ABRUPTO

3.2.07


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ÁTOMOS E BITS

de 3 de Fevereiro de 2007




Hoje no Diário de Notícias Sarsfield Cabral faz uma pergunta interessante, embora capciosa na forma como a desenvolve:
"Ora, se a ética é afastada numa sociedade amoral, porque não, então, legalizar a poligamia (e também a poliandria, para ser politicamente correcto), onde ela ocorra com alguma frequência? Na Holanda foi recentemente tentada a criação de um partido pedófilo..."
Duas precisões. Uma, a pergunta sobre a poligamia (mais do que sobre a poliandria, que não parece ter muitos exemplos no mundo, se exceptuarmos as muito controversas teses de Margaret Mead) não implica qualquer ilação de que só possa ser colocada quando " a ética é afastada numa sociedade amoral". Porquê? Tanto quanto se sabe a poligamia é legal em muitas partes do mundo, em particular em terras do Islão, e não me parece que tal se deva a qualquer "amoralidade" especial. Os bons, crentes e tementes a Deus, mórmons praticavam-na e praticam-na (às escondidas) sem que isso signifique que não pautem a sua vida por rigorosos e estritos padrões morais. Também não me parece que a poligamia implique qualquer instabilidade social própria, e o Utah é um estado particularmente pacífico e próspero. A pergunta sobre a legalização da poligamia (ou da poliandria) tem pois sentido e pode ser formulada sem qualquer quebra do tónus moral da sociedade.

A segunda afirmação, sobre a "a criação de um partido pedófilo" na Holanda, é evidentemente capciosa, pois nada há que permita comparar a poligamia com a pedofilia. É que entre outras coisas (sem diminuir a complexidade da questão da pedofilia que não é tão simples como se pensa) um dos principais problemas morais da pedofilia prende-se com a violência do poder dos adultos e da sua sexualidade sobre as crianças e com a incapacidade destas de livre arbítrio e auto-determinação individual. Ora indo por aqui na questão do aborto, falando de livre arbítrio e auto-determinação individual talvez não se chegue onde Sarsfield Cabral queria chegar...


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Também li o artigo de Sarsfield e permita-me discordar. Na minha opinião a questão da pedofilia está muito mais perto da questão do aborto que a questão da poligamia / poliandria.

Quer no aborto quer na pedofilia está em causa o poder de quem já atingiu a maturidade (ou pelo menos uma fase mais andiantada de maturidade) sobre um Ser (reforço o S grande) que ainda não a atingiu (ou pelo menos está numa fase mais atrasada). Aqui os valores morais de cada sociedade reflectidos nas respectivas leis e práticas regulam esta diferença de poderes.

A poligamia / poliandria entre adultos nas sociedades democráticas é livre. Se é reconhecida socialmente e dispõe de mecanismos de protecção, é outra questão. Ninguém está proibido de viver e/ou fazer sexo c/ mais do que um parceiro do sexo oposto. Que eu saiba não há nenhuma disposição legal em Portugal que o proíba. Se é aceite socialmente (ou deveria ser) que alguém chegue a um evento social e apresente 2 companheiras(os) / namoradas(os) aos restantes convivas é outra questão. Se, a exemplo do casamento heterosexual, há (ou deveria haver) mecanismos legais para a sua oficialização, respectiva protecção jurídica e eventuais apoios sociais, isso é outra questão.

Há que separar o que são proibições e respectivas penalizações a certas acções individuais do que são protecções jurídicas e aceitação social a certas opções individuais de vida.

(Miguel Sebastião)

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Pelo contrario, acho que Sarsfield Cabral chega perfeitamente onde quer chegar e que a comparacao aborto/pedifilia e muito apropriada, porque em ambos os casos, como bem diz, existe "a violência do poder dos adultos e da sua sexualidade sobre as crianças e com a incapacidade destas de livre arbítrio e auto-determinação individual."

A unica questao aqui e saber se o embriao/feto deve gozar dos mesmos direitos do que a crianca.

(Pedro Domingos)

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Não sei se a pergunta de F S Cabral é assim tão pertinente. O casamento é um contrato civil a que só adere quem concorda com as suas cláusulas. Aliás, é um bom exemplo de separação entre lei (que permite uma sucessão ilimitada de casamentos e divórcios) e moral cristã (que só permite casar uma vez e para sempre). Fora do contrato civil casamento, a “poligamia”, o ter múltiplos namorados, parceiros, engates, em simultâneo, é perfeitamente legal e, inclusive, aceite por alguns dos seus intervenientes.

(Mónica Granja)

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Há um cuidado especial que deve ser tido com as edições em linha e que mesmo uma edição mais cuidada (como a do Público) não tem. Por exemplo, hoje,
"PEDRO BACELAR DE VASCONCELOS Ordem dos Médicos e cultura da justiça não permitiram que isto se resolvesse
Cruzaram-se em Timor-Leste - uma das causas de Pedro Bernardo de Vasconcelos. Juntou-os o Direito, de que ela é hoje professora na Nova de Lisboa (privado) e ele professor na Universidade de Minho (público). Sobre o referendo as visões não podiam estar mais distantes. Por Adelino Gomes"
Quem é "ela"? "Ele" está identificado, "ela" não se consegue saber no texto que está em linha qual é a sua identidade. (Depois há um "Bernardo" onde devia haver um "Bacelar", mas isso é o menos...)

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A propósito de cuidados que não se têm nas notícias, em particular nesta do Público, a Nova de Lisboa é uma Universidade pública!

(Maria Helena Cabral)

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Na notícia do Pedro Bacelar de Vasconcelos diz-se também que ele foi Governador Civil do Porto aquando da questão da comunidade cigana, quando na verdade era Governador Civil de Braga.

(Filipe Pinto da Silva)

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27.1.07


COISAS DA SÁBADO: O CERCO AOS PRÓ-AMERICANOS

Em Portugal, um número pequeno de jornalistas, comentadores e analistas apoiou a invasão americana do Iraque com diferentes argumentos e posições e razões. Eu fui um deles, como se sabe. Não era, nem nunca foi um grupo homogéneo, havendo diferentes maneiras de defrontar o problema do terrorismo, que estava subjacente em todo o desenvolvimento da política externa americana. Foi sempre uma minoria, muito minoria, e praticamente em nenhum momento teve qualquer espécie de hegemonia, quer no sistema comunicacional, quer na opinião pública. A maioria da opinião pública era-lhe desde sempre hostil e essa hostilidade foi-se agravando quer por erros próprios (a afirmação da existência das armas iraquianas de destruição massiva foi talvez o mais gravoso), quer pelo modo como os eventos da guerra se desenvolveram.

Mas não é tanto sobre as suas razões que escrevo, mas sobre o modo como tem sido atacados como se existisse para a questão iraquiana um delito de opinião que justificasse vários e sucessivos pedidos de silenciamento, contrição, auto-crítica, de pura e simples censura. Um dos alvos desse ataque censório tem sido o director do Público e, através dele, o próprio jornal. Quando a distância do tempo permitir ver estas coisas sem a dose maciça de má fé em que esse ataque assenta (uma das mais nefastas aquisições do debate sobre o Iraque que impregna tudo e foi analisada de forma certeira no livro de Fernando Gil / Paulo Tunhas), perceber-se-á como os argumentos com que, em artigos na imprensa e nalguns blogues José Manuel Fernandes é criticado, são ataques às suas opiniões como sendo impróprias de um director e de um jornal como o Público. Os ataques são políticos e censórios, uma etapa no cerco às opiniões que escapam ao unanimismo actual, a dele e a dos outros.

Um dos “argumentos“ mais absurdos é que a crise que o Público conhece (grave, mas menos grave do que a que conhece o Diário de Notícias, mesmo depois de uma profunda renovação) se deverá ao “conteúdo” pró-americano do jornal (que nem uma redacção e uma maioria de comentadores muito significativa contra a política americana no Iraque conseguiriam atenuar) e que só o “afastamento” do director (e por arrastamento dos que partilham da sua opinião) poderia evitar essa crise. Isto é um típico exemplo dessa mesma má fé, visto que as razões que explicam a crise do Público são comuns à imprensa escrita em geral e só por completa ignorância dessas razões é que se pode pensar que os artigos e os editoriais de opinião tem algum peso nessa crise. Aliás se fosse assim, o Le Monde Diplomatique seria o jornal mais lido em Portugal e o Diário de Notícias estaria a crescer exponencialmente com os leitores de “esquerda” que fogem do Público. Estas “análises” seriam disparates completos se não tivessem o seu claro intuito censório. Há quem não suporte um grão de diferença de opinião, fora do impante unanimismo dos nossos dias.

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7.1.07


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ÁTOMOS E BITS

de 7 de Janeiro de 2007


Um caso típico de esquecimento mediático por esgotamento: a gripe das aves. E no entanto, o virus continua o seu caminho...

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Esta imagem vale por mil palavras e exige mil palavras. Este retrato da blogosfera americana revela não só a complexidade deste novo media, como também ligações e densidades que nem sempre são evidentes à análise mais superficial. Por exemplo, o grupo mais denso de ligações em baixo é aquilo que podemos chamar a "blogosfera política". Está na altura de aceitar que, pelo menos numa fase inicial da blogosfera ( e isto aplica-se à portuguesa), os blogues políticos criaram uma sub-comunidade densa muito particular e que isso tem a ver com um fenómeno de subrepresentação de muitas "falas" políticas na atmosfera. Outra das características desta "blogosfera política" é não ter um centro evidente, contrastando por exemplo com os outros núcleos como o da blogosfera "técnica", aqui à volta do Boing Boing, o ponto luminoso em cima. Embora seja verdade que a maioria dos blogues não é "político", a granulação da imagem da blogosfera torna-os mais um fundo do que uma forma. No universo-blogosfera, a força da gravidade encontra-se na política e na sociedade, mas a matéria negra são os "diários" pessoais. Pensando bem, não era óbvio que fosse assim. (Dados no Data Mining: Text Mining, Visualization and Social Media.)

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O Portugal dos Pequeninos sobre Gaspar Simões: Gaspar Simões é mais um daqueles casos do nosso nacional desprezo pelo trabalho árduo de décadas, pela dedicação incómoda a uma tarefa ingrata na pequeníssima república das nossas letras, cheia de lutas territoriais por um espaço exíguo, e dos efeitos mediáticos do "passar de moda".

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Mais uma das razões da escolha do Provedor dos Leitores do Público para as Boas Coisas da Comunicação Social do ano passado: a severa crítica de "formas de plágio" pelos jornalistas que hoje o jornal publica.

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Uma novidade presidencial a saudar: na página da Presidência da República um lugar sobre a viagem indiana de Cavaco Silva, com muita informação em tempo real. Vantagens de ter na Presidência Diogo Vasconcelos, o homem que o governo saneou da UMIC (Unidade de Missão, Inovação e Conhecimento), que ele fez do nada com grande mérito e isenção para ser afastado por puro sectarismo político.

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