O programa do PSD vai no sentido certo e revela um trabalho considerável para encontrar soluções para os problemas nacionais. Deste ponto de vista é uma novidade na vida política nacional, ao ser um verdadeiro programa eleitoral. Sofre de algum irrealismo e desconhecimento da realidade nacional, mas não é nada que não se possa resolver no exercício da governação, que mostrará as diferenças entre um país e uma empresa e corrigirá na prática o que é receita abstracta.
Para além da primeira fractura PSD-CDS-PS, há uma segunda fractura entre o PS e o PSD que tem a ver com a proximidade entre cada partido e o programa do Memorando de ajuda externa. O PSD está muito mais próximo desse programa, daí a acusação do PS de que o desejou para obter, nas imposições externas, a força para implementar as medidas que desejava, mas não tinha capacidade de propor nem de aplicar pela sua impopularidade.
Por seu lado, o PS não só está mais longe como resiste ao programa do Memorando. Quererá torneá-lo, adiá-lo, evitá-lo e mesmo, nalgumas circunstâncias, não o aplicar.
Esta é a opção que se coloca ao eleitorado (descontando o voto a favor ou contra Sócrates) e é em grande parte intuitiva: quem deseja a resistência ao Memorando e imagina que tal é possível, vota PS; quem percebe que o programa tem um efeito corrector do papel do Estado e é uma espécie de última oportunidade, vota PSD.
[Esta parte do artigo foi transcrita no Financial Times: "(...) the Socialists plan to “sidestep, postpone, evade and, in some circumstances, simply not apply” the bail-out deal. Voters who wanted to “resist [the EU-IMF programme] and who believe that is possible” would vote Socialist, he wrote in a newspaper column. Those who understood that it would have a “remedial impact on the role of state” and was, “in effect, Portugal’s last chance” would support the PSD."]
Um dos próximos projectos do EPHEMERA é a cobertura das eleições legislativas de Junho de 2011. Apesar de haver cada vez menos material em papel, substituído por publicações electrónicas, mesmo assim algum existirá. Faço aqui de novo um apelo a todos os amigos do EPHEMERA para a recolha do maior número desses documentos, de todo o espectro político e mesmo os papeis “espontâneos”, de modo a poder fazer-se uma cobertura nacional das eleições .
Existe com Louçã a deferência de que ele é quem mais sabe de economia, dadas as suas qualificações académicas, e por isso toma-se a sério o que diz quando fala de economia. É um erro considerável, dado que o problema com Louçã e o BE é político e não económico. As propostas do BE não mostram qualquer especial saber económico; se as pensarmos no quadro da economia de mercado, são pura e simplesmente estapafúrdias, irrealistas e absurdas. Nenhuma proposta do BE é exequível no quadro de uma economia de mercado ou, para usar as palavras como se deve, em capitalismo. Não é difícil fazer um exercício sobre o que aconteceria ao país se o BE pudesse governar em seis meses aplicando o seu programa: o que mudava era o regime político, sair-se-ia da democracia e entrar-se-ia numa variante qualquer de ditadura.
A única verdadeira fractura é a que separa o PS-PSD-CDS do PCP-BE, que essa sim tem uma base ideológica que nem sequer os próprios "fracturantes" enunciam. Neste sentido, também eles renunciam a dar sentido político-programático à ruptura que fazem. Quer o BE quer o PCP aparentam a diferença como sendo de meras "políticas" no mesmo campo, quando as políticas do Memorando e as políticas do PCP-BE são incompatíveis porque a "economia" de cada um não comunica com a do outro: umas fazem-se no quadro da economia de mercado, as outras no quadro do socialismo "real".
A campanha está dominada por uma perversão: a substituição da política pela economia ou, se se quiser, a substituição da economia política pela tecnocracia. É mais uma consequência do facto de termos perdido a capacidade de nos governarmos a nós próprios, e estarmos condenados a cumprir um programa que não pode ir a votos. O resultado é uma discussão aparentemente "técnico-científica" das medidas do Memorando, sem enquadramento político-ideológico da sua execução.
Fragmentos da "Entrevista Complementar do Dr. A[fonso].C.[osta]", proibida pela censura. A entrevista foi dada por Afonso Costa, então exilado, em complemento de outra entrevista sobre as finanças portuguesas e a acção de Salazar, publicada em livro A Verdade sobre Salazar. Entrevistas concedidas em Paris pelo sr. Afonso Costa, ao jornalista brasileiro José Jobim. Salazar respondeu em nota oficiosa e Afonso Costa deu nova entrevista "complementar" ao mesmo jornalista.
COISAS DA SÁBADO: UM BOM EXEMPLO DA NOSSA SERVIDÃO
Uma das medidas que nos foram impostas é um bom exemplo de como se corre o risco de perder não só a democracia como o escasso resíduo de soberania que ainda sobrava. E este exemplo, de que não vi ninguém até agora falar e é da maior gravidade, é significativo de como os espíritos já estão acomodados e adormecidos: um grupo de funcionários estrangeiros decidiu cortar dez por cento das despesas com as Forças Armadas Portuguesas. Ou seja, decidiu em matéria que seria da mais estrita soberania nacional, na qual o interesse de Portugal como país está presente sem ambiguidades. E muitos dos que estão sempre a bater no peito com a pátria, acham isto a mais normal das coisas. Eu acho absolutamente anormal.
É preciso cortar despesas com as Forças Armadas neste ambiente de restrições? Muito bem, devia ser o governo português a fazê-lo e nunca admitir que fossem estrangeiros a decidir sobre um dos elementos fundamentais da nossa soberania, que é simbólico, mas não é só simbólico como quem sabe, sabe. Não é segredo de Estado que determinados interesses nacionais, incluindo as nossas fronteiras marítimas, precisam de ter lá navios, aviões, helicópteros, submarinos, não para entrar em guerra com ninguém, mas para que determinadas funções nos pertençam por direito próprio e, sendo assim, seja mais fácil reconhecer-nos a posse.
Eu percebo que para americanos, alemães e holandeses seja absurdo que Portugal possa querer ter forças armadas, mas para Portugal não é. Ou pensam que os pinheiros num pinhal são meus, sem ter lá ninguém a tomar conta deles? É só passar tempo e tudo se torna num baldio.
Nous trouvons de tout dans notre mémoire ; elle est une espèce de pharmacie, de laboratoire de chimie, où on met au hasard la main tantôt sur une drogue calmante, tantôt sur un poison dangereux.