| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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15.5.04
MEUS OLHOS
("Espírito", há dois dias, olha para trás.) Que me valem longe, olhando esse deserto marciano, terrível e limpo. Lembrando Nietzsche : “infeliz daquele que ama o deserto”. Que me valem junto do fogo, traidor vulcão, fornalha que só se acendeu quando lhe virei costas.
(Erupção em curso.) (url)
UM EXEMPLO TÍPICO ENTRE MUITOS
da má fé de que fala Fernando Gil nos Impasses. Num artigo editorial, do Público de hoje, escreve Amílcar Correia sob o título “horror infinito” (não sei como é que se há-de chamar ao holocausto, ou ao Gulag, ou aos extermínios de Pol Pot ou do Ruanda; talvez “horror ainda mais infinito”…):
“Um grupo alegadamente ligado à Al-Qaeda exibiu um vídeo com imagens da decapitação de um civil norte-americano, Nick Berg, cuja morte deveria ter sido prontamente condenada por todas as comunidades muçulmanas. Militantes do Hamas exibiram orgulhosos os restos mortais de seis soldados israelitas atingidos mortalmente em Gaza; no mesmo dia em que o exército de Israel fazia mais sete vítimas palestinianas. Como se isto não bastasse, as imagens insuportáveis da prisão iraquiana de Abu Ghraib multiplicam-se e muitas (e piores) imagens estão ainda por divulgar. O mundo não está, de facto, mais seguro depois da morte política de Saddam e o horror ameaça reproduzir-se até ao infinito. “ Muito bem. Três casos de horror. Melhor, quatro, porque também lá estão “as sete vítimas palestinianas” (quem serão? Civis? Militantes do Hamas? Não sabemos, só sabemos que estão lá para servir de contrapartida da “exibição” dos restos mortais dos soldados israelitas). Mas é sobre este “horror” que Amílcar Correia vai escrever? Não. Não é. O resto do artigo é só sobre um fragmento desse horror: "À medida que nos vamos aproximando da data prevista para a transição de poder no Iraque, é cada vez mais evidente a contradição e a falácia entre o discurso da liberdade e da democracia que conduziu a guerra e a prática de torturas e de todo o tipo de arbitrariedades durante o pós-guerra (70 a 90 por cento dos detidos são presos por engano)." E é assim até ao fim. No caminho, ficou o “grupo alegadamente ligado à Al-Qaeda” (que prudência!) e os militantes do Hamas; o “horror”, afinal, é bem mais finito do que parece. É americano. (url)
DESONESTIDADE INTELECTUAL
Deixo de parte a questão das torturas do Iraque, que condenei sempre desde o primeiro momento de forma inequívoca, facto que não convém lembrar por aqueles que hoje as usam essencialmente para propaganda política. Sim, porque salvo raras e honrosas excepções, as torturas estão a ser usadas de forma puramente instrumental para atacar a intervenção americana. Foi esse carácter instrumental do uso das torturas para a propaganda política que eu “estraguei” lembrando a existência do chamado “relatório das sevícias” de 1976, e daí a evidente irritação. Não foi qualquer equivalência moral ou relativismo, como se pode ver lendo os textos originais que escrevi e o que disse sobre a matéria, prática sempre saudável nestas coisas. Mas este título de “desonestidade intelectual” refere-se a uma frase do artigo do Público de Eunice Lourenço hoje. “Pacheco Pereira, que há bem pouco tempo tinha andado a desvalorizar as torturas feitas pela PIDE”. Isto já não é matéria de política, é de pura e simples honestidade. Eunice Lisboa está a referir-se à crítica que fiz (numa nota publicada no Abrupto, em 25 de Janeiro de 2004) à sua colega de jornal São José Almeida, e que reproduzo a seguir integralmente: “Num artigo de hoje do Público São José Almeida escreve o seguinte sobre as torturas utilizadas pela PIDE: Depois acrescentei posteriormente: “Esta nota motivou uma reacção indignada de São José Almeida e de outros jornalistas do Público no Glória Fácil, reafirmando a veracidade e o fundamento do que se escrevera no artigo. Entendi nada dizer porque todas as pessoas que conhecem a história da repressão em Portugal sabem do completo infundado das afirmações de São José Almeida e não valia a pena qualquer comentário pelo que era uma manifestação de ignorância solidária. “ Ainda estou à espera que me provem que na PIDE era “também usual interrogar os presos despidos, sobretudo quando se tratava de mulheres. “ Foi esta a minha “desvalorização das torturas da PIDE”. Julguem como entenderem, mas isto é mau jornalismo em nome do antifascismo, e desonestidade intelectual na imputação a outrém de posições que nunca teve, para obter efeitos políticos. (url)
EARLY MORNING BLOGS 205
La belle matineuse Le silence régnait sur la terre et sur l'onde, L'air devenait serein et l'Olympe vermeil, Et l'amoureux Zéphire affranchi du sommeil Ressuscitait les fleurs d'une haleine féconde. L'Aurore déployait l'or de sa tresse blonde, Et semait de rubis le chemin du Soleil ; Enfin ce dieu venait au plus grand appareil Qu'il soit jamais venu pour éclairer le monde, Quand la jeune Philis au visage riant, Sortant de son palais plus clair que l'Orient, Fit voir une lumière et plus vive et plus belle. Sacré flambeau du jour n'en soyez pas jaloux ! Vous parûtes alors aussi peu devant elle Que les feux de la nuit avaient fait devant vous. (Claude Malleville) * Bom dia! (url) 14.5.04
Agora já se pode revelar o quadro que escolhi para comentar na Fundação de Serralves, numa série organizada em que um convidado escolhe um quadro e comenta-o com mais duas pessoas. No meu caso, o crítico de arte Bernardo Pinto de Almeida e o psiquiatra Jaime Milheiro. O quadro, datado de 1879, é de William Harnett, que, com John Peto, é autor de uma série de naturezas mortas e composições hiper-realistas, na segunda metade do século dezanove. Harnett, conhecido como o “American Zeuxis”, do pintor grego que tinha fama de pintar umas uvas tão reais que os pássaros as queriam comer, teve um problema idêntico: pintou um quadro com uma nota de cinco dólares tão perfeita que a polícia o queria condenar como falsário. Noutro episódio do mesmo estilo, uma das suas pinturas levava quem a via a querer retirar os objectos que pensava estarem dependurados no quadro, e teve que se colocar um guarda ao lado. (url) 13.5.04
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ESTUDOS SOBRE COMUNISMO
Em actualização: editoras comunistas no Porto, nos anos trinta, e identificação de um desenho editado clandestinamente. (url)
EARLY MORNING BLOGS 204
A manhã raia. Não: a manhã não raia. A manhã é uma cousa abstracta, está, não é uma cousa. Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui. Se o sol matutino dando nas árvores é belo, É tão belo se chamarmos à manhã «começarmos a ver o sol» Como o é se lhe chamarmos manhã; Por isso não há vantagem em pôr nomes errados às cousas, Nem mesmo em lhe pôr nomes alguns. (Alberto Caeiro, cortesia de João Costa) * Bom dia! (url) 12.5.04
POEIRA DE 12 DE MAIO
Como era bom quando o mundo era simples e o senhor Samuel Pepys, hoje, há trezentos e quarenta e um anos, anotava no seu diário: “After dinner Pembleton came and I practised”. O senhor Pembleton era o seu professor de dança. (url)
PEDIDO DE AJUDA
aos amigos linguistas. Como é que traduzo "olimpyanism"? Por "olimpianismo", fiel ao uso conceptual novo (veja-se nota sobre Kenneth Minogue), ou "olimpismo"? No Houaiss há "olimpiano" e "olímpico", mas não "olimpianismo"... (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 203
Matin Voici le matin bleu. Ma rose et blonde amie Lasse d'amour, sous mes baisers, s'est endormie. Voici le matin bleu qui vient sur l'oreiller Éteindre les lueurs oranges du foyer. L'insoucieuse dort. La fatigue a fait taire Le babil de cristal, les soupirs de panthère. Les voraces baisers et les rires perlés. Et l'or capricieux des cheveux déroulés Fait un cadre ondoyant à la tête qui penche. Nue et fière de ses contours, la gorge blanche Où, sur les deux sommets, fleurit le sang vermeil, Se soulève et s'abaisse au rhythme du sommeil. La robe, nid de soie, à terre est affaissée. Hier, sous des blancheurs de batiste froissée La forme en a jailli libre, papillon blanc. Qui sort de son cocon, l'aile collée au flanc. A côté, sur leurs hauts talons, sont les bottines Qui font aux petits pieds ces allures mutines, Et les bas, faits de fils de la vierge croisés, Qui prennent sur la peau des chatoiements rosés. Epars dans tous les coins de la chambre muette Je revois les débris de la fière toilette Qu'elle portait, quand elle est arrivée hier Tout imprégnée encor des senteurs de l'hiver. (Charles Cros) * Bom dia! (url) (url) 11.5.04
LIVROS MALDITOS DO PÓS-25 DE ABRIL
Na referência que fiz ao esquecido (e mesmo ignorado, a julgar pelos comentários) relatório das “sevícias”, como era conhecido na época, não coloquei a nota bibliográfica completa que aqui vai :
Presidência da República, Relatório da Comissão de Averiguação de Violências Sobre Presos Sujeitos às Autoridades Militares, Nomeada por Resolução do Conselho da Revolução de 19 de Janeiro de 1976, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1976. Algumas notas complementares: uma, os factos referem-se ao pós-25 de Abril, essencialmente a 1975, o Presidente que assina a portada do livro era o general Costa Gomes, e o Conselho da Revolução era liderado pelos “militares de Abril” que costumam ir à frente das manifestações. Apesar de nunca ter havido julgamentos destes casos – como de muitos outros envolvendo a chamada “rede bombista” - no caos ainda prevalecente nesses anos, o Regimento do Polícia Militar foi dissolvido, voltando uma parte a ser o Regimento de Lanceiros 2 e criando-se a Polícia do Exército. Os factos relatados nunca foram verdadeiramente contestados na sua veracidade. A cadeia de comando de 1975 é conhecida: o comandante era o major Campos Andrade, que chegou a estar preso com um número considerável de acusações, e libertado sem julgamento e o segundo comandante foi o Major Tomé, expulso do exército em Abril de 1976. Um segundo exemplo de livro maldito, este ainda mais raro de encontrar, porque nunca foi divulgado ao público, é
Ministério da Justiça. “Caso FP-25 de Abril” . Alegações do Ministério Público com anexo documental, Lisboa, 1987. O livro, com quase 1050 páginas, foi distribuído institucionalmente, enviado para os outros ministérios, para a Assembleia, e, de repente, resolveu-se parar com a distribuição, pelo que nunca chegou nem sequer à livraria do estado. Os anexos, incluindo a enorme massa documental apreendida nas operações policiais contra as FP 25 de Abril, com destaque para os muitos manuscritos de Otelo, são um retrato excepcional de uma típica organização terrorista da época. (url)
“OLIMPIANISMO” - PARA PERCEBER MUITA COISA NOS DIAS DE HOJE
O conceito de “olimpianismo”, exposto por Kenneth Minogue, num artigo de Junho de 2003 do New Criterion ( e que infelizmente não está em linha), é muito importante para perceber as mudanças dos dias de hoje. Há, no entanto, um artigo complementar do mesmo autor, The Fate of Britain's National Interest , que discute questões próximas e que também se refere ao “olimpianismo”. Não é preciso concordar com tudo, mas que dá para pensar, dá. (url)
FORMAS DE ECONOMIA DA INDIGNAÇÃO
Foi publicada recentemente a lista dos dez piores lugares do mundo para o exercício do jornalismo em 2003, elaborada pelo Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ): Iraque, Cuba, Zimbabwe, Turquemenistão, Bangladesh, China, Eritreia, Haiti, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Rússia. Usarei esta lista para fazer uma espécie de geografia do mal.Agora seria interessante ver, em termos de espaço de indignação, que lugar cada um ocupa na escrita jornalística “indignada” – notícias de “jornalismo de causas”, editoriais, comentários de opinião. Imediatamente se podiam excluir os conflitos sem aparente interesse geo-estratégico, nos fundos malditos do Terceiro Mundo - Bangladesh, Eritreia, Haiti –, ou os lugares demasiado exóticos como o Turquemenistão. Como, em nenhum caso, parece haver um envolvimento especial dos EUA, ninguém se interessa. O caso do Haiti até seria interessante de analisar em separado, mas deixemo-lo de parte para já. Depois há os desinteresses da indignação em que Cuba e o Zimbabwe têm papel relevante, com dois regimes “anti-imperialistas” e socialistas. Cuba costuma ter duas ou três frases de desobriga, mas não é preciso nenhuma lupa para perceber que há mais incómodo do que indignação. O Zimbabwe quase que só é uma questão britânica, vista com desinteresse generalizado. A China é atacada mais pelo crime da sua economia de mercado do que pelo crime do seu comunismo. A Rússia merece grandes silêncios. O Iraque, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza já, pelo contrário, acumulam as indignações, o que tem todas as justificações. Mas, mesmo assim, as indignações são selectivas e seria difícil encontrar quem se tenha indignado com as violências palestinianas contra os jornalistas, também referidas no relatório do CPJ. Critérios objectivos para medir o que digo? As escolas do jornalismo do futuro farão esse estudo, mas não seria difícil desde já medi-lo usando a frequência e o valor simbólico dos adjectivos utilizados e os metros quadrados de prosa e de tempo de antena. (url)
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: “ESPÍRITO”, LEITOR DE BARTHES
O “Espírito” continua a subir. Farto de planícies, farto de buracos no chão, já andou uma milha com os olhos numas colinas que parecem, em tanta planura, montanhas. O “Espírito” leu Roland Barthes na sua juventude, nalguma parte da sua memória reconstruída está o gosto pelas montanhas. (url)
EARLY MORNING BLOGS 202
Ma chaumière Ma chaumière aurait, l'été, la feuillée des bois pour parasol, et l'automne, pour jardin, au bord de la fenêtre, quelque mousse qui enchâsse les perles de la pluie, et quelque giroflée qui fleure l'amande. Mais l'hiver, - quel plaisir, quand le matin aurait secoué ses bouquets de givre sur mes vitres gelées, d'apercevoir bien loin, à la lisière de la forêt, un voyageur qui va toujours s'amoindrissant, lui et sa monture, dans la neige et la brume ! Quel plaisir, le soir, de feuilleter, sous le manteau de la cheminée flambante et parfumée d'une bourrée de geniè- vre, les preux et les moines des chroniques, si merveil- leusement portraits qu'ils semblent, les uns jouter, les autres prier encore ! Et quel plaisir, la nuit, à l'heure douteuse et pâle, qui précède le point du jour, d'entendre mon coq s'égosiller dans le gelinier et le coq d'une ferme lui répondre faible- ment, sentinelle juchée aux avant-postes du village endormi., Ah ! si le roi nous lisait dans son Louvre, - ô ma muse inabritée contre les orages de la vie ! - le seigneur suzerain de tant de fiefs qu'il ignore le nombre de ses châteaux ne nous marchanderait pas une chaumine ! (Aloysius Bertrand) * Bom dia! (url) 10.5.04
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES
Sobre POEIRA DE 9 DE MAIO Relativamente a Galileu li há dias um texto que me surpreendeu. Retirado de "Conjecturas e refutações" de Karl Popper capítulo 3 "Três perspectivas acerca do conhecimento humano"
1. A ciência de Galileu e a sua mais recente traição Era uma vez um famoso cientista chamado Galileu Galilei, que foi julgado pela Inquisição e obrigado a renegar a sua doutrina. O caso provocou um grande tumulto e, durante bem mais de duzentos e cinquenta anos, continuou a gerar indignação e distúrbio – muito após a opinião pública haver conquistado já a sua vitória e a Igreja se ter tornado tolerante para com a ciência. Mas esta é agora uma história muito antiga e receio que tenha perdido o seu interesse, pois, segundo tudo indica, a ciência galilaica já não tem inimigos: a sua vida está doravante segura. A vitória, há muito conquistada, foi definitiva, e nada perturba o sossego desta ex-frente de batalha. Lançamos assim, hoje em dia, um olhar distanciado sobre o caso, tendo aprendido, pelo menos, a pensar em termos históricos e a compreender ambos os lados de uma discussão. E já ninguém tem paciência para ouvir os maçadores que não conseguem esquecer um velho agravo. Em que é que consistia afinal este velho caso? No cerne da questão estava o estatuto do “Sistema do Mundo” de Copérnico que, entre outras coisas, explicava o movimento diurno do Sol como meramente aparente e devido à rotação da nossa própria Terra. A Igreja estava perfeitamente disposta a admitir que o novo sistema era mais simples do que o antigo; que constituía um instrumento mais cómodo para os cálculos astronómicos e previsões. E a reforma do calendário do Papa Gregório fez pleno uso prático dele. Não havia nenhuma objecção ao ensino da teoria matemática por Galileu, desde que este deixasse claro que o seu valor era apenas instrumental; que não passava de uma “suposição”, como o Cardeal Bellarmino dizia, (*) ou de uma “hipótese matemática” – uma espécie de artifício matemático “inventado e assumido para abreviar e facilitar os cálculos.” Por outras palavras, não havia objecções desde que Galileu estivesse disposto a pôr-se de acordo com Andreas Osiander, que escrevera no seu prefácio ao De revolutionibus de Copérnico: “Estas hipóteses não precisam de ser verdadeiras ou de se assemelhar sequer à verdade; pelo contrário, basta-lhes apenas uma coisa: produzirem cálculos que se harmonizem com as observações.” O próprio Galileu estava, como é óbvio, perfeitamente disposto a realçar a superioridade do sistema copernicano enquanto instrumento de cálculo. Mas, ao mesmo tempo, conjecturava e, inclusivamente, acreditava que esse sistema constituía uma descrição verdadeira do mundo. E para Galileu (como para a Igreja) este era, de longe, o aspecto mais importante da questão. (*) Galileu agirá avisadamente”, escreveu o cardeal Bellarmino “… se falar hipoteticamente, ex suppositione…: dizer que descrevemos melhor as aparências supondo a Terra em movimento e o Sol em repouso de que se usássemos excêntricos e epiciclos é falar acertadamente. Não há perigo nisso, e é tudo aquilo de que o matemático necessita” Mais à frente Popper escreve: "Hoje em dia, a perspectiva da ciência física instaurada por Osiander, pelo Cardeal Bellarmino e pelo Bispo Berkeley venceu sem que nenhum outro tiro tivesse sido disparado." Dá que pensar… chega mesmo a ser irónico o problema epistemológico, afinal o cardeal inquisidor estava mais próximo da visão actual da ciência do que à primeira vista parecia. (Carlos Pereira da Cruz) (url)
POEIRA DE DEZ DE MAIO
Hoje, há cento e quarenta anos, Arthur F. Munby cruzou-se no Covent Garden com Charles Dickens. Munby era um poeta menor e um funcionário com uma obsessão secreta. Tinha uma paixão sem limites pelas mulheres da “working class”. Para a levar à prática casou em segredo com a criada. Dickens estava sozinho a passear. Tinha um chapéu novo. Munby achava-o vaidoso, mas dava um desconto. Podia ser da roupa. “Thus he passed before me, and thus, in superficial casual way. I judged of him”. Munby preferia Thackeray com a seu “grave and sad-absorbed look”. (url) (url)
PROCESSO CASA PIA
Sempre me intrigou que uma pergunta nunca tenha sido feita. Ninguém contesta que houve violências sexuais sobre menores da Casa Pia. Este é um facto incontroverso. Ninguém pode presumir outra coisa que não seja a inocência dos arguidos, mas eles sairão do tribunal ou inocentados ou culpados. Imaginem que são, como muita gente pensa (e outra não), inocentes e nada tinham a ver com os crimes cometidos. Se for assim, quem é que os cometeu? (url)
EARLY MORNING BLOGS 201
Bonne pensée du matin A quatre heures du matin, l'été, Le sommeil d'amour dure encore. Sous les bosquets l'aube évapore L'odeur du soir fêté. Mais là-bas dans l'immense chantier Vers le soleil des Hespérides, En bras de chemise, les charpentiers Déjà s'agitent. Dans leur désert de mousse, tranquilles, Ils préparent les lambris précieux Où la richesse de la ville Rira sous de faux cieux. Ah ! pour ces Ouvriers charmants Sujets d'un roi de Babylone, Vénus ! laisse un peu les Amants, Dont l'âme est en couronne. Ô Reine des Bergers ! Porte aux travailleurs l'eau-de-vie, Pour que leurs forces soient en paix En attendant le bain dans la mer, à midi. (Rimbaud) * Bom dia! (url) (url) 9.5.04
VIOLÊNCIAS SOBRE PRESOS
Há um documento português, posterior ao 25 de Abril, demasiado esquecido, que retrata uma realidade idêntica àquela que envolve alguns soldados americanos. Chama-se Relatório da Comissão de Averiguação de Violências Sobre Presos Sujeitos às Autoridades Militares, editado pela Imprensa Nacional em 1976. É hoje uma raridade bibliográfica. Algumas das sevícias cometidas são semelhantes àquelas que foram infligidas aos prisioneiros iraquianos, em particular, humilhações de tipo sexual. Nesses comportamentos destacou-se o Regimento de Polícia Militar então dirigido, entre outros, pelo Major Tomé, posteriormente dirigente da UDP. (url)
POEIRA DE 9 DE MAIO
Hoje, há vinte e um anos, João Paulo II cancelou a condenação de Galileu, ocorrida em 1633. Durante trezentos e setenta e um anos, a terra esteve doutrinariamente no centro do universo. Não estava. Não estava? Por detrás do quinto céu, junto aos anjos, Ptolomeu duvidava: “se a prendermos com um alfinete ao quadro universal do espaço, e se utilizarmos um mais que complexo sistema de equações, epiciclos e deferentes, ela bem pode ficar sossegada no centro dos céus…” (url)
EARLY MORNING BLOGS 200
De In Memoriam, 4 To Sleep I give my powers away; My will is bondsman to the dark; I sit within a helmless bark, And with my heart I muse and say: O heart, how fares it with thee now, That thou should fail from thy desire, Who scarcely darest to inquire, "What is it makes me beat so low?" Something it is which thou hast lost, Some pleasure from thine early years. Break thou deep vase of chilling tears, That grief hath shaken into frost! Such clouds of nameless trouble cross All night below the darkened eyes; With morning wakes the will, and cries, "Thou shalt not be the fool of loss." (Lord Alfred Tennyson ) * Bom dia! (url)
© José Pacheco Pereira
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