ABRUPTO

18.9.10

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ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE

 
Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

NESTES DIAS 



(José Carlos Santos)



 (Luiz Boavida)

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 EARLY MORNING BLOGS

1868

Old Jack raked the cinders together with a piece of cardboard and spread them judiciously over the whitening dome of coals. When the dome was thinly covered his face lapsed into darkness but, as he set himself to fan the fire again, his crouching shadow ascended the opposite wall and his face slowly reemerged into light. It was an old man's face, very bony and hairy. The moist blue eyes blinked at the fire and the moist mouth fell open at times, munching once or twice mechanically when it closed. When the cinders had caught he laid the piece of cardboard against the wall, sighed and said:


"That's better now, Mr. O'Connor."


Mr. O'Connor, a grey-haired young man, whose face was disfigured by many blotches and pimples, had just brought the tobacco for a cigarette into a shapely cylinder but when spoken to he undid his handiwork meditatively. Then he began to roll the tobacco again meditatively and after a moment's thought decided to lick the paper.


"Did Mr. Tierney say when he'd be back?" he asked in a sky falsetto.


"He didn't say."


Mr. O'Connor put his cigarette into his mouth and began search his pockets. He took out a pack of thin pasteboard cards.


"I'll get you a match," said the old man.


"Never mind, this'll do," said Mr. O'Connor.


He selected one of the cards and read what was printed on it:


MUNICIPAL ELECTIONS

(James Joyce)

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17.9.10


COISAS DA SÁBADO :TROPISMO PARA O ACESSÓRIO


Como estamos nestes “estreitos” tenebrosos da dívida, isto deve perturbar imenso a cabeça dos nossos marinheiros, porque perdemos o Norte, o Sul e mesmo o Nascente e o Poente, os dois pontos que basta olhar para o mar de manhã e ao fim da tarde para não oferecerem dúvida onde estão. A perturbação que nos assoma, espécie de fase muito alterada de doenças dormentes, é um forte tropismo para o acessório, como se houvesse um novo ponto cardeal que sugasse a nossa navegação para uma espécie de nada, um mar dentro mar, dentro do mar.

Apanhados com o provisório fim, - em Portugal todos os fins são provisórios, - de um processo crucial para perceber os últimos anos em Portugal, vulgarmente chamado de Casa Pia, em vez de olharmos para o cerne das coisas – alguém abusou sexualmente de um grupo de crianças institucionalizadas pelo estado e foi condenado por um tribunal legítimo – andamos distraídos com os azares informáticos da divulgação da sentença. É de facto muito mau, muito terceiro-mundista, todas estas peripécias da divulgação da sentença, mas não é o mais importante. Gente prudente teria pegado nos fragmentos da sentença, tirado cópias uma a uma, fotocopiado as cópias, montando um original, para dar aos advogados em papel: Mas nós quisemos ter sofisticações electrónicas na justiça, para que pelos vistos não temos nem a literacia, nem o software, nem o hardware. Agora substituir a análise do “caso” Casa Pia, quer na sua vertente judicial, quer na sua vertente social e política, pelas peripécias electrónicas da divulgação da sentença, ou é cortina de fumo deliberada, ou é este miserável tropismo para o acessório, em que somos especialistas. E lá vamos alegremente e com grande cópia de vozes para o mar, dentro mar, dentro do mar.

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ESPÍRITO DO TEMPO: NESTES DIAS
 
 
Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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 EARLY MORNING BLOGS

1867 - To Autumn

Season of mists and mellow fruitfulness,
Close bosom-friend of the maturing sun;
Conspiring with him how to load and bless
With fruit the vines that round the thatch-eves run;
To bend with apples the moss'd cottage-trees,
And fill all fruit with ripeness to the core;
To swell the gourd, and plump the hazel shells
With a sweet kernel; to set budding more,
And still more, later flowers for the bees,
Until they think warm days will never cease,
For summer has o'er-brimm'd their clammy cells.

Who hath not seen thee oft amid thy store?
Sometimes whoever seeks abroad may find
Thee sitting careless on a granary floor,
Thy hair soft-lifted by the winnowing wind;
Or on a half-reap'd furrow sound asleep,
Drowsed with the fume of poppies, while thy hook
Spares the next swath and all its twined flowers:
And sometimes like a gleaner thou dost keep
Steady thy laden head across a brook;
Or by a cider-press, with patient look,
Thou watchest the last oozings, hours by hours.

Where are the songs of Spring? Ay, where are they?
Think not of them, thou hast thy music too,--
While barred clouds bloom the soft-dying day,
And touch the stubble-plains with rosy hue;
Then in a wailful choir the small gnats mourn
Among the river sallows, borne aloft
Or sinking as the light wind lives or dies;
And full-grown lambs loud bleat from hilly bourn;
Hedge-crickets sing; and now with treble soft
The redbreast whistles from a garden-croft,
And gathering swallows twitter in the skies.

(John Keats)

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15.9.10


 EARLY MORNING BLOGS

1866 - Hino à Razão

Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre, só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.

Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre os clarões;
E os que olham o futuro e cismam, mudos,

Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos! 

(Antero de Quental)

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14.9.10


ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE 
 
Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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 EARLY MORNING BLOGS

1865

silence


.is
a
looking


bird:the


turn
ing;edge, of
life


(inquiry before snow 

(e.e. cummings)

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13.9.10

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ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE 
Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

NESTES DIAS


Festa do Avante! (Sandra Bernardo)

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 EARLY MORNING BLOGS

1864

The impenetrable stupidity of Prince George  served his turn. It was his habit, when any news was told him, to exclaim, "Est il possible?"--"Is it possible?"

(Thomas Macaulay)

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12.9.10


ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE 
 
 
Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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O QUE TEM QUE SER TEM MUITA FORÇA

Em teoria quase tudo é possível. Na prática, quase nada é possível, sem enormes consequências. É o retrato de um país cuja dependência do exterior levou a uma situação de efectiva perda de soberania, com efeitos devastadores na independência do nosso povo, do nosso Parlamento, dos nossos partidos. Quem não compreende esta situação não compreende o que se passa hoje na vida política portuguesa.

Melhor exemplo da enorme anomia que atingiu a vida política, um sinal poderoso de impotência, é a indiferença com que se reagiu (com a excepção de Manuel Alegre e do PCP) às propostas de um droit de regard, na prática de um direito de veto, sobre o Orçamento do Estado que era português. Só esse facto mostra como, para muitos portugueses e, em particular, para muitos políticos, se torna indiferente que uma instituição supranacional - que sabemos nesta matéria ser mais alemã do que supranacional - se substitua ao Parlamento português na função que está na essência da sua existência: decidir sobre o Orçamento. Como, aliás, se tornou também vulgar que representantes de uma agência de rating tenham assistido a uma sessão do Parlamento, lembrando pela sua presença que as decisões que estão ali a ser tomadas serão tidas em conta na avaliação de Portugal, e os enormes custos dessa avaliação irão pesar sobre toda a vida portuguesa. Cá em baixo os deputados e as suas direcções pensam duas vezes no que vão dizer e isto é uma tragédia para a autonomia da política e a sua capacidade de ser "portuguesa", mesmo residualmente.

Claro que a culpa é nossa, a culpa é de governos que andaram inconscientemente a gastar de mais com dinheiro emprestado, e, por muito que isto custe a muita gente que preferiria ser salomónica para parecer estar acima dos partidos, em particular o descalabro dos últimos anos em que a dívida disparou sem poder ser disfarçada estatisticamente, como é costume. Muitos tem culpa, mas alguns têm muito mais culpa, em particular aqueles que podiam e deviam ter-se apercebido a tempo que era necessário travar este caminho. Houve quem prevenisse, mas eram "velhos do Restelo". O primeiro-ministro nada fez para poder manter um discurso de optimismo bacoco, cujo centro era a desresponsabilização própria e a arrogância de quem se achava estar entre os melhores governantes do mundo até que uma crise mais ou menos conspirativa lhe caiu na cabeça. Até Obama o copiava e foi o que se viu.


Não se trata de qualquer nacionalismo ou sequer anti europeísmo primário. Não me sobram dúvidas que muitos aspectos da crise têm que ser combatidos a nível europeu. A minha dúvida está em saber até que ponto esse combate se faz pela conjuntura, ou se se é capaz de ir mais longe na percepção de que a crise de 2008 se manifestou na Europa por cima de muitos problemas estruturais que os governantes europeus têm cuidadosamente evitado defrontar: os custos incomportáveis do "modelo social europeu", que deu riqueza a duas gerações de europeus, mas que ameaça dar pobreza às seguintes; a perda de competitividade europeia face à globalização; a decadência de muitas instituições que estiveram na base do progresso europeu, como as universidades e centros de investigação; as dificuldades de a Europa servir de melting pot, como os EUA, para as suas populações imigrantes, em particular aquelas que, por razões religiosas e culturais, são mais distantes do padrão de vida laica das sociedades europeias, etc., etc. Uma Europa que gastou muito do seu orçamento a manter uma agricultura subsidiada para uma pequena parte da sua população, mostrou o peso dos interesses nacionais incrustados, que eram o outro lado do "motor franco-alemão".

O caminho europeu dos últimos anos tem sido errado e os resultados desse erros estão à vista, sem ninguém os querer ver. Apostando num upgrade político artificial da Europa, que só mobilizava governantes e "forças vivas", mas que era visto com desconfiança pelos povos, de tal modo que só foi possível de fazer nas costas dos europeus, acabou-se por reforçar o nacionalismo e o poder de facto de alguns Estados: aqueles cuja economia mostra mais pujança e que têm os cordões da bolsa, ou seja, a Alemanha. Os gregos tiveram essa árdua lição, seguidos dos portugueses, espanhóis, italianos e irlandeses. Todos estão mal, mas numa coisa nós estamos muito pior: devemos muito, ninguém acredita que paguemos as dívidas e de mês a mês precisamos de pedir dinheiro, cujo preço é cada vez mais caro.

É verdade que desde o início deste ano a realidade da perda de soberania, ou de uma maior perda de soberania, é um facto e não data da conversa sobre o direito de vetar os orçamentos. A sucessão dos PEC, o seguinte sempre mais duro que o anterior, só se deveu a exigências do exterior e à ameaça do nosso Estado e dos nossos bancos não poderem obter o financiamento que precisavam desesperadamente. Desesperadamente é a palavra.

Ora esta situação brutal e sem disfarces, mais as suas consequências recessivas, no desemprego, no empobrecimento dos portugueses, devia ser o centro do debate político português e não é. Com dois partidos, PS e PSD, completamente subordinados a uma lógica mediática, e com uma comunicação social muito contente com a "produção" de eventos, desafios, ultimatos, "arrasamentos", prazos terminais, ameaças e contra-ameaças, a política soma-se ao futebol, mais o ocasional acidente, para facilitar a vida das redacções e permitir a "narrativa" espectacular de entretém que nos distrai da realidade. O domínio da coreografia é total, ocasionalmente interrompido por um pico de realidade que obriga a mais um PEC qualquer, mas, no dia-a-dia, o alheamento dos agentes políticos dos problemas reais do país chega a ser afrontoso. O efeito é dar da política portuguesa um espectáculo de irrealidade e distância que traduz não só defeitos antigos, que se acentuaram geracionalmente, como seja o fascínio de "viver pela imprensa", mas é também um efectivo espectáculo de impotência.

Ambos os partidos alternantes estão tão metidos nesta coreografia que parecem não conseguir fazer outra coisa a não ser trocar passos de dança. O PS tem dois planos: o A é manter-se no poder quanto tempo puder até que mude o clima económico ou haja um milagre; o plano B é ir a eleições, com toda a agressividade possível, se o PSD lhe der o pretexto de se apresentar como vítima de alguma "irresponsabilidade". O trauma de uma crise política que provoque a queda do Governo dá-lhe sempre vantagem, por isso têm plano A e B e nós percebemos com relativa transparência o que querem.

O caso é do PSD é mais complicado, porque não se percebe muito bem se existe uma estratégia e qual é ela, ou se se vive só do sucesso das manchetes e das sondagens do dia seguinte. Os actuais dirigentes do PSD queriam votar contra o PEC1, que acabou por passar com a abstenção do partido contra sua vontade. Depois, não só votaram a favor do PEC2, como se comprometeram ao mais alto nível com ele, tornando-o um acto de quase co-gestão governamental. Agora ameaçam não votar o Orçamento e apelaram ao Presidente para dissolver a Assembleia até ao último dia em que o podia fazer. Como a situação económica e financeira face ao exterior, que justificou a abstenção no PEC1 e a corresponsabilização no PEC2, não se alterou (até se agravou no que diz respeito à dívida), só pode haver uma razão para abrir uma crise política que derrube ou leve à demissão do Governo: considerar-se que este é hoje (como não o era há poucos meses) um factor de tão grande prejuízo nacional que derrubá-lo vale o preço de uma crise política gravosa internacionalmente para Portugal.

É um ponto de vista legítimo e, se for claramente explicado, pode dar consistência à política do PSD, mas não basta justificá-lo por aspectos do Orçamento, tem que se ir mais longe. Em particular, tem que se explicar aos portugueses a ponderação entre as vantagens de uma crise governativa e novas eleições só possíveis daqui a muitos meses, e as consequências na precária posição da dívida portuguesa. Se tudo isto for explicado com clareza, a política do PSD ganhará sentido e parecerá menos errática do que é hoje. Mas é um caminho muito duro e arriscado e está muito para além de obter bons títulos e editoriais no dia seguinte, e não dá boas sondagens, que premiaram até agora o consenso e o entendimento com o Governo, não a ruptura.

Há sempre outra alternativa para todos. Manter a coreografia, com entradas de leão e saídas de sendeiro, o que é sempre um bom espectáculo, o Governo fazendo de conta que governa, a oposição fazendo de conta que é oposição e, de tempos a tempos, rangendo os dentes, fazer o que as agências de rating e a Alemanha querem que nós façamos, esperando por melhores dias. O que tem que ser tem muita força.

(Versão do Público de 11 de Setembro de 2010.)

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 EARLY MORNING BLOGS

1863

Nuvens.
Posso agora descansar
de olhar para a Lua.

(Basho)

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© José Pacheco Pereira
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