solução" do BES foi um comentador televisivo, Marques Mendes. Fê-lo com um intróito destinado a justificar o Governador do Banco de Portugal. As "informações" foram dadas num contexto destinado a proteger o Governador das críticas que se avolumavam, e foi com esse objectivo que foram "passadas" a Marques Mendes. Mas, Marques Mendes não é jornalista e, por isso, divulgou o que sabia no contexto em que foi "informado". Prestou-se a um papel de legitimação que, infelizmente, é muito comum em certo tipo de comentário político.  Mas, Marques Mendes não é jornalista e, por isso, o que diz pode passar por ser "opinião",  que é livre  e criticável, como todas as opiniões.

Claro que o facto de ser Marques Mendes a anunciar uma medida desta relevância no sábado, ainda antes de serem assinados os documentos legais que o Governo só aprovou no domingo e do anúncio "em segunda mão" do Governador, lança uma luz muito sinistra sobre o modo como funcionam as nossas instituições, como funciona o Banco de Portugal, que nos últimos momentos críticos parece um passador (e pode ter contribuído para inside trading, em operações bolsísticas não esclarecidas), e o Governo que sempre esteve muito mais dentro do processo do BES do que tem vindo a publicitar. Ninguém liga, tão habitual isto é, mas é aquilo que antes se chamava "falta de sentido de Estado". Ou pior.



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O NAVIO FANTASMA : TUDO FEITO EM CIMA DO JOELHO

Do nome do banco, já registado por outros, à coisa, tudo remendado, apressado, mal feito, enganador, enganador, enganador. 

As únicas preocupações evidentes, foram a auto-justificação do Governador do Banco de Portugal e a elaboração de uma "narrativa" dolosa destinada a impedir que se diga o que aconteceu: o BES faliu e foi nacionalizado. Vai ser "limpo" com o nosso dinheiro e depois vendido barato. Alguém vai lucrar e muito. Tudo o resto é propaganda.

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3.8.14


PONTO / CONTRAPONTO
  aos domingos às 20 horas na SICN.

  Até o retorno do  caos do futebol lhe alterar mais uma vez o horário.

Tema: Al Nakba.

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27.7.14




CARTAS PORTUGUESAS A LUDWIG PAN, GEÓLOGO E AGRIMENSOR NA AUSTRÁLIA

(As duas primeiras aqui, a terceira aqui.)


4º CARTA A LUDWIG PAN, PESQUISADOR DE OURO NOS ANTÍPODAS, SOBRE UM MANTRA BUDISTA 

 Meu caro Pan 

Desejo-te os bens simples do prospector: água fresca, café, lume, toalhinhas refrescantes e corned beef de boa qualidade. Ou estou a ver muitos filmes do Faroeste (sim, a palavra existe mesmo…) e acho que essa longínqua Austrália é igual? Que seja. 

 Nós por cá, todos bem. 

Já ouvi isto nalgum lado, quando o “nós” e “por cá” não estavam nada bem. E lembro-me do “banco”. Todos os dias as nossas altas autoridades nos dizem que o “banco” está bem, é porque está tudo bem. Parece um mantra. Om mani padme hum. Om mani padme hum. Om mani padme hum. Om mani padme hum. Chega para mantra, mas cá é entoada muito mais vezes. Até o presidente, que diz que não faz declarações no estrangeiro sobre política nacional, lá disse Om mani padme hum na Coreia ou em Timor. Espanto dos budistas lá por longe. 

Por favor não leias esta carta alto aos teus aborígenes. Om mani padme hum. O “banco” está bem, embora as “empresas” dos Espírito Santo essas sim é que estão muito mal. Om mani padme hum. Não sei muito bem onde colocam a muralha de aço, mas uma coisa parece “não contaminar” a outra. Eles são os mesmos, e presumo que sim, donos do mesmo, ou parcialmente, numa grande parte, donos do mesmo. Mas o “mesmo” tem uma parte que está má e outra que está boa, mas não comunicam. Pode ser. Om mani padme hum. E como tu, presumo, não tens “papel” do banco, nem deste nem de nenhum outro, podes estar descansado nos antípodas, que estás “bem”, não estás “exposto” a não ser ao firmamento e ao pó. 

Eu penso que é muito útil que aprendas os costumes aborígenes e que me dês um curso acelerado. Por exemplo: dizes-me tu que na Austrália, por onde andas, a da selva obscura, embora sem selva, parece que é proibido falar com as sogras. Parece que os aborígenes quando têm a senhora sogra ao lado, não se lhe dirigem. O diálogo deve ser interessante, um aborígene pede à filha da sogra que lhe diga, “chegue-me esse lagarto roti”. E a filha diz à mãe “Amarynah (Chuva) , minha mãe, dá a este Banjora (coala macho) meu marido, o lagarto que está dependurado no espeto”. 

Os povos sábios resolvem assim os seus problemas de relacionamento e eu devia fazer coisa semelhante, mas não tenho sogra. Aliás, Portugal devia fazer uma coisa parecida. Tomo por certo que a sogra por cá é o Capital, o que já foi de Marx e agora vem no livro de Piketty que não li. O do Piketty. E a filha é o nosso distinto governo, dois em um, mas muito juntinhos. O pobre marido são os portugueses. Na verdade, foram os portugueses que casaram com a filha dela, votando no PSD e no CDS. 

Por cá, caro Pan, os casamentos duram quatro anos, embora a sogra tenha a tendência para ser a mesma. Agora pelos vistos querem descasar e casar com outra, embora a sogra não deixe. Obriga-os ao “consenso”, a fazer um novo acordo pré-nupcial chamado “acordo de regime”, tudo coisas destinadas a impedir mudar de filha, o mais provável, e a mudar de sogra, o altamente improvável. Então os portugueses manifestam-se, protestam, dão “sinais inequívocos”, mas como a filha está agarrada ao casamento nada diz á sogra e os portugueses, como não podem falar directamente com a sogra, ficam a falar sozinhos. 

Verdade seja dita que há uma maneira pouco recomendável e em desuso de falar directamente com a sogra, chama-se revolução, mas é rara e muito complicada. De facto, os teus aborígenes têm razão: falar directamente com a sogra é o fim da paz familiar e o tumulto social. Assim, a gente atura a filha, mas cada dia que passa o divórcio é mais provável, embora haja uma fila de filhas da mesma sogra à espera de vez. Até porque a sogra, em colaboração com a filha, nos rouba muito e nos mente com quantos dentes tem e tem muitas fiadas. 

 Nós por cá todos bem. 

Uma desgraça. Verdade seja, lembrei-me agora, tu também trabalhas para a sogra, procurando o teu ouro e eu também, escrevendo lendas urbanas. Mas que se há-de fazer, é a vida. Om mani padme hum. Mas o “banco” está bem. 

Um abraço do teu parceiro do país onde tudo está sempre bem.

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PONTO / CONTRAPONTO
  aos domingos às 20 horas na SICN.

  Até o retorno do  caos do futebol lhe alterar mais uma vez o horário.

Tema:


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20.7.14


PONTO / CONTRAPONTO
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A CRISE NO BLOCO DE ESQUERDA 


O BE foi um caso de sucesso na política portuguesa. Muito do que conseguiu foi por mérito próprio, mas muita da sua projecção resultou da simpatia activa da comunicação social. O BE tinha novidade, era constituído por um grupo de homens e mulheres muito capazes do ponto de vista político radical, e parecia alterar as regras de um jogo demasiado rígido, logo sem novidade mediática. Algumas causas, também com simpatia activa nos media, como as chamadas “causas fracturantes”,  ajudaram, mas com o tempo esgotaram-se no seu próprio sucesso. O BE conseguiu em pouco tempo crescer eleitoralmente, conseguiu alguma implantação regional, com uma organização que cobria praticamente o país, mesmo que em muitos sítios fossem pouco mais de que uma dúzia de pessoas. Mas existiam, estavam lá. 

 Mas o BE nunca conseguiu duas coisas: ter um corpo doutrinário sólido e “orgânico”, e penetrar noutros meios que não fossem a juventude radical urbana, os filhos da classe média instalada. Mas essa base de recrutamento mudou muito com a crise. Os filhos da classe média passaram a ser a de uma classe média enraivecida e pauperizada pela crise, e absorveram mais do que se imagina o apontar de dedos governamental às culpas dos reformados, funcionários públicos, sindicatos e sindicalistas, os velhos e os pensionistas. Mesmo enraivecidos contra o governo, incorporaram as explicações da propaganda governamental, aliás como muitos dos seus pais que acham que “viveram acima das suas posses”, se não eles os seus vizinhos. E por isso, desprezam as manifestações sindicais, olham de lado os velhos, acreditam que as dificuldades do seu destino se devem a quem tem emprego “com direitos” e quem recebe pensões e reformas. 

 Neste contexto, que o BE nunca compreendeu bem, a organização não conseguiu atrair nem renovar, nem fileiras, nem votos. Movimentos como o “Que se lixe a troika”, ambíguo, desorganizado, sem estruturas permanentes, mobilizando à esquerda e à direita nas manifestações, elogiadas- imagine-se! - pelo próprio governo, tiveram o sucesso fátuo deste tipo de iniciativas, mas ajudaram a esvaziar o BE. 

O que é que hoje sustenta o BE? O parlamento. Ora o efeito da parlamentarização num grupo como o BE é mortífero. Cria um embrião de partidocracia, aconchegando na Assembleia, deputados e funcionários, logo amplifica as dissidências quando os lugares são escassos ou ameaçam tornar-se ainda mais escassos. E gera aquilo que o venenoso Lenine chamava o “cretinismo parlamentar”. Os tribunos são bons, e o BE sempre teve bons tribunos para além de Louçã, mas mesmo no parlamento o BE tornou-se bem comportado. O BE vai lá perguntar algumas vezes coisas duras aos governantes, mas nem sempre. E, como o PCP, institucionalizou-se, já não sai pela porta fora quando há um atropelo grave ao funcionamento regular da Assembleia e eles não têm faltado.

Ora, nos dias de hoje, quem introduziu novidade e diferença no sistema político, foram as candidaturas independentes nas autárquicas, Marinho Pinto nas europeias, os cidadãos que votam em branco e nulo em cada vez maior quantidade. E não há nada que o BE possa hoje oferecer que não se encontre melhor noutro sítio. Se é para partir tudo, há melhor do que o BE: começam a surgir alguns grupos que querem ser “casseurs”, mas ainda estão na infância. Se é para criar um “socialismo radical” com capacidade de se aliar com o PS, há melhor do que o BE: é entrar para o PS. Se é para protestar, sem prisões organizativas, há melhor do que o BE: há uma miríade de grupos culturais, de protesto, de causas desde o PAN aos anarquistas. Se é para falar alto e bom som, há melhor do que o BE, o Dr. Mário Soares oferece uma plataforma bem audível, como foi a Aula Magna. Se é para mobilizar a “classe operária” há melhor do que o BE: o PCP ou a CGTP. Se é para exercer uma oposição intelectual, há melhor do que o BE: há universidades e centros de investigação, podem ir para o ISCTE (como dizem as más línguas) ou para o CES do professor Boaventura.

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FALÊNCIAS, INCUMPRIMENTOS, CASAS E SALÁRIOS PENHORADOS JÁ NÃO SÃO NOTÍCIAS 



Tenho, de há muito tempo, chamado a atenção para um dos aspectos desta crise que é que ela se agrava com o tempo e que medidas tomadas naquilo que se chama os anos “piores” vão ser ainda piores nos anos em que se diz que o “pior já passou”. Não há mentira mais abjecta do que o “pior já passou”, apenas porque alguns números desgarrados da economia, que nem sequer chegam para fazer uma série consistente, melhoraram. O que acontece é que em cada ano que passa na crise, as suas principais vítimas ficam pior, deixadas para trás pelo embandeirar em arco e pela perda de atenção da comunicação social, que não lhes encontra novidade. 

Um exemplo para quem esteja atento a “outras” estatísticas menos gloriosas, como aumento de percentagem dos incumprimentos na banca, o aumento de penhoras no fisco, a falência de pessoas e famílias. O que se passa é que para muitas pessoas e famílias da classe média que ainda tinham poupanças e suportaram 2012 e 2013, chegados a 2014, tornaram-se insolventes quando chegou o IRS. Ou as centenas de milhares que só agora deixaram de receber o subsídio de desemprego, desempregadas que ficaram nos primeiros anos da crise, e que vão engrossar aqueles que não vem nas estatísticas de emprego. Como é que vão viver? Não se sabe. 

 Para muitos milhares de portugueses este ano de 2014 é o primeiro ano trágico da sua vida. Encontram algum reflexo disso nas notícias que abrem os telejornais? Nada.

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 A DIREITA DEIXOU DE SER PATRIÓTICA (2)



Mesmo falando de Pátria na sua forma mais minimalista – quase só a defesa dos interesses dos portugueses como portugueses e não como cidadãos da Europa, a defesa da comunidade nacional como história, língua e cultura –, provoca uma enorme irritação nos círculos do poder, PSD e CDS e também no PS.

Este nervoso é, em muitos casos, sentimento de culpa, noutros medo de que uma certa desfaçatez no que se está a fazer não seja aceite pela maioria dos portugueses, se for apresentado sem disfarces, usando os nomes que as coisas têm e falando delas sem as vestes do engano. Querem os portugueses ser uma região da Europa com menos poderes que os länder alemães, com uma política externa, uma política de defesa (Portugal aceitou que aspectos da sua política das Forças Armadas viessem no memorando), e a sua política interna, a começar pelo orçamento e a continuar por uma governação que pouco mais faz do que aplicar “directivas” europeias, seja definida em Bruxelas e em Berlim? Uma parte importante da direita portuguesa que antes enchia o peito com o patriotismo responde sim, nalguns casos por necessidade, noutras por vontade, noutras por serviço.

Há dois aspectos em que este abandono do patriotismo por parte do actual poder político é muito evidente. Um, é o modo como se actua em relação às Forças Armadas, que é mais um sintoma do que uma causa; outra, a política tão deliberada como dolosa de cedência de soberania a instâncias internacionais em que Portugal não tem nenhuma voz, entra mudo e sai calado, como o primeiro-ministro em muitos Conselhos Europeus.

Não vou perder tempo com duas questões que aparecem sempre como justificações, mas que não estão no cerne daquilo que quero discutir. Uma, no que concerne às Forças Armadas, é a denúncia do corporativismo dos militares, que os leva a quererem manter privilégios e estatuto, inaceitáveis no actual (des)equilíbrio social. Sim, é verdade, há corporativismo nas Forças Armadas, mas isso não legitima o que o actual poder está a fazer com elas, independentemente daquilo que possam ser resistências corporativas. A outra é a combinação de uma espécie de realismo cínico, que diz que Portugal nunca foi independente nos últimos quatrocentos anos (as datas variam) e por isso é hipocrisia estar agora a achar anormal aquilo que sempre existiu.

É o argumento de que se Portugal é dependente de facto, por que razão se preocupar por o ser de jure? Até é mais “verdade”, mais transparente que se assuma que os portugueses não mandam nada e que por isso qual é problema que o Parlamento português perca poderes para a Europa? Um subproduto deste raciocínio é que hoje a natureza das nações europeias é partilharem soberania nas instituições da União Europeia, pelo que é um modo de pensar arcaizante, para não dizer antiquado, considerar que as “velhas” ideias de soberania possam ter qualquer papel nos dias de hoje. Seriam, aliás, apenas manifestações de um nacionalismo vulgar e perigoso.

A questão das Forças Armadas é que, estando como estão e como vão estar daqui a uns anos da mesma política, elas não servem mesmo para nada. Não será difícil então apontá-las a dedo como um peso inútil no orçamento. Já o escrevi e repito: os actuais governantes, a começar pelo ministro da Defesa, fechariam o exército, a marinha e a aviação, amanhã se pudessem e iria o Conselho de Ministros vangloriar-se da grande reforma que fez e do dinheiro que poupou. Mas como não pode fazer isso, estraga.

O PSD e o PS têm grande responsabilidade no caminho de progressiva destruição das nossas Forças Armadas. Foi por pressão das “jotas”, com relevo para a JSD, que acabou o Serviço Militar Obrigatório, abrindo caminho para umas Forças Armadas profissionais, que eram mais caras e que rapidamente se tornaram a primeira vítima de cortes, sempre que havia necessidade. As Forças Armadas eram e são, para o actual poder, expendable mesmo quando os governantes se passeiam de peito cheio nas paradas e se dizem umas fases muito patrióticas nos discursos.

No fundo, a questão da Pátria resume-se a uma posição simples: o que não fizermos por nós, ninguém o fará. Podem ajudar-nos, como é suposto ajudarmos os nossos vizinhos, mas o zelo e a dedicação que vem daquele “nós” só nós o temos, ou deveríamos ter. Basta um exemplo. Num falso arroubo de patriotismo, o Governo patrocinou um mapa de Portugal que enchia meio mundo no hemisfério Norte, dominando o Oceano Atlântico a enorme área ocupada pelas ilhas e a sua zona económica exclusiva. Portugal seria assim a grande potência do Atlântico Norte, da costa africana junto de Marrocos, passando pelo pequeno enclave das Canárias, até junto da costa americana. E, na verdade, esse é o nosso território, mas a outra verdade é que só a muito custo conseguimos manter responsabilidades internacionais pela busca e salvamento, pela segurança das importantes rotas marítimas que o atravessam, ou proteger os nossos bens. Estamos por um fio no quadro dos mínimos dos mínimos das nossas obrigações. Uma avaria num helicóptero, uma avaria num avião, um problema de tripulação e um salvamento pode não ser feito, já para não falar do controlo eficaz dessa parte de mar que enche o mapa oficial, em termos de segurança, em termos de exploração de recursos, em termos de defesa do nosso património estratégico. Talvez se pudesse vender, como as praias e as ilhas gregas?

Mas o desprezo pelas Forças Armadas é apenas um sintoma, onde se centra a verdadeira doença, a perda efectiva da Pátria e com ela do autogoverno e da democracia, é no actual curso europeu que está a mudar um projecto comunitário e de coesão, por um império imperfeito, incoerente, desigual e hierárquico, em que Portugal ocupa o downstairs. Serve para passar férias e está em prisão domiciliária por dívida. Portugal é hoje uma província desse império, por submissão dos nossos governantes, que aceitaram tudo o que lhes exigiram e fugiram e fogem de obter legitimação popular e democrática, para a transformação de Portugal numa região falida e com má fama que é necessário governar com mão de ferro, sem dar veleidade aos súbditos de escolherem ou decidirem alguma coisa, dada sua propensão para viver do dinheiro alheio.

A ideologia desta submissão é múltipla. Há um aspecto de progressismo e de engenharia utópica, modernista e modernaço, e há a vontade de usar um poder exógeno para impor uma tutela endógena a favor de interesses de uma pequena minoria de portuguesas, como diriam os marxistas um “poder de classe”. Comecemos pela primeira: o nosso actual europeísmo não é muito diferente do iberismo do passado. Representa uma ideia progressista, iluminista, cosmopolita, contra os pacóvios das fronteiras. Trará o reino da razão aos ignaros rurais que pensam à dimensão da sua quinta e só se preocupam em manter os marcos no sítio, ou até, aos escondidos, em movê-los um pouco mais para dentro do terreno do vizinho. Para eles, só há ou nacionalismo identitário, ou internacionalismo europeísta. 

A isto se junta a ideia de que quem não tem dinheiro não tem vícios, logo, um país em bancarrota não pode queixar-se dos credores mandarem nele. Coisa aliás que até não é má de todo, porque a pressão externa “impõe” políticas “responsáveis” aos portugueses irresponsáveis, obrigando-os a viver de acordo com as suas necessidades. Quero lá saber da Pátria, dizem alguns, se a troika (com a prestimosa e dedicada ajuda do Governo) está a fazer aquilo que nenhum governante português seria capaz: baixar salários, reformas e pensões, acabar com o Estado como instrumento social, correr com os funcionários públicos, e destruir os direitos do trabalho. O colaboracionismo com o poder de fora faz-se por afinidade ideológica e, claro, com vantagem própria. 

É na direita que estas ideias hoje fazem mais estragos porque encontrou nas posições da troika e dos “protectores” alemães um instrumento precioso para obter ganhos “sociais” em Portugal. Porém, ainda há um pequeno problema, ainda há eleições. Por isso, mesmo que se deixe de falar em Pátria e patriotismo, pode-se sempre colocar a questão em termos democráticos: que sentido tem a democracia portuguesa se os eleitores portugueses vão deixar de poder escolher quase tudo que é decisivo para o seu país e para as suas vidas?

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ESPÍRITO DO TEMPO: ESTES DIAS










Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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13.7.14


PONTO / CONTRAPONTO
  aos domingos às 20 horas na SICN.
  Se o caos do futebol não lhe alterar mais uma vez o horário.

Tema: 


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CARTAS PORTUGUESAS A LUDWIG PAN, GEÓLOGO E AGRIMENSOR NA AUSTRÁLIA

(As duas primeiras aqui.)


 3ª CARTA

Meu caro Ludwig Pan, Herr Professor nas artes da geologia, à procura do ouro na Austrália.

Obrigado pela tua carta. Ver o céu sem tecto e sem luz deve-te animar os sentimentos filosóficos. A Kant animava, e tu estudaste Kant no Liceu e bastante a sério. Costumes germânicos. Mas, mais prosaicamente, penalizas-te pelo atraso da resposta, e dizes que me envias esta carta de mula, do teu acampamento até ao posto de civilização mais próximo. Nisso deves sentir-te um émulo da Al-Qaida que não usava telefones, mas muares. Passons. 

Não sei, meu caro Pan, se já dormes à aborígene, no chão com um dingo ao lado, mas olha que por cá nem um exército de dingos faz a função protectora. Eles bem podem morder, mas como é tudo de plasticina e chewing gum fica sempre na mesma. E, imagina, se os cães ficam furiosos com a ineficácia da mordida, o que se passa com os donos. Por cá, o poder é de aço no seu centro mas tem metros de plástico, plasticina, gelatina e pastilha elástica à volta. Pode ser até que lá dentro seja de barro e cair quando se conseguir cavar um túnel, mas os metros de coisas dúcteis e moles à volta protegem-no. A má comunicação social é um dessas barreiras moles. A da economia é mestra do culto da inevitabilidade, já fez o destino do país para os próximos trinta anos e não há volta a dar. Dizem eles. Mas vão ver tanta volta, para ao bem e para o mal…

A outra, a generalista, salvo raras excepções, come com imensa facilidade o que se lhe põe no prato. Lembras-te das privatizações? Era tudo um modelo de transparência, até quando se começaram a saber as coisas, inside trading, rendas acordadas por um governo que privatizava para “libertar” a economia, transumância de cadeiras entre o poder de cá e poder de lá, e sempre os mesmos facilitadores. Os mesmos de hoje, muito no activo, mas cujo nome associado a estes negócios toda a gente conhece e ninguém coloca em letra de imprensa. Se a comunicação social aprendesse, seria mais atenta com os elogios do dia seguinte, os que deixam uma primeira impressão, a mais valiosa como sabes. 

E continuam a acreditar em todas as histórias da carochinha e a gerar novas primeiras impressões. Vê lá tu, que andaram dias a fio a elogiar a atitude viril do Primeiro-ministro que não “usou” o banco público para salvar os Espírito Santo! Aquilo é que foi uma “mudança”, temos um governo que não obedece à banca e não faz os fretes aos de sempre. A fonte de tão gloriosa atitude veio naturalmente do governo, usando do elogio em boca própria. Primeira impressão, a que custa mais a passar.

Mas, mesmo que o quisesse, podia fazê-lo? A troika, essa proibidora tenaz, deixava? Havia dinheiro? Não eram “auxílios de estado” disfarçados, proibidos por Bruxelas? Ou verdadeiramente tinha outros planos? Não se pergunta o que se devia perguntar em tempo devido. Lá se ajuda o infractor. A próxima vez que não levantar um tronco de 200 quilos vou por na imprensa que é moralmente inaceitável e de uma desigualdade flagrante, levantar troncos desse peso porque isso amesquinha os fracos. E eu estou sempre do lado dos fracos e por isso tenho muito mérito em não levantar o tronco. 

E não te parece estranho, que aqueles que “nunca” quiseram interferir, recebam o grande prémio: o “banco do regime” que passou para o PSD? Foi certamente por acaso. Devia pedir-te conselho a ti, que, como alemão, oscilas às segundas-feiras em achar que a ordem do mundo é mística e indecifrável, inscrita numas runas antigas, e que um nevoeiro ancestral se levanta do lado do Reno ou numa densa floresta para encantar tragicamente os humanos, tu romântico às segundas-feiras, passas na terça a ser um cientista que acha que a ordem do mundo está inscrita numa rígida gramática qualquer, seja a de Hegel ou a de Marx e tudo se explica por uma causa e um efeito, pela afirmação e pela negação, e pela “acção reciproca”... 

Diz-me lá como devo interpretar como é que os mestres da inacção governamental acabam por ter uma tão completa vitória? Será que são como os mestres do arco Zen que só acertam no alvo quando não olham para ele? 

Deixa lá. São destinos. Tu procuras ouro no meio do nada, e eu vivo no meio da pirite. Destinos. 

Um abraço do teu amigo que não é Pan.

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A DIREITA DEIXOU DE SER PATRIÓTICA (1)


À partida, faço uma prevenção e uma precisão iniciais. A prevenção é que a designação de “direita” e a dualidade “direita/esquerda” não são nos dias de hoje termos muito precisos e úteis do ponto de vista analítico, mas uso aqui o termo “direita” por facilidade e comodidade, num mero sentido descritivo. Designa essencialmente o PSD e o CDS, mas, e aqui já se revela por que razão o termo é ambíguo, podia-se incluir também o PS nesta matéria.

 A precisão é que uso o termo “patriotismo” num sentido vago de um sentimento comum de partilha a uma mesma comunidade com identidade histórica e nacional, linguística, cultural, territorial, que define fronteiras e interesses comuns e que pressupõe que esses interesses têm que ser defendidos num quadro de competição ou conflitualidade com outros interesses. É o sentimento de risco permanente, logo de defesa activa, dos interesses de uma comunidade nacional, que é o elemento dinâmico daquilo que se possa chamar patriotismo. Penso que isto chega para não entrar em grandes discussões identitárias.

 A chave deste processo de abandono da noção de Pátria encontra-se no PSD, porque é aí que há uma significativa mudança. O CDS segue por arrasto, embora no caso do PSD a crise patriótica seja a da sua componente partidária e no CDS seja mais institucional e do Estado. Mas a mudança política centra-se no PSD (e no PS), acompanhando a evolução do “internacionalismo” clássico da tradição comunista para um “europeísmo”, muito evidente no Livre e em parte do Bloco. Por uma daquelas ironias em que a história é fértil, o PCP, perdida a referência internacionalista da URSS e do comunismo mundial, acaba por ser nos dias de hoje o mais patriótico dos partidos e aquele que mais resiste à deslocação dos centros de poder nacionais para o quadro europeu. Fê-lo e fá-lo por razões políticas instrumentais, mas não só. Na história do PCP, o quadro nacional sempre esteve presente na ideologia e na política e o que é muito importante, no imaginário da “indústria nacional”, do “pão português”, muitas vezes o reverso do “trigo” das Campanhas do Trigo do Estado Novo. A questão é que nessa tradição também estava o PSD e deixou de estar.

 As mudanças do PSD com a ascensão ao poder de um aparelho profissionalizado e de carreira, com origem nas “jotas”, e que no poder, e com o poder, atrai alguns jovens intelectuais ultraconservadores, são muito relevantes. O PSD foi na sua origem um partido que foi buscar ao socialismo moderado, à social-democracia, à doutrina social da Igreja, a sua âncora para evitar colocar-se à direita do espectro político, onde não queria que o colocassem, e onde não queria estar. Esta intenção é tão evidente nos seus fundadores, que nem vale a pena perder muito tempo a nomeá-la. Não foi instrumental para acompanhar a viragem à esquerda do sistema político pós-ditadura, como hoje se diz, podendo ser deitada pela borda fora logo que a situação mudasse. Foi substancial e de fundo e impregnou o PSD de uma tradição, de uma linguagem e uma simbólica, que ainda hoje atrapalham os seus próceres “neoliberais”.

 Mas o nascente PPD não se teria tornado popular se se ficasse apenas por esta estratégia de afirmação ideológica, com origem em profissionais liberais e intelectuais, e não fosse mergulhar no tecido social português profundo, onde encontrou uma identidade que fez a sua história. É por isso que o programa identitário do PSD é o da sua génese no PPD inicial e feito por Sá Carneiro e é o “programa não escrito”, a sua história. E aí outras realidades emergiram. Duas são do “contra” e uma é do “pró”.

 As do “contra” são fáceis de identificar: uma é o anticomunismo, outra é a hostilidade à Maçonaria. Ambas têm ambiguidades, principalmente a segunda, dado que houve sempre mações no PSD, a começar por uma parte do republicanismo e oposicionismo histórico mais conservador que aderiu ao partido, a nível nacional e local. Mas se havia mações, da Maçonaria tradicional do Grande Oriente Lusitano, essa era uma opção individual, mantida com uma enorme discrição e que em nada marcava o rank and file partidário, que detestava a Maçonaria.

 Esta é uma grande diferença com a actualidade, em que uma parte importante da direcção política e do aparelho do partido pertence à Maçonaria, e de forma muito significativa às novas obediências maçónicas surgidas nas últimas décadas. A Loja Mozart é apenas um caso, unindo o líder parlamentar do PSD, outros membros do PSD, com o dono da Ongoing, e antigos e actuais elementos dos serviços de informação, envolvidos num conjunto de escândalos públicos. Mas distritais inteiras do PSD são constituídas por membros das novas maçonarias, que funcionam como estrutura horizontal para criar redes de poder e de negócios. Quanto à componente antimaçónica do PSD estamos conversados. Está defunta.

 Mesmo a componente anticomunista do PSD foi-se alterando na actual direcção para uma componente anti-socialista, mais do que anticomunista. A ideologia confusa e híbrida que caracteriza os actuais dirigentes do PSD tem sido descrita como “liberal” ou “neoliberal”. Tenho-me sempre manifestado contra esta classificação que dá demasiada dignidade ideológica a uma mescla de ideias e posições que nada têm de liberal. Se quisermos fazer a distinção sem sentido entre “liberalismo económico” e liberalismo político, rapidamente compreenderíamos que o “liberalismo económico”, a que correntemente se chama “neoliberalismo”, não é liberalismo. O liberalismo, com o seu amor pela liberdade, a sua valorização do indivíduo, a percepção da relação entre a propriedade e a liberdade, a pulsão pela privacidade e pelo direito de cada um definir os objectivos da sua vida, tem muito pouco a ver com a redução do homem ao “homo economicus”, a ditadura estatal do fisco, a burocratização de toda a actividade social para aumentar o controlo do Estado, o desrespeito pelo primado da lei, o encosto aos mais fortes e culpabilização dos mais fracos.

 Neste contexto, a apologia do “empreendedorismo”, de uma “economia” onde se fala obsessivamente de empresas e nunca se nomeia os trabalhadores, esta recusa da consolidação de direitos sociais e do melhorismo como objectivo de uma política do bem comum, precisa de um anti-socialismo como alvo, até para exorcizar as origens do próprio PSD. O anti-socialismo é por isso hoje mais corrente nos círculos do poder, porque ajuda a criar um polo antinómico no qual se inclui a ideia de estado social, de investimento público como panaceia económica, do “despesismo do estado”, e de qualquer ideia de intervencionismo estatal nos negócios, mais do que nas empresas.

 Ficamos agora com o “pró” que fazia parte da identidade colectiva do PSD (e não só): o sentimento patriótico do “mais português dos partidos portugueses”. É exactamente aqui que existe por parte do actual poder no PSD, um curso que é objectivamente antipatriótico e que assenta em dois processos interligados: a desvalorização das Forças Armadas, tratadas como fardo orçamental que seria vantajoso alijar caso houvesse oportunidade, e a transmissão de soberania nacional para o estrangeiro, a retirada do poder do Parlamento português para definir os orçamentos nacionais, a desvalorização das eleições e da escolha entre diferentes opções com a ditadura da “inevitabilidade” imposta por credores e Bruxelas, a subordinação do Governo e Parlamento nacionais a uma governação europeia definida pelo Conselho e pelo Parlamento Europeu, assente em “directivas comunitárias”, a defesa da caducidade da Constituição (e do poder do Tribunal Constitucional) face à legislação constitucional “não escrita” do direito comunitário, etc., etc.

Resumindo e concluindo, visto que os detalhes ficam para o próximo artigo: a subordinação, à revelia da democracia, da nação e da pátria, da comunidade dos portugueses, a uma estrutura de poder que foi “comunitária” e é hoje antidemocrática, hierárquica e imperial e que se chama União Europeia, subordinada aos interesses nacionais da Alemanha. E o principal executante, teorizador, legitimador, deste processo meio escondido, meio às claras, tem sido o PSD, junto com o CDS e o PS. É por isso que a direita deixou de ser patriótica para ser internacionalista, na versão europeísta.

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6.7.14


PONTO / CONTRAPONTO
  aos domingos às 20 horas na SICN.
  Se o caos do futebol não lhe alterar mais uma vez o horário.

Tema: raparigas fazendo boquinhas para as fotografias.

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DUAS CARTAS PORTUGUESAS A LUDWIG PAN, GEÓLOGO E AGRIMENSOR NA AUSTRÁLIA


 1ª CARTA

 Caro Ludwig Pan

 Não sei que antepassado te deixou de herança o nome de "tudo", porque não é todos os dias que se conhece um Pan, nem o que te levou a andares pelos antípodas a fazer “geological surveys”, em terras onde nem a Internet te chega, A distância permite essa boa pedagogia de voltar a escrever cartas, essa antiguidade caída em desuso, em vez dos apressados email. Eu sei que és discípulo dedicado do grande Humboldt, e sei também que um bom alemão dá um excelente surveyer, ou um atento Vermessungstechniker, grandes catalogadores, grandes eruditos, excelentes autores de edições críticas, coleccionadores obsessivos, e isso para encontrar ouro, depois de peneirar cem mil pedrinhas, num leito seco de rio, é garantia de sucesso. 

 Mas esse teu nome pesa demais para a nossa terra portuguesa, que se contenta com pouco. E já que queres tudo, como eu com os papéis, vou-te dar novas do meu país que podes usar como curiosidades avulsas, fazendo o teu próprio cabinet com essas curiosidades, no meio de uns fósseis ou de um geodo. 

 Mas aqui vai. O meu paÍs tem uma estranha doença, associada aos seus estados de alma e que tem a ver com o futebol. Os teus germânicos combatentes da bola parece que esmagaram as nossas “esperanças” no Mundial e a equipa, psicologicamente deprimida, passou a jogar mal. É tudo muito fraco de alma, precisam de psicólogos. Numa reviravolta psicossomática qualquer, a equipa começou a estragar o corpo e as pernas dos jogadores. Um pais de especialistas em lesões musculares discutia afincadamente o estado das pernas do jogador A ou B, mas parece que não era só A e B, mas C, D, E, F, seis pelo menos.

 A Pátria que foi embandeirada em arco para umas terras do interior do Brasil, veio de lá murcha e triste, mas alivia-se achando que todos eram muito amigos da selecção portuguesa, Ou seja, O Brasil inteiro estava tristíssimo com o que nos aconteceu e era choro e ranger de dentes quando tivemos que fazer as malas mais cedo. É interessante, o Brasil que não gosta de nós em nada, converteu-se pelo futebol… e o meu povo, necessitado de conforto na desgraça futebolística, encontrou nesse grande amor por nós um lenitivo para a desgraça da selecção. O que é que se há-de fazer? A gente ilude-se pensando que vai ganhar porque tem “o melhor jogador do mundo”, entra em depressão quando perde, depois encontra conforto na imaginação criadora de que todos nos amam e estimam “lá fora”.

 E estamos pois assim, sem saber o que fazer, nem como preencher os milhares de horas de logomaquia futebolística na televisão, que criaram, como aquele pó branco, uma habituação, de que só se sai sofrendo. E como ninguém quer sofrer, mete mais pó, cada vez mais misturado com farinha e outras coisas inomináveis. Mas tu estás livre disso, podes falar com os lagartos e pintar-te com um aborígene, mas por favor, não comas o que eles comem. Mantém um pouco de civilização. Fazes cá falta. Não sobra cá muita.

 Um abraço do teu amigo que não é Pan.

 2ª CARTA 

Meu caro Ludwig

 Perguntas-me quem manda no meu pais, na democracia, nos assuntos correntes, para contares aos anciãos aborígenes enquanto eles batem em dois pauzinhos secos uma velha encantação. Respondo-te mas não os assustes, não há magia do mundo que cure a nossa desgraça, e nem o Crocodile Dundee se safava por cá.

 Ficarás talvez surpreendido em saber que nenhum dos portugueses que conheces vem na lista que te faço. No entanto, muitos destes homens tem mais poder que o Presidente da República Falar-te-ia de um Marco, de um António, de vários Luíses, de um Carlos, de um Miguel, de um Duarte, de uma Teresa, de vários Josés, que estão nos partidos que agora se chamam do “arco da governação”, ou seja partidos de primeira. Os de segunda não contam a não ser um pequenino que se alia com um dos grandes, seja com um seja com outro. Estes nomes que te são desconhecidos, a ti que só fixas um nome caso haja algum mérito social, nasceram nos partidos, não tem outra profissão que não seja dada pelos partidos, e se tiverem que perder o emprego, nunca mais terão o trem de vida a que estão habituados.

 Agora são, na sua maioria, de uma maçonaria. Esta é uma novidade importante, porque até agora havia um partido que estava ligado à maçonaria velha e o outro odiava a maçonaria, mas parece que os costumes mudaram. Agora está ligado a uma nova maçonaria, com relações pouco recomendáveis. Será que ouvem muito Mozart? Duvido, o bater dos pedreiros na loja não deve permitir ouvir outra coisa senão a construção das muralhas dentro das quais se entrincheiram. Entretando vão estragando o país, mas isso tu já sabes que lês o Die Zeit e o Der Spiegel. 

Estes tempos dão para a meditação, podes dizer aos teus sábios dos pauzinhos que certamente se governam melhor que nós. Será que quando vivemos tempos de decadência damos por ela? Não sei. Penso que sim, mas não sei. Mas confessa que a pergunta é muito alemã.

 Do teu amigo que não é Pan.

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© José Pacheco Pereira
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