Mário Matos e Lemos / Alexandre Ramires, O Primeiro Fotógrafo de Guerra Português - José Henriques de Mello, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2008.
Apenas uma breve nota para este livro não passar despercebido no meio dos quilómetros de papel pintado das capas da moda. O texto cuidado e informado dos autores e a selecção das fotografias dizem mais sobre a realidade do nosso império colonial (neste caso a Guiné) do que dezenas de nostalgias míticas de um império que, em muitos sítios, quase não houve. As fotografias mostram a realidade da "ocupação" portuguesa na Guiné, muito para além da expedição punitiva de 1907-8, que é a "guerra" que está no título. Comerciantes, oficiais, soldados, "figuras de preta", régulos com os seus "ministros", formaturas, está lá tudo. E por muito que pareça a "guerra do Solnado" não o era de todo. Os mortos, com a habitual desproporção, existiram dos dois lados, mas há uma enorme estranheza que se desprende de cada fotografia. A história é assim, entre o encenado para a fotografia e o cadáver exposto: normal no passado, estranha no futuro.
EARLY MORNING BLOGS 1621 - Quem não tem aqui pátria não pode ter daqui desterro
Qualquer homem tem três pátrias: uma da origem, outra da natureza e outra do direito. A pátria da origem é aquela em que os nossos maiores foram e viveram; a da natureza é a terra ou lugar onde cada um nasce; a do direito é onde cada um é naturalizado pelas leis ou príncipes, e onde serve, e merece, e costuma habitar: neste sentido disse Túlio de Catão que tivera a Túsculo por pátria da natureza, mas a Roma por pátria do direito.
Quanto à pátria da origem, todos os homens somos do Céu, porque ali está, vive e reina o nosso pai celestial, que vai criando as almas e unindo-as a nossos corpos.
Quanto à segunda pátria, falando geralmente, todos homens somos da Terra; por isso dela falamos tão frequentemente. Neste sentido todos os filhos de Adão somos compatriotas, sem diferença do rei ao rústico. Neste sentido, também, os que desejavam negar as imperfeições do amor a tal ou a tal terra em particular, ou por arrogância e fasto filosófico ou por mortificação religiosa e santa, disseram que todo o mundo era pátria sua. Do primeiro temos exemplo em Sócrates, que, perguntado donde era, respondeu:
– Do mundo: porque de todo o mundo sou cidadão e habitador.
E em Séneca, que disse:
– Não encerramos a grandeza do ânimo nos muros de uma cidade, antes o deixamos livre para o comércio de todo o mundo, porque esta é a pátria que professamos, para darmos campo mais largo à virtude.
Do segundo temos exemplo em S. Basílio, que, ameaçado com desterro pelo prefeito do imperador Valente, respondeu que não conhecia desterro quem não estava adicto a certos lugares.
Semelhante resposta foi a do v. p. frei António das Chagas, que, avisado por certa pessoa não falasse tão acremente nos sermões da morte, porque se arriscava a ser desterrado, disse mui seguramente:
– Desterrar-me? Para onde? Quem não tem aqui pátria não pode ter daqui desterro.
O Primeiro-ministro iniciou uma série de acções de campanha que consiste em inaugurar primeiras pedras. Como uma vez me disse um ilustre socialista, cada obra devia ser inaugurada pelo menos três vezes, sendo que o recorde teria sido a navegabilidade do Douro, pelo que, se alguma destas obras andar para a frente, o que nem sempre é certo, ainda faltam duas. Mas o mais interessante nesta fileira de primeiras pedras, inauguradas em descampados ou superfícies de terra batida corridas pelo vento, é que elas são estranhas iniciativas a ter em vésperas de eleições. Tenho para mim que um governo deveria estar agora a inaugurar pedras últimas, obras acabadas, e não pedras primeiras, obras por fazer. Mas parece que não há nada para inaugurar, pelo que a sequência das pedras é inversa: em vez das últimas, colocam-se as primeiras. Sempre é mais fácil e engana.
ÍNDICE DO SITUACIONISMO (100): É SEMPRE INTERESSANTE VER COMO ELAS SE FAZEM
A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração. E, nalguns casos, de respiração assistida.
Isto foi escrito e publicado há seis dias (e, imagine-se, o cúmulo da heterodoxia, até reproduzido no site do PSD!) e pelos vistos só agora mereceu notícia no Diário de Notícias, amalgamando parte do seu conteúdo com outra nota no Jamais. Seis dias é um bocadinho lento, não é, ou será para coincidir com a entrevista de Manuela Ferreira Leite? A RTP mostrou um zelo igualmente especial (que espero que continue) e fez logo uma notícia a partir do jornal, nem se dando ao trabalho de ler o original. Também aqui, a coincidência com a entrevista de Manuela Ferreira Leite, certamente por acaso, é muito bem vinda.
Muito obrigado pela dedicação, e, nem que seja daqui a 100 anos, podem sempre citar-me que não faz mal, porque quando escrevo ou digo qualquer coisa, sei muito bem o que faço, as consequências do que digo e tenho mesmo uma ideia de como a comunicação social vai tratar da coisa. Já agora fica aqui o original integral, para quem queira perceber o contexto, que, presumo eu, ainda tem algum significado.
E SE NOS DEIXÁSSEMOS DE TRETAS... publicado por José Pacheco Pereira em 15 Ago 2009, às 11:35
…e se percebêssemos este simples, claro, meridiano facto de que ter mais quatro anos de governo PS - Sócrates é um desastre nacional, um desastre nacional que pode deixar o país estragado para muitos e muitos anos. E se percebêssemos este simples, claro, meridiano facto de que, nem que seja apenas para inverter algumas políticas perversas, que os socialistas irão continuar porque não sabem fazer doutra maneira até o país falir, sem imaginação, nem fôlego, nem dinheiro, já prestamos um grande serviço a Portugal.
Não há razões máximas, gloriosas, teoricamente atractivas, "ismos" perfeitos, não há equipas a reluzir de novo, saídas não se sabe bem donde, não há governos-maravilhas, mas apenas governos-possíveis, não há regenerações de varinha mágica? Talvez. Mas também não há milagres a aparecer pelas esquinas. Não estão cá os nossos amigos, não está cá a nossa tribo, estão cá alguns inimigos figadais? Paciência. Está quem está. E está o país, Portugal, que precisa bem mais da nossa vontade do que das nossas distracções.
Há erros, mesmo erros graves? Certamente que há. Tem que se engolir alguns sapos, para usar a terminologia culinário-diabólica que por aí anda? E depois? Também tive que engolir os meus, mas não me esqueço deste simples, meridiano, claro facto: de que o país está numa situação muito difícil e a mera inversão de algumas políticas que sabemos hipotecarem o futuro, já é um excelente resultado.
Não vos agrada a pessoa A e B, tirariam a pessoa A e B, entendem que A e B são prejudiciais ao partido e que foi um erro de Manuela Ferreira Leite tê-los lá colocado? Acham que eu também concordo, que também gosto, que eu não acho mal? Mas não me esqueço deste simples, claro, meridiano facto de que um novo governo Sócrates significaria um incremento da instabilidade social e um arrastar do país para um cada vez maior endividamento, até o dia em que se vão embora, sem sequer fechar a luz porque são desperdiçados, e deixam uma factura que só com muitos sacrifícios se pode cobrar. Ainda se vai a tempo de travar, depois será muito tarde e com um elevado preço a pagar pelos mais pobres e os que mais precisam. Que são também os que mais precisam de um Bom Governo, mesmo que não seja o Perfeito. Não gostam de Manuela Ferreira Leite? E depois, gostam mais de Sócrates?
Não há razões autárquicas que se sobreponham às nacionais que estão em jogo nas legislativas, não há razões intra-partidárias, questões, questiúnculas, amizades, inimizades, que possam servir de pretexto a que não se tenha em conta a frase de Sá Carneiro que fica bem nas paredes das sedes, mas que se esquece na primeira volta: é o país que está primeiro, e o partido só depois e subordinado ao primeiro. Estamos numa altura em que as mais mínimas das razões são também máximas, se nos desviarem a atenção do que é central em Setembro: mudar o governo, retirar o PS e José Sócrates do poder. No fundo é simples, claro, meridiano, até também é simplex.
*
Não é só o Diário de Notícias que só deu hoje conta do seu texto do sábado passado. Nas notícias de última hora do Público vem esta notícia, com a data de hoje (21 de Agosto) às 13:21. Repare que o texto começa por «Pacheco Pereira quebrou o silêncio sobre a controvérsia em torno das listas do PSD para as legislativas». Lá que quebrou o silêncio, quebrou, só que já há seis dias.
I heard the trailing garments of the Night Sweep through her marble halls! I saw her sable skirts all fringed with light From the celestial walls!
I felt her presence, by its spell of might, Stoop o'er me from above; The calm, majestic presence of the Night, As of the one I love.
I heard the sounds of sorrow and delight, The manifold, soft chimes, That fill the haunted chambers of the Night Like some old poet's rhymes.
From the cool cisterns of the midnight air My spirit drank repose; The fountain of perpetual peace flows there,-- From those deep cisterns flows.
O holy Night! from thee I learn to bear What man has borne before! Thou layest thy finger on the lips of Care, And they complain no more.
Peace! Peace! Orestes-like I breathe this prayer! Descend with broad-winged flight, The welcome, the thrice-prayed for, the most fair, The best-beloved Night!
ESCRITO JÁ HÁ ALGUM TEMPO MAS CADA VEZ MAIS ACTUAL (COM ACRESCENTO DE ALGUNS SUBLINHADOS)
Não sei se isto se pode dizer como se dizia do “socialismo real”: o “real” é muito mau, mas o socialismo é bom. Ou seja, os blogues são uma boa coisa, a blogosfera (política) está muito má. Má, intriguista, mesquinha, superficial, amiguista e revanchista, muito longe do país, que desconhece, muito longe da vida, que não vive, dominada por preocupações de carreira e sucesso, cheia dos vícios que tinha e tem o jornalismo, mais os das jotas. As excepções confirmam a regra, as vozes sensatas e limpas, sejam lá de que posição forem, de direita ou de esquerda, socialistas ou social-democratas, comunistas ou bloquistas, são cada vez menos, num ambiente dominado pela intriga e pela intriga intra-partidária. Hoje fazem-se blogues destinados a “colocar” pessoas sob a atenção dos partidos, e para “gerir carreiras” em base tribal, uma especialidade das jotas que antes era feita de forma mais rudimentar. Numa frase: os vícios das redacções e das jotas partidárias emigraram para os blogues políticos com imenso furor...
... e com grande complementaridade. Que aliás já há muito tinham, num contínuo entre políticos “a fazerem-se” no tradeoff mediático e jornalistas no jogo da promoção de grupos de amigos dentro e fora das redacções. A isso há que somar o crescente papel que agências de comunicação e de marketing têm na blogosfera e nas suas duas ramificações mais na moda, o Twitter e o Facebook, fazendo “propaganda viral”, fazendo circular boatos e “interpretações”, sugerindo escritas e incentivando amizades e ódios. Nada disto é novo, existia em qualquer café de província, incluindo em Lisboa. A diferença é que muita gente é iludida pela novidade tecnológica do meio e esquece-se de que, na Rede, se se mete lixo, sai lixo.
Ah! e convém não esquecer o trabalho dedicado e profissional de assessores governamentais que criam falsos blogues para disseminarem “análises”, boatos, informações escolhidas a dedo, dotados de arquivos e meios a que nenhum particular tem rápido acesso, como nenhum particular tem tempo para esse trabalho, 24 horas sem parar. E espero, espero mesmo, que não haja gente dos serviços de informação também nos combates blogosféricos, nas caixas de comentários, em blogues, usando todos os recursos e potencialidades da desinformação.
Isto pode parecer conspirativo, mas não é. Há muitos idiotas úteis nos blogues mas alguma gente sabe que é assim e que o segredo é a alma do negócio, porque, em muitos casos, é negócio mesmo. Mas o Muito Mentiroso, o primeiro blogue que fazia parte de uma operação de desinformação a pretexto do caso Casa Pia, deixou escola. E quem denuncia este “estado” da blogosfera política com clareza, ou seja, faz o exercício crítico que a blogosfera prometia nos seus inícios, é atacado por todos os lados. Se houvesse uma campainha como a que matava o Mandarim na longínqua China, haveria listas de espera para tilintar a sineta invisível. É sempre assim quando, mais do que uma selva de opiniões abertas, começa a existir uma selva de interesses disfarçados.
EARLY MORNING BLOGS 1618 - The Lake Isle of Innisfree
I will arise and go now, and go to Innisfree, And a small cabin build there, of clay and wattles made; Nine bean-rows will I have there, a hive for the honey-bee, And live alone in the bee-loud glade.
And I shall have some peace there, for peace comes dropping slow, Dropping from the veils of the morning to where the cricket sings; There midnight’s all a glimmer, and noon a purple glow, And evening full of the linnet’s wings.
I will arise and go now, for always night and day I hear lake water lapping with low sounds by the shore; While I stand on the roadway, or on the pavements grey, I hear it in the deep heart’s core.
(To JS/07/M/378/ This Marble Monument Is Erected by the State)
He was found by the Bureau of Statistics to be One against whom there was no official complaint, And all the reports on his conduct agree That, in the modern sense of an old-fashioned word, he was a saint, For in everything he did he served the Greater Community. Except for the War till the day he retired He worked in a factory and never got fired But satisfied his employers, Fudge Motors Inc. Yet he wasn't a scab or odd in his views, For his Union reports that he paid his dues, (Our report on his Union shows it was sound) And our Social Psychology workers found That he was popular with his mates and liked a drink. The Press are convinced that he bought a paper every day And that his reactions to advertisements were normal in every way. Policies taken out in his name prove that he was fully insured, And his Health-card shows he was once in hospital but left it cured. Both Producers Research and High-Grade Living declare He was fully sensible to the advantages of the Installment Plan And had everything necessary to the Modern Man, A phonograph, a radio, a car and a frigidaire. Our researchers into Public Opinion are content That he held the proper opinions for the time of year; When there was peace, he was for peace: when there was war, he went. He was married and added five children to the population, Which our Eugenist says was the right number for a parent of his generation. And our teachers report that he never interfered with their education. Was he free? Was he happy? The question is absurd: Had anything been wrong, we should certainly have heard.
A terra é abastada de pastos, e assim como cria o bom, cria o mau. E já ouvi dizer um grande homem que era dado às cousas do outro mundo, falando na povoação desta terra (que ainda que a vedes assim por partes metida a mato, é de pastores em muita maneira povoada) que esta era uma das maravilhas da natureza, de uma terra mesma nasceram duas tão contrárias uma à outra. E que isto não era só nas alimárias, mas nos homens: que não há maus senão onde há os bons, e não há ladrões senão onde há que furtar.