| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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28.3.09
HOJE NO
(url) ÍNDICE DO SITUACIONISMO (81): MENOS DE 4 MINUTOS PORQUE AS NOTÍCIAS QUE OS OUTROS DÃO NADA VALEM ![]() A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração. E, nalguns casos, de respiração assistida. Onde? Na RTP pois claro. Os telespectadores da televisão pública não têm direito a ver nenhuma parte significativa da gravação da TVI, apenas um excerto anódino, e têm apenas acesso a uma sucessão de peças com uma orientação evidente: nada aconteceu, nada se passa a não ser calúnias ao Primeiro-ministro, a gravação do DVD de nada "serve" porque a justiça portuguesa nem a quer ver (imagens da procuradora Cândida a dizer isso), e por aí adiante. Tudo em menos de 4 minutos. Será que a RTP tem na sua imensa redacção algum jornalista a investigar o caso Freeport, ou só se trata do caso por reacção? Seria muito estranho, dado que o interesse jornalístico é impossível de negar. Ou é proibido investigar o caso Freeport na RTP? (url) COISAS DA SÁBADO: A AGENDA DO APARECER (Primeiro, segundo e terceiro.) O programa dos teóricos do Parecer é simples, trata-se todos os dias de garantir o Aparecer com a agenda preconcebida do Parecer. Na RTP não é difícil, nas outras já é mais complicado. Mas que jornalista terá a ousadia de ignorar a “agenda do Primeiro-ministro” , que todos dias vai a uma escola para prometer uma obra, vai ao Parlamento anunciar uma medida, vai a uma fábrica ver uma máquina maravilhosa, vai ao esplendor de um vale de rio póstumo erguer com os dedos uma barragem, passeia entre patrões e sindicalistas prometendo milhões? Os tenebrosos representantes do mal dizem que nove décimos disto são anúncios, promessas, promessas feitas pela segunda e terceira vez como se fossem novas, são enganos embrulhados em marketing, são técnicas de Parecer para Aparecer. E dizem que o que sobra, e poderia ser útil, é caótico, pouco coerente e feito sem cuidado.(Continua.) (url) (url) Estava-se em pleno apogeu de notícias sobre a criminalidade violenta e o MAI tinha metido os pés pelas mãos nas entrevistas dos dias anteriores. Uma operação espectacular apresentada como sendo de resposta à criminalidade violenta, convenientemente acompanhada por tudo o que é jornalista (o que diz muito sobre a sua confidencialidade), punha na rua centenas de polícias, GNR, carros e helicópteros. Na verdade, o que se estava a passar tinha bem pouco a ver com a criminalidade violenta, era apenas uma gigantesca operação stop, dando os resultados que se esperam de uma operação stop: condução com excesso de álcool, doses de droga para consumo, meia dúzia de armas brancas. O puxar de todos os recursos para essa operação dava aliás uma excelente oportunidade ao crime, visto que o policiamento, já de si escasso, de muito do país, ficou ainda mais ausente. Mas era preciso fazer o show e o show foi feito. Não terá continuidade, porque não há recursos e a sua eficácia é limitada a crimes menores, mas passa bem na televisão. (url) COISAS DA SÁBADO: O BEM CONTRA A “MALEDICÊNCIA” (Primeiro e segundo.) O nosso mago principal é especialista. Vejamos a sua ordem de trabalhos no Parecer para Aparecer. Parecer que se zela dia e noite pelo bem estar do Reino. Parecer que se está a fazer muita coisa boa e nenhuma má. Parecer que todas as “forças vivas” do Reino estão ordeiras atrás do Primeiro-ministro, e que, fora da luz radiosa que emana, só há trevas e danação. Parecer que tudo o que corre mal vem de lá de fora ou dos inimigos de dentro, sem nenhuma responsabilidade própria. Parecer que se o país não tivesse a “crise” que vem de fora, havia 150.000 empregos, crescimento fulgurante, finanças sadias, felicidade social ímpar. Parecer que tudo o que entrava este caminho glorioso é contra o Reino e o seu Povo. Fora de nós não há salvação. Fora de nós o caos. Fora de nós, apenas a intriga, a maledicência, a incompetência, a ignorância, a birra, os pequenos interesses, a confusão.
(url) Cerejeiras em flor na encosta da Serra da Gardunha (Fundão). (Eduardo Saraiva)
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COISAS DA SÁBADO: PARECER PARA APARECER E APARECER PARA PARECER
(Primeiro) O que conta é Aparecer para Parecer. Aí, não há joelho, trabalha-se a sério e a custos bem caros com os melhores especialistas na matéria. Discute-se o que se deve dizer, como se deve dizer, onde se deve dizer e quem o deve dizer, quase sempre o mago principal, outras vezes, o mago que tutela o Aparecer, outras vezes, o pequeno mago porta-voz da confraria que vive no castelo. E parte-se para o dia com uma frase assassina, ou uma acusação sem réplica, ou um inuendo, ou uma sugestão de falsidade, ou uma omissão de verdade.Salazar tinha explicado isto há muito tempo, antes de haver marketing, - “em política o que parece é” - quando só havia propaganda e esta era considerada uma tarefa positiva para os governos. Havia até um Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) que mudou o nome para Secretariado Nacional de Informação (SNI). Agora também se é salazarista nestas coisas, mas não se lhe dá o nome de propaganda, mas de “comunicação”. (Continua.) (url) EARLY MORNING BLOGS 1520 - Gus: The Theatre Cat (fragmento) `I have played', so he says, `every possible part,
And I used to know seventy speeches by heart. I'd extemporize back-chat, I knew how to gag, And I know how to let the cat out of the bag. I knew how to act with my back and my tail; With an hour of rehearsal, I never could fail. I'd a voice that would soften the hardest of hearts, Whether I took the lead, or in character parts. I have sat by the bedside of poor Little Nell; When the Curfew was rung, then I swung on the bell. In the Pantomime season I never fell flat And I once understudied Dick Whittington's Cat. But my grandest creation, as history will tell, Was Firefrorefiddle, the Fiend of the Fell.' (T. S. Eliot) (url) 27.3.09
COISAS DA SÁBADO: O MUNDO-QUE- PARECE E O MUNDO-QUE-APARECE Vivemos no Mundo-que-Parece que mantém uma relação espelhar com o Mundo-que-Aparece. Ou seja, é porque Aparece que Parece. Se eu fosse filósofo alemão, haveria que encontrar aquelas magníficas palavras compostas que permitem criar um termo para cada pequena nuance das coisas e dar-lhe a dignidade de um conceito teórico. Assim não, estamos condenados a remendar as palavras com hífens e ainda por cima ter que as explicar sem hífenes.O Mundo-que-Aparece é o que Aparece na televisão. Não é o mesmo na RTP, na SIC, na TVI, embora tenha pontos de contacto entre si. A RTP tem uma Ordem, pertence às forças da Ordem, a SIC está no meio, a TVI é uma emanação diabólica da Desordem. Os magos do Parece produzem todos um evento para Aparecer todos os dias. Na agenda do mago principal, o nosso Primeiro-ministro, está marcado com uma estrela o momento da declaração do dia, preparada por ele e pelos magos acessórios, com um cuidado que não parece abundar em todas as outras coisas, a começar pela governação. Aí eles usam a cabeça toda, na governação tem uma tendência para usar mais o joelho, para fazer as coisas no joelho. Vejam o Magalhães. Tudo feito sobre o joelho. Vejam o magnífico anúncio da energia das marés que teve direito a barco de guerra. Em terra, avariado, e parece que definitivamente. Vejam os painéis solares que o mago principal e a sua comitiva propagandearam esta mesma semana e que são apenas “uma bomba de calor accionada a electricidade com apoio secundário em energia solar e não de um painel solar térmico”. "A pretexto de vender energia solar, [a Energie] vende mais electricidade", diz um especialista a propósito da fábrica visitada pelo Primeiro-ministro. Todos os dias é isto. Já o disse, há muito que não se governa em Portugal, é tudo arranques e travagens, medidas avulsas e muito, muito engano. (Continua.) (url) (url) ÍNDICE DO SITUACIONISMO (80): SÓ SE ABRE COM O CASO FREEPORT QUANDO A "NOTÍCIA" É FAVORÁVEL AO PRIMEIRO-MINISTRO. ![]() A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração. E, nalguns casos, de respiração assistida. A RTP tratou o artigo do bastonário da Ordem dos Advogados (que, em bom rigor, nada tem de novo em relação ao que já se sabe há vários anos e representa apenas uma reciclagem dos dados do processo que condenou um agente da Judiciária) como notícia de primeira página, com tratamento gráfico e uma longa entrevista ao próprio. Não acrescentou nada do que já se sabia sobre os eventos descritos pelo Bastonário, como se dele fosse a última palavra e interpretação, de que tudo se reduz a uma carta anónima, e tal pudesse ser sustentado com os factos que já se conhecem. O resultado é o de mais uma vez dizer-nos que foi tudo uma "campanha negra", tese que a RTP assume nas suas notícias com frequência. Nada teria contra esta primeira página no noticiário, se fosse uma prática habitual da RTP sempre que há novidades no caso Freeport. Só que nunca é. Agora foi. ADENDA: Só que, por azar, o muito atacado Jornal Nacional da TVI abriu com a gravação do DVD em que Charles Smith acusa Sócrates de ser "corrupto", de viva voz, e explica os passos da "corrupção". Vale o que vale, mas como notícia vale muito. (Ferro Rodrigues e Jaime Gama mal foram acusados no caso Casa Pia processaram de imediato os seus acusadores. Vou contar os minutos até que Sócrates faça o mesmo a Charles Smith). No Público e no Diário de Notícias online já está, e bem, uma síntese do que a TVI revelou, obedecendo a critérios jornalísticos indiscutíveis. Na RTP ainda esperei que alguma coisa fosse dita sobre a notícia da TVI, já que se estava a falar do Freeport. Só silêncio. (url) HOJE NO ![]()
(url) EARLY MORNING BLOGS 1519 - The Giant Slide Beside the highway, the Giant Slide with its rusty undulations lifts out of the weeds. It hasn’t been used for a generation. The ticket booth tilts to that side where the nickels shifted over the years. A chain link fence keeps out the children and drunks. Blue morning glories climb halfway up the stairs, bright clusters of laughter. Call it a passing fancy, this slide that nobody slides down now. Those screams have all gone east on a wind that will never stop blowing down from the Rockies and over the plains, where things catch on for a little while, bright leaves in a fence, and then are gone. (Ted Kooser) (url) 25.3.09
EARLY MORNING BLOGS 1518 haru nare ya na mo naki yama no asagasumi
Já é primavera — Uma colina sem nome Sob a névoa da manhã. (Bashô, tradução de Edson Kenji Iura) (url) 24.3.09
(url) (url) HOJE NO A Aliança Liberal Portuguesa era uma organização oposicionista portuguesa, com elementos ligados aos comunistas americanos, que se aproximou da Frente Popular. O FBI investigou-a no âmbito dos processos anti-comunistas do Committee on Un-American Activities. Vejam-se as declarações de um informador da comunidade portuguesa. (url) ÍNDICE DO SITUACIONISMO (79): JORNALISMO FEITO DE VENTO E VENENO ANÓNIMO ![]() A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração. E, nalguns casos, de respiração assistida. ![]() ![]() Edição "de bolso" do Código Deontológico para os jornalistas trazerem na carteira. Cito do artigo de Eva Cabral no Diário de Notícias intitulado "Mota Amaral apontado para as eleições europeias":
Mais fontes anónimas emitindo meras opiniões políticas. Por que razão são anónimas? Têm medo que os matem numa esquina? É que esta promiscuidade jornalística com as "fontes" (até na repetição do vocabulário como se vê com a expressão "espaço mediático") molda a notícia sem nós sabermos nada da representatividade de quem fala e da sua motivação. Convinha ler o Código Deontológico com atenção. Na verdade, muito do jornalismo político é feito por cinco amigos (cujas posições são conhecidas e que estão sempre dispostos a dizê-las anonimamente, não vá porem em causa o seu lugar de deputado ou as aspirações ao seu lugar de deputado...), um telemóvel e muito, muito, vento. Veja-se, por exemplo, a última frase para se perceber quão fino é o ar do vento, como é quase nada: Outro dos nomes recorrentemente apontados é o de José Pedro Aguiar-Branco, actual vice-presidente de Manuela Ferreira Leite, que tal como o do presidente da Câmara Municipal do Porto , Rui Rio, outro dos pesos pesados do PSD, são sempre referenciados como podendo fazer parte de uma solução.É verdade para José Pedro Aguiar-Branco, e é falso para Rui Rio. Que eu saiba apenas o mesmo co-autor do abaixo assinado sobre Marcelo, propôs num blogue o nome de Rui Rio. E a coisa ficou por ali. Um pessoa, um blogue, uma blague, passou à categoria de multidão, a ser "sempre referenciados". Se eu quiser até posso propor a Dama das Camélias ou o Morgado de Fafe que espero que não me tomem a sério e coloquem nos jornais. Ah! e já agora, anonimamente, eu também posso argumentar que a Dama tem o "handicap" de estar doente e o Morgado de ter vícios. Isto chama-se ruído, não tem qualquer valor informativo. (url) EARLY MORNING BLOGS 1517 - When Half the Time They Don't Know Themselves Old cathedrals, old markets, good and firm things And old streets, one always feels intercepted As they walk quickly past, no nonsense, cabbages And turnips, the way they get put into songs: One needn't feel offended Or shut out just because the slow purpose Under it is evident, Because someone is simply there. Yet it's a relief to look up To the moist, imprecise sky, Thrashing about in loneliness, Inconsolable... There has to be a heart to this. The words are there already. Just because the river looks like it's flowing backwards Doesn't mean that motion doesn't mean something, That it's incorrect as a metaphor. And the way stones sink, So gracefully, Doesn't rob them of the dignity Of their cantankerous gravity. They are what they are and what they seem. Maybe our not getting closer to them Puts some kind of shine on us We didn't consent to, As though we were someone's car: Large, animated, calm. (John Ashbery) (url) 23.3.09
(url) HOJE NO ![]()
Este autocolante, nas suas duas versões, tem uma história. Depois de Mário Soares ter ganho a primeira volta das eleições (contra Maria de Lurdes Pintasilgo e Salgado Zenha), os "pintasilguistas" apareceram na sede do MASP para se integrarem na candidatura na segunda volta. Uma das funções que tive na altura foi receber uma delegação (que incluía proeminentes dirigentes actuais do PS) para saber o que podiam fazer no trabalho da segunda volta (contra Freitas do Amaral). Na reunião, os "pintasilguistas" disseram que queriam "negociar", ao que lhes foi dito que não havia qualquer lugar ou razão para "negociação". O ambiente não lhes era muito favorável, até porque a campanha da primeira volta tinha sido muito dura. Este autocolante (na versão do "agora voto Soares") que lhes foi distribuído para usarem e divulgarem, foi uma pequena maldade feita pelos apoiantes de Soares da primeira hora aos recém-chegados que queriam "negociar". (url) A divulgação de uma nota da ERC sobre o Jornal Nacional da TVI abre mais uma página preocupante sobre a saúde da nossa liberdade de informação. Tudo na nota deve preocupar-nos, porque ela implica, desde já, uma censura implícita a esse noticiário. Na verdade, nela se diz que "têm sido divulgadas na comunicação social várias opiniões que criticam, por vezes de forma veemente, alegadas violações graves de deveres éticos ou legais cometidas no Jornal Nacional de sexta-feira da TVI. Da mesma maneira, algumas dessas opiniões têm criticado o silêncio, a seu ver incompreensível, da Entidade Reguladora para a Comunicação Social a respeito desta questão". Neste contexto, a ERC informa que "deram entrada nesta entidade várias queixas que têm como objecto a alegada violação de princípios éticos ou legais por parte da TVI" e que "a ERC pronunciar-se-á em tempo devido sobre essas queixas".Começo logo por me espantar com o facto de a ERC se preocupar com as notícias vindas na comunicação social quanto à TVI (um eufemismo para designar as críticas que, desde o primeiro-ministro ao ministro que tutela a comunicação social e deputados do PS que acompanham esta área, têm sido feitas), e nunca ter sentido necessidade de publicar idêntico esclarecimento sobre críticas, também divulgadas na comunicação social e também apontando para o "silêncio" da ERC, em relação a algo que deveria suscitar muito mais a sua atenção, ou seja, a governamentalização da informação "pública". A ERC mantém-se habitualmente silenciosa quanto à governamentalização dos órgãos de comunicação do Estado, a RTP, em primeiro lugar, e depois a Lusa e a RDP. Na verdade, tanto quanto se sabe, não existe qualquer procedimento em curso que tenha sido divulgado sobre "a alegada violação de princípios éticos ou legais" na RTP, embora não faltem exemplos, a começar pelo caso Freeport, de como a RTP sistematicamente protege o Governo de "más notícias" e o promove todos os dias de mil e uma maneiras, nenhuma das quais justificável como jornalismo. Exemplos concretos não faltam e não duvido que haja também queixas de cidadãos. Mas sobre essas, mais no cerne das funções da ERC, nada sabemos. Mais, numa polémica que tive com o presidente da ERC, há uns meses atrás, este explicitamente negou que a entidade que dirigia pudesse actuar de forma "imediatista", a pedido de qualquer cidadão, e pontualmente, contra a RTP. Pelos vistos, isso não se aplica à TVI. ![]() Tendo hoje as baterias governamentais dois alvos directos, o Público e a TVI, e, acessoriamente, o Sol, a referência da ERC reforça essa ofensiva, contribuindo para isolar e cercar os órgãos de informação que não agradam ao poder. Quanto ao Público, já várias vezes afirmei, e reafirmo, que não fez mais do que a sua obrigação e estranhei, e estranho, que tão pouca solidariedade tenha recebido dos seus pares na tripla questão do currículo (cujos contornos continuam por esclarecer), dos projectos das casas (cujos contornos continuam por esclarecer) e das discrepâncias no custo declarado da sua habitação com a de outras no mesmo edifício (único "indício" que suscita em muitos casos de comuns cidadãos a abertura de processos pelo fisco). Em todos estes casos, o jornal fez aquilo que em qualquer país democrático é o escrutínio habitual sobre um governante. No caso do Sol, que revelou os principais documentos relativos ao caso Freeport, a começar pela notícia de que o nome do primeiro-ministro era apontado como suspeito numa carta de uma polícia estrangeira e a acabar nas declarações sobre tentativas de corrupção reveladas por um seu familiar, de novo o que espanta são as reticências que muitos órgãos de comunicação social revelam no tratamento destas matérias. Nunca se viu um tão grande número de "alegados" como no caso Freeport, em contraste total com as notícias sobre o BPN, o BPP ou as aventuras da extrema-direita, que não têm direito a qualquer "alegado". O que me espanta é que muito do que entretanto tem vindo a ser noticiado acabe em qualquer parte envergonhada dos órgãos de comunicação, como se não fossem, como são, notícias de primeira página. Há, no entanto, um sítio onde são notícias de primeira página: o noticiário de sexta-feira da TVI. O noticiário da TVI não é um exemplo de moderação de quem o apresenta e o estilo histriónico de Manuela Moura Guedes é muitas vezes insuportável, mas tenho a absoluta certeza de que não é isso que incomoda o Governo e a ERC. É outra coisa, é o conteúdo dos noticiários, e isso tem a ver com a liberdade. Dos jornalistas da TVI, incluindo Manuela Moura Guedes, de o fazer, e a minha de ter direito de os ouvir. O estilo é mau, mas está à vista de todos. Já o estilo situacionista da RTP é péssimo, até porque é escondido. Um é populismo jornalístico, o outro governamentalização. Num momento em que os espaços de liberdade não abundam, não me distraio com o tom, mas sim com a substância.A questão é que a informação da TVI é muito mais substantiva do que muitos outros noticiários televisivos mais moderados histrionicamente. O noticiário da TVI tem notícias e prossegue um trabalho jornalístico agressivo que se dirige para a governação, como é suposto ser o jornalismo. Enquanto na RTP, e em muitos outros órgãos de comunicação social, a oposição aparece criticada como se fosse ela a ter a responsabilidade de governação, seguindo a linha que Santos Silva explora na propaganda, a TVI não confunde quem tem poder e quem o não tem, e essa distinção é fundamental. E é essa distinção que irrita o primeiro-ministro, o Governo e o PS. Quando a TVI investiga activamente o caso Freeport e todos os outros casos (e são muitos) relativos à passagem de José Sócrates pela Secretaria de Estado e pelo Ministério do Ambiente, sem se preocupar com as inconveniências, está a cumprir uma função que justifica o papel cívico do jornalismo. O que deveria preocupar-nos não é o facto de o noticiário da TVI ser assim, mas sim o facto de os outros não o serem. O respeitinho com que se trata o poder em Portugal, principalmente o que vem do PS, que é socialmente mais vasto (o PS é muito mais o establishment nacional, da academia às fundações, do que o PSD), é uma patologia cívica que nos entorpece. E, como bem têm assinalado os responsáveis da TVI, as suas notícias nunca são desmentidas. Por tudo isto, espero que a ERC não seja o instrumento que dê ao Governo o pretexto legal para atacar a TVI. O anterior Governo, muito mais atabalhoado neste tipo de operações, conseguiu tirar Marcelo, um seu crítico, de um espaço que lhe dava "espaço" e confiná-lo num canto da televisão pública, uma ecologia sempre difícil para um comentário crítico à governação. O actual Governo pretende seguir-lhe os passos e as pressões contra tudo o que é a já frágil linha de independência nos jornais, rádios e televisões, acentuam-se cada vez mais. A crise ajuda, com o Governo a comandar cada vez mais a economia dos grupos de comunicação pelas decisões que toma. E, com este Governo, e com o tandem Sócrates-Santos Silva, o que não vai a bem, vai a mal. E já se percebeu que, pelo menos com a TVI, não vai a bem. (Versão do Público de 21 de Março de 2009.) (url) EARLY MORNING BLOGS 1516 - Spring is like a perhaps hand III Spring is like a perhaps hand (which comes carefully out of Nowhere)arranging a window,into which people look(while people stare arranging and changing placing carefully there a strange thing and a known thing here)and changing everything carefully spring is like a perhaps Hand in a window (carefully to and fro moving New and Old things,while people stare carefully moving a perhaps fraction of flower here placing an inch of air there)and without breaking anything. (e.e. cummings) (url) 22.3.09
HOJE NO
(url) ÍNDICE DO SITUACIONISMO (78): SELECTIVIDADES ![]() A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração. E, nalguns casos, de respiração assistida. Gostaria de lhe dar conhecimento de mais um episódio sobre a situação actual do jornalismo português. Escrevi um trabalho académico sobre os efeitos dos incentivos para professores em termos do desempenho dos alunos, considerando o caso especifico das reformas recentes em Portugal: 'Individual Teacher Incentives, Student Achievement and Grade Inflation'. Tendo verificado que os resultados empíricos - indicando efeitos negativos das actuais reformas - eram particularmente significativos e robustos, entendi que o estudo poderia ter interesse para um publico mais alargado, para alem das universidades, e enviei resumos não-técnicos para alguns meios de comunicação social. Na sequência destes resumos, fui entrevistado por vários órgãos de comunicação social, ao mesmo tempo que vários blogs sobre educação deram considerável destaque aos meus resultados. No entanto, verifico agora que nenhum jornal ou agência noticiosa entendeu divulgar os resultados, embora em vários casos me tenha sido dito o contrario. Curiosamente, o único jornal que noticiou o estudo foi o Diário de Noticias , embora neste caso eu não tenha sido contactado, o que alias fica claro pelos vários mal-entendidos nesse artigo. (Pedro S. Martins)
(url) (url) ÍNDICE DO SITUACIONISMO (77): O EGO À PROCURA DO ECO (4) ![]() A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração. E, nalguns casos, de respiração assistida. Nos dias de hoje, para os jornalistas (e muitos políticos), a política tornou-se pouco mais do que "comunicação", ou seja uma actividade mais ou menos profissionalizada de fazer “passar mensagens”, cujo conteúdo é pouco importante em relação aos “meios” que usa. Neste contexto, o jornalismo também se tornou "comunicação", actuando num contínuo com a “comunicação” dos políticos. Quem não quiser entrar neste esquema “moderno” de entender a acção política (e o jornalismo) está condenado às trevas exteriores. Ou não existe ou existe pela negativa. Mesmo essa “comunicação”, no contexto português, é uma pobre, simplista, redutora “comunicação”. É pouco mais do que uma mistura de reverência aos jornalistas (muito importante) e do acompanhar da acção política pelo marketing, pelas agências de comunicação, por assessores especializados, que cada vez mais substituem as fontes tradicionais, ou as complementam. Todo o processo se profissionalizou e quem nele não participa, ou o contesta, é sujeito a todo o tipo de anátemas e tem "má imprensa". Houve tempos em que alguns jornalistas contestavam esta transformação do jornalismo em “comunicação” (e esta em espectáculo), mas eles também são hoje uma minoria, infelizmente silenciosa a mais. Nem que seja porque o mercado do trabalho escasseia, os jornalistas não podem hoje deixar de olhar para a assessoria política ou empresarial (que muitos fizeram ou fazem), e para o trabalho de assessores de comunicação, seus colegas próximos de profissão, trabalhando para o governo, os partidos ou as agências de comunicação como fazendo parte da “comunicação” moderna que lhes alarga a empregabilidade em tempos difíceis. Não conheço os números mas presumo (com falibilidade) que haja já hoje um número significativo de jornalistas a trabalhar na “comunicação” em agências, empresas e governo, em comparação com os jornais, e quase sempre com salários mais altos. Por isso se encontram hoje tantos jornalistas nos blogues e nas redacções a defender a indispensabilidade de se usarem essas empresas profissionais de “comunicação” para, muito mais do que fornecer uma consultadoria técnica aos políticos, moldar e fazer “passar a mensagem”. Este é um aspecto da actual situação, mas há mais. (Continua.) (url) ÍNDICE DO SITUACIONISMO (76): O EGO À PROCURA DO ECO (3) ![]() A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração. E, nalguns casos, de respiração assistida. A narrativa dos jornalistas sobre Manuela Ferreira Leite não é sobre a sua acção política, mas sobre a sua performance comunicacional. Faça Manuela Ferreira Leite o que fizer, diga o que disser, o relato jornalístico é sempre uma espécie de meta-texto sobre se vestiu de roxo ou de branco, se tinha um cartaz atrás ou à frente, se tinha teleponto ou não, se disse soundbites ou não, se falou à hora do almoço ou do jantar, se tem ou não tem consultores de comunicação, em suma, se "tem" ou não "tem" "política de comunicação". Tenho a certeza, absoluta certeza, de que, se um dia houver uma subida nas sondagens, ou seja se mudar a "realidade", o que se irá dizer é que tal se deveu a uma "nova" "política de comunicação". A "realidade" só tem autorização para mudar se nunca invalidar as teses anteriores dos jornalistas. Percebe-se porquê: os jornalistas têm que ter sempre razão e como o seu reporting é essencialmente opinativo, ele alimenta-se de uma espécie de narcisismo pessoal ou colectivo, que não suporta que a "realidade" entre na narrativa, caso ela contrarie as previsões opinativas que fazem. Já não são os factos que estão em causa, são eles próprios enquanto intencionais fazedores de opinião. É o ego à procura do eco. Estamos de novo no círculo vicioso que gera um efeito de claustrofobia, porque não se consegue sair do meta-texto, nada existe fora do mundo pequeno dos meios, entre as redacções e os blogues dos jornalistas, em que cada um se mede face aos outros como adolescentes na escola. E como a “classe” é pequena, as reputações voam como o vento, os empregos estão difíceis, o pack journalism, o jornalismo de rebanho é uma forma de situacionismo. O receio de ir contra o “consenso” da classe é muito, o resultado é um enorme empobrecimento do jornalismo político. (Continua.) (url) ÍNDICE DO SITUACIONISMO (75): O EGO À PROCURA DO ECO (2) ![]() A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração. E, nalguns casos, de respiração assistida. Vamos, no entanto, admitir que o "país não ouve Manuela Ferreira Leite". Nunca passa pela cabeça de quem escreve estas coisas que, mesmo que o título fosse verdadeiro, pudesse haver muitas outras razões para esse eventual facto. Por exemplo: que tal se possa dever a uma desproporção artificial de meios entre governo e oposição; que tal se possa dever à existência de uma informação "pública" que o governo manipula a seu favor agressivamente; que tal se possa dever a uma descredibilização do PSD pela sua experiência governativa do passado; que tal se possa dever às suas divisões no presente; que tal se possa dever a uma quebra de confiança nos grandes partidos, que se manifesta, no actual contexto, de forma mais aguda no partido da oposição que não tem poder e por isso nem "ajudar as pessoas" pode; que tal se possa dever a uma degradação da imagem do PSD como partido político que já vem de há muito tempo; que tal se possa dever a que Dias Loureiro faça mais mal ao PSD do que Manuela Ferreira Leite bem; que tal se possa dever à aversão à mudança em tempos de crise; que tal se possa dever a tudo isto combinado; ou, que tal se possa dever a uma predisposição hostil dos jornalistas que não gostam de Manuela Ferreira Leite porque ela representa tudo aquilo que eles abominam. Todas estas hipóteses parecem malditas, e a última então suscita fúria e bater no peito sobre a "isenção" da classe, que é o que nos sabemos. Não estou a dizer que não seja só isto e que não haja erros próprios de Manuela Ferreira Leite na equação dos resultados, certamente que há. Mas têm a certeza que são os que lhe apontam? Têm a certeza de que são tudo "erros" de comunicação? (Continua.) (url)
© José Pacheco Pereira
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