ABRUPTO

26.10.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 26 de Outubro de 2007


Muito provavelmente já terá reparado na capa da Visão desta semana - a segunda capa, aliás; a não verde. Trata-se, a larga distância, de um dos maiores fretes jornalísticos que a imprensa portuguesa já fez a um Governo. O estilo "descontraído-e-eficaz" da foto, conjugado com a análise no artigo para que remete, passando por cima do referendo e, de resto, de todo o conteúdo do tratado e suas implicações, são um trabalho como poucos boys e yes-men seriam capazes de fazer.

(Artur Vieira)

*

Não sei se Luís Campos e Cunha pretende dizer mal de Sócrates, de Santana ou dos dois, com o que escreve hoje no Público: "Sócrates vai ter um interlocutor no Parlamento [Santana Lopes] do seu nível político e intelectual."

*

António Perez Metelo elogia no Diário de Notícias (cada vez mais o jornal oficioso de Menezes e Sócrates) a aproximação de Menezes a Sócrates:
"Em duas semanas, inverteu a linha partidária em três domínios importantes: considera prematura a reclamação de descida dos impostos; advoga a ratificação parlamentar rápida do Tratado de Lisboa; espera os resultados de todos os estudos técnicos em curso para emitir uma posição quanto à localização do novo aeroporto internacional que sirva Lisboa. Tudo ao contrário do que propunha Marques Mendes. "
Ou seja, estar de acordo com o governo significa obter um atestado de "não demagogia". Interessante.

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25.10.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 25 de Outubro de 2007


Os programas do Clube dos Jornalistas na RTP2, que tinham começado por uma saudável abertura crítica ao trabalho dos jornalistas vistos de fora da profissão, têm vindo cada vez mais a voltar-se para dentro. O de ontem sobre a imprensa económica foi um exemplo dessa implosão corporativa, independentemente do mérito dos intervenientes, acentuado pelo facto de esse tipo de jornais transportarem consigo regras próprias que, se fossem transpostas para o jornalismo mais genérico, seriam inaceitáveis.

O impacto da imprensa económica é hoje importante na exacta medida em que o discurso político é cada vez mais subordinado às regras de um discurso económico que parece hegemónico. Um dos efeitos é a modelação do "politiquês" ao vocabulário económico, que é, com o do futebol, a fonte da maioria das imagens desse discurso. No último Congresso do PSD, os comentários jornalísticos iam buscar ao discurso da imprensa económica e aos relatos recentes de OPAs e dos conflitos no BCP, as suas imagens.

*
Sobre "um discurso económico que parece hegemónico" e que modela "politiquês" ao vocabulário económico" veja-se a seguinte afirmação de José de Monterosso Teixeira transcrita no Público de hoje num artigo de Inês Nadais sobre a futura exposição do Hermitage em Portugal:

"O franchising é um modelo de gestão museológica que pode ajudar a consolidar a participação em redes internacionais. Portugal precisa dessas inter-relações, de modo a construir circuitos e parcerias cosmopolitas de nível paritário. Os blockbusters são um atractivo para uma oferta cultural mediática e o Hermitage é uma marca que poderá vender. Veja-se o sucesso galáctico do Guggenheim em Bilbau."

E isto vindo de um historiador de arte..

(A. Bettencourt)

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16.9.07


A TRAGÉDIA QUE ESTÁ EM CARTAZ



O caso da "pequena Maddie" e o da princesa Diana são mais parecidos do que se imagina. Em ambos os casos existe um núcleo duro de violência trágica, um acidente brutal, um crime, uma morte ou um rapto. Seja qual for o desfecho final, não há happy end possível, não há retorno ao equilíbrio inicial, alguém sofreu inesperadamente, e esse sofrimento atinge os próximos. Sabemos que foi isto que aconteceu, esta é a coisa a sério, a real thing. Tudo o resto anda à volta mas não é da mesma natureza. E é o "resto" a história que vivemos, que nos interessa, que nos move, e para além deste ponto inicial, os factos pouco interessam, tudo é do domínio da ficção e, por cruel que seja dizê-lo, tudo é um enorme teatro, a gigantesca encenação do Pathos, rei e senhor do espaço público nas nossas sociedades de massas.

O que nós estamos a ver é um filme (e a seu tempo haverá um filme), um espectáculo, em que personagens "não procuram o autor" como no teatro moderno (que exactamente por essa perplexidade nunca será popular), mas onde cada personagem é um ícone, transporta consigo uma face trágica, que "fala" com a cidade, e a que esta responde com um coro. Sim, é puro teatro grego clássico, por cruel que seja dizê-lo assim insisto, aquele que Sólon queria proibir porque institucionalizaria a confusão entre a verdade e a mentira.

Nem podia deixar de ser doutra maneira, tão imersos estamos num mundo dominado pelo Pathos, e sem Ethos, nem Logos. Sentamo-nos em casa diante da televisão (o veículo dominante nos dias de hoje do espectáculo permanente, mas que não é o único, e está prestes a entregar a sua dominação a mais poderosos meios interactivos de que o Second Life é apenas um grosseiro precursor) e diante dos nossos olhos passa a tragédia da "pequena Maddie", que na realidade é a tragédia da Mãe McCann, o centro de tudo. Como nas grandes personagens femininas do teatro clássico, a tragédia desenrola-se entre o destino e a hubris, entre a dadora da vida e a sua possível roubadora, num duplo acto decisivo de princípio e fim, que mexe com os fundamentos de tudo o que consideramos adquirido e que nos foi intensamente transmitido no primeiro acto do espectáculo.

É verdade que a aceitar-se a tese de uma morte acidental pela mais trivial das razões (e como já afirmei os factos verdadeiramente não interessam), a de os pais quererem jantar sossegados com os amigos, dando um sedativo à filha para não terem que a aturar "histérica", perturbadora dos actos dos adultos - uma versão mais sofisticada de algo que nos campos se fazia com aguardente - seria apenas um retrato da vida irresponsável e fácil dos burgueses de hoje, de uma cultura de satisfação individual e egoísta. Se tudo tivesse ficado por aí, a morte acidental da criança por negligência dos pais, estaríamos de facto numa história dos nossos dias de egoísmo suburbano, de um jovem casal que quer ter filhos e viver a sua vida em férias para se divertir, "descansando das crianças" que não sabem onde pôr. Nada que não atravesse o Allgarve de uma ponta à outra, só que esta teria corrido mal, de uma forma mais gravosa para os pais do que se a criança tivesse vindo para a rua e fosse atropelada. A sua negligência é química, menos socialmente aceitável do que se tivessem deixado uma janela aberta ou os fósforos em cima da mesa. Mas seria só isso.

De novo insisto, pouco nos preocupamos com o destino da "pequena Maddie", mas já nos colamos ao ecrã se este egoísmo inicial desleixado tivesse levado a um outro egoísmo essencial, o de querer ocultar a negligência com uma história inventada de rapto para que esta overdose de sedativos "não nos estrague a vida toda". Aqui sim irrompe o Mal puro e as personagens tornam-se trágicas, é o teatro absoluto. Porque, a ser verdadeira a acusação então nós sabemos por intuição, e ninguém precisa de falar disso, que aquela mãe e aquele pai transportaram o cadáver da filha e enterraram-no, ou deitaram-no ao mar, ou fizeram-no desaparecer de forma ainda mais terrível, e depois simularam durante meses uma dor que não tinham (?), numa encenação de que foram magníficos actores sem uma falha. Convenceram-nos a todos e à Cúria Romana que lhes permitiu ver o Papa. Se isto não é o Mal entre nós, o que é que é o Mal? Um raptor profissional para uma rede de pedofilia, actuando por dinheiro, é um menino de coro face a este Mal, que tem a face do Engano, que mistura os sentimentos, que tem todas as características de incompreensibilidade, surpresa, devastação, crueldade pura, para termos medo, muito medo. É o exorcismo desse medo que procuramos na tragédia, no teatro, tocando-o ao de leve e fugindo dele, como se fosse um acto sacrificial.

Vejam-se as personagens femininas, porque esta é uma tragédia só possível com personagens centrais femininas, a começar pela equivalente a Medeia, Electra, Clitemnestra, Lady Macbeth, a Mãe, Kate McCann no seu perfil de solitária, deprimida, psicótica, com a sua face dura e esculpida, sem variações, em silêncio, como uma rocha, possuída de qualquer sentimento essencial que pensávamos até ontem ser a dor da perda da filha e hoje suspeitamos ser a mais terrível das faces. Ao passar, agarrada a um boneco de Maddie, infantilizando-se nessa imagem, como se fosse ela própria a filha perdida, dá ainda mais intensidade a um mundo em que não sabemos como penetrar, e que se esconde por detrás de uma cara, outra cara e outra e outra. No meio desse labirinto de máscaras, está uma capaz de tudo. E a cara capaz de tudo lida com a Morte de forma pouco natural, com frieza, juntando as mãos às da ceifeira.

O resto das personagens quase desaparecem, o Pai McCann é que dá voz à Mãe, mas se a terrível hipótese se confirmar ainda mais se apagará como personagem. O Allgarve é não só o cenário, como é dele que vem o coro, primeiro silencioso e compungido, depois vociferante, insultando a Mãe, e trazendo ao de cima todas as complexidades e conflitos que permaneciam latentes. De repente, emerge o próprio tecido social, as tensões entre a comunidade inglesa (e as suas suspeições antiportuguesas, sobre a polícia e sua competência) e a hostilidade perante aquela mulher loura, vinda de um mundo louro e rico que paga o turismo algarvio, mas que é e será sempre de fora. Algumas fotografias em que se vê Kate McCann com um fundo de portugueses dizem tudo, a diferença na delicadeza das faces e no trato do corpo, e a rudeza popular, uma boçalidade camponesa nos polícias e nos "populares". Mesmo, se olharmos assim, nem a "pequena Maddie" escapa a um sinal do Mal, a uma marca demoníaca, o seu sinal de nascença num olho riscado, uma coisa para que há trezentos anos se olharia com muita atenção e nenhuma inocência.

E se nada disto for verdade, a acusação se revelar ser falsa, os McCann inocentes e duplamente vítimas? E se a história estiver mais perto da "honra perdida de Katarina Blum", da vitimização conspirativa de uma polícia que não consegue descobrir os raptores, associada ao festim mediático, que mais do que mães dolorosas deseja mães criminosas com todo o dolo do mundo? Pode ser, mas para o espectáculo pouco importa. A não ser que apareça Maddie com os seus raptores, numa história suja mas limpa de ambiguidades, a suspeita pairará sempre sobre os McCann, porque esta é a natureza deste tipo de espectáculo, onde ninguém sai ileso e não há reparação possível. Nem nós, que perdemos discernimento, distância, razão, equilíbrio, num mundo dominado pelo Pathos.

(No Público de 15 de Setembro de 2007.)

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5.9.07


LENDO/VENDO/OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 5 de Setembro de 2007
A ERC NO CENTRO DA POLÍTICA DE HOJE

(Com pedido de desculpa de erros e impossibilidade de consultar os documentos originais, devido às condições em que a nota foi escrita.)

A entrevista do Presidente da ERC, Azeredo Lopes, a Mário Crespo na SICN foi das mais embrulhadas a que jamais assisti. Se não se percebesse bem demais o que ele queria e não queria dizer, não se percebia mesmo nada. Claro que este "perceber" é para os cognoscenti, porque para qualquer pessoa aquilo era mesmo incompreensível.

Por detrás do hermetismo e de algum malabarismo jurídico, está a "entidade", uma das instituições que já é central no debate político actual. Não no debate sobre a comunicação social, mas no debate político puro e duro. As razões são genéticas da "entidade", deste tipo de "entidades" no modelo dirigista do estado, na tradição europeia de interferência na comunicação social, e, no caso português, da vontade de governos e partidos terem um "polícia" numa área muito perigosa para os políticos. A actual ERC com os poderes reforçados que lhe foram dados tem mostrado à evidência o seu papel na legitimação do poder. Sou, por tudo isto e já do tempo da AACS, partidário da sua extinção. Para "regular" a comunicação social, basta a auto-regulação e a lei geral para punir os crimes e abusos. Se um e outra não funcionam em Portugal, porque os jornalistas são avessos à auto-regulação e os tribunais erráticos na defesa do cidadão contra os abusos da comunicação social, trate-se antes de os melhorar e os tornar eficazes.

*


Dito isto, convém não deixar de comentar o artigo de Estrela Serrano em resposta a Cintra Torres hoje no Público. Ele revela o caminho em que a ERC se está a enredar, e o beco sem saída em que se vai meter. Trata-se da introdução de análises qualitativas do "conteúdo" das notícias, usando alguns modelos académicos, mas cujo resultado numa avaliação em última instância política, é enganador. Na polémica com Cintra Torres ambos discutem o número de notícias "favoráveis"/"desfavoráveis" dos candidatos às eleições da CM de Lisboa, como forma de avaliar se a comunicação social favoreceu um ou outro candidato, até agora apenas medido de forma quantitativa pelo número de notícias. Este caminho é muito arriscado e corre o risco de funcionar como as caixas chinesas, dentro de uma há outra, etc., etc.

A questão é que o "sentido" e "conteúdo" não pode ser avaliado fora do contexto. Há notícias "desfavoráveis" que acabam por ser positivas, como por exemplo, vários ataques a Carmona Rodrigues que produziam um efeito de vitimização "favorável" ao candidato. Como é que isso se mede? Mais: nem todas as notícias "desfavoráveis" são iguais, há umas mais "desfavoráveis" do que as outras. Um jornalista hábil pode conduzir uma campanha ad hominem sem parecer mal nas estatísticas da ERC. Por exemplo, que candidato não trocaria uma única notícia "desfavorável" dura (as que envolvem dinheiro, a apropriação de bens públicos, as que favorecem o caldo demagógico popular) por cem notícias "desfavoráveis" que se limitem a retratar tricas partidárias, pequenos lapsos, silêncio incomodados, que são facilmente "lidos " por jornalistas que lhes atribuem importância, mas que são irrelevantes para a maioria dos eleitores.

A ERC pode querer convencer-nos que está a dar passos em frente no escrutínio da pluralidade da comunicação, mas não é difícil com estes critérios obter de antemão qualquer resultado que se deseje, ou seja, a análise diz muito pouco sobre o que acontece. É que o "sentido" é um poço sem fundo, necessita de um contexto o que implicaria ir muito mais longe e nesse longe o subjectivo está sempre presente. E a campanha de Lisboa não é excepção com Costa "favorecido" logo `a cabeça, de mil e uma maneiras, mesmo que com cem notícias "desfavoráveis"...

*

É sempre muito estimulante ler as suas opiniões sobre a comunicação social e, em particular, sobre a ERC. Digo-o sem ironia, porque, como sabe, sou leitora assídua dos seus artigos e do seu blog.

Como também sabe, não partilho muitas das suas ideias e análises, o que não me impede de admirar e acompanhar outras posições suas, e não apenas sobre os media. Dito isto, gostaria de comentar o seu post na parte em que se refere ao meu artigo de 4ª. feira no Público.

Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que ao contrário do que afirma, a ERC não faz “avaliação política” nem “em última” nem em qualquer outra “instância”. Esse é um elemento mistificador de qualquer análise sobre o trabalho da ERC. Percebo que, como analista político, queira dar às suas análises sobre a ERC um enfoque político. Mas não é isso que transforma a ERC num órgão político ou governamental.

Não vou voltar a invocar a legitimidade que lhe foi conferida através da eleição dos seus membros pela Assembleia da República e compreendo que seja politicamente correcto atacar a ERC ou pedir a sua extinção, como faz. Tão pouco pretendo discutir e comparar m aqui os sistemas e as práticas de regulação dos media nos EUA e na Europa. Vivemos com as nossas realidades, a nossa Constituição e as nossas leis. Como membro do órgão regulador nacional, compete-me, precisamente, respeitar e
cumprir o quadro normativo português.

O resto é discussão para políticos e, sem diminuir essa discussão, não é isso que me leva a escrever-lhe. Trata-se, antes, de responder ao questionamento que faz no seu post sobre a introdução de metodologias de análise de conteúdo na regulação dos media, concretamente nas deliberações da ERC, considerando-a um “caminho arriscado”. Ora, é precisamente o contrário. Qualquer regulação que não se baseie em critérios rigorosos, susceptíveis de conferir substância a conceitos jurídicos indeterminados, como sejam, o rigor informativo, a isenção, o pluralismo, a diversidade, a ética de antena, e outros constantes da legislação aplicável ao sector, corre o risco de ficar à mercê dos gostos e da inspiração do regulador. Isso sim, seria
arriscado.


Os “modelos académicos” da análise social e da análise dos media a que se refere, são aqueles que conferem rigor às decisões, uma vez que, ao preverem a definição de categorias e indicadores para a avaliação dos conteúdos, os cidadãos e os próprios media podem sempre conhecer os critérios e os métodos adoptados e conferir os resultados obtidos. Isso é transparência de actuação, ao contrário de decisões sem critério, baseadas no “acho que” e no “porque sim”.


É verdade, como diz, que o "sentido" e o "conteúdo" na informação política (mas também noutros campos) “não pode ser avaliado fora do contexto”. Ora, é precisamente a avaliação qualitativa que fornece o contexto e, por isso, eu recuso as leituras apressadas que por aí pululam, como a de que quem tem maior cobertura é favorecido. Nenhum desses indicadores pode ser lido por si só, como faz a análise puramente quantitativa. É a ponderação (elemento qualitativo) de vários factores que nos conduz ao contexto e a uma leitura minimamente rigorosa.

Os exemplos que refere confirmam o que acabo de dizer. Sugiro que leia a Deliberação sobre as autárquicas de 2000 (o chamado Caso Carrilho). Ela confirma que, afinal, o que parecia, não foi o que a análise do contexto veio a revelar.


Devo dizer-lhe que a ERC não está a inventar nada. Outros reguladores com maior experiência usam metodologias qualitativas. Uns fazem-no com meios internos, outros em ligação a universidades, outros usam os dois meios como a ERC está a fazer. Mas não deixa de ser curioso que o que se critique à ERC é ela “fazer”, não é “não fazer” ou “fazer mal”. Aliás, as promessas/ameaças de quem, cada vez que a ERC faz um relatório, diz que vai “desmontá-lo” continuam por concretizar.


Permita-me, Dr. Pacheco Pereira, que lhe confie a minha interpretação pessoal sobre a fixação de algumas pessoas na ERC. É que, a partir do momento em que um organismo oficial apresenta trabalho baseado em métodos transparentes, susceptíveis de confirmação e, naturalmente, sujeitos a escrutínio, fica mais difícil usar o palpite como argumento.

Estrela Serrano

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3.9.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 3 de Setembro de 2007


Notas avulsas de um leitor compulsivo de jornais e revistas, em linha e em papel:

- o Expresso melhorou muito a sua componente em linha embora a pouca selectividade dos feeds perturbe a leitura de "última hora" que permanece melhor no Público ;

- o "Actual" do Expresso parece que tem sempre a mesma capa e a capa é muito baça e pouco interessante;

- a Focus está melhor na direcção de Nuno Ramos de Almeida;

- o mais estranho de todos os semanários portugueses é o Semanário, um verdadeiro mistério na sua existência, na sua redacção, no seu arranjo gráfico, nas suas "notícias". Estas são na sua maioria delirantes, e basta coleccionar os títulos de primeira página para o perceber. E no entanto, de vez em quando, contém informações de primeira mão e de primeira água, a que ninguém liga, mas que falam a favor do carácter muito peculiar das suas fontes.
As fontes do PSD no Semanário são também transparentes para um conhecedor, mas interessantes sobre os bas fonds parlamentares e outros. São uma sobrevivência quase arqueológica do tempo em que quase todo o noticiário político era aí produzido.

*
Escrevo-lhe por ter visto um momento no Telejornal da RTP1 deste domingo que me deixou profundamente incomodado, quer pela reacção dos entrevistados, quer pela “normalidade” com que este tipo de acontecimentos vai sendo encarado por parte do público.

Num directo a propósito do regresso dos portugueses de férias e do trânsito (invariavelmente esta classificação de “portugueses” mais não é, para os canais televisivos, do que os lisboetas que regressam à capital no final de Agosto), dois agentes da Brigada de Trânsito da GNR, mandavam alguns automobilistas sair da estrada e encaminharem-se para um ponto de reportagem da RTP onde eram questionados sobre assuntos tão diversos como o seu local de origem, o local de destino e o tempo que teriam perdido na fila à entrada da Ponte 25 de Abril. Assim, sem mais, e com o próprio jornalista a referir-se a um “ponto de reportagem improvisado” com a complacência das autoridades para poder saber o que tinham os automobilistas a dizer sobre o facto de estarem numa fila há 1h30 minutos! Aliás, pelo que percebi, e apesar de viver nos Açores, as filas de ontem nem sequer seriam maiores do que o normal num qualquer dia de trabalho, tendo em conta que, por exemplo, em Dezembro do ano passado demorei uma hora e vinte para fazer o trajecto entre o Aeroporto e o Estádio da Luz.

Sinceramente, nem sei o que pensar quando vejo agentes da autoridade aceitarem servir de ajudantes de produção dos canais televisivos, seleccionando “figurantes” para participarem num Telejornal. Mais estupefacto fico quando vejo que a generalidade dos automobilistas aceita este tipo de comportamento por parte das autoridades e aceita passivamente que polícias fardados se dediquem a este tipo de actividade.

Será normal, por esse mundo fora, colocar os agentes da polícia a seleccionar automobilistas para participarem em Telejornais?

(Nuno Mendes)

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28.8.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 28 de Agosto de 2007


Exemplos da máquina de propaganda. Como se faz um "recado" governamental destinado a mostrar quão atento e rigoroso é o Primeiro-Ministro, que zela noite e dia pelos nossos problemas (sublinhados meus):
O primeiro-ministro chamou a São Bento, sede das principais acções da gestão governamental, todos os ministros para avaliar o estado de execução orçamental em 2007 e abordar já a preparação do Orçamento do Estado para 2008. Com estas reuniões, José Sócrates tem tido a preocupação de deixar claro que “a previsão do défice para este ano [3,3 por cento] é para cumprir e, se possível, baixar”, garante fonte conhecedora do processo.

A menos de seis meses do fim do ano e a um mês e meio da apresentação do Orçamento do Estado para 2008, o primeiro-ministro tem aproveitado as reuniões com os ministros para frisar que “a contenção orçamental é para ser feita e que tem de ser cumprido o défice previsto para este ano”, garante a mesma fonte. Que acrescenta: “O primeiro-ministro está atento e quer resolver os problemas que possam existir”.”
(Correio da Manhã de hoje.)

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8.5.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 8 de Maio de 2007


Duplicidades: tivesse a extrema-direita em qualquer país europeu, ou em todos juntos, incendiado centenas de carros e provocado motins políticos anti-democráticos contra um resultado eleitoral, e havia um clamor gigantesco. Onde está sequer um pequeno clamor, um fiozinho de clamor, um esboço de indignação, uma pequena preocupação? Em lado nenhum. Repito o que já disse: o discurso do "políticamente correcto" não pode incorporar a violência da extrema-esquerda, mesmo quando ela é absolutamente evidente.

E de passagem, de novo a RTP: no noticiário das 13.00, Sarkozy que foi descansar para Malta, aparece como se tendo "refugiado" (sic) em Malta na sequência dos motins...

*

http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/image/0705/deathvalleysky_nps_big.jpg

A foto do Astronomy Picture of Today é absolutamente a não perder, já que a escuridão está a acabar.
E um poema sobre a escuridão que li hoje: Navigating in the Dark de Erik Campbell escrito na Papua indonésia:

In this mining town in Papua the electricity
Has a habit of giving up at night, and this
Is a miracle of modern stasis, a secular Shabbat,
Reminding us of what is expendable, of how so few
Of us ever truly experience the dark. We are amazed,
My wife and I, with the heavy darkness
Of the no moon jungle, insect sounds lacerating
All illusions of silent places. “It’s so absolute,”
My wife says, and I like to think she means
More than the darkness; the naked places
Of ourselves we dress in sunlight, lamps,
And recorded music like antithetical
Blanche DeBois’s fearing a different sort
Of scrutiny. “We could pretend it’s 1940,”
I say, “put a Jack Benny tape on the short wave
And drink coffee, light candles.” She suggests
A walk outside instead, where there are dozens
Of others already out on paths bounded by jungle,
Stepping small and laughing loudly through various
Uncertainties; flashlights as eyes, ears like animals’.
Soon we are trying only to remember not to disappear
Altogether; everything is so absolutely, so darkly possible.
*

Fotos de livros no Flickr (informação de Luhuna Carvalho): por ler, e livros, livros, livros.

*

Dos leitores sobre o jornalismo a que temos direito:
Como todos os doentes terminais postos perante as más novas, a esquerda, nela incluído grande número de editores e jornalistas, está em negação. Só isso pode explicar a maneira como a eleição de Nicolas Sarkozy para Presidente da França foi tratada nas televisões e jornais portugueses. Completa ausência de hierarquia da relevância, grave desonestidade intelectual, grau zero de profissionalismo. Eu, que sou jornalista, metade me indigno, metade me envergonho.

(J.C.)

Alguns dados que contrariam o reporting da RTP e mostram de que "ideias feitas" ele era "feito":

Eis alguns número sobre as eleições em França:

- Nicolas Sarkozy venceu no coração industrial da França que não votava num Presidente de direita desde Charles de Gaulle em 1965.

- Apesar de ter chamado "escumalha" aos que protestavam em 2005 em Saint-Denis, obteve 44% dos votos nesta região a norte de Paris.

- Consegui 52% do voto feminino contra 48% de Ségolène Royal.

- Sarkozy manteve o seu eleitorado: 82% dos pequenos e médios empresários, 67% dos agricultores e 61% dos franceses com mais de 61 anos votaram nele.

- Consegui 57% dos votos do eleitorado entre os 25 e 34 anos.

(Daniel Nunes)

*

Escrevo-lhe por ter tido hoje a possibilidade de ter visto um pouco do telejornal da RTP1 à noite 20.00, 7/5/2007) . Vi no seu blogue o que escreveu acerca das escolhas da RTP nos seus telejornais, e hoje enquanto ouvia o telejornal pareceu-me ter ouvido "bombo da festa" na reportagem relativa aos 33 anos do PSD.

Revi na internet a reportagem e fiquei um bocado "enjoado" pela maneira como foi noticiada a peça. Começa aos 33m10s e acaba nos 34m44s (1m34s de reportagem).

Todo o tom, nuances na voz e forma como coloca as palavras, parece ter um tom de gozo. Aliás, a jornalista não noticia o acontecimento, limita-se a fazer comentários e apartes, entrecortados com o discurso de Marques Mendes, o qual se faz num tom completamente diferente do tom em que fala a jornalista (o que a mim ainda me deu mais a noção de gozo, pelo contraste existente).

Mas o que me fez escrever-lhe foram as pérolas que a jornalista nos deu: Após a mensagem de Alberto João Jardim, a jornalista comenta que "...a partir daqui só houve um bombo da festa..." introduzindo o discurso "irado" de Marques Mendes. Ora a frase que não faz o mínimo sentido, é de péssimo gosto e nem retrata o que se segue. Depois temos "...e até já faz promessas eleitorais." relativo a Marques Mendes ter dito que iria ter no seu governo um ministro para as pequenas empresas.

Extraordinário, como em apenas 1m34s se consegue transmitir uma ideia de trivialidade e de descrédito na mensagem e na pessoa de Marques Mendes. Parabéns RTP.

(Hugo Filipe)

*

Na RTP , uma reportagem pós – eleições na Madeira, no Jornal da Noite de 07/05 ( provavelmente disponível na parte Multimédia da RTP) , tentando " perceber" o porque das vitórias de Alberto João Jardim . Segundo a jornalista , uma das razões estava no modelo de desenvolvimento , que assentava nas grande obras Públicas , no investimento publico , e num governo regional que é o maior empregador da Madeira.

A jornalista depois lá dizia que o modelo de desenvolvimento estava esgotado e que o investimento Público devia dar lugar ao Investimento Privado . Como os defensores de Hayek haviam de gostar de ver esta reportagem...

Esta reportagem é surreal . De facto , " o modelo de desenvolvimento" ( expressão que por si só , remete Portugal para o patamar dos Países de Terceiro Mundo ) da Madeira é o mesmo que qualquer autarquia do Continente e do Governo da Republica.

O Serviço Público no seu melhor..

(João Melo)

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7.5.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 7 de Maio de 2007


Um dos apresentadores num noticiário qualquer televisivo disse de passagem, certamente pensando nas dezenas de minutos que em cada noticiário se passa especulando sobre o possível rapto de uma menina inglesa no Algarve, que é o assunto a que todos os jornais ingleses dão a primeira página. Não é verdade. Devia ter dito a que todos os tablóides ingleses dão a primeira página. É essa a comparação certa com os nossos noticiários televisivos (com triste relevo para a RTP, a do "serviço público"), a dos jornais tablóides.

*
O caso da menina britânica raptada ocupava sábado passado a primeira página de todos os jornais no Reino Unido. Mesmo o conservador Daily Telegraph tinha uma fotografia da menina que ocupava metade da página.

A BBC on-line tem a notícia na sua primeira página desde que se deu o rapto. A BBC 1 tem colocado a notícia em segundo lugar na ordem das notícias do jornal da noite.

O caso está a mobilizar o Reino Unido por se tratar de um desparecimento de uma menina num local supostamente seguro para crianças. E provavelmente porque muitos pais terão feito o mesmo que os McCann - irem jantar fora a um restaurante próximo do apartamento onde deixaram os filhos a dormir.

A nossa polícia não surge com a melhor das imagens, pois notícias que aqui circulam indiciam que terá começado a actuar tarde. Jornais referem também que Portugal não tem departamentos especializados em crimes contra crianças, o que consideram inexplicável num país onde abundam redes de pedofilia. Apelidam de caóticas as conferências de imprensa dadas pela Polícia. É preciso não esquecer que a polícia britânica é especialista em relações públicas e em comunicação.

Acima de tudo, Deus queira que a nossa Polícia Judiciária consiga efectivamente descobrir a menina, sã e salva.

(Ana Pinheiro)
*

A máquina de desvalorizar já está em pleno funcionamento para a Madeira.

NOTA - A carta do leitor reproduzida em baixo levou-me ao mesmo artigo de Domingos de Andrade, mas agora sobre as eleições da Madeira. Começa assim:
Jardim não ganhou. Ganhou o populismo fácil. Jardim quis plebiscitar a lei das finanças regionais, quis mostrar ao continente que o povo, o povo dele, o povo que vive das migalhas que ele displicentemente deixa cair, as migalhas do bolo que pagamos, está contra o controlo das verbas por parte do Governo central. Jardim não ganhou. Perdeu o isolado PS- -Madeira, que não soube apresentar - ou não tinha - uma alternativa credível. Se é que valia a pena.
*
Em artigo assinado pelo chefe de redacção do Jornal de Notícias (Domingos de Andrade) escreve-se a propósito dos resultados das eleições francesas "Ganhou o discurso fácil de Sarkozy, que melhor soube interpretar e ludibriar o desejo de mudança dos franceses". Na continuação acrescenta "É preciso, disse no discurso de vitória, "reabilitar" o trabalho, a "autoridade" e o "mérito". São as palavras de ordem que sucederão aos últimos 200 anos de Liberdade, Fraternidade e Igualdade" - .

Não obstante não ser partidário de Sarkozy não deixo de ficar perplexo com este texto. É que de duas uma: ou o chefe de redacção do JN desconhece a realidade francesa e não acompanhou a campanha eleitoral, logo não deveria escrever sobre o assunto ou temos que admitir simplesmente que se trata duma escrita eivada de má fé em que as preferências partidárias e ideológicas primam sobre a objectividade do jornalista.

Ainda a propósito do discurso fácil - conviria recordar quem prometeu o aumento generalizado das prestações sociais, quem reeditou o usual refrão "os ricos que paguem a crise" a propósito das propostas de limitação dos impostos a 50% dos rendimentos, e num registo quase melodramático a propósito da violação de duas agentes de polícia num dos bairros dos suburbios de Paris sugeriu que no futuro as agentes passassem a ser acompanhadas pelos seus colegas nos seus trajectos quotidianos (o que mereceu de Sarkozy o comentário "os funcionários passam a ter como função proteger ... os funcionários". Talvez Domingos Andrade devesse reflectir sobre as palavras de um dos tenores do PSF - Dominique Strauss Kahn - que em comentário após os resultados disse "não podemos continuar a persistir numa visão ultrapassada do mundo - há que encetar uma renovação rumo à social democracia ...". Aparentemente Domingos Andrade apenas reteve a palavra de ordem da ala esquerda do PS, do PC (cuja candidata na primeira volta não atingiu os 2%) e da extrema esquerda "Tudo menos Sarkozy" que em si mesma é já um insulto aos eleitores.

A questão fundamental nem sequer são as ideais pessoais de Domingos de Andrade. O que se passa é que perante uma visão tão marcadamente enviesada da realidade não deixo de me perguntar se a sua objectividade jornalística, e a do jornal de que é chefe de redacção, conseguirão sobreviver.

(Carlos Oliveira, Luxemburgo)

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6.5.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 6 de Maio de 2007


Hoje havia dois assuntos fortes para qualquer telejornal com um mínimo de jornalismo dentro de si, as eleições na Madeira e em França. A RTP falhou por completo, evitando por coincidência dois assuntos incómodos para o PS e o Governo. Isto já para não falar desse pomposo nome de "serviço público" e da ideia de superioridade inerente da informação da RTP sobre as privadas.

A RTP fez o pior de todos os telejornais, desconexo e errático, centrado no caso do rapto da menina no Algarve (quase 16 minutos na abertura do telejornal, enquanto a TVI e a SIC falavam das eleições). No seu conjunto, a estação que tem mais meios pagos pelo erário público, correspondentes em França e uma delegação na Madeira, só falou por favor das eleições em França e tratou as eleições da Madeira com desprezo. Nem sequer quem viu a RTP ficou a saber o mínimo numa noite eleitoral, a comparação de números entre as últimas eleições e as actuais, nem os resultados dos pequenos partidos que tinham uma competição própria. Tudo muito mau, com a cereja em cima do péssimo bolo, Marcelo e Vitorino a fazer um papel decorativo, sem chama, nem controvérsia, espelhando a intencionalidade baça de todo o telejornal.

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6.3.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 6 de Março de 2007


Perceber a Europa pelas suas notícias:

- O governo socialista cede a uma greve de fome de um etarra De Juana Chaos, condenado por múltiplos assassinatos, e provoca manifestações por todo o lado em Espanha. Tema: como se combate o terrorismo à europeia e à Zapatero.

- Na Dinamarca, a internacional informal dos okupas, representada em Portugal pelo BE, provoca tumultos violentos. Tema: não são só os neo-nazis...

- Na Rússia, manifestações anti-Putin são dissolvidas à força. Tema: a liberdade na Rússia de Putin a que fechamos os olhos.

. Lembrando o massacre de Srebrenica, fala-se timidamente dos capacetes azuis holandeses que permitiram o massacre, e ainda mais timidamente dos comandos europeus que não fizeram nada para o impedir. Tema: como se faz guerra "humanitária" à europeia e se cumprem as obrigações militares no terreno.

- A BBC, o protótipo elogiado do orgão de comunicação público, não pode falar dos negócios com a "venda das honras", a concessão de títulos reais por troca de favores políticos e outros. Tema: como ser "público" garante a independência.

- Em Itália, Prodi volta aos bons velhos tempos da instabilidade governativa. Tema: perceber porque razão Berlusconi pareceu apetecível a muitos italianos.

Etc., etc.

Na verdade, pouca coisa muda. Esta é a velha Europa de sempre.

*

Mais para "pensar os jornais":

(...) provavelmente pela primeira vez (e logo nos seus 17anos), o PÚBLICO tinha a palavra "lol" escrita na sua capa: "Como é ter hoje 17 anos ou viver a felicidade... lol" É um sinal dos tempos mas não deixa de surpreender os leitores.

(Fausto Ferreira)

*
Eu que gosto de desporto em geral e de futebol em particular, que sou fã do ideal do atleta que dá o seu melhor, que vence ou que tenta vencer, que cria num momento de inspiração um gesto de espectáculo como um artista ou que batalha com coragem como um herói clássico, eu que sou capaz de ficar colado à televisão a ver horas de bilhar transmitido brilhantemente pela BBC ou a ver um jogo de basket da NBA, eu que me orgulho quando Obikwelu vence com as nossas cores, que vibro quando vejo Federer continuar invencível nos cortes de ténis, que admiro profundamente uma jogada de Ronaldinho ou uma tacada de Woods... revolto-me profundamente com os nossos jornais desportivos, que dia após dia com as suas capas e conteúdos ferem o espírito desportivo, ferem o jornalismo e a imparcialidade.

(Filipe Pinto da Silva)

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5.3.07


PENSAR OS JORNAIS - 3

[publico2007.JPG]The image “http://dn.sapo.pt//2007/02/12//capa.gif” cannot be displayed, because it contains errors.
(Devido à sua extensão o artigo não pode ser publicado integralmente no jornal. As partes em vermelho foram cortadas e são aqui repostas.)
Embora não haja receitas milagrosas e a actual situação da chamada "imprensa de referência" em Portugal seja má por razões comuns a toda a imprensa deste tipo e por problemas portugueses, essencialmente ligados à pequena dimensão do mercado, é possível identificar caminhos que, a serem seguidos, melhorariam a situação. À partida, o problema fundamental para se avançar neste caminho é que os jornais já existem e foram criados para outro modelo, com redacções tradicionais que muito dificilmente se alteram sem mudanças drásticas. Seria muito mais simples começar de novo, do zero, criando um novo tipo de jornal de "referência" de raiz, um modelo cuja hibridez se devesse apenas às impossibilidades tecnológicas do presente e não à necessidade de manter o tamanho e composição das redacções actuais. O problema dos jornais actualmente existentes, caso do Público e do Diário de Notícias, é que, devido ao lastro do passado, tem todos os problemas genéricos da crise da imprensa em papel e mais os que advêm da enorme dificuldade de se adaptarem para a transição, para os anos de espera entre o papel e o papel electrónico.

Por isso, parece-me uma solução segura e certa, e, no caso português de escasso mercado, ainda mais segura e certa, que os jornais de "referência" têm de ser muito mais pequenos, mais compactos, mais especializados, menos generalistas, comunicando de forma próxima com outros media, como a televisão e a rede, explorando todas as sinergias, com um conteúdo com identidade própria, resultado de um trabalho jornalístico único. Serão mais parecidos com os semanários e bastante diferentes entre si. Não podem contar com públicos de muitas dezenas de milhares (em Portugal), mas têm de ter uma relação económica sustentável com públicos mais escassos, mas muito mais influentes em toda a sociedade e que estão dispostos a pagar mais. Essa influência trará publicidade, mais do que a "audiência" da venda em banca, mas exige padrões muito qualificados de jornalismo. É como se, mal comparado, se abandonasse a tentativa de fazer televisão generalista para fazer um canal por cabo, a SIC Notícias por exemplo.

Um dos obstáculos a que isto aconteça encontra-se nos próprios jornais actuais, com redacções muito grandes, com vícios territoriais, com dificuldades em ter verdadeira edição sem prémio nem sanção, sem controlos internos, renitentes à verificação de qualidade. Em redacções deste tipo, as restrições de custos têm efeitos devastadores na quebra de qualidade porque o dinamismo é escasso à partida. Do mesmo modo, a introdução de critérios de exigência internos (como se verifica já hoje com a actuação dos provedores) gera grande conflitualidade. Tamanho e mediocridade sempre foram mortíferos para jornais que se pretendem de "referência", só que agora são factores decisivos de sobrevivência

Hoje, um jornal vive numa ecologia muito mais crítica e num escrutínio permanente e público. Os blogues alargaram o campo comunicacional e tornaram inevitável o escrutínio da imprensa escrita, que até há uns anos não existia de todo. Mesmo quando não fornecem essa crítica de qualidade, tornaram a reflexão sobre os jornais inevitável e inescapável. Tornaram difícil manter os jornalistas resguardados num mundo próprio, vivendo em grupo, e "pensando" em grupo, em pack, falando quase que exclusivamente uns com os outros, reagindo corporativamente a todas as críticas, exibindo nos jornais, sem sanção, a sua falta de experiência, de formação e, acima de tudo, de imaginação, deixando o mundo correr ao seu lado sem o ver, repetindo de jornal para jornal, as mesmas notícias, as mesmas palavras, a mesma maneira de ver as coisas, uma casuística superficial que só tem paralelo em Portugal com o mundo político, que é aquele que cada vez é mais próximo do dos jornais e vice-versa.

Há excepções, e é tão má a regra que essas excepções brilham de evidência. Matérias como a Europa, Timor, sondagens, corrupção, são exemplos de casos em que há jornalistas altamente qualificados nos jornais portugueses e que têm um grau de especialização que não se compadece com exercícios amadorísticos num jornal de "referência". O grau de exigência subiu e muito e a competição com os novos media valoriza a especificidade da escrita, da reportagem, da investigação, que sobrevivem bem em papel, muito melhor do que as notícias em tempo real. São jornalistas que conhecem as suas matérias, lêem o que se publica sobre elas, artigos e livros, conhecem os protagonistas, têm fontes altamente colocadas, e, quando escrevem, tem autoridade. Um jornal "de referência" só sobrevive se assentar neste tipo de jornalistas. Eles é que são o penhor da "referência" e é com eles que se pode construir uma redacção compacta, que possa ser um centro de tratamento e edição de informação, que actua organizando, procurando, editando e "escrevendo" a partir de muitos inputs do exterior, quer sobre a forma de contribuições externas (não há razão nenhuma para se utilizarem crescentemente "produções" externas, como acontece nas televisões) quer usando os novos recursos daquilo que é chamado "jornalismo dos cidadãos".

O que esta redacção compacta deve fazer é moldar o fluxo de informação ao trabalho de mediação típico do jornalista e à identidade do jornal, mas cada vez mais é suposto que o facto de trabalharem para o "papel" não deve esquecer que o "papel" e o jornal em linha não devem ser apenas complementares, mas pensados em conjunto como um único produto. Por exemplo, parece-me um erro quer menosprezar a edição em linha quer assentar a edição em linha na edição em papel. É a edição em linha que tem futuro, não a de papel, e o fluxo de informação é o mais importante "material" de qualquer órgão de comunicação.

Hoje, esse fluxo tende a ter actualidade, e "tempo real" apenas na rádio, na televisão e na rede. Mas as "sinergias" de que muito se fala hoje para os modelos de negócio na comunicação deviam ser em primeiro lugar sinergias de informação porque a prazo, rádio, televisão, rede e papel esbaterão as distinções entre meios especializados. Jornalistas com os novos meios digitais ao seu dispor podem gravar, filmar e fotografar. E o jornal deve poder utilizar toda a massa de informação que obtenha, colocando em linha toda a que não servir para colocar no papel, ou aquela que não pode ser colocada em papel. Desde já.

Um exemplo recente mostra como as redacções de hoje não actuam no sentido de maximizar os instrumentos que tem ao seu dispor, valorizando ao mesmo tempo a edição em linha e a de papel. Esse exemplo é o do terramoto de há dias, um caso típico de um evento inesperado, uma notícia em estado puro. Ocorrido o terramoto, que ainda por cima não é um facto privado, um jornal devia de imediato começar a conduzir toda a informação em linha, criando um foco de interesse, de “leitura”, que corresponda a uma necessidade real de informação por parte do público. O efeito do “directo” é muito poderoso e de imediato começam a aparecer testemunhos e, se as houver, imagens e filmes. Esse material pode de imediato ser sujeito a uma edição rápida e conforme a sua natureza colocado em linha. A massa de informação obtida das pessoas (e neste sentido os testemunhos editados podem ser considerados peças de “jornalismo de cidadão”), aliada ao trabalho da redacção em obter informação qualificada, de especialistas em sismologia, técnicos e responsáveis pela protecção civil, permite um trabalho muito mais qualificado e economias de escala. Isto significa uma redacção a mover-se à velocidade dos eventos, com equipas em linha e outras a preparar a edição em papel, acompanhando o trabalho em linha, que pode identificar com muito mais rigor as deficiências da prevenção (telefones de emergência que não são atendidos como deviam, sítios na Rede que vão abaixo, ignorância de bombeiros quanto ao que fazerem, pânico dos responsáveis, falta de treino, etc,) Isto significa também, como é óbvio que o trabalho num jornal dura 24 horas e que a tendência para se fecharem os jornais cada vez mais cedo, os prejudica gravemente.

Muito mais poderia ser dito, seguindo o modelo de tentar aproximar o mais possível o jornal de hoje das tendências de futuro que já podem ser identificadas, mas não cabe aqui. Reconheço que há outras maneiras de colocar a questão, mas trata-se apenas de um exercício de análise, nada mais. A realidade é sempre muito mais complicada.

(Parcialmente publicado no Público de 3 de Março de 2007)

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25.2.07


PENSAR OS JORNAIS - 2
(Devido à sua extensão o artigo não pode ser publicado integralmente no jornal. As partes em vermelho foram cortadas e são aqui repostas.)
1. O exercício que se fará a seguir é o de pensar num jornal ideal a partir do que é um jornal de hoje e das possibilidades tecnológicas que o podem moldar num período de cerca de uma década. Esse jornal do próximo futuro será reconhecível como um jornal, da mesma maneira que a Gazeta de Lisboa pode ser reconhecida ainda nos dias de hoje como um jornal. Não estou a falar de qualquer coisa exótica, nem sequer revolucionária, mas de um jornal, mantendo o núcleo de identidade de um órgão diário (ou semanário) assente no acto de ler, pelo qual se obtém informações, notícias, análises, comentários, críticas sobre a realidade do mundo à nossa volta. Dentro desta definição, muita coisa pode mudar, a ênfase pode ser colocada no político, no cultural, no social, o texto pode ser factual ou de creative non-fiction, privilegiar histórias ou estórias, ter mais ou menos opinião, dirigir-se a públicos eruditos ou populares, ter causas ou não ter, etc., etc., mas todas estas modalidades cabem numa concepção comum de jornalismo.


2. Não custa muito pensar no jornal ideal, nem são necessários exercícios de futurologia ou de ficção científica. O jornal ideal que refiro será possível em meia dúzia de anos, incorporando tecnologias já existentes, mas ainda experimentais e caras. Será apenas uma questão de tempo, e pouco tempo, até este jornal existir e não será em papel, mas em "papel" electrónico. O jornal do próximo futuro poderá ter apenas uma folha dupla aberta, de plástico, do tipo dos que hoje a Plastic Logic produz, pesará cerca de 100 gramas e o texto que terá será um texto electrónico, transmitido em wireless e mudando durante o dia. O jornal poderá ter uma estrutura diária e partes que não são diárias, mas o fluxo noticioso será isso mesmo, um fluxo contínuo.
Uma experiência deste tipo, ainda muito rudimentar, é a do jornal de negócios belga De Tijd usando um leitor chamado iLiad, tecnologia da Philips. Sobre e-paper ver E-paper et encre électronique : les habitudes de lecture commencent à changer.
3. Um jornal deste tipo não é apenas um ecrã portátil, mas uma folha de papel electrónico com a qual se poderá fazer o mesmo que se faz hoje com o papel, menos deitá-lo fora no fim, ou usá-lo para embrulhar peixe, porque fica caro. Há apenas uma razão, para além do custo actual, para o papel electrónico não ter ainda substituído o papel: ainda há limitações técnicas na sua funcionalidade para se adaptar em pleno ao principal factor limitador das tecnologias, o corpo humano e os seus hábitos. Há certas coisas que não fazemos, ou que não é confortável fazer com os ecrãs actuais de computador e, enquanto não existir papel electrónico capaz e barato, a mutação do papel para o ecrã plástico não se fará. Quando houver, a mutação será muito rápida e o papel de impressão ficará um nicho de mercado de luxo como os relógios analógicos.


4. O jornal estará obviamente numa forma de ecrã, mas não estará preso ao computador, não será laptop, nem desktop, embora consigo vá um computador especializado e uma ligação permanente à rede. Será mais um dos múltiplos objectos que passarão a ser inteligentes porque tem um processador, software e a comunicar em rede: casas, frigoríficos, lâmpadas, roupas, automóveis, etc. Transportar-se-á como um jornal, ler-se-á como um jornal, terá a mesma resolução, ou ainda mais do que um jornal. O suporte tem de permitir o espaço que necessita um jornal, precisa de páginas e de paginação, e também aqui há considerações ergonómicas que dependem do nosso corpo, do nosso olhar. A razão pela qual o jornal ideal depende mais do papel electrónico do que de um grande ecrã, mesmo que ultrafino, é que tem de ter espaço para se espraiar e ler e portabilidade. Não cabe num telemóvel, e não cabe num ecrã de computador que não necessita na maioria das suas funções de tanto espaço como a página dupla aberta de um jornal.

O seu grafismo mudará, a partir do modelo clássico do jornal, mas incorporará o grafismo dos sítios em rede, como aliás já acontece com o grafismo da rede a influenciar o grafismo dos livros, jornais e revistas e publicidade. Posso partir do princípio de que esse jornal terá o mesmo tamanho do Público e do Diário de Notícias, cujas qualidades ergonómicas permitem que se possa ler nos mesmos sítios onde hoje se lê um jornal, no carro, na cama, numa cadeira, num autocarro. E que se possa levar debaixo do braço ou numa pasta.

5. Até aqui, o papel electrónico foi mais papel de plástico do que electrónico, mas a verdadeira revolução dos jornais virá do electrónico, ou seja, do conteúdo em linha e do hipertexto. Começa logo no facto de todas as vantagens do ecrã e da ligação em linha estarem presentes, tornando o papel vivo: os que lêem mal podem alterar o tipo de letra, os cegos podem ouvir o jornal, e nesse jornal não se lerá apenas, pode-se ouvir sons e ver filmes, pode-se procurar palavras-chave, ler artigos para que remete uma bibliografia, seguir ligações em linha na rede. O hipertexto acelera a integração de todos os fluxos digitais, numa só estrutura de "leitura". O papel vivo pode ser lido por contacto na página, como no iPhone, ou nos ecrãs sensíveis e por isso, desde a simples função de folhear as páginas, até ao acesso aos arquivos, à sequência de notícias, a canais em directo de televisão, tudo se poderá fazer a partir de uma estrutura que será essencialmente voltada para informar, analisar, debater, como é suposto serem os jornais. Todos os actos simples que se fazem com um jornal, preencher as palavras cruzadas, responder a um anúncio, escrever uma carta à redacção, marcar um artigo e recortá-lo, deitar fora um suplemento que não se deseja, estão presentes.

6. Este jornal ideal acabará com a distinção entre o jornal em papel e o jornal em linha, mas essa mudança não se fará apenas pela hegemonia do jornal em linha, mas pela valorização de um contínuo que incorpora o mecanismo fundamental que os distingue: o hipertexto. O que está a gerar a crise do jornal de papel é a sua impossibilidade de incorporar hipertexto, ou seja, de comunicar com todos os outros fluxos de informação que um jornal em linha pode utilizar: som, vídeo, arquivo, leitura em volume típica do hipertexto propriamente dito, tempo real.

Um exemplo: um artigo sobre a actual campanha do aborto nesse jornal do futuro conterá a notícia da novidade que foi a utilização utilização dos vídeos no YouTube e conterá os vídeos de Marcelo Rebelo de Sousa e do Gato Fedorento. O leitor poderá ler sobre eles e ter de imediato disponível toda a informação em que se baseia o jornalista. Quando, ao lado, estiver um artigo de crítica ou um comentário, quem o escreve terá que o fazer com muito mais rigor e precisão, com valor acrescentado, porque o leitor que o lê dispõe da mesma informação em bruto que tem o jornalista ou o crítico. No final, os textos, as análises, as fontes, os números, as opiniões, fornecem o tipo-ideal da informação: matéria prima noticiosa, mediação e opinião plural. Isto hoje só é possível num orgão de informação com o hipertexto.

O próprio conceito clássico do artigo mudará com o hipertexto. Embora este "texto" de Lawrence Lessig não seja um artigo no sentido clássico do termo, funciona como se fosse um artigo de opinião: expõe uma posição usando mecanismos que estão entre o texto, o filme, a conferência, a imagem como reforço da palavra, etc. O jornal do futuro terá artigos clássicos, e artigos deste tipo.

7. O primeiro objectivo de um jornal é informar, e um jornal em papel é um meio mais pobre para informar do que um jornal em linha. Esta é que é a chave da crise da imprensa escrita, a impossibilidade de incorporar o hipertexto. Eu próprio, ao escrever este artigo, já várias vezes tive de abandonar formas mais simples e explicativas de dizer o que quero dizer. Quando o colocar em linha, vou poder fazê-lo: incorporar imagens da Gazeta de Lisboa, do Diário de Notícias de 1945 e do papel electrónico da Plastic Logic, com ligações para os vídeos em que se percebe como se pode manipular o novo papel. Se eu colocar aqui [na edição em papel] um endereço electrónico, uma URL, ele mostrará de imediato a inadequação do meio actual: http://www.plasticlogic.com/index.php . Este “texto” não serve para ser lido como a frase anterior e não pode ser clicado. Terá que ser copiado à mão e reescrito, algo que muito poucos utilizadores intensivos da Rede farão. Eles verão o nome da companhia, Plastic Logic e colocarão o nome no Google e chegarão lá de forma que já tem muito pouco a ver com o jornal. Acima de tudo, terão que, pelo caminho, deixar o jornal de papel de lado, porque a partir daqui lhes é inútil.

8. Há também algo que tem que mudar, mas também já se percebe de modo grosseiro como tal possa acontecer: o modelo económico dos jornais, quem paga os jornais e como, para estes sobreviverem como empresas que são. Deixo de lado o facto de a edição em papel ser por si só muito cara e para, uma outra ocasião, as mudanças na produção jornalística que a “vida” do papel electrónico trará a redacções e aos jornais como organização. A aparição de produtoras de textos, reportagens, análises, de material para os jornais, será uma consequência da desadaptação de redacções muito grandes, pouco flexíveis e muito caras ao modelo do jornal do futuro. Como já existe para o audiovisual, haverá um novo mercado de “textos” (e de imagens, vídeos, sons, etc.) dando uma outra dimensão ao jornalismo freelancer e será um caminho que pode mudar o tamanho gigantesco que atingiram as redacções, com os enormes custos associados.
Mas o modelo económico do jornal do futuro estará na Rede. Na Rede, os grandes percursores dos pagamentos em linha não foram os bancos, nem as instituições financeiras, mas os sítios pornográficos. Eles precisavam de meios fáceis, simples, seguros e quase anónimos de pagamento e desenvolveram mecanismos que depois a Amazon, a Ebay e a Paypal utilizaram. Há investigações em curso para encontrar meios fáceis (que não exijam sequer um clic suplementar) e seguros para pagamentos muito diferenciados, incluindo sistemas de “pay-per-view” quase nominais, um cêntimo por exemplo, para o consumo de todas as partes do jornal em linha, que não incorporam muito valor acrescentado. Mesmo numa Rede que tem uma cultura da gratuitidade, estes pagamentos nominais podem obter aceitação generalizada no acesso a sítios profissionais e empresariais que “vendem” um produto único e de necessidade. Uma das formas de combater a pirataria nas músicas e nos filmes foi tornar os produtos digitais muito mais baratos do que o que eram, e, com a crescente centralidade da Rede em todas as actividades, o mercado de massas será aí.

Um artigo do New York Times sobre o problema do "pay-per-view" a partir da situação do próprio jornal em que "the number of people who read the paper online now surpasses the number who buy the print edition."

Esta mudança nos pagamentos, reflectir-se-á a prazo na publicidade e dependerá, como nas bancas, em última razão, das “vendas”, das “audiências” e dos públicos especializados. Na rede é possível fazer uma diferenciação de públicos muito mais certeira do que no jornal em papel e as formas de publicidade, que muito embrionariamente estão a surgir à volta do Google, mostram caminhos novos.

9. Será por aqui que os jornais irão e, se quiserem sobreviver, deverão pensar-se desde já no modelo do futuro mais próximo, para onde já estão, sem se aperceberem, a migrar. É por aqui que eu parto para analisar o presente, porque, utilizando-se este método de aproximação, verifica-se que muita coisa que se pode fazer desde já não está a ser feita. Ou seja, se eu tivesse de analisar como se devem mudar os jornais actuais, em particular os que pretendem manter o estatuto "de referência", eu pensava-os essencialmente a partir da pergunta: o que é que eu posso fazer desde já na combinação jornal de papel com versão em linha, para os fundir cada vez mais, aproveitando as vantagens de cada um dos meios e tentando minimizar as desvantagens que existem em cada um deles. Uma coisa eu não faria de certeza: era pensar os jornais em papel para "competir" com os meios electrónicos, jornais em linha, sítios e blogues, pela simples razão de que essa competição está perdida a prazo. Eles têm hipertexto, o papel não tem. Ponto final, por aí não há competição.

(No artigo seguinte farei a aplicação deste modelo: como é que desde já os jornais em papel - em complemento com a versão em linha, que quase todos têm - podem evoluir para maximizar tudo o que os aproxima deste jornal do futuro. É muito mais do que se pensa, e mudará profundamente a organização, métodos de trabalho, preparação, o "tempo e o modo" dos jornalistas. Mas continuará a ser jornalismo.)

(A partir da versão do Público de 24 de Fevereiro de 2007)

*
1. Parece evidente que o futuro da imprensa escrita passará, inevitavelmente, pelas soluções electrónicas emergentes;

2. O salto que (...) visiona, para uma solução do tipo da "Plastic Logic", pode ser uma entre muitas soluções, embora os timings que propôs me parecem muito apertados. De facto dentro de cinco anos não me parece que aquela tecnologia possa estar suficientemente testada, evoluída e disseminada pelo mercado, com capacidade para substituir os actuais suportes impressos. Além disso, a emergência dessas tecnologias fará com que o número de leitores ainda diminua mais, tendo em conta que a capacidade económica será um factor de selecção, aliada ao acesso e manuseamento da tecnologia. Nesse contexto, dificilmente teríamos o jornal no café, um dos locais onde, hoje em dia, é mais lido.

3. A própria filosofia do jornal teria que mudar muito. Depois do jornal que morre e nasce a cada dia que passa, teríamos o jornal que nunca morre mas que se transforma a cada minuto; o sistema de venda da informação também seria radicalmente alterado, eventualmente para o sistema de assinatura on-line.

4. Para um futuro próximo, crieio que a melhor solução para a imprensa escrita, que está a ser fortemente condicionada pelos media on-line, poderia ser uma maior articulação e complementaridade escrito/on-line, com jornais em papel mais leves e sintéticos, ao nível das necessidades e tempo de leitura actuais, complementado com a informação no digital, com desenvolvimentos, dossiers, disponibilização de links utilizados como fontes, multimedia (imagem, audio e filme), ou seja, tornar o impresso e o digital um pacote que contém um produto informativo. Á grande novidade poderia residir no modo de acesso ao on-line, que deveria ser codificado, apenas disponível durante 24 horas para os utilizadores que tenham adquirido a versão impressa, onde seria fornecido um código de duração limitada.

(João Carlos Gonçalves)

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O seu artigo é bastante interessante, mas parece-me que peca por um vício de raciocínio - tenho para mim que uma boa parte das pessoas que compram um Jornal o fazem por uma questão sentimental, e não por um motivo meramente informativo.
O ritual, o cheiro, o dividir em várias partes com diferentes utilizadores e utilizações.
Claro está que, sendo uma questão sentimental, se pode mudar alterando os sentimentos - mas não me parece que tal aconteça em grande escala.
E, neste sentido, a versão papel e a versão "electrónica" serão concorrentes.

Eu continuarei a ler os jornais electrónicos no meu computador, e a comprar na minha tabacaria de bairro a versão papel. Que lerei num café ou esplanada; e que, terminado, oferecerei amavelmente ao anónimo vizinho da mesa ao lado, não sem antes ter rasgado uma indicação de um restaurante onde nunca irei, e que transportarei na minha carteira por várias semanas, até ir parar ao lixo na "limpeza" mensal da mesma.

A versão electrónica será mais funcional, mas felizmente já vivemos num estágio de desenvolvimento tal que, em muitas situações, podemos dar-nos ao luxo de por o emotivo à frente do racional! E haverá mercado para ambos - a não ser que o electrónico acabe por abafar o outro - o que não seria desejável.

(Pedro Pereira)

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18.2.07


PENSAR OS JORNAIS I

À nossa frente, diante dos nossos olhos, vários objectos que tomamos por indissociáveis do "nosso mundo" desaparecem, uns lenta, outros rapidamente, de um dia para o outro. Já vi desaparecerem as máquinas de escrever, os copiógrafos, a tipografia a chumbo, os selos do correio, o rolo de fotografias, o gravador de fita, as disquetes, o telex, o fax, o vídeo, etc, etc.

http://www.maths.bris.ac.uk/~mazjmh/Stamps/machin.jpg http://docushare.unisa.edu.au/docushare/dsweb/Get/Document-2522/ENC1-19+retirement+telex.jpg http://www.rockymountainfilm.com/images/e4.jpg http://retrothing.typepad.com/photos/uncategorized/brother.jpg

Olhando à nossa volta, outros objectos estão também a ir-se embora: que necessidade tenho eu de vir a esta estante de CD de música que gravei no iPod, podendo agora transportar toda a minha discoteca de aparelho para aparelho sem precisar de mais nada? Ao lado, os vídeos em VHS juntam-se aos discos em vinil e suponho que, a prazo, os DVD irão fazer-lhes companhia. Os selos, a mesma coisa, hoje já quase que não se usam no correio, para serem emitidos apenas para os coleccionadores. O dinheiro pouco a pouco é substituído pelos cartões e todos os cartões convergem para um só. http://static.flickr.com/78/156602769_bbb73553ab_m.jpgA rápida mudança do tempo vivido dos objectos torna obsoleto qualquer filme de ficção científica que tenha mostradores analógicos em vez de digitais, porque nós sabemos que o futuro não substituiu apenas as alavancas por botões, mas acabou com os mostradores redondos em que um ponteiro podia indicar um drama quando se aproximava do vermelho. Hoje, só para os filmes de submarinos da Segunda Guerra Mundial.

E será assim para estes objectos que tenho à minha frente, feitos de muitos hectares de floresta, esta pilha de jornais? Estão também a ir-se embora, pouco a pouco, sem nós vermos, nem nós querermos? Talvez em geral, sim, em particular para os jornais feitos ao modelo antigo, entre o jornal generalista e aquilo que se chama hoje "imprensa de referência". Vejamos o caso português, em que há várias coisas evidentes que os jornais "de referência" não quiseram ver nem entender. Uma delas é que hoje um leitor em papel pode ler a "imprensa popular", opção que não tinha no passado.

Quando só havia jornais vergados ao peso de si próprios como instituições, protegidos por um mundo em que a institucionalização era garantida entre outras coisas pela censura - que eliminava o "popular" (sentimentos fortes, crime, inveja social, críticas aos poderosos, voyeurismo, violência em geral, medos, etc.) -, a "imprensa popular" não existia.
Acabada a censura e envelhecidos os modelos dos jornais "de referência" numa sociedade em mutação, em que a ascensão das massas aos consumos "culturais" se dava pela primeira vez, era natural que uma parte dos públicos forçados até então pela ausência de alternativa escolhessem. Já não tinham apenas o Diário de Notícias, ou o Diário de Lisboa, ou o The image “http://www.mni.pt/images/conteudo/jn.gif” cannot be displayed, because it contains errors.Século, ou o Diário Popular, ou o Comércio do Porto, ou O Primeiro de Janeiro, mesmo com as suas nuances, mas podiam começar a comprar o Correio da Manhã e, mais tarde, a imprensa tablóide, que é uma outra variante de "imprensa popular". No Porto, sempre tiveram essa escolha porque tinham o Jornal de Notícias, de quem se dizia que, se se espremesse o jornal, escorria sangue, e talvez por isso é que a imprensa "de referência" de Lisboa nunca tivesse tido sucesso no Porto. (Deixo por agora de parte a concorrência com a televisão e rádio quanto à novidade noticiosa e à espectacularização).
Afastada da sensibilidade "popular", logo do público de massas, era inevitável uma perda significativa de leitores, agravada pelo aparecimento dos gratuitos. Mas a imprensa "de referência", durante muito tempo, que era também imprensa do Estado porque pública ou semipública, continuou num caminho autista até que a privatização começou a abanar os bolsos dos "donos" da imprensa com os elevados custos de jornais que perdiam leitores e, ao perderem leitores, perdiam publicidade. Quer o Diário de Notícias, quer o Público, de modo diferente, começaram a sentir há muito esta perda e ensaiaram diferentes respostas para a contrariar, cujo sucesso depende da correcção da análise dos problemas.
Uma observação sobre um reparo feito no Indústrias Culturais sobre "a colocação temporal do autismo dos media impressos. Primeiro, a imprensa de Estado (...) só existiu entre 1975 (...) e finais da década de 1980 (...). O Diário de Notícias foi desnacionalizado em Maio de 1991, ou seja, há 16 anos é propriedade privada. Entretanto, tinha surgido o Público (1990)." Tive em conta esta circunstância, mas penso que o Diário de Notícias só foi verdadeiramente des-nacionalizado quando foi comprado por Joaquim Oliveira e deixou a PT.

The image “http://dn.sapo.pt//2007/02/12//capa.gif” cannot be displayed, because it contains errors.[publico2007.JPG]O Diário de Notícias tentou tornar-se num jornal forte na economia, investindo num suplemento diário, o Público tenta conquistar os novos leitores que estão a fugir para a rede. Quer um, quer outro valorizaram o desporto e outros temas "populares" mesmo antes das reformulações realizadas, num caso e noutro muito distintas nos seus alvos. O Diário de Notícias parece ter falhado, o Público ainda é cedo para ver.
No Bloguitica Paulo Gorjão insiste em três factores decisivos na decisão de compra de um jornal "de referência": "informação de qualidade; análise de qualidade; e, opinião de qualidade. Uma trilogia de 3Q." Tem razão em identificar estes factores em que uma cultura de exigência ainda está muito longe de chegar ás redacções. Só por si, se se fosse por aqui, obter-se-iam resultados, mas não se estancaria a crise da imprensa escrita ao modo tradicional. Penso que é preciso ir mais longe na análise da crise e pensar as questões de forma (as tecnologias, o grafismo, os meios) como questões de conteúdo e ir ainda mais longe entendendo que o "consumo" de informação está a mudar não só em exigência, mas num modo diferente de ler, procurar, analisar, aprender e divertir-se. Estas mudanças fazem migrar muita coisa que antes se fazia nos jornais para outros media e implicam um novo conceito de jornal, não apenas o antigo jornal melhorado. É sobre isso que escreverei para a semana.
Perdendo os públicos antigos, que se deslocaram para a "imprensa popular", colocava-se saber por que razão não se conquistavam os novos públicos. Havia sempre duas estratégias possíveis: ou tentar tornar "popular" (e "popular" e tablóide" não são a mesma coisa, porque há imprensa "popular" de qualidade, como é o caso do Correio da Manhã) o produto, como agora se diz, ou tentar roubar novos públicos a outros media que começam a crescer, em particular na juventude, ligados a outra combinação de media. Basta ver a combinação de media que os jovens consomem - jornais desportivos, revistas de moda em papel e blogues e sítios, incluindo os jornais, gratuitos em rede - para se perceber que não era tão simples como isso lá chegar, com um produto em papel. É que as novas elites numa sociedade de massas, em particular as elites com elevada educação formal, são também elas próprias um resultado da sociedade de massas, espectacularizadas, com gostos "culturais" muito mais "populares", habituadas a uma informação mais curta, fragmentada e utilitária. Na verdade, a sociedade de consumo de massas encolheu as elites, como nós as conhecíamos do passado, e gerou elites que o são socialmente, mas que, entre outra coisas, lêem menos e lêem diferente. O retrato das elites do presente dificilmente seria considerado como sendo de elite no passado. A tradição já não é o que era.
Reproduzo aqui uma nota que publiquei no Abrupto sobre a campanha publicitária do Público :

...parece voltada em parte para esse público da "cultura de blogue", apelando às suas referências
culturais, para o trazer para a imprensa escrita em papel, o que é uma contradição nos seus termos. A contradição tem a ver com o facto dessa "cultura" ser estruturante e dos seus hábitos não serem "em papel". Não só os hábitos não são "em papel", mas sim no ecrã, como a forma de ler em volume e em profundidade (do hipertexto) é diferente da forma de ler em superfície e sequência (dos textos em papel, dos livros). Os hábitos são também mais de "ver" ( e de "ouvir") do que de "ler", o que explica o sucesso do YouTube como percursor de uma Rede em que se vai "ver" mais do que "ler".

Por isso, a campanha de publicidade resultará mais naqueles que chegaram a uma "cultura da Rede" mais do que a uma "cultura de blogue", ou seja, que não foram feitos "dentro" da "cultura de blogue", mas que ajudaram a fazê-la. Gente mais velha, com os pés em ambas as literacias, as do livro e jornal clássicos e as da Rede. Se foram estas as pessoas que deixaram de ler jornais pela décalage de interesses mais do que pelo facto de serem em papel, a campanha (e presumo que o jornal) terá sucesso, porque fará um produto mais próximo da sua agenda de interesses.

Os que já foram moldados pelos hábitos da Rede, os que se habituaram (como muitos adolescentes a chegarem ou nos primeiros anos na universidade) a olhar para o mundo no modo pick and choose típico dos blogues, nunca mais lerão em papel como se lia antes e não há campanha publicitária que os agarre. Vamos ver.
Podemos não gostar deste mundo, mas é o que existe lá fora. Neste processo, para onde foram os leitores dos jornais? Fugiram porque os jornais não lhes interessavam, ou porque já não precisam deles e não estão dispostos a pagar caro por aquilo que tem para eles apenas um utilidade marginal. Quem sobra é uma elite de uma elite, que continua a precisar e está disposta a pagar jornais de "referência", com a condição de que estes lhes forneçam informação de muito maior qualidade, o que, por regra, não acontece hoje. Só há uma maneira de os jornais competirem com os novos consumos mediáticos gerados pela televisão e pela rede, é serem muito diferentes do que eram no passado e serem únicos, ou seja, o que está ali não está em lado nenhum. E, mais fundamental ainda: não poder estar em nenhum outro lado.

(Continua)

(No Público de 17/2/2007)

*
Basta abrir a página do NYTimes na net para perceber o que é que um jornal de referencia tem de fazer para continuar a sê-lo. Como diz muito bem, é ser único no que publica. Para tal é preciso gente de muita qualidade que esteve disposta a tarimbar e a sofrer pelos pequenos jornais até chegar ao NYTimes. Já viu alguem tarimbar em Portugal? Todos querem começar em Lisboa. Quando o DN exigir que os seus jornalistas sejam licenciados, que tenham trabalhado pelo menos 5 anos nos jornais de provincia, que produzam trabalho que seja absolutamente original, por salários que nunca os farão ricos e que a fama e o respeito de seus pares é a sua verdadeira compensação, então teremos jornais de referencia. (e terem uma página na net não afecta nada, antes pelo contrário, ajuda a ganhar receitas de anúncios e leitores da cópia em papel)

(DG)

*

(...) os pontos que assinala na sua crónica no Público são sem dúvida pertinentes, e imagino que seja uma discussão que diariamente as direcções dos jornais portugueses (bom, em todo o Mundo...) se debatam. Como aumentar as vendas, como aumentar as vendas, como aumentar as vendas? Ah, e sem perder qualidade (referência vs popular/tablóide).

Todavia, julgo que se esqueceu de um caso que eu julgo que já se pode considerar de sucesso em Portugal (não é necessário irmos ao NYTimes): o Expresso.
Se há jornal de referência que conseguiu ultrapassar o processo de renovação, melhorando imensamente a qualidade e melhorando as vendas (além de resistir à nova concorrência), foi o Expresso.

E não foi só o produto em papel que melhorou. O seu sítio na Internet está, neste momento, fabuloso. Junta a simplicidade/usabilidade a uma diversidade de secções, que nenhum outro jornal tem. O Público, apesar de tudo, também tem agora um excelente site, mas não está ainda ao nível do que o Expresso conseguiu construir nos últimos meses.

Qual o sucesso do Expresso, no binómio papel/internet? Interactividade. Conseguiu com sucesso fazer com que os seus leitores interajam não só com as notícias em si, mas com os seus jornalistas, com os seus cronistas, com os seus entrevistados, com todos aqueles que fazem realmente um jornal, e com quem os leitores querem interagir.

Não basta lançar fóruns, podcasts, blogs, para pensar que se vai ter sucesso. Tem de se mobilizar aqueles que compõem o jornal a interagir realmente com os leitores, dando-lhes feed-back ao que estes dizem e escrevem, fazendo contacto directo. Os leitores não querem ser um elemento passivo, mesmo quando já há um certo grau de envolvimento com os novos meios digitais. Os leitores neste momento querem fazer parte do jornal, querem que os jornais lhes dêem importância (e não o contrário), querem que a sua opinião pessoal seja valorizada.

Pessoalmente julgo que o passo seguinte dos órgãos de imprensa, no futuro, será a sua redacção pelos próprios leitores, na linha do Wikipédia. Poderá não ser a melhor evolução, mas os jornais que não quiserem ver este passo lógico, terão certamente dificuldades...

(José Manuel Iglesias)

*

Considero que a tendência na evolução dos media em Portugal é claramente negativa. Tive esperança de que a entrada do arrojo do grupo Prisa (não vejo nenhum fantasma na pertença castelhana do capital) introduzisse qualidade, competência e competição. Mas o que o Rádio Clube até agora deu a ouvir está longe de preencher o vazio deixado pelo abandono que a TSF mostra do jornalismo de investigação e reportagem. No Rádio Clube falam, falam, mas há muito que nem sequer fale minimamente bem e ouço opiniões e comentários a mais e reportagens a menos.

Encontro o mesmo vício na imprensa portuguesa que leio (Público, DN, CM e Metro em papel, JN na net). Tornei-me leitora do DN quando há alguns meses a imagem do jornal foi refrescada e essa curiosidade me permitiu encontrar alguns textos jornalísticos interessantes, com bom equilíbrio entre notícias, reportagens e opinião e na atenção ao local e ao mundo. Apreciei a qualidade que José Pacheco Pereira refere do investimento no suplemento Economia. O DN não me satisfaz mas discordo de si (e parece que também da Administração do DN) quando afirma que o DN parece ter falhado. Pode falhar como negócio, mas deu passos firmes no jornalismo de qualidade. Aqui entra uma minha preocupação e vejo-me, eu, profundamente liberal, a interrogar-me sobre os riscos de toda a imprensa nas mãos de homens de negócios sem tradição de família de imprensa. A imprensa é um negócio, eu sei. Mas quando o “entorno” do país é rebaixado (desde o Big Show Sic e Big Brother) para o mais tablóide, quando a Escola não assume a dimensão crítica dos media, a qualidade da ambição dos consumidores de media baixa para níveis que confrangem quem tem mínimos de curiosidade sobre o mundo e sobre as boas ideias e negócios. Para acompanhar o mundo preciso de recorrer ao El Pais de que me tornei assinante, compro no fim de semana o IHT e o FT e, às vezes o Sunday Times e desfruto das indicações do excelente guia da actualidade oferecido na net pelo serviço público que é o Sena Santos Podcast (que substitui a falta de mundo dos noticiários radiofónicos). O que sabemos na imprensa portuguesa sobre o que se passa no mesmo Timor que há menos de dez anos tomou com exagero avassalador os media de Portugal? (abro excepção para uma rica short story de Pedro Rosa Mendes no Expresso de 2007-02-17). E o que sabemos de Angola e de Moçambique onde também deveríamos ser o primeiro dos observadores e transmissores da realidade? Também de S.Tomé, de Cabo Verde e da Guiné-Bissau? E da Europa a que aderimos? E do Brasil?

Temos o Público que tanto me entusiasmou quando apareceu mas que nos últimos anos passou a reflectir a realidade de um país em que os ricos recorrem à imprensa estrangeira e os pobres são alimentados pela imprensa que temos ou com os escândalos quotidianos ou com páginas e páginas de opinião. Falta a análise profunda e falta o testemunho presencial da reportagem. Senti um frémito de entusiasmo ao olhar a renovação do Público iniciada na última segunda-feira, o jornal ficou muito atraente à vista. Mas, em primeira impressão, não encontro nenhum enriquecimento de leitura, talvez até pelo contrário, e não gosto do desaparecimento de secções como Educação, Saúde ou Media. Vou esperar para ver mais e ver se me habituo.
É assim que cada vez mais me transfiro para a internet à qual estou a dedicar uma média de duas horas por dia. É na internet que encontro o fundo sonoro e é também na internet que encontro leituras que me satisfazem, mas conservo o gosto (mal correspondido) da leitura matutina de jornais em papel.

(Ana Costa)

*

Sinceramente tenho quase a certeza que muitos (a maioria?) dos leitores / espectadores / consumidores de informação (mesmo os mais atentos) não se interrogam sobre estes assuntos e estas mudanças, simplesmente adaptam-se a elas fazendo as suas opções pelas várias ofertas mediáticas em função do que gostam / necessitam / valorizam. Há uns anos dei por mim a passar do papel p/ a Internet s/ dramas, quase s/ dar por ela. Hoje consumo dos 2 consoante as oportunidades que surgem (leio jornais quando viajo, uso a Internet no escritório). Esta ultima permite s/ custos uma infinidade de escolhas (site dos jornais em papel, jornais on-line, blogs, etc) no momento em que der mais jeito (pode-se ir lendo enquanto se trabalha) e por isso a prefiro. Além disso quanto menos papel se consumir mais ecológico se está a ser. Julgo que a tentativa do jornal-papel a competir c/ as multiformas informativas / opinativas da Internet é o mesmo que a carroça a tentar competir c/ o automóvel no inicio do Sec. XX, o prognóstico já era mais que certo quando o “jogo” começou. A lista de suportes de informação que apareceu e desapareceu (ou está em vias de extinção) nos últimos 100 anos é extensa e só prova a velocidade das mudanças. Ainda me lembro há pouco mais de 20 anos da guerra VHS / Beta ganha pelo 1º. Hoje já ninguém o quer. Lembro-me das enormes (no tamanho, não na capacidade) disquetes de 5 e ¼ (polegadas) serem derrotadas pelas de 3,5 (hoje CDs RW riem-se da irrisória capacidade de 1,4 MB). Foi para tudo isto que trabalhamos, para termos mais e melhores meios de suporte da informação, para termos mais e melhor acesso à informação, para sabermos mais. Como usamos as ferramentas que as melhores capacidades técnicas da humanidade puseram à nossa disposição, só depende de nós e das nossas sociedades, tal como a TV, a rádio, os jornais são aquilo que a sociedade fez deles. Não são as capacidades técnicas e características específicas dos meios de suporte / transmissão de informação que fazem deles bons ou maus, é o uso que lhes damos, a exemplo da dinamite de Nobel. Se usamos os meios que temos para trabalhos “pacíficos” ou para “bombas” a culpa será sempre das opções que as sociedades tomaram e que resultam da “soma” das opções individuais de cada um. Não foi preciso Internet p/ as revistas cor-de-rosa terem o sucesso que têm e promoverem as “figuras” que promovem e que muitos consomem, alimentando um negócio de milhões. Se numa sociedade se dá mais importância ao enésimo romance da Xáxá Carlota Joaquina do que à educação, saúde, etc, a culpa não é dos media, nem dos seus donos, é de quem compra / consome Xáxá Carlota Joaquina e se borrifa p/ a saúde e a educação. Numa sociedade democrática e c/ mercado livre o consumidor é que manda. Por muito que lhe seja mais confortável culpar os outros (os médias, os donos dos médias, os que produzem conteúdos, etc, etc) o consumidor num mercado livre é o único responsável pelo que aparece e pelo que desaparece do mercado, são as suas decisões de compra que definem o que tem e o que não tem êxito. O resto é conversa

(Miguel Sebastião)

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