| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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28.2.04
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: NASCER SOB OS AUSPÍCIOS DE MARTE
Em Shakespeare, All's Well That Ends Well : HELENA: Monsieur Parolles, you were born under a charitable star. PAROLLES: Under Mars, I. HELENA: I especially think, under Mars. PAROLLES: Why under Mars? HELENA: The wars have so kept you under that you must needs be born under Mars. PAROLLES: When he was predominant. HELENA: When he was retrograde, I think, rather. PAROLLES: Why think you so? HELENA: You go so much backward when you fight. PAROLLES: That's for advantage. HELENA: So is running away, when fear proposes the safety; but the composition that your valour and fear makes in you is a virtue of a good wing, and I like the wear well. (url) (url)
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: UM LIMERICK v. 2.0
There was a young lady from Mars Who walks in the middle of the stars She bites the rock Obeying her clock: "Tastes as good as the food of the Czars!" Como não é em itálico, é meu, com sugestões de Paulo Tavares. (url)
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: MORDIDELAS
Hoje a “Oportunidade” tem uma oportunidade. Acordou com Fats Domino e tem um programa simples: morder um bocado de Marte. Toda a gente sabe que os homens vêm de Marte, e as mulheres de Vénus. Bom, a sonda é feminina, mas vem da Terra. Vamos ver a convicção da mordidela, ó filha de Vénus! (url) (url)
POEIRA
Hoje, talvez por ser este dia estranho, 28, que umas vezes é o do fim, outras o de antes do fim, a história das palavras está cheia desta poeira. Hoje, há cento e noventa e nove anos, Stendhal começa a sua paixão por Mélanie Guibert, uma actriz secundária. Ela ainda não sabe de nada. Ele vai para a cama sentindo “che mi distruggo pensando a ella”. Assim mesmo, em italiano. Pavese também não estava muito bem. Hoje, há sessenta e nove anos, perguntava: “Como é que ela me feriu? Talvez no dia em que levantou o braço para saudar alguém do outro lado da rua.” Depois insistia: “isto não tem nada a ver com estética, isto é dor”. Filosófico, teorizava: “A minha história de amor com ela não é feita de cenas dramáticas, mas de momentos preenchidos com as mais subtis das percepções”. Desculpas. Momentos. Momentos. Se andarmos um pouco para trás da Grande Divisória das Sensibilidades, o século XIX, ontem, há trezentos e quarenta e três anos, o nosso Samuel Pepys pensava noutros momentos. Ontem, comeu peixe, mas o peixe era teológico: “Then I called for a dish of fish, which we had for dinner, this being the first day of Lent; and I do intend to try whether I can keep it or no.” Vamos ver como é que está a vontade do sr. Pepys. (url)
EARLY MORNING BLOGS 148
Um poema duro, “pétreo”, de Carlos Drummond de Andrade, pela manhã. Nem tudo é amável. Acordar, viver Como acordar sem sofrimento? Recomeçar sem horror? O sono transportou-me àquele reino onde não existe vida e eu quedo inerte sem paixão. Como repetir, dia seguinte após dia seguinte, a fábula inconclusa, suportar a semelhança das coisas ásperas de amanhã com as coisas ásperas de hoje? Como proteger-me das feridas que rasga em mim o acontecimento, qualquer acontecimento que lembra a Terra e sua púrpura demente? E mais aquela ferida que me inflijo a cada hora, algoz do inocente que não sou? Ninguém responde, a vida é pétrea. (Carlos Drummond de Andrade) (url)
VER A NOITE
Não está uma noite magnificente, mas está uma bela Lua. Metade de Lua, para ser exacto, brilhando com grande intensidade, mas sem tornar a noite branca. Os grandes planetas, dispersos pela eclíptica, preparam-se para se juntarem em Março. Não está uma noite límpida, mas parece límpida. O que brilha, brilha com força tanto maior quanto está só no céu. (url) 27.2.04
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POEIRA
Há dois dias, há cento e noventa e seis anos, Stendhal matou os primeiros quadrúpedes da sua vida: três lebres. No mesmo dia, há quarenta sete anos, Sylvia Plath, para variar, estava bem disposta: o marido, Ted Hughes, tinha ganho um prémio literário. Escreveu no seu diário: “Entre nós dois, publicaremos uma estante inteira de livros, antes de desaparecermos.” E “faremos um monte de filhos saudáveis e brilhantes!” Dois filhos depois, quatro anos depois, meteu a cabeça num fogão a gás e matou-se. Byron, hoje, há cento e noventa anos, escreve sobre as mulheres. Ele acha que há qualquer coisa de “very softening in the presence of a woman”, mesmo que não se esteja apaixonado. Byron estranha os seus próprios sentimentos, até porque não tem “very high opinion of the sex”. (url) (url) 26.2.04
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: SORRIAM
Hoje, em Marte, através do "Espírito", nós olhamos para nós. A sonda vai olhar para a Terra e tirar uma fotografia. Sorriam. Uma nova palavra: "yestersol", ontem, em Marte, porque os dias em Marte se chamam "sol". A "Oportunidade" teve ontem, "yestersol", um grande despertar: "Rock Around the Clock", por Bill Haley and his Comets. O barulho em Marte deve ter sido tanto que até a geologia mudou. (url)
EARLY MORNING BLOGS 147
Cinzento e branco. Céu cinzento e neve branca. As primeiras pessoas na rua passam como se planassem, como se estivessem num quadro e fossem uma mancha movente. Ainda estou para perceber se andam depressa ou devagar, porque não andam, deslizam. A neve tem efeitos muito estranhos. Para dar cor, violenta cor, amável cor, um cummings em que as palavras dançam num outro ar. Sem neve. Ou com neve lá fora. may i feel said he... may i feel said he (i'll squeal said she just once said he) it's fun said she (may i touch said he how much said she a lot said he) why not said she (let's go said he not too far said she what's too far said he where you are said she) may i stay said he (which way said she like this said he if you kiss said she may i move said he is it love said she) if you're willing said he (but you're killing said she but it's life said he but your wife said she now said he) ow said she (tiptop said he don't stop said she oh no said he) go slow said she (cccome?said he ummm said she) you're divine!said he (you are mine said she) (e.e. cummings) (url) 25.2.04
NOTAS SOBRE AS FORMAS ANTIGAS DE SENSIBILIDADE: O CONFLITO ENTRE O AMOR E O DESEJO
No comentário ao Ájax de Sófocles, continuarei a falar das formas antigas de sensibilidade associadas à honra, à igualdade nas armas, aos juramentos, aos deveres da amizade. Enquanto não avanço mais nesse comentário, fica aqui como intermezzo e para a antologia destas coisas arqueológicas, um poema de D. H. Lawrence sobre o conflito entre o desejo e o amor romântico. O desejo é mais antigo, mas “It has always been a failure” nos tempos de hoje. Ah, in the past, toward rare individuals I have felt the pull of desire; Oh come, come nearer, come into touch: Come physically nearer, be flesh to my flesh - But say little, oh say little, and afterwards, leave me alone. Keep your aloneness, leave me my aloneness - I used to say this, in the past - but now no more It has always been a failure. They have always insisted on love and on talking about it and on the me and thee and what we meant to each other. So now I have no desire any more Except to be left, in the last resort, alone, quite alone. (url)
POEIRA
Ontem, há oitenta e nove anos, o embaixador francês em S. Petersburgo, Maurice Paléologue, teve um encontro inesperado. O embaixador estava a visitar uma senhora muito activa na Cruz Vermelha, Madame O. , quando irrompe na sala um homem alto, vestido com um caftan negro,"do género que os mujiks mais abastados usam" , e beijou a senhora com estrondo na mão. Rasputin. Começou uma conversa de surdos. Rasputin queixa-se da condição do povo russo, da miséria sofrida. Paléologue suspeita que ele quer tirar a Rússia da guerra e que é um homem do kaiser. Rasputin indigna-se: " O imperador Guilherme... porquê, não sabe que ele é inspirado pelo Diabo?" E voltou a queixar-se do "sofrimento das massas". A conversa azedou outra vez, até que Rasputin perguntou: "Será que a Rússia vai ter Constantinopla?" "Sim se ganharmos", disse o embaixador. Maurice Paléologue era , como o seu nome indica, descendente dos imperadores de Bizâncio. "Então o povo russo não lamentará ter sofrido tanto, e estará disposto a sofrer ainda mais." Beijou Madame O. , abraçou o embaixador e saiu batendo com a porta. Antes tinha dito que não era Ministro das Finanças do czar, mas sim "Ministro da sua alma". Foi morto um ano e meio depois. (url)
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: TINHA QUE SER,
era apenas uma questão de tempo até que as máquinas marcianas começassem a ser tratadas como humanos: de hoje, do sítio da NASA, "a careful and patient Spirit waits to drive into "Middle Ground.". Muito bem. É assim que elas funcionam a 100%. Não há quem fale às plantas? (url)
EARLY MORNING BLOGS 146
Morning Song Love set you going like a fat gold watch. The midwife slapped your footsoles, and your bald cry Took its place among the elements. Our voices echo, magnifying your arrival. New statue. In a drafty museum, your nakedness Shadows our safety. We stand round blankly as walls. I'm no more your mother Than the cloud that distills a mirror to reflect its own slow Effacement at the wind's hand. All night your moth-breath Flickers among the flat pink roses. I wake to listen: A far sea moves in my ear. One cry, and I stumble from bed, cow-heavy and floral In my Victorian nightgown. Your mouth opens clean as a cat's. The window square Whitens and swallows its dull stars. And now you try Your handful of notes; The clear vowels rise like balloons. (Sylvia Plath) (url)
CARNAVAIS
De longe, de outro carnaval, olho com estranheza o carnaval português. Num país machista, em que a cultura masculina dominante é machista, em que os valentões de café, de escritório, de praia, de carro, proliferam, subitamente chega o carnaval e todos eles descem à rua vestidos de mulher, aos magotes, aos milhares, exibindo as mamas falsas e os collants. Há qualquer coisa de estranho em tudo isto. (url) 24.2.04
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: CARNAVAL MARCIANO
Uma das razões porque estes homens estão à frente de tudo, já uma vez o escrevi, é porque têm a alegria de descobrir. Uma imensa curiosidade, muito estudo, e uma imensa alegria. Hoje está isto escrito no balanço do “Espírito”: “The wake-up song this morning (Sunday evening Pacific time) was "Samba De Marte" by Beth Carvalho from her "Perolas Do Pagode" album. The lyrics include a verse about waking up the rover on Carnival Day. This song was written by Beth Carvalho after she heard that one of her songs was used to wake up Mars Pathfinder's Sojourner rover during the 1997 mission. This is quite appropriate, as this spirited sol 50 also began on Carnival day in Brazil! “ Espero que, com tanta festa, a máquina não se ponha a fazer asneiras. (url)
POEIRA
Hoje, há setenta anos, Elizabeth Smart escreveu no seu diário: “À noite, empurrei a mobília para a parede e dancei no meu quarto vestida com o fato de banho. Jazz. Ravel. Mozart. Jazz. Os ritmos de que não se escapa.” Elizabeth tinha uma paixão absoluta pelo poeta George Baker, mesmo antes de o conhecer, e afirmou sempre que acreditava no “amor verdadeiro”, indiferente às circunstâncias da vida. Escreveu-lhe várias cartas, até que um dia se encontraram numa paragem de autocarro, para depois se separarem e reencontrarem de novo. Teve dele quatro filhos, e escreveu em 1945, a partir dessa história de amor, um romance de culto: By Grand Central Station I Sat Down and Wept. O livro, escreveu um crítico, era “emotionally pompous, yet entirely endearing”, e nele se escreviam coisas como esta: 'Often a star was waiting for you to notice it. A wave rolled toward you out of the distant past, or as you walked under an open window, a violin yielded itself to your hearing. All this was mission. But could you accomplish it? Weren't you always distracted by expectation, as if every event announced a beloved. “ Outra coisa que Elizabeth teve de Baker foi um bocado de lábio, que lhe arrancou numa fúria. No seu diário, a seguir a contar a sua solitária dança, acrescentou: “You must dance. Abandon all else.” Sensibilidades modernas. (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 145
Noite das coisas simples, antiquíssimas, lustrais, sem a distância de qualquer explicação. Pela manhã, a mesma pequena fala nocturna: When Memory is full Put on the perfect Lid -- This Morning's finest syllable Presumptuous Evening said – (Emily Dickinson) (url) 23.2.04
A CAMINHO
de outro caminho, três pequenos poemas de Auden: "The underground roads Are, as the dead prefer them, Always tortuous." "When he looked the cave in the eye, Hercules Had a moment of doubt." "Leaning out over The dreadful precipice, One contemptuous tree." para a viagem. (url)
POEIRA
Há trinta e cinco anos, hoje, Paul Morand levou o seu chow-chow "Bébé" ao veterinário. Estava irritado com De Gaulle, que parecia acreditar que, fazendo ofertas de um condomínio europeu franco-britânico aos ingleses, os separava dos EUA. Morand achava uma enorme asneira e comentava: “deixar a política externa nas mãos de um militar que a pratica aos 77 anos” era a mesma coisa que “colocar uma navalha nas mãos dum macaco”. Depois cita Xenofonte sobre como se distingue a qualidade de um cavalo pelo toque dos cascos. Não está mal. Ontem como hoje. (url) (url)
SOBRE SENSIBILIDADES ANTIGAS: ÁJAX 2
A peça de Sófocles tem duas partes distintas: uma, mais valorizada, o conflito de Ájax com a sua honra perdida e o seu suicídio; outra, a discussão muito violenta sobre se o seu corpo deve ou não ser enterrado. É uma discussão semelhante à de Antígona, mas que, nalguns aspectos, me parece mais interessante porque envolve não apenas a autoridade do Estado, mas também a autoridade militar, a autoridade de homens de armas sobre homens de armas. A autoridade não entre diferentes, mas a autoridade entre iguais. Aparentemente, todos os sentimentos presentes em Ájax são-nos contemporâneos: a honra, a amizade, a devoção amorosa e filial, o respeito pela autoridade, a fidelidade aos costumes, etc. Aparentemente, porque, como muitas vezes acontece na leitura dos antigos, tudo parece semelhante, mas há um átomo de diferença crucial. Esse átomo de diferença é quase sempre minimalista, um nó de estranheza, uma incompreensão, que nós, modernos, tomamos como sinal de anacronismo. É mais do que isso: é sentir diferente. Por exemplo: o papel da violência, traduzida no espectáculo da crueldade. Toda a peça está cheia de descrições da morte que traduzem uma familiaridade intensa com a morte violenta. Em Ájax, são animais que parecem degolados, esquartejados, rasgados nos quadris, com a espinha quebrada. São animais, mas Ájax pensava que estava a matar homens, e a cada ferida mortal num animal, a cada tortura que ele lhes queria infligir, é para um humano que a sua espada se dirige. É este espectáculo repulsivo para os companheiros de Ájax? É somente na medida em que é o sinal da loucura do guerreiro, nada mais. Fora disso, é trivial, normal, mesmo educativo, fossem animais ou homens. Ájax considera que o seu filho tem que naturalmente ver a cena da carnificina dos animais, porque o quer educado para seguir o pai, ser guerreiro: “Ergue-o, ergue-o até aqui. Ele não se atemorizará ao ver esta carnificina de há pouco, se na verdade sair ao pai. É preciso treiná-lo como um poldro nas duras regras do pai e igualar à dele a sua natureza. Ó filho, que sejas mais feliz que o teu pai, mas igual em tudo o mais. E que nunca sejas vil.” (Tradução de Maria Helena Rocha Pereira, Sófocles , Tragédias, Coimbra , Minerva, 2003. Esta será a tradução utilizada.) O nó “antigo” traduz-se aqui pelas “duras regras do pai”. (Continua) (url)
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: A SOMBRA
O Sol, o mesmo, o nosso Sol, bate-lhe por trás, e a sombra alonga-se. Ou está a nascer, ou a pôr-se, e a sua luz ilumina o trabalhador infatigável, o “Espírito”. A máquina está a fazer covas na areia, imaginando a praia longínqua que todos temos na memória. Talvez amanhã, quando o Sol se levantar de novo, haja um castelo na areia. (url)
O CANTO E A SUA INTÉRPRETE
Morreu Maria Helena de Freitas, uma voz da rádio ao serviço da paixão pelo canto e pela ópera. Inimitável no seu “O Canto e os seus Intérpretes”, era uma mulher que vinha de um outro Portugal, já arqueológico: o anterior à cultura de massas. Quem quiser saber como era esse estrato geológico enterrado bem fundo, tente ouvir a entrevista que deu a João Pereira Bastos, um retrato da nossa vida intelectual e musical, cheio de apreciações de pessoas (como Sérgio) e anedotas da elite que frequentava o S. Carlos e sabia de dós de peito. Que os intérpretes celestes correspondam ao seu apurado ouvido e gosto. Não lhe faltam escolhas. (url)
EARLY MORNING BLOGS 144
Frank O’Hara, cujos poemas têm aparecido aqui nas últimas manhãs, teve uma morte estúpida: atropelado por um buggy na praia. Aconteceu na “early morning” de 24 de Julho de 1966. Voltará aqui mais vezes, mas o Abrupto nocturno hoje fala francês, e por isso pela manhã encontrarão o bretão sinófilo Victor Segalen. Ele escreveu, em nome de uma outra forma de estar, este Éloge et pouvoir de l'absence Je ne prétends point être là, ni survenir à l'improviste, ni paraître en habits et chair, ni gouverner par le poids visible de ma personne, Ni répondre aux censeurs, de ma voix ; aux rebelles, d'un oeil implacable ; aux ministres fautifs, d'un geste qui suspendrait les têtes à mes ongles. Je règne par l'étonnant pouvoir de l'absence. Mes deux cent soixante-dix palais tramés entre eux de galeries opaques s'emplissent seulement de mes traces alternées. Et des musiques jouent en l'honneur de mon ombre ; des officiers saluent mon siège vide ; mes femmes apprécient mieux l'honneur des nuits où je ne daigne pas. Égal aux Génies qu'on ne peut récuser puisqu'invisibles, - nulle arme ni poison ne saura venir où m'atteindre. (Victor Segalen) * Vindo do lado de l'absence, este bom dia! (url) 22.2.04
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SOBRE SENSIBILIDADES ANTIGAS: ÁJAX – VARIAÇÃO / “PRIDE IS HIS OWN GLASS”
De passagem, o Ájax shakespereano é diferente do da tragédia de Sófocles, até porque a história de Troilus e Cressida se passa antes do incidente das armas. Há uma parte interessante sobre o orgulho, a soberba, aplicada neste caso a Ulisses (vejam-se os textos aqui publicados sobre Bernardo de Clairvaux). “AJAX What is he more than another? AGAMEMNON No more than what he thinks he is. AJAX Is he so much? Do you not think he thinks himself a better man than I am? AGAMEMNON No question. AJAX Will you subscribe his thought, and say he is? AGAMEMNON No, noble Ajax; you are as strong, as valiant, as wise, no less noble, much more gentle, and altogether more tractable. AJAX Why should a man be proud? How doth pride grow? I know not what pride is. AGAMEMNON Your mind is the clearer, Ajax, and your virtues the fairer. He that is proud eats up himself: pride is his own glass, his own trumpet, his own chronicle; and whatever praises itself but in the deed, devours the deed in the praise. AJAX I do hate a proud man, as I hate the engendering of toads. NESTOR Yet he loves himself: is't not strange?” (Shakespeare, Troilus and Cressida ) (Continua) (url)
SOBRE SENSIBILIDADES ANTIGAS: ÁJAX
Por exemplo, Ájax, o senhor de Salamina, na tragedia de Sófocles. Na tragédia, Ájax, cheio de raiva por ter sido preterido na distribuição das armas de Aquiles, tem um acesso de loucura e mata os animais do exército, convencido de que estava a matar os seus rivais. Acordado da sua loucura, mostra-se predisposto ao suicídio para reparar a sua honra, e todos o tentam dissuadir. Num primeiro momento, Ájax parece desistir, o que enche de felicidade os seus companheiros, mas depois mata-se atirando-se para cima da sua espada, numa cena de suicídio diante dos espectadores, rara na tragédia clássica. Que faz Ájax de diferente, de “antigo”? Suicida-se para reparar a sua honra perdida, suicida-se por dever. Ele não é um guerreiro derrotado, ele não conduziu os seus homens à morte, ele não tem, como o samurai que comete harakiri, qualquer fidelidade para com o seu senhor que o deva levar à morte ritual. Ele é um guerreiro livre, rei de si próprio, reconhecido como o mais corajoso depois de Aquiles. A sua independência, associada às suas virtudes marciais, tornavam-no universalmente temido e odiado pelos seus pares. Como o seu amigo Teucro afirmou, não viera para Tróia por razões em que all the argument is a cuckold and a whore (Shakespeare, Troilus and Cressida) mas pelo seu juramento. Era fiel ao seu juramento, estava lá. Detestava Ulisses, Menelau, Agamémnon. Como acontece em todas as tragédias, ele não era o verdadeiro culpado, o culpado subjectivo, visto que os deuses (Atena, neste caso) o levaram a cometer tal acto num momento de loucura. Mas tinha uma culpabilidade objectiva, que levou à punição divina: perdera a “sensatez” no seu conflito de invejas e rivalidades com os seus pares. É esta combinação entre a sensatez, a honra e a reparação última da honra pela morte nobre que não é moderna. (Continua) (url)
POEIRA
Hoje, há cento e quarenta e nove anos, a rainha Vitória foi visitar os soldados feridos que tinham vindo dos campos de batalha da Crimeia. Estes soldados eram dos Coldstreams, um regimento escocês criado no século XVII, célebre pela dureza dos seus soldados, tropas de fronteira, tropas de chão. É provável que os feridos que a Rainha foi ver tivessem vindo da batalha de Inkermann, travada em Novembro de 1854, numa manhã de nevoeiro. Foi uma “batalha de soldados”, batalha de infantaria, a mais cruel das batalhas, opondo ingleses e russos. O resultado foi indeciso, ninguém ganhou, as batalhas decisivas da guerra só se deram depois. No seu diário, a rainha anotou a impressão dramática que teve ao ver os jovens amputados, atravessados por tiros na face, “tristemente” feridos. A emoção da rainha é genuína e a sua preocupação com a situação desses soldados também: “os que serão desmobilizados receberão pensões mínimas que não serão suficientes para viver”. Promete fazer tudo o que possa, e alguma coisa sabe-se que fez. (url)
PELA MANHÃ,
recordando a “noite transfigurada”, ouço a de Schönberg, Verklärte Nacht, pelo Schönberg Ensemble, uma gravação já antiga da Philips, mas que é a que me habituei a ouvir. Para além disso tem um poderoso Egon Schiele, Umarmung, na capa. Em música tenho sempre muita dificuldade em abandonar as versões, nalguns casos as primeiras, com que me “fixei” numa obra. É assim com uma Canção da Terra, com uma Dido e Eneias, com a voz de Deller, a de Elizabeth Schwartzkof, com um Quarteto Razumovsky, com um Gilels a tocar Grieg. Semper fidelis, dizia o mote (que também é o dos Marines).
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EARLY MORNING BLOGS 143
São quase três da manhã, como no poema de Frank O’Hara. ( “It is almost three”, será de tarde ou de noite? Como não há ruído, deve ser de noite). Eu sei que a manhã ainda está longe, mas para mim já é “pequena manhã” e fica dito o que é preciso. Se fosse antigamente diria que encheria a minha lâmpada. Agora não é preciso encher nada e mesmo a de O’Hara, dava pouca luz: “I don’t glow at all”.. At Joan's It is almost three I sit at the marble top sorting poems, miserable the little lamp glows feebly I don't glow at all I have another cognac and stare at two little paintings of Jean-Paul's, so great I must do so much or did they just happen the breeze is cool barely a sound filters up through my confused eyes I am lonely for myself I can't find a real poem if it won't happen to me what shall I do (Frank O'Hara) * Bom dia! (url)
DILEMA
Há uma paz especial enquanto a dama em baixo domina a página. Escrevendo, faço-a desaparecer pouco a pouco, ou de repente. Ela leva o livro, um livro de orações, consigo. Regressa invisível à sua Sé, esquecida de todos, na noite escura e fria que lá deve estar. De um lado o rio, do outro a rua que ia para a cadeia, por onde passa o barulho dos eléctricos. Que pensará Maria desse som alheio? Continuará a ler na escuridão? Pode ser. Ela lê sem olhos, ela lê sem corpo, ela lê sem saber quem é. Adeus, velha avó, empurrada pelas letras, muito, muito tempo depois. Serei gentil. (url)
© José Pacheco Pereira
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