ABRUPTO

2.11.13


O NAVIO FANTASMA (47): SE HÁ DOIS ANOS HOUVE UM 1580 E PARA O ANO VAI HAVER  UM 1640, QUEM É QUE ESTÁ NO PAPEL DE MIGUEL DE VASCONCELOS?


As habilidades de Portas com os soundbites não me impressionam, destinam-se a épater le bourgeois, neste caso os jornalistas. Mas habituado a estas flores de retórica, nem sequer pára para pensar no que diz. Para ele, a assinatura do memorando foi um 1580. Falta saber se ele entende que os amigos da troika, como o PSD e o CDS, que saudaram a sua vinda para Portugal fariam parte do "partido espanhol". Mas o mais interessante é quando ele considera que a saída da troika é um 1640. Então se é assim, ele que faz parte do governo da troika em Portugal, está bem posicionado para, junto com Passos Coelho, ser o Miguel de Vasconcelos. O Duque de Bragança é que não é certamente.

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POR QUE É QUE HÁ DEZENAS DE MILHARES NA RUA EM VEZ DE CENTENAS? 

1. Prevenção inicial: as manifestações mais recentes não foram o sucesso que os seus organizadores previam, mas convém lembrar aos seus fáceis detratores (que nem duzentas pessoas arranjam para encher uma sala com o Primeiro-ministro) que mesmo assim muitos portugueses, na ordem das dezenas de milhares se manifestam com a CGTP e com as outras organizações, somando-se, como se deve somar, Lisboa, Porto e outras concentrações mais pequenas e “públicos” diferentes conforme as convocações. 

 2. Mas que há um cansaço das manifestações, há. E que não augura boa coisa, também não. E não é certamente porque os portugueses “percebem” lá no seu íntimo o governo e as suas medidas, e por isso não vêm à rua em massa, uma mirabolância do pensamento que deve fazer mal ao cérebro dos que a repetem. O “bom povo português” está completamente farto deste governo e destas políticas e se tivesse o botão que matava o Mandarim na China à sua disposição, faria filas de quilómetros para ir lá tocar. É exactamente por isso que não há eleições antecipadas e se fazem todas as piruetas para as evitar a todo o custo. 

3. De passagem, anoto o curioso argumento da direita anti manifestações que implica que só haveria protesto a sério quando toda a gente andasse a partir montras, à grega. Até lá podem meter multidões na rua, que “não conta”. Parece que só “conta” quando há violência. É tão curiosa essa atitude, do género “estão mesmo a pedi-las”, que não abona muito à inteligência de quem a enuncia como se fosse a coisa mais natural deste mundo.

 4. Os portugueses não vão em massa à rua porque não sabem o que fazer e não lhe agradam as alternativas oferecidas em democracia. E isso é que é perigoso. Seguro não mobiliza nem o seu braço esquerdo, quanto mais os portugueses. O grande vazio da política portuguesa é o PS e isso por si só cria um estado de apatia no protesto, quando um partido clama contra o governo atribuindo-lhe medidas gravíssimas e depois se fica por uma frouxa intervenção parlamentar ou pela ladainha: “como eu já disse há muito tempo…” Se os tempos são assim tão graves, por que raio é que a “responsabilidade” do PS se concentra toda em ficar pelos salamaleques? Desde quando é que o facto de um partido pretender governar o impede de, por exemplo, se manifestar, se toma a sério a gravidade do que o governo está a fazer? O PS é um entretenimento para o governo e o cancro de protesto.

 5. Ir para rua com o PCP ou o BE tem poderosas limitações, para muitos portugueses que não se revêm nesses partidos, nem nas soluções que eles apresentam. A CGTP mobiliza mais, mas uma coisa são as manifestações de rua outra as greves e protestos por sector profissional, onde a ruptura com a UGT impede movimentações para lá do habitual em sectores críticos. (Desse ponto de vista, uma prova importante é a greve da função pública no dia 8 de Novembro.). Mas, seja como for, não adianta andar com “esquerda” face á direita” como se isso mobilizasse alguém, numa crise que de há muito ultrapassou essa dicotomia que é redutora.

 6. Depois há a qualidade da “oferta” manifestante. Começa pelo nome “que se lixe a troika”. Começa mal, porque a uma dada altura o nome que parecia trivial e engraçado torna-se um obstáculo. Para muita e boa gente o “que se lixe” tem como primeiro e principal destinatário, o governo. “Que se lixe o governo” teria muito mais sentido, porque a animosidade com o governo é que é o motor da “rua” e não a troika de per si. O que é que vão fazer quando a troika for formalmente embora daqui a meses? Ficam sem nome. “É o governo, estúpidos!”, diriam os americanos. 

7. Depois há qualquer coisa de errado no plebeísmo do “que se lixe”. Nem é um insulto directo do género do “vai-te lixar” bem substituído por expressões mais vernáculas com sólida tradição latina que, a julgar pelos cartazes espontâneos das manifestações, são muito mais eficazes. O problema é que é um plebeísmo mole, é grosseiro sem ser verdadeiramente ofensivo, afasta mais gente do que agrega, podia estar num cartaz mas não mobiliza quando é um nome de um movimento. Aliás, depois de Passos Coelho o ter usado no “que se lixem as eleições”, eu fugia a sete pés dessa irmandade vocabular. 

8. O excesso de “culturalismo” dos organizadores leva-os a pensar que a palavra de ordem obscura de “não há becos sem saída”, mobiliza alguém, tanto mais que “saída” é o que de todo não lhes é oferecido. A palavra de ordem é atentista e todo o grafismo e a parafernália mais ou menos folclórica acantona o apelo da manifestação nos jovens radicalizados, e, como dizia um velho furioso com o governo, ele não ia a essa coisa dos “freaks”. Ou seja, muitos dos sectores mais atingidos pela crise não se reveem na “estética” do “que se lixe a troika”, e isso facilita a debilidade do movimento, uma vez passada a moda inicial. 

9. Pode-se argumentar que o “Que se lixe a troika” mobilizou a maior manifestação da história da crise, que hoje é particularmente útil para os que não querem, minimizam, atacam o próprio princípio da manifestação. Só que, havia tantas ambiguidades nessa manifestação que ela iria ser inevitavelmente única, porque só se é virgem uma vez. A mesma perda de virgindade funciona para a comunicação social, que foi a grande propagandista da manifestação (e não as redes sociais), e que, perdida a novidade, reduziu as manifestações do “Que se lixe a troika” à sua verdadeira dimensão. Sem a trombeta da televisão e do jornalismo amigo, a flauta do Facebook não chega e é demasiado preguiçoso para mobilizar em termos eficazes. Veja-se o trabalho meticuloso da CGTP, sem o qual o protesto social seria errático e muito mais fraco. 

 10. Mas há uma coisa que a “esquerda” não compreendeu e é incapaz de contrariar: é que o discurso da divisão vindo do poder é eficaz quando há uma crise de representação e os que estão a empobrecer são deixados na solidão da sua condição. Em vez de olharem para cima, olham para o lado. Dividir novos de velhos, empregado de desempregados, privado do público, vai ficar para muito tempo a estragar Portugal, desagregando a força do protesto e impedindo-o de juntar os “rios” (uma metáfora que usei aqui e que circula por aí) e acima de tudo dos engrossar. E não é pela repetição dos posicionamentos e da língua de pau tradicional que se defronta essa cizânia.

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30.10.13


O NAVIO FANTASMA (46):AH! VALENTES!

Caladinhos com Angola, caladinhos  com a troika, confortáveis no "protectorado", eis que nosso bravo governo exprime um "forte sentimento de revolta" "total repúdio" pela "triste figura" do presidente da FIFA, Joseph Blatter, nas declarações sobre o futebolista Cristiano Ronaldo... Onde nós chegamos.

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O NAVIO FANTASMA (45): a reforma do estado

O próprio facto de uma coisa chamada "guião da reforma do estado" ser apresentada por Paulo Portas, diminui o seu alcance e significado. Se fosse a sério seria Passos Coelho a apresentá-lo, mas como é mais um instrumento para a sobrevivência de Portas, é deixado ao esbracejar do próprio, que é o que ele faz desde a crise que provocou.

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29.10.13


O NAVIO FANTASMA (44): O VENENO DE ANGOLA


Poucas coisas são hoje tão venenosas para a nossa democracia e para a nossa liberdade como o modo como se está a discutir a questão de Angola. O espectro de represálias, a atitude subserviente, a aceitação da força alheia e perda de dignidade da nossa, o abandono dos mais basilares princípios do que é uma democracia e do que é a liberdade, cria um ambiente de medo no debate angolano que poucos são capazes de romper. 

No Prós e Contras da RTP ouviram-se as mais absurdas das coisas, e, com excepção de uma defesa por Ricardo Costa da "obrigação" jornalística de dar as notícias que tanto inflamam a elite angolana, o debate foi um retrato de como o veneno da chantagem angolana funciona. Como acontece muitas vezes os "especialistas" que são chamados à televisão trabalham em Angola, têm interesses angolanos e recebem salários do governo de Angola. É o caso do antigo Ministro Martins da Cruz, que para além de ter sido "ministro dos negócios estrangeiros" de Luís Filipe Meneses na Câmara de Gaia, é, segundo o seu currículo, "membro do conselho de administração de empresas em Portugal, Espanha e Angola" e "consultor do Governo de Angola". Ou seja, para efeitos daquele debate, está do lado de lá.

E mesmo Louçã, um "internacionalista", disse que não discutia a "origem do dinheiro angolano porque isso era um problema dos angolanos". Como assim? Ele que não se coíbe de discutir os dinheiros dos americanos, ingleses, franceses, a política interna de todos os países do mundo, subitamente pára às quatro rodas naquele debate e, perante aquela plateia, onde o que era vitalmente preciso dizer é que é a origem do dinheiro angolano o principal problema, dinheiro roubado a um povo na miséria, por uma clique de políticos e generais do MPLAe "lavado" em Portugal, fica calado.

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O NAVIO FANTASMA (43):O GOVERNO FRACTURANTE


O governo, pela mão da Ministra Cristas, arranjou a sua variante da proibição do piropo, essa brilhante causa política do Bloco de Esquerda. Pelos vistos vai ser proibido ter mais do que dois cães em casa, um gravíssimo problema que afectava milhões de portugueses e que exigia a este governo "liberal" actuar em força e com autoridade. 

A Senhora tem a certeza de que não tem mesmo nada para fazer?


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28.10.13


POR FAVOR TIREM-ME DAQUI



De cada vez que escrevo sobre o que acontece em Portugal, haja ou não haja "guião", haja ou não haja Orçamento, haja ou não haja mais peripécias do Governo bipolar que temos, haja ou não haja avaliações da troika, haja ou não haja manifestações, haja ou não haja greves, haja ou não haja mais uma mentira, um escândalo, uma inconfidência, uma fuga via Marques Mendes, ou um "recado" via Expresso, haja ou não haja um retorno vingativo e um ajuste de contas, haja ou não haja o que houver, Portugal parece Sísifo com a sua pedra, ou um navio que não sai do sítio, encalhado por uma maldição qualquer num canto do oceano. Até aqui, nestes textos, parece que se volta sempre à maldição de Sísifo, ou do Navio-Fantasma, ou, mais prosaicamente, ao Dia da Marmota do filme Groundghog Day com Bill Murray, traduzido para português apropriadamente como o Feitiço do Tempo. Nem o mítico Sísifo, nem o wagneriano Navio-Fantasma, nem o Bill Murray, acordando sempre no dia seguinte no mesmo dia anterior, são novidades, porque já estou a repetir referências que já fiz. Já não tenho mais metáforas, nem mitos, nem filmes. Por favor, tirem-me daqui.

Quando falo em público, as perguntas das pessoas são sempre as mesmas: "Quanto tempo é que isto vai durar?", "Como é que nos vimos livres destes senhores?", "Quando é que saímos disto?", "Como é que se dá a volta?", e outras variantes do mesmo. E embora eu desconte a relação entre o que diz o palestrante e as expectativas dos ouvintes, cujo acto de lá ir é já de si uma mostra de empatia e interesse, seja de simpatia, seja de antipatia, mesmo assim há alguma coisa que está muito errada quando uma sala com duas ou três centenas de pessoas, no meio de uma noite de tempestade, no fundo, quer saber quando é que anda tudo à pancada e a partir montras ou coisas piores, e manifesta o seu enorme desagrado e impotência por tal não acontecer. E quando falo de uma sala destas - e estou a pensar em exemplos muito concretos e recentes - estou a falar de gente da classe média, composta, educada, com profissões reconhecidas como sendo de elite, engenheiros, médicos, professores, advogados, funcionários públicos dos escalões superiores, reformados com pensões acima de mil euros, pelo menos, alguns pequenos empresários privados, e os seus filhos qualificados e desempregados. 


Bem sei que são eles, os que "ainda têm alguma coisa", o alvo preferencial da sanha governativa, aquilo que antes se chamava "classe média", e hoje se considera os ricos e os privilegiados, para confiscar fiscalmente e reduzir, por todos os meios, salários e pensões, ao remedeio, à quase pobreza, quando não à pobreza. E são eles que me perguntam, de uma forma cada menos eufemística, quando é que há uma revolução, nem mais nem menos. E mesmo eu, que entendo que toda a intransigência face ao Governo e à governação é pouca, ainda fico surpreendido com a veemência da sua revolta, que já ultrapassou a hostilidade aos governantes, para estar já na raiva por nada acontecer e no vitupério ao "povo" que aceita tudo e não faz nada. E se pensam que estou a exagerar, enganam-se. A coisa está muito negra por estes lados.


Não estou a falar de gente que tenha simpatias pelo PCP, pelo BE. Bem pelo contrário, a sua esmagadora maioria são votantes "centrais", votaram no PSD e no PS e mesmo no CDS. Estão informados, muito mais informados do que a média dos portugueses, vêem a SICN e a TVI24, acompanham os debates, lêem o Expresso no fim-de-semana, sabem o que disse o Marcelo e o que escreveu o Vasco Pulido Valente ou o Miguel Sousa Tavares, conhecem-me da Quadratura mais os meus companheiros de debate. E estão positivamente furiosos, não só porque o seu bolso é o alvo principal mas também porque se sentem impotentes e, acima de tudo, insultados e humilhados.


Se voltarmos ao nosso país, permanentemente no Dia da Marmota, ou encalhado no Mar dos Sargaços, ou a levar a pedra ao cimo do monte para a ver cair, percebe-se que não lhes faltam irritantes quotidianos. Há, primeiro que tudo, o estado ontológico da "inevitabilidade", ou seja, nós somos os "forçados da dívida", presos numa prisão de alta segurança, cujos carcereiros menores, empregados dos carcereiros maiores, nos dizem que não há a mínima esperança de sair de lá. Volto ao armazém literário, para ver a entrada do Inferno de Dante: ó vós que entrais, perdei toda a esperança. Como é que se vive sem esperança? Eles sabem.


Depois que palavras novas - nem sequer estou à espera de dizer promissoras, salvíficas, esperançosas - esperam eles ouvir de Cavaco Silva ou Passos Coelho, que logros e enganos renovados esperam de Portas ou Maduro, que coisas convincentes de Seguro, que não sejam as mesmas de ontem, gastas, cansadas, fora de qualquer prazo de validade. Nem sequer mentiras novas, mas sempre as mesmas recicladas. Já vimos tudo, já ouvimos tudo, já sabemos tudo, e é também por isso que a indústria das peripécias, vulgo comunicação social, nunca descansa nos seus moinhos de orações. Coisa graves há, Angola, dívida, orçamento, saque fiscal, destruição da confiança, vidas estragadas, perda, perda, perda. Mas misturadas com muita irrelevância que ganha terreno no meio do cansaço, a ver se ainda há alguma novidade. Ah! Sócrates escreveu uma redacção sobre a tortura e desceu dos céus parisienses via RTP... E depois? Serve de entretenimento, mas mais nada.


Este gigantesco marasmo inquina tudo. Bloqueia qualquer solução política que "abra" a situação e permita avançar. Cavaco Silva tem muita culpa ao não ter fechado uma crise endémica, que está aí todos os dias no governo da diarquia, com eleições antecipadas. Não mudava tudo, mas permitia uma descompressão da situação. O que é que o impedia de ter exigido aos partidos nova legislação para encurtar os prazos eleitorais e assim minimizar os danos dos tempos longos entre a decisão de haver eleições e a posse de um novo governo? O que é que o impedia de forçar um pacto pré-eleitoral entre os três partidos, dizendo-lhes claramente que ia convocar eleições, em vez de andar penosamente a pedi-lo em público, recebendo um não? 


Havia riscos e custos? Certamente que havia, nos juros que nos impediriam de ir aos mercados. Mas a verdade é que depois da "crise Portas" também não há condições para ir aos mercados, e suspeito que os portugueses preferiam defrontar o problema com eleições do que ter que pagar o mesmo preço com Portas a agitar-se todos os dias para parecer bem e Passos Coelho a tirar-lhe o tapete para que ele pareça mal. Até a troika, que sabe o que são factos consumados, aceitaria a inevitabilidade, esta virtuosa, de haver eleições. Mas Cavaco Silva não quis e agora está condenado a aceitar um orçamento inconstitucional, ele que jurou defender a Constituição.


O bloqueio político é o maior problema que Portugal hoje conhece, maior do que o défice e do que a dívida, porque ele condiciona o defrontarmos o problema do défice e da dívida em democracia e a médio prazo, única forma de o podermos fazer. Sublinho, em democracia. Bloqueado politicamente, com este pseudogoverno, arrastando-se nas suas contradições, preparando um golpe contra o Tribunal Constitucional, com uma ilegalidade tornada normal pela retórica da "emergência financeira", com as instituições a não funcionarem, Portugal está encalhado no meio do mar, traz aos ombros a pedra maior dos sacrifícios do seu povo, para a ver cair de novo, e assiste pela milionésima vez às comemorações do Dia da Marmota. 


Admirem-se pois que aqueles pacíficos cidadãos queiram a revolução. Tirem-me daqui. Por favor, porque somos gente educada. Queremos partir tudo, mas somos educados.

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27.10.13


PONTO / CONTRAPONTO: NOVO HORÁRIO DA NOVA SÉRIE
  aos domingos às 20 horas na SICN.

  Veremos se o caos do futebol não lhe alterará mais uma vez o horário. Presumo.

HOJE: gramática e oriente.

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© José Pacheco Pereira
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