ABRUPTO

24.5.03


CASO CASA PIA

A bomba inteligente e a Piolheira pedem-me uma opinião sobre o caso das investigações da pedofilia . Há várias razões porque penso que neste caso nada de útil poderia dizer no blog , nem este me parece a forma apropriada para uma opinião que teria que ter mais solidez do que as “impressões” , para acrescentar alguma coisa . Porque “impressões” é o que há por todo o lado .

Depois há outras razões . Primeiro porque falei sobre essa matéria em devido tempo – quando do lançamento do meu livro Vai Pensamento coincidindo com a primeira semana do escândalo - e , com toda a franqueza , não penso que valha a pena acrescentar algo mais . Quando disse o que disse ainda praticamente ninguém se tinha pronunciado a não ser para repetir os apelos ao sangue e já se percebia muito bem onde isto iria dar . Nada do que aconteceu a seguir me surpreendeu , nem quanto ao caso em si mesmo , nem quanto ao comportamento dos media e dos políticos . Uma nota breve : nessa mesma noite a Felícia Cabrita respondeu-me da solidão da sua cadeira na SIC , com as imprecações do costume . Nem ouvi .

Segundo , sobre a pedofilia propriamente dita e sobre o caso belga já escrevera antes do caso Casa Pia , sobre a selvajaria do modo como mediaticamente se transforma tudo isto num espectáculo , também .

Terceiro , salvo raríssimas excepções , quando há situações destas , combinando negligência criminosa , crimes de poderosos , vozearia justiceira nos media , moralismo a rodos , cabalas , perseguições e conspirações , a avalanche de palavras é tal , que me apetece é estar calado .

Quarto , se pensam que isto é um grande abalo nas instituições do país , enganam-se . No que elas se podem abalar , já estão abaladas . Isto passará porque o excesso de comoção é artificial , no fundo ninguém quer verdadeiramente saber do que é relevante , mas apenas da poeira . Há mais voyeurismo do que genuína preocupação .

Por último , se houver alguém interessado em ouvir uma actualização da discussão sobre o caso Pedroso e escutas ao PS , amanhã no Flashback da TSF a questão é discutida e penso que o programa ficou bom .

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OBJECTOS EM EXTINÇÃO 3

Maria Poppe pede-me para dar os parabéns “à transmontana Alexandra pelo seu trabalho de casa” [ ver nota sobre objectos no Abrupto de 22 de Maio ] e moderar algumas extinções sugeridas , com uma forte componente de experiência maternal :


“1º - penicos, lá em minha casa, ainda tiveram bastante uso até há bem pouco tempo, com 3 pequeninas pilinhas incontinentes que por lá andam;

2º - ganchos, estou com ela, aliás com este calor temos mais é que agarrar o carrapito!;

3º - Joelheiras para remendos ainda me farto de aplicar para evitar de duas em duas semanas uma visita às lojas de roupa para crianças (mas acredito que só quem tenha 3 jogadores de foot em casa ainda saiba das joelheiras); não me lembraria dos protectores de sapatos não fora a dica, que agradeço, talvez o calçado (esta pode ir já para o tal catálogo das palavras em desuso) passe a resistir um bocadinho mais;

4º - fraldas de pano, impossível não ter uma ao pé qd se tem bebés, o seu destino é que mudou, ao em vez de lhes forrar a "bundinha" (como dizem os brasileiros) passou a ser um instrumento multi-usos: amparador de cabeça e de chucha, a própria chucha, lençol, guardanapo, protector solar ...”.



Quanto aos véus para a missa “acho que só as noivas ainda o usam, mas como tanto as missas como os casamentos também eles parecem estar a cair em desuso, por este caminho não sei qual desaparecerá primeiro.”

Acrescenta à lista locais ainda não extintos mas em vias de extinção,


- "drogarias e todas as suas iguarias;

- lojas de café e chá(só de pensar q um dia possamos deixar de ser surpreendidos pelo aroma do café a meio de uma caminhada já começo a esmorecer);

- todas as retrosarias da rua dos retroseiros;

- o hospital das bonecas;

- serviços de vão de escada, género: florista, sapateiro, quiosque;

- lojas de especialidade como a das luvas na Rua do Carmo e a dos Chapéus na baixa


Num outro e-mail , Maria acrescenta as novelas radiofónicas :

Não fora o livro do Vargas Llosa "Tia Julia e o escrevedor", (…) e uma cassete (…) com uma gravação clandestina dos shows do inominável "Joe Frank"(….), um californiano que durante anos teve um programa de rádio semanal com histórias por ele imaginadas e encenadas, nada mais me restaria dessa deliciosa arte de contar. “

No Folhetim Iluminados , na Liberdade de Expressão e no Mar Salgado também se discutem as extinções .

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A ILUSTRE CASA DE RAMIRES

Poucos livros me deram maior prazer em reler nos últimos tempos do que a A Ilustre Casa de Ramires . Hesitei em escrever “reler” , porque em Portugal toda a gente “relê” mesmo que não tenha lido , mas no meu caso é a humilde verdade . Mas também é verdade que já me lembrava pouco do que tinha lido e , acima de tudo , tinha lido diferente , como muitas vezes se lê noutra idade . Aliás toda a minha experiência é a de que certos livros devem ser lidos duas vezes . A Alice no País das Maravilhas , as Viagens de Gulliver , Robinson Crusoé , os Contos de Andersen , tem uma dimensão na imaginação da infância e adolescência e outra nos sentimentos e no intelecto depois , e nenhuma substitui a outra .
Voltando à Casa . esse retrato póstumo que Eça deixou de Portugal , do seu amor por Portugal , da sua pertença a Portugal , devia ser leitura obrigatória . Tudo é bom , o retrato do Gonçalo Ramires , a cobardia de Ramires , a província e a cidade da pequena política comunicante entre ambas , a novela “histórica” que alguns pensam ser um pastiche irónico de Herculano , mas que é uma notável história de per si , o sonho de Ramires , o segundo sonho colonial de Ramires , e o fabuloso diálogo final identificando Gonçalo , nas suas qualidades e defeitos com Portugal , numa apreciação certeira de uma personagem secundária de quem não se esperava tal intuição .


LER DUAS VEZES – UMA SUGESTÃO

Seria interessante conhecer a experiência de quem leu duas vezes o mesmo livro e sentiu a leitura como algo de muito diferente . Voltarei a escrever sobre isto .

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ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO

Tenho estado a trabalhar noutro blog intitulado Estudos sobre o Comunismo . É um blog de outra natureza , destinado a ser um instrumento de trabalho para os meus estudos de carácter académico sobre o comunismo e o PCP e , a prazo , ser partilhado com a pequenísima comunidade de pessoas interessadas nesse assunto . Quem tiver curiosidade de lá ir espreitar tem aqui o endereço .

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23.5.03


PAÍS BASCO , A DOIS DIAS DE ELEIÇÕES

Recebi de Edmundo Moreira Tavares um e-mail muito interessante sobre a situação no país basco , que aqui publico , numa grande parte , com autorização do autor. Insere-se na tentativa que tenho feito , – sem grandes resultados , a dois dias de eleições , onde mais uma vez uma parte dos bascos vão votar sem liberdade plena - , para suscitar uma maior atenção a esse problema tão nosso vizinho .


A situação que descreve, [ em notas afixadas no Abrupto em 14 e 16 de Maio ] de condicionamento da opinião "espanholista" é uma realidade que, inclusivamente, vai mais além dos exemplos políticos que apresenta. Há bastiões "abertzales" onde o "espanholismo" vive, pode-se dizer, em estado de acantonamento por intimidação, senão mesmo em autêntica clandestinidade cívica. É assim em aldeias do Norte de Navarra, da maior parte de Guipúzcoa ou do extremo leste de Vizcaya. Consultando os resultados eleitorais verifica-se que, não obstante uma séria erosão de votantes, as"capas legais" da ETA ainda têm resultados espantosos.

Diga-se que esse é um universo onde sempre se falou basco e onde o "espanholismo" sociológico teve sempre expressão limitada. Contudo, o elemento essencial do radicalismo independentista nem está tanto aí. Como observa, está no PNV-EAJ (Partido Nacionalista Vasco) e no EA (Eusko Alkartasuna) - partidos burgueses teoricamente "moderados" que dominam, em conjunto, para aí 2/3 da geografia eleitoral, de uma forma transversal. Esta é a base social de apoio do independentismo histórico, havendo uma incontornável cumplicidade entre ela e os jovens radicais, de onde emerge a ETA. Forçando a nota, é um pouco como o que se passa entre Arafat e o Hamas...

As aspas que coloquei em"moderados" advém de que, quanto ao objectivo (explícito), não há divergência com os radicais "abertzales". Com efeito, o objectivo é a independência e há também a mesma lógica de exclusão em relação ao"espanholismo". A burguesia indígena, desde a mais atávica à mais progressista, partilha desta ideia "soberanista" e exclusivista. O bom clero, o diligente professorado, até o pequeno empresariado empreendedor, partilham esta sensibilidade e acorrem a votar diligentemente de eleição em eleição no PNV-EAJ ou no EA, suceda o que suceder.

Esta é uma sólida base social. Logo, estes partidos "moderados" não podem ir mais além do que formais homilias condenatórias e paternais ralhetes sobre os jovens"abertzales"... Toda a "sua gente", lá bem no fundo, simpatiza com essa juventude...O mais curioso é que, sem ignorar a opressão franquista, o nacionalismo basco assenta as suas bases em alguns equívocos.

1 - Ao longo dos tempos pré-industriais não houve significativa tensão entre os bascos e o estado espanhol - de um modo geral, houve até muito menos do que noutras regiões. As primeiras tensões (e fortes) deram-se com a chegada da industrialização, mas, na sua expressão política, estiveram muito longe de assumir uma forma "anti-espanhola", foram antes manifestações de feroz tradicionalismo, perfeitamente integráveis numa ideia nacionalista espanhola radical (Carlismo).

2 - Uma parte dos símbolos e iconografia nacionalista (bandeira, designações territoriais) não é originária de uma genuína cultura basca, supostamente rural e hermética, mas de um trabalho artificioso dos jovens nacionalistas urbanos de primeira geração - finais do século XIX, inícios do século XX.

3 - A ideologia fundadora do nacionalismo basco (Sabino Arana Goiri, finais do século XIX) constitui uma teoria racista de cariz positivista. Pertence ao mesmo ramo das que estiveram na base da ideologia nazi. Sustenta uma individualidade rácica, cultural basca, apartada das componentes estruturantes da Espanha moderna. Deve-se notar, contudo, que muitas as linhas de investigação, sobretudo através da língua, convergem no sentido deque alguns elementos da matriz linguística castelhana, no que esta divergedas suas parceiras românicas, são originárias do basco ! É bem sabido que as origens do castelhano são, sob o ponto de vista geográfico, íntimas daquilo a que os independentistas desinam como "Euskal Herria" (Terra dos Bascos): Extremo Norte da actual Província de Burgos e La Rioja."

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FUTEBOL NOS ÚLTIMOS DIAS

Achei que valia a pena citar o que escrevi sobre esta matéria , há pouco mais de um ano (Março 2002) , na ultima campanha eleitoral :

"A redução da campanha eleitoral ao futebol é típica de quem entende Portugal como um país do Terceiro Mundo .Infelizmente muita gente que vive hoje num estado de grande excitação com os eventos recentes é mesmo do Terceiro mundo . Cabeça leviana e de “pensamento débil” , não lê e não se interessa vivamente por nada , nem por coleccionar selos , nem jardinagem , nem pintar modelos de aviões , nem por fazer jogging aos domingos . Ou vivem numa pasmaceira ensonada , vitimas de tudo e de todos ; ou zangados com o mundo todo , a começar no colega de trabalho e acabar nos “políticos” .
O futebol eles percebem . É simples , uns ganham outros perdem , basta contar os golos . Que três é maior que dois ainda faz parte da matemática que se ensina nas escolas . Depois percebem aqueles ânimos exaltados de uns contra os outros , as zangas e as reconciliações , toda aquela barulheira que enche a primeira meia hora dos noticiários televisivos , as mentiras , as peripécias , os cheques que deviam ter entrado e não entram , os negócios imobiliários de milhões , as “chicotadas psicológicas” , soberba designação .Pelos vistos também percebem aqueles exércitos ululantes , vestidos na mesma cor , que agarrados às grades e ao arame farpado em que estão enjaulados , chamam coisas amáveis à mãe dos árbitros e cuja virtude o Estado homenageia pondo lhes um pelotão de policia de choque à frente .
Os órgãos de comunicação social de massas , em particular as televisões , com destaque para a “pública” , acham que este mundo é o mais importante que há e os rios de palavras e imagens que lhe dedicam em horário nobre iriam da Terra a Plutão , numa estimativa conservadora . Mentores e espelho deste terceiro mundismo , os órgãos de comunicação social criam um poderoso centro de gravidade de que dificilmente se escapa instituindo como importante o que é irrelevante , e impedindo qualquer voo para além desta simplicidade asinina mas espectacular , sanguínea , e grandiloquente . Muita gente pensa que Portugal pode ser reduzido a esta imagem e semelhança , mas não é este o pais porque me bato ."






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22.5.03


OBJECTOS EM EXTINÇÃO 2

Num e-mail que recebi de Alexandra Soares Rodrigues fazem-se vários comentários de método pertinentes e uma lista de sugestões de objectos em extinção .

"Eu tinha interpretado a sua sugestão como um exercício de constatação e não de futurologia (sem ironia). Como tal, quando comecei a fazer a lista, colocaram-se-me imensos problemas relativos a algumas fronteirizações. Do tipo: alguns objectos podem ser sentidos por mim como em desuso, mas ainda serem vulgares em estratos da população latos ou estreito. Ou, ao contrário, outros objectos podem ainda ser usados por mim e serem considerados "arcaicos" pela maioria das pessoas. Não seria, pois, aconselhável operar com fronteiras do tipo regionais, sócio-culturais, etc.? Outra coisa: what do you mean by "nossa geração"? "

A lista de objectos inclui :

"- o mais óbvio de todos: escudos;
- ganchos de cabelo para fazer um penteado que na minha terra se chama "crucho" e que é amplamente tratado numa série de pinturas da Graça Morais;
- véu para ir à missa (embora não seja já do tempo em que eu ia à missa, mas do infância dos meus pais);
- joelheiras para remendos;
- faca para cortar papel;
- candeia;
- protector de sapatos;
- ceroulas;
- penico;
- fraldas de pano;
- polainas;
- combinação (underware).

Quanto a futurologia, varas manuais de esvarejar oliveiras estão a ser (só agora na minha terra - sou transmontana) substituídas por varas mecânicas.
Parece-me que objectos como os ditos ganchos, juntamente com o penteado para que servem, soam arcaiquíssimos. Eu, que nasci logo a seguir ao 25 de Abril, ainda uso de vez em quando, mas é um objecto desconhecido por muita gente da minha idade.


E , por último , algumas sugestões interessantes de alargamento da lista :

"Isto leva-me a pensar que seria também interessante fazer outro catálogo: o das atitudes/comportamentos em vias de extinção. E mais um catálogo: de palavras ou expressões em desuso. E, já agora, confrontar objectos em extinção com as palavras que os designam. Do tipo: grafonola. O objectivo era ver se a palavra prevalece numa expressão "falar como uma grafonola" .



Veja-se também sobre o mesmo tema um muito interessante comentário ( e outra lista de sugestões ) em A Janela Indiscreta .



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POUCA HISTÓRIA

1. Porque razão entre os temas dos blogs e das mensagens neles afixadas há tão pouca presença da história ? Política , literatura , artes , futebol , sexo , sátira , diários íntimos , tudo lá está , mas não há quase nada sobre história . Há respostas possíveis , como por exemplo , a que nas gerações mais jovens , educadas numa escola pós-estruturalista , há pouco lugar para a história ; ou que a imediaticidade dos blogs é contrária à presença de tempos mais longos . Vale a pena discutir .

2. Não tenho dúvidas nenhumas que o conteúdo dos blogs vai ser no futuro tratado como fonte da história , substituindo um pouco o papel da correspondência tradicional . No entanto , dado seu carácter público , mesmo que contenham muitas inconfidências , boatos , opiniões vulgares , comuns , não tem a liberdade interior de algumas correspondências privadas que são fontes privilegiadas da história porque nos dão o “outro lado” : os ódios disfarçados , os ressentimentos , a schadenfreunde .

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TERTÚLIA COM A MONTANHA MÁGICA 2

Pergunta-se na Montanha

Chegados aqui, podemos voltar ao princípio: que novo século queremos?”

Quando Castorp desceu da Montanha encontrou na planície forças mais poderosas em acção do que as que moviam o ímpeto de Settembrini ou Naphta nas suas discussões . Essas forças eram “filhas” da “educação” que lá em cima Castorp teve no mundo “mágico” da Montanha ( interessante me parece agora a palavra “mágica” , bem pouco de Mann … ) : o nacionalismo , o comunismo , o nazismo já estavam dentro quer do jesuíta quer do mação .
Se nós hoje descêssemos da Montanha , onde a “educação” provavelmente seria mais pobre , encontramos também forças terríveis em acção , talvez com menos “ismos” , a não ser o “fundamentalismo” que é mais uma atitude do que um sistema . Se olharmos para o século XXI encontramos uma confluência de movimentos . desejos , vontades , actos num sentido que talvez nunca tenha sido tão perigoso.

Penso , de há muito , que o século XXI vai ter um problema muito sério com a proliferação de armamento nuclear , químico e biológico . São cada vez armas mais acessíveis e no caso do armamento biológico , potencialmente destrutivas do tecido social , muito antes de deixarem o seu cortejo de mortos . O que se está a passar com o SARS é apenas um pequeno exemplo , exagerado pela cobertura mediática , mas mesmo assim devastador . Se alguém atacar com a varíola , então ver-se-á como é .

Havendo os meios , há também os executantes . este novo surto de terrorismo apocalíptico , que , auto-destruindo-se , quer levar consigo o maior número de pessoas , encontra nestas armas um instrumento perfeito . A conjugação destes dois factores , armas e vontade implacável de as usar , gera riscos infinitos . Já não lidamos com guerras macro , mas sim com guerras micro . O small is beautifull chegou á mais antiga e persistente actividade humana . Se Castorp descesse hoje e não em 1913 ou 1914 , era esse o “baile trágico” que teria de dançar .

Diz a Montanha Mágica

É possível, hoje, século XXI, a ressurreição de Cristo? É aqui, caro JPP, que parece divergirmos, pois achamos que já existe esse mundo novo, e ao contrário dos primeiros cristãos que se escondiam nas catacumbas, pois não tinham outra solução, hoje esse Amor existe, e manifesta-se livremente tanto na sociedade em geral (será uma minoria? Não sabemos.), como em vários domínios específicos, como por exemplo, o das artes. “

Não sei . Nem nas artes . Pode muita coisa já ter acabado e nós não termos dado por ela e estarmos num oceano de esterilidade convencidos que a força da poiesis continua .


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Compreende-se a alegria da vitória. Compreende-se a paixão futebolística. Compreende-se mesmo o papel que tem o futebol como lenitivo para um país muito deprimido.
O que não se compreende é o terceiro-mundismo de ver tudo quanto é autoridade nacional, PR, PM, políticos, deputados, presidentes de câmaras, sentados na bancada de honra, como se o destino da pátria se jogasse em Sevilha. Como se tivessem medo de , não indo , serem criticados ou perderem o átomo de popularidade perversa que estar na bancada com Pinto da Costa dá. Do outro lado, nem um subsecretário do Governo de S. Majestade, num país onde o futebol desperta as paixões conhecidas, certamente não inferiores às nossas.
O que não se compreende é que a televisão pública durante horas e horas se transforme numa emissora desportiva exclusiva, contribuindo para o excessivo papel que tem o futebol na narcose nacional.
O que não se compreende é como não se compreende que este é o retrato do nosso atraso .

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SAUDAÇÕES

à Santa Liberdade do José Adelino Maltez e a minha pena de ver parado o melhor instrumento de trabalho cronológico online sobre o pensamento político contemporâneo existente em Portugal .

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OBJECTOS EM EXTINÇÃO

Tenho recebido várias respostas quer em correio electrónico , quer nos blogs à sugestão que fiz de um catálogo dos objectos em extinção.
Há coisas interessantes neste catálogo : uma é sermos capazes de identificar o “vento” da história à nossa volta , outra distinguirmos onde ele sopra mais e onde ele quase não sopra . Por exemplo , é mais fácil de perceber nos objectos associados a determinadas tecnologias, do que noutros mais próximos do nosso quotidiano .

O Contrafactos faz uma referência pertinente ao sitio dos Media Mortos que cobre essencialmente instrumentos e tecnologias associados à comunicação e à informação . Talvez nessa matéria não valha a pena ir mais longe , dado que as listas aí arquivadas são bastante completas . Revelam aliás a enorme aceleração tecnológica dos últimos cento e cinquenta anos , mostrando até que ponto essa velocidade deixou atrás de si um imenso rastro de objectos que hoje ninguém saberia para que serviriam e como funcionavam .

A maioria das propostas que me foram enviadas são naturalmente desta categoria :

Há várias referências ao telefone, aos telefones antigos, de disco (Sopa de Pedra e Folhetim Iluminados ) e aos sistemas de numeração telefónica que podiam indicar zonas dentro da cidade e que entretanto desapareceram . (Folhetim Iluminados )

A disquetes , e outros media de registo electrónico

Chaves do carro , proposto pelo Complot , a serem substituídas por outro tipo de “chaves” electrónicas .

Pager ou Bip

O saco de plástico publicitário , rolo de fotografia , livro em papel , com mais ou menos certezas ou dúvidas , propostas em A Piolheira .

A Piolheira sugere os únicos exemplos que saem deste domínio exclusivo dos Media Mortos ou a morrer , para outro tipo de objectos : o maço de tabaco , e a caixa de fósforos .

(Continua)


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20.5.03


AS ESCOLAS DO JORNALISMO POLÍTICO EM PORTUGAL 1

Esta nota precede outra que estou a preparar sobre as escolas do jornalismo político português . Mas para quem vê e ouve Marcelo Rebelo de Sousa na TVI é fácil perceber que a sua conversa é estruturada como se fosse um jornal semanário , como se fosse o Expresso quando ele o dirigia . Trata da semana anterior , tem editorial , mais neutro , mais distanciado , proclamativo ; tem artigos de opinião , do próprio e do próprio com pseudónimo , contendo cenários e calendários cenarizados ( o elemento essencial da "análise" política de Marcelo ) ; tem notícias tratadas ao modo jornalístico , superficial , e com títulos e entradas opinativas - aqui nas matérias que não lhe interessam , não domina mas que tem que falar dado que se trata de um "semanário" , como tudo o que disse respeito à guerra do Iraque - ; tem a secção "Gente" , crucial neste tipo de jornalismo para incluir informações pessoais importantes e perfídia , que não podem ter corpo na parte séria ; tem roteiro , com os espectáculos inevitáveis , e com listas de livros ; tem cartas dos leitores . Um pouco por todo o lado há "encomendas" dos amigos do director , como é igualmente habitual nos semanários . De facto não é preciso uma multidão de jornalistas para fazer um jornal - Marcelo faz um todas as semanas sozinho e , quando se percebe a lógica , mais transparente porque é na primeira pessoa .

Etiquetas:


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CINEMA FRANCÊS


No De Esquerda , no umblogsobrekleist , na Espada Relativa , há vários comentários ao que escrevi sobre o cinema francês , onde são citados alguns filmes que não vi . A minha resposta fica pois adiada à condição de ver esses filmes , o que , dado que a maioria do cinema francês está em DVD , não me parece muito complicado . Por respeito com os meus interlocutores não queria responder-lhes ( dar-lhes razão ou não ) sem ver esses filmes . Fica anotado e adiado com dia .

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19.5.03



Fez os Monólogos de tasco uma descrição muito certeira das componentes culturais e sociais da cena de Felgueiras , que cito :

"Só mesmo os betinhos das grandes cidades é que podem ficar espantados com as cenas de Felgueiras (...). Quem como eu vive na “província”, sobretudo rodeado pelo novo-riquismo industrial do vale do Ave (e frequenta tascos) sabe que se rasparmos aquela crosta superficial de boas roupas e BMW’s vamos encontrar um “grunho” cujo nível sócio-cultural se manteve estático desde pelo menos a época obscura do Portugal salazarista e rural. O problema é que quem tentar retirar aquela mesma casca, habilita-se a enfrentar esse mesmo “grunho(s)”, disposto a linchar o primeiro que desafie o cacique local, que eventualmente tanto lhes deu a ganhar. E aqui é que está a questão: é enorme o séquito de empreiteiros, empresários, e interesses diversos que orbitam em torno do poder local. Por vezes é o próprio autarca, através de testas de ferro, que controla empresas imobiliárias, de construção, ou outras. Toda a gente conhece isso, toda a gente sabe de isso, e o problema é que toda a gente pactua ou tem também interesses nisso. É quase sempre muito significativa a fatia da economia local que depende, directa ou indirectamente das câmaras. Por isso, os autarcas se eternizam à frente de câmaras, mesmo sendo públicas todas as desonestidades e falcatruas.(...) . Não compreender isto, é não compreender o que se passa em Felgueiras."

Só gostaria de acrescentar duas coisas..
Uma é que esta descrição é muito certeira para zonas como as cidades e vilas dos distritos do Centro e Norte - grosso modo do Oeste para cima - e essencialmente do litoral . Aí há todas as componentes e , desse ponto de vista , o Vale do Ave é típico . No sul , no Alentejo , as autarquias funcionam muito mais como absorvedoras do desemprego e o PCP actua doutra maneira .
A outra é que quando existe um clube de futebol local , encostado à autarquia , ou melhor , encostado ao presidente ou ao partido do presidente da autarquia , a situação ainda se agrava mais e o tom de violência comunica-se das claques para a vida pública .

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OBJECTOS

Penso que seria interessante fazer um catálogo dos objectos que estão a desaparecer à nossa volta , que a nossa geração usou pela última vez . Seremos capazes de os identificar ? Seria interessante saber até que ponto "sentimos" a história quando ela passa por nós .

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RESPOSTAS AO APELO E OUTRAS

Muito obrigado pelas várias respostas ao apelo sobre blogs actualizados e inclusive a proposta de se tentar fazer um pequeno programa que identifique os blogs portugueses quando são alterados .

A enorme quantidade de correio impede-me de responder de imediato a todos . Mas logo que possa haverá respostas .

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FILATELIA 3

Escreveu a Janela Indiscreta

"Só ontem é que dei conta que José Pacheco Pereira escrevera (...) sobre filatelia, referindo-a como um anacronismo. Ou seja: É uma cousa passada. Pois, é mais fácil imaginar um coleccionador de selos no tempo do Balzac, do que agora, no tempo da teletecnologia. É mais fácil ainda imaginar selos num museu. Mas a verdade é que os coleccionadores com os seus álbuns e simultaneamente o interesse, a paciência, o método deles mesmos garantem a sobrevivência do mundo dos selos, isto é , pequenos (ou grandes, mais no caso do selos norte-americanos) papéis, de forma, a maior parte das vezes rectângular, com valores e imagens. "

O anacronismo dos selos vem de não serem hoje necessários para a sua função inicial de pagar os custos do correio . Daí a minha comparação com as máquinas de escrever , igualmente um dos objectos do século XX que irá desaparecer no XXI . A prazo muito curto bastará haver e-stamps ou qualquer outra forma semelhante de pagamento electrónico (que já há) ou qualquer outro meio - etiquetas , autocolantes , feitos no momento , etc. Esse material em papel ainda é filatélico pela sua natureza , mas já pouco tem a ver com o selo e a sua relação cultural e histórica com o meio que o produziu . Aliás só se fazem selos hoje para ganhar dinheiro com os coleccionadores . Tenho por isso a tentação de enfileirar na escola dos que acham que selos própriamente ditos só são coleccionáveis até à segunda guerra mundial e depois disso só há papel de parede .

Foi interessante ler o texto de Benjamin que não conhecia e que retrata as sensações do coleccionador . Como coleccionador anacrónico não posso estar mais de acordo : "os selos não são meros papéis. " Só quem nunca lhes mexeu , para os separar e classificar ( por tradição usei sempre o Yvert ) as imensas variedades dos selos clássicos , o papel , a filigrana , o denteado , as sobrecargas , a goma , as variações da cor , tantas vezes distinguindo imperceptivelmente um selo vulgar de uma raridade , não sabe nada sobre uma forma obsessiva de estar no mundo .
Admito que é uma variante mais estéril do que a taxinomia , mas para quem tem essa obsessão , não há maneira de escapar .

Para além disso aprendi imenso sobre história com os selos . Antes de ler o Corto Maltese eu tinha na memória a imagem do iate Hohenzolern nos selos coloniais alemães e sabia de quem eram as Marianas , ou os Camarões . A inflação alemã dos anos vinte estava nas sobrecargas dos selos da República de Weimar . E , agora na Bélgica , também quando cá cheguei já sabia que havia uma Bélgica "alemã" por causa dos selos de Eupen e Malmedy . A lista é quase infinita .

Breve correcção : o Penny Black , o primeiro selo , data de 1840 e Balzac morreu em 1850 . Não devia haver então muitos coleccionadores . Os selos são uma grande actividade vitoriana , adaptada aos coronéis ingleses reformados que vinham da India .



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18.5.03


AGENDA

Não posso agora por falta de tempo – de novo a fazer de judeu errante – comentar algumas coisas que li noutros blogs . Mas , logo que possa , comentarei :

1-A descrição certeira de Monólogos de tasco sobre a vida política local por quem a conhece da província . Eu vivi e vivo na “província” quando não ando de “navio fantasma” . É aquilo mesmo , ou ainda pior .

2- Os protestos de Modus Vivendi sobre “a síntese de vários inputs” e porque razão há que manter uma diferença entre a cultura e a criação como fruição estética , entre o que se gosta e o que se sabe .

3- Sobre a filatelia e o anacronismo , falando com a Janela Indiscreta , que tem um interessante post sobre selos , uma matéria hoje absolutamente erudita . logo , como disse Borges , “fantástica” . A questão é que nunca ninguém disse que é mau uma coisa ser “anacrónica” , bem pelo contrário .

4- Agradecer e aceitar o convite de Mukankala , em data a aprazar .

5- Continuar a tertúlia com a Montanha Mágica

6- E , por último , mas não o último , ir à questão que motivou o abaixo assinado dos quatro Coluna Infame , Blog de Esquerda , Blogue dos Marretas e O País Relativo sobre o artigo do Expresso .

O problema é que há uma clara tensão , que admito ao vir para aqui tenha agravado , entre um mundo fechado –a blogosfera – e a viragem dos blogs para fora , para o público da Net e para o público em geral . É natural que uma parte da peculiaridade dos blogs seja falarem entre si , mas com 400 blogs e a subir de número todos os dias , isso deixa de ter sentido . Acresce que se o novo meio se pretende influente e competitivo, mesmo na sua especificidade , é para fora que tem que falar , sendo natural que passe a ser citado na imprensa e as opiniões aqui dadas a terem o curso normal das opiniões - as que tem pernas para andar , andam .
Eu não tenho queixas da hospitalidade , nunca fui paternalista e comporto-me por natureza como igual , não tenho dúvidas da qualidade de alguns blogs ( já os lia muito antes de ter um ) , mas o que entre nós é fundamental é o espírito crítico . E aplicando um pouco desse espírito talvez o abaixo-assinado tenha de facto um tom de reacção corporativa . Teria sido melhor esperar que a maior exposição dos blogs acabasse por naturalmente fazer uma selecção entre eles . Este é que é um bom espírito liberal e by the way very british . Com amizade .


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FELGUEIRAS 3

A sorte de Francisco Assis foi tudo ser filmado. Se não existissem as imagens televisivas, mesmo que tudo se tivesse passado exactamente na mesma, o caso teria sempre pequena importância. Os jornalistas que estão em Felgueiras, salvo honrosas excepções, usam uma linguagem legitimadora do que aconteceu (a “multidão”, a “população”, os populares”, sem qualquer esforço para dar números, e identificar responsáveis que o deveriam ser dado que estiveram como tal identificados na “vigília” anterior) e , quando confrontados com os agressores , fazem sempre perguntas meigas e ao lado. É o mesmo tipo de reverência que tem com Pinto da Costa.

As explicações da GNR são inaceitáveis. Havendo uma situação de instabilidade na cidade, existindo concentrações na via pública, nenhuma força de segurança que se preze não pode deixar de estar presente e de acompanhar o que se passa. Ou foi negligência ou conivência. Escolham.

Nalguns blogs há um estilo “engraçadinho” de tratar estas coisas, como se, no fundo, o Francisco Assis é que fosse responsável pelos murros que levou. Eu já estive mais do que uma vez nestas situações, bem menos graves, e se há coisa que me encanita é este tipo de “engraçadinhos” que se colocam no lado dos agressores.

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APELO

Alguém conhece algum blog , ou algum outro sítio que identifique em cada dia os blogs que são actualizados ? Este era um "serviço público" necessário .

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Lendo os blogs aqui vai um pequeno índice de grandes poemas e textos neles transcritos que vale a pena visitar

Poema de Pessoa sobre a Lua no Mar Portuguêz , (é assim mesmo ) em honra do eclipse , tão de pura imaginação e mestria com as palavras , que se volta a lê-lo uma , outra e outra vez e a Lua continua lá . Junto está uma bela foto do eclipse .

Um Soneto de Shakespeare no Modus Vivendi , que só é pena estar misturado no texto com umas coisas sobre a “liberdade no sentido jurídico-político " . Shakespeare e Gomes Canotilho ! não é possível .

Grandes , mas grandes poemas eróticos e obscenos de Bocage e alguns anónimos contemporâneos no Bloco-Notas . Do ponto de vista literário há um ou dois excelentes sonetos da nossa literatura nesta série mais obscena que erótica – aliás numa pura tradição clássica - de Bocage .

Vário Joyce nas Crónicas Matinais

Depois há mais .

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© José Pacheco Pereira
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