ABRUPTO

25.10.03


PARA UMA ANTOLOGIA DA CUNHA EM PORTUGAL: EÇA DE QUEIRÓS PARA OLIVEIRA MARTINS

Bristol, 29 de Julho de 1886

Meu Querido Oliveira Martins

O portador desta carta será, creio eu, o sobrinho de minha mulher, D. Luís de Castro, que vai fazer exames - exames que ele te explicará, porque eu nada compreendo das divertidas complicações da pedagogia nacional. Sei apenas que, quando um rapaz quer ser engenheiro - o Estado imediatamente lhe ensina Retórica e Direito Canónico: e quando o temperamento de outro moço o inclina para a Teologia - logo o Estado o torna proficientíssimo em Desenho Linear e Botânica. Quando eu estava no Porto, assisti com efeito ao pavoroso espectáculo dos estudos de Luís de Castro: ele quer ser, creio eu, engenheiro naval: e para isso andava introduzindo dentro do crânio, por meio de um martelo e de um compêndio, um tratado de direito civil, as "Éclogas" de Virgílio e a lista de todos os reis de França e de Inglaterra, com os seus nomes, os seus números, as suas alcunhas, as suas famílias, os seus bastardos e as suas fundações pias. E foi então que eu compreendi a filosofia e a secreta moral do empenho. O empenho, tão caluniado pelos austeros, é por fim a salvação do País

O empenho é o correctivo do bom senso público aplicado ao disparate oficial. Sempre que um regulamento, saído de um antro burocrático, impôe ao público uma prática tola - o público coliga-se por meio do empenho, para lhe anular os efeitos funestos. O Estado, imbecil, exige que meu filho ou sobrinho, que quer ser engenheiro, saiba de cor a Lógica do João Dória e a Retórica do Cardoso?... Pois bem, eu o lograrei, na sua imbecilidade! E vou direito ao examinador e, por meio do empenho, consigo que o rapaz venha a ser engenheiro, sem nada saber dos impossíveis físicos e metafísicos e da Teoria do Silogismo. Tal é o grande, nobre papel do empenho na sociedade portuguesa: ele é a conjuração do bom senso positivo contra o idealismo obsoleto e tolo das instituições.

Este aranzel tende a acalmar a tua consciência de filósofo e de patriota - quando eu agora te pedir, com instância que te empenhes para que D. Luís de Castro seja aprovado em todas essas matérias que o Estado lhe fez decorar, que ele decorou com paciência e submissão, mas que, no momento preciso, lhe podem esquecer - como todas as coisas que a gente sabe só de cor, e só em obediência ao Estado!

Como esta carta é só de empenho, não te falo em outros assuntos - a não ser em dois igualmente interessantíssimos para Portugal e para mim: quando há probabilidades de que tu, ENFIM, nos comeces a governar? E quando aparecem os sonetos de Santo Antero?
Abraça o Santo, e tu, recebe abraço igualmente afectuoso, do teu do C.

Queirós


(Retirada de Cartas de Autores Portugueses, Edição dos CTT, 1987; cortesia de Américo Oliveira )

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NUNCA TINHA VISTO

um bando de pardais proteger-se da chuva debaixo de um pequeno arbusto. Vantagem de quem anda à chuva. Lá estão eles, pousados entre os ramos, debaixo das folhas, com uma completa incapacidade para estarem quietos. Se eu fosse romano, interpretaria os augúrios. Se eu fosse Stephen King, sabia que augúrios com pardais não são auspiciosos. Como não sou nenhuma dessas coisas, estou solidário com os pássaros, mas menos irrequieto.



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PESSOA, AUTOR DE BLOGUES

Que blogue magnífico dariam frases fragmentárias como esta horaciana:

UM EPICURISMO feito de abdicações...
Toda a nossa arte deve ser a de reduzir ao mínimo o elemento doloroso dos prazeres - a fúria que queiramos pôr neles, o desejo de que durem para além do que podem durar, a saudade inútil do que foram...
Uma abdicação lúcida e tranquila, um culto pensadamente ingénuo de si mesmo e dos próprios vícios, se eles se prestam a esse culto.


Ou este exercício à volta da frase de Wilde sobre como “most people are other people”:

O ARISTOCRATA é o que não obedece; por isso, por sua natureza de não obedecer, degenera em não obedecer a convicções que tem, em não obedecer a si próprio. Daí o facto das aristocracias acumularem em geral a teoria moral e a corrupção prática ambas em alto grau e consciente e sinceramente.
O aristocrata é o indivíduo que sente a necessidade de agir diferentemente dos outros. Ao passo que o burguês deseja agir conforme a regra geral, o aristocrata pretende o contrário. Ele é o que age por si. Ele e ele, não os outros, como dizia o Oscar Wilde da maioria da gente. (…). O aristocrata é a forca desintegrante, do progresso, anarquista. 0 povo é que é a força conservadora. Na classe media, basilarmente povo, adoptadamente aristocrática, dá-se o equilíbrio de tendências que mostra o estado social, a norma vital da sociedade.
Aristocratizacão total = anarquizacão. O individualismo é limitado. Há gente inindividualizável.


Ou, por último:

UMA ÁRVORE NÃO VAI a comícios. Urna pedra não tem na ponta da língua (que aliás não possui) tudo o que afinal Karl Marx nunca disse ou quis dizer.

Tudo isto em mais uma série de textos saídos da arca infinita: Fernando Pessoa, (Edição de Richard Zenith), Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, Lisboa, Assírio e Alvim, 2003.


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IMAGEM

de ontem, é um azulejo de Iznik, da segunda metade do século XVI. Está na Mesquita do Sultão Ahmet em Istambul. Brilha hoje, como há quinhentos anos.

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DE MANHÃ ESCUREÇO


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EARLY MORNING BLOGS 66

Um simples Vinicius, pela manhã:

"De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
Este é o meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
Meu tempo é quando."


(Cortesia da Rita M., fiel desde o princípio.)

*

Bom dia e deixem de protestar contra a chuva. A chuva sempre lavou a alma, e enche as terras de força. Lá no fundo, onde só a minúscula toupeira vê, não vendo, há festa entre as raízes.

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DUPLA “DUPLICIDADE”

O Retórica e Persuasão perguntava-me sobre as razões porque usei uma frase, que tinha publicado no Abrupto, num artigo do Público. Reproduzo aqui as perguntas e os meus comentários. A questão suscitada interessa-me porque a inter-comunicabilidade entre diferentes meios de comunicação (blogue, audiovisual, escrita) é para mim um problema, ao mesmo tempo teórico e prático. E não me esqueço de que, numa das minhas primeiras notas no Abrupto, eu remetia para uma resposta mais completa a uma determinada questão para um debate do Flashback, que já estava gravado, e isso provocou a fúria de alguns autores de blogues, como se fosse uma violação do ethos da blogosfera.

Aliás, sou frequentemente incitado (algumas vezes provocado) a escrever sobre determinados assuntos e, se não o faço, imediatamente criticado, com a demasiado rápida excitação de alguns blogues, principalmente os de jornalistas, que têm tanto speed que depois se cansam depressa. Muitas vezes, como já disse o que queria dizer e como o queria dizer noutro tempo (a memória não tem para mim quinze dias, nem quatro Expressos, nem dois meses de TSF), ou noutro sítio, não me vou repetir.

1) Tratou-se de mero lapso [o conteúdo de tal post na sua crónica no Publico ] ou de uma decisão consciente?

De uma decisão consciente. O texto fazia parte de um cluster, para usar um anglicismo em moda, de reflexões fragmentadas que coloquei no blogue. Depois evoluíram para um texto mais extenso que pensei publicar no Público (parecia-me um assunto com interesse geral, e a forma de um Dicionário permitia-me acrescentar e cortar algumas notas, e pode ser que no futuro algumas dessas notas venham para o Abrupto). O meu uso dos media a que tenho acesso é comunicante, utilizo o que me parece mais conveniente conforme a natureza dos media e do que pretendo dizer ou escrever.

2) E a confirmar-se a segunda hipótese:

a) dever-se-á reconfigurar a "novidade" como requisito da publicação jornalística?


Não penso que a “novidade” seja o elemento fundamental, embora tenha em conta que o artigo deve ser no essencial inédito para o grande público do Público. Como o jornal tem muitos mais leitores do que o blogue, e a parte que aproveitei do texto do blogue era apenas uma pequena parte (e, mesmo assim, com alterações), entendi usá-la. Já fiz isso uma ou duas vezes, do blogue para a televisão, da televisão para o blogue ou o jornal.

Por outro lado, deliberadamente, quando me agrada uma ideia ou uma frase, ou uma determinada formulação de um problema (um vírus), esforço-me por a usar de forma complementar nos diferentes media, ou seja, infectar as pessoas com ela. Isto inclui o uso da “retórica” e da “sedução”. Como sempre tenho afirmado, não sou indiferente aos resultados do que digo ou escrevo, em particular quando versa matérias a que atribuo um significado cívico. Nas outras matérias, já considerações de eficácia têm pouca importância, ou os mecanismos dessa eficácia são de tipo diferente, narrativo, estético, etc..

Há, no entanto, uma distinção que queria fazer, sabendo que as fronteiras que ela enuncia são precárias e difíceis de definir: eu estou no “mercado das opiniões”, não no das “agendas”. Não são mutuamente incompatíveis, e pode-se sempre chamar agenda a qualquer intencionalidade da fala, mas é uma distinção que tenho vindo a compreender cada vez melhor. Noutra altura voltarei a falar disto, porque é aqui que as questões da análise, da objectividade, da propaganda, se podem colocar.

b) poderá a prévia edição num blogue servir de "balão de ensaio" para a publicação no jornal?

Sim, como se vê pelas respostas anteriores.


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24.10.03


ASCENSÃO E QUEDA


Theodorus Metochites, que aqui está segurando uma igreja que oferece a Cristo, ele representado de lado, Cristo de frente sentado num trono (não se vê no fragmento), era um poderoso nobre bizantino. Era rico e culto, excepcionalmente culto, mesmo numa terra onde a nobreza cultivava o saber e tinha livros em casa, o que era muito raro no lado “latino” do mundo.

A igreja que restaurou, S. Salvador em Chora (depois, a mesquita de Kariye), foi a que o acolheu quando da sua desgraça. Depois de ser Grande Logoteta (uma espécie de cargo entre tesoureiro e ministro das finanças) do imperador Andronikos II, envolveu-se numa guerra civil familiar entre avô e neto, na qual ganhou o neto, futuro Andronikus III. Theodorus fugiu e exilou-se. Escapou da morte ou da cegueira, uma habitual punição bizantina, e, mais tarde, o imperador concedeu-lhe a possibilidade de regressar ao seu mosteiro. O poderoso Theodorus estava arruinado, velho e doente, e voltou como um monge vulgar, adoptando o nome de Theoleptus.

Todos os dias, quando entrava na igreja, olhava para cima e via-se ao lado de Cristo, brilhando na sua roupa dourada, parecendo-se estranhamente com um turco, dos que, cento e vinte anos depois, transformariam a sua igreja numa mesquita. A parecença ainda é maior pelo enorme skiadion, tão semelhante a um turbante, que leva os guias a puxarem para o exótico e dizerem que ele estava vestido “à turco”. Não, não estava, estava vestido à bizantino, só que naquela parte do mundo as coisas acabavam por ser mais parecidas do que imaginamos.

Theodorus, agora Theoleptus, viu-se, todos os dias dos seus últimos anos, assim no apogeu da sua glória, na juventude, com todo o poder, com o poder de estar ao lado direito de Cristo e lhe dar uma igreja. O seu passado presidia, à entrada da nave da igreja, ao seu presente. Antes estava em cima, agora em baixo. Ironia, ironia triste do tempo. É ao ver estas coisas que eu percebo como foi possível haver poetas, como Kavafis, que ouviram os ecos longínquos deste mundo antigo dos gregos que achavam que eram os últimos romanos.

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ABRUPTO (No Dicionário Houaiss)

Esta é a entrada de "abrupto" no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, essa gigantesca obra de saber e erudição, que finalmente está disponível em Portugal:

abrupto /ab-ru/ adj (1783, cf. DDP) 1. em declive rápido ou de inclinação quase vertical; abruptado, íngreme 2. fig. Que ocorre de maneira súbita, inopinada 3. fig. De natureza ou carácter áspero, rude ETM lat. Abruptus.a.um separado, quebrado, rasgado, interrompido, precipitado, part.pas. de abrumptere quebrar, separar, interromper, destruir; ver romp- SIN/VAR ab-rupto; ver tb. Sinonímia de inesperado e repentino e antinomia de suave ANT ver sinonímia de inesperado e antinomia de suave PAR abrupta (f.) / à bruta (loc.)

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IMAGENS

por identificar dos últimos dias, são, com excepção da última, otomanas e turcas.

ESCREVER A DIREITO é um mosaico do Grande Palácio que está no Museu do Mosaico em Istambul.

URDIDURA não é uma conspiração, mas um Kilim da Anatólia oriental.

FRONTEIRAS DA UNIÃO é uma miniatura otomana do século XVII e, embora pareça uma cena de guerra, é um jogo de pólo.

Fora do oriente, LES ESPACES LIMPIDES são uma vista de Diemen, de Rembrandt.



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MINUTIAE


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EARLY MORNING BLOGS / LES BLOGUES DU PETIT MATIN / LOS BLOGUES DEL TIEMPO QUE ALBOREABA 65

Hoje, duas manhãs muito diferentes. Uma em Paris, outra em Granada, uma de agora e outra de há setecentos ou oitocentos anos. A de Paris é de uma canção de Jacques Dutronc, com letra de Jacques Lanzmann (cortesia de Júlio Costa e de Jorge Lemos), e é um belo retrato de Paris às cinco da manhã:

Il est cinq heures, Paris s'éveille

Je suis l'dauphin d'la place Dauphine
Et la place Blanche a mauvaise mine
Les camions sont pleins de lait
Les balayeurs sont pleins d'balais

Il est cinq heures
Paris s'éveille
Paris s'éveille

Les travestis vont se raser
Les stripteaseuses sont rhabillées
Les traversins sont écrasés
Les amoureux sont fatigués

Il est cinq heures
Paris s'éveille
Paris s'éveille

Le café est dans les tasses
Les cafés nettoient leurs glaces
Et sur le boulevard Montparnasse
La gare n'est plus qu'une carcasse

Il est cinq heures
Paris s'éveille
Paris s'éveille

Les banlieusards sont dans les gares
A la Villette on tranche le lard
Paris by night, regagne les cars
Les boulangers font des bâtards

Il est cinq heures
Paris s'éveille
Paris s'éveille

La tour Eiffel a froid aux pieds
L'Arc de Triomphe est ranimé
Et l'Obélisque est bien dressé
Entre la nuit et la journée

Il est cinq heures
Paris s'éveille
Paris s'éveille

Les journaux sont imprimés
Les ouvriers sont déprimés
Les gens se lèvent, ils sont brimés
C'est l'heure où je vais me coucher


Il est cinq heures
Paris se lève

Il est cinq heures
Je n'ai pas sommeil”


*

Depois entramos na “mañana”, pela primeira vez e com que fragor, clareza e brilho, com este romance do Romanceiro Viejo, um dos meus preferidos:

La mañana de San Juan

"La mañana de San Juan - al tiempo que alboreaba,

gran fiesta hacen los moros - por la vega de Granada.

Revolviendo sus caballos - y jugando de las lanzas,

ricos pendones en ellas - broslados por sus amadas,

ricas marlotas vestidas - tejidas de oro y grana.

El moro que amores tiene - señales de ello mostraba,

y el que no tenía amores - allí no escarmuzaba.

Las damas moras los miran - de las torres de la Alhambra,

también se los mira el rey - de dentro de la Alcazaba.

Dando voces vino un moro - con la cara ensangrantada:

- Con tu licencia, el rey, - te daré una nueva mala:

el infante don Fernando - tiene a Antequera ganada;

muchos moros deja muertos, - yo soy quien mejor librara,

siete lanzadas yo traigo, - el cuerpo todo me pasan,

los que conmigo escaparon - en Archidona quedaban.

Con la tal nueva el rey - la cara se le demudaba;

manda juntar sus trompetas - que toquen todas el arma,

manda juntar a los suyos, - hace muy gran cabalgada,

y a las puertas de Alcalá, - que la Real se llamaba,

los crisitianos y los moros - una escaramuza traban.

Los cristianos eran muchos, - mas llevaban orden mala,

los moros, que son de guerra, - dádoles han mala carga,

de ellos matan, de ellos prenden, - de ellos toman en celada.

Con la victoria, los moros - van la vuelta de Granada;

a grandes voces decían: - -¡La victoria ya es cobrada!"


*

Bom dia!

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VER A NOITE

Há quanto tempo não via as Plêiades, ou a Via Láctea, ou sequer uma estrela decente brilhando num fundo escuro! Assim me preparo para o Cruzeiro do Sul.


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23.10.03


CENAS DA VIDA PARLAMENTAR EUROPEIA

Acabei de votar pelo menos 390 vezes (trezentas e noventa vezes), descontando algumas repetições de votações que tiveram que ser confirmadas por voto electrónico. Votei sobre tudo, desde o destino geral do mundo, até ao "espírito empresarial da Europa", dos caminhos de ferro aos stocks de bacalhau, da Bolívia até ao tráfico de órgãos, numa obsessão proclamatória absolutamente irrelevante, tanto mais que a maioria dos documentos votados são meras recomendações, a que ninguém liga nenhuma. Há uma verdadeira mania da emenda, um existir pela emenda.

Existe-se pela emenda e pela declaração de voto, e dá resultado. Quando chegarmos às próximas eleições europeias, vão ver como haverá uns jornalistas que interpretarão as estatísticas das emendas, das declarações de voto, das intervenções de um minuto, e outras actividades feitas só para as estatísticas , como indicadores do "trabalho". Entretanto, vota-se trezentas e noventa vezes hoje, cento e tal ontem, e cento e tal anteontem.

*

Numa reunião sobre o multilinguismo e o multiculturalismo, duas palavras quentes em vésperas do alargamento, discutiu-se a sinalética como alternativa a ter cartazes do tamanho de uma parede com inscrições em duas dezenas de línguas para tudo. Houve, no entanto, reservas quanto à sinalética para identificar os quartos de banho das senhoras e dos cavalheiros porque a distinção saias-calças parece ser entendida como confusa e sexista. Como acho que não me elegeram para discutir a sinalética dos quartos de banho, propus a representação estilizada, em nome dos bons costumes, dos órgãos sexuais masculinos e femininos para identificar as portas. Sem sucesso. Parece que também não é inequívoco.

*

Vai haver um enorme problema com o maltês que passa a ser uma das línguas oficiais da União. Na ilha não parece haver mais do que uma dezena de intérpretes qualificados para todas as instituições europeias, e não se vê muito bem como é que se vai conseguir fazer funcionar os mecanismos institucionais que implicam obrigatoriamente o uso da língua. O acervo comunitário (cerca de 80.000 páginas) tem que ser traduzido em maltês e, como os tribunais em Malta só trabalham em maltês, não se concebe como a legislação europeia, na sua magnífica complexidade burocrática e extensão, pode a tempo ser traduzida.

Jovens portugueses, aprendei o maltês, porque o emprego é assegurado!

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LES ESPACES LIMPIDES




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EARLY MORNING BLOGS 64

O ar da noite começa a estar frio, daquele frio que precede o frio verdadeiro, apenas um ou dois graus, e uma pequena nuvem passa a acompanhar-nos como se fossemos um pico de um monte. O ar frio respira-se com maior densidade, sabe a frio, o quente não sabe a nada.
E de manhã já há a "luz do Norte", esse cinzento ténue mas fundo, que entra nas casas, que parece uma continuação das casas, das ruas. Um cinzento que não é bruma, nem é húmido, mas apenas uma cor das coisas.

*

Respondendo ao apelo do senhor Presidente da República (e cortesia do António Afonso), a manhã de hoje sobe, "eleva-se", "au-dessus des étangs".


Élévation

"Au-dessus des étangs, au-dessus des vallées,
Des montagnes, des bois, des nuages, des mers,
Par delà le soleil, par delà les éthers,
Par delà les confins des sphères étoilées,

Mon esprit, tu te meus avec agilité,
Et, comme un bon nageur qui se pâme dans l'onde,
Tu sillonnes gaiement l'immensité profonde
Avec une indicible et mâle volupté.

Envole-toi bien loin de ces miasmes morbides;
Va te purifier dans l'air supérieur,
Et bois, comme une pure et divine liqueur,
Le feu clair qui remplit les espaces limpides.

Derrière les ennuis et les vastes chagrins
Qui chargent de leur poids l'existence brumeuse,
Heureux celui qui peut d'une aile vigoureuse
S'élancer vers les champs lumineux et sereins;

Celui dont les penseurs, comme les alouettes,
Vers les cieux le matin prennent un libre essor,
- Qui plane sur la vie, et comprend sans effort
Le langage des fleurs et des choses muettes!
"

Baudelaire: Les Fleurs du mal

*

Bom dia!

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22.10.03


É LEGÍTIMO DISCUTIR AS ESCUTAS?

Uma carta de Joaquim Torres Costa, sobre a minha intervenção na SIC, representa a crítica mais consistente que me foi feita sobre esta matéria. Os argumentos do seu autor representam dúvidas que eu tive e algumas que eu tenho. Com a sua autorização, publico-a aqui, acrescentando alguns comentários que vão em bold.

"Relativamente à matéria da divulgação das escutas telefónicas de membros da direcção do PS, tem você, como actor político e como cidadão, todo o direito chamar à colação as contradições patentes dos seus adversários estratégicos. Isso não pode ocultar o facto, tão manifestamente contrastante com o seu “ethos” público, de você ter aceite comentar como “matéria” politicamente legítima o “conteúdo” divulgado das escutas telefónicas sem, de acordo com a matriz do seu próprio discurso, ter sublinhado expressamente as seguintes circunstâncias :[comecei o que disse na SIC condenando as fugas de informação, e só com processo de intenção é que se pode considerar que isso é retórico]

1) Que a divulgação do conteúdo das escutas resultou necessariamente da perpetração de um crime [de acordo] cuja gravidade é análoga àquela que os seus fautores pretenderam atribuir aos comportamentos alheios. [como não sei quais são os "seus fautores", não posso estar certo da sua intencionalidade. Muito desta carta não poderia ser escrito se o seu autor não tivesse uma ideia pré-concebida sobre quem fez as fugas] Refiro-me não tanto ao crime (banal) da violação do (inefável) segredo de justiça, mas ao de utilização estratégica da qualidade de “fonte anónima” [não estamos neste caso perante uma "fonte anónima", mas perante um documento processual contendo escutas e a sua interpretação pelo Ministério Público; o conteúdo das escutas não foi negado pelos próprios, que apenas afirmaram terem sido citadas fora do contexto] ¾ por parte de quem tem poder de acesso ao teor da investigação e a informação legalmente reservada ¾ com o objectivo de influir publicamente sobre a posição de terceiros que são directa ou indirectamente interessados no mesmo processo .[esta frase só tem sentido se as fugas tiverem a origem que o autor da carta sugere, e não tenho elementos para o confirmar ou desmentir; o que mais clarificava todo este processo era a identificação dos autores das fugas]

2) Que a formatação da “fuga” foi intencionalmente dirigida à apetência primária dos media pelas informações "ready made". Com efeito, não estamos perante transcrições de escutas telefónicas oferecidas ao escrutínio público, mas antes de uma selecção intencional de passagens dessas transcrições, devidamente acompanhadas de comentários e interpretações de uma voz cuja autoridade não é justificada, mas proferidos ao abrigo de qualquer contraditório. O que as fontes forneceram aos jornalistas foi, portanto, um verdadeiro “press release” antecipadamente construído (como é norma) para obter articulação óptima entre os objectivos visados e o modo de percepção dos media necessários à sua divulgação. [ repito o que disse antes: esta frase só tem sentido se as fugas tiverem a origem e a forma que o autor da carta sugere; não tenho elementos para o confirmar ou desmentir, a não ser que as conheci através de um trabalho jornalístico, quer na SIC, quer na RTP, quer no Público, que me pareceu até bastante sóbrio e sólido para o costume]

3) Que, finalmente, algumas das passagens seleccionadas devem a sua eficácia simbólica à exploração da fractura ontológica (universalmente inscrita na ordem psicológica, social e mesmo moral) entre a linguagem pública e a linguagem privada (mesmo se aplicada a coisas públicas), sendo certo que nenhum titular de estatuto público (político, jurídico, pedagógico ou religioso) poderia resistir (salvo em regime da mais totalitária autocensura) ao escrutínio terrorista do seu discurso privado nem à respectiva divulgação ad hoc como instrumento dos conflitos sociais em que fosse participante. [inteiramente de acordo: sempre que me tenho pronunciado na matéria, tenho desvalorizado esse aspecto da linguagem; os plebeísmos utilizados parecem-me de todo irrelevantes e insusceptíveis de qualquer julgamento negativo; na análise das escutas tornadas públicas não é a linguagem, nem as opiniões, que me interessam, mas apenas os factos; só esses me parecem passíveis de interpretação legitima, se forem do domínio dos comportamentos políticos, como penso ser inequívoco que são. Nunca deveriam ter sido conhecidos deste modo, mas é um facto que são públicos.]

É certamente difícil imaginar, no mundo real, um comentarista da “área do partido X” recusando a oportunidade de explorar a rendibilidade simbólica de tais “revelações” sobre “membros do partido Y”, quaisquer que seja os partidos concretos que em cada momento preencham o lugar daquelas incógnitas. [não é verdade: tenho noutras ocasiões , no Flashback e em artigos, defendido, mesmo contra o meu partido, responsáveis do PS ; por exemplo, já mais de uma vez defendi Ferro Rodrigues, como quando da crise das "patetices", que também incidia sobre uma questão vocabular; o problema é que, para certas pessoas e apenas para certas pessoas, nunca há memória consistente: quando critico Paulo Portas ou o governo ou o PSD, sou "independente" e 'corajoso"; quando critico o PS estou ao "serviço", sou dúplice ou contraditório. Este tipo de "prova de vida", que aliás também é dúplice porque não exigida a outros, não é aceitável. Já tenho biografia suficiente nestas matérias para estar sempre a ser julgado ... quando critico o PS ou o "outro lado". ] Mas, no mundo ideal do “há muito que venho dizendo”, o autor e o cidadão José Pacheco Pereira jamais teriam consentido “comentar” como “informação” (como substância moral e epistemologicamente neutra...) uma representação da realidade tão fundamentalmente inquinada na sua origem, na sua forma e no seu processo por pressupostos cuja denúncia tem constituído exactamente a matriz do seu discurso público. Era nessas ¾ e só nessas condições ¾ que a invocação argumentativa que faz das suas próprias posições passadas e das dos seus adversários políticos em face de circunstâncias semelhantes adquiriria toda a sua eficácia intelectual e moral. Com todo o respeito, o que o José Pacheco Pereira agora diz no seu blog, ou mesmo o que venha dizer na sua selectiva coluna do Público, não apaga o que consentiu fazer perante uma gigantesca audiência televisiva em horário nobre: uma arrepiante demonstração de realpolitik da inteligência. [Não há qualquer regra deontológica que impeça ou limite o comentário deste tipo de informação, nem esta questão nunca fora posta antes, para casos prévios de divulgação de escutas em processos crime - e são vários os casos, alguns recentes, como o do deputado António Preto. Este, pelos vistos, não teve direito a nenhuma indignação, embora toda a gente comentasse a escuta do episódio da mala.

Nesta matéria, há distinções deontológicas que podem parecer subtis, mas que são fundamentais. São, aliás, as habituais nos grandes órgãos de comunicação social internacional, em que a ideia de que este tipo de documentos não é passível de discussão apareceria como muito bizarra.

As minhas regras são próximas (mas não inteiramente idênticas, porque não sou jornalista) das que vêm em qualquer manual de deontologia:

Nunca discutiria escutas que tivessem sido feitas por jornalistas, ou "oferecidas" a um órgão de comunicação social sem conhecimento da fonte nem da legalidade da sua obtenção. As escutas agora divulgadas são fruto de um crime (a violação do segredo de justiça) , mas têm fonte identificada e não são anónimas (o autor da fuga não é a fonte, mas sim o documento com as transcrições), são legais e não foram contestadas na sua veracidade, apenas no "contexto". (Aqui não aceito a posição socialista porque não é difícil contextualizá-las.)

Nunca discutiria escutas (nem qualquer outro tipo de documentos) que tivessem a ver com as acusações que vão ser julgadas em tribunal, e que antecipassem a condição de inocente ou culpado dos arguidos.

Nunca discutiria escutas (nem qualquer documento) que contivesse matéria sensível e íntima (de ordem sexual, por exemplo) e que pudesse ser resumido sem perda de teor informativo por frases como "X é acusado de trinta casos de...", evitando uma desnecessária violência pessoal sem prejudicar o eventual interesse público em se saber de que é que um político é acusado. Também nunca me pronunciaria sobre escutas que envolvessem, no âmbito desta matéria intíma, terceiros. Por isso, acho inaceitável a publicação na íntegra do pedido de levantamento da imunidade parlamentar de Paulo Pedroso, como o Independente fez. Se a SIC fizesse o mesmo, ou coisa parecida, recusar-me-ia a comentar.

Mas isto significa, por outro lado, que aceito como legítima a divulgação pela comunicação social de escutas como as que estamos a discutir e que versam matéria com significado político, independentemente do seu valor para o processo. No entanto, se a decisão de fazer as escutas e as transcrever por parte do MP fosse apenas a parte política do seu conteúdo, elas seriam para mim inadmissíveis e um claro abuso de poder. Quando tudo se conhecer, até pode ser esta a minha conclusão; até lá, não posso eliminar racionalmente a hipótese de que possa ter havido uma tentativa de "perturbação do processo" usando o poder político. Não estamos em terreno diferente das acusações ao ministro Martins da Cruz, só que com muito maior gravidade. Mas admito que é interpretativo, e portanto inseguro. ]


Ora para isso, como sabe melhor do que ninguém, mais vale, à mesma hora, sintonizar a TVI. " [Tem razão]

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RISCOS

O Aviz escreve:

"eu temo, sinceramente, um acordo de Bloco Central sobre a matéria [caso Casa Pia]. Todos os sinais estão por aí, dispersos. Questão de marketing patriótico."

Eu também temo, e espero que não. Mas já há demasiadas conversas privadas e circulação privilegiada de informação para meu gosto. Para os políticos é fundamental, nestes casos, respeitar em absoluto a separação de poderes.
Nesta matéria nunca se toca em privado, em confidência, em nenhuma circunstância. Quem o faz, queima-se.


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FRONTEIRAS DA UNIÃO


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POLÍTICA EXTERNA DA UNIÃO

Com a figura de um Ministro de Negócios Estrangeiros da UE, prevista na Constituição, pretende-se um upgrade da capacidade externa da União. O que se vai ter é um downgrade dessa política externa.

Eu conheço bem como se formulam as posições de política externa da UE, a julgar pelo que é essa componente no Parlamento Europeu. As posições "europeias" aqui definidas têm duas características em comum: uma, são uma colagem ecléctica de posições, nem carne, nem peixe, que pretende agradar a todos, desde a extrema-direita aos comunistas; outra, é que, quando tem mais alguma carne ou peixe, são as habituais posições anti-americanas politicamente correctas. Como os mecanismos de consenso e discórdia que aqui funcionam não são assim tão diferentes dos que unem os governos europeus, a impotência do novo MNE da UE não será muito diferente da do Sr. Solana. Recordam-se como ele foi saudado como o sr. PESC, o homem com o número de telefone que Kissinger pedia?

Um dos aspectos mais negativos da Constituição europeia é que está cheia destes falsos upgrades, a que não corresponde nem vontade política dos governos, nem legitimidade popular.

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PERGUNTAS QUE É PRECISO COMEÇAR A FAZER

Se estivesse em vigor a Constituição europeia, poderia o Primeiro Ministro português ter organizado e participado na Cimeira dos Açores durante a crise do Iraque?

Se estivesse em vigor a Constituição europeia, poderia Portugal ter decidido enviar tropas da GNR para o Iraque?

Não importa aqui saber se as pessoas estão ou não de acordo com estas iniciativas, mas sim saber se existe qualquer autonomia da nossa política externa numa crise deste tipo.

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EARLY MORNING BLOGS 63

De vez em quando, os portugueses descobrem que o seu país não está onde às vezes o futebol o coloca, mas abaixo do sítio onde está a sua economia. Passam da euforia à depressão e parece não haver maneira de sair deste círculo. A depressão desmobiliza, gera apatia e cansaço, revolta sem destino e construção. Mas eu prefiro sempre que as pessoas tenham um espelho cruel que lhes diga a verdade, em vez de uma imagem projectada do seu gigantesco Ego triunfante nas pequenas coisas. Que percebam que o seu país exige um enorme esforço para sair de um atraso endémico, que tem muito a ver com comportamentos, que tem tudo a ver com comportamentos individuais e colectivos, de cada um de nós e do Estado.

Quando, no tempo do engenheiro, toda a gente estava feliz, a bolsa subia, o dinheiro a crédito parecia correr dos bancos para os bolsos sem retorno, o país também se distraía e folgava. Só que a euforia é mais cara do que a depressão, e milhões e milhões desapareceram nesses anos para nunca mais voltarem.

Cada manhã, au petit matin, in the early morning hours, tudo pode recomeçar bem ou mal. Os poemas e canções matinais que temos publicado olham a manhã de muitas maneiras: como um começo lustral, como um resto maltratado da noite, como o desespero de mais um dia. Também assim é com a pátria.

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21.10.03


RECOMENDAÇÕES DE S. BERNARDO

«Ainda que conhecesses todos os mistérios, toda a vastidão da terra, toda a altura do céu e a profundidade do mar, se te ignorasses a ti mesmo, serias como aquele que constrói sem alicerces e prepara não um edifício, mas uma ruína. Tudo o que construíres a teu lado não será senão um monte de poeira que o vento dispersa. (...). O sábio será sábio em relação a si e será o primeiro a beber a água do seu poço.»

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URDIDURA



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ACTUALIZAÇÕES

nalgumas notas mais abaixo estão a ser introduzidas com frequência, dada a correspondência que está a chegar e a actualidade da questão.

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PROTEGER A IMAGEM DO PS

António Costa tem toda a razão quando afirma que

"a publicitação dessa audição, consciente que estava que a associação pública do nome do deputado Paulo Pedroso a um processo desta natureza teria consequências irreparáveis na sua imagem junto da opinião pública. Para além de afectar seriamente a imagem do Partido Socialista e do próprio Parlamento"

Mas aceitaria o PS que tal fosse feito, por exemplo por Guilherme Silva: que telefonasse ao procurador, pedindo-lhe em confidência que um deputado do PSD que estivesse acusado de peculato ou corrupção, e que igualmente afirmasse a sua inocência, fosse ouvido em segredo? Não é certamente o crime de que são acusados que faz a diferença, pois não? E aceitaria o PS que Guilherme Silva se justificasse dizendo que o fizera para "proteger o PSD"? Todos nós sabemos a resposta.

Sou, no entanto, bastante mais sensível à preocupação de Costa com o efeito "irreparável" de acusações, que se venham a provar falsas, contra Pedroso. Se a inocência actual de Paulo Pedroso não for atingida pelas acusações que lhe são feitas (como toda a gente de bem deve desejar), ele terá sido vítima de uma enorme injustiça que merece uma reparação inequívoca de todos.

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A CUNHA

que o PS queria fazer, está descrita por António Costa num artigo do Público de hoje ( e também aqui confio plenamente na sua palavra) :

"No passado dia 21 de Maio, cerca das 9h00, contactei telefonicamente o senhor conselheiro procurador-geral da República para a sua residência. Passara já uma semana desde que o deputado Paulo Pedroso requerera formalmente junto da Procuradoria-Geral da República a sua audição no âmbito do processo, sem que tivesse obtido resposta.
Por outro lado, preocupava-me evitar, na medida do possível, a publicitação dessa audição, consciente que estava que a associação pública do nome do deputado Paulo Pedroso a um processo desta natureza teria consequências irreparáveis na sua imagem junto da opinião pública. Para além de afectar seriamente a imagem do Partido Socialista e do próprio Parlamento.
"

Acrescente-se que, uma semana antes, do dia 21, nenhum português, a não ser as pessoas directamente envolvidas na condução do processo, era suposto saber do que se passava, pelo que estas iniciativas eram conduzidas em segredo. E isto é, dêem-se as voltas que se quiser, o pedido de um favor.

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DUPLICIDADE

Se há coisa que peço a mim próprio, e, se não fosse incréu, ao Senhor, é não cair na duplicidade na análise deste processo, todo ele impregnado de duplicidade. Tenho as minhas opiniões, gostos e antipatias, que é impossível não mostrar; posso cair em contradição, porque isso, às vezes, é inevitável, mas farei todo o possível para não ser dúplice.

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A ACUSAÇÃO A JOÃO PEDROSO

de ter ido para o Conselho Superior de Magistratura por causa do processo que envolvia o seu irmão é insustentável. É uma insinuação do mesmo tipo da que foi feita contra Nobre Guedes e a Ministra da Justiça, a propósito do processo Moderna. A verdade é que a primeira insinuação veio apenas de Marcelo Rebelo de Sousa e a segunda foi repetida à saciedade por muitos que agora se indignam, como se fosse a coisa mais natural do mundo, e ninguém pensou em processá-los.

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QUEM CONSTRUIU O "SISTEMA" DA REPÚBLICA DOS JUÍZES? (Actualizado)

Houve quem, nos últimos vinte anos, em Portugal, quisesse fazer uma "República dos Juízes" à italiana, respondendo às vantagens eleitorais do populismo justiceiro. Houve quem não tivesse coragem, com receio das consequências eleitorais negativas, devidas igualmente ao populismo justiceiro, de dizer "não" à excessiva concentração de poderes num Ministério Público que não responde efectivamente perante ninguém. A combinação destes dois factores construiu o "sistema" actual.

Foram políticos do PSD, PS e PCP que construíram este "sistema" por razões estritamente políticas, numa competição por agradar (ou pelo medo de desagradar) ao populismo, debaixo dos ventos italianos. Do meu partido, recordo-me da acção de dois ministros, Fernando Nogueira e Laborinho Lúcio, mas recordo-me também que, a cada momento, nas revisões constitucionais, na discussão dos principais diplomas sobre justiça, havia uma forte e agressiva pressão para uma "República dos Juízes" à portuguesa vinda do PS e do PCP. O PS e o PCP, em particular, comportavam-se como "partidos do Ministério Público". O último ministro que prosseguiu neste caminho foi António Costa.

Enquanto as vítimas eram do PSD, os justiceiros estavam no Independente (com aplauso total da esquerda política, que lhes dava continuidade no parlamento), e as fugas sistemáticas eram só de um lado e sem defesa, porque ninguém tinha coragem para a fazer; nunca houve problemas com "o sistema" e, a cada caso, o clamor era para novas medidas de reforço dos poderes judiciais. Por exemplo: quanto às escutas telefónicas.

É verdade que a intenção era usá-las para a criminalidade organizada, para o branqueamento de capitais, para o terrorismo, para a corrupção. Mas convém não esquecer que este processo é sobre pedofilia (sim, porque o processo de que é arguido Paulo Pedroso é de crimes pedófilos), que toda a gente bate (ou batia) com as mãos no peito considerando um "crime hediondo", e não me venham dizer que, se se perguntasse ao então ministro António Costa, se a pedofilia era excepção ao regime das escutas, ele responderia com um sonoro "nunca". Aliás, as escutas do processo Moderna, para não ir mais longe, ou do processo que envolve o deputado António Preto, também inclui escutas que foram divulgadas indevidamente. Estão esquecidos? Não ouvi protesto nenhum de Ferro Rodrigues, de António Costa , de Paulo Pedroso, etc., nem Manuel Alegre disse que a democracia estava em perigo.

O "sistema" é mau, permite abusos de poder, tem escasso controlo? Com certeza. Mas já era mau antes do caso Pedroso e havia quem o dissesse, curiosamente ninguém dos que agora clamam contra ele e o ajudaram a construir. Proença de Carvalho, Mário Soares (em defesa de Leonor Beleza), e alguns outros, disseram-no. Recordo-me de muitas discussões com José Magalhães (outro dos que construiram o "sistema"), no Flashback, sobre esta matéria, e eu próprio, quando membro da CP do PSD, me pronunciei em sede própria contra a imitação italiana e os seus riscos. Escrevi também sobre isso e portanto pouco me surpreende o que hoje acontece.

Dito isto, sou obviamente defensor de alterações profundas no "sistema", mas nunca, jamais,em tempo algum, antes do fim do processo Casa Pia, por razões decorrentes do modo como deve funcionar uma democracia e um estado de direito.

*

Escreve o Adufe sobre a nota acima: "não são os pecadilhos passados e os telhados de vidro que agora poderão justificar uma espécie de auto-diminuição dos direitos dos visados". Inteiramente de acordo.

*

De uma mensagem enviada por Luis Rodrigues:

"Refere (...): "Dito isto, sou obviamente defensor de alterações profundas no "sistema", mas nunca, jamais, em tempo algum, antes do fim do processo Casa Pia, por razões do modo como deve funcionar uma democracia e um estado de direito". Mas já pensou nas implicações desta ideia? Esta opinião tem implícita duas enormes perversidades:

1ª- Implica o reconhecimento de que este sistema está, afinal, errado. Mas que, por razões de oportunidade de política lato sensu, e também de política judiciária, deveremos sacrificar esta "geração" de arguidos a este sistema reconhecidamente errado, dizendo-lhes: «Desculpem lá, sabemos que isto está errado, mas não é agora oportuno mudar todo o sistema; mal o vosso caso esteja resolvido, mudá-lo-emos, de modo que a próxima "geração" de arguidos seja já abrangida por um sistema reformado e melhor... Quanto a vocês, aguentem lá "isto" por agora...».

2ª- A segunda perversidade, é que a ideia de que não se deve mudar agora o sistema, porque não se deve "legislar a quente" esquece que se a ocasião é "quente" para estes arguidos, amanhã será igualmente quente (quem sabe mais ainda) para outros arguidos, e assim sucessivamente... Nunca se mudará, portanto...? Ou já poderá mudar-se a quente para a próxima....? "


*

Paulo Cardoso coloca-me a seguinte questão :

"O problema (...) é, como diz Vital Moreira, "a publicação das conversas telefónicas de dirigentes do PS gravadas no âmbito do caso Paulo Pedroso não constitui somente uma flagrante violação do segredo de justiça, mas também do sigilo das comunicações pessoais. Definitivamente há direitos fundamentais em perigo entre nós. O que causa a maior inquietação é que estas conversas entre pessoas alheias ao processo e manifestamente irrelevantes para a descoberta da verdade no mesmo tenham podido ser gravadas e transcritas para o processo e, agora, tenham sido disponibilizadas "oportunamente" para a comunicação social (toda a gente suspeita como...). Tratando-se de dirigentes políticos, o caso torna-se especialmente grave. O procurador-geral da República não pode manter-se alheio ao escândalo, sob pena de ter de ser responsabilizado por ele"

Imagine que o MP, para investigar os casos de António Preto ou Cruz Silva, decide mandar escutar o telefone do Dr. Pacheco Pereira, só porque é um opinion maker que critica a instituição de uma Republica de Juizes e é militante no partido desses senhores investigados. O problema é, como dizia Brecht,

"ele nunca se preocupou, mesmo quando foram buscar o vizinho, mas um dia bateram-lhe à porta
"


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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES

CONVERSAS ORTODOXAS

"O seu post como título "CONVERSAS ORTODOXAS" remeteu-me para a demanda do Reino de Preste João. Em vários escritos de historiadores diz-se que Portugal teria feito a procura de Preste João com a finalidade de fugir ao papado de Roma e retornar à originalidade da religião e "das verdades cristãs como foram pregadas na origem do Cristianismo"

(João Rosa)

O QUE É QUE CORREU MAL?

"Muito obrigado por se ter referido ao livro do Bernard Lewis, que fiquei interessadíssimo em ler. Por coincidência, hoje de manhã li uma página do excelente livro da Karen Armstrong, The Battle for God, onde se diz algo que me pareceu divergir um pouco do que percebi ser a tese do Lewis. Permita-me que transcreva os períodos relevantes da pág 40 (edição Harper Collins, 2000):

"The Ottoman state was arguably the most up-to-date in the world during the early sixteenth century.It was, for its time, superbly efficient, had developed a new-style bureaucracy, and encouraged a vibrant intellectual life. The Ottomans were open to other cultures. They were genuinely excited by Western navigational science, stirred by the discoveries of the explorers, and eager to adopt such Western military inventions as gunpowder and firearms. It was the job of the ulema to see how these innovations could be accomodated to the Muhammadan paradigm in Muslim law. The study of jurisprudence (fiqh) did not simply consist in poring over old texts, but also had a challenging dimension. And, at this date, there was no real incompatibility between Islam and the West. Europe was also imbued with the conservative spirit. The Renaissance humanists had tried to renew their culture by a return ad fontes, to the sources. We have seen that it was virtually impossible for ordinary mortals to break with religion entirely. Despite their new inventions, Europeans were still ruled by the conservative ethos until the eighteenth century. It was only when Western modernity replaced the backward-looking mythical way of life with a future-oriented rationalism that some Muslims would begin to find Europe alien."


(José Vaz de Mascarenhas)

LIVROS PROIBIDOS - MEIN KAMPF

"Lembro-me claramente de o ouvir responder à mesma questão há uns anos, aquando de um caso envolvendo skinheads. A propósito da proibição de livros, andei a investigar recentemente a proibição do Ulysses de Joyce nos EUA, onde foi ordenada a sua interdição e destruição por ordem judicial, vindo mais tarde a ser permitida a sua livre circulação. Durante essa investigação acabei por encontrar uma espécie de observatório de restrições à liberdade de expressão da American Library Association (ALA). Foi lá que também encontrei este texto, precisamente sobre a questão de as bibliotecas escolares deverem ou não ter o Mein Kampf nas suas estantes:

"Let us look for a moment at one book that does, in essence, preach genocide—Adolf Hitler’s Mein Kampf. Few, if any, educators would recommend this book to a student seeking to formulate an individual political perspective. But can a high school library adequately fulfill its mission in a school where a history course covering the Nazi experience is taught, if the fundamental document of the Nazi movement cannot be found for student reference? In such a situation, Mein Kampf—along with other more objective treatments of Hitler’s thought—should probably be in the high school library, funding and space permitting.

But, it may be objected, a book that is purchased and shelved for reference purposes, to help students write term papers and learn to analyze controversial materials, will not necessarily be used solely in this manner. What if a little "Hitler cult" emerges in the school and students begin to read Mein Kampf—or some more contemporary racist work—not as an historical or political document, but as a meaningful tract for our times?

The situation is troubling, but censorship offers no solution. If there is a problem with racism in a school, removing racist materials from the library will not solve it. Indeed, like other efforts to drive the problem underground, such removals may only exacerbate matters. A good school librarian will work with teachers and school officials continually to take the pulse of student interests. If a segment of the student body seems inordinately attracted to materials that run counter to the purposes of democratic education, then the faculty and staff must work to expose the weaknesses of these materials by discussing them with the students—in class if need be—and by directing students to positive alternatives. One special role played by the school library is to educate students about what libraries are. Students should be taught at an early age that the presence of a book in a library, including in the
school library, does not mean that the book is somehow "endorsed" by the librarian or the school. The library is a resource that caters to varied interests; it is a place to go to find out for oneself.
This lesson cannot be taught, however, if the school library is not such a place, if the student is in effect told: Come here to find out the things you want to know, but only if established authorities approve them in advance. The school library has an important role to play in educating young people to respect diversity by itself illustrating the breadth of diverse opinion and taste.
"

Censorship and Selection: Issues and Answers to Schools, Third Edition by Henry Reichman.

Pode encontrar mais informações aqui.

Queima de livros na Alemanha Nazi.

Queima de livros em pleno séc. XXI.

(Vítor Brinches e Leitura Partilhada(blog de partilha de leituras; neste momento lemos "Ulysses" de James Joyce)



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EARLY MORNING BLOGS / LES BLOGUES DU PETIT MATIN 62

Hoje o Abrupto está francófono e francófilo, mérito de Baudelaire (cortesia de João Costa), com o poema mais triste jamais publicado nesta série. É verdade que este também é o sentimento prevalecente na pátria: "une mer de brouillards" também cai sobre nós.

Le crépuscule du Matin

"C'était l'heure où l'essaim des rêves malfaisants
Tord sur leurs oreillers les bruns adolescents ;
Où, comme un œil sanglant qui palpite et qui bouge,
La lampe sur le jour fut une tache rouge ;
Où l'âme, sous le poids du corps revêche et lourd,
Imite les combats de la lampe et du jour.
Comme un visage en pleurs que les brises essuient,
L'air est plein du frisson des choses qui s'enfuient,
Et l'homme est las d'écrire et la femme d'aimer.

Les maisons çà et là commençaient à fumer.
Les femmes de plaisir, la paupière livide,
Bouche ouverte, dormaient de leur sommeil stupide;
Les pauvresses, traînant leurs seins maigres et froids,
Soufflaient sur leurs tisons et soufflaient sus leurs doigts.
C'était l'heure où parmi le froid et la lésine
S'aggravent les douleurs des femmes en gésine ;
Comme un sanglot coupé par un sang écumeux
Le chant du coq au loin déchirait l'air brumeux ;
Une mer de brouillards baignait les édifices,
Et les agonisants dans le fond des hospices
Poussaient leur dernier râle en hoquets inégaux.
Les débauchés rentraient, brisés par leurs travaux.

L'aurore grelottante en robe rose et verte
S'avançait lentement sur la Seine déserte,
Et le sombre Paris, en se frottant les yeux,
Empoignait ses outils, vieillard laborieux. "


Baudelaire


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EM BREVE,

muito em breve, volto. Com uma pequena cornucópia.

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19.10.03


ESCREVER A DIREITO


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EARLY MORNING BLOGS 61

Para não perder a manhã, dois poemas sobre a aurora, cortesia de Inês Mesquita.

Gloire de Dijon

"When she rises in the morning
I linger to watch her;
She spreads the bath-cloth underneath the window
And the sunbeams catch her
Glistening white on the shoulders,
While down her sides the mellow
Golden shadow glows as
She stoops to the sponge, and her swung breasts
Sway like full-blown yellow
Gloire de Dijon roses.

She drips herself with water, and her shoulders
Glisten as silver, they crumple up
Like wet and falling roses, and I listen
For the sluicing of their rain-dishevelled petals.
In the window full of sunlight
Concentrates her golden shadow
Fold on fold, until it glows as
Mellow as the glory roses."


D. H. Lawrence

*

"L’aurore s’allume;
L’ombre épaisse fuit;
Le rêve et la brume
Vont où va la nuit ;
Paupiéres et roses
S’ouvrent demi-closes ;
Du réveil des choses
On entend le bruit.

Tout chante et murmure,
Tout parle à la fois,
Fumée et verdure,
Les nids et les toits ;
Le vent parle aux chênes,
L’éau parle aux fontaines ;
Toutes les haleines
Deviennent des voix !

Tout reprend son âme,
L’enfant son hochet,
Le foyer sa flamme,
Le luth son archet ;
Folie ou démence,
Dans le monde immense,
Chacun recommence
Ce qu’il ébauchait.

Qu’on pense ou qu’on aime,
Sans cesse agité,
Vers un but suprême,
Tout vole emporté ;
L’esquif cherche un môle,
L’abeille un vieux saule,
La boussole un pôle,
Moi la verité ! "


Victor Hugo, Les Chants du crépuscule

*

Bom dia !



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IMAGEM

de ontem explica-se a si mesma, no próprio quadro,

que está no Stedelijk Museum, em Amesterdão.

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ISTAMBULIANA

Reúno aqui algum correio e notas de vários blogues, sobre Istambul e outras questões associadas. Obrigada aos meus leitores e aos meus amigos, companheiros, camaradas (a palavra não tem peçonha), pela oportunidade de aqui se poder falar em “rede”, fio daqui para ali, conversa acabada ou inacabada, memória puxa memória, para conservar no extremo Ocidente esse fragmento do Oriente, demasiado próximo. Não somos “turcophiles”, como Pierre Loti no seu “Stamboul”, mas há “filias” aqui.

E obrigada também aos que não cito, mas que em correio privado se referiram às várias formas de “divina sabedoria”.

Acrescentei, como prometido, para melhorar o texto pela visão daquilo de que se está a falar, algumas imagens lá mais para baixo. Em complemento, vale a pena ver as fotografias que Mário Filipe Pires colocou na Retorta, tiradas em 1992.

Há muitos livros sobre Constantinopla e Bizâncio, mas os meus preferidos como leitura obrigatória e introdutória são os de Steven Runciman, em particular The Fall of Constantinople 1453 , Cambridge University Press, 1992. Na mesma colecção popular da CUP, a “Canto”, há uma biografia de Constantino XI e uma colecção fascinante de retratos de mulheres bizantinas de autoria de Donald M. Nicol , The Immortal Emperor. The Life and Legend of Constantine Palaiologos , Last Emperor of the Romans, Cambridge University Press, 1994 e The Byzantine Lady. Ten Portraits 1250-1500, Cambridge University Press, 1996.

Acrescento dois que comprei agora e que me foram muito úteis : Sulyman Kirimtayif, Converted Byzantine Churches in Istanbul. Their Transformation into Mosques and Masiids, Istambul, Yayinlari, 2001, e Faruk Ersöz, A Stamboul avec Pierre Loti, Istambul, Yayinlari, 2001.

O subtítulo deste último é “cela dure si peu, à mon age les étes”.

*

Leio as suas impressões de Istambul e não deixo de rever as minhas férias deste Verão e as sensações que essa cidade me gravou... chegamos cheios de nós próprios e das nossas pequenas certezas e, de repente, vamos deixando cair tudo e ficamos despojados. A partir daí, recebemos e recolhemos o que Istambul nos oferece e deixamo-nos embalar numa melodia hipnotizadora de cheiros, de sons, de hábitos, de estranhas formas de vida.(…) O meu hotel também estava perto da Ayasofya e o constante chamamento à oração (curiosamente a oração parecia distinta às restantes mesquitas da Turquia) - infelizmente gravado - ajudou-me muito a reviver as madrugadas do almuadem de Saramago...

Se procurar entrar a fundo na vida turca, as sandes de peixe à beira da ponte de Galata são uma opção pouco turística e felizmente sem muitos espanhóis à volta...acredite que se tem a sensação de estar noutro mundo...e também apanhar um autocarro do outro lado da porta do Bazar das Especiarias, passar duas ou três paragens, visitar uma igreja católica e um jardim bonito e passear por um bairro onde as pessoas raras somos nós.. aí sim, é a verdadeira vida turca, bem mais árabe do que europeia, com casas de dois pisos, roupa a secar nas ruas sujas, se balader sem sermos assediados porque, aí, o comprador é o turco e não o guiri.”


(Sílvia Jardim)

*

Nuno Mendes, no Klepsydra , coloca bem a questão do papel do dinheiro de Bruxelas na uniformização das sociedades e dos produtos, embora já haja “4 MacDonalds à volta de Hagia Sofia ou da Mesquita Azul” , à volta de todas as coisas. A minha dúvida tem a ver com a pobreza, com a pobreza que, quer queiramos quer não, é também uma das razões desta diversidade. Prolongo essa dúvida, perguntando-me até que ponto somos nós (os ricos) que podemos escolher não ir aos McDonalds (embora vamos), que desdenhamos o seu papel em sociedades como esta. Quem diz os McDonalds, diz o "dinheiro de Bruxelas".
Seja como for, aqui fica a nota, que transcrevo:

No post Istambul2 Pacheco Pereira afirma que os burocratas de Bruxelas nunca terão hipótese de uniformizar as ruas caóticas desta cidade turca. Também já lá estive e até percebo o que quer dizer JPP, aquilo realmente impressiona pela diversidade e pela riqueza cultural, o problema é que Bruxelas tem uma forma muito simples de corromper até as culturas mais vivas, basta para isso dar dinheiro para que "eles" fiquem mais parecidos com os "outros" que somos nós (somos? queremos ser?).

Quando se diz a um agricultor que tem de deixar de plantar um certo tipo de tangerinas que embora saborosas não podem ser vendidas num qualquer "Pingo Doce", podem ter a certeza que ele não tem escolha e passa a plantar maçãs "Golden Smith" como todos os outros agricultores europeus. Não há maneira melhor de convençar alguém a mudar, por dinheiro todas essas mil variedades de azeitonas de que fala Pacheco passarão a uma só, a oficial, a europeia, e no momento em que houver 4 MacDonalds à volta de Hagia Sofia ou da Mesquita Azul, poderemos finalmente dizer que a Turquia faz parte do clube dos países civilizados, modernos e cada vez mais tristes...”


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JMT, a propósito das “conversas islâmicas”, acrescenta uma outra em Exacto, resultante de uma viagem ao Egipto.

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© José Pacheco Pereira
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