ABRUPTO

28.11.12


ÍNDICE DO SITUACIONISMO

A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

O silêncio incomodado com Angola continua em pleno. Embora aqui tenha causa própria, visto que esta "dinamite cerebral das elites portuguesas" do Jornal de Angola de 26 de Novembro me diz respeito, a verdade é que há aqui muito que justificaria notícia. Depois não digam que não há bruxas...

Aqui vai o editorial completo, com sublinhados meus, já que a política e a comunicação social portuguesa  parecem não querer falar mais do assunto:

"Angola tem feito os impossíveis por dar à CPLP a importância que merece e sobretudo para que cumpra o seu principal objectivo: ser um espaço de defesa e promoção da Língua Portuguesa, das culturas dos Estados membros e de solidariedade. Quando ainda Angola estava no meio de uma guerra de agressão sem precedentes em África, choveram pressões para que aderíssemos ao projecto. José Eduardo dos Santos, um dia despiu o camuflado, vestiu o fato e foi a Lisboa participar na fundação da CPLP. Desde então, Angola tem dado o seu melhor por este projecto de futuro e que pode ser importantíssimo para os povos que falam a Língua Portuguesa.
Mas nestes anos há também os que deram o seu pior. As elites portuguesas que nas últimas décadas partilham o poder em Portugal tentaram fazer da CPLP aquilo que a França e Inglaterra fizeram no espaço dos seus antigos impérios. A cultura dos Estados membros é tratada com desprezo. Foi imposto um Acordo Ortográfico que transforma a Língua Portuguesa numa coisa que ninguém lê sem tropeçar em obstáculos. Nos jornais e televisões só interessa aquilo que encaixa no modelo de oportunismo histórico das elites europeias. No Portugal da CPLP actual, os governos africanos são tratados como ditaduras corruptas e ferozes, apesar de realizarem eleições regulares e serem exemplos de democracia, boa gestão e exercício da cidadania.
Angola não se sente bem nesta CPLP que recebe mal e persegue os bens e os investimentos dos angolanos em Portugal, ao mesmo tempo que aumenta como nunca a entrada de empresários portugueses no mercado angolano, em vários ramos da economia, incluindo no sector dos Media. Em Portugal os políticos e jornalistas fazem tudo para manchar e impedir que os negócios dos empresários angolanos se realizem com normalidade, ou pelo menos nas mesmas condições de reciprocidade que os seus colegas portugueses encontram em Angola. Apesar de, desde há muito, haver vários órgãos de comunicação social em Angola comprados por portugueses, há presentemente na imprensa lusa uma nojenta campanha contra empresários angolanos que estariam interessados em investir, legitimamente, neste sector em Portugal.

As razões de tanto azedume são evidentes. As distorções no seio da CPLP são provocadas pelas elites portuguesas que não foram capazes de se libertar dos fantasmas do passado, mesmo aqueles que se dizem amigos de Angola ou reclamam para si o estatuto de antigos lutadores anti-colonialistas.
Dou um exemplo. O político português José Pacheco Pereira foi convidado por mim a vir a este jornal para ver como aqui se faz jornalismo. Pacheco Pereira é um dos que mostra estar desactualizado em relação a Angola. Íamos aproveitar a sua presença para aprender com ele coisas que não sabemos ou sabemos pouco. Queríamos ouvir as suas críticas, os seus argumentos, as suas opiniões. Os jornalistas que aqui trabalham ficavam mais ricos. Mas Pacheco Pereira inviabilizou o convite. Ensinaram-me que quando alguém nos abre as portas de sua casa, devemos levar alguma coisa. Se formos de mãos vazias, então é obrigatório levar o coração limpo, amizade e cordialidade. Pensava eu que Pacheco Pereira se ia apresentar assim em nossa casa. Mas foi grosseiro e malcriado e reproduziu os defeitos morais que hoje atravessam a sociedade portuguesa. Os problemas dos portugueses têm a ver com a falta de civismo e não com um qualquer problema de falta de competetividade.

Mas Pacheco Pereira fez pior. Aproveitou-se do meu convite para, mais uma vez, lançar uma diatribe desatinada contra os dirigentes angolanos. Pacheco Pereira fez as habituais acusações sem provas, debitou argumentos sem consistência, mostrou que está encarquilhado pela inveja e o azedume, destilou ódio dissimulado num discurso pretensamente político. Os colonos quando viam um angolano com uma camisa nova diziam logo que era ladrão. No tempo do colonialismo, os angolanos só podiam andar rotos e descalços. Pacheco Pereira está no mesmo registo. Se aparece um angolano rico, é ladrão. Está muito enganado. Para mim, os ricos angolanos não são um tabu. Eu sei donde lhes vem a riqueza. Pelo menos aqueles que eu conheço, trabalharam muito, comeram o pão que o diabo amassou, arriscaram a vida dias, meses e anos seguidos. Merecem a riqueza que têm. Oxalá muitos mais angolanos enriqueçam.
Os países ocidentais, inclusive Portugal, disseram aos angolanos que tinham de aderir à economia de mercado.Angola aderiu ao capitalismo que Pacheco Pereira bem conhece. E cá estamos nessa via. As riquezas do Estado passaram para as mãos de privados, desde as casas onde viviam até aos espaços comerciais, às fazendas, propriedades industriais, minas e tudo o que era estatal. Essas riquezas são propriedade de angolanos. Angola tem direito a ter uma burguesia nacional que seja cada vez mais forte e mais rica. Que todos os angolanos sejam ricos! E no mínimo que todos vivam na paz e na abundância. Ricos, remediados e pobres, todos em Angola estão apostados em conseguir esse objectivo. 
Nos últimos dez anos a pobreza caiu em Angola mais de 40 por cento. Até ao fim da actual legislatura, esses números vão ser ainda mais expressivos. A pobreza em Angola tem os dias contados. É por isso que os angolanos, dentro do espírito de amizade e solidariedade para com o Povo Português irmão, fazem grandes investimentos em Portugal. Recebem de braços abertos empresários e trabalhadores que em Angola querem governar a sua vida ao mesmo tempo que nos ajudam a resolver os muitos problemas que ainda temos.  É por isso que os cofres de Angola têm cada vez mais riqueza e o Estado Social é potente. No próximo ano, o Orçamento de Estado reforçou as verbas para a Saúde e Educação. Os especialistas dizem que ainda é pouco. Em 2014 temos de melhorar ainda mais nesses campos. 
A única coisa que dispensamos é a pobreza de espírito, a mediocridade de intelectuais ignorantes, as agressões por actos e palavras aos nossos dirigentes políticos, democraticamente eleitos e que são alvos de investigações e perseguições abusivas dos poderes em Portugal. Se os políticos angolanos da oposição forem agredidos, também os defendemos sem hesitar. Só excluo aqueles de quem as elites portuguesas se servem para atacar Angola e embaciar a sua imagem.
A pobreza em Angola está em forte queda, mas em Portugal, as elites políticas esvaziaram os cofres do Estado e estão a empobrecer os portugueses de uma forma que mete pena.
Lá, sim, é preciso investigar por que a pobreza está a aumentar e é preciso saber para onde foi o dinheiro dos portugueses. E é fácil. Basta saber qual era o património dos velhos políticos antes do 25 de Abril de 1974 e qual é agora. Quanto aos políticos mais novos, basta saber qual era o seu património antes de entrarem para a política e qual é agora. Os políticos e jornalistas portugueses devem deixar de usar o nome de Angola para esconder as suas traficâncias e os escândalos de corrupção que conduziram fatalmente à crise.
Lembro que em Portugal os governos também ofereceram os bancos nacionalizados a grandes empresários portugueses. O actual Governo ofereceu as “golden share” a privados, quando se sabe, pelo exemplo da Portugal Telecom, que elas eram extremamente valiosas. Espero que Pacheco Pereira se pronuncie sobre isso mas sem cair na sua dinamite cerebral, na calúnia e na mentira, como fez em relação aos angolanos.
Os seus parceiros de debate na Quadratura do Círculo são juristas sabedores, inclusive o moderador. Pergunte-lhes o que é o Direito à Inviolabilidade Pessoal. Pode ser que tenha mais cuidado com o que diz. Por fim, um conselho: leia o meu editorial sobre a manchete falsa do “Expresso”. Se o fizer não vai dizer que eu insultei e ameacei. Esse não é o nosso estilo. "

O que me admira é que, após a resposta que dei ao convite do Jornal de Angola na Quadratura do Círculo, que justifica este editorial, tenha caído um grande silêncio sobre essa matéria. Admirar, na verdade, não me admira. Agora ninguém pode  deixar de estar atento a este editorial do jornal que exprime as opiniões do governo angolano. Tudo nele é revelador e interessante. Merecia muito mais atenção, mas as coisas são como são. Ou melhor, as coisas estão como estão. Aqui dá-se-lhe atenção.

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© José Pacheco Pereira
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