ABRUPTO

28.11.12


ÍNDICE DO SITUACIONISMO

A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

O silêncio incomodado com Angola continua em pleno. Embora aqui tenha causa própria, visto que esta "dinamite cerebral das elites portuguesas" do Jornal de Angola de 26 de Novembro me diz respeito, a verdade é que há aqui muito que justificaria notícia. Depois não digam que não há bruxas...

Aqui vai o editorial completo, com sublinhados meus, já que a política e a comunicação social portuguesa  parecem não querer falar mais do assunto:

"Angola tem feito os impossíveis por dar à CPLP a importância que merece e sobretudo para que cumpra o seu principal objectivo: ser um espaço de defesa e promoção da Língua Portuguesa, das culturas dos Estados membros e de solidariedade. Quando ainda Angola estava no meio de uma guerra de agressão sem precedentes em África, choveram pressões para que aderíssemos ao projecto. José Eduardo dos Santos, um dia despiu o camuflado, vestiu o fato e foi a Lisboa participar na fundação da CPLP. Desde então, Angola tem dado o seu melhor por este projecto de futuro e que pode ser importantíssimo para os povos que falam a Língua Portuguesa.
Mas nestes anos há também os que deram o seu pior. As elites portuguesas que nas últimas décadas partilham o poder em Portugal tentaram fazer da CPLP aquilo que a França e Inglaterra fizeram no espaço dos seus antigos impérios. A cultura dos Estados membros é tratada com desprezo. Foi imposto um Acordo Ortográfico que transforma a Língua Portuguesa numa coisa que ninguém lê sem tropeçar em obstáculos. Nos jornais e televisões só interessa aquilo que encaixa no modelo de oportunismo histórico das elites europeias. No Portugal da CPLP actual, os governos africanos são tratados como ditaduras corruptas e ferozes, apesar de realizarem eleições regulares e serem exemplos de democracia, boa gestão e exercício da cidadania.
Angola não se sente bem nesta CPLP que recebe mal e persegue os bens e os investimentos dos angolanos em Portugal, ao mesmo tempo que aumenta como nunca a entrada de empresários portugueses no mercado angolano, em vários ramos da economia, incluindo no sector dos Media. Em Portugal os políticos e jornalistas fazem tudo para manchar e impedir que os negócios dos empresários angolanos se realizem com normalidade, ou pelo menos nas mesmas condições de reciprocidade que os seus colegas portugueses encontram em Angola. Apesar de, desde há muito, haver vários órgãos de comunicação social em Angola comprados por portugueses, há presentemente na imprensa lusa uma nojenta campanha contra empresários angolanos que estariam interessados em investir, legitimamente, neste sector em Portugal.

As razões de tanto azedume são evidentes. As distorções no seio da CPLP são provocadas pelas elites portuguesas que não foram capazes de se libertar dos fantasmas do passado, mesmo aqueles que se dizem amigos de Angola ou reclamam para si o estatuto de antigos lutadores anti-colonialistas.
Dou um exemplo. O político português José Pacheco Pereira foi convidado por mim a vir a este jornal para ver como aqui se faz jornalismo. Pacheco Pereira é um dos que mostra estar desactualizado em relação a Angola. Íamos aproveitar a sua presença para aprender com ele coisas que não sabemos ou sabemos pouco. Queríamos ouvir as suas críticas, os seus argumentos, as suas opiniões. Os jornalistas que aqui trabalham ficavam mais ricos. Mas Pacheco Pereira inviabilizou o convite. Ensinaram-me que quando alguém nos abre as portas de sua casa, devemos levar alguma coisa. Se formos de mãos vazias, então é obrigatório levar o coração limpo, amizade e cordialidade. Pensava eu que Pacheco Pereira se ia apresentar assim em nossa casa. Mas foi grosseiro e malcriado e reproduziu os defeitos morais que hoje atravessam a sociedade portuguesa. Os problemas dos portugueses têm a ver com a falta de civismo e não com um qualquer problema de falta de competetividade.

Mas Pacheco Pereira fez pior. Aproveitou-se do meu convite para, mais uma vez, lançar uma diatribe desatinada contra os dirigentes angolanos. Pacheco Pereira fez as habituais acusações sem provas, debitou argumentos sem consistência, mostrou que está encarquilhado pela inveja e o azedume, destilou ódio dissimulado num discurso pretensamente político. Os colonos quando viam um angolano com uma camisa nova diziam logo que era ladrão. No tempo do colonialismo, os angolanos só podiam andar rotos e descalços. Pacheco Pereira está no mesmo registo. Se aparece um angolano rico, é ladrão. Está muito enganado. Para mim, os ricos angolanos não são um tabu. Eu sei donde lhes vem a riqueza. Pelo menos aqueles que eu conheço, trabalharam muito, comeram o pão que o diabo amassou, arriscaram a vida dias, meses e anos seguidos. Merecem a riqueza que têm. Oxalá muitos mais angolanos enriqueçam.
Os países ocidentais, inclusive Portugal, disseram aos angolanos que tinham de aderir à economia de mercado.Angola aderiu ao capitalismo que Pacheco Pereira bem conhece. E cá estamos nessa via. As riquezas do Estado passaram para as mãos de privados, desde as casas onde viviam até aos espaços comerciais, às fazendas, propriedades industriais, minas e tudo o que era estatal. Essas riquezas são propriedade de angolanos. Angola tem direito a ter uma burguesia nacional que seja cada vez mais forte e mais rica. Que todos os angolanos sejam ricos! E no mínimo que todos vivam na paz e na abundância. Ricos, remediados e pobres, todos em Angola estão apostados em conseguir esse objectivo. 
Nos últimos dez anos a pobreza caiu em Angola mais de 40 por cento. Até ao fim da actual legislatura, esses números vão ser ainda mais expressivos. A pobreza em Angola tem os dias contados. É por isso que os angolanos, dentro do espírito de amizade e solidariedade para com o Povo Português irmão, fazem grandes investimentos em Portugal. Recebem de braços abertos empresários e trabalhadores que em Angola querem governar a sua vida ao mesmo tempo que nos ajudam a resolver os muitos problemas que ainda temos.  É por isso que os cofres de Angola têm cada vez mais riqueza e o Estado Social é potente. No próximo ano, o Orçamento de Estado reforçou as verbas para a Saúde e Educação. Os especialistas dizem que ainda é pouco. Em 2014 temos de melhorar ainda mais nesses campos. 
A única coisa que dispensamos é a pobreza de espírito, a mediocridade de intelectuais ignorantes, as agressões por actos e palavras aos nossos dirigentes políticos, democraticamente eleitos e que são alvos de investigações e perseguições abusivas dos poderes em Portugal. Se os políticos angolanos da oposição forem agredidos, também os defendemos sem hesitar. Só excluo aqueles de quem as elites portuguesas se servem para atacar Angola e embaciar a sua imagem.
A pobreza em Angola está em forte queda, mas em Portugal, as elites políticas esvaziaram os cofres do Estado e estão a empobrecer os portugueses de uma forma que mete pena.
Lá, sim, é preciso investigar por que a pobreza está a aumentar e é preciso saber para onde foi o dinheiro dos portugueses. E é fácil. Basta saber qual era o património dos velhos políticos antes do 25 de Abril de 1974 e qual é agora. Quanto aos políticos mais novos, basta saber qual era o seu património antes de entrarem para a política e qual é agora. Os políticos e jornalistas portugueses devem deixar de usar o nome de Angola para esconder as suas traficâncias e os escândalos de corrupção que conduziram fatalmente à crise.
Lembro que em Portugal os governos também ofereceram os bancos nacionalizados a grandes empresários portugueses. O actual Governo ofereceu as “golden share” a privados, quando se sabe, pelo exemplo da Portugal Telecom, que elas eram extremamente valiosas. Espero que Pacheco Pereira se pronuncie sobre isso mas sem cair na sua dinamite cerebral, na calúnia e na mentira, como fez em relação aos angolanos.
Os seus parceiros de debate na Quadratura do Círculo são juristas sabedores, inclusive o moderador. Pergunte-lhes o que é o Direito à Inviolabilidade Pessoal. Pode ser que tenha mais cuidado com o que diz. Por fim, um conselho: leia o meu editorial sobre a manchete falsa do “Expresso”. Se o fizer não vai dizer que eu insultei e ameacei. Esse não é o nosso estilo. "

O que me admira é que, após a resposta que dei ao convite do Jornal de Angola na Quadratura do Círculo, que justifica este editorial, tenha caído um grande silêncio sobre essa matéria. Admirar, na verdade, não me admira. Agora ninguém pode  deixar de estar atento a este editorial do jornal que exprime as opiniões do governo angolano. Tudo nele é revelador e interessante. Merecia muito mais atenção, mas as coisas são como são. Ou melhor, as coisas estão como estão. Aqui dá-se-lhe atenção.

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5.4.06


O QUE É QUE SABEMOS SOBRE ANGOLA?
Angola / Republica de Angola - flag / bandeira

Agora que o Primeiro-ministro mais a sua comitiva estão em Angola, e o país aparece nos telejornais, o que é que verdadeiramente sabemos sobre a situação angolana no pós-guerra? A pergunta tem sentido porque, pelo menos os órgãos de comunicação social públicos, têm correspondentes permanentes em Angola. Que reportagens de fundo, sobre a política, a sociedade, a economia angolana, foram feitas para aproveitar a viagem governamental, fornecendo-nos informação independente, crítica, distanciada dos interesses que geram todos os silêncios sobre Angola? Não vi nenhuma. Esperava, na tradição da independência dos órgãos de comunicação, que nos dissessem porque razão não há eleições em Angola, como é que está a UNITA e o MPLA, o que se passa com a corrupção, o que é que aconteceu na recente tentativa de "golpe de estado"... tanta coisa para saber sobre Angola e nada. Nada, apenas uns comentários sobre as empresas portuguesas, sobre a crescente importância dos chineses, e pouco mais.

Existe auto-censura quanto a Angola e uma interiorização pela comunicação social da agenda dos interesses e dos negócios, com considerável indiferença quanto ao resto: situação social, miséria, corrupção da classe dirigente, riqueza e ostentação, democracia, violência. Angola é um caso típico de uma coligação de silêncios, da fragilidade do nosso jornalismo.

*

Ver Adufe.


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24.1.12


O MAIS PREOCUPANTE
É o progressivo controlo da comunicação social portuguesa por grupos económicos angolanos que, onde tocam e entram, acabam com a possibilidade de se dizer o que se disse atrás. Em matéria de informação  não brincam em serviço e retaliam. Que o diga Rafael Marques e a sua denúncia dos “diamantes de sangue” e outras que faz na Internet da corrupção da elite angolana e da cumplicidade activa dos portugueses com as operações de branqueamento, fuga de capitais, cobertura política, etc., e que são bastante silenciadas em Portugal. A RTP África não tem jornalismo sobre Angola, senão era corrida de lá, a RTP idem, o Sol  tece loas ao dinheiro angolano a que pertence e silencia tudo de sensível sobre a elite de poder, e, a continuar assim, pode vir a haver um canal privatizado da RTP também angolano. Este caminho é muito, muito preocupante.

(Enviada a 17 para a revista, publicada a 19 de Janeiro.)

NOTA: do Público de hoje

RDP acaba com espaço de opinião que serviu de palco a críticas duras a Angola

O jornalista Pedro Rosa Mendes confirmou, em declarações ao PÚBLICO, ter sido informado, por telefone, que a sua próxima crónica, a emitir na próxima quarta-feira no programa “Este Tempo”, da Antena 1, será a última. “Foi-me dito que a próxima seria a última porque a administração da casa não tinha gostado da última crónica sobre a RTP e Angola”, diz o jornalista, por telefone, a partir de Paris.

“A ser verdade, esta atitude é um acto de censura pura e dura”, sustenta o jornalista, que aborda nessa crónica a emissão especial que a RTP pôs no ar na segunda-feira, 16 de Janeiro, em directo a partir de Angola. A chamada telefónica que serviu para anunciar-lhe o fim deste espaço de opinião foi feita por “um dos responsáveis da Informação” da Antena 1, continua o jornalista, que não quis especificar quem daquele departamento lhe comunicou aquela decisão.
Rosa Mendes critica a emissão do programa televisivo Prós e Contras da RTP feita a partir de Angola, com a participação do ministro português que tutela a comunicação social, o ministro-Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas. Porém, o jornalista entende que “com tudo o que está em causa, foi uma crónica contida”. Aliás – prossegue –, a ser verdade que tenha sido dispensado por causa do teor desta crónica, essa decisão seria “muito estranha”, porque ele não foi “a única pessoa a ficar desagradada com a natureza e o conteúdo da emissão da RTP”. “Houve outras opiniões negativas nestes últimos dias”, aponta.

A crónica em causa foi emitida a 18 de Janeiro e integra um espaço de opinião que a Antena 1 tem, com o nome de “Este Tempo”. É assegurado por cinco pessoas – Rosa Mendes, António Granado, Raquel Freire, Gonçalo Cadilhe e Rita Matos e, segundo Rosa Mendes, todos eles estariam a ser informados que a crónica vai acabar. O PÚBLICO contactou João Barreiros, director de Informação da Antena 1, e António Granado, um dos cronistas, sem sucesso. Já Ricardo Alexandre, director-adjunto de Informação da Antena 1 e responsável pelo programa, disse não ter comentários a fazer.

A crónica estava no ar há cerca de dois anos e os contratos terminariam agora. Durante esse tempo, diz Rosa Mendes, nunca lhe foi dado nenhum feedback dando a entender que houvesse temas que fossem tabu ou que tivessem sido fixados “limites de censura”.

Na polémica crónica, Rosa Mendes começa por recordar que a RTP “serviu aos portugueses” uma emissão especial em directo de Luanda e à qual chamou “Reencontro” e “na qual desfilaram, durante duas horas, responsáveis políticos, empresários, comentadores de Portugal e de Angola, entre alguns palhaços ricos e figuras grotescas do folclore local”. “O serviço público de televisão tem estômago para muito, alguns dirão que tem estômago para tudo, mas o reencontro a que assistimos desta vez foi um dos mais nauseantes e grosseiros exercícios de propaganda e mistificação a que alguma vez assisti”, continua. Carregando nas críticas, o jornalista afirma que reencontrou nessa emissão, não um país irmão, mas “a falta de vergonha de uma elite que sabe o poder que tem e o exibe em cada palavra que diz”.

Rosa Mendes é um dos jornalistas portugueses que mais escreveu sobre a corrupção em Angola. Foi, aliás, alvo de dois processos judiciais por difamação, um dos quais por trabalhos editados pelo PÚBLICO e em que o queixoso era o Presidente angolano, José Eduardo dos Santos. O tribunal não deu razão ao líder de Angola, tendo a Justiça também decidido a favor de Rosa Mendes no outro caso, em que o queixoso era Arcadi Gaydamak, um milionário russo que tem passaporte angolano e foi acusado de vender armas a Angola.


Nos cinco minutos e 34 segundos que dura a crónica, Rosa Mendes mistura dados relativos à economia e à política do país com citações de alguns outros especialistas que estudaram o que se passa naquele país, que usa uma “maquilhagem sofisticada”, da qual se destaca “o batom da ditadura, parafraseando o jornalista angolano Rafael Marques”. Este último, ou alguém como ele, teria de estar presente num programa que fosse um “reencontro digno para ambos os povos e ambas as audiências”, sustenta Rosa Mendes. Alguém “que chamasse corrupção à corrupção e não, quase a medo numa única pergunta – e passo a citar – ‘um certo tipo de corrupção’, como fez Fátima Campos Ferreira”, a jornalista que apresenta o referido programa da RTP e conduziu aquela emissão. 



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25.9.11


COISAS DA SÁBADO: ANGOLA 



É um prazer ouvir Rafael Marques na SICN (uma estação com muita audiência em Angola, mas que não pode enviar jornalistas para lá) a falar sobre Angola, com o pretexto do seu último livro sobre os “diamantes de sangue”. E é um prazer porque o que ele diz são verdades tão sabidas que parecem truísmos, só que ninguém as diz sobre Angola. É por isso que o prazer vem de se assistir a um acto de coragem, simples e inequívoco. 

Rafael Marques interpela os portugueses sobre a sua colaboração activa com a corrupção em Angola. Então os bancos portugueses que recebem as malas de dinheiro vindas de Angola não sabem qual é a origem desse dinheiro? Então os nossos governantes, homens de negócios, jornalistas, que andam tu cá tu lá com a elite corrupta angola não se interrogam sobre a origem do dinheiro que permite a esses angolanos comprarem empresas, bancos, jornais, portugueses e viverem no luxo e na ostentação? Sabem bem demais, mas acham que não é nada com eles. Ajudam-nos activamente a lavar o dinheiro, e protegem-nos, com uma censura activa, de ver denunciada a corrupção.

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29.10.13


O NAVIO FANTASMA (44): O VENENO DE ANGOLA


Poucas coisas são hoje tão venenosas para a nossa democracia e para a nossa liberdade como o modo como se está a discutir a questão de Angola. O espectro de represálias, a atitude subserviente, a aceitação da força alheia e perda de dignidade da nossa, o abandono dos mais basilares princípios do que é uma democracia e do que é a liberdade, cria um ambiente de medo no debate angolano que poucos são capazes de romper. 

No Prós e Contras da RTP ouviram-se as mais absurdas das coisas, e, com excepção de uma defesa por Ricardo Costa da "obrigação" jornalística de dar as notícias que tanto inflamam a elite angolana, o debate foi um retrato de como o veneno da chantagem angolana funciona. Como acontece muitas vezes os "especialistas" que são chamados à televisão trabalham em Angola, têm interesses angolanos e recebem salários do governo de Angola. É o caso do antigo Ministro Martins da Cruz, que para além de ter sido "ministro dos negócios estrangeiros" de Luís Filipe Meneses na Câmara de Gaia, é, segundo o seu currículo, "membro do conselho de administração de empresas em Portugal, Espanha e Angola" e "consultor do Governo de Angola". Ou seja, para efeitos daquele debate, está do lado de lá.

E mesmo Louçã, um "internacionalista", disse que não discutia a "origem do dinheiro angolano porque isso era um problema dos angolanos". Como assim? Ele que não se coíbe de discutir os dinheiros dos americanos, ingleses, franceses, a política interna de todos os países do mundo, subitamente pára às quatro rodas naquele debate e, perante aquela plateia, onde o que era vitalmente preciso dizer é que é a origem do dinheiro angolano o principal problema, dinheiro roubado a um povo na miséria, por uma clique de políticos e generais do MPLAe "lavado" em Portugal, fica calado.

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17.3.09


ÍNDICE DO SITUACIONISMO (69): RESPEITINHO COM ANGOLA


A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

Este Prós e Contras parece uma espécie de longo tempo de antena dos negócios angolano-portugueses e, por extensão, da política governamental em relação a Angola (como à Venezuela e como à Líbia, a triste trilogia dos nossos negócios externos). É um excelente exemplo de como o dinheiro solto, nu e cru mata a política, mata o pensamento e mata o jornalismo. Os despojos estão ali todos na RTP a falar. Há coisas destas em França (mais) no Reino Unido (menos), mas nenhuma se compara a esta subserviência institucionalizada, a este desprezo pela democracia, a este cínico fechar de olhos perante uma realidade que ninguém ali desconhece e ninguém ali nomeia.

O título absurdo deste programa é "o que é que Angola tem?". Devem ter passado horas a discutir como é que iam chamar a um programa que não tem contraditório e não podia ofender os irritáveis angolanos. "O que é que Angola tem?". Dinheiro, claro, nas mãos de uma classe dirigente que se reciclou do comunismo soviético, na sua mais cruel versão africana, para uma cleptocracia sem vergonha. Mas a pergunta certa, é "o que é que Portugal tem?", porque Portugal é que está doente na sua democracia, sem fôlego nem espírito de liberdade, a um canto, de chapéu na mão, atento, venerador e obrigado.

.SITUACIONISMO +5

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24.8.12


COISAS DA SÁBADO
ENTÃO E AS NOTÍCIAS SOBRE ANGOLA? NÃO SE PASSA NADA?



 Talvez o mais preocupante sinal dos condicionamentos à liberdade de informação em Portugal se revele no estranhíssimo silêncio sobre o que se passa em Angola. Em Angola estão a decorrer eleições, todo o mínimo protesto é reprimido por uma combinação de polícias e milícias do MPLA, as condições do acto eleitoral são contestadas pelo principal partido da oposição, a UNITA, que ameaça não ir às urnas nestas circunstâncias. Dentro e fora de Luanda, tem havido e estão anunciadas grandes manifestações da UNITA, ameaçadas sempre de contramanifestações do MPLA. Na verdade, nem isto se sabe pela comunicação social portuguesa, sabe-se pela circulação de fotografias, informações dispersas e algumas declarações corajosas de angolanos que são silenciadas em Portugal. 

Em Angola está tudo bem, os negócios vão de vento em popa, o dinheiro vindo da corrupção e do nepotismo flui para os bancos portugueses em malas, importantes posições na banca, em empresas estratégicas e na comunicação social são compradas por membros da elite do poder angolana. Presume-se que ainda mais compras vão ser feitas, em particular na comunicação social, dados os apertos financeiros dos grupos portugueses e as boas relações de governantes locais com os corruptos de lá, ambos partilhando a ideia de que o dinheiro nunca teve cor e isso das ditaduras corruptas em África é “normal” para criar “países”. Usei a palavra corrupção várias vezes nas frases anteriores, devia usar mil, porque ainda gostava que alguém me explicasse de onde vem o dinheiro de gente que, fora das relações de poder no MPLA e com o Presidente e a família, nunca teve qualquer actividade que explique os milhões que tem, seja sequer uma lanchonete numa rua de Luanda. 

Escrevo isto, com a sensação muito forte, de que, a continuar assim, em breve isto não vai poder ser escrito na comunicação social portuguesa.

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15.4.06


COISAS DA SÁBADO: MEMÓRIA E RESPEITO



O Primeiro-ministro José Sócrates visita a França por estes dias, numa viagem que coincide com a data do 9 de Abril que certamente não lhe dirá nada, nem a ele, nem aos seus assessores. Mas seria inconcebível um governante de qualquer país aliado, nas duas guerras mundiais do século XX, visitar a França no dia simbólico mais importante para honrar os seus mortos em combate, e não se dirigir a um dos gigantescos cemitérios que polvilham os antigos campos de batalha franceses. A 9 de Abril de 1918, na batalha conhecida como de La Lys, o Corpo Expedicionário Português foi massacrado pelos alemães, tendo sofrido quase 8000 baixas. Muitos dos que morreram estão sepultados em cemitérios militares na França, esquecidos dos portugueses. O Eng. Sócrates é um bom exemplo dessas gerações mais novas, sem memória e portanto sem respeito.

*
Talvez a razão porque se fala e escreve tão pouco sobre a participação portuguesa na frente europeia da I Grande Guerra se relacione com o desconforto que uma análise imparcial dessa participação causaria em muitos de nós. Relatos insuspeitos falam de casos de grande dignidade e até de heroísmo, mas falam também de militares ingleses a obrigarem - à chapada - oficiais e soldados portugueses a não fugirem sem deixarem para trás os seus feridos.

(P.B.)

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Acabo de ver no «Abrupto» a indicação do n.º de baixas (mortos) nos teatros de operações de França e de África «rectificados» por um seu leitor, Luís Pinto de Sá. Na realidade, este senhor, relativamente a França anda próximo dos quantitativos oficiais, mas falha redondamente no que toca a África.

Assim, para que, (...) possa apontar os valores aceites oficialmente (constantes no Arquivo Histórico Militar e por mim publicados em Portugal e a Grande Guerra, Lisboa, Diário de Notícias, 2003 (fascículos), no capítulo intitulado «Portugal e a Grande Guerra. Balanço Estatístico» (pp. 547-552), informo que, em França, morreram 1.997 militares, em Angola, 810 e, em Moçambique, 4.811 todos do Exército e da Marinha morreram 142 no total; feridos incapacitados foram, pela mesma ordem, 5.359; 683; 1.600; e 30; desaparecidos, pela mesma ordem: 199; 200; e 5.500; militares dados como incapazes para todo o serviço, pela mesma ordem: 7.280; 372; e 1.283; prisioneiros, mais uma vez pela mesma ordem: 7.000 (dos quais 233 faleceram no cativeiro); 68; e 678.

Somando, o esforço português na Grande Guerra pode medir-se pelos seguintes números de baixas gerais: em França: 21.835; em Angola: 2.133; em Moçambique: 13.872; e da Marinha: 172. O total geral é de 38.012 baixas. Números consideráveis se tivermos em conta que o empenhamento militar foi, em Angola, cerca de dois anos, em Moçambique, quatro anos, e, em França, 22 meses efectivos.

(Luís M. Alves de Fraga)

*

Em minha modesta opiniao, o minimo respeito e homenagem que soldados, e todos aqueles que perderam a vida a combater pela patria, com honra e dignidade, nas guerras para onde receberam Guia de Marcha para combater, pelos diversos governos de Portugal, seria depois de mortos, uma campa simples e digna num em cemiterio militar ou em talhao militar cuidado, no seu pais ou no estrangeiro.

Na realidade tal nao acontece agora, mas nem sempre foi sempre assim, durante os anos que se seguiram a I G M, foram sempre os ex-combatentes carinhados, e os combatentes falecidos alvo das maiores homenagens por todo o pais e ilhas. Observem-se as datas dos monumentos aos Combatentes que existem as centenas pelo pais. O Grande desinteresse deu-se ja na Segunda metade do seculo XX, ainda durante o tempo da ditadura, creio eu por varias razoes, entre as quais o desinteresse dos familiares dos falecidos nas Guerras em Africa na deposicao dos restos mortais dos seus entes queridos nos talhoes militares .

Com o fim do regime, a revolucao do 25 de Abril nao contribui para melhorar o panorama geral, havendo mesmo em varios sectores politicos um sentimento de quase raiva contra os nossos militares que morreram em Africa. Como se fossem eles os causadores da guerra que lhes trouxe a morte. O esquecimento dos militares que repousam nos Palops e a vergonha do nosso pais.

Todo este panorama, a que se junta o desinteresse e a ignorancia dos nossos governos e governantes aliados a falta de meios da Liga dos Combatentes, levou a que os talhoes militares ficassem votados ao abandono, e assim permanecam esquecidos os nossos caidos pela P'atria. Repare-se que nos ultimos anos, quando a Liga dos Combatentes tem homenageado os nossos mortos no Ultramar, quantas vezes la compareceu o ultimo Presidente da Republica? Uma , nenhuma? nao posso confirmar em 10 anos de mandatos quantas vezes ali compareceu? Vergonha? No mesmo periodo a quantos desafios de futebol assistiu, e quantas lagrimas de incontida emocao futebolistica derramou nesses estadios?

Em Inglaterra nao e assim. Naquele pais, todos os mortos pela patria tem o mesmo tratamento, quer tenham falecido no Somme em 1916, no Canal do Suez em 1956, na Normandia no dia D em 1944 ou em Samarra no Iraque em 2003. Existe uma Associacao sem fins lucrativos, por Decreto Real de 1918, com ligacoes ao Ministerio da Defesa, designada por Commonwealth War Graves Commission, na qual participam comissarios, ao mais alevado nivel, dos paises Commonwealth. Pode consultar-se para o efeito o site .

Esta organizacao desenvolve um extraordinario trabalho a todos os niveis, quer na manutencao e conservacao dos cemiterios militares ingleses por todo o mundo, como mantem ainda uma sepultura digital, em rede, com a maior quantidade de informacao disponivel sobre o militar, dados pessoais, foto, local onde perdeu a vida, se esta desaparecido ou onde esta sepultado assim como um resumo da sua folha de registo militar. Um trabalho a serio levado a cabo por gente a serio.

Nem a proposito, aparecerem na ultima quinta-feira, dia 13 de Abril de 2006 os restos mortais de 3 soldados ingleses, falecidos na I GM na Flandres. A achado teve lugar num campo de trigo, proximo de Ypres na Belgica, por equ ipas de voluntarios belgas que tem por hoby a arqueologia militar. Sobre este assunto consulte-se aqui.

Estes militares serao agoram devidamente sepultados, com todas as horras militares, e com a presenca de familiares, se eventual ainda existirem, o que sera sem duvida uma emocionante cerimonia para eles.

(João Botelho, sem acentos)

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A respeito deste assunto existe na Columbeira (perto do Bombarral) um dos locais, para os menos informados, da Batalha da Roliça, um memorial a um soldado Britânico morto em combate. Esta Batalha foi o primeiro confronto em Portugal entre as tropas luso-britânicas de Arthur Wellesley (futuro Duque de Wellington) e o exército de Junot (comandado nessa refrega pelo General Delaborde). A Batalha da Roliça representou o primeiro triunfo militar de Arthur Wellesley que teria o seu ponto mais alto na Batalha de Waterloo. Podemos encontrar nesse local um Túmulo (mandado erigir pelo exército Britânico) em memória do Coronel Lake que perderia a vida nessa batalha num ataque do seu 29º Regimento. O túmulo está em mal assinalado e em mau estado de conservação pois a autarquia pouco tem feito para conferir alguma dignidade ao local. De qualquer forma quer a sua construção (por alturas do centenário da Batalha - 1908) quer a sua manutenção tem estado a cargo do Worcestershire Regiment que herdou as insígnias do 29º Regimento. De referir aínda que este espaço é visitado regularmente pela British Historical Society que organiza visitas guiadas a este local. É de lamentar que um país como Portugal com uma história militar (e não só) riquissíma e com uma presença marcante em inúmeros locais do mundo não preserve e dignifique os espaços fisicos e os portugueses que (bem ou mal) levaram o nosso país mais além.

(Jorge Lopes)

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Alguns leitores seus “produzem” mais baixas portuguesas na Grande Guerra que as “spandau” alemãs!... Na Grande Guerra, as baixas portuguesas foram:

Na França – 2100 mortos + 200 desaparecidos. Isto no total!...

Em Àfrica – 2800 mortos e desaparecidos. 750 em Angola e 2100 em Moçambique.

Onde haveria de comemorar a nossa participação nessa guerra seria em Àfrica, não em La Lys! Só que isso seria recordar os motivos imperiais por que participámos na Guerra, o que ainda é motivo de vergonha… Aliás, essa batalha não é algo de que nos possamos orgulhar muito. Os alemães escolheram o sector português para a sua ofensiva desse dia por suporem com razão, ser o elo mais fraco da frente aliada – tal como os russos atacariam, em Estalinegrado, os sectores romenos, 24 anos depois… e os nossos oficiais não se portaram da melhor maneira, a avaliar pelos processos de que alguns foram depois alvo.

Pode-se consultar aqui.

(José Luís Pinto de Sá)

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(...) Há anos que vejo nas televisões internacionais, ida de Reagan à Normandia, ou da rainha Isabel, e de outros tipos de governos estrangeiros irem, por ocasião do desembarque ou mesmo noutras ocasiões em visitas oficiais. Idas que tenham a ver com a Grande Guerra ou com a Segunda Guerra Mundial. Sempre estranhei não se mencionar os portugueses que morreram na Guerra de 14. Aliás presumo que o mesmo acontece na Guiné e creio que em Angola e Moçambique . As campas dos militares portugueses estão entregues aos bichos. As embaixadas e os adidos militares estão-se marimbando para este assunto. Lembro-me de ver uma reportagem há anos, por aí, no Expresso.


Queria só dizer-lhe o seguinte: a última vez que vi uma reportagem na Skynews, ou outra do género, fiquei a saber que quando os agricultores franceses encontram ossadas no meio dos campos os ingleses tentam descobrir o nome ou a sua origem, pois normalmente são soldados, e se são ingleses, fazem enterros militares "à séria" com bandeira nacional e enterram-nos nos cemitérios militares, que aliás estão impecáveis. Será que as campas dos soldados portugueses da Grande Guerra estão tratadas minimamente? Será que se mantêm um respeito mínimo pelos militares portugueses?

Esta ida de Sócrates a 9 de Abril e não existir ninguém no staff que lhe lembre ou informe, ou o embaixador ou o adido militar em Paris não o informarem e sugerirem incluír no programa da visita uma deslocação em helicóptero, ou coisa que o valha, a um sítio como La Lys acho inacreditável. Será que não sabem? Não estão a par destas coisas? (...)

(José Maria Montargil)

*

(...) o que me leva a escrever é exactamento um comentário seu na sua crónica semanal da Revista Sábado, da qual sou leitor assíduo, do qual descordo por crer que excessivo. No que diz respeito à visita do Primeiro Ministro a França numa data tão importante para o passado português, não aqui querendo desculpar o Engº Sócrates, mas falo sim em nome das gerações mais novas, que acusou de falta de memória e sem respeito. Julgo que ninguém pode ser acusado de falta de respeito involuntáriamente. Se não sabem, ou é porque tal data não é devidamente leccionada nas escolas, ou porque como se tratou de uma derrota não a querem lembrar, e ou ainda, porque provavelmente não são devidamente mencionadas nos manuais escolares.

Isto sim uma preocupação maior. Julgo que o passado é o melhor caminho para compreender o Presente e preparar o futuro. A falta de respeito que cita para mim não existe nesse sentido. A Real falta de respeito vem de uma questão maior: da incapacidade ou mesmo falta de vontade em solucionar o problema. Os sucessivos governantes preferem o povo ignorante a tê-lo "sabido".

(Paulo Pereira)

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12.11.12


ÍNDICE DO SITUACIONISMO: UMA MATÉRIA CRUCIAL

Talvez o mais importante problema que afecta a nossa liberdade de imprensa para além da crise geral, e como parte dela, é o modo como os interesses angolanos se movem para dominar e controlar a informação em Portugal. Por isso, será muito relevante ver como é tratada a questão das investigações criminais de altos responsáveis do regime angolano, com fugas ou sem fugas, visto que isso é outro problema. O Jornal de Angola já fez as ameaças do costume, com a chantagem e intimidação habitual. Agora vamos ver quem se deixa intimidar ou quem já está do outro lado, do lado dos intimidadores, ou porque foi vendido, ou porque foi comprado, ou porque já é apenas um voz do poder corrupto angolano. 

A comunicação social do estado, em particular a RTP, que está presente em Angola, e jornais como o Sol, têm aqui uma prova de fogo. O Expresso e o  Público, pelo menos, já a passaram com distinção, mas o editorial do Jornal de Angola não pode ficar sem resposta.

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1.5.08


COISAS DA SÁBADO: A "CARTA" DE ROSA COUTINHO A AGOSTINHO NETO


Uma carta que circula há muitos anos, supostamente escrita por Rosa Coutinho a Agostinho Neto, apareceu num livro recente sobre as enormes violências em Angola e foi citada por António Barreto a partir do livro como sendo verídica. António Barreto já corrigiu essa atribuição face às dúvidas suscitadas entre outros por Ferreira Fernandes, admitindo o seu engano. Desse ponto de vista a questão está encerrada.

No entanto, a carta merece mais alguma atenção na medida em que é um fabricação, aliás grosseira, que pode ter sido feita ou por um habilidoso envolvido nos eventos ou por um serviço qualquer de desinformação. O seu objectivo é fazer uma campanha negra, contra Rosa Coutinho, que não precisava da carta para ter tido um papel sinistro nos eventos da descolonização de Angola.

Já li, por razões profissionais do meu trabalho histórico, literalmente milhares de documentos oriundos do universo comunista, não só os escritos com “língua de pau”, mas também os mais escondidos de todos, cartas com instruções secretas, relatórios do NKVD e do KGB, actas de encontros, comunicações de espionagem, papéis de polícia, denúncias, relatos de tortura, manuais de guerra revolucionária, e nunca encontrei um único documento genuíno que corresponda no teor, conteúdo e linguagem à carta atribuída a Rosa Coutinho. Pelo contrário, encontrei múltiplas fabricações exactamente iguais.

Nenhum comunista secreto ou público escreveria isto: “após a última reunião secreta que tivemos com os camaradas do PCP...” Se é secreta não se nomeia nem se diz com quem foi. E muito menos se poriam num papel perguntas retóricas como esta: “Não dizia Fanon que o complexo de inferioridade só se vence matando o colonizador? camarada Agostinho Neto, dá, por isso, instruções secretas aos militantes do MPLA para aterrorizarem por todos os meios os brancos, matando, pilhando, incendiando a fim de provocar a debandada de Angola”. Mais ainda este absurdo: “Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos para desanimar os corajosos” Tudo resto é assim, tão de encomenda, tão destinado a suscitar a repulsa, caso viesse a público, como absurdo.

Há documentos genuínos com este tom, mas em movimentos doutro tipo, milenários, religiosos, étnicos, mas não existe nada de parecido no movimento comunista. Eu não estou a dizer que os comunistas não possam cometer as maiores atrocidades, cometeram-nas na URSS, na China, no Cambodja, em África, mas não as colocam no papel assim.

Espero que mais ninguém se engane com esta falsificação.

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20.3.09


ESSA É QUE É ESSA




O Papa deu uma bofetada de luva branca, branquíssima, em todos os silêncios sobre o poder em Angola, a miséria, a força bruta, as enormes diferenças sociais entre uma elite que nós bajulamos e os angolanos comuns a quem continuamos a trair.

*
A verdadeira bofetada, foi dada por Mário Crespo, ao entrevistar hoje na SICN o jornalista angolano Rafael Marques, o qual referiu a bajulação que é feita ao governo angolano por parte do universo politico e empresarial português.

Essa mesma classe dirigente ignora o sofrimento dos angolanos, a fome e a miséria que vivem. Apesar de já não haver guerra, os angolanos estão na penúria, não há trabalho, e o disponível por que qualificado é ocupado pelos trabalhadores estrangeiros.

O investimento publico é quase nulo, as obras que existem são de carácter privado, tais como condomínios de luxo, em contraponto com a ausência de qualquer politica de habitação social.

Uma vez mais, José Eduardo dos Santos, é acusado de não servir Angola, mas de se servir de Angola.

(Telmo Martins)

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1.6.06


MAL-AMADOS



Jack Welsh, descrito na imprensa portuguesa como "um dos gestores mais admirados em todo o mundo" não esteve com meias medidas e, numa conferência em que participou, exprimiu o seu espanto pelo facto de os portugueses não se mostrarem "envergonhados" pela maneira como são vistos no estrangeiro. E disse mais: "É humilhante para os portugueses a percepção que o exterior tem de Portugal, que é a de uma contínua degradação e declínio ao longo dos últimos anos."

Welsh fez bem em dizê-lo e fazia-nos bem ouvir mais verdades como esta para substituirmos a nossa balofa e inconsequente auto-estima pela percepção de que a realidade não é propriamente um espelho do nosso excesso identitário. Como vivemos no mundo das ilusões, não queremos saber por que é que homens como Welsh, que não precisava sequer de se dar ao trabalho e à incomodidade de dizerem coisas feias sobre os seus anfitriões, são capazes de sentir por nós a "vergonha" que nós não temos. Basta ler os comentários indignados a estas declarações para ver como a "arrogância do estrangeiro" nos serve para esconjurar o que não queremos ver e desresponsabilizarmo-nos do que fazemos e não fazemos.

É particularmente útil sermos confrontados com a nossa imagem vista de "fora", quando mais uma vez nos entregamos à tarefa permanente de nos iludirmos com o futebol. A futebolândia está a assumir o papel de nossa "pátria", quando não conseguimos fazer melhor a que temos. Talvez por isso lidamos bem e contentamo-nos com o que dura pouco e não dá muito trabalho, fadados para bater os recordes do Guinness, se isso implicar número, festa, um pouco de idiotice e muitos autocarros pagos pelos nossos impostos. Encher as ruas de Pais Natais e os estádios de senhoras coloridas, isso somos capazes de fazer. Ser exigentes e abandonar a nossa consabida "displicência", que Eça retratou como ninguém em Fradique, isso não nos leva a colocar bandeirinhas nas janelas.

Mas nem o futebol apaga de todo o choque que as imagens de Timor fazem à nossa idílica visão do "mundo feito pelos portugueses", outro repositório da nossa permanente procura de auto-estima na ignorância e na facilidade. É uma velha ilusão pós-colonial que temos por todo o lado, a de acharmos que os povos por onde nós passamos, muitas vezes de forma completamente episódica, nos estimam de forma muito especial. A realidade encarrega-se de nos desiludir, mas nós queremos pouco saber da realidade.

Os brasileiros discutem seriamente se não teria sido melhor terem sido colonizados pelos holandeses e alguns maldizem o dia em que a Holanda perdeu o Brasil para o reino de Portugal. Reagem pavlovianamente a qualquer up-grade da nossa presença, seja nos dicionários e na ortografia, seja na literatura, seja nos negócios, seja na política. A maioria dos portugueses nem sequer sabe, nem ninguém lhes diz, que muitos "irmãos" brasileiros nutrem tais sentimentos familiares.

Em Angola damo-nos bem com os governantes, convencidos que nos damos bem com o povo. Mas estes tratam-nos com arrogância em todos os momentos em que não nos portamos bem e esquecemos que somos tolerados apenas enquanto formos serventuários de um dos poderes mais corruptos de África. A elegância europeia da família "Dos Santos" pode partilhar os salões com muitos empresários portugueses, mas o que flui entre eles é o dinheiro dos negócios, não é respeito nem consideração. Qualquer mínima tergiversação no código de conduta da omertà luso-angolana dá logo origem a editoriais do Jornal de Angola e admoestações aos "tugas".

Na Guiné-Bissau, nem vale a pena pensar, porque se tornou inabitável. É talvez a única parte do império que pensamos que perdeu as cores verde-rubras e voltou a dissolver-se no negro de África, na África não recomendável em que não entramos. Nunca pensamos Angola e Moçambique só como África, mas a Guiné é África de vez, ou seja, é-nos indiferente.

O que é que sobra? De São Tomé sabemos pouco, mas pensamos que talvez pudesse ter sido um Dom-Tom português [ex-colónia francesa com estatuto especial na UE] que deixamos escapar à sorte de ter entrado na União Europeia e, como na Ilha da Reunião, de ter vacas pagas pela Política Agrícola Comum e as roças a funcionar. Temos a vaga nostalgia de que, se não fosse o PREC, São Tomé, como aliás Cabo Verde, poderiam ter continuado "nossos", com um governador benigno, dinheiros comunitários e apenas com uma agitação residual e irrelevante de alguns independentistas a quem a democracia do 25 de Abril permitiria um partido e um jornal local em crioulo.

Macau, esse, nós esquecemos depressa. Ficou chinês com imensa velocidade e só existe entre nós como memória da "árvore das patacas", com a má fama de ter sido o local de perdição dos socialistas que o governaram nos anos do fim. Foi-se o exótico, fica Camilo Pessanha, mas o quem é que coleccionaria cromos com o bizarro Pessanha, quando temos os sub-21 e os supra-21?

Resta Timor, a última e hoje a maior das nossas ilusões pós-coloniais, que desaba nos ecrãs de televisão, quando vemos os bandos de "jovens" destruindo os escassos bens do seu país e somos obrigados a chamar-lhes não indonésios, nem milicianos a soldo dos indonésios, mas sim timorenses. O país que os portugueses acham que tornaram independente com as manifestações silenciosas de Lisboa, a quem os jornalistas passaram a chamar Timor Lorosae para que na palavra os seus mitos se fizessem realidades, e sobre o qual alimentamos o absurdo transversal, à esquerda e à direita, que os timorenses querem ser portugueses, conhece um golpe de Estado (que também não queremos ver), associado a violências típicas de "Estado falhado", que o tornaram ainda mais pobre e esquecido.

Ficamos mal amados, mal lembrados, pouco estimados no mundo e Welsh lembra-nos com crueldade que ainda estamos pior, que estamos num caminho descendente. Lembrá-lo é negativismo dos intelectuais, traço típico desde os "Vencidos da Vida" das nossas elites ou outro defeito qualquer que faça parte do problema e não da solução? Talvez. Também. Mas não só. E não deixo de pensar que mais vale uma boa dose de realidade, cruel que seja, do que a ilusão das bandeirinhas, que ao fim do primeiro jogo, ao fim de uma qualquer derrota no relvado, se transforma em azedume, zanga e justificação de impotência para nada se fazer.

(No Público de hoje.)

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21.4.08


PATRIOTISMOS



Faces do Batalhão 114 em Nambuangongo, 1961.

Não tive ocasião de ver os episódios da série sobre a guerra colonial que o Joaquim Furtado fez para a RTP quando passaram originalmente. Como às vezes me acontece quando quero mesmo ver alguma coisa e não tenho tempo para a ver toda, todos os episódios, toda a série, adio para depois e acabo por não ver. Disfunções. Faltas de tempo. Pouco interessa. Tenho visto agora alguns episódios referentes ao ano de 1961 e junto-me tardiamente ao coro dos louvores sobre a qualidade e a importância da série, a primeira a mostrar o drama da guerra colonial nas suas componentes testemunhal e visual, exactamente as mais "poderosas" e as que mais faltavam no nosso conhecimento. É uma grande série documental de televisão em qualquer sítio do mundo e, no caso português, uma contribuição para a nossa autognose que não se vê com indiferença. Já é história, mas ainda não é história - é a nossa história.

Mas há mais. Ela coloca-nos perante o melhor e o pior de nós mesmos, não no passado longínquo para onde fugimos quando queremos encontrar as virtudes que faltam no presente, mas para acontecimentos, atitudes, que nos são contemporâneas, sobre as quais poderíamos também testemunhar porque aconteceram de algum modo connosco. Eu saio da visão daqueles episódios com um forte sentimento de admiração por quem nunca pensei tê-lo assim: pelos nossos soldados, por aqueles portugueses pequenos e desajeitados, com fardas bizarras e atamancadas, que poderiam parecer que estavam no filme errado e que pediam para os tirarem dali. Não, pelo contrário, estavam no filme certo, num filme trágico, mas certo.

Sem deixar de ser o que sou, e o que era, sem dúvidas existenciais sobre o meu anticolonialismo nem a minha oposição à guerra, dou por mim a ver os documentários de Joaquim Furtado e a identificar-me com aqueles soldados e oficiais portugueses que em 1961, quase sem nada, foram mandados para uma guerra para que não foram preparados, perdidos no meio das matas perante um inimigo ou invisível no meio do capim, ou demasiado visível nos seus ataques suicidas em massa, sem armas capazes, sem munições, sem comida, e que avançavam para hastear a bandeira portuguesa em meia dúzia de edifícios desventrados no meio de terras do café que lhes deveriam ser totalmente estranhas.



Está lá o colonialismo, mas não é nos soldados, é nas ridículas, então e hoje, afirmações de "portuguesismo" dos negros de Angola, a cantar uma estranha A Portuguesa, a saudar a bandeira, a servir de decoração à tardia mistificação que éramos todos portugueses quando ainda ontem éramos uns portugueses, outros indígenas: uns pretos e outros brancos. Isso é que soa a falsete e era falsete, porque em 1961 não havia negros bons a não ser na propaganda. A série de Joaquim Furtado mostra uma realidade que continuamos a esconder, é que aos massacres da UPA se seguiram massacres perpetrados pelos portugueses, pelos colonos e pela tropa, a que não escapava um racismo instrumental onde o único negro em que se podia confiar era no negro morto. Foi assim em 1961, e é um serviço para a nossa memória colectiva que se conheça como foi.

Voltemos aos soldados. Percebe-se que aqueles homens estão lá profundamente convencidos de que estão a defender uma realidade que para eles, ali em Angola, no mais estranho dos lugares, não é etérea - estavam a defender Portugal. Portugal pelo qual estão dispostos a sacrificar-se, a correr riscos e a morrer. O que os motiva é aquilo que é um dos sentimentos mais estranhos, complicados, mortíferos que há, o patriotismo. E percebe-se que estão motivados. Não é a tropa de 1970, é a tropa de 1961, os primeiros contingentes chegados a Luanda, recebidos pelos colonos desesperados e atirados no dia seguinte para as picadas do Norte.

Olhando aqueles homens, rudes, vindos de um Portugal então muito rural, desajeitados, com capacetes de aço feitos para a II Guerra Mundial, no meio das picadas, ainda tendo como obstáculos principais árvores cortadas e sem minas, os aviões e avionetas de um catálogo de velharias, vendo a face do medo que os homens corajosos têm, sentimo-los não só próximos, nossos, mas como gente que merece um reconhecimento que não lhes demos porque ficaram do lado que perdeu. Só que também nós perdemos com eles e não o queremos reconhecer. Num país à míngua de virtude e com um enorme catálogo de defeitos colectivos, lá estão aqueles homens, que mostram que somos capazes, no meio do maior deserto moral como era o Portugal de Salazar, de ter "portuguesinhos valentes", uma frase que diz imenso, tão capazes de uma heroicidade simples como a que louvamos nos de "quinhentos" e que hoje achamos perdida.

Eu olho do lado oposto. A guerra colonial também fez a minha vida, por isso não sou indiferente àquelas imagens e relatos que não o são de tempos normais, mas sim excepcionais. Ali matava-se e morria-se, não é a mesma coisa que ir trabalhar pela manhã, estudar pela tarde, ler um livro, pagar uma conta, ter um engarrafamento ou uma gripe. Aquilo é a sério e onde é que estava eu? Como é que a guerra colonial me "interpelou"?, para usar uma palavra de que os católicos gostavam nos tempos em que era preciso ter compromissos.

Como muitos jovens da minha geração que combatiam o regime de Salazar e Caetano, nunca me passou pela cabeça fazer a guerra. Sabia que, a uma determinada altura, o dilema se colocava e nunca duvidei um segundo sobre o que fazer quando tivesse que prestar serviço militar: fosse em que circunstância fosse, como refractário ou como desertor, iria para o estrangeiro ou para a "sombra" da clandestinidade. Não era sequer um dilema, era uma certeza, sobre a qual nunca hesitei. A guerra colonial não me colocava nenhum dilema, não me "interpelava", sabia o que devia fazer.

Hoje, como não há memória, pode-se pensar que este caminho que milhares de jovens da minha geração tomaram era fácil e cómodo. Não era. Também não era o medo da guerra, porque de um modo geral havia mais coragem em recusá-la do que em fazê-la, era mais um acto de vontade recusá-la do que seguir na onda da obrigação legal, mesmo que contrafeita.
A frase anterior resulta ambígua e permite críticas como a que fez Vítor Dias no Tempo das Cerejas, que são legítimas devido exactamente à frase não ter ficado clara. Não era minha intenção fazer qualquer medição de coragem que seria sempre absurda. O que eu queria dizer é que, no momento da decisão, de ir ou não, a última escolha implicava de imediato mais consequências, a começar pelo facto de se estar a cometer um acto ilegal que interrompia de imediato a possibilidade de se continuar uma vida normal . A decisão de ir era mais passiva. Não penso que neste dilema ir / desertar se possa sobrepor o par coragem / cobardia, mas penso que a decisão consciente de recusa da guerra, com todas as suas consequências, era uma decisão corajosa.

Claro que aqui há, nesta questão levantada por Vítor Dias a sobrevivência de uma polémica, que só os que padecem de memória excessiva se lembram hoje, entre o PCP e a extrema-esquerda na altura, sobre o modo como se devia actuar contra a guerra, ir ou não à tropa, ser refractário ou desertor, desertar onde e como e com quê (com as armas por exemplo).
O caminho da emigração política era complicado, implicava riscos consideráveis para se passar a fronteira, ou as fronteiras, porque havia duas antes de chegar a França, ambas perigosas. Fronteiras que se passava indocumentado, porque a maioria não era autorizada a ter passaporte quando estava em idade de cumprir o serviço militar.



Era o exacto oposto daquilo que hoje se chama uma "carreira", era um caminho de imprevisibilidades. Era, como diziam os pais sábios, "estragar a tua vida". Rompidos os laços com Portugal, que se presumiam sem retorno, o que é que se podia fazer lá fora, muitas vezes com poucos recursos e em ruptura também com a família? No Portugal do início dos anos sessenta, o "estrangeiro" era uma incógnita para um país periférico e isolado e era uma aventura ir para lá. Muitos dos que recusaram a guerra viveram com muitas dificuldades, trabalharam como contínuos, em fábricas, em restaurantes, em hotéis, em aviários, numa profusão de profissões menores e só alguns estudavam com as bolsas que eram dadas pelos países de acolhimento. É verdade que não durou muito, mas ninguém sabia que não iria durar muito. Alguns ficaram para sempre e vivem na Holanda, na França, na Suécia, na Itália, no Reino Unido. Para eles, Portugal perdeu-se de vez.

O que é que movia quem se recusava a fazer a guerra colonial? Ideologia, "anticolonialismo", ser contra Salazar, comunismo, pacifismo, objecção de consciência? De tudo um pouco, mas, bem vistas as coisas, a esta distância, é a mesma atitude que vejo nos homens de 1961 que aparecem nesta série televisiva: patriotismo. Por isso, uma natural proximidade devia envolver os homens desses dois mundos, cada um patriota a seu modo, acima de tudo na disponibilidade de viver uma vida difícil e perigosa por alguma coisa que não era individual, mas estava acima do conforto de cada um.

(Versão do Público de 19 de Abril de 2008.)

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17.5.11

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1.12.12



ÍNDICE DO SITUACIONISMO: A LIBERDADE DE IMPRENSA CAPTURADA 

A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

Alguém  me explique,-  não que eu precise, mas outros sim, - o silêncio absurdo e muito, muito preocupante, da nossa comunicação social (incluindo blogues e "redes sociais") face aos sucessivos artigos do Jornal de Angola, orgão do MPLA e do governo, sobre Portugal e os portugueses. E o silêncio do governo, o silêncio dos comentadores, e o silêncio do silêncio. Eu e outros somos sujeitos a insultos pessoais miseráveis, mas isso é um pequeno preço a  pagar para provocar um debate público sobre o que se está  a passar e a "captura" da nossa liberdade pública pelos interesses coligados do dinheiro de cá, com o dinheiro de lá. Como os insultos, as ameaças (que também há) e a baixaria generalizada não me intimidam, aqui vai exemplo de um Rui Ramos que escreve no Jornal de Angola sobre os portugueses:

O povo português é tradicionalmente um povo pobre, povo de olhar o chão para ver se encontra centavos, tostões ou cêntimos. Mas de repente votou num poder que lhe abriu as portas do paraíso artificial. Desatou a contrair empréstimos para comprar primeira, segunda e terceira habitação, carros para cada membro da família, computador para cada membro da família, cão para cada membro da família, um telemóvel por cada operadora para cada membro da família.
Os bancos fizeram o seu trabalho de casa, deram empréstimos a cada membro da família, deram cartões de crédito, cinco para cada membro da família, até bebé tem cartão de crédito e empréstimo bancário em Portugal.
Narizes empinados, até pareciam ricos. Parecia que estavam a crescer, a subir. Tinha até motorista de autocarro 463 que não parava na paragem quando trabalhadora cabo-verdiana tocava. Trabalhar para pretos?
Menina mais castanha era chamada de “suja”, vai para a tua terra. Presidente da Câmara de Lisboa apanhou sol desde os tempos dos avós e muitas pessoas chamavam-lhe “o preto da Câmara”. Gostam muito de chamar “pretinho”, gostam mesmo.
De repente acabou a teta da loba, secou, voltou ao que era, como sempre foi: país muito pobre. Quase dois milhões no desemprego para o resto da vida. Prosperam negócios ilegais, nas cervejarias trafica-se droga na cara da polícia, à luz do dia assaltam-se pessoas e supermercados impunemente, a polícia diz que não pode fazer nada.
Então chegam notícias, não de Preste João, mas da teta angolana: tem leite enriquecido.
Chiu, não chama mais preto, eles não gostam e não te dão visto. E então a procissão de nossa senhora da esperança avança para Alcântara, enche o passeio como uma jibóia. Marcam lugar, vão rápido no bar, menina, uma bica bem escura, eu não sou racista. Na bicha só se ouve “eu não sou racista, nunca fui, eu nunca chamei preto a ninguém, acho que me vão dar visto…
Esses são os desgraçados, arruinados, miseráveis de um país no abismo. Outros vivem desses. Os candongueiros, os fugitivos dos impostos, mas também os intelectualóides que já foram paridos com um livro na mão. Passam lá de madrugada quando voltam para casa e ao verem aquela bicha espumam como cão vadio, põem cara de podre e murmuram “pretos da merda”, passam na bicha e trombeiam “aquilo lá é uma ditadura, os chineses comem pessoas…”.


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19.11.11


ÍNDICE DO SITUACIONISMO (139):  
"INFORMAÇÃO" PRODUZIDA PELO MINISTÉRIO DE NEGÓCIOS ESTRANGEIROS (E PELO DA ECONOMIA) CONFORME RECOMENDAÇÕES DO GRUPO DE TRABALHO PARA A DEFINIÇÃO DO SERVIÇO PÚBLICO

A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

 No programa da SIC "Expresso da Meia-Noite" de ontem discutiu-se, entre jornalistas, universitários e homens de negócios, as oportunidades para a economia portuguesa em Angola, à luz da recente viagem do primeiro-ministro. Numa hora de debate, a palavra "corrupção" não foi pronunciada uma única vez, pelo que o debate não foi certamente sobre Angola.

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22.5.08


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: A ENTROPIA DO PORTUGUÊS



Há uns 3 ou 4 anos requisitei no I. Camões de S.Tomé um livro que vim depois a constatar, já em Lisboa, ser uma raridade. Nem na B.N. há registo dele! Apesar de os autores, os prof. Pinto Peixoto e Carvalho Rodrigues, terem lá bastantes registos. Trata-se de SISTEMAS, ENTROPIA E COESÃO. O último apêndice do livro é um trabalho – Evolução da Língua Portuguesa – feito por um aluno do prof. Peixoto em 1987 para a cadeira de termodinâmica generalizada e contém uma abordagem interessantíssima ao português desde ainda antes da independência, baseando-se numa análise de textos dos mais variados autores até aos nossos contemporâneos. Trata-se duma tentativa de quantificação da entropia da língua e no fim aparecem umas curvas cronológicas. Bom, o melhor será ler o livro.

Como é óbvio, assim que voltei a S. Tomé pedi ao Irº.Robalo, que há mais de 40 anos dirige a única tipografia que lá existe, que me fotocopiasse o livro. Posteriormente, em Portugal, passei-a para o power point. Tendo estado em Portugal em Março/Abril assisti aos debates acerca do acordo ortográfico. Entretanto voltei ao Dondo, em Angola, e há dias atrás reli o tal apêndice. Quer-me parecer que se o dito acordo for avante daqui a uns tempos quem quer que vá actualizar as tais curvas cronológicas constatará uma evolução da entropia do português num sentido anormal.

(José Braz Baptista, Dondo, Angola)

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24.1.12


COISAS DA SÁBADO: PARA QUE SERVE A “INFORMAÇÃO” DA RTP?

Um bom exemplo da razão pela qual o governo pretende ficar com um canal informativo na RTP, a mais escusada das razões porque a SICN e TVI24 cumprem essa função, é porque o poder politico quer controlar a propaganda dos seus actos. O último Prós e Contras, realizado em Luanda, é um bom exemplo de como nada mudou desde as sessões de propaganda típicas de José Sócrates. Agora são com Miguel Relvas, antes eram com Sócrates, antes eram os aviõezinhos a levantar da OTA em videogame e agora é uma sessão que podia bem ter sido feita antes do 25 de Abril. Até o toque do folclore exótico a despropósito com umas pretas de tronco nu vestidas com os ademanes tribais, podiam bem passar num documentário do SNI. 

De facto, o que leva a RTP em aperto financeiro a enviar uma equipa à cidade mais cara do mundo, gastar tempo de satélite, deslocar pessoas e bens para acabar por fazer um pífio exercício de propaganda centrado nos estereótipos sobre a relação entre Portugal e Angola, bem longe de qualquer realidade? O que leva a tão deprimente e caro exercício de banalidade absoluta, a não ser dar tempo de antena a um ministro, por singular coincidência o mesmo que tutela a RTP, acolitado pelos mesmos de sempre, os mesmos que acompanhavam José Sócrates e lhe davam a mesma caução que agora dão a este governo como a darão a outro que venha a seguir? 

Eu compreendo que, sendo tudo tão mau e banal, por cá a propaganda não seja muito eficaz, mas o mesmo já não pode ser dito por lá. Por lá, há um efeito de poder neste pobre programa: nenhum membro da elite angolana poderia perceber que um ministro português fosse importante e poderoso se ele não andasse, como eles andam, com a televisão do estado à rédea. Relvas quis mostrar em Angola que por cá é poderoso, tão poderoso que traz a televisão pública à ilharga como qualquer general-empresário angolano faz com a TPA. Já não é a primeira vez que isto acontece: com o mesmo ministro em Moçambique, a falar à vontade das instruções que deu à Lusa para a cobertura de um colóquio em que participou e que, aliás, não correu bem lá, mas isso foi por cá foi silenciado.

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1.10.06


RETRATOS DO TRABALHO EM LOBITO, ANGOLA



CUPAPATA é um serviço de táxis muito comum no sul de Angola. Não se encontra em Luanda.

(Carlos Guerreiro)

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20.11.05


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÃO E OUTROS MEDIA
(20 de Novembro)



Em breve, mais sugestões para o nome alternativo ao LENDO/VENDO.

*

Contrastes: uma péssima reportagem sobre se há médicos a mais ou a menos nos hospitais, no noticiário principal da RTP1. Tudo feito em cima do joelho e dominado por um directo em que uma menina perguntava aos doentes numa urgência se estavam a ser bem atendidos ou não. Tudo sem uma ideia, sem um fio condutor, sem qualquer profissionalismo, enchendo o tempo com banalidades e ouvindo as pessoas que estavam na sala de espera a dizer coisas completamente diferentes do esperado. Alguém me explica qual a razão de um directo desta natureza, casuístico, confuso, caótico, na parte mais nobre do telejornal? Ah! Controlo de qualidade que não existe, negligências que ninguém corrige, mau uso do nosso dinheiro. Logo que esteja em linha, vale a pena ver como é um péssimo trabalho.

Contrastes: pelo contrário, magnífica reportagem da SIC sobre o Martim Moniz como "lugar" de diferentes culturas, civilizações, religiões. Em poucos minutos, um retrato como deve ser das comunidades, com personagens certas e típicas e com a câmara dentro do mundo delas: o altar hindu; o angolano que fez a guerra dos dois lados (deve ter começado na UNITA e depois ter sido integrado no exército governamental), uma personagem viva e a merecer ter as oportunidades de estudo que procura (contou como noticiou à família que já não estava em Angola: mandou uma foto com os pombos do Rossio, e como em Angola, os pombos comem-se, tinha que ser noutro sítio...); uma cabo-verdiana cabeleireira a falar sentidamente das "saudades"; uma família chinesa a explicar, num português sincopado, por que é que não percebia a incapacidade da polícia em prender os ladrões da sua loja e a dizer que os polícias só gostavam de papelada; o indiano a contar com pena que os filhos já não percebiam o Diwali e não queriam voltar à Índia; a jovem chinesa a dizer que não tinha gostado de Lisboa, porque lhe parecia “velha” …. Tudo na primeira pessoa dito por pessoas.

*

Já tinha anotado aqui este livro de Joachim Köhler/Stewart Spencer, Richard Wagner. The Last of the Titans, mas agora, que já o li , insisto porque vale mesmo a pena. A narração da vida de Wagner, entrelaçando os fios da sua permanente agitação interior, mulheres, leituras, ego, política, lugares, com o seu programa estético resulta num quadro que nos dá a respiração wagneriana quase sem fôlego. Vemos as cenas: Wagner, no seu palazzo veneziano, frio, húmido, quase sem dinheiro, sofrendo de um quisto numa perna, tendo acabado de romper com Mathilde Wesendock, lendo Schopenhauer e começando o Tristão e Isolda. Ou a morte de Wagner, que Köhler trata quase sem pormenores, nem drama, com Wagner contorcendo-se subitamente com falta de ar, perante uma aterrorizada criada e depois morrendo diante de Cosima, que o mandou enterrar na parte de trás da casa, onde já estavam enterrados os seus cães, “para o manter sempre debaixo dos seus olhos”.

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© José Pacheco Pereira
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