ABRUPTO

3.2.09


ÍNDICE DO SITUACIONISMO (31):
A QUESTÃO FREEPORT NA COMUNICAÇÃO SOCIAL (19)



Repare-se nesta notícia da RTP aqui (a seguir reproduzida) e observe-se quais são os quadros que são publicados: exactamente os que são menos penosos e mais favoráveis a José Sócrates, o da "campanha negra" e o da opinião sobre o Primeiro-ministro. Os resultados mais hostis e que tem óbvio interesse jornalístico (por exemplo "seis em cada dez dos inquiridos considera que José Sócrates deixou coisas por esclarecer" ou "quarenta e três por cento dos inquiridos não acredita em José Sócrates quando afirma que não houve qualquer espécie de favorecimento no processo de aprovação do Freeport" ou "44 por cento dos inquiridos a comunicação social têm agido bem"), não tem direito a quadro. É assim que as coisas se fazem.

SITUACIONISMO +4
Portugueses querem saber mais sobre o caso Freeport

RTP Caso Freeport foi alvo de sondagem

A maioria dos portugueses considera que José Sócrates não deu todas as explicações sobre o caso Freeport. Numa sondagem da RTP, Antena 1 e Jornal de Notícias realizada pela Universidade Católica, 61 por cento dos inquiridos considera que o primeiro-ministro tem que dar mais esclarecimentos. Quase todos os inquiridos acompanham o caso Freeport e mais de metade demonstra interesse no caso.


Quando questionados sobre se já tinham ouvido falar da controvérsia sobre o licenciamento do Freeport, 84 por cento dos inquiridos respondeu que sim, e apenas 15 por cento afirmou que nunca tinha ouvido falar.

Aos 84 por cento que já tinham ouvido falar sobre o assunto foi colocada a pergunta: Acha que o primeiro-ministro já esclareceu completamente as dúvidas que surgiram em relação à sua actuação neste caso ou deixou coisas por esclarecer?

Perante esta questão seis em cada dez dos inquiridos considera que José Sócrates deixou coisas por esclarecer (61 por cento), 18 por cento ficou completamente esclarecido e 21 por cento não sabe se ficou ou não esclarecido.

Quarenta e três por cento dos inquiridos não acredita em José Sócrates quando afirma que não houve qualquer espécie de favorecimento no processo de aprovação do Freeport, no entanto, 23 por cento acredita nas palavras do primeiro-ministro, dois por cento recusou responder e 32 por cento não tem ainda uma convicção sobre o assunto.

Tese da cabala contra José Sócrates é a que menos divide os inquiridos

Quando questionados se concordam ou não com a declaração do primeiro-ministro quando afirma que há uma campanha negra com o objectivo de afectar a sua honra em ano de eleições, 38 por cento está de acordo e 36 por cento discorda, uma diferença mínima.

Vinte e quatro por cento dos inquiridos não tem ainda uma opinião formada sobre o assunto e dois por cento recusou responder.



Metade dos portugueses não mudou a opinião que tinha sobre José Sócrates

Para metade dos portugueses que responderam a este inquérito da Universidade Católica a opinião sobre o primeiro-ministro não mudou. A maioria considera que José Sócrates tem agido bem em todo este processo.

Quando questionados sobre se no seguimento desta controvérsia a sua opinião sobre José Sócrates mudou ou não, cinquenta por cento dos entrevistados mantém a mesma opinião sobre o secretário-geral do PS e para 31 por cento a opinião mudou para pior.



Para oito por cento a opinião sobre o primeiro-ministro mudou para melhor, um por cento recusa responder e dez por cento não sabe se mudou ou não.

Trinta e três por cento dos questionados consideram que José Sócrates agiu bem em todo este caso, contra 30 por cento que acha que o primeiro-ministro agiu mal.

Para doze por cento o secretário-geral do Partido Socialista agiu muito mal, enquanto nove por cento considera que Sócrates agiu muito bem. Dezasseis por cento dos inquiridos não tem uma opinião formada sobre esta questão.

Actuação das autoridades judiciais não agradam aos portugueses

O papel das autoridades judiciais portuguesas também foi avaliado nesta sondagem da RTP, Antena 1 e Jornal de Notícias e a avaliação não foi muito positiva.

À pergunta como avalia a actuação das autoridades judiciais portuguesas neste processo? a maioria dos inquiridos considera que a actuação foi negativa. Quinze por cento acha que as autoridades judiciais agiram muito mal e 30 por cento considera que a actuação foi má.

Trinta e três por cento acha que as autoridades judiciais agiram bem e apenas nove por cento elogia o papel da justiça neste processo. Dezasseis dos inquiridos não sabe.

Quase metade dos inquiridos (48 por cento) não tem confiança que a investigação sobre este assunto vá esclarecer todas as dúvidas enquanto 42 por cento demonstra confiança no esclarecimento das dúvidas. Os restantes dez por cento não têm opinião formada sobre a questão.

Comunicação social tem agido bem no acompanhamento do caso Freeport

O papel da comunicação social no acompanhamento do caso Freeport e o interesse com que os inquiridos têm acompanhado este assunto foram outros dos temas analisados nesta sondagem da Universidade Católica para a RTP, Antena 1 e Jornal de Notícias.

Para 44 por cento dos inquiridos a comunicação social têm agido bem, no entanto, 29 por cento dá uma nota negativa ao papel da comunicação social no caso.

Nove por cento considera que a comunicação social tem agido muito mal, contra quatro por cento que dá um excelente. Treze por cento dos inquiridos não sabe ou não responde.

Trinta e seis por cento dos inquiridos revela que tem acompanhado o caso com algum interesse, 22 por cento com muito interesse. Vinte e oito por cento dos inquiridos afirma acompanhar o caso com pouco interesse.

Nenhum dos inquiridos se recusou a responder a esta questão, no entanto, um por cento não tem opinião formada. Catorze por cento confessa que não tem nenhum interesse no acompanhamento do caso. (...)

Cristina Sambado, RTP
2009-02-03 11:57:34


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23.3.09


UM AMBIENTE POUCO SADIO PARA A LIBERDADE


A divulgação de uma nota da ERC sobre o Jornal Nacional da TVI abre mais uma página preocupante sobre a saúde da nossa liberdade de informação. Tudo na nota deve preocupar-nos, porque ela implica, desde já, uma censura implícita a esse noticiário. Na verdade, nela se diz que
"têm sido divulgadas na comunicação social várias opiniões que criticam, por vezes de forma veemente, alegadas violações graves de deveres éticos ou legais cometidas no Jornal Nacional de sexta-feira da TVI. Da mesma maneira, algumas dessas opiniões têm criticado o silêncio, a seu ver incompreensível, da Entidade Reguladora para a Comunicação Social a respeito desta questão". Neste contexto, a ERC informa que "deram entrada nesta entidade várias queixas que têm como objecto a alegada violação de princípios éticos ou legais por parte da TVI" e que "a ERC pronunciar-se-á em tempo devido sobre essas queixas".
Começo logo por me espantar com o facto de a ERC se preocupar com as notícias vindas na comunicação social quanto à TVI (um eufemismo para designar as críticas que, desde o primeiro-ministro ao ministro que tutela a comunicação social e deputados do PS que acompanham esta área, têm sido feitas), e nunca ter sentido necessidade de publicar idêntico esclarecimento sobre críticas, também divulgadas na comunicação social e também apontando para o "silêncio" da ERC, em relação a algo que deveria suscitar muito mais a sua atenção, ou seja, a governamentalização da informação "pública".

A ERC mantém-se habitualmente silenciosa quanto à governamentalização dos órgãos de comunicação do Estado, a RTP, em primeiro lugar, e depois a Lusa e a RDP. Na verdade, tanto quanto se sabe, não existe qualquer procedimento em curso que tenha sido divulgado sobre "a alegada violação de princípios éticos ou legais" na RTP, embora não faltem exemplos, a começar pelo caso Freeport, de como a RTP sistematicamente protege o Governo de "más notícias" e o promove todos os dias de mil e uma maneiras, nenhuma das quais justificável como jornalismo. Exemplos concretos não faltam e não duvido que haja também queixas de cidadãos. Mas sobre essas, mais no cerne das funções da ERC, nada sabemos. Mais, numa polémica que tive com o presidente da ERC, há uns meses atrás, este explicitamente negou que a entidade que dirigia pudesse actuar de forma "imediatista", a pedido de qualquer cidadão, e pontualmente, contra a RTP. Pelos vistos, isso não se aplica à TVI.

Tendo hoje as baterias governamentais dois alvos directos, o Público e a TVI, e, acessoriamente, o Sol, a referência da ERC reforça essa ofensiva, contribuindo para isolar e cercar os órgãos de informação que não agradam ao poder. Quanto ao Público, já várias vezes afirmei, e reafirmo, que não fez mais do que a sua obrigação e estranhei, e estranho, que tão pouca solidariedade tenha recebido dos seus pares na tripla questão do currículo (cujos contornos continuam por esclarecer), dos projectos das casas (cujos contornos continuam por esclarecer) e das discrepâncias no custo declarado da sua habitação com a de outras no mesmo edifício (único "indício" que suscita em muitos casos de comuns cidadãos a abertura de processos pelo fisco). Em todos estes casos, o jornal fez aquilo que em qualquer país democrático é o escrutínio habitual sobre um governante.

No caso do Sol, que revelou os principais documentos relativos ao caso Freeport, a começar pela notícia de que o nome do primeiro-ministro era apontado como suspeito numa carta de uma polícia estrangeira e a acabar nas declarações sobre tentativas de corrupção reveladas por um seu familiar, de novo o que espanta são as reticências que muitos órgãos de comunicação social revelam no tratamento destas matérias. Nunca se viu um tão grande número de "alegados" como no caso Freeport, em contraste total com as notícias sobre o BPN, o BPP ou as aventuras da extrema-direita, que não têm direito a qualquer "alegado". O que me espanta é que muito do que entretanto tem vindo a ser noticiado acabe em qualquer parte envergonhada dos órgãos de comunicação, como se não fossem, como são, notícias de primeira página.

Há, no entanto, um sítio onde são notícias de primeira página: o noticiário de sexta-feira da TVI. O noticiário da TVI não é um exemplo de moderação de quem o apresenta e o estilo histriónico de Manuela Moura Guedes é muitas vezes insuportável, mas tenho a absoluta certeza de que não é isso que incomoda o Governo e a ERC. É outra coisa, é o conteúdo dos noticiários, e isso tem a ver com a liberdade. Dos jornalistas da TVI, incluindo Manuela Moura Guedes, de o fazer, e a minha de ter direito de os ouvir. O estilo é mau, mas está à vista de todos. Já o estilo situacionista da RTP é péssimo, até porque é escondido. Um é populismo jornalístico, o outro governamentalização. Num momento em que os espaços de liberdade não abundam, não me distraio com o tom, mas sim com a substância.

A questão é que a informação da TVI é muito mais substantiva do que muitos outros noticiários televisivos mais moderados histrionicamente. O noticiário da TVI tem notícias e prossegue um trabalho jornalístico agressivo que se dirige para a governação, como é suposto ser o jornalismo. Enquanto na RTP, e em muitos outros órgãos de comunicação social, a oposição aparece criticada como se fosse ela a ter a responsabilidade de governação, seguindo a linha que Santos Silva explora na propaganda, a TVI não confunde quem tem poder e quem o não tem, e essa distinção é fundamental. E é essa distinção que irrita o primeiro-ministro, o Governo e o PS.

Quando a TVI investiga activamente o caso Freeport e todos os outros casos (e são muitos) relativos à passagem de José Sócrates pela Secretaria de Estado e pelo Ministério do Ambiente, sem se preocupar com as inconveniências, está a cumprir uma função que justifica o papel cívico do jornalismo. O que deveria preocupar-nos não é o facto de o noticiário da TVI ser assim, mas sim o facto de os outros não o serem. O respeitinho com que se trata o poder em Portugal, principalmente o que vem do PS, que é socialmente mais vasto (o PS é muito mais o establishment nacional, da academia às fundações, do que o PSD), é uma patologia cívica que nos entorpece. E, como bem têm assinalado os responsáveis da TVI, as suas notícias nunca são desmentidas.

Por tudo isto, espero que a ERC não seja o instrumento que dê ao Governo o pretexto legal para atacar a TVI. O anterior Governo, muito mais atabalhoado neste tipo de operações, conseguiu tirar Marcelo, um seu crítico, de um espaço que lhe dava "espaço" e confiná-lo num canto da televisão pública, uma ecologia sempre difícil para um comentário crítico à governação. O actual Governo pretende seguir-lhe os passos e as pressões contra tudo o que é a já frágil linha de independência nos jornais, rádios e televisões, acentuam-se cada vez mais. A crise ajuda, com o Governo a comandar cada vez mais a economia dos grupos de comunicação pelas decisões que toma. E, com este Governo, e com o tandem Sócrates-Santos Silva, o que não vai a bem, vai a mal. E já se percebeu que, pelo menos com a TVI, não vai a bem.

(Versão do Público de 21 de Março de 2009.)

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23.1.09


ÍNDICE DO SITUACIONISMO (8):
A QUESTÃO FREEPORT NA COMUNICAÇÃO SOCIAL
(2)



(Em actualização.)

*
Poder-se-á saber a razão por que se ouvem tantos juristas sobre este caso (que funcionam como "extintores") e não se ouvem mais jornalistas de investigação ou especialistas em corrupção? É que a essência do caso é saber se há ou não corrupção no processo Freeport, e quem esteve envolvido nessa alegada corrupção. Tudo o resto é irrelevante.

*
Depois do que se viu na TVI, o Primeiro-ministro Sócrates tem muito que explicar. Os dados novos que foram noticiados, em particular o que diz o tio do Sócrates, em discurso directo, são notícia em qualquer parte do mundo e notícia das que antigamente faziam tocar os telexes. À hora a que escrevo os sítios em linha do Público, do Expresso, do Correio da Manhã, do Sol (que detém o exclusivo da entrevista que passou na TVI), TSF, Renascença e LUSA, nada. Só o da TVI tem a notícia e a SICN passa-a em oráculo.

ANEXO: a SICN abriu o noticiário das 22 horas com a notícia e anuncia entrevistas e um debate. A RTP2, no noticiário em simultâneo com o da SICN, entrevista Mega Ferreira sobre o CCB.

ANEXO 2: o que mostra como as coisas estão na nossa comunicação social é que o Primeiro-ministro Sócrates responde à TVI e ao Sol, antes de muitos órgãos de comunicação entenderem que havia aqui uma notícia importante. (Por exemplo o noticiário da RTP2 ignorou a questão.)

* A RTP falou do caso Freeport vinte minutos depois do início do telejornal.

SITUACIONISMO +3

*

















Procurem. Onde está o caso Freeport no Jornal de Notícias? No cantinho de cima e sem qualquer referência a Sócrates em título (só nas letras pequeninas), apenas "fluxos financeiros"...



SITUACIONISMO +4

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17.2.09


ÍNDICE DO SITUACIONISMO (45):
SOBRE UMA CAMPANHA "NEGRA" AFINAL MUITO BRANCA


A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

Para além do ridículo de considerar campanha "negra" uma campanha feita na praça pública, assinada e identificada, se a comunicação social fizesse o seu trabalho de casa em vez de tomar por boas as insinuações governamentais (via Santos Silva e Sócrates), chegaria facilmente à conclusão de que o cartaz da JSD já teria que estar preparado muito antes de se saber que havia um "Pinocchio" no caso Freeport , pelo que a única sugestão que podia ser considerada "negra" era muito pouco plausível (*).

O artigo do Sol que refere o "Pinocchio" é de 31 de Janeiro (e só chega a título a 7), o cartaz foi anunciado no Expresso a 30, ou seja um dia antes. Para haver causa e efeito, entre um e outro "Pinocchio", haveria que esquecer o Expresso e admitir que tudo fora feito depois de 31 até 3 de Fevereiro, data da afixação do cartaz, ou seja, de sexta a terça-feira, teve que se desenhar e imprimir um cartaz de grandes dimensões, alugar e colocar um outdoor, o que é pura e simplesmente impossível. A não ser que se considere que a JSD já sabia do "Pinocchio" com muita antecedência, o que é puramente especulativo. Aliás a notícia do Expresso não faz qualquer correlação entre o cartaz e o "Pinocchio" do caso Freeport, apenas ao problema da "credibilidade" de Sócrates. Bastava pensar e verificar para se ver que não há aqui "negritude" nenhuma.

Podem considerar o cartaz de mau gosto, mas mais nada. E original é que ele não é. Bastava ir à Internet para verificar que a representação de Sócrates como Pinóquio é muito anterior ao caso Freeport e muito mais comum do que se imagina. Sócrates como Pinóquio apareceu em Carnavais em carros alegóricos, manifestações da CGTP e dos professores, blogues e jornais como caricatura, e ...na Assembleia Regional da Madeira. Pelos vistos a "campanha negra" já data de há muito.

Alguns exemplos portugueses (e há mais) :



um do Bloco de Esquerda com outra personagem e vários de uso mais do que comum do mesmo tipo de caricatura em tudo o que é país e democracia:



* Há vários exemplos de "indignações" na comunicação social com o cartaz, algumas já aqui referidas. Uma delas é um editorial de Manuel Carvalho no Público:
Há um cartaz espalhado pelo país que se transformou num espinho cravado no debate político e ameaça a estratégia do PSD. Ao colocar nas ruas a imagem de José Sócrates retratado com o nariz comprido de Pinóquio, a JSD exibiu "irreverência" (adjectivo de Manuela Ferreira Leite), qualidade que, com complacência, se tolera nos actos das juventudes partidárias. Mas a mensagem subliminar do cartaz vai muito além da intenção de dizer com a graça dos mais novos que o primeiro-ministro é um crónico incumpridor de promessas ou um reincidente promotor de palavras falsas. Depois de as notícias dos jornais transcreverem a carta rogatória da polícia inglesa sobre o caso Freeport, na qual um tal "Pinóquio" é citado como estando no cerne de putativos pagamentos ilegais, o cartaz da JSD deixou de ser apenas uma denúncia sobre a falta de realização de promessas políticas: tornou-se também uma peça que promove em público a associação directa entre José Sócrates e as suspeitas do Freeport.
A melhor resposta veio no mesmo dia no mesmo jornal dada por Eduardo Cintra Torres:

Clicando fica na boa dimensão.

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25.1.09


ÍNDICE DO SITUACIONISMO (13):
A QUESTÃO FREEPORT NA COMUNICAÇÃO SOCIAL (7)



Os mecanismos comunicacionais vivem da "novidade". A lógica do seu desenvolvimento depende de haver novas informações todos os dias. Se não for assim, o caso Freeport (como qualquer outro) conhecerá um pico e depois cairá progressivamente no esquecimento, até ao dia em que as mesmas informações já esquecidas aparecerão como nova "novidade", ou quando haja mesmo "novidades". Este mecanismo pouco tem a ver com a substância da questão, quando esta existe fora da sua mediatização, como é o caso Freeport. O seu relançamento não se deveu a qualquer fuga processual para os jornais (como sugeriu falsamente o Primeiro-ministro), mas sim a um dia de buscas da PJ e às informações relevantes (declarações de familiares de José Sócrates) que se lhe seguiram. Agora, manter ou não a questão na agenda dos media, cada vez mais depende da orientação editorial desses mesmos media. O situacionismo ou a independência vão ser mais nítidos agora do que nos dias de brasa destes fins de semana, em que era impossível ocultar que havia um "caso" em curso (e mesmo assim a RTP nalguns noticiários e o Jornal de Notícias procederam assim). O que se sabe, informações, contradições, declarações, são de uma gravidade que não pode ser ignorada nem esquecida. No passado, em relação a muitos outros casos de menor importância, a comunicação social manteve-os como "escândalos", dando-lhe sequência investigativa e persistência editorial, fazendo exigências de clarificação e não deixando que haja esquecimento. Este caso, talvez o que mais gravemente afecta o centro do poder (o único precedente idêntico foi o "caso Emáudio" e houve aí uma deliberada desvalorização para não atingir Mário Soares), não pode ser escondido debaixo de um tapete. Já se sabem coisas a mais para perceber que ele não cabe debaixo de um tapete.

Digo isto porque sou seu adversário político ou o acho mau governante? Não. Digo isto porque desde a história do diploma e dos projectos das casas, não acredito na sua palavra. E já o escrevi antes, não precisei do caso Freeport. Significa isto que o acho culpado, sem apelo, pelo julgamento insidioso das suspeitas? Também não. Digo-o apenas porque, como afirmou um jornalista do Expresso, Filipe Santos Costa, na SICN, não deixo de pensar. Há pessoas cuja palavra me faz deixar de "pensar" de imediato, porque tenho nelas confiança, esse valor intangível muito menos precário do que se pensa. Outras não. Fica pois aqui esta declaração de confiança ou de falta dela.

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14.11.09


ÍNDICE DO SITUACIONISMO (106):
É QUANDO É A DOER QUE SE PERCEBE MELHOR...


A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

... o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias pela voz dos seus responsáveis. Veja-se o tom. Marcelino (director) no Diário de Notícias:
Já não bastava mais uma polémica com o primeiro-ministro. (...) Além do mais, no terreno, os administradores da justiça estão notoriamente empenhados em devassar, de novo, os processos que deveriam defender e investigar de forma recta e sem mácula.

É preciso que o País se habitue a investigar e castigar os poderosos, sim senhor, mas é absolutamente imprescindível que o faça num quadro europeu, de Estado de direito, em que toda a gente seja considerada séria até ao momento em que, de facto, deixa de o ser.

Não é isso que acontece e ontem foi um dia curioso neste sentido. No preciso momento em que José Sócrates viu a respeitada e insuspeita polícia inglesa arquivar o processo Freeport (que produziu por cá as consequências de todos conhecidas), abriu- -se já uma nova frente a partir de escutas entre o primeiro-ministro e o seu amigo Armando Vara.

Não sabemos de que factos falamos. Não sabemos se as conversas são criminalmente relevantes. Não sabemos, sequer, da respectiva legalidade. Mas a realidade está à vista de todos: crescem as notícias, florescem os comentários, impõe-se uma comunicação doentia em que não faltam sequer os poucos escrúpulos de grupos de jornalistas ávidos de acertar contas com o passado.

2 A guerrilha, mais uma vez, está instalada e a culpa, sendo de muitos, é sobretudo de dois homens que eu acuso de serem os principais responsáveis pela actual crise que afecta a sociedade portuguesa: José Sócrates e Cavaco Silva.

É à sombra de ambos que os exércitos se acantonam e combatem, na justiça e na comunicação social.

Sob a passividade de São Bento e Belém, escorre a intriga na política.

São os seus operacionais que movidos pelo ódio (já não só político) estão a conspurcar a vida pública nacional.

(...)
A intervenção de Manuela Ferreira Leite no Parlamento, esta semana, é ilustrativa do que atrás disse. A presidente do PSD farejou uma última oportunidade e voltou à campanha, sem qualquer pudor. Não foi politicamente séria, mas teve eficácia popular. (...)
Paulo Ferreira (subdirector) no Jornal de Notícias:
Uma das consequências deste emaranhado está à vista: temos hoje um primeiro-ministro sobre o qual recaem suspeitas de enorme gravidade e andamos há semanas a assistir a um lamentável jogo do empurra entre duas das principais figuras do Estado: o procurador-geral da República e o presidente do Supremo Tribunal de Justiça. É por isso que José Sócrates tem razão, quando diz que "isto está a passar das marcas". Eu diria mais: isto é verdadeiramente insustentável. Não se trata de reclamar que os "tempos" da Justiça se verguem aos "tempos" da política. Trata-se de reclamar que os principais agentes da Justiça não permitam, como permitiram, que o novelo cresça como cresceu. É que não é apenas a imagem do primeiro-ministro que está aqui em causa. É a imagem do país.

Este caldo permite, como é óbvio, aproveitamentos políticos que têm o condão de fazer alastrar a mancha. A intervenção feita sobre o caso por Manuela Ferreira Leite, ou a suprema hipocrisia usada por Pacheco Pereira na análise do mesmo, são bons exemplos disso. A líder do PSD chegou a exigir, no Parlamento, ao primeiro-ministro que se pronunciasse sobre as escutas! Uma de duas: ou Ferreira Leite conhece o conteúdo das escutas, o que é muito grave; ou não conhece e perdeu uma boa oportunidade para estar calada.

A confusão justifica uma pergunta: deve José Sócrates fazer uma declaração formal ao país sobre a matéria, como reclama a líder social-democrata? É duvidoso. Se o fizer, isso pode ser entendido como um sinal de fraqueza. Se não o fizer, arrisca-se a ser queimado em lume brando.

No ponto a que chegámos talvez seja melhor esperar pelas conclusões do processo. (...) A menos que nos dê um especial gozo viver no país do consta que o primeiro-ministro..

Duas características comuns nos jornais pertencentes ao grupo que é referido nas conversas entre Sócrates e Vara como tendo que ser ajudado (como é que eu soube? Vem nos jornais.): os alvos (magistrados, Manuela Ferreira Leite, eu); e o completo silêncio sobre a possibilidade de haver interferência do poder político na comunicação social, matéria que, em condições de liberdade e de independência do poder, seria a principal preocupação editorial dos jornalistas. Pelos vistos, tornou-se tão secundária que nem vale a pena falar.

ANEXO:


O problema é que o que pensam os responsáveis dos dois jornais da Global Notícias condiciona o tratamento informativo, como se vê pelas capas. Um jornal que considera que a matéria mais importante do dia de ontem neste processo é a abertura de "inquéritos à violação do segredo de justiça", diz tudo sobre as suas prioridades.

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28.1.09


ÍNDICE DO SITUACIONISMO (20):
A QUESTÃO FREEPORT NA COMUNICAÇÃO SOCIAL (11)



É impressão minha ou o caso Freeport não foi motivo de nenhum Fórum da TSF (não os ouvi a todos por isso posso estar enganado) ou no Prós e Contras da RTP? Ambos os programas costumam seguir de muito perto a actualidade.

*
Paulo Baldaia informa-me que houve um Forum com o tema "o caso Freeport e a questão do licenciamento ter sido feito a três dias das eleições":

Porque a sua dúvida, sobre se o tema Freeport já foi tema do Fórum TSF, pode levar muito boa gente a pensar que não foi, quero informá-lo que na segunda-feira, dia 26 de Janeiro, o tema do Fórum foi o caso Freeport e a questão do licenciamento ter sido feito a três dias das eleições.

Poder-me-á dizer que deveríamos fazer o Fórum sobre este tema mais vezes, ou que a abordagem podia ser outra, mas não pode ficar a dúvida sobre a liberdade e isenção com que funciona a redacção da TSF. No caso do Fórum, como de todos os outros programas de informação da TSF, os editores exercem o cargo com inteira liberdade e responsabilidade. A direcção da TSF faz o mesmo e quando decide pronunciar-se, ou é chamada a pronunciar-se, como foi o caso desse Fórum, também o faz com liberdade. Nesse dia estivemos todos de acordo e o tema do fórum foi mesmo a actuação dos governos de gestão, à luz do caso Freeport.

Está feita a correcção devida e obrigado pela informação.

*
Jornais que referem o caso Freeport na primeira página:



Jornais que deixaram cair o caso da primeira página:



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15.11.09


UM PROBLEMA DE CONFIANÇA

Compreendo muito bem que haja meus amigos no PS que se interroguem sobre as razões pelas quais "ataco" tantas vezes José Sócrates e que entendam esse ataque como uma questão de animosidade pessoal. Divirjo profundamente das suas políticas, que penso fazem mal ao país, e coloco-o numa espécie de top ten daqueles políticos do PS, do PSD e do CDS que entendo terem, pela sua acção política e governativa, provocado mais danos ao Bem Público, como foi o tandem Guterres-Pina Moura. Mas não são as discordâncias políticas, nem sequer é o julgamento sobre o Governo, que inclui ministros que respeito, que explicam a minha atitude.
O problema com Sócrates é outro: é um problema de desconfiança política profunda. Acrescentei o adjectivo "política" porque o terreno dessa desconfiança é o da própria acção política, não o da pessoa, embora reconheça que é impossível separar de todo os dois níveis, porque a desconfiança implica também com uma questão de carácter. Mas gostaria que, no que eu digo e no que eu faço, a desconfiança ficasse no político e fosse a partir do político que inquinasse o julgamento do carácter e não ao contrário. Não penso que os políticos tenham que ser julgados pelo carácter, o que é sempre uma atitude propícia a um moralismo que acaba por ser arrogante, mas o carácter também importa e em determinadas circunstâncias importa mais. É o caso de José Sócrates.
Essa desconfiança não me surgiu com o aparecimento da personagem na cena pública, cuja acção como secretário de Estado na co-incineração apoiei, nem na sua vitória de 2005. Pelo contrário. Foi encontrando terreno propício quando me foram sendo cada vez mais nítidos o papel da encenação e da pose na sua acção e a crescente disparidade entre os resultados e a propaganda. Mas também não foi por isso. Sócrates era um político típico da sua geração e da sua formação e nisso não era muito diferente de muitos políticos oriundos do interior dos partidos, das "jotas" em particular", feitos pela promiscuidade entre as "fontes" e os jornais, com "biografias do nada", especializados nas técnicas interiores das carreiras partidárias, construindo "imagens" e obcecados pelo "protagonismo". Portugal e a Europa estão cheios deste tipo de políticos, que se entendem bem entre si e movem-se com habilidade pelo actual panorama mediático, as televisões em particular. Nesse estilo, Sócrates era aliás do melhor, porque não se chega onde ele chegou sem qualidades, muito trabalho, determinação e - e isto é uma questão-chave - sem um grupo. No aparelho sobe-se sempre em grupo, e o de Sócrates anda à sua volta em tudo o que é complicação passada e presente. Mas, mesmo assim, nada disto chegava para me mover contra Sócrates com a intransigência que, reconheço, tenho.
O clic, chamemos-lhe assim, foi, de facto, a primeira "história", a do curso e a do diploma. Nada daquilo seria muito relevante, se fosse apenas uma certa ligeireza associada à pose, e um curso mais ou menos artificial, que não foi apenas o dele, mas o de muitos da sua geração que apareceram "formados" em escolas privadas pouco exigentes e facilitadoras. Confrontado com o facto de usar um título académico que não possuía, Sócrates podia ter acabado com a questão num instante, dizendo que partilhava a reivindicação dos seus colegas de considerar que o seu curso era de "engenheiro", ou admitindo que não fora muito rigoroso. Toda a gente passaria em frente e não haveria danos.
Mas ele insistiu que estava tudo bem, e não só que estava bem como tudo era exemplar. E esta atitude, acompanhada por algo que acompanha sempre Sócrates, que é uma enorme e agressiva pressão sobre todos os que não lhe são subservientes - e como são poucos nota-se mais -, levou-me a olhar com outros olhos para o que aparecia e para documentos particularmente bizarros como o currículo emendado existente na Assembleia. Fiquei convicto de que ele era capaz de fazer muita coisa que não devia, por seu próprio interesse, e como se trata de um homem poderoso, isso preocupa-me.
A partir daí não há pedra em que não se dê um pontapé, casinhas, processos na área do ambiente quando ele foi secretário de Estado ou ministro, Freeport, negócios ligados ao controlo da comunicação social, Face Oculta, em que Sócrates não apareça. Pode-se dizer que isso é perseguição, como há quem no PS diga. Mas não é, o problema é que Sócrates aparece sempre lá, perto ou longe, com mais ou menos responsabilidades, e aparece porque está lá. Ele, a família, os seus amigos do PS, as pessoas que escolheu, as áreas onde governou e governa. E, quando ele aparece, nada nunca se esclarece cabalmente. Nem na justiça (e isso é uma arma de dois bicos, porque também o prejudica), nem na parte da política que exige transparência. Por isso, a minha desconfiança original não tem conhecido a não ser um crescendo, porque encontra um padrão e não "casos". E penso, posso estar enganado, mas penso, que essa desconfiança é puramente racional.

O que está a acontecer com o seu envolvimento no caso Face Oculta, e isto para usar o termo exacto "envolvimento" e não "culpa", é mais uma pedra em que, quando se lhe dá um pontapé, aparece Sócrates. Ou dito de outra maneira, cada cavadela sua minhoca, numa terra que, pelos vistos, é fértil nas ditas porque algum adubo há-de ter. Esclareço já que sou contra a violação do segredo de justiça, e, como não sou jornalista, desejo apenas que os jornalistas sejam especialmente criteriosos e restritivos na utilização de documentação oriunda da violação desse segredo. Ou seja, que sejam muito rigorosos no julgamento do interesse público daquilo que publicam e dos direitos conflituais que colocam em causa. Não digo isto apenas agora, já o disse na questão da Casa Pia, talvez o único caso em que houve momentos de "justicialismo" na investigação criminal.

Mas, uma vez publicada a informação, admitindo que ela é verdadeira, não se pode evitar que nos pronunciemos sobre o "escândalo público" que ela suscita, nem sobre os factos que ela revela. E isto é válido tanto para José Sócrates, em que há uma verdadeira barragem, quase chantagem, para que não se discuta o conteúdo do que vem a público, como para António Preto, em que parece que ninguém repara sequer que o que se esteve a discutir nestes últimos anos foram escutas publicadas em violação do segredo de justiça, em que aparecia a história da "mala". Não pode haver filhos e enteados, com critérios diferentes.

E o que se sabe, sem ter sido desmentido, sendo até confirmado da habitual forma retorcida pelo primeiro-ministro, é que José Sócrates mentiu ao Parlamento sobre o seu conhecimento e eventual papel na tentativa de compra pela PT de parte da TVI. Esta não é uma matéria secundária, mas releva das relações institucionais entre órgãos de soberania. E quando digo que ele próprio já confirmou de forma retorcida, foi por o ver começar a fazer uma distinção, demasiado útil, entre conhecer e ter sido "oficialmente informado", que se percebe ir ser a escapadela que vai usar. E é isso que me faz desconfiar e muito, porque o que José Sócrates disse ao Parlamento e aos jornalistas nessa ocasião foi que "não estou sequer informado disso" quando se tratava de saber que grau de envolvimento tinha ele próprio e o Governo no processo. E neste caso, saber a verdade é crucial porque envolve algo de que este Governo tem sempre negado: a interferência a partir do poder na comunicação social. Pelos vistos, o que veio já a público explica que quem temia a chamada "asfixia democrática" tinha até mais razão do que imaginava.



É por isso que desconfio de Sócrates. Vale o que vale, mas para o meu julgamento vale muito. E as razões pelas quais desconfio fazem-me considerar que existe perigosidade na sua actuação para a democracia e para Portugal.

(Versão do Público de 14 de Novembro de 2009.)

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26.10.09


POIS É,
JÁ HÁ MUITO TEMPO QUE SÓ SE TRANSMITE FOLCLORE TRANSMONTANO




Um notável anúncio do Euromilhões diz-nos que "este canal acaba de ser comprado pelo senhor Nuno Cabral de Montalegre e a partir de agora transmitirá apenas folclore transmontano". Nem sei como é que se deixou passar esta notícia que explica porque é que já há tanto tempo só vemos "folclore transmontano" na televisão, nos jornais, na imprensa. Como já só vemos "folclore transmontano" pensamos que não há mundo, fora da visão que o senhor Nuno Cabral nos dá todos os dias. O potencial subversivo desta notícia é dizer-nos que isso se passa porque o senhor Nuno Cabral "comprou" o canal e que este transmite "apenas" "folclore transmontano", quando nos noticiários do dito "canal" se diz que se passa toda a música do mundo e se fala de forma plural sobre a vida fora de Montalegre.

O Vasco Pulido Valente diz, e bem, que é difícil explicar a mediocridade aos medíocres, e eu acrescento que é igualmente difícil explicar a falta de ar a quem está habituado a respirar tóxicos. Usando o exemplo actual, é difícil dizer aos ouvintes do canal único, que estão "apenas" a ouvir "folclore transmontano" e que isso se deve ao facto de o senhor Nuno Cabral ter "comprado" o dito órgão de comunicação social. É por isso que, mais uma vez, sim mais uma vez e quantas forem precisas, eu vou falar da qualidade pouco sadia do ar da nossa democracia. Sim, falar da "asfixia democrática", aquela coisa de que este mesmo pensamento único não quer que se fale, por razões que se percebem demasiado bem.

Decretou-se, ao estilo rebanho, que foi por isso que o PSD perdeu as eleições. Como sabem? Não sabem, é a olho e é conveniente quer para o PS (que assim pretende calar as críticas à "compra" do senhor Nuno Cabral) quer para os opositores de Manuela Ferreira Leite, que assim não só secundam o PS, como apontam para os seus inimigos internos, porque é suposto que tenha sido por recomendação minha e de Paulo Rangel que disso se falou na campanha. Cómodo, mas falso. Mas hoje, quando a "verdade" é um anátema ou um insulto, isso também não incomoda ninguém. E, ao fim de dez em onze comentadores e jornalistas na SICN ou na TSF ou na RTPN a dizerem o mesmo, quem é que se atreve a duvidar?

Mas vamos ao "folclore transmontano", à música única que todos os canais transmitem. Há vários trechos desta música única, por exemplo, os relativos ao estado do mundo associados à completa ausência de espírito crítico sempre que o Presidente Obama está envolvido num assunto qualquer; os relativos à Europa e ao "europeísmo" apodíctico, insusceptível de discussão, a que só se pode dizer "sim" sob pena de envio para o Inferno do nacionalismo provinciano; e, por último, fico-me pela própria questão da "asfixia democrática" como exemplo nacional. Os dois primeiros mostram como em matérias tão decisivas se deixou de pensar, ou seja, de questionar se o "folclore transmontano" nos diz alguma coisa sobre o que se está a passar no Afeganistão, ou se o Tratado de Lisboa tem que ser acelerado não vão os conservadores ganhar as eleições no Reino Unido. Uma parte importante da "asfixia democrática" é a prevalência do pensamento único sobre Obama, a União Europeia, a crise e os seus fundamentos, o "neoliberalismo", etc., etc.

Deixou de se poder pensar de fora do "folclore transmontano", e parece tão absurdo fazê-lo que a acusação soviética de loucura e de promessa de internamento já tem sido feita pelos mastins dos blogues "transmontanos". Para eles, Cavaco Silva é louco ou senil, Manuela Ferreira Leite, amavelmente tratada pela "velha", idem aspas, eu também não estou melhor, José Manuel Fernandes, Cintra Torres e mais meia dúzia que ainda escreve com independência nos blogues e nos jornais, estamos todos obviamente doentes porque não vemos nada de preclaro no "folclore transmontano". A questão da "asfixia democrática" começa exactamente aqui, nas pessoas que querem respirar com os dois pulmões e ainda distinguem o ar puro do dióxido de carbono, logo têm que ser mutantes loucos. É por isso que a questão da "asfixia democrática" é tão incómoda que suscita esta unanimidade para a calar. Exactamente porque existe, ela não pode sequer ser nomeada sem ruptura do véu que a encobre. Por isso, é das mais incómodas para o PS e para os próceres do pensamento único que nos pastoreiam do lado do poder.

Primeiro, vamos ao termo e depois à coisa. O termo já se tornou um rodriguinho, mas a questão fia mais fino. A origem esteve num discurso de Paulo Rangel num 25 de Abril em que falou de "claustrofobia democrática", expressão que francamente prefiro à "asfixia", embora o que interessa é saber se a coisa existe e não se o nome é o melhor. O que é interessante lembrar é que o discurso de Rangel foi então muito positivamente saudado e, hoje, a mesma coisa, exactamente a mesma coisa, aparece como um atestado de derrota, apesar de Rangel ter falado nela na sua campanha vitoriosa nas eleições europeias. Pelos vistos, a "asfixia democrática" deu vitória nas europeias e derrota nas legislativas.

Dizer que existem limitações à plena liberdade dos portugueses, em particular, de exprimirem as suas opiniões, sem sofrerem retaliações nos seus interesses, seja de manter o seu emprego ou de conseguirem a devida promoção, seja de não serem administrativamente punidos, seja de não verem os seus negócios ilegitimamente prejudicados, ou de serem às claras ou, acima de tudo, às escuras, perseguidos porque não gostam do Governo, do PS, da maçonaria, ou das "empresas do regime", como diz Henrique Neto, ou afastados dos órgãos de comunicação ou ostracizados, a favor de gente mais "útil" ao poder, mesmo quando, ou principalmente quando, são de "direita" - nomear tudo isto -, é proibido no regime do canal único do "folclore transmontano" .

Seria interessante perguntar o que é que mudou para melhor, desde que Rangel fez o seu discurso, na "claustrofobia democrática"? Mudou, só que para pior. Os dois órgãos de comunicação que o primeiro-ministro atacou publicamente estão abatidos. O Jornal Nacional da TVI encerrou como espaço crítico do Governo, e o PÚBLICO está sujeito a uma campanha para mudar a sua linha editorial e o seu director. Somaram-se os assuntos tabu, a começar pelas investigações que envolvem o primeiro-ministro, como o caso Freeport e outros, em que ninguém se interroga como é que uma imprensa livre aceita tão grande condicionamento ao ponto de tornar "excessivo" quem tem coragem de falar. Fosse no Reino Unido ou nos EUA e veriam se era assim. É também porque há um coro de "folclore transmontano" que ninguém se incomoda em perguntar porque razão é que Portugal baixou de 16º para 30º no índice de liberdade de imprensa. Pelos vistos os Repórteres Sem Fronteiras acham que sempre há "asfixia democrática". Por cá, tudo a assobiar para o lado.

Mas nem sequer é o que se vê o que é o mais importante. O mais importante é o que não se vê, porque a patrulha dos dissidentes do "folclore transmontano" é feita em todos os azimutes, desde os blogues que fazem o dirty job, a começar pelos pagos pelo Governo, a acabar em operações políticas de monta como foi a do Diário de Notícias contra Cavaco Silva e o PSD. Gente cujo único pecado é não alinhar no coro do "folclore transmontano" é imediatamente sujeita a uma campanha de insultos. É, por exemplo, o caso de Paulo Tunhas, filósofo e co-autor de um notável livro com Fernando Gil, também cuidadosamente esquecido pela sua ruptura com o cânone, que cometeu o crime de "perceber", no melhor sentido, Manuela Ferreira Leite, um acto proibido no coro do "folclore transmontano", cantado "à esquerda" pelos amigos de José Sócrates e "à direita" pelos de Passos Coelho.

Estes exemplos vêm de uma pequena minoria das elites, e têm esse defeito, mas também têm uma vantagem. A vantagem é que estão em posição de perceber e falar do que se está a passar porque têm melhor condição económica, logo mais defesas. Mas seria profundamente errado pensarmos que é aqui que a "claustrofobia democrática" é mais grave. É no homem comum, que tem medo de perder o emprego, no pequeno empresário que teme perder uma encomenda porque refilou com as dívidas do Estado ou o fisco ou a ASAE, no funcionário público que sabe que tem que agradar ao chefe do PS, no jornalista que questiona opack journalisme é logo afastado da "política" por se suspeitar que "está feito com o PSD". É no homem que tem o direito de viver num país livre, com uma comunicação social crítica, com uma informação equilibrada, e nem sequer se pode aperceber até que ponto está a ser, todos os dias, manipulado com "folclore transmontano".

(Versão do Público de 24 de Outubro de 2009.)

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© José Pacheco Pereira
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