ABRUPTO

12.11.14


A VER EM DIRECTO

a descida de Philae num cometa.

Viva!

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9.11.14



PONTO / CONTRAPONTO
  aos domingos às 20 horas na SICN.

  Se o retorno do  caos do futebol não lhe alterar mais uma vez o horário.

Tema: Bon cop de faiç  defensors de la terra!

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26.10.14


SEMPRE O TEMPO...





... que falta. E nunca volta para trás. Por isso, as actualizações que estou a fazer no Abrupto, colocando alguns artigos e notas não publicados na altura certa, não resolvem os atrasos. Mas é melhor que nada. O esquecimento fará o resto.

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PONTO / CONTRAPONTO
  aos domingos às 20 horas na SICN.

  Até o retorno do  caos do futebol lhe alterar mais uma vez o horário.

Tema: telefones, pesos e medidas.

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 O VALOR DA BOA-FÉ NUMA SOCIEDADE QUE SE PRETENDE CIVILIZADA


Se há causa a que eu adiro sem reservas é a dos trabalhadores com reformas antecipadas do Metro de Lisboa, que viram as suas reformas cortadas unilateralmente do complemento  que a empresa lhes atribuiu para os incentivar a reformar-se. Não se espantem, parece uma causa laboral como as outras, mas é mais do que as outras. É diferente.

 Não é uma questão de “direitos adquiridos”, embora também o seja. Não é uma questão do cumprimento dos contratos livremente feitos, do sacrossanto princípio jurídico do pacta sunt servanda, embora também o seja. Não é questão de justiça social, embora também o seja. Não é sequer uma questão de austeridade, de repartição de sacrifícios, de acabar com uma situação de privilégios numa empresa pública. É uma causa cívica em que está em jogo um princípio moral que deveria ser a base da nossa sociedade democrática: a boa-fé. 

Um dos piores dos meus anátemas contra este Governo é exactamente a destruição dessa boa-fé, como se fosse o acto mais normal do mundo, como quem respira, sem pensar duas vezes, até sem atenção, nem sequer preocupação pelos efeitos não apenas nas vítimas dos seus actos, mas no tecido social e nos laços que unem as pessoas numa sociedade civilizada e numa democracia em que todos somos proprietários e penhores do mesmo poder. Este à-vontade e esta indiferença pelo que é e significa a boa-fé vai ficar como uma mancha para o presente e para o futuro no tónus moral destes tempos. 

 Os trabalhadores reformados do Metro, muitas centenas de pessoas, incluindo pessoal qualificado, técnicos superiores, quadros administrativos, maquinistas, mecânicos, electricistas, pessoal da manutenção, etc., têm tudo contra eles. Nunca verão a sua causa chegar ao comentário mais fino dos grandes mestres da comunicação política televisiva, e não merecerão sequer qualquer atenção dos órgãos de comunicação social, para quem eles são um grupo, entre os muitos dos que protestam nestes dias, desvalorizados pelo desprezo que há nas redacções com as reivindicações laborais. Eles, insisto, têm tudo contra si. 

 São reformados, logo privilegiados em potência à luz dos alvos governamentais dos nossos dias. Mais: são muitos deles, reformados com idades a partir dos 55 anos, ou seja anteciparam as suas reformas, tornando-os assim preguiçosos potenciais que vivem “à custa dos jovens que não irão ter reforma quando forem velhos”. Violam esse conceito sinistro da “justiça geracional”, inventado por Passos Coelho e pela JSD, para culpabilizar os mais velhos. (Veremos depois porque é que se reformaram tão cedo). São trabalhadores do Metro, uma empresa pública de má fama, onde há greves “que prejudicam os utentes”, gerida pessimamente por várias administrações politicamente nomeadas, mas onde os prejuízos são sempre culpa dos trabalhadores. E tanto mais culpados quanto mais protestam e quanto maior for a mobilização do seu protesto. Muitos são sindicalizados, um crime nos dias de hoje. Numa altura em que as empresas públicas, de transportes em particular, são um alvo ideológico atirado à opinião pública, estes trabalhadores reformados, insisto reformados, têm que apresentar as suas queixas no meio de imenso ruído. Ou seja, ninguém os ouve.

 O que é que aconteceu a estes reformados e como é que chegaram a esta situação? Foi política de gestão dos recursos humanos de várias administrações do Metro incentivar os trabalhadores a fazerem reformas antecipadas. A empresa entendia que ficava mais barato que os trabalhadores que fizessem 55 anos se reformassem, do que se ficassem no activo, diminuindo assim o número de trabalhadores do Metro. Outras empresas públicas (como a Carris) fizeram o mesmo, mas sem a dimensão do Metro, e algumas delas encontraram maneira de tornear os efeitos da reversão das políticas.

 Para incentivar essas reformas antecipadas garantiu-se aos trabalhadores que receberiam um complemento de reforma de modo a não perderem dinheiro no acto da reforma, inclusive pelo facto de esta ser antecipada. Não era uma política de opção empresarial indiferente, visto que foi prosseguida agressivamente pela empresa, com a publicação de listas dos trabalhadores com mais de 55 anos e cartas individualizadas a quem perfazia essa idade com as condições excepcionais que lhes eram atribuídas para os levar a reformarem-se. Estas passagens à reforma, que incluíam um complemento de reforma, foram negociadas em inteira liberdade (se exceptuarmos a pressão do Metro para as reformas antecipadas) e eram coerentes com os acordos vigentes na empresa, também livremente negociados. Centenas de trabalhadores reformaram-se, muitos dos quais já na vigência do actual Governo. Um deles disse numa entrevista que estas medidas "sempre foram incentivadas pelo Governo e própria empresa, para aliciar os empregados a aceitarem a pré-reforma e saírem da empresa". Tudo foi feito pelo maior bem da empresa, da boa gestão e da saúde da economia, com E grande, como agora se escreve nestes tempos.

 No dia 1 de Janeiro deste ano, o Governo violou o contrato que tinha feito. O corte unilateral dos complementos de reforma pelo Governo significou reduções de 40 a 60% nas reformas dos trabalhadores. Imaginem acordar no dia seguinte a ganhar menos de metade do que ganhavam no dia anterior e serem já velhos para arranjarem um novo emprego, terem encargos comportáveis quando se tinha uma outra reforma, ou seja, não era “viver acima das suas posses”, e ficarem agora sujeitos a dívidas e penhoras e acima de tudo, mesmo com a reforma por completo, vivia-se no remedeio. Não estamos a falar de gente rica, mas de trabalhadores, daqueles que se espera num país civilizado que engrossem a classe média, educando os seus filhos para viverem melhor do que os pais, acederem a consumos com que os seus avós nunca sonharam. É assim que se cresce, melhora, se avança. É isto que é o melhorismo social, a melhor garantia de um crescimento económico.

 E não me venham com os argumentos ad terrorem da “inevitabilidade” que, podendo ir bater a muitas portas onde há fartura, vai sempre bater nos mais fracos, nos que têm menos defesa, nos que é mais fácil vilipendiar. Ou noutra forma de argumentos ad terrorem como seja a de que há muita gente ainda pior, e que seria pior se acordassem no dia seguinte no desemprego, porque em vez de metade não teriam nada. E se morressem de noite não seria pior?

 Os trabalhadores reformados do Metro não têm muitas defesas, mas têm razão, razão política e razão moral, o que não é pouco. Muitos trabalhadores reagiram dizendo que, se era assim, apresentavam-se na empresa para trabalhar nas condições que tinham antes de serem empurrados para a reforma. Recorreram ao Tribunal Constitucional e perderam, numa das decisões mais injustas que esse Tribunal tomou nestes últimos anos, que também as tem tomado.

 Mas o problema que está presente neste caso é um problema de boa-fé, e do papel da boa-fé numa sociedade democrática e que pretende regular-se por regras de conduta civilizadas. Nem sequer pretendo discutir o que isso significa, “civilizadas”, porque toda a gente sabe o que é. E sabe também o que significa a boa-fé: significa que, se quando o governador do Banco de Portugal, seguido pelo Governo, defendeu que devia ser possível antecipar reformas com pagamento dos salários integrais, para afastar das empresas os trabalhadores com mais anos de casa e “que passam a vida nos médicos”, devia colocar-se um cartaz pestífero a dizer: não aceitem o engodo, não acreditem neles, querem enganar-vos e, depois de se reformarem, cortam-vos o que vos prometerem no passado para vos empurrar para a reforma. Como fizeram com os trabalhadores do Metro. Eles são gente de má-fé.

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CARTAS PORTUGUESAS A LUDWIG PAN, GEÓLOGO E AGRIMENSOR NA AUSTRÁLIA 

(As duas primeiras  aqui, a terceira aquia quarta aqui, a quinta aqui, a sexta aqui.)



Meu caro Ludwig Pan

Sei que chegaste à tua Colónia bem de saúde e bem de viagem. Fica pois sabendo que estas cartas de novas da minha infeliz pátria têm sido plagiadas num jornal de cá, em tom menor, muito menor, vagamente engraçado, mas ao estilo truculento que se usava no passado. Uma vergonha, mas o exemplo vem de cima. É o preço da tua fama, indo como foste, para tão longes terras, tornaste-te exótico e isso dá imprensa. Registe-se.

Que mais devemos registar, agora que o plágio está na moda? O habitual, tão habitual que é profundamente aborrecido se não fosse trágico para muita gente. A nossa vida pública lembra aquelas gazetas de Veneza do século XVIII e XIX que noticiavam pouco mais do que as quedas nocturnas de alguns vadios aos canais onde, para sua sorte, eram muitas vezes pescados vivos, ou não. Monsenhor Paolo Testa escorregou e caiu. Contrariamente ao que dizem as más-línguas, especialidade veneziana, não estava “ubriaco”. E por aí adiante. 

É assim por cá, eles caiem todos os dias à laguna, e logo a imprensa vem dizer que não, não foi por mal, não foi por incompetência, não foi por terem posto o pé onde não deviam, não foi por ignorância das leis da gravidade, não foi por nada. Foi o destino, a troika, as imposições de Bruxelas, a tua governante Merkel, a alma do Sócrates, a nossa resistência endémica à mudança, a conjuntura europeia, o Tribunal Constitucional, etc., etc. Pretextos para explicar a queda nas águas fétidas são muitos. Há até um grupo de comentadores que se especializou em explicar que, apesar de um dos pés ter falhado na borda do canal, uma má coisa, há uma outra boa, visto que o outro pé permaneceu uns segundos mais em terra. É como o Orçamento, “tem umas coisas más e outras boas”… as boas são as previsões hipotéticas e umas migalhas em nome da natalidade, a única “causa” do governo e da Associação das Famílias Numerosas. As más são a “má condução da imagem do governo”, a briga em público entre o número um e o número dois, o mau timing de algumas medidas, ou seja, minudências de coreografia política. Estamos assim, meu caro Ludwig, enterrados na laguna até ao pescoço. Como homem ilustrado que és, sabes muito bem o que aquelas águas transportam. E que mais te conte, agora que estás na civilização? Como é comer num prato, dormir numa cama, beber um Gewürztraminer, e olhar de frente com gula um Eisbein? Faz a ti próprio o favor de te poupar a esse miserável complexo de culpa alemão diante do prazer, que nos deu o pior da Alemanha, o romantismo, a obediência, a burocracia, o idealismo filosófico, a organização, e os Verdes. Como te sei não atreito aos outros males alemães, aliás bastante filhos destes, a última coisa que desejaria era que a prolongada estadia nos antípodas com os aborígenes, te tornasse num bom selvagem transposto para a Germânia, a comer tofu, algas, pastas com a palavra biológica, iogurtes de aloé vera e a beber água de uma qualquer nascente pura e cristalina nos Alpes. Bom, neste último caso, sei que não vais ceder à lei seca, porque afinal sempre havia bons whiskeys na Austrália, e recordo-me que me falaste com entusiasmo dos da Tasmânia, feitos por demónios com duas pernas. 

Falo-te com acinte dessa praga adjectivada de “verde”, que na minha pátria, serviu para aumentar os impostos, com o mais nobre dos motivos, que “passa” sempre bem. O álcool também subiu, e o tabaco, os velhos impostos do vício. Aqui combate-se pela moralidade da alma e do corpo, com grande convicção do Fisco. Só é pena que os intérpretes desse combate pela “moderação fiscal” aumentando os impostos, não tenham o hábito de não mentir. É feio, mas cá por casa tornou-se tão corrente que já não se dá por ela a diferença. Acho aliás que, quem disser uma verdade, é que vai parecer que está a mentir. Sim, meu caro Ludwig, somos nós que estamos verdadeiramente nos antípodas, a andar com a cabeça para baixo. 

Poupe-te pois a mais novas, que seriam aliás antigas e más. Nós por cá todos bem. Já não temos BES, só Novo Banco, já não temos governo, só um conglomerado de pessoas que se reúne às quintas-feiras, já não temos “jóias da coroa”, nem PT, nem Bava, nem anéis e vamos a caminho de vender os dedos aos chineses. Será que há alguma mezinha de farmacopeia oriental com “dedos portugueses em pó” para tratar de algum mal pernicioso? Já não temos economia, nem ensino, nem justiça. Já não temos “fanatismo orçamental”. Ri-te. Já não temos país, só nome. Passa por cá no teu regresso à Austrália, somos a última praia antes do Oceano, a seguir a Espanha e antes de sobrevoares Casablanca.

É. Nós por cá todos bem. Mas traz a flauta e uma garrafa de schnaps. As pessoas são boas, estão é muito estuporadas. Um abraço deste teu amigo

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TEMOS GOVERNO? NÃO TEMOS. JÁ HÁ MUITO TEMPO 

 A noção de que há um governo implica que exista um órgão colectivo que se reúne periodicamente, discute questões, umas mais gerais, de orientação, táctica e estratégica, outras mais limitadas como questões de condução política de um assunto, questões prementes do presente não antecipadas. Regularmente encontra-se para discutir legislação, que pode ser de um ou outro ministro, mas é decidida em conjunto com responsabilidade de todos. Para assegurar o funcionamento regular do governo existe um batalhão de assessores, secretárias, chefes de gabinete, pessoal do mais diverso, que prepara a ordem de trabalhos dos conselhos de ministros, distribui atempadamente os documentos, e elabora notas e pareceres que acompanham a legislação proposta. Sobre toda esta pesada máquina burocrática preside o Primeiro-ministro ou quem ele delegar. Por fim, redige-se um comunicado, que hoje se sabe esquece ilegalmente alguns pontos aprovados (como aconteceu no processo do BES), e existe uma conferência de imprensa semanal que apresenta o que foi decidido, muitas vezes de uma forma pouco esclarecedora, visto que algumas decisões são pré.anunciadas, ou anunciadas, sem estarem estudadas e passadas para lei. 

 DESGOVERNO 

Tudo isto é muito bonito, mas por cá não se governa assim, desgoverna-se. Muita da legislação que chega ao Conselho de Ministros é tão mal feita que tem que ser corrigida várias vezes. Por exemplo, a legislação sobre arrendamento ou falências. Noutros casos a vil intenção é tão capciosa que só mais tarde se percebe ao que vinha o legislador. Foi o caso da legislação que proíbe os funcionários públicos reformados e pensionistas, como os professores universitários, de prestar trabalho gratuito em áreas em que são os mais especializados e conhecedores, pelo que não estão a tirar trabalho a ninguém e a servir o bem público. Como se desconfia dessa geração “velha”, que não engole tão facilmente muitas das patranhas circulantes, trata-se de os afastar da vida pública o mais possível, não vá dizerem coisas. Por aí adiante. 

 CACOFONIA 

Mas a questão principal é mais simples de definir: é que não há governo, nem nos mínimos dos mínimos. A questão do IRS é discutida na praça pública, entre actos de propaganda e insinuações mútuas, entre o Primeiro-ministro e o Vice-Primeiro-ministro. No mesmo dia um diz A e o outro diz B, um quer parecer duro e “difícil” na sua missão austeritária, e outro partidário da “moderação tributária” (uma daquelas fórmulas vazias que Portas usa como “eurocalmo”). Na verdade, ambos estão ao mesmo: o abaixamento simbólico do IRS (registe-se simbólico) é um dos pratos da ementa eleitoral de 2015. Só que Portas quer fazer crer que a ele se deve a benesse, Passos Coelho quer fazer o brilharete de que as migalhas do IRS, arduamente conseguidas pelo governo, são a mostra do “sucesso” da política governativa. No final haverá muito pouca coisa e muita propaganda, mas só num país já com expectativas tão baixas se pode ser indiferente a este espectáculo de “governo na praça pública”, ou seja de não-governo.

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 MOEDAS E O SEU ORÇAMENTO

A representação portuguesa na Comissão europeia passou de oitenta para oito, mas a excepção foram os oitenta. Há ainda muito para esclarecer sobre o que aconteceu com a escolha de Barroso, mas a escolha do pelouro de Moedas é normal. Podíamos ter tido melhor? Parece que sim, a julgar pelas notícias sobre Silva Peneda, que não foi indicado por politiquice doméstica, porque não faz parte da coterie do Primeiro-ministro. Mas esse upgrade era um mérito individual de Peneda, não um “direito” nacional. Nacionalmente tínhamos direito a Moedas e temos Moedas que, estou convencido, fará um trabalho com uma suficiência que não voará, mas também não nos envergonhará. 

Agora, a máquina de propaganda continua a actuar com impunidade, com a falta de vigilância crítica que a nossa comunicação social revela sempre face ao poder. É que os oitenta mil milhões que foram avançados como o orçamento que Moedas iria gerir, um “argumento” para emproar a importância do seu cargo, não são para ele gerir, mas sim para ele co-gerir. É dinheiro que vai ser usado transversalmente por vários comissários numa hierarquia em que Moedas está no patamar de baixo. Convinha ver os organigramas e as declarações europeias sobre por onde passa esse orçamento. Mas, como serviu para sugerir que afinal o nosso “amigo” Juncker nos tinha dado um grande presente (que não deu), lá veio a propaganda sem contraditório.

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18.10.14


ATENÇÃO: O AR ESTÁ CHEIO DE PROPAGANDA 


Um dos livros mais interessantes sobre o modo como se pode condicionar a opinião foi publicado há uns anos por Paul Hollander e chamava-se Peregrinos Políticos

 O livro retratava o modo como nos países socialistas, da URSS a Cuba, passando pela China, se usavam os intelectuais para os tornar instrumentos não voluntários de propaganda dos regimes comunistas. Uma parte considerável fazia propaganda porque queria, mas Hollander analisa os mecanismos involuntários, muito mais interessantes e acima de tudo muito mais eficazes para os tornar porta-vozes de regimes políticos com que muitos deles nem sequer simpatizavam. A vaidade era um dos mecanismos mais usados, tratando intelectuais e literatos menores como se fossem gigantes da literatura, em claro contraste com a importância e a reverência que lhes era dada nos seus países de origem. O resultado da lisonja era uma predisposição para aceitar a manipulação e reproduzir a propaganda. 

 Um dos exemplos deste tipo de comportamentos, mais sofisticado, encontrava-se num célebre crítico culinário, de um dos grandes jornais americanos, conhecido anticomunista e que foi convidado pelos chineses. Chegado à China, ofereceram-lhe uma viagem em que lhe foram servidas as maiores iguarias da cozinha chinesa. O resultado foi uma série de artigos do crítico maravilhado, descrevendo as qualidades excepcionais das refeições que lhe serviram, a confecção, os ingredientes, a aparência, tudo do melhor que havia. O anticomunismo do crítico sofisticado do jornal ficou pelo caminho e os artigos que escreveu acabaram por corresponder aos desejos dos anfitriões. Fora da cozinha e da mesa, deixou de haver China, comunismo, repressão, violência. 

 A apresentação do orçamento de estado, complementado em simultâneo com dois conjuntos de legislação com impacto orçamental, mas separadas do corpo principal, as mudanças no IRS “pró-família” e a “fiscalidade verde”, tem tido efeitos parecidos com a complacência do crítico americano com o comunismo chinês, obtida por via da comida. Trata-se de uma operação em que a realidade, a dura e crua realidade de que nos espera mais um ano de extrema austeridade, disfarçado com uma nuvem cor de rosa de palavreado, distracções, disfarces e mesmo mentiras, usando em pleno todos os mecanismos com que se pretende manipular a opinião pública. O resultado é um ar ainda mais poluído pela propaganda, nem sempre muito sofisticada, como os pratos chineses, mas adaptada às características dos que a servem ou a provam.

 Começa pela apresentação simultânea de três documentos: um péssimo, um mau e um bom. O péssimo é muito péssimo e é o Orçamento, de longe o mais importante dos três. O bom documento contém as mudanças pró-família do IRS. O mau é o aumento dos impostos da “fiscalidade verde”. Embora possa haver argumentos técnicos para separar as medidas do IRS do Orçamento, a verdade é que noutras alturas o governo não o fez. O objectivo neste caso, para além de poder concentrar a atenção no “bom” papel e ocultar os “maus”, é usá-lo para entalar o PS: então o PS nega-se ao “consenso” sobre medidas favoráveis à família? Não pode. E assim se obriga a oposição a dar caução ao “bom papel” e amenizar, por essa caução alargada, o efeito negativo do conjunto do Orçamento. Canaliza-se a discussão para o que interessa ao Governo e, queira-se ou não, favorece-se uma interpretação benigna do conjunto do Orçamento.

 Quanto à “fiscalidade verde”, faz-se o mesmo que habitualmente se faz com os chamados “impostos do vício”, o politicamente correcto do “verde” ajuda a legitimar mais um aumento de impostos puro e simples. E aí ficamos distraídos com os sacos de plástico, muitos dos quais já são biodegradáveis e por isso “verdes”, e falamos menos dos aumentos nos combustíveis e nos transportes. Ao destacar este diploma, pode-se assim dizer que não há aumentos de impostos no Orçamento, visto que a “fiscalidade verde” fica à parte. Na verdade, no cômputo global dos três documentos, mesmo incluindo o “bom”, a carga fiscal aumenta, visto que se vai buscar mais dinheiro do que o que se devolve às famílias. Ou seja, o dinheiro que os portugueses vão pagar ao estado aumenta. Como é que é assim possível que o Primeiro-ministro e a Ministra das Finanças e os seus propagandistas digam que não há aumentos de impostos? É possível apenas porque somos complacentes com a mentira, tão habituados estamos a viver no seu seio.

Depois há vários truques habituais e um truque novo, mas com os métodos habituais. O chamado “cenário macro-económico” é tido por quase todos os economistas e por várias instituições como “irrealista” ou como não-credível, o que não é de estranhar visto que nenhum dos anteriores cenários do mesmo tipo feitos por este governo acertou. Os mais amigos do governo limitam-se a dizer que, se essas previsões acertarem, é porque se deu um “milagre”. Eu sei que há economistas que acreditam em milagres, mas não vi Nossa Senhora descer em pleno conselho de ministros. Sendo assim, como é possível titular, sem aspas ou autoria, que no próximo ano o crescimento será de X, ou que o desemprego descerá Y, misturando assim na mente das pessoas uma previsão com a realidade? A propaganda faz-se destas confusões. Umas vezes usa-se um critério, outra vez outro, umas vezes é uma percentagem de um número, outras vezes de outro, umas vezes compara-se com um ano, outras vezes com um outro, umas vezes compara-se com um número real, outras vezes com uma previsão que nos dá jeito. Era uma especialidade de Sócrates, é uma especialidade de Passos Coelho.

 Estes truques já são velhos, mas servem sempre para aumentar a confusão, o “manto diáfano da fantasia” que esconde o núcleo duro da verdade. Outras mentiras ajudam ao serviço, a das medidas “provisórias” que são definitivas, e a nova versão de continuar a tirar no presente e prometer que no futuro se dará o que se tirou. A única verdade, absoluta, certeira, sólida, densa, pesada, é que este Orçamento é mais um de muitos, se incluirmos a sucessão reveladora de rectificativos, todos da mesma a natureza, destinados a cobrir falhanços, feitos com muita incompetência, muito dolo, muito engano, muita propaganda, muitas ideias péssimas.

Começaram por ser apresentados como orçamentos salvíficos do “homem novo” liberal, que ia “libertar” a economia, acabar com os que viviam à custa do estado e dos “direitos adquiridos” e alcandorar, à vanguarda da nação redimida, os empreendedores. A troika era apenas um bem vindo milagre externo para ajudar à redenção do país dos “piegas”. Depois, à medida que as coisas iam falhando, passou-se aos orçamentos “obrigatórios” da troika, vista agora como jugo.

 Lamento, mas não acredito em nada do que estes senhores dizem. E quando não se acredita neste logro institucionalizado, a nossa cabeça passa a pensar com meridiana clareza. Já não acredito há muito tempo e não acreditando, engano-me muito pouco. Pode parecer soberba, mas é puro bom senso, ou, quando muito, alguma atenção aos homens, aos actos e às palavras. Nunca me esqueço que o criador deste governo e deste Primeiro-ministro se chama Miguel Relvas, com a ajuda prestimosa de José Sócrates. Nunca embarquei nas medidas “provisórias” e disse sempre que seriam definitivas até ao Tribunal Constitucional lhes por um travão. Nunca acreditei nas “reformas estruturais” que nunca passaram de despedimentos e cortes. Nunca aceitei chamar "poupanças”, nem “cortes nas despesas” aquilo que eram apenas cortes cegos, muitos dos quais de vão pagar muito caro, em novas despesas, como se vê na justiça, na educação, nos serviços públicos. Nunca aceitei chamar “ajustamento” ao empobrecimento e destruição da classe média, e no enclausuramento dos pobres numa redoma de assistência e caridade. Nunca deixei de olhar para os meus concidadãos e ver aquilo que as estatísticas revelam, mas revelam mal: a vida estuporada, até ao fim dos seus dias, de muitos e muitos, em nome de experiências, ilusões e incompetências, para chegar aos dias de hoje e terem que ver servidos, no seu imaginário prato, mais do mesmo. Sem uma reforma do estado digna desse nome, sem uma melhoria de nada, sem nenhuma transformação estrutural. Apenas mais engano e propaganda, sem convicção sem ânimo.

 Quando cada vez mais leio os propagandistas do regime, os maiores e os menores, a culparem o país e os portugueses, essa turba de amantes do “estado” que não querem reformas, que não se deixam governar, que são medíocres e … piegas, eu percebo muito bem que para eles soa já ao fim. Eles são bons, o país não os merece. E é verdade, o país não os merece. Merece muito melhor.

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11.10.14


 ABJECÇÃO






A proposta da Ministra da Justiça para a criação de uma base de dados de “pedófilos” (depois explico porque coloquei aspas), a que possam ter acesso pais de crianças, ainda que com obrigação de manter o sigilo, de modo a saber se entre os seus vizinhos há alguém que tenha sido condenado por pedofilia, é, do meu ponto de vista, abjecta.

 Escolhi deliberadamente esta palavra forte, porque a proposta ofende normas escritas e não escritas do que é (ou deve ser) o funcionamento de uma sociedade que desejamos civilizada. Terei que repetir a litania óbvia, que o que digo não significa menorizar o crime da pedofilia, nem “proteger” os agressores (que neste caso já cumpriram pena), nem deixar a preocupação com a protecção das crianças e dos menores dos seus abusadores, o que não é a mesma coisa. Custa-me ter que estar a repetir este óbvio, mas seja. Pode ser que assim fique claro que este artigo não é tanto sobre a pedofilia, como sobre o funcionamento de uma sociedade civilizada. Nem, em bom rigor, é sobre os “direitos” dos pedófilos, como não é sobre os “direitos” dos assassinos, embora numa sociedade civilizada quer uns quer outros tenham direitos.

 Escrevi pedofilia entre aspas porque a palavra é das mais ambíguas que por aí correm, mais sujeita a simplificações, deturpações e ignorâncias. Estamos perante realidades muito diferentes entre si, umas de claro carácter patológico, outras da ordem das perversões sexuais, outras criminosas, e outras dependentes de factores sociais e culturais. Outras ainda, indevidamente classificadas na pedofilia, que na percepção popular inclui o abuso de menores, como se fosse a mesma coisa. Outras, por fim, mais complexas, como a percentagem, mais alta do que se imagina, de pessoas com uma vida sexual normal e que nunca cometem qualquer crime, mas que também se sentem excitados com imagens de crianças. É caso de alguns consumidores de pornografia, que também vêem ou adquirem imagens proibidas e criminosas. Repito o que está em muitos estudos, sem sombra de justificação, mas apenas para revelar que o mundo a preto e branco é mau conselheiro para estas questões. Existem classificações jurídicas precisas, mas aquilo de que trato é da percepção popular e mediática da pedofilia, que é o fundo, entre o medo legítimo e a ignorância populista, para que esta proposta governamental remete. Deixemos, por isso, o direito de lado, porque só por ilusão é que esta proposta tem a ver com um estado de direito. Remete para medos mais do que para riscos, e defronta mal os riscos.

A verdade é que o debate sobre a pedofilia está de tal maneira inquinado pela obsessão mediática com o assunto nos últimos anos, que data do “affaire Dutroux” de 1996 na Bélgica, que incluía pedofilia e assassinato, que não é possível qualquer discussão razoável sobre o assunto. Hoje, o crime hediondo por excelência é a pedofilia, antes não o era. Tudo pode ser feito, se do outro lado estiver um pedófilo real ou imaginário, e, se o “povo” mandasse, inclusive a pena de morte.

A história da percepção da pedofilia, (como por exemplo da violência doméstica), é relevante para que se seja capaz de relativizar o tema. Para quem consulta os cortes da censura nos anos do salazarismo, na secção das “questões morais e de costumes”, encontra muitas notícias que hoje seriam enquadradas na pedofilia, mas que antes eram classificadas como “abuso de menores”, ou actos, reprováveis sem dúvida, mas a que a sociedade não dava grande importância. A censura cortava, mas não se escandalizava.

 Pedofilia, pura e dura, existia diante dos olhos de todos ainda há uns anos e ninguém queria saber disso para nada. Aliás, numa mistura de ignorância e hipocrisia, existia também na sociedade portuguesa, onde era possível que algumas celebridades do mundo artístico, da poesia, da música e do jet set se passeassem com pupilos entregues por pais e mães (mais neste caso por mães), que apareciam como governantas, caseiras ou empregadas de confiança, num trade off económico e social a que ninguém dava importância. Casos de pederastia e de pedofilia, apareceram em revistas do coração e do jet set, como se a mais normal das companhias para um adulto fossem menores pré-púberes em fotos nas piscinas e nos restaurantes.

 O grande argumento a favor de um registo de pedófilos é o carácter compulsivo do crime, e o risco da sua repetição. Mas se é assim estamos perante algo que é da ordem da doença e deve ser tratado como uma doença. Acresce, que não vejo muitas estatísticas a apoiarem as afirmações da Ministra sobre a reincidência em Portugal, tanto mais que o contexto conhecido da maioria dos crimes de pedofilia em Portugal é o familiar. Ou seja, outro mundo bem diferente dos filmes de Hollywood em que a pedofilia e o serial killing são tratados de forma idêntica. São coisas de pais com filhas e amigas das filhas, de tios com sobrinhas, de padrastos e padrinhos com enteadas e afilhados.

 Sem dúvida que deve prevalecer o “superior interesse da criança”. A questão é saber se a prevalência desse interesse é garantida por estas medidas, o que muito duvido. Um pedófilo compulsivo, não se deterá na obrigação de dizer qual é a sua residência à polícia e procurará fora do registo, encontrar as suas vítimas. O registo será um pesadelo é para aqueles que tendo sido condenados por pedofilia, muitos dos quais não são pedófilos na definição rigorosa do termo, e que, cumprida a sua pena, queiram andar com a sua vida para frente.

Os defensores da proposta indignam-se muito quando se referem estas possibilidades mais que realistas, com afirmações do género de que o “superior interesse da criança” prevalece sobre tudo o resto e que, portanto, as acusações de que o registo é uma forma de “condenação perpétua” são irrelevantes. Eu não sei se a Ministra sai à rua, à rua física, ou à rua da Internet. Eu já vi, e mais do que uma vez, cartazes em A4, feitos numa impressora e num computador caseiro, com uma fotografia do sr. X ou Y, e com dizeres do género: “atenção, X (nome completo), que mora aqui (endereço completo), é pedófilo. Cuidado com ele”. Não sei se é verdade ou mentira, mas um cartaz desses é de uma enorme violência. Ninguém os assina, ninguém os valida. Mas estão lá, as mesmas informações que a base de dados dará aos pais e que virão para a rua inevitavelmente, de forma anónima, num cartaz, ou num grafito, ou num panfleto anónimo.

 Daí a chegarem ao Correio da Manhã, é só encontrar um pretexto hábil. Estou a ver, sem sequer ser necessário ter muita imaginação: “jardim infantil abriu ao lado da residência de um pedófilo”. Ou, residentes do bairro X, querem que o senhor Y saia do seu bairro e um grupo de mães irá de cartazes para a sua porta dizer “rua! Queremos um bairro livre de pedófilos!”. Passou a ser notícia. Quem é que vai querer no seu prédio, na sua rua, no seu bairro, um homem (porque estamos quase sempre a falar de homens) que está registado na lista de pedófilos oficial, ou seja, que o Estado considera perigoso para as crianças?

 Tenho poucas dúvidas, mesmo na minha ignorância jurídica, de que a proposta é inconstitucional, pelo que não é a sua efectivação que me preocupa. Se, por absurdo, a proposta fosse constitucional, então não precisaríamos de constituição para nada, porque impera a lei da selva em múltiplas formas, condenações perpétuas, justiça privada, violação de direitos.

 O que me preocupa é outra coisa: é o que ela revela dos costumes da sociedade que estamos a construir. Porque não se trata apenas de erigir um pelourinho no meio da praça, mas de ir para além da imagem do pelourinho, porque é errada a sugestão de que esta proposta é arcaizante. Bem pelo contrário, é moderníssima. Só seria possível numa sociedade mediática, com Facebook, Internet, telefones inteligentes e tablets, porque transporta a lei da selva em muita Internet para o meio das ruas. E isso é muito perigoso, também para o “superior interesse da criança”, que inclui viver numa sociedade regulada e mediada, que defronta todos os problemas, mesmo os que nos parecem mais repulsivos, com limitações, a mais importante das quais é a de que não vale tudo.

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4.10.14


O "ARGUMENTO SÓCRATES" 


Já se percebeu que o “argumento Sócrates” vai ser um dos principais instrumentos de combate a António Costa e ao PS. Ele fala, ou, mais comummente, não fala, e Sócrates é atirado para cima da mesa como a pedra de serviço. 

 É um pouco pobre como argumento, mas não deixa de ter alguma eficácia marginal, à falta de melhor. É verdade que Sócrates é um dos principais responsáveis pelo estado calamitoso do país, tornou-se uma personagem que provoca uma imediata repulsa, tem uma imagem pública pelas ruas da amargura e a mera evocação do seu nome provoca fúria. Muitos portugueses detestam-no com grande convicção e tornou-se símbolo de uma era cujo resultado foi a bancarrota e a troika. Num ou noutro aspecto, o balanço da sua actuação como Primeiro-ministro podia ser mais mitigado, - nem tudo é de sua inteira responsabilidade, - mas o que sobra de sua directa e intransmissível responsabilidade, mais que justifica o anátema que caiu sobre o seu nome. Quem não percebe isso vive na Lua. 

 Mas a história de Sócrates, convém recordar, não é a preto e branco e muitos dos que hoje andam com as pedras com o seu nome para atirar ao PS tem bem pouca autoridade para o fazer. Eu sei, até pela minha experiência de crítico, - que pode ser consultada no arquivo destes artigos, - como era solitário e incompreendido criticar Sócrates. No PSD, sim no PSD, nos mesmos meios que se colaram com cola-tudo ao “ajustamento” e ao governo salvífico de Passos Coelho-Gaspar-Portas, desde os altos negócios, ao aprendiz de feiticeiro num mini-blogue, houve louvaminhas a Sócrates que nunca mais acabavam. 

 Sócrates foi endeusado por muitos os que saíram dos almoços de negócios e dos escritórios de advogados, das recepções e inaugurações, dos gabinetes e dos telefonemas, onde o frequentavam e incensavam, para agora o tratar como demónio vivo. Eu li milhares de palavras sobre como Sócrates era o representante de um “novo” socialismo moderado, aberto ao mercado e aos negócios, cujos esforços para corrigir o défice deixado por Santana Lopes, era notável e apoiando-o nalguns dos conflitos corporativos mais duros que o seu governo teve, como o dos professores. Havia igualmente a tese, que sempre combati, de que Sócrates tinha tirado “espaço político” ao PSD, governando como um social-democrata e que isso marcava um ponto sem retorno ideológico e político. Passos Coelho, então desenvolvimentista contra Manuela Ferreira Leite que dizia que “não havia dinheiro”, estava muito próximo de Sócrates na visão, nem mais nem menos, … das grandes obras públicas. Estão todos esquecidos, não é verdade?

 Mas há mais: quando o nome de Sócrates começou a aparecer em todas as trapalhadas, suspeitas, histórias e negócios, do curso às marquises, do Freeport à Cova da Beira, do bizarro contrato com Figo à tentativa de controlar os media, a TVI em particular, usando a PT, quando se conheceram detalhes da iniciativa dos magistrados de Aveiro de processar Sócrates por abuso do poder, somaram-se as declarações em sua defesa de Passos e Miguel Relvas, queixando-se que lhe estava a ser movido um “ataque pessoal”. Este par do PSD protegeu Sócrates quanto pôde das consequências que podia ter o inquérito parlamentar, considerando que não se devia ir mais longe, de novo porque isso seria um “ataque pessoal”. Isto vindo do mesmo homem, Passos Coelho, que há uma semana, referindo-se claramente a Sócrates numa insinuação disse: “Não possuo riqueza acumulada nem tenho em nome de tias, filhos e primos quaisquer bens”. Estamos conversados.

 É por isso que eu não aceito o “argumento Sócrates” em 2014 e espero que o “argumento Sócrates” se transforme no “argumento Sócrates-Passos Coelho-Portas”, identificando-se assim a tripla que, desde pelo menos 2008, e até antes, ajudou a destruir Portugal, a destruir a sua economia e finanças, a por em causa a sua independência, a alterar profundamente os equilíbrios entre grupos sociais, a dividir os portugueses atirando-os uns contra os outros e aprovar muitas medidas iníquas, que minaram a boa-fé que deve presidir à actuação do estado em democracia. E que ajudaram a que a democracia portuguesa conheça um crise de representação muito grave.

 Sócrates e Passos Coelho não destruíram os mesmos aspectos, não destruíram as mesmas coisas nem da mesma maneira, não actuaram de modo igual, mas deixaram um rastro demolidor de que o país muito dificilmente se vai livrar tão cedo e vai condenar muitos portugueses a passar os últimos anos da sua vida sem esperança nem destino que não seja empobrecer e ficar cada vez pior. Ambos mostraram pouco apreço pela lei e pelo estado de direito, actuando no limite ou para além da legalidade, ambos se rodearam de cortes interessadas e interesseiras com origem nos seus partidos, permeando os lugares de estado com os seus boys, numa exibição de prepotência com base nas suas maiorias absolutas. Um esbanjou sem controlo milhões e milhões em projectos “bandeira” e em “má despesa pública”, outro dividiu os contratos entre os de primeira (PPPs e swaps, tributos aos credores) e os de segunda (reformas e pensões, acordos colectivos de trabalho, compromissos laborais, etc.), criando desequilíbrios que fazem com que os frutos do trabalho e da riqueza sejam hoje pior distribuídos. Ambos permitiram a captura do sistema político pela banca, com os resultados que o caso BES revela em todo o seu esplendor. E ambos usaram e abusaram dos poderes do estado para colocarem os cidadãos no seu sítio, quer fosse com o fisco, com a inversão do ónus da prova, quer fosse a ASAE a multar restaurantes por causa dos galheteiros. Ambos foram total e completamente anti-liberais, no plano económico, social e político.

Sócrates e Passos Coelho são muito diferentes, mas são também muito iguais. Aquilo em que foram e são mais iguais é na amoralidade que introduziram e reforçaram na vida pública, aqui também com a prestimosa ajuda de Portas. A moralidade na vida pública não se nota quando existe, mas torna-se um monstro que inquina tudo quando não existe. Ambos usaram do dolo, do engano como método de governar, utilizando todas as técnicas das agências de comunicação e marketing, as novas formas de propaganda. Ambos desconhecem o seu país, não gostam do seu povo, não prezam a sua independência, fazem gala de não precisar da História para nada e são incapazes de aprender, embora sejam muito capazes de se adaptar, sem memória, nem honra, nem compromisso com a verdade. Em suma, eles marcaram a chegada ao poder de uma geração de governantes muito iguais entre si, gente mal formada, mal preparada, mal-educada, mal instruída e mal-intencionada. De gente como Sócrates e Passos Coelho.

 É isto que o “argumento Sócrates” me lembra. Nunca o utilizarei a não ser em tandem com o “argumento Passos Coelho”. Até porque, convém recordar, que quem está no poder é o segundo e não o primeiro. E quanto a António Costa eu só posso desejar que não repita os erros trágicos de Sócrates e que não repita os erros trágicos de Passos Coelho. Até, porque, realisticamente, não é impossível que venha a repetir mais facilmente os erros de Passos Coelho do que os de Sócrates. Vamos ver.

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3.10.14


SEMPRE A ATIRAR PARA O LADO A VER SE A GENTE SE DISTRAI



O problema do “caso Tecnoforma” para o Primeiro-ministro não resulta de se ter “explicado tarde”. Resulta do “caso Tecnoforma”, em primeiro, segundo, décimo, milionésimo lugar. E resulta das suas "explicações" que não explicam nada, bem pelo contrário. Quem está a desviar o mal-estar à volta de Passos Coelho apenas para o atraso das suas explicações, está a ver se cola um erro instrumental, naquilo que pode ser uma enorme complicação substancial.
Já escrevi várias vezes e em devido tempo, muito antes destes eventos, sobre empresas como a Tecnoforma e a sua “peculiar” relação com o poder político. Por que razão nascem ou contratam políticos, muitas vezes sem qualquer qualificação, e como proliferam e ganham dinheiro encostadas a decisões políticas e a informação privilegiada. Do lado de cá está uma “empresa”, do lado de lá está sempre um amigo no sítio certo. Pelo meio, estão os homens que “abrem todas as portas”.

Sabe-se agora, sem surpresa, que a Tecnoforma criou e financiou com verbas consideráveis (que é o que significa “ser o único mecenas”) uma ONG chamada Centro Português para a Cooperação na qual Passos Coelho “trabalhava” de graça. É suposto que uma ONG tenha como objectivo qualquer coisa de bom e nobre e útil para quem precisa, neste caso os PALOPs. É por isso que tem um regime de favor no plano fiscal, na contabilidade, no governance, com muito poucas regras e sem o controlo que teria uma empresa. Mas o Centro Português para a Cooperação, obra do “mecenato” da Tecnoforma, tinha um objectivo peculiar: arranjar projectos para financiar a Tecnoforma, acedendo a fundos e recursos indisponíveis para uma empresa, mas disponíveis para uma ONG. Ou seja, era uma falsa ONG.

 Pode ser que até tenha sido tudo legal (duvido), mas tudo isto é uma fraude e um abuso. E a natureza deste tipo de empresas e deste tipo de actividades só é acessível a quem conhece os meandros do poder político e quem sabe onde ir buscar os fundos desviando-os do seu objectivo filantrópico ou útil para a nação. Assim, foram úteis mas foi para outra coisa. 

Quem se mete ou é parte activa neste tipo de actividades, fica sempre manchado, até porque sabe muito bem o que fez e com quem fez. Não me admira por isso que a memória emperre.

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29.9.14


O DIA UM DO ANO ELEITORAL 


 1. Hoje começa o ano eleitoral de 2015. O PS passou a partido de oposição. 

 2. Porque é que eu digo que o PS não tem sido um partido de oposição, mesmo apesar do radicalismo verbal do seu antigo secretário-geral? Por coisas como esta: na última semana antes das eleições primárias, houve um encontro secreto entre o secretário-geral da UGT e o primeiro-ministro. Segundo diz o oráculo governamental, Passos Coelho convenceu o secretário-geral da UGT a aceitar o acordo sobre o salário mínimo. Tudo quanto é ministro, do primeiro ao último, incluindo o ministro-viajante Paulo Portas foi lá à concertação social (que eles desprezam todos os dias, a não ser quando têm a UGT no bolso) para marcar a grande vitória do governo. As fontes do governo diziam que era fundamental haver um acordo antes do final do processo eleitoral no PS. Percebe-se porquê. O secretário-geral da UGT é um dos principais executantes da política de Seguro, de que foi um dos mais activos apoiantes, prestou-se ao timing propagandístico do governo e à substância de um acordo que fragiliza a segurança social, a mesma que o governo usa como pretexto para as suas previsões neo-malthusianas. É mais um exemplo do que aconteceu nos últimos três anos. 

 3. A história desta campanha é muito interessante de todos os pontos de vista, incluindo até, imaginem, o filosófico. Não interessará a ninguém, mas poucas vezes se viu melhor exemplo do que é o ruído do mundo e daquilo que Weber descreveu há muito: a maioria das acções de um politico tem o efeito exactamente contrário do que era pretendido. Ou dito de outra maneira: Seguro tomou várias decisões pelas piores razões do mundo e o efeito perverso dessas decisões foi positivo. Positivo para a democracia portuguesa e positivo para o PS. Que se cuide quem não quiser ver que o PS teve uma das poucas vitórias junto da opinião dos portugueses que é de índole político-partidária. Já não havia disso desde os anos de brasa da revolução. Havia vitórias e derrotas políticas, ligadas a personalidades, mas uma vitória que pudesse ser assacada a um partido enquanto tal, já não se verificava há muito tempo. A última foi uma tentativa com menor dimensão e que falhou, a “refiliação” no PSD. 

 4.Seguro teve um papel paradoxal. Fez todas as escolhas por razões estritas de sobrevivência e, porque não tinha nada a perder, e acabou por ser revolucionário malgré lui-meme. As eleições primárias foram convocadas pelas piores razões do mundo: eram um subterfúgio de Seguro para continuar na liderança do PS mais uns meses, na esperança de que qualquer crise lhe desse uma oportunidade, pressupunham uma estratégia negativa de desgaste do adversário, que o tempo longo sempre traria, e criavam uma estranha figura, a do “candidato a primeiro-ministro” em vez de ser para o líder do partido. Seguro queria tornear o facto de que, tendo blindado os estatutos para nunca cair a meio do mandato, não podia ter desafios. Enganou-se, e esse foi um engano pessoal e político: as pessoas consideram Costa melhor do que Seguro, fosse para o que fosse, de porteiro da sede a secretário-geral, e depois, não queriam correr o risco de ver o PS a perder para o PSD e o CDS. Nunca, jamais, em tempo algum. Os tempos não estavam para brincadeiras e “fidelidades”, e em tempo de guerra não se limpam armas. 

 5. As eleições primárias foram pensadas como um expediente, como aliás muitas outras propostas de Seguro, em cima do joelho. Foram mal preparadas e mal conduzidas, até que Jorge Coelho entrou em funções. Eram uma entorse estatutária, cujas complicações ainda estão por se verificar no Congresso. E tornaram-se um sucesso de mobilização depois dos debates, ou melhor, depois de se começar a perceber quem era Seguro. A frase mais certeira da campanha foi quando Costa no último debate, o mais vilipendiado pelo nosso coro de bons costumes e pelo PSD (pudera, Costa ganhou-o claramente de forma muito empática) disse que “os portugueses ficaram a conhecer-te”. Ficaram. 

 6. O acompanhamento jornalístico foi como habitual muito estereotipado, e profundamente conservador, salvo raras excepções. Sem novidade, lá vieram a “campanha sem ideias”, a “campanha de insultos”, a “luta de galos”, o “vazio de soluções para Portugal”, aquilo que de há muito tempo os media dizem de qualquer campanha política sem excepção. Ao mesmo tempo não dedicam uma linha a analisar qualquer documento programático, como fizeram com os de Costa e os de Seguro, enquanto davam título de caixa alta à mais pequena divergência dos candidatos. Sendo assim, por que razão é que esta campanha tão miserável, descrita com tanto nojo e fastio pela comunicação social, mobilizou muitos milhares de portugueses? 

 7. Eu respondo: Porque a campanha teve vida, sangue, suor e lágrimas. A campanha foi confrontacional e isso foi positivo e muito eficaz. Aliás, os aspectos mais interessantes da campanha foram esses mesmos, os momentos em que em vez de dois monos a recitar frases feitas que passam por ideias, os dois homens se atacaram um ao outro, revelando-se como personalidades políticas. Personalidades políticas é personalidade+política, e isso mobilizou as pessoas exactamente em relação inversa à beatice hipócrita com que se recusava a “campanha pessoal”. Em inglês há uma palavra para isto, “sanctimonious”. Os nossos costumes oficiais de salamaleques, uma herança maldita do salazarismo e da censura na nossa vida colectiva, considera o confronto uma baixaria indigna da pompa do estado. Deviam ir ao Reino Unido, o país com mais forte tradição parlamentar, para ver o que é dureza nos debates. Nós cá somos uns anjinhos. O problema destas campanhas, de frente a frente, é que mobilizam a empatia, a simpatia e a antipatia, e isso é melhor do que as estratégias de plástico das agências de comunicação. Revelam logo quem é medíocre e fraco, ou quem é arrogante e ignorante, ou quem é hipócrita e genuíno. São duras porque são cruéis. 

 8. António José Seguro assentou a campanha eleitoral no papel de vítima. Acredito que os poucos votos que teve, teve-os porque a vitimização não é desprovida de vantagens eleitorais. O erro de Seguro é que não se pode ter uma campanha longa a fazer de vítima porque ninguém quer uma vítima para primeiro-ministro. A uma dada altura já ninguém tem paciência e o papel de Calimero vira-se contra o pintainho. Do mesmo modo que a campanha desgastou a intangibilidade de Costa, desgastou a vitimização de Seguro. 

 9. Agora é que vai ser difícil para António Costa e não é um mero problema de expectativas. É um problema de realidades. O objectivo do PS está longe de ser conseguido: o PS sem maioria absoluta pouco conseguirá no contexto actual. A não ser que seja capaz, o que é muito difícil, de fazer um acordo à esquerda, que esse sim mudava. Ou, em alternativa, unir todo o “contra” como Costa disse na campanha, assumindo o programa da Aula Magna. Mas, para isso, tem que mostrar que compreende a dimensão da nossa tragédia e é capaz de lhe responder. António Costa tem que ser capaz de transportar a mobilização que conseguiu no PS para o país. Não é fácil, sem rupturas claras, que até hoje não quis fazer. 

 10. Mas o PSD, que amava Seguro com o “coração, como disse Marcelo Rebelo de Sousa, referindo-se a seu próprio órgão vital, dificilmente vai perceber o que lhe está a acontecer. Fica-se pela oposição a Costa, quase ao nível da oposição que fazia na autarquia de Lisboa, e não quer, porque não pode, mudar nada. Nem sequer compreendeu que as primárias do PS, em conjunto com a vitória expressiva de Costa, soam a um sino muito preocupante e que nada disto podia hoje acontecer na paz de um cemitério, com os mortos bem firmes a defender as campas, que é hoje o PSD. 

 11. A verdade, verdadinha, é que na semana em que o PS andou a fazer as tão menosprezadas eleições internas, com tantos “insultos” e vazio de ideias, o PSD andou às voltas com a Tecnoforma, os esquecimentos bizarros de Passos Coelho, e o que mais se virá a saber dessa misteriosa ONG criada para ir buscar negócios para a Tecnoforma. Alguém troca uma coisa por outra?

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27.9.14


PONTO / CONTRAPONTO
  aos domingos às 20 horas na SICN.

  Até o retorno do  caos do futebol lhe alterar mais uma vez o horário.

Tema: a "salsicha educativa".

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23.9.14


O PREÇO QUE VAMOS PAGAR 

Ah! O preço final do “novo banco”, eis a variável de que se fala pouco e que está por debaixo do tapete das decisões mais recentes, e que tem que ter o máximo escrutínio público visto que é o “nosso” dinheiro que está em causa. Não há um cêntimo no Fundo de Resolução que não seja público, quer o que o governo lá meteu, quer o que os bancos foram obrigados a pagar para a sua existência, visto que se trata de um imposto, logo é “nosso”. Ora, como também os meus leitores sabem, visto que aqui já foi escrito, “tempo” e dinheiro não coincidem. Bento queria mais tempo, para vender um banco “estabilizado”, logo mais caro. O governo parece prescindir de um valor final maior, na hipótese de tal ser conseguido num banco ferido, a favor de resolver depressa a questão, mesmo que mais barato. A questão é que se é assim, tal posição é também a de quem o queira comprar, que pode pagar menos, absorver o “novo banco” num banco que já seja bom a sério e acabar com um poderoso concorrente. Em cima da mesa, já não está o interesse em “salvar” o banco, mas o interesse em fazer um bom negócio com os seus restos. 

 E O PREÇO INVISÍVEL 

Mas não é o preço apenas a que devemos estar atento, porque, habituados a estar sempre a ser enganados, temos que olhar para a letra pequenina dos contratos. Aquela para que ninguém prestou atenção, por exemplo, na EDP antes de andar a elogiar encomiasticamente a sua privatização.

 É que o universo BES está pejado de ilegalidades, umas evidentes outras prováveis, e aqui refiro-me às que acompanharam o modo como se dividiu o “bom banco” do “mau banco”. Por exemplo, o que é que aconteceu aos bens dos Espíritos Santo e dos outros “donos”, foram nacionalizados, expropriados, confiscados ou quê? Pensam que quem ficou prejudicado com a decisão, pequeno ou grande, vai aceitar sem litigar? Pensam que Ricardo Salgado está lá num hotel de luxo a fazer o quê com os papéis? De quem é esta ou aquela parte do património do GES, o que é que se passa com Angola, como é que as decisões portuguesas se vão compatibilizar com as decisões dos tribunais luxemburgueses, ou americanos, ou do Panamá? Vai ser um maná para os advogados “de confiança”, e uma coisa eu tenho a certeza: quem comprar o “novo banco” ou o faz barato e arca com a carga da litigância, ou se o comprar mais caro, vai exigir garantias de que na volta, não o possa ou perder, ou ter que entregar algumas coisas “boas” que vieram na divisão. Quem é que pode dar essas garantias? O governo. Com que dinheiro? O nosso.

 Talvez por tudo isto se exija o maior cuidado com o que as agências de comunicação nos vão colocar no prato todos os dias, ou na benemérita imprensa económica, ou nas “informações” dos comentadores.

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BASTA TER BOM SENSO 

 Não dispondo da informação privilegiada que serve para os recados intencionais que são dados aos media, eu esforço-me por praticar o bom senso, o bem que cartesianamente está mais distribuído. E por isso, para os meus leitores, o BES e o GES nunca foram o bom e o mau, e o BES acabaria por soçobrar ao GES, como era de bom senso dizer, em vez de se papaguear a cartilha governamental. E por isso, para os meus leitores, era apenas uma questão de tempo até que a condução caótica do processo do “novo banco” desse no que deu, visto que todas as semanas aparecia um “tempo” de vida diferente, de dois anos a três meses. E por isso, os meus leitores, ficam também já prevenidos que seria bom saber como funciona o dono formal do banco, o Fundo de Resolução, até porque nele estão representados quer os competidores do “novo banco” (que não querem concorrência) e os eventuais compradores do que sobra de bom, ao preço mais baixo possível.

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TALVEZ AGORA VITOR BENTO PERCEBA COM QUEM SE METEU 

Vítor Bento tem escrito sobre o problema da ética nos negócios e na política. Por isso, é uma daquelas partidas que a história prega a todos, poder ouvir palavras como as que Paulo Portas proferiu publicamente numa reunião centrista, em que Vítor Bento passou de bestial a besta. Portas é um dos principais responsáveis, pela sua posição no governo, da escolha de Vítor Bento, visto que todo o processo do BES é conduzido pelo governo utilizando como instrumento o Banco de Portugal. Portas ouviu com certeza as críticas da oposição de que Bento não tinha experiência bancária, de que a escolha tinha sido política, etc. Ele, como toda a muralha de personalidades do governo que se pronunciaram, bem como os comentadores próximos do poder, reagiram indignados a estas acusações incensando Bento até aos limites, como a excepcional escolha para “salvar” o banco. Bento devia ter compreendido que não era tanto ele próprio, nem o resto da sua equipa que eram elogiados, mas a sageza do governo e do seu instrumento o Banco de Portugal, na escolha.

Agora, Vítor Bento teve que ouvir as palavras de Portas, com a mesma repulsa moral que elas suscitam em gente bem formada. Portas fala como se nada tivesse a ver, assim como o governo que faz parte, na escolha de Vítor Bento, uma escolha errada porque não era um “banqueiro” e não “percebia” de banca, não era “profissional” do ofício para que foi escolhido… pelo governo. E depois dá-lhe uma lição moral, a mesma que Marques Mendes e Marcelo Rebelo de Sousa lhe deram, e que segundo este último, “toda a gente” partilha, do PSD de Alcobaça aos seus companheiros de praia:

“Os bancos gerem-se por profissionais e por gente que tenha espírito de missão e que, em qualquer circunstância, perceba que o interesse nacional é superior a qualquer interesse pessoal.” 

Bento portou-se mal ao demitir-se, devia continuar no banco como responsável de fachada, enquanto a cadeia de comando do governo ao Banco de Portugal decidia tudo em nome dele. Ou seja, Bento não aceitou ser um fantoche e isso só lhe fica bem nestes tempos de dissolução moral. Vem agora um tecnocrata mais dúctil.

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20.9.14


A LIÇÃO ESCOCESA: O ABANÃO NA EUROPA ESTABELECIDA


O referendo escocês, mesmo com o resultado que teve, é um bom exemplo de como é errado pensar como se pensa por cá: o que está tem muita força e o que está não muda, é “inevitável”. O “não” vitorioso não vai impedir que muita coisa mude, e o “sim” derrotado vai garanti-lo. Os escoceses deram um exemplo notável da introdução de novidade, de surpresa, daquilo que é a “matéria” da história. Querem um exemplo do “pensar out of the box”, o apelo estandardizado de qualquer seminário para gestores, empreendedores, criativos, publicitários? Aqui o têm. Não é comum, nem fácil e comporta riscos, mas é vivo, logo muda. Aye.

 Ao pensar único por cá, o mais “in the box” que se pode imaginar, chamem-lhe realismo, que não é; conservadorismo, que não é, - é mais preguiça de pensar e aceitação do direito dos mais fortes a pensar por nós. Ao fim de quatro anos de pensamento único, “inevitável”, que varreu tudo, na política, da direita à esquerda, e na cabeça colocou os que perdiam a pensar como os que ganhavam, matou a revolta e a crítica, gerou a apatia e a submissão. Ah! Homens de saias, monstros de Loch Ness, castelos assombrados, lagos sinistros, encarnações de William Wallace, venham comemorar o Hogmaney por cá que bem precisamos de ar fresco, bravura e alegria de sermos senhores de nós mesmos. Aye.

A ideologia do “ajustamento”, funcionou como um deserto que avança, enchendo tudo de areia e atrito. A “história” ideológica que por cá mostra o soçobrar do pensamento é esta: Portugal faliu no final do governo Sócrates devido ao despesismo socialista, não apenas devido à “má despesa pública” de Sócrates, mas devido ao socialismo, social-democracia, keynesianismo, investimentismo público, ou qualquer ismo dessa categoria. Ou seja, não se trata apenas de apresentar uma realidade, mas de avançar com uma explicação ideológica para ela. Confrontado com esta situação de bancarrota, sem liberdade nem independência face aos credores e dependendo da benevolência dos mercados, os números do défice (mais) e os da dívida (menos) passaram a ser o tema central do discurso, de todo o discurso, económico, social, político e ideológico. Deixou de haver política, porque deixou de haver “alternativas”: o curso das coisas tornou-se inevitável. Ou melhor, o défice a dívida sugaram como um buraco negro tudo o resto. Eles eram a natureza das coisas, sólida, dura, permanente. Eram como a gravidade, o atractor universal. Nay.

Quem não queria partir daqui e chegar aqui, estava a filiar-se na escola ou “dos que não percebiam que o mundo tinha mudado”, ou dos partidários do “pensamento mágico” que pensavam que, com uma varinha mágica, resolviam tudo, mesmo os dois Mostrengos que se erguiam entre o Terreiro do Paço e os mandantes dos credores, o défice e a dívida. Eram desqualificados, “velhos do Restelo”, “socráticos”, ultrapassados e empecilhos. Para os que ainda podiam influenciar perversamente os jovens, como alguns professores reformados e jubilados que davam aulas de graça, e que eram portadores do perigoso pensamento anti-inevitabilidade, uma lei iníqua proibiu-os de o fazerem. A capa do livro de Camilo Lourenço chamado “Saiam da frente!” fazia a lista dos culpados – Soares, Sócrates, Mário Nogueira, Jerónimo de Sousa, Manuela Ferreira Leite, - “aqueles que levaram Portugal á falência”, “três vezes” – é “altura de os afastar”. Que tal uma injecção atrás da orelha, para tão perniciosa gente? Havia que abrir caminho para os Maçãs, os Poiares, os Lourenços, os César das Neves, os Joaquim Aguiar, os articulistas da imprensa económica, os jovens lobos do Compromisso Portugal, dos blogues governamentais e do Observador. Nay. Como um dos corifeus deste pensamento salvífico, Maçãs, escreveu, era tempo de acabar com o “socialismo” que, com excepção dos anos de Passos Coelho, tinha sempre dominado em Portugal. Com uma técnica estalinista da história, a amálgama, juntava-se no mesmo saco Sócrates e Manuela Ferreira Leite que lhe tinha dito “não há dinheiro”, para ouvir Passos Coelho, então desenvolvimentista e keynesiano, lhe criticar o reaccionarismo da afirmação. Todos são culpados, porque toda a história desde o 25 de Abril é apenas um longo caminho de “socialismo” de “vida acima das suas posses”, um percurso que nasce do mal, o 25 de Abril, e continua pelo mal, o “socialismo” de todos até à “revolução” Passos Coelho. Nay.

Se Sócrates está lá bem, Soares está lá pela sua intransigência face a este governo, Nogueira, porque os sindicatos são o inimigo a abater, Jerónimo, porque haver um partido comunista legal e activo é um perigo público, Cavaco Silva porque é suspeito de keynesianismo, e Manuela Ferreira Leite, porque lembra que o PSD foi em tempos um partido reformador e social-democrata e algumas avis raras não se têm calado e subjugado como muitos fizeram. Ou seja, tudo o que aparece como empecilho ao glorioso caminho da “libertação da economia”, vai para o índex. Nay.

O “ajustamento” foi a palavra encontrada para, na política, - que deixou de poder ser nomeada como política, - se poder voltar ao estado natural das coisas, que o “socialismo” de Cavaco Silva a Sócrates, tinha perturbado, levando o país a “viver acima das suas posses”. Agora vinha a factura para regressarmos ao estado natural de que nunca devíamos ter saído. Qual era esse estado natural? A pobreza atávica de Portugal, a mesma que Salazar apreciava como geradora de virtudes. Quem retirou Portugal desse estado natural, de forma esbanjadora, perdulária, despesista, viciosa? A classe média criada depois do 25 de Abril, os funcionários públicos, os professores, os trabalhadores das empresas públicas, os militares, os enfermeiros, o estado social, o alvo a abater. A esse alvo acrescentava-se a economia expendable, as pequenas e médias empresas dadoras de emprego, na construção civil, na restauração, etc., o símbolo do atraso do sistema económico português que deveria ter dot.coms em vez de cafés da esquina. Naturalmente as “jovens” desempoeiradas que pegavam na receita da tia e começaram a vender compotas na Internet, passavam ao modelo do “empreendorismo”. Nay.

 Qual é o remédio para repôs a virtude e combater o vício? “Ajustar”, uma tarefa que passa por empobrecer quem ainda tinha alguma coisa (a classe média), alterar os equilíbrios sociais que garantiam alguma distribuição (através do ataque aos chamados “direitos adquiridos”), diminuir o valor do trabalho, impor uma violenta carga fiscal sobre o trabalho. O empobrecimento, que os nossos governantes com todo o à vontade tratam de “efeito colateral”, algo de tão inevitável que não vale a pena defrontá-lo, era na verdade um mecanismo estrutural, para voltarmos a esse estado natural a partir do qual se podia esperar uma “economia sã”. Nay.

 Podia continuar por aqui adiante, mas cansa. Cansa ouvir isto, como me cansa a mim escrevê-lo. Para sair disto, vale a pena aprender com os escoceses. Vejam lá o que fizeram esses malvados. Deram alento a uma ideia que parecia morta, marginal, apenas circulando pelas franjas da vida política, a de uma Escócia independente. Na última década, essa ideia, a que ninguém atribuía importância, tão grande era a inevitabilidade do Reino Unido, começou a crescer, impôs mais autonomia e tornou central o debate da independência. Várias coisas ajudaram, a tradição operária escocesa, a preservação da cultura nacional, e a afronta que alguns governantes ingleses, como Thatcher, fizeram aos rudes highlanders, que lá por usarem saias, nem por isso deixam de ser homens e mulheres orgulhosos num mundo europeu demasiado submisso. E quando os sins e os nãos se aproximaram perigosamente, soaram os alarmes por toda essa Europa burocrática, estabelecida, convencida e em grande parte inútil. Aye.

 A independência escocesa teria problemas, - por mim se a maioria dos escoceses quer ficar no Reino Unido, um sítio particularmente civilizado da Europa, muito bem, - mas em bom rigor qual era o mal de serem independentes? Que ameaças traria à Europa? Traria à Espanha por causa da Catalunha, mas pensam que o “não“ escocês resolve o problema? Traria à Ucrânia oriental, mas a situação de independência de facto existe e só em termos geopolíticos se pode explicar o grande amor europeu à integralidade territorial da Ucrânia, que não se aplica à Moldova, nem à Geórgia, nem à Arménia. As instituições europeias hoje representam uma espécie de polícia da boa economia do “ajustamento”, da boa política do establishment, da boa área de influência, a alemã. Os escoceses mandaram-lhe um valente abanão, vindo da história, ou seja da surpresa, da vida, da liberdade. E não pediram autorização a ninguém. Nem a Bruxelas, nem a Londres, nem a Berlim. Aye, aye.

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6.9.14


CARTAS PORTUGUESAS A LUDWIG PAN, GEÓLOGO E AGRIMENSOR NA AUSTRÁLIA 

(As duas primeiras  aqui, a terceira aquia quarta aqui, a quinta aqui, a sexta aqui.)



Meu confuso Pan lá pelos antípodas 

Dizes que foste à cidade? Cunnamulla? Mas isso é lá uma cidade? Fui à Wikipedia ver, e dá 1200 habitantes. Está-se mesmo a ver, uma multidão, engarrafamentos, semáforos, rush hour! Ah! meu bom amigo, estás a ficar “local”, um pouco avariado da cabeça, ou então mais certo do que todos nós. 

Quando voltares a Colónia, vai-te parecer um daqueles mundos apocalípticos da ficção científica, pós-nucleares, com mutantes e água a pingar dos neons escalavrados e bares em que se bebem coisas azuis fosforescentes e há fêmeas com vinte mamas. Por favor, faz como os mergulhadores para subir, faz um tirocínio de quinze dias de cidade em cidade, podes começar na Cunnamulla, mas depois vai-lhe acrescentando dez mil, depois cem mil, depois um milhão de habitantes, para te habituares à civilização. Temo que se vieres de férias natalícias para a tua Renânia, como me dizes que vens, entres por um restaurante dentro e te sentes no chão, porque já não sabes o que é uma cadeira.  Cunnamulla? É quente, não chove, mas há inundações e tem uma fonte monumental? Give me a break! Desculpa este meu mau feitio contra Cunnamulla que não tem culpa nenhuma e até se calhar tem uma intensa vida social. 

Eu suspeito que deve haver um equilíbrio cósmico. Tu vens para cá e nós vamos para lá. A gente também já não sabe o que é uma cadeira, uma mesa, um garfo e uma faca. Empurra os tuk-tuk. Grunhe ao telefone. Esbraceja no SMS. Vocifera no anonimato dos comentários. Vive no Facebook. Está tudo a ficar muito bruto. Por cá também vamos a caminho de uma Cunnamulla qualquer. 

Queres notícias do meu país? Voltou o futebol, deixou de haver notícias. Vivemos no reino das platitudes. O Ronaldo parece que deu uma entrevista à TVI e o Marcelo Rebelo de Sousa, - recordas-te, o que nadou no Tejo, o que schwamm in der Scheiße, como dizias antes de seres meio aborígene, - elogiou a sua imensa capacidade de sabedoria e profundeza. O homem parece que quer a Irina, mas só para já. Depois vai querer outra que não é a Irina. Sábio. O homem parece que evitou criticar os patrões. Um cúmulo de sensatez. E por aí adiante, só sageza. Vinte valores. 

Aliás o mesmo pode ser dito do discurso do meu Primeiro-ministro no Pontal , que já não é no Pontal, outra colecção de platitudes gigantescas. Mas foi lá o mundo todo, televisões, rádios e grande cópia de jornalistas e em vez de dizerem, desculpem meus leitores, mas o homem não disse nada, encheram o ar desse mesmo nada. A gente apanha embolias só de respirar este vácuo, mas há sempre alguém que vai lá erigir um amuo qualquer em política. Na oposição, é o mesmo, nada, no país em que se homenageia os mortos pagando-lhes as quotas no partido. Vai haver muito walking dead socialista. Na verdade, já havia antes, alguns até mandavam, nós é que não tínhamos reparado. 

Depois há a intensa produção de paradoxos, que passam por ser o mais linear dos raciocínios. O governo e o Banco de Portugal parecem que querem o BES “bom” vendido o mais depressa possível. Mas para vender bem o BES “bom” este tem que ser “estabilizado”, ou seja, demora tempo. Queremos vender rápido, mas rápido só pode ser “instável”, logo mais barato. No intervalo, a indústria da “estabilidade”, ou seja da imagem e da marca, lá vai ganhando dinheiro com transformar o banco numa borboleta, anúncios, cartazes, fachadas, que nisso somos rápidos e bons a encomendar e há uma verdadeira multidão de “criativos” para responder. Mas se soubessem mais de lepidópteros ou lessem o Nabokov, saberiam que o “novo banco” ficaria bem mais servido com uma larva ou lagarta. Primeiro, porque comem muito, coisa que fica sempre bem a um banco mesmo “bom”, e, quando fosse vendido no esplendor rápido de borboleta então poderia ser que os “contribuintes”, - palavra que deveria ter um alarme acoplado visto que quando o governo a usa ou trata-se de impostos, despedimentos, ou cortes, - ficassem ressarcidos. 

Vê lá este vocabulário dos nossos dias “ressarcidos”… Estás ver como vamos a caminho de Cunnamulla? De foguetão. Meu caro Pan, não há aí um aborígene feiticeiro que me arranje uma Epifania qualquer para eu transformar isto tudo numa experiência religiosa profunda e ficar parvo a falar para um arbusto, em vez de ter esta terrível sensação de ficar cada vez mais perto de Cunnamulla? 

E tu não te percas nessa grande cidade australiana. Bom, o nome não é mau. Como é que se chamarão os habitantes? 

 Um abraço do teu amigo longínquo

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1.9.14



ÍNDICE DO SITUACIONISMO: COMO É QUE A NOVILÍNGUA SE ESTABELECE

A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

 Diz o Primeiro-ministro: 
"Parece-me que a meta que tínhamos definido de 4% para este ano é alcançável, precisa de alguns ajustamentos dentro do nosso orçamento na medida em que há algumas rubricas que têm um peso maior do que tínhamos previsto em consequência de decisões que não fomos nós que tomamos. " 
 Repare-se no sublinhado “em consequência de decisões que não fomos nós que tomamos ", a frase em língua orwelliana. Quer o Primeiro-ministro dizer, e, quase toda a comunicação social que o segue na conjugação do sujeito com o verbo, decisões que (“nós”, o governo) não tomou, mas sim o Tribunal Constitucional. Não, meus amigos é exactamente o contrário: “em consequência de decisões que nós tomamos”, porque as opções por medidas de duvidosa constitucionalidade, para dizer o menos, ou inconstitucionais, foram tomadas pelo governo e por mais ninguém. Nos últimos três anos, o sujeito primeiro das medidas chumbadas pelo Tribunal Constitucional foi sempre o governo, o autor do chumbo foi o Tribunal. Quando chega o chumbo, ergue-se um clamor a dizer que a culpa é sempre do Tribunal, e nunca de quem tem vindo nos últimos anos a somar medidas sobre medidas ilegais à luz da Constituição. E não é por falta de aviso prévio. 

Esta substituição do sujeito da “culpa”, com que a comunicação social colabora sem pensar, é de novo mais um dos casos de situacionismo, de submissão acrítica à linguagem do poder.

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© José Pacheco Pereira
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