ABRUPTO

3.3.15


PELA PRIMEIRA VEZ A EUROPA TORNOU-SE UMA QUESTÃO DE POLITICA INTERNA







Pela primeira vez, desde sempre, uma matéria europeia tornou-se uma fractura de política nacional: a questão grega. Apesar dos esforços inglórios de muitos europeístas, e de alguns eurocépticos, esta entrada de uma questão europeia na agenda política nacional não se deu com nenhuma das matérias canónicas da “construção europeia”. Não foi um tratado, como o de Lisboa, não foi um projecto constitucional, não foi qualquer reforma institucional, nem o equilíbrio ou desequilíbrio do poder da Comissão, do Conselho, ou do Parlamento. Não foram fundos, nem planos, nem quadros comunitários, que esses mobilizam apenas aqueles que estão na fila para os receber e são vistos com indiferença pela maioria das populações que acham que não estão do “lado recebedor”. São matéria popular numa elite especializada em os usar, das empresas às autarquias, ou em grupos de interesse que conhecem todos os segredos da burocracia europeia para ir buscar o seu quinhão. Para o cidadão comum, é pouco mais do que umas estrelas azuis nuns cartazes junto a obras e uma enorme suspeita de corrupção pelo caminho.  Não foi, o que é ainda mais revelador, nenhuma das agendas que surgem nas eleições europeias, que só mobilizam votantes, e mesmo assim pouco, pelo uso do voto europeu nas questões políticas nacionais. 

Não foi nada disso, foi uma discussão que envolve questões poderosas mas incómodas na União Europeia: democracia, vontade popular, liberdade dos povos, igualdade das nações, soberania, pensamento “único”, hierarquias de poder, todas as questões malditas que a actual geração de governantes europeus anda a querer evitar a todo o custo e agora não pode fugir delas. Foi isso que tornou a questão grega uma questão nacional em muitos países, do “nein” alemão do Bild às sucessivas sessões do Parlamento português, com tomadas de posição pró e contra muito mais apaixonadas do que é costume numa questão internacional, e muito menos na pasmaceira que costuma caracterizar a política europeia. 

Passado um mês da vitória do Syriza, temos um mau acordo para os gregos, que o aceitaram com reserva mental e dificilmente o cumprirão, e um mau acordo para a União Europeia, que o fez também com reserva mental para “esmagar” os gregos. Pelo caminho, revelou-se um “estado” da Europa que assusta qualquer um, com uma elite governamental sob a batuta de um alemão vingativo, Schäuble (muito mais do que Merkel), que se dedicou a punir a Grécia pelo atrevimento. A Grécia, o país que mais do que qualquer outro tem razões de queixa da Europa, tendo sido sujeito a uma imposição de violenta austeridade sem qualquer resultado palpável, sob um governo espelho do poder europeu, um partido do PPE aliado com um do PSE. Não foi o Syriza que colocou a Grécia no estado em que está, foram a troika e o Governo grego amigo de Merkel, Rajoy e Passos Coelho. 

 O que se assistiu foi a uma pura exibição de poder imperial, até com uma dimensão individualizada em Schäuble, rodeado por uns gnomos serviçais e no meio de uma série de governantes que de há muito se esqueceram que eram democratas- cristãos, sociais-democratas, socialistas, e que agora são “europeístas”, uma coisa indiferenciada e iluminista, feita de uma engenharia utópica serôdia e do mais clássico impulso burocrático. O que mais os incomodou naquelas salas não foi a petulância de Varoufakis, nem os discursos inflamados de Tsipras, mas o facto de os governantes gregos terem lá chegado com um esmagador apoio popular, que as sondagens revelam ir muito para além dos resultados nas urnas, e de eles estarem acossados em cada país, a começar pelos mais serviçais, portugueses e espanhóis. 

 Para esta elite é inaceitável que ainda haja governantes que olham para baixo, para a vontade de quem os elegeu, mal ou bem, enquanto eles o que têm feito é evitar cuidadosamente levar a votos aquilo que estão a fazer, muitas vezes a milhas daquilo que prometeram nas suas campanhas eleitorais. Por isso, os gregos tinham de ser esmagados e humilhados, para regressarem à pátria como demonstração viva de que não há outro caminho que não seja a submissão, a “realidade”. A frase jocosa de Schäuble, dizendo que “os gregos certamente vão ter dificuldades em explicar este acordo aos seus eleitores”, é o mais revelador do que se passou. Não foi o dinheiro, nem a dívida, nem as “regras”, foi obrigar o Syriza a comer o pó do chão e quebrar o elo entre eles e os seus eleitores, essa coisa mais do que tudo perturbadora para estes homens. 

 E não me venham dizer que o que está em jogo é a vontade dos eleitores alemães contra a dos gregos, porque a última coisa que passa pela cabeça de Schäuble é pensar que faz o que faz porque é o que os seus eleitores desejam. Ele faz o que faz, porque defende o poder alemão na União Europeia e assim os interesses últimos da Alemanha, económicos, sociais e políticos. Ele pode ser nacionalista, os gregos não. Toda a gente percebe que o que se passou não pode ser esquecido ou “arrumado” e andar-se para a frente. Daqui a quatro meses vai tudo voltar outra vez ao de cima e é até bastante provável que a Grécia deixe o euro. Claro que nesse mesmo dia deixará de pagar a dívida e as centenas de milhares de milhões de euros emprestados vão ao ar. 

 Mas se é possível admitir um processo de saída do euro sem grandes convulsões institucionais, o que é que acontece se a Grécia quiser continuar a fazer parte da União Europeia, onde tem um voto juntamente com os outros países que, em matérias que implicam a unanimidade, é um veto? Política externa, por exemplo. Será que a Grécia pode ser “expulsa”? Não pode, a não ser que se mudem os tratados, para o que é preciso o voto grego… 

 Claro que há entorses possíveis de fazer, por gente muito habituada a fazer essas entorses, mas será líquido que os dezoito continuem dezoito contra um? Já nem sequer falo do fim da União Europeia como foi fundada, que de há muito já acabou. Falo desta coisa que se percebe muito bem: o poder imperial não pode manter-se sem a força e a força não são canhões ou soldados (a não ser no Leste da Europa, mas depois falamos disso…), mas o dinheiro, a dívida, os mercados – ou seja, como já o disse, a forma moderna de aliança entre os grandes interesses financeiros e a política. 

  Os portugueses, que as sondagens revelam estar maioritariamente com os gregos, mesmo depois dos argumentos mesquinhos de que isso lhes iria custar dinheiro, percebem isto com uma enorme clareza. O argumento de que não há manifestações a favor da Grécia com mais de 50 pessoas é bom para alimentar o fogo da Internet “liberal” e governamental que espuma com o Syriza, grita vingança e humilhação, e bate palmas a Schäuble. Mas deviam olhar com mais atenção para as razões pelas quais o Governo português, depois de ter sido exibido e denunciado no seu papel vergonhoso de acólito alemão, percebeu que tinha ido longe de mais em público e disfarça hoje os seus passos. 

Porque será? A resposta é simples: a exibição de um poder imperial unanimista dos dezoito contra um, com motivações que se percebe não terem qualquer elevação, dignidade, ou sequer utilidade, é, como todas as exibições de força, muito preocupante. Assusta, e bem, quem ainda tiver uma réstia dessa coisa maldita na Europa, o sentimento nacional antigamente chamado "patriotismo". E se um dia for Portugal a estar do lado perdedor? E se um dia os eleitores portugueses votarem num governo “errado”, como pode acontecer em democracia? E se um dia todas as políticas nacionais tiverem de ir a visto em Bruxelas (já vão em parte)? E se um dia a União se começar a imiscuir nas nossas fronteiras atlânticas, como já se imiscui no que os nossos pescadores podem ou não pescar? E se um dia algum burocrata europeu entender que Portugal deve ser reduzido a um país agrícola e turístico e fazer uma fábrica for proibido, se competir com a quota francesa ou espanhola? E se um dia os nossos europeístas (como já o dizem) considerarem que as decisões do Tribunal Constitucional são “ilegais” face ao direito comunitário? E se um dia houver um qualquer sobressalto nacional que nos coloque em confronto com um qualquer Schäuble e os seus dezassete  anões? 

Nessa altura lembrar-nos-emos certamente da Grécia.

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CARTAS PORTUGUESAS A LUDWIG PAN, GEÓLOGO E AGRIMENSOR NA AUSTRÁLIA 

(As duas primeiras  aqui, a terceira aquia quarta aqui, a quinta aqui, a sexta aqui., a sétima aqui
a oitava aqui., a nona aquii.



Espero que o mau tempo que tem andado por essa Queensland não te tenha posto em cuidados ou feito voar algum chapéu preferido, ou quiçá alguma jovem aborígene que tenha sido muito genuinamente acolhedora para o germano do outro lado do mundo que anda à procura de ouro. Cuida-te. 

 Eu sei que tu és dos alemães bons, vagamente louco, vagamente hedonista, vagamente idealista, vagamente perdido, vagamente achado, vagamente teimoso, vagamente vagamente, mas tira-te de vires cá por estes dias. Isto anda por cá tão pouco alemão que estás melhor com os aborígenes, mesmo com vento e chuva. 

Numa praça central de Lisboa está um grande cartaz em alemão que diz "eine Regierung die Deutscher als die Deutsche ist". Ia batendo com o carro contra o cartaz a primeira vez que o vi, mas neste caso a nossa pequena organização esquerdista que o fez acertou, "um governo mais alemão que o alemão", o meu, mais do que o teu. Lá está a senhora Merkel feliz a congratular um rapaz muito alinhadinho e embevecido, a sorrir e a olhar de olhos semicerrados para o céu. É dos casos em que uma imagem explica tudo, mesmo com muito Photoshop. Mas não diz tudo. Não diz que o rapaz alinhadinho é perigoso e vingativo, junto com uma senhora também muito alinhadinha, que é ministra e que se especializou a mentir ao parlamento sobre os swaps. Como este País é institucionalmente irresponsável não lhe aconteceu nada, pelo contrário teve um boost para a sua carreira. 

Perigosos mesmo que, se olharmos bem e sem a nossa miserável complacência, tudo aquilo transpire essa sinistra expressão portuguesa "poucochinho". Eu sei o que te passa pela cabeça neste instante: o "poucochinho" sempre foi muito perigoso, tu que lês romances russos e conheces a história de França sabes. Foi o que aconteceu na semana passada, com a nossa ministra muito alegre, contente e compostinha ao lado do teu Wolfgang Schäuble, que é como tu sabes duro de roer e mau, mas muito capaz. Schäuble, que sabe mais disto do que 100 governantes portugueses em fila indiana, usou-a para dar uma lição aos malvados dos gregos. Ficou-lhe muito barato e, para ele e para o seu governo, pouco comprometedor. Ali estava a viva explicação de que o "programa" e a supervisão da troika "resultaram". Mas "resultaram" como? Neste dia que te escrevo sabe-se que a nossa dívida subiu de 128% para 128,7%. O Governo contava com 127,2% do PIB, e foi com essas contas que fez o Orçamento para 2015. Pouco importa, este é dos números que não dá origem a sucessivas conferências de imprensa e declarações de vários ministros, com Portas à cabeça, sempre que há 0,1% de melhoria de qualquer número favorável. 

Claro que há alguns números positivos, mas são escassos e longe de serem uma série consistente e, muitas vezes, contrariados por números maus. Mas como estamos em ano eleitoral, por cá tudo bem. Só que era evitável que a nossa ministra fosse fazer o discurso de propaganda caseiro para, sob a batuta de Schäuble, fazer de anti-Varoufakis. Poucochinho. Foi um espectáculo deprimente que muito envergonhou os portugueses, de tal maneira que os governantes andam numa roda viva desde essa cena para cá a tentar explicar que aquilo não foi o que foi. O problema é que se vai sabendo cada vez mais que a encenação alemã antigrega foi seguida por algo muito mais preocupante, vingativo e prejudicial para os interesses nacionais: Portugal foi um dos que mais dificuldades colocou a um acordo e quem mais quis que ele fosse penalizador para os gregos. E isto é mesmo um espanto. 

Um País que não tem política externa para nada, que não balbucia uma diferença qualquer sobre coisa nenhuma, que passou estes anos de "protectorado" oficial a ser mais manso que o mais manso cordeiro, que leva as mais monumentais bofetadas de Angola e vai lá a correr oferecer a outra face, de que não se conhece uma única nuance, incomodação, interesse próprio, cerrar de sobrancelhas, nada, nada, nada, sobre qualquer matéria internacional, agora armou-se em falcão dos gregos pela trela dos alemães. Claro que, mal o falcão faz a sua falcoaria, pirueta, caça pequena, voo acrobático, regressa à luva de coiro do dono, que lhe põe a habitual venda. É, são perigosos e vingativos e já não é a primeira vez que se assiste a cenas destas. Os alvos foram os portugueses em geral, os funcionários públicos, os reformados, o Tribunal Constitucional, que tendo contrariado o Governo, ou obtido, pela aplicação da lei, que qualquer medida iníqua fosse impedida, ouviram logo a seguir um "ai sim, então vão ver como vai ser pior". 

Mas agora vão mais longe: os gregos têm de ter mais austeridade para não serem o mau exemplo que pode desencaminhar os que até agora estavam domados pela "inevitabilidade" e podem sonhar outros caminhos. Não há outros caminhos e lá solta Schäuble o falcão lusitano para dar umas voltas à sala do Conselho ou do Ecofin. Pois é "eine Regierung die Deutscher als die Deutsche ist". Desculpa lá, meu bom Pan, que estás noutra e votaste no SPD. Votaste no SPD!!! Poucochinho. Então também tens culpa! Não te escrevo durante uma semana. 

 Até mais ver.

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1.3.15



PONTO / CONTRAPONTO
  aos domingos às 20 horas na SICN.

  Até o retorno do  caos do futebol lhe alterar mais uma vez o horário.

Tema: cossacos.

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 ÍNDICE DO SITUACIONISMO: ORIENTAÇÕES DO SPIN PARA HOJE



Críticas directas ao governo grego pelo Primeiro-ministro e Presidente da República portuguesa: 
NÃO LEMBRAR, 
DESVALORIZAR.

Críticas directas do governo grego ao governo português: 
PUXAR PELA DIGNIDADE PÁTRIA, 
VALORIZAR

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26.2.15


ÍNDICE DO SITUACIONISMO: ORIENTAÇÕES DO SPIN



Orientações do spin para hoje:

- procedimento da Comissão Europeia contra Portugal devido aos desequilíbrios excessivos da economia: DESVALORIZAR

- análise de risco do Commerzbank: VALORIZAR.

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16.2.15


AS TROMBETAS DO PODER

O "jornalismo" económico em Portugal caracteriza-se por não ser jornalismo. Há alguns jornalistas económicos que não merecem aspas? Há sem dúvidas, mas são a excepção da excepção. E eles são os primeiros a saber que o são e como são verdadeiras as afirmações que aqui faço. Até porque fazer jornalismo na imprensa económica é das coisas mais difíceis nos dias de hoje. Fica-se sem "fontes", sem a simpatia dos donos e dos anunciantes e pode-se ficar sem emprego.

 A maioria que escreve na imprensa "económica" fá-lo entre páginas e páginas feitas por agências de comunicação, artigos enviados por auditoras e escritórios de advogados, fugas "positivas" de membros do Governo. Quase tudo é pago nessa imprensa, mas esse pagamento não é o salário normal do jornalismo, mas o seu "modelo de negócio", "vender comunicação" como se fosse jornalismo. É pago por empresas, associações de interesse, agências de comunicação e marketing, por sua vez empregues por quem tem muito dinheiro para as pagar.

 O público é servido por "informação" que não é informação, mas publicidade e comunicação profissionalizada de agências, dos prémios de "excelência" disto e daquilo, destinados a adornar a publicidade empresarial, páginas encomendadas por diferentes associações, grupos de interesse e lóbis, nem sempre claramente identificados, anuários sem que só se pode estar se se pagar, organização de eventos que parecem colóquios ou debates, mas não são.

 Um cidadão que não conheça estes meandros pensa que o prémio é competitivo e dado por um júri isento, que as páginas especializadas são feitas pelos jornalistas e que quem é objecto de notícia é-o pelo seu mérito e não porque uma agência de comunicação "colocou" lá a notícia, que um anuário é suposto ter todos os profissionais ou as empresas de um sector e não apenas as que pagam para lá estar, e que um debate é para ser a sério, ter contraditório e exprimir opiniões não para a propaganda governamental ou empresarial. O acesso ao pódio nesses debates é cuidadosamente escolhido para não haver surpresas, e os participantes pagam caro para serem vistos onde se tem de ser visto, num exercício de frotteurisme da família das filias.

 As trombetas do poder (2)

 Um dos usos que o poder faz deste tipo de imprensa é a "fuga" punitiva. Dito de outro modo, se o Governo tiver um problema com os médicos, ou com os professores, ou com os magistrados, ou com os militares, aparece sempre um relatório, ou uma "informação" de que os médicos não trabalham e ganham muito, que os professores são a mais e não sabem nada, que os magistrados são comodistas, e atrasam os processos por negligência, e que os militares são um sorvedouro de dinheiro e gostam de gadgets caros. E há sempre um barbeiro gratuito para o pessoal da Carris, ou uma mulher de trabalhador do Metro que viaja de graça, em vésperas de uma greve.

 As trombetas do poder (3)

 A luta contra a corrupção, seja governamental, seja empresarial, a denúncia de "más práticas", os excessos salariais de administradores e gestores, a transumância entre entidades reguladoras e advocacia ligada à regulação, entre profissionais de auditoras e bancos que auditavam e vice-versa, o embuste de tantos lugares regiamente pagos para "controlar", "supervisionar", verificar a "governance" ou a "compliance", para "comissões de remunerações", a miríade de lugares para gente de estrita confiança do poder, que depois se verifica que não controlam coisa nenhuma, nada disto tem um papel central na imprensa económica. A maioria dos grandes escândalos envolvendo o poder económico foram denunciados pela imprensa generalista e não pela imprensa económica, que é suposto conhecer os meandros dos negócios. A sua dependência dos grandes anunciadores em publicidade, as empresas do PSI-20 por exemplo, faz com que não haja por regra verdadeiro escrutínio do que se passa.

 As trombetas do poder (4) 

Esta imprensa auto-intitula-se "económica", mas verifica-se que reduz a "economia" às empresas e muitas vezes as empresas aos empresários e gestores mais conhecidos. Os trabalhadores, ou "colaboradores", é como se não existissem. Um exemplo típico é Zeinal Bava, cuja imagem foi cultivada com todo o cuidado pela imprensa económica Agora que Bava caiu do seu pedestal, como devemos interpretar as loas, os prémios, doutoramentos honoris causa, "gestor do ano", etc., etc.? A questão coloca-se porque muita da análise aos seus comportamentos como quadro máximo da PT é feita para um passado próximo, em que teriam sido cometidos os erros mais graves. Onde estava a imprensa económica? A louvar Zeinal Bava, como Ricardo Salgado, como Granadeiro, como Jardim Gonçalves, como… Até ao dia em que caíram e aí vai pedrada. 

 As trombetas do poder (5) 

Dito tudo isto... ...a imprensa económica é uma das poucas boas novidades na imprensa em crise nas últimas décadas. Eu, em matéria de comunicação social, sou sempre a favor de que mais vale que haja do que não haja, por muitas objecções que tenha ao que "há". Eu não gosto em geral do modo como se colou ao discurso do poder, servindo-lhe de trombeta, e isso pode vir a ser um problema, até porque esse discurso está em perda e os tempos de luxo para o "economês" já estão no passado.

 O facto de ter havido um ascenso da imprensa económica ao mesmo tempo que estalava a sucessão de crises, da crise bancária à crise das dívidas soberanas, impregnou-a do discurso da moda, encheu-a de repetidores e propagandistas, colou-a ainda mais aos interesses económicos. Abandonou a perspectiva política, social, cultural, sem a qual a economia é apenas a legitimação pseudocientífica da política do poder e dos poderosos. Vai conhecer agora um período de penúria, em particular de influência, e pode ser que isso leve a um esforço introspectivo sobre aquilo que se chamou nos últimos anos, "danos colaterais", agora que caminha também para essa "colateralidade".

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10.2.15


CARTAS PORTUGUESAS A LUDWIG PAN, GEÓLOGO E AGRIMENSOR NA AUSTRÁLIA 

(As duas primeiras  aqui, a terceira aquia quarta aqui, a quinta aqui, a sexta aqui., a sétima aqui
a oitava aqui.)i.


Isto por cá está uma enorme confusão. Uns gregos resolveram votar torto e caiu o céu e a terra. Tu que estás nos antípodas, é como se a terra virasse ao contrário e eu estivesse agora a ver o Cruzeiro do Sul e tu espantado com a posição de Oríon. Os teus aborígenes deviam achar graça ao desconcerto do mundo. No fundo, eles já viram tudo sobre a terra.

 O nosso primeiro-ministro passou-se e disse que as ideias dos gregos pareciam um "conto de crianças". Devia querer dizer um conto de fadas, mas a imaginação faltou-lhe. O nosso vice-primeiro-ministro passou-se também e resolveu fazer piadas de género e chamou ao Syriza, "Syrizo", porque o governo grego não tem mulheres. Quando a gente menos espera havíamos de ver tudo sobre a terra, até este "Syrizo". Esta até aos aborígenes devia espantar.

 Mas que conto para crianças é que estava na cabeça do primeiro-ministro? Nos da Disneylândia acaba sempre tudo bem, o príncipe encontra sempre a princesa, salvam-se todos, e a Bruxa Má fica a roer-se diante do espelho, neste caso, a televisão. Deixo em paz os teus irmãos Grimm para não te trazer recordações da Pátria, nem pesadelos de infância. De Perrault fico-me pel’O Gato das Botas. Mas aí os gregos saem-se muito bem, com Tsipras a trazer riqueza e a mão da princesa para o seu "dono" o povo grego. Mas, para efeito de argumento, porque o primeiro-ministro não estava a desejar nada de bom aos gregos, deixo os contos mais pacíficos, que são todos a favor do fim feliz, e vou para os contos terríveis, para os contos de Andersen.

 A Roupa Nova do Rei? Com o dueto grego Tsipras-Varoufakis a vender o tecido que só era visto pelos inteligentes a Merkel? E Merkel a passear-se impante no seu novo trajo perante a gargalhada europeia? Hum! Desadequado. Não me parece que Tsipras ande a ler Aristófanes, nem que as personagens estejam certas. Passemos adiante. A Pequena Sereia? Bom, a coisa corre mal para a Sereia, mas no fim ganha uma alma. Não está mal. O Soldadinho de Chumbo? Aí também a coisa não corre muito bem ao Soldadinho, mas no fim, como se sabe, derrete em forma de coração e recebe esvoaçando os restos da bailarina sob forma de lantejoula. Ora, se Tsipras e Varoufakis arderem numa fogueira ateada pela perversa Merkel e pelo seu ajudante de campo Passos, e ficar à vista dos europeus um pequeno coração de chumbo sob o qual oscila uma lantejoula, quem é que parará as massas insurrectas da Europa? Sturm und Drang. Aí vão elas animadas por um fulgor romântico e a gritar: "Podemos não poder", mas vocês "é que já não podem de todo". Um coração de chumbo e a lantejoula da bailarina "podem" muito e os mártires são muito, muito, perigosos. 

 O Patinho Feio não dá. Os gregos ganhavam logo asas majestosas e deixam os nossos patos feios e furiosos a verem a elegância do voo. Imagino os patos intransigentes na sua fé alemã a roerem-se no papel digital… A Princesa e a Ervilha, também não dá, porque a pele sensível do povo grego já deu pela ervilha e ganhou a ascensão à mão do príncipe. Esse estava adquirido. Sobram Os Sapatos Vermelhos, talvez o mais cruel dos contos. Mas deste não consigo tirar nada, a não ser o nervosismo dos donos da Europa que dançam e dançam até ficarem mirrados ou terem de cortar as pernas. Mas este não dá para muito. É demasiado sinistro para crianças, ou então é mesmo o único que é verdadeiramente um conto infantil. Bom, mas parece-me que não era por aí que Passos queria ir, nem o "Syrizo". 

 Estás a ver o que os gregos fizeram? Tu aí atrás do ouro que não aparece, e a gente a ver O Grand Guignol pela Europa inteira. Pode ser que Tsipras e Varoufakis te vão buscar para ires procurar ouro nas montanhas deles. Dava-lhes jeito e ainda nos faziam uma careta qualquer, daquelas do teatro clássico. 

 Adeus meu Pan amigo, até ao próximo sobressalto.

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31.1.15


PONTO / CONTRAPONTO
  aos domingos às 20 horas na SICN.

  Até o retorno do  caos do futebol lhe alterar mais uma vez o horário.

Tema: Σαλταδόρος

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LOCAIS INFECTOS


De que alfurjas, bueiros, cavernas sulfurosas, loca infecta, saíram estas legiões de comentadores, articulistas, jornalistas, escreventes, gente dos blogues, que passaram o dia das eleições gregas a pedir mais austeridade punitiva para os gregos, mais desemprego, mais pobreza e miséria, mais impostos, menos salários e serviços públicos, como retaliação e vingança por terem tido o topete de votar no Syriza? Ai quiseram livrar-se da austeridade, pois preparem-se para levar com o dobro, para não se porem com ideias! Os insultos a um dos povos mais martirizados da Europa – martírio sem resultados, como todos podem perceber – sucederam-se: não querem trabalhar, querem viver à custa de empréstimos que não têm intenção de pagar, pior do piorio, mentirosos, falsificadores de contas, enganadores de alemães, violentos, mal-agradecidos, tudo. 

Ouvindo estas vozes, exigindo que a única política europeia seja "levar o Syriza à derrota" para evitar o contágio, sem transigências e com toda a dureza, eu penso como nestes últimos anos nós não tivemos só discussões políticas e ideológicas (poucas aliás, a sério), alimentámos o mal. O mal. Nalguns sítios da nossa sociedade gerámos, alimentámos, engordámos, trouxemos à luz do dia gente má, muito má, que mandou e manda em nós, instilando arrogância, desprezo pelos mais fracos, insensibilidade face à miséria, gente que olha os gregos como se fossem untermenschen. Do alto do seu conforto, sim porque o conforto distingue-os da ralé, eles andam a passear-se nestes dias com uma enorme espinha na garganta, mais do tamanho de uma trave do que de uma espinha, e não gostam. Obrigado aos gregos por terem ensinado aos maldosos que a sua impunidade tem limites. 

O FIM DO BLOQUEIO EUROPEU 

Um dos resultados mais positivos das eleições gregas é terem acabado com o bloqueio que as políticas da "inevitabilidade" traziam à Europa. O isolamento alemão (e português) é maior, e todos os outros países têm hoje razões e obrigações de mitigar, moderar e mesmo, num certo sentido, acabar com a hegemonia alemã das políticas de austeridade. A decisão e o maior protagonismo do Banco Central Europeu já abria caminho para essa inversão. Draghi não se limitou a propor uma medida "técnica" contra a inflação negativa, mas explicou preto no branco que as políticas anteriores tinham dado mau resultado e propôs-se aplicar uma medida que classificou de "expansionista". Não admira que Passos Coelho não tenha gostado, as suas declarações, inequívocas neste caso, consideravam estas políticas como "erros". 

 Mas o soçobrar do bloqueio da "inevitabilidade" (aquilo que mais dói aos detractores das eleições gregas) vai tornar mesmo governantes fracos como Hollande, um obstáculo para o curso punitivo que Merkel, Rajoy e Passos desejariam "para derrotar um governo do Syriza". Eu não tenho nenhuma especial simpatia por Hollande, mas não o estou a ver a assinar de cruz medidas punitivas contra os gregos e, sem a França, a hegemonia alemã enfraquece muito. É isso que significa o desfazer do bloqueio: há hoje alternativas políticas que seriam impensáveis há seis meses. Obrigado aos gregos por terem permitido a possibilidade de uma melhor Europa. 

NÃO VAI SER FÁCIL

Todos sabemos que o caminho dos gregos não é fácil. Sabemos, a começar pelos gregos, que enormes dificuldades vão estar pela frente. Mas pela primeira vez depois destes anos de lixo, foram eles próprios que escolheram o caminho das pedras que queriam trilhar e não os alemães e os burocratas europeus. Faz uma enorme, gigantesca diferença, este assumir de dignidade nacional para um país que foi humilhado como poucos. 

 E é uma bofetada de luva branca para muitos que enchem a boca com a "Pátria", para depois a descreverem como um "protectorado", que aceitaram com aplauso abdicar de todos os traços da nossa soberania, e transformarem Portugal num vassalo obediente, muito além do que seria razoável pelas nossa atribulações financeiras, que tenha sido um partido que descrevem com desprezo como de "extrema-esquerda", que restituiu à Grécia a honra perdida. 

 Sim, porque na vitória do Syriza o conteúdo do seu programa foi o que menos contou, mas a afirmação da independência e da soberania de um povo que não esqueceu as violências que os alemães fizeram na Segunda Guerra Mundial, e os insultos à Grécia na última década, e a vontade de varrer a elite política nacional corrupta que foi o seu instrumento. Uma vitória destas não se obtém sem ser pelo contra, por aquilo que os gregos não queriam. Depois virá o resto. Obrigado aos gregos por nos terem ensinado que em tempos de lixo o que verdadeiramente mobiliza a mudança é o que não se deseja, e só depois de se ter atirado borda fora esse lastro é que se pode começar a falar outra língua. 

 AFINAL OS GREGOS NÃO FAZEM TUDO MAL

Portugueses, aprendam com os gregos! Eleições no domingo, coligação durante a noite, governo na tarde do dia seguinte. Obrigado aos gregos por nos darem lições de eficácia.

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25.1.15


A CITAÇÃO DE CHURCHILL MAIS ADEQUADA AOS DIAS DE HOJE E AO PENSAMENTO DO CONTRA QUE DEVE ANIMAR QUEM NÃO QUER ESTA DESGRAÇA GOVERNATIVA


If Hitler invaded hell I would make at least a favourable reference to the devil in the House of Commons.


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11.1.15


CHARLIE

N'EST PAS

CHARLIE

1. Este poderia ser um título do Charlie Hebdo se se mantiver o espírito dos assassinados. Eles seriam os primeiros a satirizar a sua própria morte e a gozar com o unanimismo que hoje sai à rua a seu pretexto e em nome de uma "liberdade de expressão" de que eles, no conjunto da sua vida, só conheceram porque a forçaram. O Hara-Kiri que o diga que, com o seu título provocatório depois da morte de De Gaulle, foi encerrado. "Bal tragique à Colombey: 1 mort" foi o título.

2. A marcha de hoje pode muito bem chegar ao milhão de participantes ou ainda mais. O sentimento de quem participa é de genuína revolta e é respeitável. Para além disso as pessoas gostam destes unanimismos e a mobilização maciça que é feita pelos media, cria quase um dever moral de participar. Mas a marcha de hoje já tem todas as ambiguidades que a tornará inócua e por isso mesmo perigosa.

3. À sua frente vão os homens e mulheres que estão a construir uma Europa não democrática, de Merkel a Passos Coelho, que abandonaram qualquer ideia de uma Europa assente na solidariedade, que ajudaram a criar e a reforçar sociedades em que não há mobilidade vertical, o único mecanismo que permite assegurar o melting pot, logo a integração de todos, os que cá estão e os que conseguem passar as aguas do Mediterrâneo sem morrer nelas.  Mas, pior ainda, fecharam os olhos aos problemas que coloca aos valores da nossa civilização "ocidental", ( e sei bem que todas estas palavras são ambíguas, mas servem), a emergência de um Islão transformado num movimento político que assume exactamente esse carácter político ao combater esses valores. É esse o seu conteúdo político e o resto é a sharia.

4. O "politicamente correcto" está em reduzir o problema desse Islão político às suas manifestações mais radicais, ao terrorismo da Al Qaida ou do ISIS, quando é um problema societal e cultural que está muito para além disso. E este "politicamente correcto", presente como um mantra bem intencionado repetido por todos, oculta os problemas para debaixo do tapete. E debaixo desse tapete habita a Senhora Le Pen, que percebe muito melhor os problemas que são sentidos por milhões de franceses, os problemas de proximidade, os mais perturbadores, do que os discursos vazios de Hollande e os seus amigos europeus.


5. Alguns dirigentes muçulmanos, quase todos com a cabeça a prémio pelos fundamentalistas,  são a voz da razão e moderação. Mérito deles. Aliás, se o Rei e a Rainha da Jordânia participarem na marcha, é deles a maior coragem. Mas a verdade é que fora destas tragédias, dos atentados e assassinatos, não é a comunidade muçulmana que sente como seu primeiro problema o assalto aos valores da democracia, e da liberdade feitos em nome da sua religião, mesmo nos países ocidentais. Só uma minoria, muito minoritária, fala como deve falar e mesmo assim nunca falaram alto e bom som  pelo direito de se ser blasfemo numa sociedade livre, como não falam com clareza sobre a principal fractura civilizacional que separa o mundo ocidental das sociedades islâmicas, o papel e condição da mulher.

6. A questão não está na religião em si, (embora do ponto de vista histórico, como se passou com o cristianismo, a autoridade interpretativa teológica mais forte no papado assim como no xiismo e menos no sunismo, tenha algum papel)  mas no modo como é vivida, entendida e controlada por imans, clérigos e dirigentes civis, universidades, escolas, instituições de beneficência,  poderes e autoridades, como não havendo separação entre estado e igreja, logo impondo ou legitimando padrões de comportamento na sociedade que ofendem a liberdade individual. O problema é que mesmo nos casos em que a "primavera árabe"  tentou democratizar as sociedades, o que emergiu, como já acontecera na Argélia com a vitória eleitoral da FIS, foi uma enorme pressão para o retorno da sharia, e a punição dos infiéis. O mesmo se passa nos países "libertados" dos seus ditadores pelo apoio ocidental, como a Líbia, o Iraque, ou a tentativa de derrubar Assad na Síria, todos deram origem a sociedades onde ser-se ateu é correr um real perigo de morte, e as mulheres se escondem debaixo de camadas de véus, e o que aumenta é a Al Qaida ou o ISIS.

7. Ora em sociedades europeias em que comunidades muçulmanas crescem pela história colonial ou pela emigração mais recente, estes mesmos códigos de comportamento tem vindo a estabelecer-se. Não estou a falar obviamente dos radicais fundamentalistas, embora haja relação entre o crescente recrutamento por exemplo para o ISIS e este processo de maior controlo religioso, de maior intransigência face aos comportamentos considerados "pecaminosos", das mulheres em primeiro lugar. E este problema não pode ser deixado à Senhora Le Pen.

8. Para usar um exemplo do judaísmo, eu não quero que haja, onde vivo, no espaço público,  algo de parecido com o Bairro Mea Shearim de Jerusalem e o que acontece em certos sítios da Europa, a França em particular, é que se caminha para aí. Eu se for a uma mesquita cumpro os códigos de decoro que me são pedidos, como aliás acontece nas igrejas cristãs. E penso que é legítimo pedir esses códigos mesmo às mulheres. Quem não quer não vai lá. Mas espero que na rua da esquina da mesquita uma banca de jornais possa ter o Charlie Hebdo ou o Playboy, sem correr o risco de ser vandalizada ou  incendiada. Faz toda a diferença.


(Continua.)

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7.1.15


UM APELO

para que amanhã as capas dos jornais e a abertura dos noticiários televisivos mostrem aos assassinos que não colherão frutos do terror,  reproduzindo as imagens livres do Charlie Hebdo.

Bem pelo contrário.


PS. Nada tenho contra o "Je Suis Charlie", mas não é a mesma coisa, como sabemos todos muito bem.


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CARTAS PORTUGUESAS A LUDWIG PAN, GEÓLOGO E AGRIMENSOR NA AUSTRÁLIA 

(As duas primeiras  aqui, a terceira aquia quarta aqui, a quinta aqui, a sexta aqui., a sétima aqui.


Devíamos fazer tréguas no Natal, eu desta constante guerra civil e tu dessa procura da paz pela expiação do pecado alemão de não ter culpa? Eu sei a resposta: não. Eu fiquei missionário da justiça, azorrague dos poderosos, voz dos insatisfeitos, irritação dos contentes, trombeta da moral pública, enfim uma maçada. E tu lá vais voltar para o lado de baixo do mundo a ver se, procurando ouro, consegues ser menos Siegfried e mais aborígene, o que é definitivamente impossível. Uma vez mergulhado no sangue do dragão fica-se assim. Bem sei que, como Aquiles, também tens um soft spot, onde uma folha colada ao corpo te impediu de ser totalmente coberto pelo líquido todo-poderoso do dragão, Mas isso abafa-se com schnapps.

 Aqui estamos nós a fazer o que não queremos pela civilização, eu procurando um homem justo, medianamente justo, apenas um pouco de justo, talvez só não injusto e tu, virando mundo ao contrário a comer raízes. C’est la décadence mon cher. Por falar nisso já sabes que nos prometem que 2015 vai ser o ano do retorno, do optimismo, do crescimento, dos maiores rendimentos, do sair do fundo do túnel, da glória das exportações, do fim dos privilégios, dos poderosos e das injustiças. Sim, é como no Harry Potter, há por cá mágicos a mais, todos a mexer nas suas vibrantes varinhas e a transformar chumbo em ouro. Agora chamam-se agências de comunicação, ou de marketing político. Devias contratar um deles a ver se te ajudava nessa procura australiana do pó dourado, mas corrias o risco de quando a valiosa carga chegasse à Alemanha estivesse feita em areia fina.

 Mas a minha verdadeira gargalhada vai para o novo mundo em que o nosso mamífero lagomorfo da família dos leporídeos nos diz que acabaram as mordomias, os privilégios, os favores, os poderosos e as injustiças, apenas porque os Espírito Santo caíram do seu pedestal para o vilipêndio do público. Foram muito empurrados por eles próprios, pela inépcia do Banco de Portugal e pelos ziguezagues governamentais, umas vezes pretendendo ser salvíficos, outras vezes hostis, até porque Ricardo Salgado colou-se demais ao engenheiro que está preso e o "bom" Espírito Santo chamava-se Ricciardi e é "amigo" de Relvas e do primeiro-ministro. Tenho sempre as maiores das dúvidas sobre estas "amizades".

 Como é? Eram amigos de escola, Relvas e Passos naquelas universidades com cursos instantâneos e o "bom" José Maria saído da casa, onde brincava com o primo, para estudar "Sciences Economiques Appliquées", pelo Instituto de Administração e Gestão da Faculdade de Ciências Económicas, Políticas e Sociais, da Universidade Católica de Lovaina? Então o homem vem de estudar com os jesuítas na Bélgica e fraterniza com um pequeno mação do PSD? 

 Hum… Ajudaram-no a fazer a tese La Banque et la Prise de Décision d’Octroi de Crédits d’Investissement, ou foi pelo contrário o nobre banqueiro a ajudá-los a fazer os trabalhinhos de casa para a Lusófona? Frequentavam a casa uns dos outros, jogavam ténis, tinham os mesmos alfaiates, as mulheres iam às compras juntas? Investiam em conjunto comparando portfólios da Bolsa e trocando dicas sobre acções, "olha compra aquelas" e não estas, eram "empreendedores" nalguma empresa que fosse deles e não dos seus patrões? Ou pura e simplesmente nalguma esquina do poder, nalgum encontro da imprensa económica, nalgum jantar daqueles que os seus protectores angélicos organizam para os socializar e os apresentar "às pessoas certas", gostaram-se de uma amizade inquebrantável e à primeira vista? Mistérios, tão insondáveis como os divinos, não houvesse mão do Espírito Santo em todas as coisas mundanas. 

 O pior foram as escutas telefónicas, meu bom Pan, porque em Portugal toda a gente é escutada, tão grande é a endogamia caseira e tão frágil a investigação sem as ditas. O paroxismo foi durante o caso Casa Pia, sabes, aquela "cabala" contra o PS, que motivou as mais lamentáveis cenas no nosso parlamento? Também aí havia um responsável pela investigação que tinha a tese da pesca de arrasto e queria cruzar as chamadas feitas por todos os portugueses para ver se havia padrões com os telefonemas dos pedófilos, os verdadeiros e os imaginados. Sim, o mesmo que colocou o cardeal patriarca numa fila fotográfica de identificação. Por falar disso, na Alemanha da chanceler também estão sempre a cair os telefones? Também fazem ruídos estranhos, também têm aqueles hiatos comprometedores? Ou já acabou a Stasi? Ou integraram os "técnicos" da outra Alemanha nos serviços federais onde eles se encontraram com os agentes que controlavam ao serviço de "Karla" numa grande festa democrática? 

Bem, presumo que na tua longínqua Austrália não deve haver escutas em terras aborígenes. Who cares? Nem o telefone funciona, e as línguas locais são difíceis. Dá notícias da tua chegada, pelo velho processo das cartas, porque a probabilidade de já não haver ninguém a abri-las é grande. Com tanto telefonema, SMS, email, Skype, WhatsApp, nem o mais rico dos serviços ainda tem gente para descolar cartas a vapor e colá-las de novo. Além disso, podemos sempre comunicar como a Al-Qaeda no Afeganistão, mando-te um homem de burro com uma mensagem e um drone atrás. Recebes a carta e um míssil, e isso é que é comunicar!

 Bom regresso!

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5.1.15


TÃO ABANDONADO ABRUPTO...

... esperando pelo muito escasso tempo. Vamos ver se esta semana o coloco em ordem, militar, prussiana, ordem ordenada, que coma o tempo que está para trás e que lhe devia.

Bom ano!

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4.12.14


O COMBATE POLÍTICO DE SÓCRATES NÃO É O NOSSO



 Agora que José Sócrates entra no seu último grande combate político – que é como ele olha para a sua prisão e para as acusações que lhe são feitas – e quando o ano eleitoral vai ser dominado pelo confronto entre os que vão usar a sua “culpabilidade” contra o PS, exigindo demarcações e purgas, e os que vão ver na prisão de Sócrates uma última manobra dos “malandros” que nos governam – duas teses politicamente fortes – resolvi andar para trás, para a memória.

 Deixei de lado o argumento “responsável” de que “o que é da Justiça é da Justiça” e “não se deve misturar Justiça e “política”, porque isso pouco mais é do que “linguagem de madeira”, langue de bois, que se pode recitar (e desejar), mas que será varrida pela vida pública concreta que em democracia não é asséptica e inclui tudo: vinganças e amizades, desejos e medos, suspeitas e certezas, imagens e factos. Como é que chegamos aqui? Para quem escreve todas as semanas nos jornais isso significa: viste o que aí vinha?

 No livro que publiquei sobre os “dias do lixo” não os comecei por Passos Coelho, Relvas, Gaspar e companhia, mas pelos últimos anos de José Sócrates. Foi aí que começaram os “dias do lixo”. No dia 16 de Outubro de 2010, governava Sócrates, escrevi no Público um conjunto de frases para os “tempos de hoje”. Peço desculpa de me citar, mas a gente também tem de ser avaliada pelo que disse, com data. 

 As frases eram dirigidas a Sócrates, a um Sócrates que tinha ganho as eleições e estava em plena loucura de esbanjamento, e a Passos Coelho, a um Passos que tinha então um discurso contra Manuela Ferreira Leite muito próximo do de Sócrates. Sócrates caminhava velozmente para o PEC IV e a bancarrota, Passos Coelho tinha posições pouco distintas de Sócrates, recusando a austeridade do PC IV, a última que se poderia ter tido sem troika, porque a achava “excessiva”. Passos Coelho prometia não aumentar impostos, nem despedir ninguém, nem cortar subsídios de Natal, nem tocar nas reformas, mas apenas atacar as “gorduras” do Estado. 

 Ambos estavam pior do que ceguinhos. Quando falo a seguir de austeridade, falo contra Sócrates e Passos Coelho. E quando elogio a determinação sobre o défice, a dívida, não falo do Passos Coelho de 2012-4, porque os problemas que ele defronta hoje foram em grande parte criados por ele próprio, pelo modo como teve de lidar com o descalabro orçamental gerado pelas despesas sociais resultado da “surpresa” do desemprego e pela depressão na economia. Como escrevi então, a boa política é a “a que escolhe as melhores medidas de austeridade e evita as más medidas de austeridade”. Não foi o que aconteceu, a “austeridade” foi conduzida por um programa ideológico, uma profunda ignorância do país e muita incompetência – por isso, os problemas que defrontamos hoje são fruto de Sócrates e Passos Coelho em conjunto. 

 Retirei uma ou outra frase, não porque não as pudesse incluir, mas para economia da citação, já de si bastante pouco económica. Serviam apenas para reforçar a frase anterior. Apesar de tudo isto hoje em 2014 parecerem trivialidades, regressem a esse ano de interregno, 2010, entre a vitória eleitoral de Sócrates e a sua demissão, e leiam o que se escrevia e dizia, do PS ao PSD, para comparar. 

Aqui vão algumas das frases de 2010, escritas muito antes da troika: 

 “1. A crise económica, social e política não vai durar um ou dois anos, vai durar pelo menos uma década. Na melhor das hipóteses. 


 2. O político que disser que as coisas vão melhorar na volta da esquina está a mentir.(…)

 7. Primeiro serão os salários, depois serão as reformas. (…) 

 8. Nenhum imposto que subiu descerá tão cedo, se descer.

 9. Nenhum salário que foi cortado voltará a ser inteiro. 

 10. Os mais pobres serão as vítimas principais, como sempre. 

 11. A classe média é que conhecerá a maior queda de qualidade de vida. 

 12. Algumas pessoas enriquecerão com a crise. 

 13. A corrupção continuará florescente. (…) 

 14. A crise matará milhares de pequenas empresas. (…) 

 16. As escolas tornar-se-ão mais caóticas. O clima de crise social é propício à indisciplina grave.(…)  

18. A Saúde ficará bastante mais cara para todos. 

 19. A TAP pode não sobreviver à crise, a RTP sobreviverá. (…) 

 24. No final da década os portugueses vão estar pobres e a caminho de ficarem ainda mais pobres. Se nessa altura a nossa situação da dívida e do défice estiver controlada, ganhamos a década. Se não, perdemos ainda mais. 

 25. O estado dos portugueses será de irritação política, na melhor das hipóteses. Na pior poderá haver violência. (…) 

 28. Liberais e estatistas todos cortarão no Estado. Só não cortarão nas mesmas coisas.

 29. Os nossos direitos face ao Estado tornar-se-ão quase inexistentes. Face ao fisco quase nenhum direito sobreviverá. 

 30. A nossa privacidade desaparecerá. O Estado vai conhecer por onde andamos, o que compramos, o nosso dinheiro, as nossas prendas, tudo o que sirva para taxar. O Google conhecerá o resto. 

 31. O fisco será a face do Estado mais próxima dos cidadãos e a mais odiada. (…) 

 33. O desespero será um sentimento muito comum. Os ricos terão depressões, os pobres desespero. 


34. Esta década conhecerá na prática o fim dos direitos adquiridos. (…) 
 38. A única política que se pode considerar patriótica não é a que se afasta da austeridade para dar “folga” aos portugueses, mas a que escolhe as melhores medidas de austeridade e evita as más medidas de austeridade. 

 39. A maioria das medidas de austeridade que qualquer governo vai aplicar nos próximos anos é escolhida e decidida no exterior, pela Alemanha, pela UE, pelas agências de rating, pelo FMI, e pelos credores. 

 40. Poucos políticos actuais sobreviverão à década, mas isso não significa renovação. 

 41. A maioria dos políticos das novas gerações será profissional da política. Os seus verdadeiros cursos são nos partidos e fora terão apenas cursos de plástico para colocar o dr. e o eng. antes do nome. 

 42. Os partidos serão substituídos pelos aparelhos partidários; fechados sobre si próprios, tornar-se-ão comunidades de poder e com poder. 

 43. Haverá cada vez mais familiares de políticos actuais nos lugares políticos. 

 44. A crise de lugares, empregos, salários, benesses tornará a competição dentro dos partidos cada vez mais dura, visto que os partidos serão uma das saídas rápidas para aceder a um lugar remunerado, para que menos qualificações se exigem. (…)

 46. As eleições partidárias internas serão cada vez mais competitivas, duras e agressivas. Os lugares são poucos e a fome muita. 

 47. Os grandes interesses organizados terão na prática um direito de veto sobre as principais medidas políticas. 

 Este foi o mundo que Sócrates deixou e Passos Coelho continuou.  A minha última frase era: "Comparado com o que aí vem nenhuma destas previsões é especialmente pessimista.” Não foram. A realidade foi muito pior: desembocou num ex-primeiro-ministro preso, em altos quadros do Estado presos, na queda do mais poderoso grupo bancário português, adorado pelos aspirantes a singapurianos novos-ricos entre o Martini man e o “homem da Regisconta”, que ainda nos governam, pela mistura de pseudo-aristocracia e altas esferas do dinheiro e do poder. Em que é que isto tem a ver com a prisão de Sócrates? Tudo. Se ele deseja um julgamento político, ele que nos deixou de herança Passos Coelho, como ele foi herança de Santana Lopes, de mim terá apenas a repetição do que disse no passado. 

Para esse peditório político não dou. Este homem fez muito mal a Portugal. Não o quero preso injustamente, nem o quero preso apenas porque fez muito mal ao seu país, até porque o fez com milhões de votos dos portugueses. Desejo-o livre pela sua pura inocência e não pelas suas atitudes de “animal feroz”, arrastando para o seu gigantesco ego um combate político que é suposto ter outros alvos e outros motivos. Apesar das frases politicamente correctas do seu comunicado, pedindo ao PS para ficar à margem, ele não deseja outra coisa que não seja envolver tudo e todos no seu destino pessoal, mesmo que isso implique comprometer a oposição a soçobrar pouco a pouco numa teoria conspirativa. 

 Protestem, como eu protesto, contra tudo o que seja abuso do poder judicial, fugas orientadas de informação, humilhações escusadas, mas não dêem o passo que ele deseja que dêem. Por favor, projectem a recusa zangada do Governo para melhores causas do que o destino político do engenheiro Sócrates.

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QUEM CRIA MAIS POSTOS DE TRABALHO? O BLOCO DE ESQUERDA OU A REMAX?




 Esta pergunta foi feita por Paulo Portas, quando no Parlamento se explicava sobre os vistos gold, política de que é o principal patrocinador. 

 Esta frase merece ficar na memória destes anos de lixo, juntamente com o “irrevogável” do mesmo autor, e de algumas outras de Passos Coelho sobre os “piegas” versus os empreendedores, ou o “ir para além da troika”, ou a “austeridade criadora”, ou o fabuloso conceito de “justiça geracional”, ou os saltos no palco do “jovem” comissário do Impulso Jovem que nunca deve ter percebido como é que acabou a sua nobre missão de explicar a inutilidade de saber história ou sequer de estudar. Hoje tudo isto nos parece ridículo e perigoso, uma combinação sinistra,até porque tudo ainda está no activo. Vamos um dia olhar para estas frases, com a distanciação possível da história, e perceber melhor o retrato de um período negro da história portuguesa, em que o país foi estragado por uma mistura de ideias erradas e muita incompetência. 

 Voltando à frase de Portas, um daqueles soundbites de que os jornalistas muito gostam, e que substituem em Portas um pensamento, uma coerência, uma política e uma ética que não seja a sua vanglória e a sua sobrevivência. Podemos construir várias frases exactamente com o mesmo raciocínio que lhe serve de base. 

 Quem cria mais postos de trabalho? O CDS ou o BE? O CDS, claro, que está no Governo e participa na distribuição dos boys e girls e com muito afinco. Chama-se a “quota” do CDS. Quem cria mais postos de trabalho? O PSD ou o CDS? Terrível problema para o CDS, que só chega ao poder encostado nos votos do PSD e já fez disso modo de vida. A resposta é: o PSD, claro. Quem cria mais postos de trabalho? O CDS ou a Remax? A Remax claro, uma multinacional cujo nome Portas acabou por misturar nestas justificações, fazendo-lhe publicidade gratuita. Que se saiba, Portas ainda não vende casas na Micronésia, onde a Remax actua. Quem tem uma “marca” de maior prestígio e maior valor de mercado? Portas ou a Remax? A Remax, que ainda não é “irrevogável”.

E a pergunta das mais certas que há: quem destruiu mais postos de trabalho? Portas ou o BE? Portas ou a Remax? Resposta: Portas e o CDS. E Sócrates – dirão as vozes? Sim, é verdade, Sócrates, Passos Coelho e Portas estão bem uns para os outros. Repito de novo a pergunta que seria aquela que de imediato lhe faria, se ele a fizesse à minha frente: quem destruiu mais postos de trabalho? Portas ou o BE? Portas ou a Remax?

 Aplicada aos vistos gold, a frase de Portas tem um significado unívoco: se dá dinheiro, vale tudo. Todo o resto da argumentação é paisagem – os outros também fazem, o dinheiro entra pela banca em cheque, comprar casas de luxo ajuda à nossa economia, etc., etc. Mas a essência é: se dá dinheiro, pode comprar tudo, mesmo esse intangível valor que é a residência em Portugal e depois a nacionalidade. É este sentido que torna a frase muito simbólica dos nossos dias, em que o “estado de emergência” se faz em primeiro lugar sentir no domínio da ética pública.

 Eu não sou daqueles que descobriram as virtudes (e os defeitos) da doutrina social da Igreja com o Papa Francisco. No PSD, se não houvesse uma efectiva traição à sua matriz histórica e ideológica, o contributo da doutrina social da Igreja, exactamente nos aspectos em que ela hoje parece perigosamente esquerdista para os ignorantes, é genético no pensamento de Sá Carneiro. O mesmo podia ser dito do CDS, se o amoralismo oportunista de Portas e dos seus jovens lobos não tivesse já destruído o que sobrava.

 Por ironia do destino, no mesmo dia em que Paulo Portas disse a frase da Remax no Parlamento, eu vinha de um debate na Faculdade de Teologia da Universidade Católica sobre a exortação apostólica Evangeili Gaudium, com a vantagem de a ter lido de fresco e não apenas as frases soltas mais bombásticas que dela circulam. O documento papal não se dirige a mim, que sou agnóstico, mas a ele, que se persigna em público. Não sou nem do episcopado, nem do clero, nem das pessoas consagradas, nem fiel leigo, os destinatários da exortação. Mas, quando a Igreja se comporta como uma reserva moral da sociedade, coisa que nem sempre acontece, é civicamente muito importante que seja ouvida. E neste sentido a Igreja “arrasa”, outro verbo de que os jornalistas muito gostam, Paulo Portas. Não por exercício de interpretação, mas sim em sentido literal. Seria impossível na Igreja franciscana alguém fazer a pergunta que Portas fez no contexto do amoralismo que a domina, porque são para quem faz perguntas daquelas as frases da Evangelii Gaudium:

 "Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e sobre as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criámos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objectivo verdadeiramente humano." 

 É por isso que a frase de Portas pode também ser formulada de outras maneiras: o que cria mais emprego? A prostituição ou Portas? A prostituição. O que cria mais emprego? O crime ou Portas? O crime. O que cria mais emprego? A corrupção ou Portas? A corrupção. O que cria mais emprego? A “economia paralela” ou Portas e a maioria? A economia paralela. O que cria mais empregos? A guerra ou Portas? A guerra. E por aí adiante. Há dez mil coisas más que criam mais emprego do que Portas e a maioria, e isso não as justifica. Ouça-se o Papa Francisco:

 "Por detrás desta atitude escondem-se a rejeição da ética e a recusa de Deus. Para a ética, olha-se habitualmente com um certo desprezo sarcástico; é considerada contraproducente, demasiado humana, porque relativiza o dinheiro e o poder. É sentida como uma ameaça, porque condena a manipulação e degradação da pessoa. Em última instância, a ética leva a Deus que espera uma resposta comprometida que está fora das categorias do mercado. Para estas, se absolutizadas, Deus é incontrolável, não manipulável e até mesmo perigoso, na medida em que chama o ser humano à sua plena realização e à independência de qualquer tipo de escravidão. A ética – uma ética não ideologizada – permite criar um equilíbrio e uma ordem social mais humana. Neste sentido, animo os peritos financeiros e os governantes dos vários países a considerarem as palavras dum sábio da antiguidade: 'Não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos.'" 

 Dirigida na mouche ao sentido da frase de Portas estão estas afirmações:

 "Assim como o bem tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político e social, por mais sólido que pareça. Se cada acção tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas duma sociedade sempre contém um potencial de dissolução e de morte. É o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas, a partir do qual não podemos esperar um futuro melhor." 

 O problema dos vistos gold é simples: dinheiro inexplicado a montante, corrupção a jusante. É por isso que o caso de corrupção que hoje está a ser investigado e atinge o coração do Estado é estrutural e não conjuntural. É um resultado de se pensar como pensa Portas: se entra dinheiro, fecha-se os olhos, e depois “o mal consentido (…) tende a expandir a sua força nociva”.

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A BARREIRA


 “– E, se calhar, temos de ponderar sanções jurídicas para os casos em que os poderes que são distribuídos, incluindo ao Tribunal Constitucional, são extravasados.


 – Que sanções podiam ser aplicadas ao Tribunal Constitucional? 



 – Sanções jurídicas.”



Este fabuloso diálogo é travado numa entrevista ao PÚBLICO por Teresa Leal Coelho, uma das mais próximas deputadas da actual direcção política do PSD de Passos Coelho, que, ao que se saiba, é jurista. Num mundo ideal, como é o da série americana Newsroom, devia seguir-se toda uma outra série de questões ao modelo daquelas que uma jornalista do canal fictício de televisão entendia fazer a Michelle Bachman, congressista americana republicana ligada ao Tea Party, e que dizia que Deus a tinha aconselhado a concorrer a um cargo político: “Como é que soa a voz de Deus?” Neste caso, que “sanções jurídicas” pode ter um tribunal superior pelas suas decisões? Quem as decide? Quem as aplica? Um outro tribunal superior ao superior? O Governo? A ministra da Justiça? O Parlamento? A deputada Teresa Leal Coelho? Deus? Há certamente um problema com os cursos de Direito de algumas faculdades. 

 Este exemplo e esta citação abrem um outro conjunto de citações tão absurdas e ridículas como perigosas, no início do livro de Jorge Reis Novais, Em Defesa do Tribunal Constitucional. Respostas aos Críticos, editado pela Almedina e que tive o gosto, junto com Marcelo Rebelo de Sousa, de apresentar. É um livro de um professor de Direito, legível por todos, cheio de humor e boa irritação, no bom sentido weberiano da empatia que percorre a melhor ciência. 

 Reis Novais não pretendeu escrever um livro político, mas um estudo jurídico que tem naturalmente implicações políticas. Não me pronunciarei sobre a parte jurídica, para que não tenho competência, mas discutirei por que razão este livro é muito importante para perceber os tempos em que vivemos. O livro ficará entre os poucos que permitem elucidar estes anos de crise, sem ser apenas pela perspectiva da economia que é o tema dominante da literatura e ensaística neste período. 

 Vale a pena lê-lo e pensar sobre o que lá está dito, porque o ataque ao Tribunal Constitucional será uma ou das poucas marcas permanentes que sobreviverão aos actuais governantes, em que o desgaste das instituições é muito fácil de fazer em anos de perda colectiva, em que a procura de bodes expiatórios encontra sempre os seus corifeus e legitimadores. Entre eles, Teresa Leal Coelho e Passos Coelho estão na parte de baixo da cadeia alimentar, que neste caso se estende para cima, para aqueles que na Comissão Europeia e no FMI (e os seus repetidores portugueses) entendem que o Tribunal Constitucional alemão é intocável e o português uma atrapalhação desfasada da “realidade”, caduca e cediça, uma qualquer “brigada” do passado, como os mais malcriados membros do Governo costumam designar quem se lhes opõe.

 No topo dessa cadeia, estão alguns juristas e professores de Direito que apareceram com toda uma teorização legitimadora e, no fundo, meramente utilitária, da crítica ao Tribunal Constitucional, desenvolvida quase sempre depois das decisões desse tribunal que travaram algumas medidas governamentais e não antes. Como Marcelo Rebelo de Sousa notou na apresentação do livro, alguns dos mais nacionalistas e críticos da União Europeia, passaram a ser abnegados defensores da supremacia do Direito europeu sobre a Constituição Portuguesa. No fundo, como em muitas coisas em Portugal, nestes tempos de bizarra “luta de classes”, ou se está com “eles” ou contra “eles”.

 O objectivo do livro de Jorge Reis Novais não é analisar o conteúdo e valor jurídico das decisões do Tribunal Constitucional, com que o autor muitas vezes discorda, mas o papel, a importância e a necessidade do próprio tribunal, e por essa via perceber o valor da Constituição em tempos de crise. Dois capítulos são particularmente interessantes: aqueles em que o autor discute o “estado de emergência financeira como pretenso estado de excepção constitucional” e outro sobre a justiça constitucional e a integração europeia, tratando dos argumentos que consideram que a nossa Constituição está ultrapassada ou submetida ao Direito europeu. Quase todo argumentário de ataque ao Tribunal Constitucional cabe nestes dois capítulos.

 O ataque ao Tribunal Constitucional não estava no programa da actual maioria, embora estivesse uma profunda alteração da Constituição. Uma coisa levaria à outra, mas não foi imediata, até porque o PSD estava convencido de que os juízes que nomeara se prestavam a julgar como militantes partidários e não como juízes. Enganou-se e fez mais tarde a autocrítica amarga que “não os tinha escolhido bem”. Como acontece muitas vezes com o tipo de políticos do género de Passos Coelho, o percurso e a importância de uma revisão constitucional, que exigia a colaboração do PS, variou. O projecto de Paulo Teixeira Pinto era tão radical, e tão hostil ao património social-democrata, que foi rapidamente abandonado, com Passos Coelho num congresso do PSD a negá-lo com afirmações de fé social-democrata. Como sempre, o dia de hoje faz esquecer o dia de ontem.

 Como é costume, a coisa não iria durar muito, e passou-se da questão da Constituição para a questão do Tribunal Constitucional. Não é a mesma coisa e não tem os mesmos riscos para a democracia, porque as opiniões sobre a Constituição são livres no sistema político, mas o ataque à autoridade de um tribunal e o permanente jogo no limite de apresentar as mesmas medidas disfarçadas de outras ou de apresentar medidas que já se sabia serem inconstitucionais para atirar para o tribunal o ónus das dificuldades da governação, é um jogo muito perigoso. O segundo pilar da democracia, o primado do direito, foi claramente posto em causa por um Governo que hipervalorizava o primeiro, a soberania popular pelo voto.

 Na verdade, a afirmação reiterada de que o Governo, mesmo que não concordasse com as decisões do tribunal, as cumpria, não basta para se poder afirmar que houvesse um pleno primado do direito, porque os múltiplos efeitos perversos das várias atitudes do Governo e também do Presidente, objectivamente deslegitimavam o tribunal e o valor da Constituição. O Presidente permaneceu silencioso perante atitudes inaceitáveis de pressão e mesmo insulto sobre o tribunal, um caso de funcionamento irregular das instituições e, como nota Reis Novais, não enviou para o tribunal um Orçamento que sabia ser inconstitucional e enviou outro que entendia ser constitucional, porque o Governo lhe pediu. O Governo, numa atitude bem pouco patriótica, usou o Tribunal Constitucional perante a troika, para explicar alguns dos seus falhanços, e aceitou, com satisfação, ver esses argumentos repetidos em relatórios da Comissão ou do FMI.

 O conflito crescente do Governo e da maioria com o Tribunal Constitucional tem a ver com o modelo de “ajustamento” seguido (insisto, um entre vários possíveis), assente num alvo, a classe média, e no saque fiscal aos rendimentos de trabalho, nos cortes a salários e pensões, violando contratos de um determinado tipo e desequilibrando relações de equidade e confiança. O choque era inevitável.

 Mas o que os críticos do Tribunal Constitucional nunca lembram é que podiam ter sido outros os alvos do “ajustamento”. Um outro Governo poderia ter seguido outro modelo, podia inclusive obter os recursos de que precisava com confiscos de bens, nacionalizações, a violação de outro tipo de contratos, os “blindados”, ou seja, atacando a propriedade. Aí, também o Tribunal Constitucional, e bem, travaria um Governo que prosseguisse nessa via porque violaria a Constituição portuguesa. Nessa altura, seria, para os actuais críticos, um herói, uma última barreira contra a barbárie expropriadora e, quiçá, o comunismo. Não se ouviriam críticas, mas elogios.

 É esta barreira que Jorge Reis Novais quer defender no seu livro e fá-lo com muita eficácia. Vale a pena ler.

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AS LIBÉLULAS E O ESTADO DA NAÇÃO




  – Houve uma invasão de libélulas.

 – O quê?

 – Uma invasão de libélulas na zona ribeirinha de Lisboa.

 – E depois?

 – Ao menos isso.

 – A invasão de libélulas?

 – Sim. Os bichos são inofensivos, simpáticos, parecem helicópteros. – …

 – Aparecem nas gravuras japonesas, nos haikais, em Vítor Hugo…

 – …

 – “Um pimentão, dai-lhe umas asas, uma libélula vermelha!”

 – O que é que te deu?

 – Bashô.

 – Eu sei. O que é que te deu? Picaram-te?

 – As libélulas não picam ninguém. São almas.

 – O quê?

 – Les âmes, libellules de l'ombre... 

 – O quê?

 – Victor Hugo. Um amador de libélulas. E há Tennyson…

 – Mas isso é para as dragonflies

 – A living flash of light. E depois há as libelinhas, as libélulas em versão namorados.

 – Onde é que tu já vais!

 – Ainda nem sequer parti.

 – Mas o que é que têm as libélulas?

 – Bons olhos. Precisamos de bons olhos.

 – Não me parece que sejam os olhos das libélulas que te interessam.

 – Porque é que tu achas que vêm para cá?

 – Porque isto parece um charco.

 – Enlouqueceste.

 – Sim. Passei a semana a ver os nossos governantes vestidos com a farda da Mota Engil; passei a semana a aturar o Portas a saracotear-se no México com uma corte de jornalistas com a viagem paga para lhe darem espaço televisivo todos os dias, primeiro ia almoçar com o Carlos Slim (soam as trombetas), depois o Slim não apareceu (flautim); passei a semana a ouvir o ministro da Economia a elogiar uma subida de Portugal num ranking em que afinal desceu; passei a semana a ouvir mentiras sobre o Orçamento do Estado, a ouvir mentiras sobre o BES, a ouvir mentiras sobre as previsões económicas, tão ficcionais como a fada dos dentinhos; passei a semana a ouvir o primeiro-ministro a ler um discurso escrito que negou logo a seguir quando passou à oralidade, como se fosse a coisa mais natural do mundo dizer coisas diferentes com intervalo de minutos, ainda por cima sobre o bolso de centenas de milhares de pessoas (quem é que liga a isso?); passei a semana a ver um enorme vazio onde devia estar a oposição, com António Costa a comportar-se como primeiro-ministro putativo, em vez de assumir o papel de líder da oposição que é o dele até ganhar eleições; passei a semana a assistir àquela cena patética, de verdadeiros “amarelos”, na UGT, a dar legitimidade ao Governo que mais combateu o mundo do trabalho, com Passos Coelho a fustigar os trabalhadores num cenário “sindical”; passei a semana a ver imagens de Nuno Crato passeado pela UGT a bater palmas como se o masoquismo na moda fosse engolir alegremente uma manifesta provocação; passei a semana a ler jornalistas preguiçosos a repetirem os argumentos do poder sobre como foi bom o negócio do Novo Banco, passando do tudo ao nada no BESA, de como não é importante o chumbo do BCP nos testes de stress, como está sempre tudo bem quando os interlocutores são os que importam, os do clã, os que estão no “lugar certo” de Portugal, empresas, bancos, gestores, povo da economia “empreendedora”; passei a semana a ver sempre proteger os que mandam, Passos, Maria Luís, Carlos Costa, Stock da Cunha, e a considerar que tudo o que eles fazem é o “menos mau”, o “que podia ser feito”, uma “boa solução num contexto difícil”, etc., etc.; passei a semana a ver comparar realidades más com previsões boas, como se fossem a mesma coisa; passei a semana a ouvir silêncios, sobre as últimas estatísticas da pobreza, das penhoras, das dificuldades económicas, aquilo que não interessa ao “Portugal positivo”; passei a semana a ver apontar uns putativos culpados pela “sabotagem” do Citius, quando durante meses ouvimos técnicos sobre técnicos, distintos professores (será que Tribolet também faz parte da conspiração sabotadora?) a dizer que aquilo era desastre certo; passei a semana ver imagens de cãezinhos de Pavlov a abrir os dentes ao som de “Sócrates”, como se o homem ainda estivesse no poder, para esquecer que de 2011 a 2014 foram outros que aprofundaram as desgraças que ele deixou, numa indigência política assustadora do que vai ser o ano de 2015; passei uma semana a ouvir tudo o que era gente séria a contar como está a ser cheio o Estado, as fundações ligadas ao Governo, as empresas, tudo quanto é lugar seguro e bem pago e com poder, de “amigos do ajustamento”, da turma da “justiça geracional”, sem parangonas, sem publicidade, agora cada vez mais depressa, porque se aproximam tempos difíceis e o PS vai querer o seu quinhão; passei a semana a ler histórias muito silenciadas sobre milhares de euros que foram para empresas de comunicação, quase sempre as mesmas, as que trabalham para o Governo, para as empresas do PSI-20, para as autarquias cujos presidentes eram ou são os principais controladores dos aparelhos partidários, do PSD em particular; passei a semana a ouvir dizer que os aviões russos “invadiram o nosso espaço aéreo”, “passaram junto ao nosso espaço aéreo”, “passaram no espaço controlado por Portugal”, “entraram no espaço europeu” (a Rússia é uma nação europeia…), e a ouvir o ministro que mais ajudou a destruir as nossas forças armadas agarrado à oportunidade de dizer que “operacionalmente” estava tudo bem, quando se percebe nas entrelinhas que está menos bem do que parece (quantos F-16 estão canibalizados para dar as peças aos que voam, qual a autonomia real dos que voaram?). Passei a semana a ver com tristeza como está o meu muito amado país. Tudo a cair aos bocados na apatia e indiferença geral.

 Chega. Passei-me. Vivam as libélulas!

(1 de Novembro de 2014)

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© José Pacheco Pereira
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