A série de fotografias sobre o trabalho que aqui se tem publicado, contraria a muito pequena representação que tem o trabalho nos blogues. O mundo do trabalho, a não ser em determinadas funções profissionais do jornalismo ou da academia, ou nalguns blogues de mulheres, com o trabalho feminino doméstico, praticamente não aparece na blogosfera. Isso tem a ver muito com a composição social da blogosfera, traduzida também no mundo simbólico dos autores de blogues. É como no cinema, parece que ninguém trabalha.
Essas fotografias (quase todas dos leitores do Abrupto) valem pela representação do trabalho, na sua normalidade e na sua trivialidade, no quotidiano da esmagadora maioria das pessoas. Elas revelam também o olhar dos seus autores, muito nítido nalgumas fotografias turísticas, que mostram o Outro trabalho do resto do Outro mundo, como sendo uma curiosidade exótica. É também uma maneira de ver. Muitas, porém (como a dos jardineiros de Odivelas) revelam esse ritmo quotidiano quase invisível de milhões de pessoas. Aqui faz-se por ver.
Assouline na La République des Livres transcreve uma entrevista de Ballard em que este fala das previsões falhadas da ficção científica. Não concordo com este julgamento de Ballard sobre Orwell (porque o 1984 é tanto sobre o estalinismo como sobre os media, e aqui Orwell percebeu muita coisa antes de tempo sobre a nossa "sociedade mediática"), mas vale a pena fazer este balanço:
"J'ai été influencé par Wells,Huxley et Orwell.Les prédictions faites par Huxley dans "Le Meilleur des mondes" et "Les portes de la perception" se sont révélées beaucoup plus justes que celles d'Orwell, dont "1984" brossait avant tout un tableau du stalinisme. En bon socialiste, il craignait que ce dévoiement du socialisme ne contamine l'Europe occidentale. Mais Huxley a su prédire des sociétés fondées sur l'uniformisation, l'évasion dans la drogue, le clonage, ainsi que l'idée d'exploiter le potentiel cérébral par l'usage d'hallucinogènes -une intuition prophétique. Pourquoi la Grande-Bretagne a-t-elle produit ces trois auteurs ? Sans doute parce qu'elle résiste au changement, et que ces écrivains se sont révoltés contre tant d'immobilisme".
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Entre as ofertas à "fábrica" dos últimos tempos, destaco uma colecção magnífica de caixas de fósforos soviéticas, um excelente exemplo da iconografia comunista. O seu desenho é muito parecido com o dos selos da mesma época. Aqui vai um exemplo de uma série sobre monumentos, estátuas, o célebre tanque, as "casas da cultura" e os hotéis da Inturist:
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É impossível deixar de pensar que há um elemento retaliatório na busca no 24 de Horas (será que dizer isto é crime?). Se é um crime o que o jornal fez, não foi um crime enviar as informações indevidas para o processo? Se é um crime o que o jornal fez, não têm os jornais e as televisões cometido o mesmo crime dezenas e dezenas de vezes, pelo menos desde que começou o processo Casa Pia? Pode-se sempre dizer que alguma vez a "justiça" deveria "funcionar", só que é um pouco estranho que só o faça contra um jornal que denunciou o que, para não sugerir outra coisa, foi uma negligência grave do Ministério Público. Por isso diz bem Eduardo Pitta no Da Literatura:
"Hoje levantei-me cedo. Fui ler os jornais e os blogues do costume. É distracção minha, ou não estão convocadas manifestações de solidariedade em frente ao 24 Horas? No momento em que, pela primeira vez em trinta anos de democracia, um jornal português é alvo de rusga policial, onde páram os estrénuos defensores da liberdade de expressão? Acaso supõem que ela é indissociável de uma imprensa livre? Que é feito dos blogues de causas? E da indignação bem-pensante? Eu percebo. O 24 Horas não é dos «nossos». Nós somos todos muito finos para nos preocuparmos com jornalismo marron. Mas e o senhor Presidente da República? Desta vez não considera que estejam em causa direitos fundamentais?"
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Novos tempos (do New York Times):
"For the first time, a major publisher is offering a book online at no cost to readers, supported by advertising. HarperCollins is selling the book, "Go It Alone! The Secret to Building a Successful Business on Your Own" by Bruce Judson, through Mr. Judson's site, brucejudson.com. "
The world is too much with us; late and soon, Getting and spending, we lay waste our powers: Little we see in nature that is ours; We have given our hearts away, a sordid boon! This Sea that bares her bosom to the moon; The Winds that will be howling at all hours And are up-gathered now like sleeping flowers; For this, for every thing, we are out of tune; It moves us not—Great God! I'd rather be A Pagan suckled in a creed outworn; So might I, standing on this pleasant lea, Have glimpses that would make me less forlorn Have sight of Proteus coming from the sea, Or hear old Triton blow his wreathed horn.
(Escrito em trânsito, em más condições, para ser integrado no texto final da versão 2.0)
DEZ LEIS DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA Versão 1.0
NOTA INICIAL: As Leis aqui transcritas não são nem Mandamentos, nem Regras, nem Instruções Morais, são Constatações, descrevem o modo como os debates na blogosfera se desenrolam. São genéricas e universais. Como todas as Leis dão origem a excepções, que são elas próprias outras Leis. Todas as Leis da blogosfera, dada a natureza do meio, só podem ser formuladas de forma irónica, ou seja, absolutamente verdadeira.
SÉTIMA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA
O que vale na blogosfera tem que valer na atmosfera.
NOTA: Não basta ser capaz de respirar - no ciclo completo da respiração (inalação e exalação) - ácido, é preciso ser capaz de respirar ar.
OITAVA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA
Na blogosfera o lixo atrai o lixo, não sendo a inversa verdadeira.
Tudo isto vai escrito em péssimas condições por causa de "mais uma corrida, mais uma viagem". Mas os tempos estão complicados e exigem escrita.
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A ler sobre a "ocidentalofobia" ocidental, o artigo de Luciano Amaral no Diário de Notícias.
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Um exemplo de um boato (intencional e dirigido) oriundo de um blogue habitual em lançar boatos: a ida de José Manuel Fernandes para Belém. No mesmo blogue há múltiplos exemplos do mesmo tipo de plantação de boatos.
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Quando escrevi para a Sábado (número que saiu hoje) levantando a dúvida sobre se o inquérito que foi pedido à Procuradoria , não se teria desviado do objectivo explícito para se centrar no 24 Horas, não fazia a mínima ideia das buscas que justificariam plenamente essas palavras. A busca na redacção do 24 Horas abre uma nova página nas relações entre a PGR e os jornais, que eram, até ao processo Casa Pia, de quase colaboração. A história do Independente de Portas na sua cruzada contra os políticos, abrindo caminho para uma República dos Juízes á italiana, só foi possível pela transformação dos magistrados em justiceiros, função que a politização dos magistrados do Ministério Público e a cobardia do poder político facilitou. Com o processo Casa Pia tudo mudou. Por razões nem sempre muito nobres, as sucessivas fugas de informação revelaram claros abusos do poder, negligências e ambiguidades, que comprometiam os métodos da investigação. Depois, a partir daí, cada cavadela, sua minhoca. O caso revelado pelo 24 de Horas, em que é incontornável existir pelo menos negligência no tratamento da informação reservada que nunca deveria estar no processo, tornou-se a gota de água para toda a gente. Na realidade, como já não havia mais margem de manobra para desculpar a actuação da PGR, esta respondeu usando todos os seus poderes e virando uma página na responsabilização dos jornalistas. Que essa responsabilização era de há muito tempo devida, é verdade. Mas mudar a complacência para com a comunicação social nos seus abusos (e que não encontravam no sistema judicial uma protecção capaz porque os tribunais raras vezes protegiam os direitos ofendidos), num processo em que um elemento de retaliação pode sempre ser suspeito, coloca de novo a questão de liberdade de informação... E lá voltamos ao mesmo.
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A auto-censura está a crescer exponencialmente na nossa sociedade. Já não bastava a história das caricaturas, começa-se agora a policiar o que se escreve. Eu próprio me pergunto sobre se o que escrevi atrás me leva a cometer algum crime que justifique qualquer busca, tão fluída está a fronteira da criminalização da opinião. Mas de uma coisa tenho a certeza: se eu não posso livremente criticar a PGR e os seus agentes, sem correr o risco de cometer algum bizarro crime que, mesmo que não me leve à condenação, me leve a viver uns tempos miseráveis e humilhantes, não há genuína liberdade de expressão.
DEZ LEIS DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA Versão 1.0
PRIMEIRA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA
Evitar discutir a Posição, procurar atacar a Contradição.
NOTA 1 : Ao se passar da Posição à Contradição o debate ganha uma dimensão ad hominem. A maioria dos debates na blogosfera são ad hominem, na tradição da polémica à portuguesa.
NOTA 2: A Contradição é sempre uma fraqueza moral.
SEGUNDA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA
A ferocidade dos comentários está em relação directa com o seu anonimato mais o número de comentários produzidos por metro quadrado de ecrã / dia.
NOTA 1: O genuíno comentador anónimo da blogosfera tem um nick name, deseja ao mesmo tempo ser anónimo e ter uma identidade como comentador, reconhecida nas caixas de comentários.
NOTA 2: O comentador anónimo com nick name escreve compulsivamente em todas as caixas de comentários abertas que encontra, escolhendo de preferência as dos blogues com mais leitores.
NOTA 3: Os comentadores anónimos seguem em absoluto a PRIMEIRA LEI DO ABRUPTO.
TERCEIRA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA
A esmagadora maioria dos temas, comentários, reacções, alinhamentos, posições é absolutamente previsível.
NOTA 1: A falta de previsibilidade é punida na blogosfera como Contradição (ver PRIMEIRA LEI DO ABRUPTO), ou como "deslealdade orgânica".
QUARTA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA
A blogosfera tem horror ao vazio.
NOTA 1: Um lugar de um blogue é sempre preenchido por outro do mesmo tipo.
NOTA 2: Os blogues nunca morrem, são fechados e abertos logo a seguir com outro nome. A blogosfera é compulsiva.
NOTA 3: Os blogues colectivos morrem por implosão, os individuais por cansaço.
NOTA 4: A blogosfera é um lugar de fronteira, o Wild West, onde impera a "lei da selva" e o darwinismo social. Não é um local aprazível para os espíritos amáveis.
NOTA 5: A intensidade da zanga e da irritação na blogosfera é muito superior à da sociedade em geral (daí a SEGUNDA LEI DO ABRUPTO).
QUINTA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA
O carácter lúdico dos blogues diminui à medida que a importância da blogosfera aumenta na atmosfera.
NOTA 1: O carácter lúdico dos blogues é cada vez mais afectado pela imposição de etiquetas e por uma crescente normatividade na blogosfera.
NOTA 2: Os blogues colectivos são mais propensos à normatividade do que os individuais, pela necessidade de se auto-gerirem.
NOTA 3: O carácter lúdico dos blogues diminui à medida que as agendas mediáticas se tornam dominantes. Na formulação dessas agendas há hoje um contínuo blogosfera-atmosfera.
SEXTA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA
O tribalismo é a doença infantil da blogosfera.
NOTA 1: Os blogues são grupais, precisam imenso de companhia.
NOTA 2: A blogosfera tem evoluído do amiguismo para o grupismo e deste para o tribalismo. Permanecem, no entanto, leis de desenvolvimento desigual.