ABRUPTO

15.4.06


NUNCA É TARDE PARA APRENDER:
AMERICANOS, MERCADO NEGRO, GASOLINA, PARADAS MILITARES

Le char Romilly, premier char allié entré dans Paris le 24 août 1944

Antony Beevor, Paris After the Liberation, 1944-1949

Picture of Paris After the Liberation, 1944-1949Nos primeiros meses após a libertação de Paris, ainda a guerra continuava, os soldados americanos eram os heróis. Eram divertidos, sem preconceitos, e tinham tudo o que faltava à cidade: gasolina, rações de combate, meias de nylon. Foi uma festa, como se sabe. Depois a coisa começou a azedar. Muitos soldados e oficiais americanos meteram-se no florescente mercado negro e alguns associaram-se a grupos criminosos que tornaram Paris uma cidade muito perigosa à noite. Era só uma questão de tempo até os ciúmes cumpriram a sua função e espicaçarem os jovens franceses contra os GIs, na partilha dos favores femininos. Por fim, chegou a política, fundindo a hostilidade de De Gaulle aos americanos, com a propaganda comunista anti-americana do início da guerra fria. Depois das meias de nylon, veio a gasolina: os americanos ( e neste caso também os ingleses) ficavam furiosos com a mania das paradas militares que De Gaulle repetia umas atrás das outras. Para colocar a França à força entre os vencedores da guerra, De Gaulle fazia desfilar a divisão Leclerc por tudo e por nada. Nas bancadas, onde estavam por obrigação diplomática, os americanos viam passar todo o seu material de guerra, tanques, fardamentos, armas, transportes, cedido aos franceses, gastando a preciosa gasolina que faltava, sem a mínima bandeira, insígnia, referência à proveniência de tudo.

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LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)
(15 de Abril de 2006)


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Paredes das Caldas da Rainha:


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COISAS DA SÁBADO: MEMÓRIA E RESPEITO



O Primeiro-ministro José Sócrates visita a França por estes dias, numa viagem que coincide com a data do 9 de Abril que certamente não lhe dirá nada, nem a ele, nem aos seus assessores. Mas seria inconcebível um governante de qualquer país aliado, nas duas guerras mundiais do século XX, visitar a França no dia simbólico mais importante para honrar os seus mortos em combate, e não se dirigir a um dos gigantescos cemitérios que polvilham os antigos campos de batalha franceses. A 9 de Abril de 1918, na batalha conhecida como de La Lys, o Corpo Expedicionário Português foi massacrado pelos alemães, tendo sofrido quase 8000 baixas. Muitos dos que morreram estão sepultados em cemitérios militares na França, esquecidos dos portugueses. O Eng. Sócrates é um bom exemplo dessas gerações mais novas, sem memória e portanto sem respeito.

*
Talvez a razão porque se fala e escreve tão pouco sobre a participação portuguesa na frente europeia da I Grande Guerra se relacione com o desconforto que uma análise imparcial dessa participação causaria em muitos de nós. Relatos insuspeitos falam de casos de grande dignidade e até de heroísmo, mas falam também de militares ingleses a obrigarem - à chapada - oficiais e soldados portugueses a não fugirem sem deixarem para trás os seus feridos.

(P.B.)

*

Acabo de ver no «Abrupto» a indicação do n.º de baixas (mortos) nos teatros de operações de França e de África «rectificados» por um seu leitor, Luís Pinto de Sá. Na realidade, este senhor, relativamente a França anda próximo dos quantitativos oficiais, mas falha redondamente no que toca a África.

Assim, para que, (...) possa apontar os valores aceites oficialmente (constantes no Arquivo Histórico Militar e por mim publicados em Portugal e a Grande Guerra, Lisboa, Diário de Notícias, 2003 (fascículos), no capítulo intitulado «Portugal e a Grande Guerra. Balanço Estatístico» (pp. 547-552), informo que, em França, morreram 1.997 militares, em Angola, 810 e, em Moçambique, 4.811 todos do Exército e da Marinha morreram 142 no total; feridos incapacitados foram, pela mesma ordem, 5.359; 683; 1.600; e 30; desaparecidos, pela mesma ordem: 199; 200; e 5.500; militares dados como incapazes para todo o serviço, pela mesma ordem: 7.280; 372; e 1.283; prisioneiros, mais uma vez pela mesma ordem: 7.000 (dos quais 233 faleceram no cativeiro); 68; e 678.

Somando, o esforço português na Grande Guerra pode medir-se pelos seguintes números de baixas gerais: em França: 21.835; em Angola: 2.133; em Moçambique: 13.872; e da Marinha: 172. O total geral é de 38.012 baixas. Números consideráveis se tivermos em conta que o empenhamento militar foi, em Angola, cerca de dois anos, em Moçambique, quatro anos, e, em França, 22 meses efectivos.

(Luís M. Alves de Fraga)

*

Em minha modesta opiniao, o minimo respeito e homenagem que soldados, e todos aqueles que perderam a vida a combater pela patria, com honra e dignidade, nas guerras para onde receberam Guia de Marcha para combater, pelos diversos governos de Portugal, seria depois de mortos, uma campa simples e digna num em cemiterio militar ou em talhao militar cuidado, no seu pais ou no estrangeiro.

Na realidade tal nao acontece agora, mas nem sempre foi sempre assim, durante os anos que se seguiram a I G M, foram sempre os ex-combatentes carinhados, e os combatentes falecidos alvo das maiores homenagens por todo o pais e ilhas. Observem-se as datas dos monumentos aos Combatentes que existem as centenas pelo pais. O Grande desinteresse deu-se ja na Segunda metade do seculo XX, ainda durante o tempo da ditadura, creio eu por varias razoes, entre as quais o desinteresse dos familiares dos falecidos nas Guerras em Africa na deposicao dos restos mortais dos seus entes queridos nos talhoes militares .

Com o fim do regime, a revolucao do 25 de Abril nao contribui para melhorar o panorama geral, havendo mesmo em varios sectores politicos um sentimento de quase raiva contra os nossos militares que morreram em Africa. Como se fossem eles os causadores da guerra que lhes trouxe a morte. O esquecimento dos militares que repousam nos Palops e a vergonha do nosso pais.

Todo este panorama, a que se junta o desinteresse e a ignorancia dos nossos governos e governantes aliados a falta de meios da Liga dos Combatentes, levou a que os talhoes militares ficassem votados ao abandono, e assim permanecam esquecidos os nossos caidos pela P'atria. Repare-se que nos ultimos anos, quando a Liga dos Combatentes tem homenageado os nossos mortos no Ultramar, quantas vezes la compareceu o ultimo Presidente da Republica? Uma , nenhuma? nao posso confirmar em 10 anos de mandatos quantas vezes ali compareceu? Vergonha? No mesmo periodo a quantos desafios de futebol assistiu, e quantas lagrimas de incontida emocao futebolistica derramou nesses estadios?

Em Inglaterra nao e assim. Naquele pais, todos os mortos pela patria tem o mesmo tratamento, quer tenham falecido no Somme em 1916, no Canal do Suez em 1956, na Normandia no dia D em 1944 ou em Samarra no Iraque em 2003. Existe uma Associacao sem fins lucrativos, por Decreto Real de 1918, com ligacoes ao Ministerio da Defesa, designada por Commonwealth War Graves Commission, na qual participam comissarios, ao mais alevado nivel, dos paises Commonwealth. Pode consultar-se para o efeito o site .

Esta organizacao desenvolve um extraordinario trabalho a todos os niveis, quer na manutencao e conservacao dos cemiterios militares ingleses por todo o mundo, como mantem ainda uma sepultura digital, em rede, com a maior quantidade de informacao disponivel sobre o militar, dados pessoais, foto, local onde perdeu a vida, se esta desaparecido ou onde esta sepultado assim como um resumo da sua folha de registo militar. Um trabalho a serio levado a cabo por gente a serio.

Nem a proposito, aparecerem na ultima quinta-feira, dia 13 de Abril de 2006 os restos mortais de 3 soldados ingleses, falecidos na I GM na Flandres. A achado teve lugar num campo de trigo, proximo de Ypres na Belgica, por equ ipas de voluntarios belgas que tem por hoby a arqueologia militar. Sobre este assunto consulte-se aqui.

Estes militares serao agoram devidamente sepultados, com todas as horras militares, e com a presenca de familiares, se eventual ainda existirem, o que sera sem duvida uma emocionante cerimonia para eles.

(João Botelho, sem acentos)

*

A respeito deste assunto existe na Columbeira (perto do Bombarral) um dos locais, para os menos informados, da Batalha da Roliça, um memorial a um soldado Britânico morto em combate. Esta Batalha foi o primeiro confronto em Portugal entre as tropas luso-britânicas de Arthur Wellesley (futuro Duque de Wellington) e o exército de Junot (comandado nessa refrega pelo General Delaborde). A Batalha da Roliça representou o primeiro triunfo militar de Arthur Wellesley que teria o seu ponto mais alto na Batalha de Waterloo. Podemos encontrar nesse local um Túmulo (mandado erigir pelo exército Britânico) em memória do Coronel Lake que perderia a vida nessa batalha num ataque do seu 29º Regimento. O túmulo está em mal assinalado e em mau estado de conservação pois a autarquia pouco tem feito para conferir alguma dignidade ao local. De qualquer forma quer a sua construção (por alturas do centenário da Batalha - 1908) quer a sua manutenção tem estado a cargo do Worcestershire Regiment que herdou as insígnias do 29º Regimento. De referir aínda que este espaço é visitado regularmente pela British Historical Society que organiza visitas guiadas a este local. É de lamentar que um país como Portugal com uma história militar (e não só) riquissíma e com uma presença marcante em inúmeros locais do mundo não preserve e dignifique os espaços fisicos e os portugueses que (bem ou mal) levaram o nosso país mais além.

(Jorge Lopes)

*

Alguns leitores seus “produzem” mais baixas portuguesas na Grande Guerra que as “spandau” alemãs!... Na Grande Guerra, as baixas portuguesas foram:

Na França – 2100 mortos + 200 desaparecidos. Isto no total!...

Em Àfrica – 2800 mortos e desaparecidos. 750 em Angola e 2100 em Moçambique.

Onde haveria de comemorar a nossa participação nessa guerra seria em Àfrica, não em La Lys! Só que isso seria recordar os motivos imperiais por que participámos na Guerra, o que ainda é motivo de vergonha… Aliás, essa batalha não é algo de que nos possamos orgulhar muito. Os alemães escolheram o sector português para a sua ofensiva desse dia por suporem com razão, ser o elo mais fraco da frente aliada – tal como os russos atacariam, em Estalinegrado, os sectores romenos, 24 anos depois… e os nossos oficiais não se portaram da melhor maneira, a avaliar pelos processos de que alguns foram depois alvo.

Pode-se consultar aqui.

(José Luís Pinto de Sá)

*

(...) Há anos que vejo nas televisões internacionais, ida de Reagan à Normandia, ou da rainha Isabel, e de outros tipos de governos estrangeiros irem, por ocasião do desembarque ou mesmo noutras ocasiões em visitas oficiais. Idas que tenham a ver com a Grande Guerra ou com a Segunda Guerra Mundial. Sempre estranhei não se mencionar os portugueses que morreram na Guerra de 14. Aliás presumo que o mesmo acontece na Guiné e creio que em Angola e Moçambique . As campas dos militares portugueses estão entregues aos bichos. As embaixadas e os adidos militares estão-se marimbando para este assunto. Lembro-me de ver uma reportagem há anos, por aí, no Expresso.


Queria só dizer-lhe o seguinte: a última vez que vi uma reportagem na Skynews, ou outra do género, fiquei a saber que quando os agricultores franceses encontram ossadas no meio dos campos os ingleses tentam descobrir o nome ou a sua origem, pois normalmente são soldados, e se são ingleses, fazem enterros militares "à séria" com bandeira nacional e enterram-nos nos cemitérios militares, que aliás estão impecáveis. Será que as campas dos soldados portugueses da Grande Guerra estão tratadas minimamente? Será que se mantêm um respeito mínimo pelos militares portugueses?

Esta ida de Sócrates a 9 de Abril e não existir ninguém no staff que lhe lembre ou informe, ou o embaixador ou o adido militar em Paris não o informarem e sugerirem incluír no programa da visita uma deslocação em helicóptero, ou coisa que o valha, a um sítio como La Lys acho inacreditável. Será que não sabem? Não estão a par destas coisas? (...)

(José Maria Montargil)

*

(...) o que me leva a escrever é exactamento um comentário seu na sua crónica semanal da Revista Sábado, da qual sou leitor assíduo, do qual descordo por crer que excessivo. No que diz respeito à visita do Primeiro Ministro a França numa data tão importante para o passado português, não aqui querendo desculpar o Engº Sócrates, mas falo sim em nome das gerações mais novas, que acusou de falta de memória e sem respeito. Julgo que ninguém pode ser acusado de falta de respeito involuntáriamente. Se não sabem, ou é porque tal data não é devidamente leccionada nas escolas, ou porque como se tratou de uma derrota não a querem lembrar, e ou ainda, porque provavelmente não são devidamente mencionadas nos manuais escolares.

Isto sim uma preocupação maior. Julgo que o passado é o melhor caminho para compreender o Presente e preparar o futuro. A falta de respeito que cita para mim não existe nesse sentido. A Real falta de respeito vem de uma questão maior: da incapacidade ou mesmo falta de vontade em solucionar o problema. Os sucessivos governantes preferem o povo ignorante a tê-lo "sabido".

(Paulo Pereira)

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EARLY MORNING BLOGS 757

A Palidez do Dia


A palidez do dia é levemente dourada.
O sol de inverno faz luzir como orvalho as curvas
Dos troncos de ramos Secos.
O frio leve treme.

Desterrado da pátria antiqüíssima da minha
Crença, consolado só por pensar nos deuses,
Aqueço-me trêmulo
A outro sol do que este.

O sol que havia sobre o Parténon e a Acrópole
O que alumiava os passos lentos e graves
De Aristóteles falando.
Mas Epicuro melhor

Me fala, com a sua cariciosa voz terrestre
Tendo para os deuses uma atitude também de deus,
Sereno e vendo a vida
À distância a que está.


(Ricardo Reis)

*

Bom dia!

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14.4.06


COISAS DA SÁBADO : FUTEBOLÂNDIA



Num debate organizado pelo Clube dos Jornalistas na 2 com os correspondentes estrangeiros em Portugal, para comparação das agendas dos órgãos de comunicação social nacionais e internacionais, todos eles se referiram à perplexidade que lhes causa o papel absurdo que o futebol tem em Portugal. Seria impensável, dizia um deles, que as eleições para a direcção de um clube desportivo, abrissem um telejornal, e um caso como o do “apito dourado” dificilmente teria a politização que cá tem e a correspondente cobertura comunicacional. É mesmo impensável que no Reino Unido, tão apaixonado pelo futebol, existissem diários desportivos como em Portugal (não há nenhum, está em criação um). Numa semana em que, mais uma vez, Portugal foi a Futebolândia, com horas obsessivas diante dos ecrãs todos, com uma média de quatro telejornais a abrirem com cada jogo individual, antes e depois do jogo, não contando as inúmeras vezes em que o mesmo jogo volta no interior do mesmo noticiário. A Futebolândia é um dos melhores retratos do nosso subdesenvolvimento.

*
Concordo com o que diz acerca da importância do futebol em Portugal, mas por vezes essas coisas impensáveis acontecem noutros países. Talvez tenha passado despercebida em Portugal toda a polémica na Alemanha após a derrota por 4-1 frente à Itália, com vários deputados a exigir a presença do seleccionador Klinsmann perante uma comissão parlamentar, e a audiência tocante com Angela Merkel, que compreende a situação do treinador porque é parecida com a sua.

O Japão não foi poupado por este editor da Slate:

"Japan's cup delusion indicates a larger phenomenon: In economic matters, Japan is becoming increasingly unlike the American image of Japan. In the American mind, Japan is a nation of efficiency, hard work, and self-sacrifice, in which prosperity only comes from punishing labor. But Japan is embracing the reward-without-work philosophy that is the hallmark of, well, Americans. Japan has become gullible, believing in quack remedies for its severe economic illness. Prime ministers promise salvation through painless economic reforms. Now the World Cup is supposed to restore the economy with some vague soccer magic. Just hold a monthlong soccer fiesta and everything will be glorious again, as if Zinedine Zidane and Luis Figo can make the nonperforming loans vanish or fix the rigid school system or inspire a generation of risk-taking entrepreneurs. Starting today, Japan learns that soccer is a game, not an economic plan." (Artigo completo)

(Paulo Almeida)

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RETRATOS DO TRABALHO EM TAVIRA, PORTUGAL


Salinas de Tavira.

(João Caetano Dias)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: BUSINESS FREE ENVIRONMENT



Há 2 anos e meio ,uma paisagem verde foi devastada na zona do pinhal no distrito de Castelo Branco. Da casa onde passo alguns fins de semanas, e alguns dias de férias durante o ano, apenas via o verde e ouvia o vento por entre os pinheiros .Hoje só vejo gigantescas ventoinhas eólicas e um conjunto de serras carecas. As populações que vivem na povoação junto ao “parque eólico”, não conseguem descansar de tanto é o zumbido das pás das ditas ventoinhas. Felizmente disso não tenho de suportar…apenas uma paisagens lunar, desértica e escaldante alguns dias no ano. Da madeira não há já nada, reflorestação é mentira ( se calhar está á espera daqueles pacotes businessfreeenvironment, tão sui-generis, do estilo do nosso primeiro ministro , the one and only best dress socialist-capitalist lover…e destinados não aos proprietários…esses malandros absentistas…mas a algum senhor da pasta de papel..pois ).Desta ecologia ameaçada não se vê queixa. Portugal está a ficar careca …e sem tratamento.

(...) Para que conste, e por ser verdade, o concelho é o de Proença-a-Nova , a povoação é a aldeia de Vale d´Urso.

(António Carrilho)

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BONS DIAS, GOOD MORNING, BONJOUR

Acabei de dar os bons dias e recebo um e-mail que dizia "bonjour" por parte do Administrateur Exécutif du Comité d'Attribution des Marchés et Contrats Corporation Nationale Pétrolière CI, da Costa do Marfim, um nome que é já todo um tratado de sociologia política:
Bonjour,

Je suis Docteur Amobé Séko Philipe, de la République de Côte d'Ivoire, Administrateur Exécutif du Comité d'Attribution des Marchés et Contrats à la Corporation Nationale Pétrolière de Côte d'Ivoire (C.N.P.C.I). J'ai été dans cette position durant les 5 (cinq) dernières années mais, je n'ai rien qui puisse montrer cela, j'aurais aimé qu'ensemble, nous formions un partenariat d'affaires avec pour critères exclusifs l'honnêteté et la confiance, partenariat dans lequel tous les deux, nous tirerons énormément profit.

En ma qualité d’Administrateur Exécutif du Comité d'Attribution de Marchés et Contrats, je vous octroierai une faveur d'un contrat de 21 millions (€ 21.000.000 Euros) pour la fourniture à nos Forages, Plateformes et Raffineries, de Turbines à Gaz, Turbocompresseurs, Foreuses verticales, Enrobeuses, Anneaux Pipelines et d'équipements, ainsi une avance sur frais de 10,5 millions Euros sera mobilisée à vous en tant que fournisseur au départ pour commencer le travail."
O resto todos sabem o que é.

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EARLY MORNING PICTURE



Sexta feira santa.

(Gil Coelho)

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EARLY MORNING BLOGS 756

Permanently


One day the Nouns were clustered in the street.
An Adjective walked by, with her dark beauty.
The Nouns were struck, moved, changed.
The next day a Verb drove up, and created the Sentence.

Each Sentence says one thing—for example, "Although it was a dark rainy
day when the Adjective walked by, I shall remember the pure and sweet
expression on her face until the day I perish from the green, effective
earth."
Or, "Will you please close the window, Andrew?"
Or, for example, "Thank you, the pink pot of flowers on the window sill
has changed color recently to a light yellow, due to the heat from the
boiler factory which exists nearby."

In the springtime the Sentences and the Nouns lay silently on the grass.
A lonely Conjunction here and there would call, "And! But!"
But the Adjective did not emerge.

As the Adjective is lost in the sentence,
So I am lost in your eyes, ears, nose, and throat—
You have enchanted me with a single kiss
Which can never be undone
Until the destruction of language.


(Kenneth Koch)

*

Bom dia, Nomes!

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13.4.06


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: A PÁSCOA NO PAÍS REAL



Vou passar a Páscoa numa aldeia da Beira-Baixa que tem uma centena de habitantes com uma média de idades superior a 70 anos e onde o único computador existente é o meu portátil - e só quando lá estou.

Telefones, há dois ou três; Internet, só existe em dois lugares, a meia-dúzia de quilómetros de lá (na vila), e nem sempre está a funcionar - e muito menos aos fins-de-semana. (Havia um Net-post nos CTT, mas foi retirado). As outras possibilidades (eventuais, pois não sei sequer se existem) são a 25 km, em Castelo Branco.

E é num país assim que uns citadinos lunáticos querem que se pague o selo do carro só através da Internet - e outras coisas igualmente sem pés nem cabeça.

(C. Medina Ribeiro)

*
A possibilidade do «selo do carro» poder vir a ser pago exclusivamente pela Internet motivou um coro de protestos e um sobressalto que atravessou o país de lés a lés. Porque muita gente não tem condições para ter Internet em casa, porque é um acto de liberdade prescindir da ligação à Internet mesmo que se tenham condições, porque um grande número de portugueses não sabe navegar no ciberespaço… Esta é quiçá uma argumentação válida, mas pouco reflectida, pois considero a medida positiva, com exequibilidade e pode significar um avanço civilizacional. Passo a explicar.

Para aqueles que estão habituados a lidar com as novas tecnologias, a possibilidade de realizar este serviço no conforto do lar, no local de trabalho, frente a um terminal ligado à Internet é uma bênção. Para todos os outros avessos à utilização das modernas tecnologias de comunicação aos poucos poderão aquilatar das suas vantagens. Se em todas as juntas de freguesia, municípios, em todas as aldeias, vilas e cidades houver pontos públicos de acesso à net e que funcionem devidamente, será incrivelmente fácil implementar a medida em benefício dos utentes e proprietários de veículos que terão toda a comodidade de aceder ao serviço, ultrapassando o desperdício de trabalho e incómodo de se deslocar à Repartição Pública.

Os mais distraídos dirão que a medida acarretaria muito investimento dos municípios ou da Administração Central. Também errado. Na prática já existem esses locais públicos de acesso ao ciberespaço que são os denominados Gabinetes de Apoio ao Cidadão (GAC). Estes postos de atendimento nas Juntas de Freguesia foram criados porque não é credível que todas as pessoas tenham proximamente Internet nas aldeias, daí constituírem uma porta para a rede mundial. Infelizmente eles não funcionam e não têm cumprido o seu papel, pois não se demonstra às pessoas a sua utilidade, conforto e facilidade. Os GAC ou afins podem fazer a interface entre a pessoa e o serviço público que está na sede de concelho, de distrito, na capital, etc. para além de todas as outras possibilidades de comunicação. Os serviços públicos de acesso à Internet podem passar para além da iniciativa privada por outras redes de ciberpontos ou tão simplesmente pela itinerância do autocarro camarário pelos locais concelhios.

Assim, julgo que será com a obrigatoriedade de aceder a determinados serviços pela rede digital que se implementará uma sociedade mais moderna, informatizada e em consequência se elevará o nível de alfabetização digital da população.

(José Alegre Mesquita)

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RETRATOS DO TRABALHO EM LAGOS , PORTUGAL


Escolhendo o peixe na lota de Lagos (Agosto 2005).

(José Fernandes Santos)

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POLÍTICAS PARA FAZER OPOSIÇÃO



Deslocou-se o PS para o "centro", onde tradicionalmente habitava o PSD, ocupando um espaço político que o asfixia? Como se pode fazer oposição contra um governo que parece realizar com mais determinação as reformas que sempre foram defendidas pelo PSD? Não é possível, ou é difícil, tomar uma posição distinta, que demarque o PSD do PS? Todos os dias é possível encontrar este tipo de afirmações, que me levam a uma reacção do género: tretas, bullshit. Quisesse o PSD e todos os dias se perceberiam claras e distintas as diferenças, onde há diferenças. O problema, também tão claro e distinto, está no "quisesse".

Exemplos? Não faltam, embora exijam coragem e nalguns casos rupturas com o passado, mais com as atitudes tomadas do que com posições programáticas. E não faltam exemplos, porque o PS pode andar na dança das cadeiras entre os lados da sala, mas verdadeiramente não se senta em nenhuma, a não ser naquela em que já está sentado, uma cadeira onde os pés são os impostos, e as costas e braços o Estado. O primeiro-ministro quer fazer dessa cadeira um móvel de design, inteligente e com luzes a brilhar, mas é mais deslumbramento do que substância.

Vamos aos exemplos. Deixo de lado todo o terreno habitualmente mais debatido da configuração do Estado e do seu papel na economia. Não porque não seja decisivo, mas sim porque me parece aí evidente que o que falta à oposição é assumir uma política liberal consistente, menos presa à vulgata do liberalismo teórico e mais concentrada num esforço continuado para diminuir sempre o Estado onde ele não é preciso, encontrar sempre soluções do lado da sociedade, privilegiar a iniciativa da liberdade individual e não a da engenharia social. Aí, as distinções possíveis, não as que existem hoje, mas as que deveriam existir, são tão flagrantes que não vale a pena estar a arrombar portas abertas: o país precisa de mais liberdade e de mais liberalismo.

Deixemos também de lado as chamadas "questões fracturantes" que, ou são folclore radical que chegou ao mainstream pela máquina destiladora do "politicamente correcto", ou então são matéria de consciência e de vida privada, em que o Estado não devia meter-se. É um sinal da degradação da nossa vida pública e do esvaziamento político dos principais partidos portugueses que essas "fracturas" tenham tido a dimensão que tiveram, se tornassem, e regularmente se tornem, questões centrais da agenda política. O máximo resultado que dão é produzirem mais legislação de engenharia social, que manterá a sociedade exactamente como estava antes.

Exemplos de zonas de oposição? Comecemos por uma, tão crucial quanto ignorada e reprimida: a política externa, a visão global de uma política externa no mundo tal como é hoje. Defrontando questões como o Iraque, a Bósnia, as relações transatlânticas, a construção europeia (que ainda é uma questão de política externa), as relações com os PALOP, onde não existe hoje um corpo de pensamento, mas apenas continuidades que passam por ser "política de Estado", ou meras posições oscilantes ao sabor da decisão de outros. Um país que tem tropas na Bósnia, que participa nominalmente no esforço de reconstrução do Iraque, que alterou a sua Constituição para aprovar um Tratado Constitucional, que tem um problema simbólico de identidade com Espanha, que tem uma larga comunidade emigrante pelos cinco continentes, que partilha uma das línguas mais faladas no mundo, pensa muito pouco no que se está a passar à sua volta.

Comecemos com Espanha. Não é preciso ir mais longe - Espanha está a mudar muito devido à crescente força das suas autonomias, que os entendimentos com a ETA vão fortalecer. O desenho político do Estado espanhol está muito mais fragmentado, e se é fácil aos portugueses encontrar uma Espanha unitária na economia, já é cada vez mais difícil encontrá-la na política externa, em que Zapatero causou perplexidades e estragos a um caminho de "grande potência" que Aznar seguia. Que implicações tudo isto tem para nós? Não estudamos, não conhecemos, não sabemos e por isso o "Espanha, Espanha, Espanha" do primeiro-ministro é tão vazio como o pragmatismo sem princípios que passeou por Angola. Em todas estas matérias não há hoje doutrina, mas uma sucessão de posições ao sabor da opinião pública.

Passemos para a questão do terrorismo apocalíptico dos nossos dias, associado a todos os problemas confrontacionais de carácter cultural e civilizacional com o fundamentalismo muçulmano, envolvendo a questão israelo-palestiniana, a situação no Iraque, e, no limite, o fosso entre parte da União Europeia e os EUA. Aqui sei mais o que pensa o PS de Sócrates (que não é o mesmo do PS de Gama), do que sei o que pensa o PSD, porque este deixou degradar o seu pensamento com medo da impopularidade de algumas posições que nunca defendeu como devia - como seja a participação de Portugal na cimeira dos Açores. Mas também sei que em todas estas matérias se exige uma ideia estratégica. E a haver um esforço de clarificação, perceber-se-á como é fundamental alicerçar uma oposição à política externa socialista, que encontra em Freitas do Amaral um dos seus expoentes mais radicais. Que melhor terreno para os partidos de oposição para fazer oposição, onde ela faz falta, numa matéria como a política externa, onde a tradição de consenso é hoje em grande parte feita de ambiguidades?

Querem outro exemplo de diferença numa área crucial para o futuro e qualidade da nossa democracia e do espaço público? A defesa da privatização total dos órgãos de comunicação social do Estado. Aqui o PSD já teve posições muito distintas, tendo já defendido na liderança de Marcelo Rebelo de Sousa essa privatização total, depois, com Barroso, recuou. O historial prático não é brilhante: enquanto governo foi tão estatista como o PS, controlou a comunicação social pública como o PS, mas tem a seu favor nesta área a privatização de uma parte da comunicação social pública e a abertura do espaço audiovisual ao sector privado. Há muitas razões de fundo para olhar para o sector da comunicação social pública de modo inteiramente distinto daquele que é habitual hoje. Há razões políticas, culturais, económicas e tecnológicas, para se fazer essa mudança, que é, aliás, inevitável por causa da revolução na produção, gestão e divulgação da informação e do entretenimento.

Muitos outros exemplos de diferenças em que se podem alicerçar políticas de oposição necessárias apareceriam se olhássemos para o nosso país tal como ele é: um tecido desigual de muito arcaísmo e pouca modernidade, com tendência para que a modernidade seja moldada pelo arcaísmo, um misto de práticas subdesenvolvidas, com muito escassas "boas práticas", com pequeno enraizamento social. O Governo PS mostra pouca sensibilidade com esta realidade, deslumbrado que está pelo brilho tecnológico de receitas sem qualquer correspondência com a nossa realidade social.

Aqui há uma verdadeira cornucópia de linhas de actuação alternativas: desde a afirmação crucial do papel da mentalidade empresarial, que para se gerar da escola para o trabalho, implicaria mudar, e muito, as velhas universidades e pôr em causa os seus poderes corporativos; até à formulação de uma nova política agrícola, que também se tornou terreno apenas de práticas de resistência ou de adaptação aos subsídios europeus e que precisa mais do que nunca de uma visão de conjunto. O mesmo se pode dizer da necessidade de, de uma vez por todas, mudar o centro da política de "cultura" estatal, baseada na subsidiação, a favor de uma distinção entre políticas patrimoniais e políticas de animação e educação, que ganham em ser realizadas por outro tipo de ministérios, como o da Economia e da Educação.

O país está a entrar num novo desenvolvimentismo ecológico, ou seja a utilizar argumentos que eram clássicos dos grupos ecológicos, como seja a crítica às energias não renováveis, para criar áreas de negócios "verdes" que trazem consigo novos riscos e pressões ambientais que ninguém quer tratar como tal. É o caso da desaparição progressiva da paisagem natural com a instalação maciça de parques eólicos. Esta nova economia "ecológica" fará tantos estragos como a antiga se não se travar a corrida para o lucro predador que já está em curso, e não será do PS que virá essa preocupação.

Depois, a agenda da economia, no sentido lato de "economia política", não é a dos jornais económicos, como pensam os yuppies socialistas e sociais-democratas. Falta nessa agenda muita coisa que não pode ser ignorada na acção política: o mundo do trabalho, o mundo das micro-empresas, a agricultura, o novo tecido social gerado pelas mudanças económicas, desde o impacte do desemprego nas expectativas de vida, as novas formas de conflitualidade social, até aos problemas gerados pela emigração, a que fechamos muitas vezes os olhos.

Não faltam, como vimos, muitas áreas em que se sabe o que o PS, os seus Governo e primeiro-ministro pensam, fazem ou não fazem e até onde vão. Ora, toda uma outra visão de Portugal existe e faz diferença. Esse Portugal precisa de oposição, precisa de alternativas. É verdade que muitos dos exemplos que dei são polémicos na oposição, porque escapam ao terreno comum em que PS e PSD têm gerido, muitas vezes em continuidade, o Estado. Mas se não se quer mesmo morrer asfixiado e dar razão aos teóricos da ocupação do "espaço político" tem que se fazer uma revisão profunda em todas as áreas fundamentais da política. Uma revisão do que se fez, das posições tradicionais tidas no passado, e dos problemas do presente. Se tal for feito, ver-se-á como há mais razões, históricas, programáticas e ideológicas, para defender estas alternativas do que para andar a mexer por turnos o mesmo caldeirão.

( No Público.)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: TEMPESTADES COIMBRÃS
http://www.rosings.com/coimbra.jpg

(Sobre a nota LENDO O LE MONDE DIPLOMATIQUE, JUNTO AO MONDEGO, NUM DIA CINZENTO, AO LADO DO BARCO "BASÓFIAS", junto da qual se pode encontrar uma primeira série de comentários.)

Para descentrar um pouco o debate, uma citação de Fernando Pessoa sobre "o provincianismo português":

«Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num sindroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.
O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.
O sindroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.»

Recomendo o texto completo.

(João Filipe Queiró)

*

Viva
(de novo uma reacção ao Abrupto, de Pacheco Pereira, que pelo menos veio até Coimbra, provavelmente não para ouvir o ministro do ambiente, de cuja vinda eu própria só soube hoje, depois do debate na Assembleia da República...),

Susto e pavor, diz ele, a propósito das mulheres que em Coimbra viu! E talvez com alguma razão, mas não andarão elas um pouco por todo o lado, incluindo em Lisboa? Muito compostinhas e bem comportadas, intervieram hoje à tarde no debate da Assembleia da República deputadas de todos os partidos, em termos ideológicos de forma praticamente indistinta, a respeito do projecto de lei de apoio às vítimas de violência transfronteiriça. Mas moita a respeito de outro assunto em debate! (Refiro-me a um de que já aqui tenho falado várias vezes).

Bem poderão começar a tirar uma especialização em enfermagem, as mulheres de Portugal. É pelos vistos nesse papel que gostam mais de se ver, e é esse seguramente o papel (não remunerado) que mais tarde ou mais cedo lhes irá caber, pelo menos às de Coimbra. Ou então sentem-se bem no papel de secretárias e de empregadas domésticas. Para além de no de donas ou empregadas de boutiques... Tudo fruto de um destino (ou «desígnio» inter)nacional. Porque, nestas condições, quem deseja verdadeiramente ser mãe?
Ou ler um livro, para adquirir a consciência (incómoda) da dimensão a que a exploração chegou?
As estatísticas da natalidade confirmam-no.

Um certo (en)fado, seguramente, transforma-as em fadas. Ainda havemos de as ver (às deputadas no parlamento) a limparem o suor da testa aos seus comparsas homens, entretidos nas suas engalfinhações retóricas e por vezes quase versejantes (salvo raras excepções: Carloto Marques foi hoje essa excepção, porque disse ao que vinha com autenticidade - a voz tremia-lhe um pouco - e sem encenações machistas).

Já vejo uma aura de ouro redondinha a nascer à volta da cabeça de muitas mulheres portuguesas, deputadas ou não, como nas representações medievais dos santos. O pior é que, antes de o círculo dourado da auréola se fechar, os dois semi-círculos que o formam, surgindo lentamente a partir de baixo, fazem com que a dada altura aquilo se pareça com uma meia-lua, equiparável a dois cornos de vaca. É dessa imagem da mulher que se alimenta boa parte da economia que nos afecta. Não há destino que não possa por vezes dar em desatino...

Quase nenhuma mulher em Portugal questiona as matérias duras da economia, salvo honrosas excepções (Heloísa Apolónia foi hoje uma dessas excepções, mas cingiu-se demasiado à temática do ambiente, que possui contornos por vezes demasiado angelicais).

Berardo põe mulheres nuas arqueando o corpo no Centro Cultural de Belém, sem garantias de o Estado não sair financeiramente lesado, e a Cultura em Portugal (há uma mulher à frente desse ministério, por sinal...) fez o favor de aceitar a desfeita.

Pacheco Pereira queixa-se das livrarias de Coimbra. Não será por acaso que isso acontece...
É que em Coimbra é inaugurada em breve mais uma Fnac, na margem esquerda do Rio, num centro comercial megalómeno que abre dentro de dias (depois de há um ano ter sido inaugurado outro, deixando os restantes às moscas...). Quando se desce a Avenida Sá da Bandeira vê-se agora, por cima da silhueta daquilo que em tempos foi o agradabilíssimo mercado municipal de Coimbra, semi ao ar livre, a torre colorida de um espampanante e por sinal gigantesco centro comercial. Obviamente que não foi inocente a escolha do local, aliás no sítio onde antes se localizava uma fábrica têxtil entretanto falida. Aí trabalhavam sobretudo mulheres. Talvez algumas tenham agora uma lojeca de trapos ou de colares de madeira com «coraçõezinhos».

Ora, no folheto de apresentação da Fnac, que bem poderia situar-se no Pólo 1 da Universidade, nem um livro vemos: apenas aparecem promoções de equipamento electrónico, desde computadores portáteis a câmaras de filmar, e o fado - sempre o fado - como chamariz, pois então. Ah, que saudades da minha biblioteca poeirenta e desarrumada, sem estilo nem design! Apetecia-me sentar-me lá num fim de tarde, com um livro bem velhinho e uma boa chávena de chocolate quente. Ouvindo o Requiem de Mozart.

Não me excluo da culpa por as coisas serem assim e por o conceito de cultura ser hoje tão restritivo e espumoso, sobretudo para as mulheres portuguesas. Mas - independentemente das definições que circulam - não deixo também de me sentir vítima dessa mesma cultura opressiva e até violenta, porque ela no fundo nos humilha.

De qualquer modo, se elas, as mulheres, não assumirem esse papel de fadas benfazejas, eles alguma vez o assumiriam? É aqui que está (eternamente?) o cerne do problema da nossa incultura. Bem hajam aqueles (poucos) homens que são capazes de dar um passo em frente na mudança que urge fazer contra esta quantidade imensa de sorrisos amarelos na política portuguesa. E que não o fazem apenas para depois se contemplarem ao espelho, extasiados com o «estatuto» alcançado.

(Adelaide)

*

Surpreendente é para mim o sonho do leitor Paulo Agostinho. Sonha com uma Fnac, o antro do consumismo, dos jogos de computador, televisores de plasma e "gadgeteria" diversa, onde também há alguns livros e uns comes e bebes. Afinal ainda vai ser a "culture française" que vai inundar da "modernidade" as nossas tristes e baças cidades. Na passada, liberalize-se o preço do livro e rapidamente, nem livrarias "inimagináveis de provincianas, escuras, mal abastecidas" existirão.

Os homens sonham com uma Fnac ao pé da porta, onde se deslocarão de automóvel, como em tempos as donas de casa sonharam com um hipermercado. Eu sonho com mercearias e livrarias de referência. Dispenso essa alegre "modernidade", sou um autêntico selvagem.

(José Rui Fernandes)

*

A baixa e a alta de Coimbra, a estação de comboios Coimbra B, pararam no tempo. Coimbra parou no tempo. Mas é por isso mesmo que se torna tão enternecedora. Os gatos errantes nos becos, as calçadas íngremes, aqui e ali um grupo alegre de matriculados na Universidade (quais estudantes!), descontraídos e com olheiras, as velhas républicas, as lojas de moda completamente demodés, os restaurantes às moscas, a Queima à porta, a festa da Rainha Santa como há 40 anos, o ar leve da Primavera e aquela tranquilidade típica da irracionalidade e do provincionalismo puros (nos resultados do ano lectivo, dos lucros do comércio, na necessidade da cidade se modernizar…). Coimbra é uma canção, de sonho e tradição. A lua a faculdade. Ai, Saudade. Adoro a minha cidade!

(Helena Oliveira)

*

Também leio o “Le Monde Diplomatique”, mas nunca o li nem junto ao Mondego nem ao lado do “Basófias”. Questão de gosto, é claro.
Aqui vivo há 50 anos. Nunca deixei de comprar um livro que desejasse. A melhor colecção de Jornalismo, por exemplo, é editada aqui; são os livros que me interessam particularmente. É mais fácil encontrá-los em Coimbra do que noutro lado qualquer. Os de Direito, confesso, passam-me ao lado. Mas se também os há, e bons, tanto melhor.
E se não há algo que me interessa e cá não há, como vou por vezes a Lisboa e ao Porto, as FNAC são pontos de passagem obrigatórios. Outras vezes, navego pelas “ciber-livrarias”. É fácil, acredite; e muito mais seguro desde que inventaram o Mbnet.

Quanto a Coimbra-província pura, deixe-me dizer-lhe que fico feliz pela avaliação. Esse é o objectivo de quem cá está, acredite. Coimbra é uma aldeia; somos 120 mil e conhecemo-nos quase todos uns aos outros. Vive-se bem, acredite.

PS – Quando concluíram a auto-estrada Lisboa-Porto muitos disseram que Coimbra iria morrer. Enganaram-se: melhorou (e muito!) a nossa qualidade de vida. Continuamos provincianos, cidadãos do mundo.

(Mário Martins, Coimbra)

*

Não deixa de ser engraçado como continuamos a achar que tudo vemos sabemos a partir de uma mera observação. De facto, o que vemos vem dos nossos pressupostos, mais do que das observações. Os elefantezinhos e companhia em nada perdem para as folclóricas tias do Herman e as suas correspondentes reais - há-as em todo o país, ainda que sem a pronúncia da Linha.

Quanto ao andar "vestido à padre", não vejo que mal tenha isso, da mesma maneira que não vejo que mal tenha andar de fato e gravata ou andar vestido à punk. São linhas conformistas - mesmo as supostamente mais anti-conformistas, por vezes indicadoras de falta de autonomia para decidir. Acho é estranho o adjectivo "poeirentos". Talvez onde estava, sem dúvida: é piso de terra - seco, presumo - é natural que as capas levantem algum pó. Mas é de facto algo que deixa um sorriso, não propriamente um incómodo, quando se passou pela cidade. A vida académica é bem mais rica do que noutras que conheci - e não me refiro ao folclore: há um contacto rico entre colegas de todas as áreas académicas, em actividades muito diversas, não apenas nos colegas do "grupo" ou "da faculdade". Há debate intelectual (e parvoíce comum, claro), há contacto com outras realidades - muito forte.

As livrarias são um aspecto cada vez menos importante neste particular, especialmente nas áreas técnicas: há acesso a informação actualizada via Web, há acesso ao inventário de quase todos os livros do mundo via Web, em vez de cingido às existências de uma livraria; há acesso barato a esses mesmos livros, quando decidimos comprá-los. O papel (nos dois sentidos) da livraria física continua válido, mas muito menos importante. Sim, as lojas da baixa estão decadentes - por culpa própria, pois impedindo a concorrência "moderna" dos centros comerciais até recentemente, era mais fácil subsistir.

Quanto às capas, usadas por muitos por apego e gosto pela tradição, são algo a louvar, pois é um uso mais autêntico do que tê-las meramente para efeitos administrativos de formatura ou cerimónia. E tanto jeito dá poder passar uns tempos só a ter de ter limpas e lavadas as camisas brancas e calças pretas, desde que não se suje a batina nem a capa... Que jeito dá ter uma capa para a noite fria, para por em cima da relva, para objecto ou fetiche de companhia... Enfim, compreendo a existência do seu ponto de vista, mas passa-me ao lado.

(Leonel Morgado)

*

Serei breve, mais pelo piscar de olho à amiga que mandou o Blog (não sou grande leitor do género, mas em cidades pequenas as notícias correm depressa…), do que para expiar a gravidade da ofensa ou o orgulho ferido… longe de mim, quero mesmo supor que todos têm razão, simplesmente quando J. fala de P., fica-se a saber mais de J. do que de P.… Neste cômputo, o choupal serviria tão bem ao desfecho, como o novo estádio municipal... Mas vamos às livrarias. Tudo uma questão de perspectiva, diria eu, e as cidades prestam-se muitos bem a todos os enganos.

Cresci sempre com a impressão de que Coimbra era uma cidade boa apenas para se nascer. A abertura de uma livraria a meias com amigos, foi a única razão suficiente para me fazer ficar uns anos mais. A ideia era nova e desempoeirada: uma espécie de extensão mais bem composta da estante lá de casa, num sítio aprazível, central e moribundo como convém, a uns metros do largo onde o Nozolino fez o retrato perfeito de uma cidade. A coisa tinha bom ar, embora fosse pintada a tinta barata. Uma única área disciplinar (a que conhecíamos melhor), bastante entrecruzada para não parecermos obsessivos e porque éramos jovens e atentos. Os livros nacionais ficavam de resto em desvantagem com os estrangeiros, apenas e só porque a produção local será sempre diminuta em relação a tudo o que se produz. A livraria durou o que durou, o tempo que a cidade quis e nem um pingo de nostalgia ou de rancor, tempo suficiente para ouvir o elogio de quem garantia ser uma das mais raras livrarias de arquitectura existentes no mundo. OK. Tanto faz. Finis laus Deo.

(abro parênteses apenas para reparar uma meia-verdade: a livraria não fechou, continua aberta – fechada apenas, como as cidades, para quem não se der ao trabalho de dar por elas.)

(vasco pinto, Coimbra)

*

A descrição que faz de Coimbra é a do turista acidental que encalha num sítio que dizem ser o "centro da cidade" e que visto o centro viu tudo.
De facto o basófias e companhia são deprimentes. Mas há mais cidade!
Ouvi dizer que o Sena propunha como as duas mais importantes medidas pós queda do regime a extinção da PIDE-DGS e da Universidade de Coimbra! Provavelmente nunca disse nada disso mas a idéia tinha boas raízes. O problema é que o mundo mudou e as cidades com o mundo. Com certeza o que procura não está onde procura e o que lhe é devolvido na procura não é Coimbra é Portugal!

1. Livrarias
Não vejo grande diferença entre Coimbra e Lisboa ( não estou a falar de alfarrabistas). O panorama é de uma mediocridade confrangedora. Com a FNAC prevista para abrir a 26 deste mês menor a distância.

2. Universidade
Tem centros de excelência reconhecidos por avaliadores internacionais. Tem maus cursos e bons cursos. É demasiado grande e diversificada para ser boa ou má. Está à nossa medida. Entretanto o Salazar já morreu.

3. Vida cultural
Medíocre. Qualquer cidade francesa com o mesmo número de habitantes produz 10 vezes mais cultura que Coimbra. Assim como qualquer capital europeia que se preze produz 10 vezes mais cultura que Lisboa. Sobre a chamada área metropolitana do Porto não convém falar. Obviamente o 10 é um número como outro qualquer e o conceito de produção cultural é aquele que se quiser.

4. Iniciativas da sociedade civil: clubes; ongs; centros de convívio. Tudo muito mau. O costume em Portugal. Existe a televisão.

5. Capas e batinas.
Teve sorte em vê-las. Vivo cá e só as lobrigo nas festas académicas. A pavarosa Queima, a ridícula Latada, etc. Trata-se de folclore cretino. Existe em muitas cidades do mundo dito civilizado.

(Alberto Costa)

*

Não querendo abusar da sua paciência, e mesmo sabendo que não quererá transformar o assunto num diálogo entre os seus leitores, não queria deixar de informar, com referência ao comentário do senhor Paulo Agostinho, que pelo menos numa das três livrarias da Bertrand em Coimbra (uma delas, a maior do pais, segundo penso), encontrará concerteza o Evelyn Waugh, o Goethe e o Dickens, alguns deles em edições estrangeiras, não só da Penguin. Isto, supondo, razoavelmente, que os livros indicados no site da própria Bertrand também se vendem nas suas lojas de Coimbra. Mas posso estar enganado e numa próxima oportunidade irei confirmar.

(António Maçarico, Coimbra)

*

Uma nota que seria injusto não fazer. Coimbra possui uma excelente livraria especializada em Banda Desenhada, que está a entrar no mundo virtual e da venda online . Chama-se Dr Kartoon e aí encontram-se muitas publicações estrangeiras (inevitavelmente, já que pouco se deve publicar em português no campo da BD).

Paulo Agostinho

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LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)
(13 de Abril de 2006)


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Excelente ideia do Kontratempos: sugestões para desburocratizar a partir de casos reais. Por exemplo, a obtenção do ISSN.

*

Mário Bettencourt Resendes, "Tempo de ressurreição" , no Diário de Notícias sobre uma prática que falta na nossa imprensa: os obitários de qualidade.

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RETRATOS DO TRABALHO NA NAZARÉ, PORTUGAL


Vendendo amendoins no Sítio, Nazaré, Abril 2006.

(António Ferreira de Sousa)

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EM BREVE

a animada discussão dos leitores do Abrupto sobre Coimbra, suscitada pela nota LENDO O LE MONDE DIPLOMATIQUE, JUNTO AO MONDEGO, NUM DIA CINZENTO, AO LADO DO BARCO "BASÓFIAS", continuará aqui em cima.

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COISAS DA SÁBADO : OS PRÓXIMOS TRÊS ANOS: TEMPESTADE OU BONANÇA?


Olhando para os próximos três anos a primeira impressão de uma pessoa que viva dentro daquilo que se chama agenda mediática é a de uma acalmia anormal no plano político. O governo está confortável na sua maioria absoluta e o estilo autoritário do Primeiro-ministro dá o quanto de confiança necessário, fazendo a propaganda o resto; o Presidente está lá, sólido e previsível, garantindo um módico de equilíbrio para o sistema e impedindo abusos; a oposição está confinada ao seu deserto árido, com lideranças que todos consideram a prazo, mas que ninguém quer substituir por reserva e má fé. Tudo explodirá um pouco, ou talvez quase nada, daqui a dois – três anos na febre das novas eleições, não faltando quem ache que essas eleições manterão tudo como está.

Este olhar é comum naquelas pessoas que são politizadas, acompanham a vida pública com atenção, lêem o Expresso no fim-de-semana, discutem política, são da classe média na maioria dos casos e de meia-idade. Este é o país a que pertence a maioria dos produtores e consumidores activos de informação em Portugal.

E no entanto… No entanto, a aparente acalmia política só pode ser aparente, a não ser que o mundo de palavras, intenções e anúncios a que assistimos seja puramente fantasmático, o que também é só por si uma receita para a perturbação. Tomemos ou não o governo a sério, os resultados sociais só podem ser os mesmos: os próximos três anos só podem ser anos de grande conflitualidade, e é impossível que essa conflitualidade não passe para a política.

Tomemos as reformas que o governo anuncia pelo seu valor facial. Elas significam desemprego, despedimentos e desqualificações na função pública, racionalização de serviços, encerramento de instituições regionalizadas, aumento do custo de vida, mais impostos, menos salários, mais precariedade, pobreza e mediania, onde já não há pobreza absoluta. As expectativas que já são baixas irão ser ainda mais baixas. Se as reformas são para ser reformas, são para equilibrar o orçamento, diminuir as despesas, aumentar as receitas, racionalizar o estado, só podem ter este caminho no túnel, para haver luz no fim de um túnel que não se sabe bem que tamanho tem. Se nada disto acontecer, a crise continuará a agravar-se e fora dos sectores privilegiados pelo estado, os mesmos efeitos se farão sentir.

Por isso convém não tomar como adquirida a paz pública e o sossego político. A não ser se já estivermos todos mortos sem dar por isso, o que também não é impossível de acontecer.

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RETRATOS DO TRABALHO EM BANGKOK, TAILÂNDIA


Vendendo amendoins em Bangkok (2004).

(José Fernandes Santos)

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EARLY MORNING BLOGS 755

QUASI UN MADRIGALE

Il girasole piega a occidente
e già precipita il giorno nel suo
occhio in rovina e l'aria dell'estate
s'addensa e già curva le foglie e il fumo
dei cantieri. S'allontana con scorrere
secco di nubi e stridere di fulmini
quest'ultimo gioco del cielo. Ancora,
e da anni, cara, ci ferma il mutarsi
degli alberi stretti dentro la cerchia
dei Navigli. Ma è sempre il nostro giorno
e sempre quel sole che se ne va
con il filo del suo raggio affettuoso.

Non ho più ricordi, non voglio ricordare;
la memoria risale dalla morte,
la vita è senza fine. Ogni giorno
è nostro. Uno si fermerà per sempre,
e tu con me, quando ci sembri tardi.
Qui sull'argine del canale, i piedi
in altalena, come di fanciulli,
guardiamo l'acqua, i primi rami dentro
il suo colore verde che s'oscura.
E l'uomo che in silenzio s'avvicina
non nasconde un coltello fra le mani,
ma un fiore di geranio.

(Salvatore Quasimodo)

*

Bom dia!

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12.4.06


EARLY MORNING BLOGS 754

Trees


They stand in parks and graveyards and gardens.
Some of them are taller than department stores,
yet they do not draw attention to themselves.

You will be fitting a heated towel rail one day
and see, through the louvre window,
a shoal of olive-green fish changing direction
in the air that swims above the little gardens.

Or you will wake at your aunt's cottage,
your sleep broken by a coal train on the empty hill
as the oaks roar in the wind off the channel.

Your kindness to animals, your skill at the clarinet,
these are accidental things.
We lost this game a long way back.
Look at you. You're reading poetry.
Outside the spring air is thick
with the seeds of their children.


(Mark Haddon)

*

Bom dia!

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11.4.06


RETRATOS DO TRABALHO EM ILHA GRANDE, BRASIL


Trabalho em Ilha Grande (Brasil), Março de 2006

(Ana Mouta)

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INTENDÊNCIA

Actualizada a nota LENDO O LE MONDE DIPLOMATIQUE, JUNTO AO MONDEGO, NUM DIA CINZENTO, AO LADO DO BARCO "BASÓFIAS".

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BIBLIOFILIA: MAIS LIVROS, MENOS TEMPO

http://images.amazon.com/images/P/039457589X.01.LZZZZZZZ.jpg http://www.nybooks.com/shop/product-file/19/atim4819/product.jpg


Nancy Milford, Savage Beauty: The Life of Edna St. Vincent Millay

Carol Mavor, Pleasures Taken: Performances of Sexuality and Loss in Victorian Photographs

Patrick Leigh Fermor, On Foot to Constantinople: From the Hook of Holland to the Middle Danube

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: OS PORTUGUESES SÃO DEUSES

Ouvido algures no Ribatejo:

"-Entao eles já andam a pedir para declarar a criaçao?
-Andem, andem...
-E vais declarar?
-Eu nao. Para quê? A minha criaçao tá toda fechada."

Às vezes lembro-me do filme "Il Gattopardo" a propósito de nós, portugueses. Lembro-me sobretudo da cena em que o conde de Salina explica os sicilianos a um emissário de Roma. Recorda uma visita de soldados ingleses à ilha que, embora admirados com a sua beleza, ficaram pasmados com a miséria endémica. O conde ter-lhes-á respondido que os sicilianos nao se preocupavam com o seu estado - os sicilianos eram deuses, tao simplesmente. Às vezes creio também que nós, portugueses, somos deuses, alheios a esses ingleses, de que lemos no jornal e até elogiamos, mas que secretamente desprezamos.

(Pedro Oliveira)

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LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)

(11 de Abril de 2006)


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Poucas coisas fazem tanto sentido como a de se ser americano e manifestar-se a favor da legalização dos emigrantes. Notícias nos blogues das grandes manifestações a favor dos emigrantes nos EUA.

*

Em vez das absurdas queixas contra o imperialismo anglo-saxónico, a boa maneira dos franceses responderem ao Google: um motor de busca que analisa o conjunto da obra do filósofo Lévinas, incluindo os textos ainda protegidos pelo direito de autor. Na página do Institut d'études lévinassiennes.

*

Um crítico, neste caso uma crítica, Michiko Kakutani, do New York Times, analisada por um crítico, Ben Yagoda no Slate. E Yagoda não é nada meigo:
"The voice this reader would really like to hear in Michiko Kakutani's reviews is not a mock-Holly Golightly voice or the enervated (or prissy) voice of an enshrined critic, but Kakutani's own. Here's a modest suggestion on how to start: Just once, instead of describing what "the reader" expects, thinks, or does, she might try using the word "I."

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EARLY MORNING PICTURE


Guimarães pela manhã.

(Gil Coelho)

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EARLY MORNING BLOGS 753

Laméntase Manzanares de tener tan gran puente


Habla el río

¡Quítenme aquesta puente que me mata,
señores regidores de la villa;
miren que me ha quebrado una costilla;
que aunque me viene grande me maltrata!

De bola en bola tanto se dilata,
que no la alcanza a ver mi verde orilla;
mejor es que la lleven a Sevilla,
si cabe en el camino de la Plata.

Pereciendo de sed en el estío,
es falsa la causal y el argumento
de que en las tempestades tengo brío.

Pues yo con la mitad estoy contento,
tráiganle sus mercedes otro río
que le sirva de huésped de aposento.


(Lope de Vega)

*

Bom dia!

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10.4.06


TEMPOS COMUNICACIONAIS E PROPAGANDA - DEMONSTRAÇÕES


Já se viu muita coisa, mas uma tomada de posse da direcção da Polícia Judiciária marcada para coincidir com os telejornais das 8, devidamente transmitida em directo pela RTP, ainda não tinha acontecido.

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TEMPOS COMUNICACIONAIS E PROPAGANDA



O intervalo que passa entre o anúncio das medidas do governo e a sua execução efectiva e impacto real, favorece o efeito propagandístico. O que “passa” nas sessões de anúncio, cuidadosamente preparadas por especialistas de relações públicas e assessores de comunicação, onde toda a mensagem é controlada sem contraditório e sem ruído, são as intenções, e as “intenções” são muitas vezes consensuais e de aplaudir, pelo que o efeito é positivo. Este tempo comunicacional dos anúncios é prime time, tempo nobre. Quando se começa a perceber a diferença entre as “intenções” e a realidade, o tempo comunicacional é já bem mais pobre do o do seu anúncio e a mensagem muito menos eficaz até porque muitas vezes já nem sequer está no centro da agenda política.

Se se quiser agora e reler, à luz do que já se sabe, e que já se pôde estudar o SIMPLEX ou o PRACE, e se começa a perceber quais os investimentos que vão ser concretizados, ou a realidade do Plano Tecnológico, ou analisar o primeiro resultado de 6% na política orçamental à luz do relatório Constâncio sobre o défice, quem achará que a agenda mediática actual comporta essas questões? Ninguém, porque as questões já são “velhas”.

O governo está a usar e a abusar deste efeito, mas talvez deva dizer-se que ele só é eficaz pela combinação de dois processos: um, a oposição passar a ser credível, logo a fazer-se ouvir em tempo útil (o que não mudará de um dia para o outro) reforçando a vigilância parlamentar; e outro, a comunicação social deixar de simplesmente incorporar os termos das sessões de anúncio, fazendo uma cobertura “transparente”, que mantém intacta a intenção propagandística. Está mais do que na altura de começar a haver mais distanciação crítica, até para que se perceba o que o governo faz bem e o que não faz e é só propaganda.

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RETRATOS DO TRABALHO EM MUMBAI, ÍNDIA


Lavandaria manual a céu aberto em Mumbai.

(José Santos)

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LENDO O LE MONDE DIPLOMATIQUE, JUNTO AO MONDEGO, NUM DIA CINZENTO, AO LADO DO BARCO "BASÓFIAS"

Tudo isto me parece um pouco sinistro, mas encaixa muito bem. Os artigos sobre a defunta lei do CPE, a começar pelo editorial de Ramonet, dão o tom às aguas. À minha volta fala-se brasileiro, língua dos empregados de restaurante em Portugal, produto da globalização. À minha frente, umas jovens senhoras, de grandes anéis de casadas, uma das quais é dona de uma boutique, mostram umas às outras um produto novo: uns colares gigantescos de madeira, iguais a milhares de outros, mas com uns "elefantezinhos" e uns "coraçõezinhos" dependurados (elas falam em diminutivos). "São bons para a tua loja". Susto e pavor.

Ramonet fala em aumentativos. Ele acha que a França, sua sociedade, sua economia, e sua cultura são gloriosas e que agora a "direita" e o "liberalismo" a rebaixam no seu valor. Toda esta conversa de "declínio" e "crise" da França é uma cedência ao "inimigo", diz Ramonet, ou seja ao imperialismo americano e o liberalismo económico anglo-saxónico. Pobre Villepin, que eu conheci Ministro dos Negócios Estrangeiros, sempre com o mesmo ar enfadado, com a arrogância da pequena nobreza rural perante um mundo que não fosse galo-franco-francês, agora passado para o "inimigo", que ele mais que tudo desprezava. Apanhado na sua própria medicina, com a esquerda alter-mundialista do Le Monde Deplomatique a agitar a tricolor.

Coimbra por trás. Sempre achei que devia haver algo de muito errado numa cidade em que os estudantes gostam de andar vestidos à padre. Passam alguns, negros e poeirentos. Uma cidade cujas livrarias na baixa são inimagináveis de provincianas, escuras, mal abastecidas, quase sem livros estrangeiros. Apenas o Direito é rei e senhor, tudo o resto leva à pergunta: como pode uma cidade universitária ter livrarias assim? Tudo triste, baço, esquecido da "modernidade" como agora se diz. Mal por mal, prefiro ver as notícias necrológicas ainda coladas nas paredes como nas aldeias e vilas do Norte. É certo que me parecem ser feitas já em computador e impressas a laser ou jacto de tinta, e depois prosaicamente copiadas. Algures ainda devem ser feitas em tipo de chumbo, apertado nas caixas a cordel, e com os filetes para ocupar espaço. Província pura, o que em si não é mal nenhum, não fosse ser esta a terra da "Lusa Atenas".

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O "Sempre achei" demonstra o preconceito, claro. Imagino o projecto matinal: "Deixa-me cá ver e ouvir algo que ilustre o que eu à partida já decidi escrever."

Eu por mim sempre achei que a análise de uma cidade exige mais do que percorrer 50 metros de rua. Suponho mesmo que, qualquer que seja a cidade no mundo, e qualquer que seja o preconceito que sobre ela se tenha, existem nessa cidade 50 metros de rua que ilustram o preconceito.

(João Filipe Queiró, Coimbra)

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É curioso que o leitor João Filipe Queiró reage contra a afirmação mas não a nega. Apenas diz que corresponde a uns metros de rua. Basta ir a Coimbra e ver, andar por aquelas ruas, a maior parte sujas, as lojas antigas, passadas, incluindo – o que é grave na cidade berço da nossa Universidade – as livrarias. Coimbra vive à sombra do que já foi. É aliás muito português... Infelizmente JPP tem razão. Mais valia não ter, mas tem.

(Rui Esperança)

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Disto tudo, ocorre-me uma coisa: porque será que só os portugueses chamam "língua brasileira" à língua que os brasileiros falam? Os brasileiros sabem bem que falam português. Nunca vi nenhum inglês fazer questão de dizer que os americanos falam uma qualquer "American language". Porque será que nós gostamos tanto de, com uma pontinha de desprezo, dizer que os brasileiros falam "brasileiro"?

(António Franco)

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Estou exactamente a ver o percurso do JPP. E não foi muito longe, de facto. Mas poderia ter andado duzentos, trezentos metros, que encontrava o mesmo cenário. É a habitual romagem ao pitoresco que se encontra em qualquer guia de viagens e que pode durar mais ou menos, conforme o tempo disponível. Normalmente retratam um mundo em extinção e é bem verdade que frequentemente já levamos esse mundo na cabeça . A Baixa de Coimbra (e a baixinha), por razões comuns a tantas outras cidades europeias, é já quase uma sombra do que foi. Já quase ninguém “vai” à Baixa. Pelo contrário, “passa-se” na Baixa para ir apanhar os transportes para a periferia, da mesma forma que se passa na Rua Augusta para ir apanhar o cacilheiro para a outra banda. E o JPP, assim como falou das capas dos estudantes, poderia ter falado nas duas ou três “tricanas” que todos os dias ainda lavam a roupa no rio, ali mesmo, muito perto daquelas duas senhoras também tão castiças, à sua maneira. Não há falta de livrarias em Coimbra, muito bem fornecidas.. Simplesmente, não passa pela cabeça de nenhum turista (acidental, ou não), percorrer a cidade à procura delas. Eu próprio, numa cidade estranha, nunca o faria. Ou estão perto do local de desembarque, ou não estão. Se estiver muito interessado, e gostar de coisas de livros, entro nelas e vejo o que por lá existe. Se não estiver interessado, limito-me a verificar o arranjo e o stock das montras. Mas nunca tinha pensado na questão dos anúncios de necrologia. Bem visto.

(António Maçarico, Coimbra)

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Coimbra, pela sua intrínseca ligação à universidade, espelha bem o bloqueio da sociedade portuguesa que subsistiu (e procura subsistir) com base nas corporações, neste caso a universidade, para as quais a competitividade e o confronto com a realidade eram factos irrelevantes. Mas antes pelo contrário, seria a realidade a ter de se adaptar à ficção - o que, a não ser em períodos curtos e sempre com resultados desastrosos, não é, diz-nos o simples senso comum, de todo possível. Ora com a globalização quem é que não está mais interessado em frequentar um curso, um mestrado ou um doutoramento numa universidade britânica ou norte americana ? Será que é o provincianismo que leva os estudantes portugueses a tentar cursar nas universidades estrangeiras ou será também aqui uma mera questão de senso comum: eu ganho mais dinheiro se tirar o curso numa universidade que seja reconhecida internacionalmente.

(Manuel Cortes)

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O que escreveu sobre Coimbra (e especificamente sobre as livrarias em Coimbra) podia ser também a descrição de Lisboa. Claro que há mais livrarias e claro que existem pérolas esquecidas na baixa, habitadas por senhores nobres que parecem esquecidos do tempo que passa lá fora (o que talvez seja a razão de tanto prazer quando os visitamos), mas na realidade, tirando estas livrarias e alfarrabistas que vivem do hábito, o que há mais?
Quando vamos a uma livraria “universitária”, o que é que encontramos? Um deserto. Os livros estrangeiros são praticamente inexistentes, com excepção do Stiglitz e outros livros de economia básicos, para dar a impressão de ser uma livraria moderna e “cosmopolita”. Não se trata de dizer que só o que não está em português é que é bom, mas antes que aquilo que se escreve noutras línguas é muito mais (e melhor) do que aquilo que é possível traduzir para a língua materna.
O retrato das livrarias em Portugal é a revelação de um país que vive apenas consigo próprio, culpando-se de tudo e, na ausência de “concorrência” ou comparação, se acha natural e paradoxalmente o melhor. O retrato do provincianismo luso é também esta incapacidade de nos medirmos realisticamente com o resto do mundo, e o panorama das nossas livrarias é um espelho disso mesmo.

(João Lopes)

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Compartilho o seu lamento sobre as livrarias de Coimbra, com maior pesar da minha parte porque nela vivo. Há muito que sonho com uma Fnac nesta cidade. Julgo que esse 'sonho', em breve, será uma realidade. As livrarias tradicionais (por falta de espaço ou de compradores?) não investem nos livros estrangeiros, tirando as colecções da penguin. Provavelmente porque não podem competir com a Internet (por exemplo, comprei mais livros no amazon do que em livrarias de Coimbra, nos últimos anos). Mas até poderíamos conviver serenamente com a ausência de livros em língua estrangeira se as editoras fizessem, como se faz em Espanha, traduções sérias e em grande escala, abrangendo a literatura, as ciências, a História, a poesia,a política... Infelizmente isso não acontece. Onde estão as traduções dos escritos que deram a Churchill o Nobel da literatura? Onde estão os 'clássicos' de Dickens? E Goethe? E Evelyn Waugh? Mesmo obras fundamentais da nossa cultura, escritas em português, se encontram esgotadas há várias décadas, impossibilitando a sua aquisição sem o recurso aos alfarrabistas.
Quanto aos estudantes universitários, estes, em geral, não compram livros, tiram fotocópias de livros. Uns fazem-no por falta de dinheiro (os livros são caros) ou porque não valorizam o livro em si, apenas o olham como um objecto de trabalho, um instrumento para atingir a nota positiva. Outros recorrem às fotocópias porque não encontram o livro à venda. E o vício instala-se.

(Paulo Agostinho)

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LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)
(10 de Abril de 2006)


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Certeiro e duríssimo, o artigo "Medíocre, mesmo mau!" de Graça Franco no Público (sem ligação) de hoje, contra a política orçamental do governo.Uma contribuição para a diminuição da "treta", que cada vez mais abunda no engolir indiscriminado da propaganda governamental:
"Vamos falar verdade: o défice de 6 por cento conseguido pelo actual Governo em 2005 não é um bom resultado. É, na melhor das hipóteses, um resultado medíocre que, conjugado com o escandaloso agravamento do rácio da dívida pública em mais de cinco pontos percentuais num único ano (passando de um limiar abaixo de 60 por cento em 2004 para uma previsão de quase 69 por cento este ano), só pode ser entendido como um mau resultado. O efeito do galopar da dívida está já à vista: em 2006, de acordo com os números enviados a Bruxelas na semana passada, o Governo espera gastar, em juros, tanto quanto em investimento, perto de 4,4 mil milhões de euros. Em rigor, os números de 2005 só não são péssimos porque o nosso desejo de que "resulte" o trabalho desta equipa para bem do país é tão grande que risca o pessimismo da análise económica."
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Mais uma razão para contestar as quotas, erradamente chamadas da "paridade", e mais uma razão para contestar a hegemonia masculina na política: os géneros lêem diferente. Os homens são escapistas, as mulheres apaixonadas, diz um inquérito do Guardian, sobre os livros preferidos por sexo:
"The results are strikingly different, with almost no overlap between men's and women's taste. On the whole, men preferred books by dead white men: only one book by a woman, Harper Lee, appears in the list of the top 20 novels with which men most identify.

Women, by contrast, most frequently cited works by Charlotte and Emily Brontë, Margaret Atwood, George Eliot and Jane Austen. They also named a "much richer and more diverse" set of novels than men, according to Prof Jardine. There was a much broader mix between contemporary and classic works and between male and female authors.

"We found that men do not regard books as a constant companion to their life's journey, as consolers or guides, as women do," said Prof Jardine. "They read novels a bit like they read photography manuals." Women readers used much-loved books to support them through difficult times and emotional turbulence, and tended to employ them as metaphorical guides to behaviour, or as support and inspiration."
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Ainda a propósito do inquérito divulgado no The Guardian sobre os diferentes gostos ficcionais dos sexos, parece-me interessante, mas duvidosa, esta conclusão de Lisa Jardine relativamente ao mercado livreiro e aos prémios literários:

Prof Jardine said that the research suggested that the literary world was run by the wrong people. "What I find extraordinary is the hold the male cultural establishment has over book prizes like the Booker, for instance, and in deciding what is the best. This is completely at odds with their lack of interest in fiction....

"On the whole, men between the ages of 20 and 50 do not read fiction. This should have some impact on the book trade. There was a moment when car manufacturers realised that it was women who bought the family car, and the whole industry changed. We need fiction publishers - many of whom are women - to go through the same kind of recognition," Prof Jardine said.

A este respeito, partilho das reservas que algumas autoras já mostraram face às conclusões algo apressadas do inquérito:

The psychotherapist Susie Orbach professed surprise at the final list - "Where are the young women?" - but said women's continuing weakness for the happy ending with a wedding wasn't a shock: "There is still all of this longing in our psychology. We want these lovely redemptive romantic endings, to be seen and understood, but within the confines of femininity."

Julie Birchill questioned the value of any poll about women's literature: "I think if people had been hooked up to lie detectors the winner would have been Jackie Collins."


Influenciadas talvez pelos preconceitos académicos em relação à literatura light, as autoras do inquérito não referem uma parcela muito significativa - com grandes sucessos de vendas - do mercado livreiro dirigido ao público feminino, a chamada "chick lit" dos diários de Bridget Jones & Cia (que tem entre nós "primas" distantes nas Margaridas Rebelos Pintos e respectiva prole). E, como parece sugerir Orbach, estas jovens autoras, apesar do verniz de (pós?)modernidade, acabam por reproduzir e promover ad nauseam os velhos clichés femininos do final feliz, do "Príncipe Encantado", e da mulher que, feitas as contas, o que mais teme na vida é ficar velha e sozinha. Isto levaria decerto a outras conclusões ainda mais inquietantes e reveladoras...

(Daniela Kato)

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