ABRUPTO

19.5.06


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)
(19 de Maio de 2006)



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A ler: LIBERDADE E UTOPIA no Kontratempos.

*

A pergunta

O QUE É QUE ACONTECEU AO INQUÉRITO "URGENTE" PARA SABER COMO É QUE LISTAS DE TELEFONES E TELEFONEMAS DE ALTAS INDIVIDUALIDADES DO ESTADO FORAM PARAR AO "ENVELOPE 9" DO PROCESSO CASA PIA?


tem pés para andar, porque é uma exigência cívica. Hoje Eduardo Prado Coelho retoma-a no Público:
"Acontece que o mundo mediático tem uma regra (que vai contaminando as diversas áreas da nossa existência): pega num tema, explora-o até à exaustão e depois esquece-o e passa a outro para evitar a saturação dos leitores. E as coisas desaparecem na voragem da memória. E há quem se aproveite destas coisas para continuar a sobreviver na nossa vida pública. Neste caso, estamos perante um verdadeiro escândalo."
*

Mário Crespo na SICN fez a melhor entrevista a Carrilho até agora realizada sobre o seu livro. Com um interlocutor difícil, sem nunca ultrapassar a condição de entrevistador, tendo estudado a matéria e sem preconceitos corporativos, fez perguntas certeiras para as quais não houve resposta cabal. E tirou do livro de José Gil uma interpretação certa, que um filósofo como Carrilho, que também cita Gil a propósito da inveja, perceberá que se lhe aplica. Onde, no seu livro, está "inscrita" a derrota eleitoral de Lisboa?

Cito da entrevista de Gil ao Público, a parte relevante:
P. — É aquilo a que chama "não inscrição". Que significa?

R. — Significa que os acontecimentos não influenciam a nossa vida, é como se não acontecessem. Por exemplo, quando uma pessoa ama, esse sentimento não afectar a outra pessoa, objecto do amor. Quando acabamos de ver um espectáculo, não falarmos sobre ele. Quando muito, dizemos que gostámos ou não gostámos, mais nada. Não tem nenhum efeito nas nossas vidas, não se inscreve nelas, não as transforma. Ainda outro exemplo: o primeiro-ministro, Santana Lopes, classificou a dissolução da Assembleia da República pelo Presidente como "enigmática". Não disse que era incorrecta ou injusta, mas "enigmática", o que é a forma mais eficaz de a transformar em não-acontecimento.

P. — E, não tendo acontecido, ninguém é responsável.

R. — Exactamente. Pode-se continuar como se nada se tivesse passado. Os acontecimentos não se inscrevem em nós, nem nas nossas vidas, nem nós nos inscrevemos na História. Por isso, em Portugal nada acontece.

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DEZ QUADROS FAUVE NA GALERIA NACIONAL HÚNGARA:

8. MULHER TOCANDO VIOLONCELO (ROBERT BERÉNY)



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EARLY MORNING BLOGS 779

Before The World Was Made


If I make the lashes dark
And the eyes more bright
And the lips more scarlet,
Or ask if all be right
From mirror after mirror,
No vanity’s displayed:
I’m looking for the face I had
Before the world was made.

What if I look upon a man
As though on my beloved,
And my blood be cold the while
And my heart unmoved?
Why should he think me cruel
Or that he is betrayed?
I’d have him love the thing that was
Before the world was made.


(William Butler Yeats)

*

Bom dia!

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18.5.06


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)
(18 de Maio de 2006)



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Com pés para andar: as "micro-causas", uma invenção cá da casa, tem no Miniscente uma primeira análise substantiva.

And now for something completely different:

O QUE É QUE ACONTECEU AO INQUÉRITO "URGENTE" PARA SABER COMO É QUE LISTAS DE TELEFONES E TELEFONEMAS DE ALTAS INDIVIDUALIDADES DO ESTADO FORAM PARAR AO "ENVELOPE 9" DO PROCESSO CASA PIA?

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A VITÓRIA PÓSTUMA DO XVI GOVERNO CONSTITUCIONAL

Hoje, muita gente que deu o chamado "benefício da dúvida", ou até bem mais do que isso, ao dr. Lopes, abomina-o com vigor... e sem memória. Eu, que nunca lhe dei esse benefício, estou à vontade para ver o pano de fundo em que ele cresceu, e por breves momentos venceu, e perceber que esse pano de fundo está cá bem mais ancorado do que parece. A personagem que o simbolizava "anda por aí", mas o mundo que o criou está bem mais "por aqui" do que muitos querem ver.
http://multimedia.iol.pt/oratvi/multimedia/imagem/id/173761/220
Os sinais desse Portugal estão à vista todos os dias mostrando como só para os outros, para outro Portugal, é que existe a realidade da crise, dos despedimentos, das dificuldades económicas, da perda do poder de compra e da quebra das expectativas. Já sabemos que a indústria das férias tropicais está de vento em popa, como uma breve visita ao aeroporto de Lisboa revela, com as pequenas multidões que partem pálidas e regressam coloridas e com chapéus, sandálias e modismos brasileiros, mexicanos, dominicanos e cubanos. Já sabemos que, ponte sobre ponte, o Algarve se enche de gente com carro e famílias, entupindo as estradas, consumindo uma gasolina que é suposto estar cara, mas que nunca esmoreceu as centenas de quilómetros em direcção ao Sul. Já sabemos que o novo Casino, pérola da governação lisboeta, mil vezes mais eficaz na sua capacidade de existir do que as contrapartidas que foram prometidas para a sua autorização, está cheio de povo, do povo de todas as classes A, B e C, na classificação do marketing. E o povo desloca-se alegre e feliz para os "bandidos com um só braço" que funcionam barato e rápido, deglutindo milhares de moedas, como se elas não faltassem a montante e jusante do Casino. É a "retoma", e quem tinha razão foi quem a anunciou. Lá voltamos ao chefe do XVI Governo Constitucional e à sua omnisciência. Todos estes portugueses nunca passaram pela "toma", estão sempre na "retoma", e folgam como é sua condição.
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Mas a vitória póstuma do XVI Governo Constitucional não se limita a ser económico-social, é também cultural. Já dou de barato o futebol, essa "paixão" nacional que tudo faz parar e que tão do agrado era do chefe do XVI Governo Constitucional, ele próprio dirigente e comentador desportivo. Ele sentir-se-á bem com a glória anunciada do escapismo futebolístico, que nos vai encher as casas nos próximos meses, com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. O Governo, qualquer governo, agradece imenso que haja muito futebol e municia a televisão pública de abundantes fundos para nos encher o ecrã (por falar nisso, já comprou o seu ecrã plano gigante para ver os jogos do Mundial?). Mais vale ver futebol do que pensar no "estado da nação".

Depois há o novo Campo Pequeno, cuja inauguração teve honras de grande espectáculo levado ao país todo pela televisão pública. Se deixássemos o lazer e os brinquedos tecnológicos, podia ser a televisão de Salazar e Caetano a fazer aquela festa. Melhor: podia ser a sociedade do salazarismo a fazer aquela festa. Touros e o mundo dos touros, banda filarmónica tipo Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 de Alcochete (sem desprimor para esta, justa vencedora do 1.º lugar na categoria de Tauromaquia no Concurso de Bandas do Ateneu Vila-franquense), sevilhanas e fados marialvo-toureiro-taurinos, e até o pobre do Lorca, que mais uma vez morreu às cinco em ponto da tarde às mãos de Simone de Oliveira.
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O jet set que se acotovelava para ser entrevistado pela RTP também frequentava os salões do XVI Governo Constitucional. Era o seu mundo "cultural", personificado numa das mais entusiastas e filmadas figuras da bancada da Praça de Touros, Cinha Jardim. Tudo aquilo não foi um vulgar espectáculo, como nos explicavam os entrevistados, mas uma recriação do "Portugal tradicional", mito perdido numas brumas longínquas recuperadas pelos fumos de palco. Como eu sou do Porto, onde não há touros, o único fadista conhecido era o Neca Rafael e o único fado popular era o "já estás com os copos", não me lembro desta "tradição" assim tão portuguesa, mas percebo muito bem o que é que nos querem dizer.

Este mundo tradicional é modernizado para os dias de hoje, pelo espectáculo, em particular por vidas vividas como um reality show. Por isso mesmo, outra vingança póstuma do chefe do XVI Governo Constitucional foi ver uma das suas Némesis, Manuel Maria Carrilho - Némesis idêntica porque ambos fizeram a mesma "política cultural" moldada em Jacques Lang, só que com clientelas distintas -, a não perceber que o mundo lá fora tem ruído e que a imensa imagem que temos de nós próprios não o transforma em espelho. O dr. Lopes viu-se assim com alguém a seguir a sua escola de pensamento sobre a correlação entre derrotas eleitorais e conspirações comunicacionais.
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De facto, só a nossa curtíssima memória cívica nos impediu de ver até que ponto é mimético o livro do dr. Carrilho das queixas plangentes do dr. Santana Lopes. O chefe do XVI Governo Constitucional também era lesto em referir conspirações contra ele. Também ele declarou que havia agências de comunicação que eram pagas para o denegrir, assim como nomeava os jornalistas que, por cartão de partido ou conjugalidade, participavam no universal ataque de que se sentia vítima. O mesmo denunciou dezenas de conspirações equivalentes às do vídeo com o pequeno Diniz, desde a fotografia com a banda na cabeça, "fora do contexto", até às peripécias de uma sesta, ou da incompatibilidade da agenda do jet set com a agenda oficial. E não foi ele que ameaçou processar empresas de sondagens porque lhe prometiam resultados eleitorais negativos?

Exemplos absolutamente idênticos abundam. A única diferença é que o chefe do XVI Governo Constitucional nunca gozou da complacência com que o dr. Carrilho é recebido, muito para além da substância igualmente autista do seu livro, com artigos que lhe louvam a "coragem" da denúncia e respeitáveis professores de comunicação a levá-lo a sério, quando nada, insisto nada, é diferente na mecânica do seu livro com as elucubrações do "menino guerreiro".

Ambos demonstram a veracidade do ditado: "Se vives pela imprensa, morres pela imprensa." Quer um quer outro brincaram com um fogo perigoso, o da exposição pública com fins promocionais, ou seja, em política, eleitorais. A vaidade de aparecer corroeu-lhes o ser e, se em Carrilho isso é mais devastador devido à sua indiscutível obra intelectual, iguala-o a Lopes no produto final.

A vitória póstuma do XVI Governo Constitucional ao ver florescer o seu mundo em pleno socialismo não é um epifenómeno. O mesmo Portugal que o fez, desfê-lo como uma personagem do Purgatório de Dante dizia: "Siena mi fé, disfecemi Maremma." Mas desfê-lo para o recriar, desfê-lo porque havia uma eficácia que ele não lhe trazia nem podia trazer: o cenário politicamente mais correcto para o Portugal do dr. Lopes é o de um socialismo manso, que pague o custo retórico do "social" dos pobres, mas que deixe brilhar esse outro "social", o da nossa pobre classe média deslumbrada com expectativas mais caras do que as pode pagar. Foi já assim em Espanha, com Felipe González e os seus novos-ricos. A história é sempre irónica, quando não é trágica.

(No Público de hoje.)

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TER UM PENSAMENTO DE ESTADO SOBRE O ESTADO

é o que manifestamente o PS não tem. A proposta para restringir drasticamente a possibilidade de suspensão do mandato dos deputados é mais uma medida ad hoc, pontual, desirmanada, demagógica e que nada tem a ver com qualquer problema sério do Parlamento. Segue a linha autopunitiva e desqualificadora de muitas outras medidas, igualmente pontuais e demagógicas, tomadas nos últimos anos e completamente inúteis porque atiram ao lado. Teria sido muito mais útil e prestigiante se, de uma vez por todas, se acabasse com a efectiva promiscuidade de alguma grande advocacia, ao mesmo tempo participante num orgão de fiscalização do Estado e clientelar desse mesmo Estado, mas sobre isso impediu que alguma coisa se fizesse. Mais um passo na degradação do Parlamento.


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BIBLIOFILIA: AMERICANA

http://www.scoop.co.nz/stories/images/0603/8664bcc8c57fba94d38f.jpeg http://www.longitudebooks.com/images/book_large/NYC28.jpg

Kevin Phillips, American Theocracy : The Peril and Politics of Radical Religion, Oil, and Borrowed Money in the 21stCentury

E.B. White, Here is New York

Michael R. Gordon / Bernard E. Trainor, Cobra II : The Inside Story of the Invasion and Occupation of Iraq

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EARLY MORNING BLOGS 778

Encostei-me


Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos,
E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.
A minha vida passada misturou-se com a futura,
E houve no meio um ruído do salão de fumo,
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.

Ah, balouçado
Na sensação das ondas,
Ah, embalado
Na idéia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã,
De pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas,
De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.

Ah, afundado
Num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono,
Irrequieto tão sossegadamente,
Tão análogo de repente à criança que fui outrora
Quando brincava na quinta e não sabia álgebra,
Nem as outras álgebras com x e y's de sentimento.

Ah, todo eu anseio
Por esse momento sem importância nenhuma
Na minha vida,
Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos —
Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma,
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem inteligência para o
compreender
E havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro.


(Álvaro de Campos)

*

Bom dia!

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17.5.06


RETRATOS DE UM MUNDO LITERÁRIO ANTIGO

Luiz Pacheco , Cartas ao Léu. Vinte e duas cartas de Luiz Pacheco a João Carlos Raposo Nunes, Organização e notas de António Cândido Franco, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2005



As cartas de Pacheco não têm interesse quase nenhum, mas as notas de António Cândido Franco valem o livro. Elas são o retrato de um certo mundo literário marginal, que existia nas franjas dos autores e editores mais estabelecidos. Em muitas destas notas, ainda se vai mais longe no recenseamento quase erudito da marginalidade, sai-se da Cervejaria Trindade e da Brasileira do Chiado para a província, Setúbal. Este mundo não era parco em deixar traços por todo o lado, livros de autor, brochuras, manifestos, artigos mendigados nos suplementos literários que já desapareceram. Aqueles que por lá andavam queriam ser ouvidos, tinham pouca ironia sobre a sua voz, tomavam-se a sério, atravessavam muitas dificuldades económicas para pagar do seu bolso uma edição, ficavam a dever dinheiro a toda a gente (uma especialidade sobre a qual Pacheco muito escreve), alguns tiveram fim trágico. Sem muito do que Pacheco escreveu e sem trabalhos como o de António Cândido Franco, estariam ainda mais esquecidos do que o que estão. Hoje são uma espécie morta, sem livros como este, nem se sabia deles.

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DEZ QUADROS FAUVE NA GALERIA NACIONAL HÚNGARA:

7. IGREJA EM NAGYBÁNYA (LAJOS TIHANYI)


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LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)
(17 de Maio de 2006)


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Fotografia como saber: a "arquitectura da densidade" de Michael Wolf.

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: A MÁQUINA DO MUNDO

A vista from Cassini, showing moons and the rings

Vistos pela sonda Cassini, o pequeno Epimeteu, o grande Titã e os anéis que anunciam o gigante Saturno.

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EARLY MORNING BLOGS 777

A Man Said to the Universe


A man said to the universe:
"Sir I exist!"
"However," replied the universe,
"The fact has not created in me
A sense of obligation."


(Stephen Crane)

*

Bom dia!

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16.5.06


CRISE? DESPEDIMENTOS? DEPRESSÃO?

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Qual quê! Jogo no Casino, futebol por todo o lado, fado e touros. Parece o Titanic com a orquestra a tocar.

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DEZ QUADROS FAUVE NA GALERIA NACIONAL HÚNGARA:

6. INTERIOR (SÁNDOR GALIMBERTI)


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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: POLÍTICA FISCAL
(RÉPLICA DE ANTÓNIO LOBO XAVIER A MANUEL ANSELMO TORRES)



[Na sequência de LENDO / VENDO /OUVINDO (11 de Maio de 2006) e O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: IMPOSTOS E DEMAGOGIA. ]

Desculpem-me os leitores do abrupto por voltar ao tema entediante da política fiscal, mas o Manuel Anselmo Torres merece-me muita consideração, pelo que não pode ficar sem réplica, enquanto o José Pacheco Pereira não me expulsar.

1 – Nem de longe nem de perto pretendi sustentar dogmaticamente – como poderia fazê-lo? – a inevitabilidade da isenção das mais-valias para efeitos de IRS. É claro que a progressividade das taxas de um imposto sobre as pessoas físicas é compatível com a tributação dos ganhos fortuitos: o problema consiste justamente em saber se se justifica que estes últimos recebam naquele um tratamento especial, em homenagem à sua particular natureza. A comissão da reforma fiscal, em 1988, optou por responder afirmativamente a esta questão, em nome de algumas das referências que escrevi no primeiro post (está no preâmbulo do Código).

2- Lamento, mas não é verdade que o efeito de restrição da venda (lock-in) só se verifique quando a tributação das mais-valias é mais gravosa do que a que corresponde aos restantes rendimentos. Em face de um imposto progressivo e admitindo que o aumento do valor de um certo bem se formou ao longo de vários anos, é óbvio que a tributação da mais-valia no momento da respectiva realização tenderá a ser mais gravosa do que na hipótese em que se pudesse tributar uma fracção em cada ano (efeito de bunching). Em face desta circunstância, admite-se que o proprietário do bem possa prolongar a sua detenção – especialmente quando o sistema também isenta as transmissões por morte, em certos casos -, com o que se introduz uma distorção fiscal à circulação da propriedade. Trata-se de um efeito teórico? Provavelmente, mas era nesse exacto plano que me colocava quando escrevi.

3 – O facto de não se admitir a comunicação de perdas, para efeitos de IRS, entre as diversas categorias do imposto, não justifica que se isente uma categoria? Claro que não justifica. O que eu criticava era justamente os que, no discurso político, advogam a unidade do imposto só quando isso significa agravamento da tributação do capital, esquecendo os movimentos em sentido inverso que a mesma unidade igualmente reclama.

4 – Ao contrário do que o Manuel Anselmo Torres escreve, há dupla tributação económica – porque não se integra completamente a tributação das pessoas e das sociedades - quando eu tributo o lucro da sociedade e a mais-valia realizada pelo accionista. A manifestação de riqueza subjacente é a mesma, e é com esse motivo que alguns países (Canadá, v.g.) justificam expressamente o seu próprio regime de isenção de mais-valias relativo à venda de participações sociais. Não sou eu que o digo, mas “pessoas que sabem muito mais do que eu” - não, não vou fazer citações, resisto a essa presunção -, justamente como uma consequência do princípio da unidade da tributação do rendimento (e da ideia de que a tributação das sociedades constitui apenas uma espécie de retenção na fonte relativamente à tributação das pessoas). É claro, cada sistema sabe os níveis de dupla tributação com que consegue viver…

5 – Admitir a dedução dos encargos financeiros com uma aquisição (OPA) é permitir a erosão da base tributável? Eu chamo a isso permitir a tributação de acordo com o rendimento real. A diferença é muito grande, muito maior do que todas as que se encontram acima. Estamos frequentemente de acordo com muitas coisas, não há mal nenhum em que não seja com tudo.

(ANTÓNIO LOBO XAVIER)

*
Prometendo ao António Lobo Xavier aprofundar o debate em próxima ocasião sem tomar reféns os leitores do abruto, diria apenas que não discordamos tanto quanto possa parecer... mas não há tema político mais traiçoeiro que o fiscal.

(Manuel Anselmo Torres)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
RÉPLICA DE ANTÓNIO LOBO XAVIER A MANUEL ANSELMO TORRES SOBRE POLÍTICA FISCAL




[Na sequência de LENDO / VENDO /OUVINDO (11 de Maio de 2006) e O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: IMPOSTOS E DEMAGOGIA. ]

Desculpem-me os leitores do abrupto por voltar ao tema entediante da política fiscal, mas o Manuel Anselmo Torres merece-me muita consideração, pelo que não pode ficar sem réplica, enquanto o José Pacheco Pereira não me expulsar.

1 – Nem de longe nem de perto pretendi sustentar dogmaticamente – como poderia fazê-lo? – a inevitabilidade da isenção das mais-valias para efeitos de IRS. É claro que a progressividade das taxas de um imposto sobre as pessoas físicas é compatível com a tributação dos ganhos fortuitos: o problema consiste justamente em saber se se justifica que estes últimos recebam naquele um tratamento especial, em homenagem à sua particular natureza. A comissão da reforma fiscal, em 1988, optou por responder afirmativamente a esta questão, em nome de algumas das referências que escrevi no primeiro post (está no preâmbulo do Código).

2- Lamento, mas não é verdade que o efeito de restrição da venda (lock-in) só se verifique quando a tributação das mais-valias é mais gravosa do que a que corresponde aos restantes rendimentos. Em face de um imposto progressivo e admitindo que o aumento do valor de um certo bem se formou ao longo de vários anos, é óbvio que a tributação da mais-valia no momento da respectiva realização tenderá a ser mais gravosa do que na hipótese em que se pudesse tributar uma fracção em cada ano (efeito de bunching). Em face desta circunstância, admite-se que o proprietário do bem possa prolongar a sua detenção – especialmente quando o sistema também isenta as transmissões por morte, em certos casos -, com o que se introduz uma distorção fiscal à circulação da propriedade. Trata-se de um efeito teórico? Provavelmente, mas era nesse exacto plano que me colocava quando escrevi.

3 – O facto de não se admitir a comunicação de perdas, para efeitos de IRS, entre as diversas categorias do imposto, não justifica que se isente uma categoria? Claro que não justifica. O que eu criticava era justamente os que, no discurso político, advogam a unidade do imposto só quando isso significa agravamento da tributação do capital, esquecendo os movimentos em sentido inverso que a mesma unidade igualmente reclama.

4 – Ao contrário do que o Manuel Anselmo Torres escreve, há dupla tributação económica – porque não se integra completamente a tributação das pessoas e das sociedades - quando eu tributo o lucro da sociedade e a mais-valia realizada pelo accionista. A manifestação de riqueza subjacente é a mesma, e é com esse motivo que alguns países (Canadá, v.g.) justificam expressamente o seu próprio regime de isenção de mais-valias relativo à venda de participações sociais. Não sou eu que o digo, mas “pessoas que sabem muito mais do que eu” - não, não vou fazer citações, resisto a essa presunção -, justamente como uma consequência do princípio da unidade da tributação do rendimento (e da ideia de que a tributação das sociedades constitui apenas uma espécie de retenção na fonte relativamente à tributação das pessoas). É claro, cada sistema sabe os níveis de dupla tributação com que consegue viver…

5 – Admitir a dedução dos encargos financeiros com uma aquisição (OPA) é permitir a erosão da base tributável? Eu chamo a isso permitir a tributação de acordo com o rendimento real. A diferença é muito grande, muito maior do que todas as que se encontram acima. Estamos frequentemente de acordo com muitas coisas, não há mal nenhum em que não seja com tudo.

ANTÓNIO LOBO XAVIER

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15.5.06


O QUE É QUE ACONTECEU AO INQUÉRITO "URGENTE" PARA SABER COMO É QUE LISTAS DE TELEFONES E TELEFONEMAS DE ALTAS INDIVIDUALIDADES DO ESTADO FORAM PARAR AO "ENVELOPE 9" DO PROCESSO CASA PIA?


É que, por muito que se esteja habituado ao esquecimento de tudo, a "urgência" foi um pedido expresso e público do Presidente da República, reiterado pelo Procurador Geral da República, e, tantos meses depois, não há resultados, nada se sabe, não há uma explicação, um esclarecimento, nada. É um pouco afrontoso para o Presidente da República, ou não é? E não é muito afrontoso para todos os que exigem em termos de cidadania mínima, um esclarecimento? É. Ou há uma gigantesca conspiração à volta do envelope, que exige meses e meses de trabalho investigatório, ou então ninguém percebe a complexidade e a demora em saber uma simples coisa que deve ter deixado um rasto de papel atrás.


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BIBLIOFILIAS: CENTROS E LESTES 3

http://www.britishbookshop.at/shop/images/products/thumbs/thm_01-22-96-00-90-00_1.jpg http://www.ihrc.umn.edu/news/Graphics/atlas.jpg

Paul Lendvai, Hungarians

Paul Magocsi, Historical Atlas of Central Europe

Poucos livros são por si só tão elucidativos do que é a "Europa Central", como esta rigorosa colecção de mapas comentados. Não é preciso ler, basta olhar. Olhando para os mapas percebe-se a maldição da geografia e todo o sentido do ditado polaco: "trocamos a nossa gloriosa história por uma melhor geografia". Para não ir mais longe do que o século XX, alguns dos mapas, como o das deslocações de populações no último ano da II Guerra, revelam a enorme tragédia dos povos do Centro e do Leste da Europa, assim como o "empurrar" das fronteiras dos países para o Ocidente pelo Exército Vermelho. A descentração étnica, linguística, cultural, e religiosa significa toda uma "história" por resolver (por exemplo, a importante população que fala húngaro e que ficou na Roménia, como se vê no mapa da "distribuição etnolinguística por volta de 1900").

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LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)
(15 de Maio de 2006)


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Numa rua de Pécs, Hungria. Uma linguagem quase universal: a dos graffiti. Espero que não seja uma obscenidade.


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EARLY MORNING BLOGS 776

Fragmento de "Irony Is Not Enough: Essay On My Life as Catherine Deneuve (2nd draft)" de MEN IN THE OFF HOURS


saison qui chante saison rapide

je commence

Beginnings are hard. Sappho put it simply. Speaking of a young girl Sappho said, You burn me. Deneuve usually begins with herself and a girl together in a hotel room. This is mental. Meanwhile the body persists. Sweater buttoned almost to the neck, she sits at the head of the seminar table expounding aspects of Athenian monetary reform. It was Solon who introduced into Athens a coinage which had a forced currency. Citizens had to accept issues called drachmas, didrachmas, obols, etc. although these did not contain silver of that value. Token coinages. Money that lies about itself. Seminar students are writing everything down carefully, one is asleep, Deneuve continues to talk about money and surfaces. Little blues, little whites, little hotel taffetas. This is mental. Bell rings to mark the end of class. He has a foreskin but for fear of wearing it out he uses another man's when he copulates, is what Solon's enemies liked to say of him, Deneuve concludes. Fiscal metaphor. She buttons her top button and the seminar is over.

(Anne Carson)

*

Bom dia!

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14.5.06


DEZ QUADROS FAUVE NA GALERIA NACIONAL HÚNGARA:

5. NATUREZA MORTA (GÉZA BORNEMISZA)


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RETRATOS DO TRABALHO NO DOURO, PORTUGAL


Colocando esteios numa nova vinha

(Gil Regueiro)

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EARLY MORNING BLOGS 775

The little lives of earth and form


The little lives of earth and form,
Of finding food, and keeping warm,
Are not like ours, and yet
A kinship lingers nonetheless:
We hanker for the homeliness
Of den, and hole, and set.

And this identity we feel
- Perhaps not right, perhaps not real -
Will link us constantly;
I see the rock, the clay, the chalk,
The flattened grass, the swaying stalk,
And it is you I see.

(Philip Larkin)

*

Bom dia!

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RETRATOS DO TRABALHO EM BALI, INDONÉSIA



Actividade piscatória de uma comunidade de pescadores que vive na praia de Jimbaran (praia que meses mais tarde sofreu um cobarde atentado terrorista).

(Miguel Salazar)

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