O Primeiro-ministro José Sócrates visita a França por estes dias, numa viagem que coincide com a data do 9 de Abril que certamente não lhe dirá nada, nem a ele, nem aos seus assessores. Mas seria inconcebível um governante de qualquer país aliado, nas duas guerras mundiais do século XX, visitar a França no dia simbólico mais importante para honrar os seus mortos em combate, e não se dirigir a um dos gigantescos cemitérios que polvilham os antigos campos de batalha franceses. A 9 de Abril de 1918, na batalha conhecida como de La Lys, o Corpo Expedicionário Português foi massacrado pelos alemães, tendo sofrido quase 8000 baixas. Muitos dos que morreram estão sepultados em cemitérios militares na França, esquecidos dos portugueses. O Eng. Sócrates é um bom exemplo dessas gerações mais novas, sem memória e portanto sem respeito.
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Talvez a razão porque se fala e escreve tão pouco sobre a participação portuguesa na frente europeia da I Grande Guerra se relacione com o desconforto que uma análise imparcial dessa participação causaria em muitos de nós. Relatos insuspeitos falam de casos de grande dignidade e até de heroísmo, mas falam também de militares ingleses a obrigarem - à chapada - oficiais e soldados portugueses a não fugirem sem deixarem para trás os seus feridos.
(P.B.)
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Acabo de ver no «Abrupto» a indicação do n.º de baixas (mortos) nos teatros de operações de França e de África «rectificados» por um seu leitor, Luís Pinto de Sá. Na realidade, este senhor, relativamente a França anda próximo dos quantitativos oficiais, mas falha redondamente no que toca a África.
Assim, para que, (...) possa apontar os valores aceites oficialmente (constantes no Arquivo Histórico Militar e por mim publicados em Portugal e a Grande Guerra, Lisboa, Diário de Notícias, 2003 (fascículos), no capítulo intitulado «Portugal e a Grande Guerra. Balanço Estatístico» (pp. 547-552), informo que, em França, morreram 1.997 militares, em Angola, 810 e, em Moçambique, 4.811 todos do Exército e da Marinha morreram 142 no total; feridos incapacitados foram, pela mesma ordem, 5.359; 683; 1.600; e 30; desaparecidos, pela mesma ordem: 199; 200; e 5.500; militares dados como incapazes para todo o serviço, pela mesma ordem: 7.280; 372; e 1.283; prisioneiros, mais uma vez pela mesma ordem: 7.000 (dos quais 233 faleceram no cativeiro); 68; e 678.
Somando, o esforço português na Grande Guerra pode medir-se pelos seguintes números de baixas gerais: em França: 21.835; em Angola: 2.133; em Moçambique: 13.872; e da Marinha: 172. O total geral é de 38.012 baixas. Números consideráveis se tivermos em conta que o empenhamento militar foi, em Angola, cerca de dois anos, em Moçambique, quatro anos, e, em França, 22 meses efectivos.
(Luís M. Alves de Fraga)
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Em minha modesta opiniao, o minimo respeito e homenagem que soldados, e todos aqueles que perderam a vida a combater pela patria, com honra e dignidade, nas guerras para onde receberam Guia de Marcha para combater, pelos diversos governos de Portugal, seria depois de mortos, uma campa simples e digna num em cemiterio militar ou em talhao militar cuidado, no seu pais ou no estrangeiro.
Na realidade tal nao acontece agora, mas nem sempre foi sempre assim, durante os anos que se seguiram a I G M, foram sempre os ex-combatentes carinhados, e os combatentes falecidos alvo das maiores homenagens por todo o pais e ilhas. Observem-se as datas dos monumentos aos Combatentes que existem as centenas pelo pais. O Grande desinteresse deu-se ja na Segunda metade do seculo XX, ainda durante o tempo da ditadura, creio eu por varias razoes, entre as quais o desinteresse dos familiares dos falecidos nas Guerras em Africa na deposicao dos restos mortais dos seus entes queridos nos talhoes militares .
Com o fim do regime, a revolucao do 25 de Abril nao contribui para melhorar o panorama geral, havendo mesmo em varios sectores politicos um sentimento de quase raiva contra os nossos militares que morreram em Africa. Como se fossem eles os causadores da guerra que lhes trouxe a morte. O esquecimento dos militares que repousam nos Palops e a vergonha do nosso pais.
Todo este panorama, a que se junta o desinteresse e a ignorancia dos nossos governos e governantes aliados a falta de meios da Liga dos Combatentes, levou a que os talhoes militares ficassem votados ao abandono, e assim permanecam esquecidos os nossos caidos pela P'atria. Repare-se que nos ultimos anos, quando a Liga dos Combatentes tem homenageado os nossos mortos no Ultramar, quantas vezes la compareceu o ultimo Presidente da Republica? Uma , nenhuma? nao posso confirmar em 10 anos de mandatos quantas vezes ali compareceu? Vergonha? No mesmo periodo a quantos desafios de futebol assistiu, e quantas lagrimas de incontida emocao futebolistica derramou nesses estadios?
Em Inglaterra nao e assim. Naquele pais, todos os mortos pela patria tem o mesmo tratamento, quer tenham falecido no Somme em 1916, no Canal do Suez em 1956, na Normandia no dia D em 1944 ou em Samarra no Iraque em 2003. Existe uma Associacao sem fins lucrativos, por Decreto Real de 1918, com ligacoes ao Ministerio da Defesa, designada por Commonwealth War Graves Commission, na qual participam comissarios, ao mais alevado nivel, dos paises Commonwealth. Pode consultar-se para o efeito o site .
Esta organizacao desenvolve um extraordinario trabalho a todos os niveis, quer na manutencao e conservacao dos cemiterios militares ingleses por todo o mundo, como mantem ainda uma sepultura digital, em rede, com a maior quantidade de informacao disponivel sobre o militar, dados pessoais, foto, local onde perdeu a vida, se esta desaparecido ou onde esta sepultado assim como um resumo da sua folha de registo militar. Um trabalho a serio levado a cabo por gente a serio.
Nem a proposito, aparecerem na ultima quinta-feira, dia 13 de Abril de 2006 os restos mortais de 3 soldados ingleses, falecidos na I GM na Flandres. A achado teve lugar num campo de trigo, proximo de Ypres na Belgica, por equ ipas de voluntarios belgas que tem por hoby a arqueologia militar. Sobre este assunto consulte-se aqui.
Estes militares serao agoram devidamente sepultados, com todas as horras militares, e com a presenca de familiares, se eventual ainda existirem, o que sera sem duvida uma emocionante cerimonia para eles.
(João Botelho, sem acentos)
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A respeito deste assunto existe na Columbeira (perto do Bombarral) um dos locais, para os menos informados, da Batalha da Roliça, um memorial a um soldado Britânico morto em combate. Esta Batalha foi o primeiro confronto em Portugal entre as tropas luso-britânicas de Arthur Wellesley (futuro Duque de Wellington) e o exército de Junot (comandado nessa refrega pelo General Delaborde). A Batalha da Roliça representou o primeiro triunfo militar de Arthur Wellesley que teria o seu ponto mais alto na Batalha de Waterloo. Podemos encontrar nesse local um Túmulo (mandado erigir pelo exército Britânico) em memória do Coronel Lake que perderia a vida nessa batalha num ataque do seu 29º Regimento. O túmulo está em mal assinalado e em mau estado de conservação pois a autarquia pouco tem feito para conferir alguma dignidade ao local. De qualquer forma quer a sua construção (por alturas do centenário da Batalha - 1908) quer a sua manutenção tem estado a cargo do Worcestershire Regiment que herdou as insígnias do 29º Regimento. De referir aínda que este espaço é visitado regularmente pela British Historical Society que organiza visitas guiadas a este local. É de lamentar que um país como Portugal com uma história militar (e não só) riquissíma e com uma presença marcante em inúmeros locais do mundo não preserve e dignifique os espaços fisicos e os portugueses que (bem ou mal) levaram o nosso país mais além.
(Jorge Lopes)
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Alguns leitores seus “produzem” mais baixas portuguesas na Grande Guerra que as “spandau” alemãs!... Na Grande Guerra, as baixas portuguesas foram:
Na França – 2100 mortos + 200 desaparecidos. Isto no total!...
Em Àfrica – 2800 mortos e desaparecidos. 750 em Angola e 2100 em Moçambique.
Onde haveria de comemorar a nossa participação nessa guerra seria em Àfrica, não em La Lys! Só que isso seria recordar os motivos imperiais por que participámos na Guerra, o que ainda é motivo de vergonha… Aliás, essa batalha não é algo de que nos possamos orgulhar muito. Os alemães escolheram o sector português para a sua ofensiva desse dia por suporem com razão, ser o elo mais fraco da frente aliada – tal como os russos atacariam, em Estalinegrado, os sectores romenos, 24 anos depois… e os nossos oficiais não se portaram da melhor maneira, a avaliar pelos processos de que alguns foram depois alvo.
(...) Há anos que vejo nas televisões internacionais, ida de Reagan à Normandia, ou da rainha Isabel, e de outros tipos de governos estrangeiros irem, por ocasião do desembarque ou mesmo noutras ocasiões em visitas oficiais. Idas que tenham a ver com a Grande Guerra ou com a Segunda Guerra Mundial. Sempre estranhei não se mencionar os portugueses que morreram na Guerra de 14. Aliás presumo que o mesmo acontece na Guiné e creio que em Angola e Moçambique . As campas dos militares portugueses estão entregues aos bichos. As embaixadas e os adidos militares estão-se marimbando para este assunto. Lembro-me de ver uma reportagem há anos, por aí, no Expresso.
Queria só dizer-lhe o seguinte: a última vez que vi uma reportagem na Skynews, ou outra do género, fiquei a saber que quando os agricultores franceses encontram ossadas no meio dos campos os ingleses tentam descobrir o nome ou a sua origem, pois normalmente são soldados, e se são ingleses, fazem enterros militares "à séria" com bandeira nacional e enterram-nos nos cemitérios militares, que aliás estão impecáveis. Será que as campas dos soldados portugueses da Grande Guerra estão tratadas minimamente? Será que se mantêm um respeito mínimo pelos militares portugueses?
Esta ida de Sócrates a 9 de Abril e não existir ninguém no staff que lhe lembre ou informe, ou o embaixador ou o adido militar em Paris não o informarem e sugerirem incluír no programa da visita uma deslocação em helicóptero, ou coisa que o valha, a um sítio como La Lys acho inacreditável. Será que não sabem? Não estão a par destas coisas? (...)
(José Maria Montargil)
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(...) o que me leva a escrever é exactamento um comentário seu na sua crónica semanal da Revista Sábado, da qual sou leitor assíduo, do qual descordo por crer que excessivo. No que diz respeito à visita do Primeiro Ministro a França numa data tão importante para o passado português, não aqui querendo desculpar o Engº Sócrates, mas falo sim em nome das gerações mais novas, que acusou de falta de memória e sem respeito. Julgo que ninguém pode ser acusado de falta de respeito involuntáriamente. Se não sabem, ou é porque tal data não é devidamente leccionada nas escolas, ou porque como se tratou de uma derrota não a querem lembrar, e ou ainda, porque provavelmente não são devidamente mencionadas nos manuais escolares.
Isto sim uma preocupação maior. Julgo que o passado é o melhor caminho para compreender o Presente e preparar o futuro. A falta de respeito que cita para mim não existe nesse sentido. A Real falta de respeito vem de uma questão maior: da incapacidade ou mesmo falta de vontade em solucionar o problema. Os sucessivos governantes preferem o povo ignorante a tê-lo "sabido".