| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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23.3.08
Existe em Portugal um delito de opinião para o qual uma pequena turba, que só parece grande porque é alimentada pelo silêncio de muitos, pede punição, censura, opróbrio, confissão pública do crime, rasgar de vestes. Esse delito de opinião é ter estado a favor da invasão do Iraque e é particularmente agravado nos casos raríssimos em que se continua a estar a favor, esses então de reincidência patológica que justificam prisão e banimento. Esta persistência no erro só pode mostrar tenebrosos defeitos de carácter e uma crueldade sem limites, que são apontados a dedo como devendo justificar o ostracismo e a incapacidade cívica. Como só se aplica a meia dúzia de pessoas, visto que a maioria dos apoiantes originais abjurou como Durão Barroso, ainda é mais fácil apontar o dedo. Se houvesse pelourinho na cidade, a turba lá nos levaria a mim e ao José Manuel Fernandes, que suporta nove décimos de ataques à sua direcção do Público por causa deste delito de opinião, para a humilhação pública.
Para essa turba que grita "crime" os factos interessam pouco, o conhecimento do que aconteceu fica confortado com meia dúzia de meias verdades, muitas falsidades, mas acima de tudo uma ignorância militante que não só não sabe como não quer aprender. Os factos não lhes interessam de todo. Olharem o Iraque em 2003, 2006, 2008 é a mesma coisa, só muda o número do final do ano. Têm uma tese e, aconteça o que acontecer, o que vale é a tese e essa tese é normalmente uma visão do mundo assente num único pilar, o anti americanismo militante por razões puramente ideológicas. Essas razões existem, mas raras vezes são enunciadas para não prejudicar o bater no peito moral com a suspeita de que a mão que bate o faz por uma política radical que não ousa mostrar-se. Desse ponto de vista, as críticas a Bush têm um precedente curioso, parecem as críticas a Churchill e a Reagan.(Pax Americana vista pelo Berliner Illustrierte , Berlim - RDA, 3 de Março de 1951) Sobre Churchill como "criminoso de guerra", visto pelos nazis; sobre a "imagem dos americanos como inimigos" construída pela República Democrática Alemã. (Churchill como belicista num cartaz em Leipzig, RDA, 1954) ![]() ![]() Representações dos Presidentes americanos como belicistas: Kennedy como "cão de guerra" ; Reagan como personagem do Dr. Strangelove e como cowboy conduzindo a América para a as "dark ages". Há, como em todas as regras, meia dúzia de excepções de pessoas que foram contra a guerra e que o foram por razões mais sérias e que foram capazes de apontar erros reais da actuação dos americanos, em particular os que vinham quer da ignorância da dimensão daquilo em que se estavam a meter, quer da sua impreparação para o fazer e das suas erradas prioridades. Essas objecções sérias merecem ser discutidas e, nalguns casos, deve-se-lhes o reconhecimento da razão que tiveram antes do tempo. Mas, insisto, os interlocutores sérios são a excepção. Nesta matéria, quem faz a lei ideológica e tribunícia é o Bloco de Esquerda, muitas vezes secundado pela voz de Mário Soares. Todos falam com a linguagem, os slogans, os tiques, os excessos verbais, a arrogância moral e a pesporrência do Bloco de Esquerda e não querem saber de mais nada do que da condenação moral dos "responsáveis" por "muitas centenas de milhares de mortos". Os números são plásticos, podem ser exagerados porque são sempre números do "crime". Não lhes interessa Saddam, não lhes interessa a submissão dos xiitas, não lhes interessa a natureza de um regime que atacou aldeias curdas com armas químicas, não lhes interessa um ditador que provocou guerras, essas sim, com mais de um milhão de mortos, e que invadiu os países vizinhos. Nada mais lhes interessa. Dito isto, vamos pois continuar a cometer o delito de opinião. A última coisa que direi é que, cinco anos depois, na operação iraquiana tudo correu bem, porque, em muitos aspectos, correu até bastante mal. Só que não é pelas mesmas razões, nem pelas mesmas causas, nem pelos mesmos motivos, dos que bradam ao crime e à "mentira". Mais adiante voltaremos aqui, mas comecemos pelo princípio. Primeiro, há os pressupostos da decisão de invadir, tomada muito antes da invasão e não necessariamente pelas mesmas razões apresentadas publicamente para a justificar. A decisão de invadir tem pouco a ver com a existência de armas de destruição maciça, ou com a possibilidade de Saddam ser um apoiante da Al-Qaeda, que não era. A origem da decisão tem a ver com uma ideia mais global da resposta à crise suscitada pelo terrorismo apocalíptico que se verificou nas torres nova-iorquinas e no Pentágono, mas também nas embaixadas africanas dos EUA, nas discotecas de Bali, no metro de Londres, nos comboios suburbanos de Madrid e um pouco por todo o lado, da Índia à China, do Cáucaso aos Balcãs. Na Administração americana surgiu a ideia de que, para combater a nova forma de guerra que é o terrorismo, não bastava erradicar as bases terroristas onde elas existiam (como no Afeganistão ou Sudão), o que era visto como um sintoma, mas ir à causa, à relação de forças que bloqueava todos os processos políticos que deveriam "distender" o Médio Oriente e permitir a resolução de conflitos antigos como o da Palestina. Esses conflitos não eram a causa do terrorismo da Al-Qaeda, de uma natureza diferente do Hezbollah ou do Hamas, mas, ao funcionarem como um irritante geral, bloqueavam as forças moderadas e moderadoras no mundo árabe-muçulmano e impediam a estabilização da região. A importância geoestratégica do Médio Oriente era crucial para o resto do mundo por causa da dependência do petróleo, líquido que tem a tendência natural para surgir só em sítios complicados. Para que não se pense que estes argumentos são de agora, cito o que escrevi em Fevereiro de 2004:Se a discussão se centrar neste ponto, o da natureza da resposta americana e da sua razoabilidade, ela é frutuosa, porque contém um genuíno problema: o terrorismo fundamentalista e o modo de o defrontar. Para o discutir há que entrar em conta com os aspectos de maior complexidade que não só estão contidos no problema, como na suposta "solução" que estava implícita na invasão. E aqui é que existem as objecções mais sérias, como também muito do que correu mal no processo iraquiano e que podia ter sido evitado. Sim, porque nem tudo o que aconteceu no Iraque se deveu à invasão em si, nem aos pressupostos da invasão (alguns dos quais mostraram apontar no sentido correcto nos primeiros momentos), mas ao modo como foi efectuada a ocupação do Iraque. Ou seja, nem tudo o que aconteceu depois de 2003 se deve à invasão, nem é sua consequência necessária ou inevitável, nem a tem como pressuposto."O 11 de Setembro revelava uma nova dimensão do terrorismo que envolvia nações, grupos e indivíduos. Envolvia novas tecnologias de terror e toda uma série de novas tecnologias estavam (estão) na calha. Tinha um epicentro em parte do mundo muçulmano, tinha um epicentro dentro desse epicentro, o conflito israelo-palestiniano, envolvia nações como a Arábia Saudita, o Afeganistão, o Paquistão, o Irão, a Síria, o Iraque, o Iémen, o Sudão, e algumas mais. Envolvia políticas que eram activamente prosseguidas por vários estados: o Afeganistão servia de base a Bin Laden, mas o Iraque estava a tornar-se, junto com a Síria e o Irão, num dos principais desestabilizadores na Palestina. Muito do que aconteceu no Iraque deve-se a erros cometidos depois da invasão, uns inevitáveis devido ao modo ingénuo, ignorante e incompetente como foi previsto o período da ocupação, outros perfeitamente evitáveis e que se devem a erros clamorosos da Administração Bush. ![]() (Ver no Abrupto a recensão do livro de Rajiv Chandrasekaran, Imperial Life in the Emerald City: Inside Iraq's Green Zone, 2006.)Todas as críticas que salientam a imprudência e a impreparação americana para lidar com uma das áreas mais complexas do mundo, onde existe há muito tempo um nó górdio da política mundial, criado pelas potências europeias desde a divisão do império otomano e agravado por uma miríade de ideias ocidental como o marxismo, o nacionalismo e mesmo a forma moderna do fundamentalismo islâmico, têm razão de ser. Mas uma coisa é criticar os americanos pela sua ocupação do Iraque e outra é contestar a sua decisão de invadir e negar que nem todos os efeitos da invasão foram desastrosos e alguns foram conseguidos. Por detrás do fumo dos atentados em Bagdad, a única coisa que vemos na televisão, há muita coisa a mudar no Iraque e alguma no sentido desejado pelos americanos. Mas dizer isto parece que causa escândalo. Talvez por isso, fechar o que está a acontecer no Iraque debaixo de conclusões férreas, definidas de antemão desde 2003, e a que pouco interessa a realidade que não seja a dos atentados, é mais do domínio da propaganda do que da realidade. Segundo, há a questão das "armas de destruição massivas". (Continua) (Versão do Público, 22 de Março de 2008.) Etiquetas: Iraque (url) 25.2.08
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A GUERRA DO IRAQUE COMO OPERAÇÃO MILITAR (4)
A operação militar no Iraque foi uma forma moderna de blitzkrieg, executada por um número de forças bastante reduzido, mas dotado de enormes vantagens tácticas e estratégicas, a começar pelo controlo absoluto do ar e pela superior qualidade do armamento. A capacidade e determinação dos militares americanos debaixo de fogo, marines, forças especiais, soldados e oficiais, revelou-se em múltiplas ocasiões. Apesar de existir um plano estudado até ao mais pequeno pormenor, houve um grau considerável de iniciativa e de adaptação às circunstâncias imprevistas. Entre as páginas mais interessantes deste livro está a descrição do raid final até ao centro de Bagdade comandado pelo coronel David Perkins. A incursão era suposta ser exploratória, mas Perkins, actuando por sua iniciativa, transformou-a no momento da derrota iraquiana, quando resolveu ficar a noite num dos palácios de Saddam. Nessa altura, os americanos pensavam que ainda iriam ter a sua prova de fogo mais dura contra a Divisão Medina, que tinha sido ultrapassada na corrida a Bagdade, mas isso nunca aconteceu.A "velocidade" da máquina de guerra americana foi no entanto atrasada por formas pouco convencionais de guerra, entre a guerrilha e acções de guerra convencional, que se revelaram a seu modo eficazes e mostraram que havia grupos determinados e organizados para continuar a resistência, mesmo que o "centro" caísse. Não é no entanto líquido que, se a transição fosse melhor gerida, a "insurreição" do Baas e de alguns grupos sunitas não tivesse o sucesso que posteriormente veio a ter. O caos que se instalou quase de imediato com os saques generalizados mostrou as debilidades enormes da ocupação. Resultou de erros de julgamento sobre a possibilidade de manter a máquina do estado iraquiano a funcionar, associados à impossibilidade prática de controlar as cidades devido ao número muito pequeno de tropas, conforme a "economia de forças" defendida por Rumsfeld. Este estava convencido que as tropas americanas chegavam, viam e venciam e depois vinham-se embora. Nunca houve planos sérios para uma estadia muito superior aos seis meses, o que se veio a mostrar completamente irrealista. Alguns dos erros que hoje são evidentes, têm estado a ser, pouco a pouco, corrigidos, mas já num contexto muito mais hostil e com enormes dificuldades que podiam ter sido evitadas ou minimizadas. A melhoria das condições de segurança, ainda que ténue, parece consolidada, mas há ainda muito que fazer para "remendar" um país que Saddam quase destruiu, com colaboração dos erros e ilusões americanas. Mas a situação ainda é precária, pelo que não parecem ser outra coisa que demagogia as propostas de retirada de candidatos presidenciais como Hillary Clinton e Obama. Se o fizerem, os EUA sofrerão uma enorme derrota política no Iraque muito para além da vitória militar que obtiveram, com consequências gravosas para todo o mundo. Bush tem as suas responsabilidades, mas uma retirada unilateral imediata é do domínio do pesadelo para a segurança do mundo.
Etiquetas: Iraque (url) 18.2.08
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A GUERRA DO IRAQUE COMO OPERAÇÃO MILITAR (3)
Um dos aspectos a que a planificação operacional americana deu muita atenção foi a possibilidade de utilização pelos iraquianos de armas químicas ou biológicas na guerra. Os militares consideravam essa possibilidade muito a sério e, contrariamente às teses dos que afirmam que a administração Bush estava de forma deliberada a mentir sobre a sua existência, tudo aponta para que acreditavam de boa fé que os iraquianos as tinham. Em várias ocasiões, os recursos escassos do exército e das forças especiais tinham sido atribuídos a missões de controlo de locais que se considerava terem armamento químico e biológico, houve vários falsos alarmes, e os soldados tiveram que transportar, usar e às vezes combater, debaixo de condições muito difíceis, os seus fatos protectores.Aliás, conforme revela o livro, também os comandantes iraquianos estavam convencidos de que essas armas existiam e quando, em vésperas do conflito, Saddam os informou da sua inexistência, uns ficaram surpreendidos, outros continuaram a achar que ele as tinha escondidas, provavelmente sob comando de um pequeno grupo de fiéis dirigido pelos seus filhos, Uday e Qusay. No "Cobra II" não só o próprio desenvolvimento das operações tinha em conta a possibilidade de um ataque com armamento não convencional, como havia o convencimento que, à medida que as tropas dos EUA se aproximassem da linha "vermelha", inscrita no plano de defesa iraquiano, à volta de Bagdad, Saddam utilizaria esse armamento como último recurso. Os americanos tinham obtido, através de uma fonte iraquiana da CIA, esse plano de círculos concêntricos de linhas defensivas, uma das quais estava a vermelho. A interpretação do plano era errada, mas, em nenhum momento antes do conflito fora posta em causa a existência de tais armas pelos militares dos EUA, que se prepararam com cuidado para a hipótese de serem atacados com esse armamento pelos iraquianos. (Uma discussão sobre a interpretação da "linha vermelha" encontra-se no Anexo G (Chemical Warfare and the Defense of Baghdad) em DCI Special Advisor Report on Iraq's WMD, o relatório da CIA que analisa os erros cometidos na avaliação das armas de destruição massiva iraquianas.)(Continua) Etiquetas: Iraque (url)
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A GUERRA DO IRAQUE COMO OPERAÇÃO MILITAR (2)
O plano de operações para a guerra do Iraque foi resultado de opções políticas essencialmente tomadas por Rumsfeld, aplicadas pelo general Tommy Franks, e que implicavam uma nova concepção da aplicação do poder militar, a que o Secretário da Defesa gostava de chamar de "economia de forças". Rumsfeld era muito crítico da forma como os EUA tinham actuado na Guerra do Golfo e no conflito nos Balcãs. Essa crítica atingia todos os que tinham estado envolvidos nessas operações, a começar pela administração Clinton e a acabar nos diplomatas chefiados por Colin Powell. Rumsfeld discordava da lentidão no acumular de forças, tornada inevitável pelo número de militares e meios envolvidos, que entendia excessivos e dos processos de "nation bulding" nos quais se entrava e depois não se conseguia sair, como nos Balcãs. Opunha aquilo que achava ser uma "revolução" no Pentágono: em vez de uma enorme concentração militar, que demorava meses a juntar, queria forças pequenas, rápidas, móveis, com utilização predominante de tropas especiais, apoiadas em armamento tecnologicamente avançado. Inteligente, muito capaz, meticuloso, persistente, autoritário, querendo controlar tudo ao mais ínfimo detalhe, afastando liminarmente quem se lhe opunha, Rumsfeld queria aplicar os seus novos conceitos à guerra no Iraque contra tudo e contra todos. Muitos chefes militares se opuseram e muitos mais fizeram avisos sobre as consequências das opções da "economia de forças", em particular, a exiguidade dessas forças não só para as operações da guerra, como para a ocupação posterior do Iraque, para a paz. Uns foram afastados, como representantes de uma corporação conservadora, que estava habituada a apenas contar com a força bruta do poder bélico massivo e não entendia as novas condições da guerra, outros não foram ouvidos ou só foram ouvidos quando a realidade não admitia escapatória.O resultado da "economia de forças" foi inconclusivo no plano militar, - nem tudo funcionou mal e muitos aspectos do plano militar, em particular a fluidez muito rápida das forças terrestres, apanhou Saddam de surpresa porque estava à espera de um lento acumular de unidades e logística nas suas fronteiras, o que não sucedeu - , mas foi desastroso no plano político e depois também no militar, quando houve que defrontar a deterioração da situação de segurança posterior à vitória. (Continua) Etiquetas: Iraque (url) 17.2.08
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A GUERRA DO IRAQUE COMO OPERAÇÃO MILITAR (1)
Michael R. Gordon / Bernard E. Trainor, Cobra II: The Inside Story of the Invasion and Occupation of Iraq , Nova Iorque, Pantheon Books, 2006Este é o melhor livro que li sobre a guerra do Iraque, e duvido que haja melhor sobre a componente militar da guerra: o plano final de operações intitulado "Cobra II" e a sua execução. Pela descrição em dois tempos, o da preparação do plano, e a guerra propriamente dita até à ocupação de Bagdad, percebe-se até que ponto as forças armadas americanas são o único exército moderno existente no mundo, dotado de uma capacidade operacional sem paralelo e, depois do Iraque, de uma experiência de combate total. A começar pelas "botas no chão"e a acabar nas formas mais sofisticadas de guerra aérea, nenhum exército se lhe pode comparar. A guerra iraquiana não foi um passeio e os americanos defrontaram problemas novos, imprevistos e mesmo surpreendentes (como as tácticas anti-aéreas low tech usadas pelos iraquianos, após estudarem a experiência da guerra do Golfo, contra os helicópteros americanos), mas no essencial a performance militar das forças americanas, blindados, marines, forças especiais, engenharia e logística, revelou um elevado profissionalismo, determinação e coragem, tudo factores que nenhum exercício virtual pode revelar, mas apenas o combate real. O grande falhanço foi o das informações, em particular as da CIA, mas também as informações militares. Do lado iraquiano, enquanto as grandes unidades convencionais do exército regular e da Guarda Republicana se dissolveram quase sem lutar, as forças não convencionais, os Fedayen, mostraram também uma capacidade de resistência que surpreendeu os americanos e não raras vezes os obrigou a mudar de planos. (Continua) Etiquetas: Iraque (url) 12.1.08
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: MABRUK AL-IRAQ AL-JEDEED Rajiv Chandrasekaran, Imperial Life in the Emerald City: Inside Iraq's Green Zone, 2006.Nos EUA as universidades, os centros de investigação, as editoras, não tem nenhum problema em encomendar um livro a um jornalista que teve uma experiência excepcional, viver na "Green Zone" de Bagdad. Chandrasekaran trabalhava no Washington Post e nunca tinha escrito um livro, mas viveu em Bagdad o tempo bastante para nos dar um relato único sobre os anos da Coalition Provisional Authority, o governo de facto do Iraque dirigido por Paul Bremer, que só compartilhava o poder, também de facto, com o ayatollah Sistani e os revoltosos sunitas. É uma história que ainda precisa de mais tempo para assentar, mas que Chandrasekaran descreve como sendo o resultado de um misto de total ingenuidade, convicção, dedicação, coragem pessoal, da equipa da CPA, associada a uma grande ignorância sobre o Médio Oriente, o Iraque, e, muitas vezes, falta absoluta de bom senso, erros e oportunidades perdidas. O melhor e o pior da democracia americana estão aqui retratados, na mistura entre o esforço genuíno de querer fazer uma democracia jeffersoniana no Iraque e o absoluto irrealismo de muitas propostas. Um exemplo é a história da elaboração do "código da estrada" iraquiano, copiado das regras de trânsito de um estado americano, escrito para acabar com os regulamentos locais que tornavam a polícia prepotente e corrupta, com possibilidades de prisão imediata e de receber multas em acto, sem qualquer procedimento legal. (Recordo-me de ver no Iraque a polícia a regular o trânsito aos pontapés aos carros...) O bom do americano queria introduzir regras que protegessem os cidadãos dos abusos da polícia, criando tribunais de trânsito, regras burocráticas de procedimento seguro, no meio de uma Bagdad a ferro e fogo, em que o sistema judicial colapsara e em que a polícia recém criada tinha certamente muito mais coisas para fazer do que estar a preencher formulários no meio do caos. Idêntica mistura de idealismo e irrealismo ocorreram em áreas como a da bolsa (sim, existe bolsa em Bagdad e funciona na base de notas manuscritas, quadros negros e giz), da privatização das empresas do estado, do sistema financeiro, etc., etc. ![]() A isto se somava o desespero para fazer funcionar os serviços essenciais, em particular o fornecimento da electricidade (aqui há um retrato desses esforços), no meio de uma situação calamitosa gerada pela degradação dos últimos anos de Saddam, os estragos das várias guerras e por fim, dos saques. Os homens (e algumas mulheres, poucas) que trabalhavam para a CPA tinham o know how necessário, muita experiência não só nos EUA como na reconstrução de países em crise ou em situações pós-calamidade, no Kosovo, na zona curda do Iraque, mas defrontavam-se com uma tarefa impossível no meio do caos, da insegurança, com pouca gente a falar árabe e sem escoltas militares suficientes. A isso se somavam problemas políticos por resolver que tinham implicações nos serviços essenciais, como saber se a distribuição da escassa electricidade deveria privilegiar Bagdad, distribuir-se por todo país, ou ser resolvida província a província, com prioridade ao sul . A descrição da "Green Zone" e dos seus habitantes trabalhando para a CPA, para a Halliburton e para as empresas de segurança, mostra-nos a estranha vida numa redoma, inconfortável, com poucos luxos e muitas privações, vivendo em contentores ou camaratas nos antigos palácios de Saddam, comendo fast food em cantinas ou nos dois ou três restaurantes, um chinês, uma pizzaria, que tinham ficado dentro do perímetro de segurança. Os seus habitantes eram especialistas, muitos dos quais voluntários, gente que abandonou o conforto americano, lugares na universidade, nas empresas, para fazerem aquilo que muitos pensavam ser uma utopia de engenharia política a favor do bem: um Iraque democrático, com livre mercado e prosperidade. Quando se verificam os seus curricula vê-se a importância das forças armadas na sociedade americana, onde muitos dos universitários, dos chefes de bombeiros, dos policias reformados, dos empresários, mesmo dos burocratas, que vieram para o Iraque tinham sido marines, pilotos, soldados e oficiais. Havia também gente nova, recrutada entre os apoiantes do Partido Republicano nas campanhas eleitorais, que davam o tom esmagadoramente republicano, conservador e liberal à CPA. Ver entrevista de Chandrasekaran. Hoje, anos depois do fim da CPA e da entrega de muitas responsabilidades governativas aos iraquianos, o legado da CPA a favor de um Iraque democrático, unido, laico, e com um mercado livre e aberto, está muito enfraquecido, mas não desapareceu. As eleições iraquianas foram um sucesso, muito do impulso para o entendimento entre grupos, tecido no texto constitucional, permanecerá. Muitas das pretensões de grandes reformas ideais ficaram no papel, e em muitos acasos significaram desvios a tarefas muito mais urgentes e a práticas mais realistas que dariam melhores resultados. Mas a perplexidade desta história permanece: o que é que se esperava que os americanos fizessem? Que mantivessem o Iraque pós-Saddam com as suas práticas de brutalidade e corrupção intactas? Que entregassem o poder aos religiosos xiitas radicais como Muqtada al-Sadr ou aos exilados que trouxeram no bolso? Há quem dê uma resposta: não invadissem. Mas isso é toda uma outra história a que voltaremos. Etiquetas: Iraque (url) 7.1.08
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A LIDERANÇA AMERICANA NA GUERRA DO IRAQUE (5)
Forças e fraquezas do livro:- Woodward narra os acontecimentos com quase completa ausência do papel dos iraquianos no processo de decisão, quando se sabe que em determinados momentos, fosse por via dos seus protectores americanos, fosse pela sua força própria, a tiveram. É o caso do grupo de Chalabi, no qual se personificaram as divisões da administração americana, com altos responsáveis a querem entregar-lhe o controlo do Iraque e outros a oporem-se terminantemente, considerando-o uma fraude. É o caso também, noutro sentido, do ayatollah Sistani, figura crucial do xiismo iraquiano e cujas fatwa condicionaram o processo político. Esta omissão torna pouco credíveis alguns relatos de decisões que aparecem no livro como exclusivamente americanas. - Woodward parece estabelecer a menorização da CIA e do Vice-Presidente em todo o processo, o que, para o caso deste último, é uma relativa novidade. Cheney parecia ter mais poder do que realmente transparece neste livro. Quanto à CIA, é sem dúvida uma das vítimas do processo iraquiano, pelas sucessivas hesitações na questão das armas de destruição massiva. - No relato de Woodward mostra-se o esforço frenético para encontrar as armas químicas, biológicas e nucleares que era suposto Saddam ter, o que mostra como os principais responsáveis americanos (e não só) estavam plenamente convencidos da sua existência. - Uma das mais interessantes descrições do livro é a noite eleitoral de 2004 em que Bush é reeleito, com o seu drama à partida (as sondagens à boca das urnas eram-lhe francamente desfavoráveis) e à chegada (a hesitação em proclamar a vitória com receio que Kerry suscitasse a questão dos votos do Ohio, abrindo uma polémica sobre as votações, embora neste caso a diferença não pudesse alterar os resultados finais como acontecera na Florida na eleição anterior). Etiquetas: Iraque (url)
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A LIDERANÇA AMERICANA NA GUERRA DO IRAQUE (4)
O mais devastador do retrato que Woodward faz da administração americana em tempos de guerra é o do contínuo conflito de competências e autoridade entre os principais responsáveis e as suas equipas. Aqui, pesem embora as claras simpatias e antipatias do autor (e das suas fontes), não há volta a dar: Rumsfeld, Condoleezza Rice e Colin Powell, nunca foram capazes de fornecer uma orientação consistente e coordenada à política externa americana, com graves implicações no terreno iraquiano e, por implicação, o Presidente Bush foi igualmente incapaz de se aperceber da situação e tomar medidas adequadas. Este é o cerne da crise de liderança que afectou os anos cruciais da guerra, em particular depois da vitória militar.O secretário da Defesa Rumsfeld foi o principal responsável pela condução militar das operações que decorreram com grande eficácia e garantiram uma vitória rápida e sem grandes baixas. Mas as suas opções sobre a utilização dos militares no terreno, em particular quanto ao número de tropas e a recusa em participar em operações de manutenção de ordem quando começaram os saques, revelaram desde logo uma enorme insensibilidade política aos problemas resultantes da ocupação do Iraque. Era só uma questão de tempo até que os erros políticos começassem a ter efeitos militares, alimentando a insurreição sunita e impedindo operações tidas como fundamentais para combater os grupos terroristas e insurrectos, como foi o caso da "limpeza" de Faluja, bloqueada politicamente pelas pressões árabes que iam em crescendo com o agravamento da situação de segurança. Rumsfeld comportou-se como não fazendo nem deixando fazer, bloqueando a participação do Departamento de Estado e mesmo do Conselho Nacional de Segurança, a quem incumbia a responsabilidade da condução política do processo. Colin Powell aparece como estando sempre marginalizado, à cabeça de uma diplomacia suspeita de não ter muito entusiasmo pelas teses democratizadoras dos think tanks neo-conservadores, e Rice como oscilando entre a sua fidelidade pessoal ao Presidente, que apoia Rumsfeld sem hesitação, e a consciência que claramente tem de que as coisas estão a correr mal. Este conflito no topo acaba por estender-se às equipas respectivas e inquinar a capacidade da administração para responder aos múltiplos avisos que faziam vários enviados especiais ao Iraque, em particular os que Rice mandava para uma apreciação independente do que estava a acontecer. (Continua.) Etiquetas: Iraque (url) 4.1.08
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A LIDERANÇA AMERICANA NA GUERRA DO IRAQUE (3)
Onde desde há muito existe uma evidência sobre os erros americanos na ocupação do Iraque é na inexistência de um plano efectivo para a administração do país, a partir do momento em que a vitória militar estivesse adquirida. Os EUA tinham um precedente, o Japão governado pelo general MacArthur, mas não o queriam seguir. Nem a esse precedente, nem a precedente nenhum, porque, como Woodward mostra, uma consideração séria do destino a dar à administração iraquiana só começou a ser feita quando o caos já estava instalado. O destino nacional do Iraque nunca foi questão porque os americanos não o queriam ocupar, mas sim entregar rapidamente a soberania aos iraquianos. Só que não sabiam como e, com o passar do tempo, cada vez tinham menos condições para o fazer sem o risco de uma guerra civil ou de criar uma República Islâmica igual ao Irão.No livro referem-se as discussões de autoridade e território, entre o Departamento de Estado, o Departamento da Defesa e o Conselho Nacional de Segurança, que bloquearam as decisões fundamentais e que permitiram outras que se vieram a revelar trágicas, como a da dissolução do exército iraquiano e a de impedir os antigos militantes do Baath de manter os lugares que possuíam em todo o aparelho de Estado iraquiano. Ambas as decisões foram tomadas com a maior das ingenuidades ideológicas, por pressão do grupo de exilados iraquianos, e revelaram-se o ponto de viragem ao alimentar a revolta sunita. Com base nos relatos de Woodward, a tentativa inicial do grupo à volta de Jay Garner surge a melhor luz do que a de Paul Bremer, um dos responsáveis pelas decisões sobre o exército e o partido de Saddam. Ambas falharam mas a aproximação de Garner parecia mais realista do que a de Brenner. Caídos do nada, numa cidade que desconheciam, deslocando-se usando mapas turísticos, sem saber onde eram os ministérios que tinham que administrar, sem verdadeiro apoio quer dos militares, que não chegavam para as encomendas, quer dos diplomatas do Departamento de Estado, que incluiam arabistas com experiência do Médio Oriente, mas que Rumsfeld e outros como Wolfowitz, não queriam ver imiscuidos na gestão iraquiana, os homens de Garner tentaram repor alguma normalidade falando com os antigos responsáveis dos ministérios. Depois das decisões de Bremer todos estes homens desapareceram e o vazio, que já era gravíssimo, tornou-se insustentável.
(Continua.) * Não tive a oportunidade de ler o Estado de Negação do Bob Woodward se bem que tivesse lido o Bush Em Guerra do mesmo jornalista, por sinal um fraco livro. Pelo que tenho lido nalguma imprensa estrangeira e nalguns blogs de iraquianos e militares, o ultimo ano constituiu um emendar de erros passados, pelos estrategas politico-militares que estão no Iraque, nomeadamente pela forte pressão exercida pelo Gen. Petraus sobre os terroristas e um maior apoio dos cidadãos iraquianos e milícias das diversas facções no combate à Alqaeda. O resultado parece ter sido a diminuição e desmantelamento dos principais grupos da Alqaeda ...coisa certamente desagradável para aquela imprensa que apenas noticia o Iraque quando se regista mais um atentado.Será que é desta que a situação se vai inverter ? não sei, mas a imprensa mundial não parece fazer muito para noticiar qualquer progresso, por mais pequeno que seja.Que contraste com a situação em Timor, que praticamente saiu do mapa, certamente porque os timorenses devem ter encontrado o paraiso. Etiquetas: Iraque (url) 3.1.08
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A LIDERANÇA AMERICANA NA GUERRA DO IRAQUE (2)
Esta história dos primeiros e conturbados anos americanos no Iraque (2003-6) justifica o título freudiano: "estado de negação". O autor aplica-o ao Presidente Bush, de forma explícita no fim do livro, mas, lendo-se com atenção o texto, não se percebe até que ponto este "estado" é de verdadeira "negação". Não é claro se Bush não quer aceitar a realidade iraquiana posterior à vitória militar, se a "nega" por defeito de liderança, ou se o faz porque vive numa "bolha" e não foi devidamente informado ou, ainda, se é uma atitude do Presidente, uma postura, um teatro, para não deixar a mínima dúvida nos seus colaboradores sobre a sua decisão, contra tudo e contra todos, de ter sucesso no Iraque. Provavelmente é um pouco de tudo, porque, mesmo se fosse puro teatro, o actor a uma dada altura já não saberia como sair da pele da personagem e "negava". Churchill actuou várias vezes da mesma maneira nos momentos mais dificeis da guerra de 1939-45.Bush aparece como pouco curioso, pouco atento, às vezes, agarrado a todas as falsas esperanças com que o alimentam, vivendo num contínuo e poderoso wishfull thinking, mas com uma forte convicção da sua missão e dominado por sentimentos genuínos. Por exemplo, nem Bush nem Cheney parecem ter duvidado da existência de armas de destruição massiva, convicção genericamente partilhada pela maioria dos altos responsáveis civis e militares americanos. Havia dúvidas sobre a solidez das provas, ou sequer se havia provas, dúvidas expressas numa dada altura pela CIA ainda que de uma forma ambígua, mas todos tendiam a acreditar na sua existência. Ou seja, não houve deliberada "mentira". As personagens à volta de Bush são dominadas pelo "mau" da peça, Rumsfeld. O responsável pela Defesa, logo pelo Pentágono e pelos militares, aparece como um governante brutal, obcecado por controlar tudo, indiferente às críticas, actuando como um bulldozer, esmagando todos menos os seus fiéis. No relato de Woodward, é Rumsfeld o verdadeiro responsável pelos erros de julgamento ocorridos após a derrota militar de Saddam, recusando-se a aumentar o número de tropas, permanecendo indiferente à tarefa de reconstrução do Iraque, permitindo desde os primeiros dias o caos e os saques, que começaram a envenenar a situação e gerar hostilidade contra os invasores. A indiferença de Rumsfeld aos problemas políticos, que inevitavelmente surgiriam a seguir à invasão e à ocupação, colocou as forças armadas americanas à margem da garantia da ordem e, posteriormente, tornou-as no alvo privilegiado dos grupos de Baathistas sunitas e da Al-Qaida, a que esporadicamente se somaram os xiitas radicais. (Continua.) Etiquetas: Iraque (url)
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A LIDERANÇA AMERICANA NA GUERRA DO IRAQUE (1)
Bob Woodward, State of Denial. Bush at War Part III, lido na versão portuguesa Estado de Negação. Bush, da Eleição às Derrotas no Iraque, Lisboa, Relógio d' Água, 2007.(Tradução que soa muitas vezes bizarra, estranha, mesmo para além dos americanismos coloquiais difíceis de traduzir, com frases que não são nem português, nem inglês. Apesar disso lê-se razoavelmente bem.) O método Este livro é um típico produto do "alto" jornalismo americano e implica uma relação de confiança do leitor com o seu autor. Na verdade, nas notas a cada capítulo refere-se que este foi escrito com base em duas, três, cinco, dez fontes anónimas credíveis, para além do material em on, entrevistas, declarações públicas, artigos e livros. Muitas vezes essas fontes são anónimas só no papel, porque em reuniões em que estão presentes cinco ou seis pessoas, incluindo os mais altos cargos da governação americana, a começar pelo Presidente, ou mesmo em conversas a dois, só é possível que a fonte seja quem todos percebemos quem foi. Por exemplo, Andy Card, durante muitos anos o chefe de gabinete de Bush, ou o Príncipe saudita Bandar Bin Sultan, durante muito tempo embaixador em Washington e mentor de Bush filho. O resultado é perigoso no seu fascínio e é necessária uma considerável reserva ao lê-lo, mas isso não limita outros méritos do livro. (Uma crítica dura ao método Woodward feita por outro jornalista encontra-se aqui. ). O que não o torna é o relato histórico definitivo dos eventos que conta, por muito sedutora que seja a sua reconstrução. Woodward conta reuniões ao mais alto nível na administração americana, relatando os diálogos em estilo directo, do género Bush perguntou isto, Condolezza Rice respondeu aquilo, como se tivéssemos à nossa frente a própria reunião e os seus protagonistas. Isto dá um excelente texto, corrido, sobre o qual não se pensa, mas também a partir do qual vamos formando a nossa opinião sobre o carácter das personagens. Ora, Woodward obteve o relato de fontes inteiramente envolvidas no mesmo processo de decisões, que à luz das consequências posteriores, desejam preservar-se. A "história" é assim movida pelas fontes de Woodward, que, nalguns casos, são as únicas testemunhas do que se passou dispostas a contá-lo a um jornalista. (Continua.) Etiquetas: Iraque (url) 1.12.07
COISAS DA SÁBADO: BARROSO E O IRAQUE Durão Barroso sentiu-se na necessidade de se justificar da atitude de apoio à intervenção militar no Iraque com o argumento que tinha sido enganado com as provas “que lhe tinham mostrado” sobre a existência de armas de destruição massiva no Iraque. Ele lembrou, e com razão, que na altura toda a gente (incluindo serviços secretos franceses e russos, os inspectores da ONU, e muitos outros insuspeitos geopolíticos) estava convencida de que essas armas existiam, embora não considerassem que isso era motivo suficiente para a acção militar contra o Iraque. Eu próprio não tinha dúvidas sobre a sua existência e certamente por não querer dar o braço a torcer, que não é a minha escola, ainda não estou inteiramente convencido sobre o que é que lhes aconteceu. Esta é uma história que permanece mal contada, quer pelos EUA, quer pelos próceres do regime iraquiano, quer pela Síria, Irão e companhia. Mas nunca falaria como Barroso, que tem necessidade de se justificar do passado para ter margem de manobra para o presente, porque nunca considerei que a existência de armas de destruição massiva fosse a principal razão para invadir o Iraque. Nem eu, nem Bush, nem Blair, nem Aznar, e muito menos Barroso, perdoe-se a presunção da companhia. Aí é que eles estão a ser “mentirosos”, a tentar convencer-nos que a invasão do Iraque teve como única e exclusiva causa a presumida existência de armas de destruição massiva.Eu estou noutra, pensava e continuo a pensar que havia (e há) uma explicação racional, politicamente suatentável, para invadir o Iraque muito para além da presumida existência de tais armas. Escrevi-o na altura e repito-o agora para que se veja que nem todos foram da escola dos actuais “enganados” : numa altura em que o terrorismo fundamentalista é a maior ameça estratégica mundial para o século XXI era fundamental desiquilibrar a relação de forças favorável no Médio Oriente ao radicalismo anti-ocidental. Nunca pensei que o Iraque apoiasse a Al-Qaida, não era essa a questão, mas sim que o Iraque era um factor de instabilização em todo o Médio oriente, em particular na Palestina, e que gerava as condições para uma turbulência permanente que, impedindo a resolução do conflito israelo-palestiniano, criava um “irritante” que alimentava o terrorismo fundamentalista. A Al-Qaida não queria saber dos palestinianos para nada, mas alargava a sua influência e recrutamento com o radicalismo de regimes como o de Saddam, que se tinha colocado com vigor por detrás do extremismo palestiniano, juntando-se aos sírios e ao Irão, para evitar a emergência dos palestinianos moderados. Se alguma coisa correu mal no processo iraquiano foi que estes objectivos de longo fôlego acabaram por ser postos em causa pela enorme incompetência da “administração” do Iraque ocupado, que permitiu a curto prazo o reforço do risco B, o desiquilibrio de forças regionais com o Irão, sendo que o risco A era falhar a operação militar. Por tudo isto foi um erro de consequências enormes, ter utilizado como argumento principal a existência das armas de destruição massivas. Quando se verificou que elas não existiam, a crise de legitimidade dos defensores da invasão foi devastadora e essa legitimação era fundamental para prosseguir um plano que só tinha e tem sentido a médio e longo prazo. Mas, no preciso momento em que Barroso pede desculpas, nem tudo corre mal no Médio Oriente, mesmo no Iraque, embora não tenha tanto destaque nas notícias como os atentados. Vamos ver. * Embora eu suporte a sua justificação de base, a de que a invasão do Iraque se justificaria se, independentemente da existência de armas de destruição macissa, ela contribuísse para um reequilíbrio do poder anti-neo-fundamentalismo islâmico, o que não consigo ver agora, nem conseguia ver na altura, é como é que a invasão realizaria esse objectivo! A começar por que se metia pelos olhos dentro de toda a gente, inclusive de Bush pai, desde os tempos em que Portugal vendia armas "de tecnologia intermédia" a ambos os lados, que o Iraque era imprescindível para equilibrar o Irão, que é onde foi, não esqueçamos, o berço do moderno neo-fundamentalismo islâmico! Etiquetas: Iraque (url) 27.1.07
COISAS DA SÁBADO: O CERCO AOS PRÓ-AMERICANOS Em Portugal, um número pequeno de jornalistas, comentadores e analistas apoiou a invasão americana do Iraque com diferentes argumentos e posições e razões. Eu fui um deles, como se sabe. Não era, nem nunca foi um grupo homogéneo, havendo diferentes maneiras de defrontar o problema do terrorismo, que estava subjacente em todo o desenvolvimento da política externa americana. Foi sempre uma minoria, muito minoria, e praticamente em nenhum momento teve qualquer espécie de hegemonia, quer no sistema comunicacional, quer na opinião pública. A maioria da opinião pública era-lhe desde sempre hostil e essa hostilidade foi-se agravando quer por erros próprios (a afirmação da existência das armas iraquianas de destruição massiva foi talvez o mais gravoso), quer pelo modo como os eventos da guerra se desenvolveram.Mas não é tanto sobre as suas razões que escrevo, mas sobre o modo como tem sido atacados como se existisse para a questão iraquiana um delito de opinião que justificasse vários e sucessivos pedidos de silenciamento, contrição, auto-crítica, de pura e simples censura. Um dos alvos desse ataque censório tem sido o director do Público e, através dele, o próprio jornal. Quando a distância do tempo permitir ver estas coisas sem a dose maciça de má fé em que esse ataque assenta (uma das mais nefastas aquisições do debate sobre o Iraque que impregna tudo e foi analisada de forma certeira no livro de Fernando Gil / Paulo Tunhas), perceber-se-á como os argumentos com que, em artigos na imprensa e nalguns blogues José Manuel Fernandes é criticado, são ataques às suas opiniões como sendo impróprias de um director e de um jornal como o Público. Os ataques são políticos e censórios, uma etapa no cerco às opiniões que escapam ao unanimismo actual, a dele e a dos outros. Um dos “argumentos“ mais absurdos é que a crise que o Público conhece (grave, mas menos grave do que a que conhece o Diário de Notícias, mesmo depois de uma profunda renovação) se deverá ao “conteúdo” pró-americano do jornal (que nem uma redacção e uma maioria de comentadores muito significativa contra a política americana no Iraque conseguiriam atenuar) e que só o “afastamento” do director (e por arrastamento dos que partilham da sua opinião) poderia evitar essa crise. Isto é um típico exemplo dessa mesma má fé, visto que as razões que explicam a crise do Público são comuns à imprensa escrita em geral e só por completa ignorância dessas razões é que se pode pensar que os artigos e os editoriais de opinião tem algum peso nessa crise. Aliás se fosse assim, o Le Monde Diplomatique seria o jornal mais lido em Portugal e o Diário de Notícias estaria a crescer exponencialmente com os leitores de “esquerda” que fogem do Público. Estas “análises” seriam disparates completos se não tivessem o seu claro intuito censório. Há quem não suporte um grão de diferença de opinião, fora do impante unanimismo dos nossos dias. Etiquetas: imprensa, Iraque, José Manuel Fernandes, Público (url) 15.1.07
LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 15 de Janeiro de 2007 Chamo-lhes a atencao para este interessante artigo da Newsweek. Fala sobre a explosao economica no Iraque, apontando diversos numeros e estatisticas como prova. Fala tambem sobre o facto de que os iraquianos estao extremamente optimistas em relacao ao seu futuro, apesar de toda a violencia que abala o seu pais. O que e’ curioso e’ que este tipo de noticias nao aparecem nos noticiarios nem nos jornais de qualquer outro pais. Porque sera’? O sentimento anti-Americano e’ de tal forma elevado que ja’ se “escolhem” as noticias que “vale a pena” o vulgar cidadao saber. (sem acentos) (Carlos Carvalho) * Faz amanhã o que podes fazer hoje. Os mistérios da "procrastination". Etiquetas: Iraque (url) 5.1.07
A EXECUÇÃO DE SADDAM HUSSEIN Antes de se falar da morte de Saddam, o que "fala" nas imagens que vimos na televisão é a morte. No nosso mundo liofilizado europeu, a Ceifeira vê-se pouco. É escondida nos hospitais, disfarçada em quartos obscuros, cuidadosamente retirada da nossa vista. Ali, numa qualquer instalação policial ou militar, com o ar frio do cimento nu, às horas perigosas da madrugada, um homem como nós defronta tudo. Como nós. Ali, naquele momento, não há qualquer distinção. É ele e somos nós. O morto que ainda está vivo, anda, fala. Dead man walking, como se diz nos corredores da morte texanos.Não há diálogo com a Ceifeira, não há palavras que possam ser ditas. Saddam portou-se com dignidade, embora eu não saiba bem o que significa esta frase, ou sequer se tem algum sentido dizê-la. Tivesse ele chorado, implorado, ou exibido um medo evidente e haveria alguma diferença? Havia para nós, o medo dele seria ainda mais o nosso. Assim como foi, alimenta a nossa vaidade, de que possamos também defrontar assim a Ceifeira e por isso ter essa "dignidade", forma última da nossa humanidade, prometeica a seu modo arrogante, diante do executor humano e divino. Os brutos e os cruéis também podem ser dignos face à morte, isto, para quem saiba alguma coisa de história, não é novidade nenhuma. Aquele homem ali no cadafalso não era um homem comum, nem a morte lhe era alheia. Bem pelo contrário, Saddam matou, mesmo com as suas mãos, e deixou atrás de si um rastro de assassinatos, crimes e violências que o colocam entre os grandes criminosos políticos do século XX, numa indiferença brutal. Naquela sala, ele estava no seu ambiente, ele melhor que ninguém percebia todos os papéis, dos carrascos, da vingança tribal e religiosa, da pura habituação à morte violenta, o convívio próximo de muitos iraquianos com a Ceifeira, mais que próximo, íntimo. Se alguma coisa o podia surpreender, era até a relativo carácter asséptico daquela execução, tão encenada, limpa, sossegada. As coisas depois perderam um bocado o pé, com os insultos e os gritos, mas tenho a certeza que foi incomensuravelmente mais pacífica do que os hábitos da casa. Mas uma coisa é ser radicalmente contra a pena de morte, como sou, outra é usar, com a "má fé" que Fernando Gil tão bem retratou, essa condenação como mais um argumento contra a invasão americana do Iraque. A discussão da invasão americana e dos sucessos que se lhe seguiram é hoje tão dominada pela irracionalidade e pelo "pensamento único" que nos impede pura e simplesmente de pensar. Aliás, nunca encontrei melhor exemplo do que possa ser o "pensamento único" do que a completa unanimidade agressiva sobre os eventos do Iraque. Bastava sequer ouvir a cena macabra dos últimos momentos de Saddam, para perceber como para os iraquianos presentes, entre os quais o próprio Saddam, o que está em jogo está muito para além do binómio ocupação-resistência e já lá estava muito antes da invasão. Se se quer discutir a sério o papel político da execução de Saddam, então é preciso em primeiro lugar libertarmo-nos de usar a condenação da pena de morte como argumento, porque ele é em si muito irrelevante no Iraque, nem muda nada que não estivesse já mudado e infelizmente para pior. A execução de Saddam foi mais um episódio de uma guerra civil larvar que atravessa o Iraque, e é como tal interpretada pelos iraquianos, que a festejaram do lado xiita e que a condenaram do lado sunita, apenas e só nesse contexto. E é por ter sido mais um episódio da guerra civil que a desaparição física do ditador em nada contribui para a acalmia do país, e muito menos para a democracia. Mostra também como os americanos, em particular, perderam o controlo do processo e têm um dilema crescente: ao passarem o poder para os iraquianos, tem que aceitar uma política interna cada vez mais dominada pelo conflito civil entre xiitas e sunitas, com os curdos a desejarem estar noutro mapa, de preferência com o petróleo a que acham ter direito. O precedente alemão e japonês foi resolvido com tribunais como o de Nuremberga, que acabaram na condenação à morte de muitos altos dignitários nazis, ao exemplo do que aconteceu em muitos outros países da Europa, onde uma vaga de julgamentos ou de decisões extrajudiciais levaram à execução, muitas vezes sumária, de milhares de colaboradores dos alemães. Se no Iraque fosse seguido o mesmo exemplo, seriam americanos e os outros membros da coligação a julgar Saddam não se sabendo com que base jurídica. Se fosse com base na legislação nacional iraquiana, ou na base da legislação de Nuremberga, Saddam seria quase de certeza condenado também à morte.Havia a alternativa de o julgar num tribunal como o de Haia, para onde foi enviado Milosevic. Mas o consenso que havia para a Jugoslávia não existia para o Iraque e um tribunal com um apoio internacional dúbio seria sempre visto como um tribunal americano disfarçado. Era provável que neste caso, se o julgamento fosse na Europa, Saddam escapasse com vida, mas ficaria preso até ao fim dos seus dias. Não custa imaginar o clamor que, quer a solução tipo Nuremberga, quer a de um tribunal internacional levantariam, para além de poder reforçar a ideia de uma ocupação estrangeira permanente do Iraque.Havia uma outra solução, a de levar Saddam para os EUA, como aconteceu com Noriega, mas também aí não seria difícil imaginar o clamor internacional e o impasse jurídico a que se chegaria, pois também na lei americana os crimes de Saddam implicavam a pena de morte.Apesar de tudo, visto pelo princípio dos "prognósticos só no final do jogo", qualquer destas soluções seria melhor, agora que sabemos o que aconteceu. Mas é preciso entender que os motivos dos americanos, como acontece com algumas das maiores asneiras cometidas no Iraque, resultam de uma mistura de boa vontade ingénua e negligência na análise cuidada dos riscos. Ninguém que quer a democracia pode deixar de admirar a enorme ingenuidade americana, que é o melhor da América, e nalguns caos, o pior. Vistas as coisas hoje percebem-se as intenções dos EUA: usar o julgamento de Saddam como uma catarse nacional para o Iraque, permitir um módico de justiça (e por muitas críticas que se possam fazer ao julgamento, ele esteve a milhas do que é habitual na região) e oferecer aos iraquianos um ponto zero de partida para a sua democracia. Só os americanos podiam alguma vez pensar nisto a sério, mas não há razão para duvidar das suas intenções, de que, bem sei, está o inferno cheio. Havia, aliás, uma maneira não americana, nem ingénua de pensar esta questão. Estaline era especialista nessa maneira, que certamente seria muito mais realista e eficaz: a de que "acabando-se com o homem, acabava-se com o problema", mas não me parece que seja esta a alternativa em que alguns críticos do que se passou estejam a pensar. (Para a semana, continuarei o artigo sobre Ratzinger intelectual) (No Público de 4 de Janeiro de 2007) Etiquetas: Iraque, pena de morte, Saddam Hussein (url) 8.5.03
A crise do Iraque , da "guerra" , revelou a fragilidade da comunicação social chamada de referência aos nacionalismos , patriotismos e chauvinismos nacionais . Admito que tal é verdade para parte da comunicação social americana , mas ainda é mais verdadeiro para a francesa . Aí não é a parte , é o todo . A direita com Chirac , a esqueda com Chirac e todos pela França , pelo galo-francesismo . Na Bélgica a mesma coisa , incluindo uma proposta fabulosa apoiada por vários orgãos da comunicação social de levar o Ministro dos Negócios Estrangeiros Michel a Prémio Nobel da Paz . Para quem conheça Michel , isto parece a Terra de Oz.
Quem se sai bem são os ingleses . Os jornais tomaram posições editoriais a favor ou contra a intervenção e depois quem lia , já sabia o que lia . É por isso que nunca me importei de ler os artigos de Robert Fisk no Independent e comprei muitas vezes o Guardian . Só que quando tinha que ler os mesmos artigos de Fisk no DN , penso que o jornal devia informar os seus leitores de que Fisk trabalhava para um orgão de comunicação social com uma linha editorial defenida . Estou cada vez mais defensor que , nestes casos , os jornais devem ter uma posição editorial conhecida e depois nada os impede de serem plurais . Etiquetas: Iraque (url)
© José Pacheco Pereira
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