ABRUPTO

10.4.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 10 de Abril de 2007 (2)


Quando um jornalista discute o sucesso do governo ou do Primeiro-ministro apenas como resultado de "estratégias de comunicação social", passa a si próprio um interessante atestado de instrumento passivo dessas "estratégias", quase de marioneta. Quando se diz que o último mês foi "terrível" por "incompetência" comunicacional devido aos casos da OTA e das qualificações académicas do primeiro-ministro, e se comenta com ar cognoscenti que "não percebo o que é que estão a fazer os assessores", esquece-se um pequeníssimo pormenor: é que a OTA e as confusões curriculares de José Sócrates revelaram-se questões com substância, questões que tiveram pés para andar queiram ou não os estrategos do gabinete, queiram ou não os jornalistas.

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Esperei com curiosidade o debate da SICN sobre o "silêncio" do Primeiro-ministro. Pura ilusão. O tema já era de todo bizarro: que sentido tem discutir como tema principal o "silêncio" e não o caso em si? A obsessão dos jornalistas pelas "estratégias de comunicação social" em vez de irem à substância do assunto é puro umbiguismo profissional.

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Não é que acrescente muita coisa ao que já se sabe, mas parece incontroverso que o Primeiro-ministro usou indevidamente não só o título de engenheiro, como a informação falsa de que tinha uma licenciatura em engenharia muito antes de efectivamente a ter, a julgar pela versão que dá do seu currículo. Por mero acaso, quando verificava umas datas biográficas, consultei a edição de 1994 de Classe Política Portuguesa de Cândido de Azevedo, feita em parte com base nas informações fornecidas pelos próprios e é assim que José Sócrates é apresentado:


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Folgo por o Gato Fedorento o ter apanhado: a questão principal, agora e sempre, quase nunca é aquela que os outros propõem. A sua é. Por isso, o seu post confirma a estratégia de desqualificação que figura generosamente no seu discurso: desqualificação da argúcia dos outros, da razão dos outros, das escolhas dos outros. Os outros pensam? Sim. Pensam bem? Não. Não é apenas retórica, é mais um tique. E por isso o Gato o arranhou. Recentrando a questão.

Então não acha que o silêncio do PM possa ser, não o tema principal, mas um ponto de partida, entre outros, para a discussão? - ou preferia um título para o debate da SICN do género "O PM mente", "O silêncio do inocente"? Deixo ao seu critério, e certamente ao tempo que virá, a bondade do ponto de interrogação.

O silêncio é aqui um sintoma, não certamente a substância. Mas o silêncio do PM (e a análise desse silêncio, à luz do que se sabe) são reveladores e algo que também vale a pena discutir. Uma espécie de warmig up para o resto. Os silêncios do PM (ou a ausência deles) são importantes - por isso você escreve abundantemente sobre eles. Aliás, num post anterior sobre o "caso do diploma" (estava tentado a escrever "incidente diplomático", só para ensaiar uma pobre piada que pouco deva à demagogia), você desdobra-se em análises quer de factos quer de estratégias, enreda a subserviência da comunicação social nas diligências malévolas dos assessores. Fala inclusivamente de silêncios e isolamentos. Posto isto, há alguma maneira diferente de qualificar a sua obsessão pelas "estratégias de comunicação social" de ambos senão como um caso invertido de umbiguismo profissional?

Hoje, na SICN (mas já não estou certo de ter visto o mesmo programa), tratou-se de alguma matéria de facto, contaram-se histórias interessantes, lançaram-se suposições, umas acertadas, outras nem tanto. Ficaram muitas dúvidas e realmente o debate ganharia com a presença do PM. Ou de um assessor. Ou do Abrupto. Pode ainda imaginar-se o que jamais seria dito num debate daqueles, aquilo de que se fala apenas entre gente do mesmo rebanho, quando se apagam as luzes e o estúdio se descontrai nuns Jamesons-cortesia da produção. E divagar sobre os interesses específicos de cada um dos presentes. Já agora: concorda com o Francisco Louçã?

Espero então pela Quadratura do Círculo para ver se você vai ao fundo da questão e adianta qualquer coisa definitiva - e não apenas mais uma prova circunstancial do crime curricular do PM, como aquela que colocou hoje no seu blog.

(João M.)

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Ao ouvir hoje na televisão (Sic Noticias, Jornal da 9), pela enésima vez, um jornalista deleitar-se com mais um achado relevante da biografia do primeiro ministro José Sócrates, ocorreu-me que em Portugal o jornalismo não sofre de coarctação de liberdades, mas sim de um problema mais básico, que deveria relacionar-se com a formação profissional, mas cada vez é mais independente e generalizado, falo da carência grave e simples de EDUCAÇÃO e RESPEITO pelas hierarquias e pelos orgãos de soberania, dum país que se pretende soberano e respeitável. Porque uma coisa é o conteúdo, e outra é a forma como se transmite o mesmo. Muitas vezes, a forma incorrecta despromove o interesse e a razão do assunto mais relevante. Um país onde os cidadãos não demonstram o mínimo respeito pelos seus governantes ou superiores hierárquicos ou que não seja, pelos orgãos de soberania instituídos, merece ter maus governantes, não merece a liberdade que lhe é concedida (sempre ouvi dizer que as nossas liberdades terminam no limite de ofensa das de outrem). A falta de educação e a presunção jornalística de que a actividade profissional de informar dispensa as noções básicas de educação e respeito, leva-me a pensar que alguns desses cidadãos até a própria mãe criticarão em público e com galhofa, contentes no final com o desempenho da sua missão sagrada e única.

(Helena Sá)

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8.4.07


À ESPERA QUE O ASSUNTO MORRA POR SI...

Tudo começou num blogue Do Portugal Profundo de autoria de António Balbino Caldeira em 2005. O facto de ter começado num blogue não é em si relevante: é um blogue assinado, o seu autor é conhecido até porque já estivera envolvido num processo judicial de violação do segredo de justiça do caso da Casa Pia, e as informações que durante quase dois anos foi publicando sobre os títulos académicos de José Sócrates tinham muitos elementos factuais e verificáveis. A nota original no blogue data de 22 de Fevereiro de 2005 e continha muitas das dúvidas que se vieram a revelar legítimas e sujeito de investigação jornalística. Não é verdade o que diz o comunicado pessoal do primeiro-ministro de 22 de Março de 2007 sobre
"mais uma campanha de insinuações, suspeitas e boatos que [o] pretende atingir na [sua] honra e consideração e que, à semelhança de outras de triste memória, assume uma dimensão difamatória e caluniosa (...) são veiculadas pelos mesmos meios, sob o anonimato dos blogues ou por jornais de referência no sensacionalismo e no crime".
Não havendo "anonimato" na origem das dúvidas sobre os seus títulos académicos, é interessante verificar que durante dois anos o primeiro-ministro nunca entendeu accionar qualquer mecanismo judicial em sua defesa contra uma "campanha de insinuações, suspeitas e boatos" que o pretendia atingir na sua "honra e consideração", tanto mais que estava (e está) convencido que a "campanha" tem a mesma origem das que o atingiram durante a campanha eleitoral. Ele pensa que se trata de uma campanha orquestrada, quiçá por uma qualquer agência de comunicação.

Um autor de blogue como o Do Portugal Profundo pode sempre ser visto como "suspeito". O tom justiceiro do blogue, o recebimento de muita informação de forma anónima por comentadores não identificados, o próprio facto de parecer possuir fontes de informação privilegiada, suscitam a habitual pergunta conspirativa: "O que é que o move?" A máquina comunicacional do primeiro-ministro e alguns jornalistas foram por aí, o que é um distracção interessante, mas irrelevante. Para se desviar a atenção da mensagem deu-se atenção ao mensageiro. O autor do blogue pode ter as mais obscuras das intenções, ser movido pelas piores razões, misturar informação e desinformação, mas basta passar por lá para se perceber que o grosso do que lá está é informação verificável e, uma vez verificada, publicável no mais sólido jornal do mundo. O que lá está é a mesma matéria prima das redacções dos jornais, a que se pode dar ou não um tratamento editorial, filtrando-as pelos critérios do jornalismo, ou deitá-las ao lixo, se forem apenas lixo.
Faz parte do mesmo tipo de argumentos conspirativos destinados a diminuir o mensageiro para matar a mensagem a insinuação de que o Público só tratou desta notícia como vingança da derrota da SONAE na OPA sobre a PT. Mesmo que fosse verdade seria tão irrelevante como as "motivações" de António Balbino Caldeira.
É exactamente por ser assim que nos podemos perguntar por que razão demorou tanto tempo, dois anos, até se ver a questão tratada num jornal de referência, o Público.
Há algumas honrosas excepções, como Paulo Alves Guerra que em Abril de 2005 se referiu ao caso citando o Do Portugal Profundo . O mesmo jornalista noticiou a investigação do Público no programa da manhã da RDP Antena 2, mal foi conhecido o seu teor . Esta é uma excepção que conheço e sei que há mais, embora sejam de facto excepções... (Acrescentarei aqui outros casos que entretanto conheça porque a cronologia é relevante.)
A resposta a esta questão diz-nos muito sobre os males do jornalismo português, a sua complacência e deslumbramento com o poder, quando não a sua dependência dos "poderes", a começar pelas "fontes amigas" tão importantes para a carreira de um jornalista, a sua falta de coragem cívica, em particular quando tem que quebrar as regras não escritas do pack journalism.
Pack journalism no Merriam-Webster: journalism that is practiced by reporters in a group and that is marked by uniformity of news coverage and lack of original thought or initiative.
Este "consenso" de rebanho entre jornalistas sobre aquilo de que se pode ou deve falar, e sobre os temas malditos que "sujam" as mãos de qualquer profissional e merecem o ostracismo dos outros, é o resultado destilado dos gostos, amizades pessoais e políticas, ideias feitas, ignorâncias activas, vinganças, que unem grupos de jornalistas entre si. O pack journalism traduz também a relação ambígua que muitos jornalistas mantêm com políticos que têm a mesma idade, a mesma formação, a mesma linguagem, o mesmo vocabulário, as mesmas escolas de ver o mundo, as mesmas ignorâncias, os mesmos ódios, os mesmos adversários. As paredes do Snob e outros bares frequentados pela "classe" estão cobertas destas camadas de pack journalism até ao tecto e os blogues de jornalistas revelam-nas com uma ingenuidade alarmante.

O Público quebrou esse muro de silêncio e fez jornalismo como deve ser. Não é "jornalismo de sarjeta", como afirmou o ministro que "tutela" a informação, que só é poderoso porque tem um largo sector da comunicação debaixo da sua "tutela", é jornalismo. E o Público foi imediatamente sancionado por ter violado o pacto de silêncio: durante vários dias contavam-se pelos dedos de meia mão só, os órgãos de informação que ousavam sequer reproduzir a notícia maldita do Público. Esta é a segunda questão a que é vital responder para se perceber até que ponto existe efectiva liberdade de informação: por que razão muitos jornais e acima de tudo as televisões, com relevo para a RTP, entenderam pelo seu gritante silêncio que o Público tinha feito "jornalismo de sarjeta" indigno de ser citado? Foi preciso esperar uma semana até que o Expresso acrescentasse mais achas para a fogueira, tornando o assunto, como se costuma dizer, "incontornável", coisa que ele era desde 2005. A ironia destas coisas apanhou mesmo um dos responsáveis do Expresso que tinha atacado o Público considerando que a notícia sobre Sócrates "não honra (...) todos aqueles que de algum modo contribuíram para fazer do Público um jornal de referência".

Estes dias de silêncio e isolamento forçado do Público são um revelador e uma face negra da situação da nossa comunicação social e dos seus compromissos invisíveis com o poder socialista, o seu Governo e o primeiro-ministro. Seria interessante saber, porque se trata de política no seu verdadeiro sentido, se houve ou não conflitos nas redacções entre quem queria e quem não queria dar sequência às notícias do Público. Seria interessante saber por que critérios jornalísticos tal não foi feito, em particular pela parte da comunicação social que os portugueses pagam com os seus impostos e está sujeita ao governo, a RTP. Mais uma vez, a análise da cobertura televisiva da RTP, primeiro censória, depois desculpatória, revela a governamentalização do "serviço público".

Sabe-se hoje que foram dias de intensa actividade telefónica do primeiro-ministro e dos membros do seu gabinete com objectivos muito claros: primeiro impedir que a história aparecesse (falhou no Público); depois que alastrasse (sucesso relativo durante alguns dias isolando o Público); depois que não chegasse à televisão (sucesso relativo); depois que a forma de tratamento fosse a menos gravosa para o primeiro-ministro (conseguido na Renascença, desconhece-se o efeito nos outros órgãos de informação).
"Quinta-feira, dia 22, logo após o noticiário das oito da manhã da Renascença, os assessores do primeiro-ministro despertaram para um frenesim de telefonemas. A rádio dava eco à notícia do jornal ‘Público’ que levantava dúvidas em torno da licenciatura de José Sócrates na Universidade Independente. O pivô rematava a peça dizendo: “Engenheiro não! Licenciado... talvez”. Ligaram várias vezes para mim e para a redacção a protestarem”, contou ao Expresso o director de informação da Emissora Católica, Francisco Sarsfield Cabral. A frase que tinha provocado a ira do gabinete do primeiro-ministro não voltou a ser repetida. "(do mesmo artigo do Expresso).
A chuva de comunicados e declarações oficiais revela também os mesmos objectivos, contendo inverdades e sugerindo distracções, tentando lançar confusão e apontando pistas falsas. Lendo a adjectivação dos comunicados oficiais está lá tudo como, por exemplo, no comunicado do Ministério do Ensino Superior, em que se sugere que o mal da Universidade Independente é apenas do "apuramento e comunicação da informação estatística", ou seja, dos procedimentos burocráticos, e que apresenta como seu objectivo "dissipar a inaceitável suspeição generalizada que foi lançada", ou seja, comprovar a validade dos seus diplomas, já que tudo o resto é "inaceitável". Para uma entidade com poderes inspectivos, as conclusões já estão tiradas antes da investigação.

A não existir dolo, nem facilitação gravosa e excepcional no processo académico do primeiro-ministro, o que sobrará de toda esta questão é bem mais grave do que saber se José Sócrates é ou não engenheiro, agente técnico, ou estudante finalista: é o modo como a comunicação social se coloca perante o poder socialista. É por isso que a grande esperança governativa é que o assunto morra por si, mesmo indo-se os anéis (os títulos académicos), mas ficando os dedos e os seus fios visíveis e invisíveis, os mecanismos que do poder chegam às redações, explicando muita e muita coisa que escapa ao olhar do cidadão desprevenido destes meandros vitais do poder dos nossos dias.

(Adaptado do Público de 7 de Abril de 2007).

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Há seis perguntas que deviam ser feitas pelos jornalistas e para as quais é importante conhecer a resposta. Alguém já lhes sabe responder?

1) Os colegas da Universidade Independente de José Sócrates (os que também pediram equivalências) também acabaram o curso em Agosto? Acabaram primeiro ou depois de José Sócrates? Quando?

2 - Quantas cadeiras tiveram de fazer os colegas de José Sócrates? De que cursos de engenharia técnica vieram? Também tiveram de fazer só cinco cadeiras? E se tiveram de fazer mais, porquê?

3 - Onde está a dissertação e o trabalho de fim de curso de José Sócrates, da cadeira de projecto? Normalmente esse trabalho é guardado na biblioteca das Escolas Superiores/Universidades? Alguém sabe onde está? Pode ser consultado?

4 - José Sócrates pagou as propinas? Estarão esses custos de despesas de educação na sua folha de IRS de 1996/1997 (que como político deverá ter apresentado)?

5 - O facto de fazer o curso à noite, em princípio, não lhe dá a possibilidade automática de poder faltar às aulas, muitas disciplinas exigem número mínimo de presenças. O que se passou com a assistências às aulas das 5 cadeiras? Qual era o seu regime? O que dizem os colegas de José Sócrates?

6 - Como se comparam as notas dos colegas da licenciatura da Independente (que iam às aulas) com as de José Sócrates (os seus colegas afirmaram, segundo o DN, que ele nunca era visto nas aulas)? As cinco cadeiras tinham um elevado conteúdo técnico-matemático, sendo difícil estudar sozinho sem ir às aulas, o que se deveria reflectir nas notas finais, ou não?

(Pedro Costa)

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Tenho seguido com alguma atenção o escrutínio cerrado a que o currículo académico do Primeiro ministro tem sido submetido. Será que ele (a pergunta é retórica e não deixa de estar afectada pela demagogia reinante, claro...) é menos 'português' do que todos quantos: a) passaram administrativamente 'n' cadeiras dos respectivos cursos e hoje se consideram e são considerados licenciados?; b) obtiveram equivalências mtº discutíveis em múltiplas Universidades e nos diversos graus académicos?; c) eram 'agentes técnicos de engenharia' (não me lembro bem se era assim, nem se o título correspondia a um ou vários cursos) e passaram a 'engenheiros técnicos'?; d) eram 'regentes agrícolas' (destes tenho quase a certeza...) e passaram a 'engenheiros técnicos agrícolas', deixando amiúde, estes e os anteriores, cair o 'técnico'?; e) eram 'licenciandos' (atenção aos dois 'n' no interior da palavra) em Letras e passaram a licenciados, depois de mtª pressão para acabarem com as 'teses de licenciatura' que a maioria esmagadora pura e simplesmente não conseguia fazer?; f) aceitam o designativo de Dr. ou de Eng. (neste último caso, pelos vistos, não é 'honorífico'; se legitimado pela Ordem, corresponde a uma profissão, como no caso dos médicos, arquitectos ou advogados), sendo apenas licenciados? Não deveriam o Público, o Expresso, etc., etc., a partir de agora, só falar no Sr. Mário Soares (ou no avogado Mário Soares) no Sr. Francisco Balsemão (advogado?, jornalista? empresário?), no Doutor Cavaco Silva, no Doutor M. Rebelo de Sousa, e assim sucessivamente? Com toda a franqueza, acho que não vale a pena mudar as coisas: nem os portugueses seriam capazes disso, nem daí vem grande mal ao mundo. O hábito é antigo, e está tão enraizado que é pura perda de tempo...

É óbvio que nada disso justifica possíveis 'distracções' do 'Eng' (aqui por analogia com 'Dr'.) Sócrates . Mas, bolas!, não lhe dará (a ele, Primeiro ministro) outra 'fundura', outro tipo de 'enquadramento'? Não exigiria, pelo menos, um abrandamento do tom inquisitorial que para aí vai? A verdade é que ele (com lusitana negligência, admito) se limitou a agir em consonância com (ao ritmo de...) o que se tem passado nas últimas décadas em Portugal? O que aconteceria ao país se, por absurdo, submetêssemos todos os seus detentores de graus académicos a um escrutínio tão rigoroso? Sobretudo, o que aconteceria se, com igual sanha, passássemos dos aspectos 'formais' para os 'substantivos'? Fecharíamos para obras?

(F. Pimentel)

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O seu leitor Pedro Costa elaborou uma lista de seis grupos de perguntas relativas ao problema da licenciatura de José Sócrates. Os cinco primeiros grupos parecem-me pertinentes, embora considere que têm importância bastante variada. Mas o sexto grupo é diferente. Em primeiro lugar, é ali afirmado que as cadeiras frequentadas por José Sócrates «tinham um elevado conteúdo técnico-matemático». Isto é incorrecto para, pelo menos, uma delas, nomeadamente Inglês Técnico. Por outro lado, a pergunta relativa às classificações e ao facto de José Sócrates não frequentar as aulas não me parece pertinente. Sim, é de esperar que os alunos que as frequentaram tenham tido melhores notas, mas isto, mesmo que seja verdade, é somente um resultado estatístico do qual nada se pode deduzir. Também é uma verdade estatística que os homens têm uma longevidade claramente inferior à das mulheres, mas isto não é motivo para que se ache que haja algo de suspeito no caso de um casal no qual a esposa faleceu antes do marido.

Quanto às pessoas que afirmam que é irrelevante saber se José Sócrates tem ou não efectivamente uma licenciatura em Engenharia Civil, seria interessante saber se reagiriam do mesmo modo se surgissem dúvidas quanto à validade do doutoramento de Cavaco Silva.

(José Carlos Santos)

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O leitor José Carlos Santos simpatizou com a pertinência de cinco das seis perguntas sugeridas para serem colocadas ou investigadas pelos jornalistas, excepto a relacionada com o Inglês Técnico.

Gostaria de propor duas novas perguntas aos jornalistas e de comentar a questão do Inglês Técnico:

Pergunta 7: No fim de um curso de licenciatura é normal (quase obrigatório) que se façam trabalhos de grupo. Qual dos colegas terá feito algum trabalho com José Sócrates numa das 5 cadeiras? Talvez algum deles nos possa confirmar (pelo menos um trabalho). Ou terá, estranhamente ao costume, José Sócrates feito todos os trabalhos sozinho?

Pergunta 8: Existe confusão e contradição nos jornais sobre quem foram os professores de José Sócrates, nas 5 cadeiras. Professores desmentem-se uns aos outros e não haverá, até agora, registos conhecidos e seguros de quem deu as 5 disciplinas. E se os jornalistas perguntassem aos colegas de José Sócrates? Não será que eles se lembram de quem foram “realmente” os professores das cinco cadeiras? Pelo menos iam às aulas, não iam?

Voltando à questão do Inglês Técnico:

Na opinião do leitor, o Inglês Técnico não seria tão difícil como os outros quatro “cadeirões” de fim de curso, onde José Sócrates teve 17 valores quase sem frequentar as aulas, como disseram os seus colegas ao DN.

Mas mesmo o Inglês Técnico não será assim tão simples. Sobretudo quando nos lembramos do que disse o ex-Reitor Luís Arouca ao 24 Horas, no dia 28/2/2007. Dizia o jornal: “O reitor da Independente recorda-se de ter leccionado Inglês Técnico no curso de Engenharia Civil e de ter ficado «surpreendido» numa oral a que Sócrates se submeteu. «Eu formei-me em Inglaterra e ele falou inglês ao mesmo nível que eu. Fiquei espantadíssimo e lembro-me de pensar que deve ter sido uma namorada inglesa que o ensinou a falar tão bem».

A não ser que a tal “namorada” fosse engenheira civil e que durante o namoro falassem de obras. Ou, então, que o reitor falasse de temas de coração. Ora veja-se, um exemplo “simples” de um texto de uma aula introdutória de inglês técnico:

“Piled foundations are particularly applicable to structures which are to be built over water or on mud, such as wharves and jetties. The carrying capacity of the piles may be due to the frictional resistance of the ground against the sides of the piles; or to the strong bearing layer to which the point of the piles reach, in which care they transmit the load from the soft strata above to the bearing stratum.”

A seguir junta-se um exemplo de um programa (objectivos de um curso) de Inglês Técnico:

Course Objectives
To develop the ability to read and comprehend technical texts in the field of Civil Engineering. This field covers a wide range of topics so that the student will be exposed to a variety of articles dealing with subjects like: Mechanics of Materials, Concrete, Construction, Sewerage, Environmental Engineering, Surveying, Road Design, and Bridges. As students studying technical English are in their first three semesters, special effort was made to select texts that require no previous knowledge in Civil Engineering. The skills emphasized in this course are the following:

a. vocabulary building through the study of word construction.
b. ability to write formal definitions of technical terms and expression.
c. ability to analyze information presented in graphs, charts, tables, etc.
d. remedial grammar; i.e., recognizing various grammatical structures that will aid the student improve his/her rhetorical knowledge
E tão importante, o que se considera ser as condições para a frequência e aprovação numa disciplina de inglês técnico:
Course Policy

1. Attendance is obligatory.
2. Absences must be justified.
3. Regular home assignments must be submitted upon request.
4. As all oral discussions held in class are part of the learning process, students are responsible for taking notes and reviewing their content before the tests.
5. Students will not be allowed to rewrite tests in order to improve their grades.
6. Make-up tests will be administered only with proper justification of absence.

Sempre seria interessante conhecer e contrastar o Programa de Curso de Inglês Técnico que o ex-Reitor da Universidade Independente diz ter ministrado a José Sócrates. Onde estará esse programa (com o plano de estudos e forma de avaliação)?

(Pedro Costa)

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10.3.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 10 de Março de 2007


Noticiários das oito, os mais importantes das televisões.

Na SIC, uma reportagem sobre a visita de Cavaco Silva ao Luxemburgo sob o tema da insatisfação dos emigrantes com o pouco tempo que o Presidente lá esteve. Fontes que justificam o título e a frase sempre a passar por baixo: três entrevistas num café numa localidade que o Presidente não visitou. Chegou para esses três homens, aliás bem pouco assertivos nas suas queixas, passarem a ser "os emigrantes do Luxemburgo". Mau jornalismo quanto baste.

Na RTP, pior. A correspondente em Madrid a propósito da grande manifestação contra o governo Zapatero por causa da medida de clemência tomada com um etarra autor de assassinatos, repete ispsis verbis, os argumentos do governo e do PSOE contra os protestos, atacando o PP espanhol. Política disfarçada de jornalismo.

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A melhor parte dessa reportagem foi quando um dos Portugueses do Luxemburgo disse que " o Presidente devia passar por todas as villages do Luxumburgo". Sem comentários

(João Melo)

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5.3.07


PENSAR OS JORNAIS - 3

[publico2007.JPG]The image “http://dn.sapo.pt//2007/02/12//capa.gif” cannot be displayed, because it contains errors.
(Devido à sua extensão o artigo não pode ser publicado integralmente no jornal. As partes em vermelho foram cortadas e são aqui repostas.)
Embora não haja receitas milagrosas e a actual situação da chamada "imprensa de referência" em Portugal seja má por razões comuns a toda a imprensa deste tipo e por problemas portugueses, essencialmente ligados à pequena dimensão do mercado, é possível identificar caminhos que, a serem seguidos, melhorariam a situação. À partida, o problema fundamental para se avançar neste caminho é que os jornais já existem e foram criados para outro modelo, com redacções tradicionais que muito dificilmente se alteram sem mudanças drásticas. Seria muito mais simples começar de novo, do zero, criando um novo tipo de jornal de "referência" de raiz, um modelo cuja hibridez se devesse apenas às impossibilidades tecnológicas do presente e não à necessidade de manter o tamanho e composição das redacções actuais. O problema dos jornais actualmente existentes, caso do Público e do Diário de Notícias, é que, devido ao lastro do passado, tem todos os problemas genéricos da crise da imprensa em papel e mais os que advêm da enorme dificuldade de se adaptarem para a transição, para os anos de espera entre o papel e o papel electrónico.

Por isso, parece-me uma solução segura e certa, e, no caso português de escasso mercado, ainda mais segura e certa, que os jornais de "referência" têm de ser muito mais pequenos, mais compactos, mais especializados, menos generalistas, comunicando de forma próxima com outros media, como a televisão e a rede, explorando todas as sinergias, com um conteúdo com identidade própria, resultado de um trabalho jornalístico único. Serão mais parecidos com os semanários e bastante diferentes entre si. Não podem contar com públicos de muitas dezenas de milhares (em Portugal), mas têm de ter uma relação económica sustentável com públicos mais escassos, mas muito mais influentes em toda a sociedade e que estão dispostos a pagar mais. Essa influência trará publicidade, mais do que a "audiência" da venda em banca, mas exige padrões muito qualificados de jornalismo. É como se, mal comparado, se abandonasse a tentativa de fazer televisão generalista para fazer um canal por cabo, a SIC Notícias por exemplo.

Um dos obstáculos a que isto aconteça encontra-se nos próprios jornais actuais, com redacções muito grandes, com vícios territoriais, com dificuldades em ter verdadeira edição sem prémio nem sanção, sem controlos internos, renitentes à verificação de qualidade. Em redacções deste tipo, as restrições de custos têm efeitos devastadores na quebra de qualidade porque o dinamismo é escasso à partida. Do mesmo modo, a introdução de critérios de exigência internos (como se verifica já hoje com a actuação dos provedores) gera grande conflitualidade. Tamanho e mediocridade sempre foram mortíferos para jornais que se pretendem de "referência", só que agora são factores decisivos de sobrevivência

Hoje, um jornal vive numa ecologia muito mais crítica e num escrutínio permanente e público. Os blogues alargaram o campo comunicacional e tornaram inevitável o escrutínio da imprensa escrita, que até há uns anos não existia de todo. Mesmo quando não fornecem essa crítica de qualidade, tornaram a reflexão sobre os jornais inevitável e inescapável. Tornaram difícil manter os jornalistas resguardados num mundo próprio, vivendo em grupo, e "pensando" em grupo, em pack, falando quase que exclusivamente uns com os outros, reagindo corporativamente a todas as críticas, exibindo nos jornais, sem sanção, a sua falta de experiência, de formação e, acima de tudo, de imaginação, deixando o mundo correr ao seu lado sem o ver, repetindo de jornal para jornal, as mesmas notícias, as mesmas palavras, a mesma maneira de ver as coisas, uma casuística superficial que só tem paralelo em Portugal com o mundo político, que é aquele que cada vez é mais próximo do dos jornais e vice-versa.

Há excepções, e é tão má a regra que essas excepções brilham de evidência. Matérias como a Europa, Timor, sondagens, corrupção, são exemplos de casos em que há jornalistas altamente qualificados nos jornais portugueses e que têm um grau de especialização que não se compadece com exercícios amadorísticos num jornal de "referência". O grau de exigência subiu e muito e a competição com os novos media valoriza a especificidade da escrita, da reportagem, da investigação, que sobrevivem bem em papel, muito melhor do que as notícias em tempo real. São jornalistas que conhecem as suas matérias, lêem o que se publica sobre elas, artigos e livros, conhecem os protagonistas, têm fontes altamente colocadas, e, quando escrevem, tem autoridade. Um jornal "de referência" só sobrevive se assentar neste tipo de jornalistas. Eles é que são o penhor da "referência" e é com eles que se pode construir uma redacção compacta, que possa ser um centro de tratamento e edição de informação, que actua organizando, procurando, editando e "escrevendo" a partir de muitos inputs do exterior, quer sobre a forma de contribuições externas (não há razão nenhuma para se utilizarem crescentemente "produções" externas, como acontece nas televisões) quer usando os novos recursos daquilo que é chamado "jornalismo dos cidadãos".

O que esta redacção compacta deve fazer é moldar o fluxo de informação ao trabalho de mediação típico do jornalista e à identidade do jornal, mas cada vez mais é suposto que o facto de trabalharem para o "papel" não deve esquecer que o "papel" e o jornal em linha não devem ser apenas complementares, mas pensados em conjunto como um único produto. Por exemplo, parece-me um erro quer menosprezar a edição em linha quer assentar a edição em linha na edição em papel. É a edição em linha que tem futuro, não a de papel, e o fluxo de informação é o mais importante "material" de qualquer órgão de comunicação.

Hoje, esse fluxo tende a ter actualidade, e "tempo real" apenas na rádio, na televisão e na rede. Mas as "sinergias" de que muito se fala hoje para os modelos de negócio na comunicação deviam ser em primeiro lugar sinergias de informação porque a prazo, rádio, televisão, rede e papel esbaterão as distinções entre meios especializados. Jornalistas com os novos meios digitais ao seu dispor podem gravar, filmar e fotografar. E o jornal deve poder utilizar toda a massa de informação que obtenha, colocando em linha toda a que não servir para colocar no papel, ou aquela que não pode ser colocada em papel. Desde já.

Um exemplo recente mostra como as redacções de hoje não actuam no sentido de maximizar os instrumentos que tem ao seu dispor, valorizando ao mesmo tempo a edição em linha e a de papel. Esse exemplo é o do terramoto de há dias, um caso típico de um evento inesperado, uma notícia em estado puro. Ocorrido o terramoto, que ainda por cima não é um facto privado, um jornal devia de imediato começar a conduzir toda a informação em linha, criando um foco de interesse, de “leitura”, que corresponda a uma necessidade real de informação por parte do público. O efeito do “directo” é muito poderoso e de imediato começam a aparecer testemunhos e, se as houver, imagens e filmes. Esse material pode de imediato ser sujeito a uma edição rápida e conforme a sua natureza colocado em linha. A massa de informação obtida das pessoas (e neste sentido os testemunhos editados podem ser considerados peças de “jornalismo de cidadão”), aliada ao trabalho da redacção em obter informação qualificada, de especialistas em sismologia, técnicos e responsáveis pela protecção civil, permite um trabalho muito mais qualificado e economias de escala. Isto significa uma redacção a mover-se à velocidade dos eventos, com equipas em linha e outras a preparar a edição em papel, acompanhando o trabalho em linha, que pode identificar com muito mais rigor as deficiências da prevenção (telefones de emergência que não são atendidos como deviam, sítios na Rede que vão abaixo, ignorância de bombeiros quanto ao que fazerem, pânico dos responsáveis, falta de treino, etc,) Isto significa também, como é óbvio que o trabalho num jornal dura 24 horas e que a tendência para se fecharem os jornais cada vez mais cedo, os prejudica gravemente.

Muito mais poderia ser dito, seguindo o modelo de tentar aproximar o mais possível o jornal de hoje das tendências de futuro que já podem ser identificadas, mas não cabe aqui. Reconheço que há outras maneiras de colocar a questão, mas trata-se apenas de um exercício de análise, nada mais. A realidade é sempre muito mais complicada.

(Parcialmente publicado no Público de 3 de Março de 2007)

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25.2.07


PENSAR OS JORNAIS - 2
(Devido à sua extensão o artigo não pode ser publicado integralmente no jornal. As partes em vermelho foram cortadas e são aqui repostas.)
1. O exercício que se fará a seguir é o de pensar num jornal ideal a partir do que é um jornal de hoje e das possibilidades tecnológicas que o podem moldar num período de cerca de uma década. Esse jornal do próximo futuro será reconhecível como um jornal, da mesma maneira que a Gazeta de Lisboa pode ser reconhecida ainda nos dias de hoje como um jornal. Não estou a falar de qualquer coisa exótica, nem sequer revolucionária, mas de um jornal, mantendo o núcleo de identidade de um órgão diário (ou semanário) assente no acto de ler, pelo qual se obtém informações, notícias, análises, comentários, críticas sobre a realidade do mundo à nossa volta. Dentro desta definição, muita coisa pode mudar, a ênfase pode ser colocada no político, no cultural, no social, o texto pode ser factual ou de creative non-fiction, privilegiar histórias ou estórias, ter mais ou menos opinião, dirigir-se a públicos eruditos ou populares, ter causas ou não ter, etc., etc., mas todas estas modalidades cabem numa concepção comum de jornalismo.


2. Não custa muito pensar no jornal ideal, nem são necessários exercícios de futurologia ou de ficção científica. O jornal ideal que refiro será possível em meia dúzia de anos, incorporando tecnologias já existentes, mas ainda experimentais e caras. Será apenas uma questão de tempo, e pouco tempo, até este jornal existir e não será em papel, mas em "papel" electrónico. O jornal do próximo futuro poderá ter apenas uma folha dupla aberta, de plástico, do tipo dos que hoje a Plastic Logic produz, pesará cerca de 100 gramas e o texto que terá será um texto electrónico, transmitido em wireless e mudando durante o dia. O jornal poderá ter uma estrutura diária e partes que não são diárias, mas o fluxo noticioso será isso mesmo, um fluxo contínuo.
Uma experiência deste tipo, ainda muito rudimentar, é a do jornal de negócios belga De Tijd usando um leitor chamado iLiad, tecnologia da Philips. Sobre e-paper ver E-paper et encre électronique : les habitudes de lecture commencent à changer.
3. Um jornal deste tipo não é apenas um ecrã portátil, mas uma folha de papel electrónico com a qual se poderá fazer o mesmo que se faz hoje com o papel, menos deitá-lo fora no fim, ou usá-lo para embrulhar peixe, porque fica caro. Há apenas uma razão, para além do custo actual, para o papel electrónico não ter ainda substituído o papel: ainda há limitações técnicas na sua funcionalidade para se adaptar em pleno ao principal factor limitador das tecnologias, o corpo humano e os seus hábitos. Há certas coisas que não fazemos, ou que não é confortável fazer com os ecrãs actuais de computador e, enquanto não existir papel electrónico capaz e barato, a mutação do papel para o ecrã plástico não se fará. Quando houver, a mutação será muito rápida e o papel de impressão ficará um nicho de mercado de luxo como os relógios analógicos.


4. O jornal estará obviamente numa forma de ecrã, mas não estará preso ao computador, não será laptop, nem desktop, embora consigo vá um computador especializado e uma ligação permanente à rede. Será mais um dos múltiplos objectos que passarão a ser inteligentes porque tem um processador, software e a comunicar em rede: casas, frigoríficos, lâmpadas, roupas, automóveis, etc. Transportar-se-á como um jornal, ler-se-á como um jornal, terá a mesma resolução, ou ainda mais do que um jornal. O suporte tem de permitir o espaço que necessita um jornal, precisa de páginas e de paginação, e também aqui há considerações ergonómicas que dependem do nosso corpo, do nosso olhar. A razão pela qual o jornal ideal depende mais do papel electrónico do que de um grande ecrã, mesmo que ultrafino, é que tem de ter espaço para se espraiar e ler e portabilidade. Não cabe num telemóvel, e não cabe num ecrã de computador que não necessita na maioria das suas funções de tanto espaço como a página dupla aberta de um jornal.

O seu grafismo mudará, a partir do modelo clássico do jornal, mas incorporará o grafismo dos sítios em rede, como aliás já acontece com o grafismo da rede a influenciar o grafismo dos livros, jornais e revistas e publicidade. Posso partir do princípio de que esse jornal terá o mesmo tamanho do Público e do Diário de Notícias, cujas qualidades ergonómicas permitem que se possa ler nos mesmos sítios onde hoje se lê um jornal, no carro, na cama, numa cadeira, num autocarro. E que se possa levar debaixo do braço ou numa pasta.

5. Até aqui, o papel electrónico foi mais papel de plástico do que electrónico, mas a verdadeira revolução dos jornais virá do electrónico, ou seja, do conteúdo em linha e do hipertexto. Começa logo no facto de todas as vantagens do ecrã e da ligação em linha estarem presentes, tornando o papel vivo: os que lêem mal podem alterar o tipo de letra, os cegos podem ouvir o jornal, e nesse jornal não se lerá apenas, pode-se ouvir sons e ver filmes, pode-se procurar palavras-chave, ler artigos para que remete uma bibliografia, seguir ligações em linha na rede. O hipertexto acelera a integração de todos os fluxos digitais, numa só estrutura de "leitura". O papel vivo pode ser lido por contacto na página, como no iPhone, ou nos ecrãs sensíveis e por isso, desde a simples função de folhear as páginas, até ao acesso aos arquivos, à sequência de notícias, a canais em directo de televisão, tudo se poderá fazer a partir de uma estrutura que será essencialmente voltada para informar, analisar, debater, como é suposto serem os jornais. Todos os actos simples que se fazem com um jornal, preencher as palavras cruzadas, responder a um anúncio, escrever uma carta à redacção, marcar um artigo e recortá-lo, deitar fora um suplemento que não se deseja, estão presentes.

6. Este jornal ideal acabará com a distinção entre o jornal em papel e o jornal em linha, mas essa mudança não se fará apenas pela hegemonia do jornal em linha, mas pela valorização de um contínuo que incorpora o mecanismo fundamental que os distingue: o hipertexto. O que está a gerar a crise do jornal de papel é a sua impossibilidade de incorporar hipertexto, ou seja, de comunicar com todos os outros fluxos de informação que um jornal em linha pode utilizar: som, vídeo, arquivo, leitura em volume típica do hipertexto propriamente dito, tempo real.

Um exemplo: um artigo sobre a actual campanha do aborto nesse jornal do futuro conterá a notícia da novidade que foi a utilização utilização dos vídeos no YouTube e conterá os vídeos de Marcelo Rebelo de Sousa e do Gato Fedorento. O leitor poderá ler sobre eles e ter de imediato disponível toda a informação em que se baseia o jornalista. Quando, ao lado, estiver um artigo de crítica ou um comentário, quem o escreve terá que o fazer com muito mais rigor e precisão, com valor acrescentado, porque o leitor que o lê dispõe da mesma informação em bruto que tem o jornalista ou o crítico. No final, os textos, as análises, as fontes, os números, as opiniões, fornecem o tipo-ideal da informação: matéria prima noticiosa, mediação e opinião plural. Isto hoje só é possível num orgão de informação com o hipertexto.

O próprio conceito clássico do artigo mudará com o hipertexto. Embora este "texto" de Lawrence Lessig não seja um artigo no sentido clássico do termo, funciona como se fosse um artigo de opinião: expõe uma posição usando mecanismos que estão entre o texto, o filme, a conferência, a imagem como reforço da palavra, etc. O jornal do futuro terá artigos clássicos, e artigos deste tipo.

7. O primeiro objectivo de um jornal é informar, e um jornal em papel é um meio mais pobre para informar do que um jornal em linha. Esta é que é a chave da crise da imprensa escrita, a impossibilidade de incorporar o hipertexto. Eu próprio, ao escrever este artigo, já várias vezes tive de abandonar formas mais simples e explicativas de dizer o que quero dizer. Quando o colocar em linha, vou poder fazê-lo: incorporar imagens da Gazeta de Lisboa, do Diário de Notícias de 1945 e do papel electrónico da Plastic Logic, com ligações para os vídeos em que se percebe como se pode manipular o novo papel. Se eu colocar aqui [na edição em papel] um endereço electrónico, uma URL, ele mostrará de imediato a inadequação do meio actual: http://www.plasticlogic.com/index.php . Este “texto” não serve para ser lido como a frase anterior e não pode ser clicado. Terá que ser copiado à mão e reescrito, algo que muito poucos utilizadores intensivos da Rede farão. Eles verão o nome da companhia, Plastic Logic e colocarão o nome no Google e chegarão lá de forma que já tem muito pouco a ver com o jornal. Acima de tudo, terão que, pelo caminho, deixar o jornal de papel de lado, porque a partir daqui lhes é inútil.

8. Há também algo que tem que mudar, mas também já se percebe de modo grosseiro como tal possa acontecer: o modelo económico dos jornais, quem paga os jornais e como, para estes sobreviverem como empresas que são. Deixo de lado o facto de a edição em papel ser por si só muito cara e para, uma outra ocasião, as mudanças na produção jornalística que a “vida” do papel electrónico trará a redacções e aos jornais como organização. A aparição de produtoras de textos, reportagens, análises, de material para os jornais, será uma consequência da desadaptação de redacções muito grandes, pouco flexíveis e muito caras ao modelo do jornal do futuro. Como já existe para o audiovisual, haverá um novo mercado de “textos” (e de imagens, vídeos, sons, etc.) dando uma outra dimensão ao jornalismo freelancer e será um caminho que pode mudar o tamanho gigantesco que atingiram as redacções, com os enormes custos associados.
Mas o modelo económico do jornal do futuro estará na Rede. Na Rede, os grandes percursores dos pagamentos em linha não foram os bancos, nem as instituições financeiras, mas os sítios pornográficos. Eles precisavam de meios fáceis, simples, seguros e quase anónimos de pagamento e desenvolveram mecanismos que depois a Amazon, a Ebay e a Paypal utilizaram. Há investigações em curso para encontrar meios fáceis (que não exijam sequer um clic suplementar) e seguros para pagamentos muito diferenciados, incluindo sistemas de “pay-per-view” quase nominais, um cêntimo por exemplo, para o consumo de todas as partes do jornal em linha, que não incorporam muito valor acrescentado. Mesmo numa Rede que tem uma cultura da gratuitidade, estes pagamentos nominais podem obter aceitação generalizada no acesso a sítios profissionais e empresariais que “vendem” um produto único e de necessidade. Uma das formas de combater a pirataria nas músicas e nos filmes foi tornar os produtos digitais muito mais baratos do que o que eram, e, com a crescente centralidade da Rede em todas as actividades, o mercado de massas será aí.

Um artigo do New York Times sobre o problema do "pay-per-view" a partir da situação do próprio jornal em que "the number of people who read the paper online now surpasses the number who buy the print edition."

Esta mudança nos pagamentos, reflectir-se-á a prazo na publicidade e dependerá, como nas bancas, em última razão, das “vendas”, das “audiências” e dos públicos especializados. Na rede é possível fazer uma diferenciação de públicos muito mais certeira do que no jornal em papel e as formas de publicidade, que muito embrionariamente estão a surgir à volta do Google, mostram caminhos novos.

9. Será por aqui que os jornais irão e, se quiserem sobreviver, deverão pensar-se desde já no modelo do futuro mais próximo, para onde já estão, sem se aperceberem, a migrar. É por aqui que eu parto para analisar o presente, porque, utilizando-se este método de aproximação, verifica-se que muita coisa que se pode fazer desde já não está a ser feita. Ou seja, se eu tivesse de analisar como se devem mudar os jornais actuais, em particular os que pretendem manter o estatuto "de referência", eu pensava-os essencialmente a partir da pergunta: o que é que eu posso fazer desde já na combinação jornal de papel com versão em linha, para os fundir cada vez mais, aproveitando as vantagens de cada um dos meios e tentando minimizar as desvantagens que existem em cada um deles. Uma coisa eu não faria de certeza: era pensar os jornais em papel para "competir" com os meios electrónicos, jornais em linha, sítios e blogues, pela simples razão de que essa competição está perdida a prazo. Eles têm hipertexto, o papel não tem. Ponto final, por aí não há competição.

(No artigo seguinte farei a aplicação deste modelo: como é que desde já os jornais em papel - em complemento com a versão em linha, que quase todos têm - podem evoluir para maximizar tudo o que os aproxima deste jornal do futuro. É muito mais do que se pensa, e mudará profundamente a organização, métodos de trabalho, preparação, o "tempo e o modo" dos jornalistas. Mas continuará a ser jornalismo.)

(A partir da versão do Público de 24 de Fevereiro de 2007)

*
1. Parece evidente que o futuro da imprensa escrita passará, inevitavelmente, pelas soluções electrónicas emergentes;

2. O salto que (...) visiona, para uma solução do tipo da "Plastic Logic", pode ser uma entre muitas soluções, embora os timings que propôs me parecem muito apertados. De facto dentro de cinco anos não me parece que aquela tecnologia possa estar suficientemente testada, evoluída e disseminada pelo mercado, com capacidade para substituir os actuais suportes impressos. Além disso, a emergência dessas tecnologias fará com que o número de leitores ainda diminua mais, tendo em conta que a capacidade económica será um factor de selecção, aliada ao acesso e manuseamento da tecnologia. Nesse contexto, dificilmente teríamos o jornal no café, um dos locais onde, hoje em dia, é mais lido.

3. A própria filosofia do jornal teria que mudar muito. Depois do jornal que morre e nasce a cada dia que passa, teríamos o jornal que nunca morre mas que se transforma a cada minuto; o sistema de venda da informação também seria radicalmente alterado, eventualmente para o sistema de assinatura on-line.

4. Para um futuro próximo, crieio que a melhor solução para a imprensa escrita, que está a ser fortemente condicionada pelos media on-line, poderia ser uma maior articulação e complementaridade escrito/on-line, com jornais em papel mais leves e sintéticos, ao nível das necessidades e tempo de leitura actuais, complementado com a informação no digital, com desenvolvimentos, dossiers, disponibilização de links utilizados como fontes, multimedia (imagem, audio e filme), ou seja, tornar o impresso e o digital um pacote que contém um produto informativo. Á grande novidade poderia residir no modo de acesso ao on-line, que deveria ser codificado, apenas disponível durante 24 horas para os utilizadores que tenham adquirido a versão impressa, onde seria fornecido um código de duração limitada.

(João Carlos Gonçalves)

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O seu artigo é bastante interessante, mas parece-me que peca por um vício de raciocínio - tenho para mim que uma boa parte das pessoas que compram um Jornal o fazem por uma questão sentimental, e não por um motivo meramente informativo.
O ritual, o cheiro, o dividir em várias partes com diferentes utilizadores e utilizações.
Claro está que, sendo uma questão sentimental, se pode mudar alterando os sentimentos - mas não me parece que tal aconteça em grande escala.
E, neste sentido, a versão papel e a versão "electrónica" serão concorrentes.

Eu continuarei a ler os jornais electrónicos no meu computador, e a comprar na minha tabacaria de bairro a versão papel. Que lerei num café ou esplanada; e que, terminado, oferecerei amavelmente ao anónimo vizinho da mesa ao lado, não sem antes ter rasgado uma indicação de um restaurante onde nunca irei, e que transportarei na minha carteira por várias semanas, até ir parar ao lixo na "limpeza" mensal da mesma.

A versão electrónica será mais funcional, mas felizmente já vivemos num estágio de desenvolvimento tal que, em muitas situações, podemos dar-nos ao luxo de por o emotivo à frente do racional! E haverá mercado para ambos - a não ser que o electrónico acabe por abafar o outro - o que não seria desejável.

(Pedro Pereira)

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18.2.07


PENSAR OS JORNAIS I

À nossa frente, diante dos nossos olhos, vários objectos que tomamos por indissociáveis do "nosso mundo" desaparecem, uns lenta, outros rapidamente, de um dia para o outro. Já vi desaparecerem as máquinas de escrever, os copiógrafos, a tipografia a chumbo, os selos do correio, o rolo de fotografias, o gravador de fita, as disquetes, o telex, o fax, o vídeo, etc, etc.

http://www.maths.bris.ac.uk/~mazjmh/Stamps/machin.jpg http://docushare.unisa.edu.au/docushare/dsweb/Get/Document-2522/ENC1-19+retirement+telex.jpg http://www.rockymountainfilm.com/images/e4.jpg http://retrothing.typepad.com/photos/uncategorized/brother.jpg

Olhando à nossa volta, outros objectos estão também a ir-se embora: que necessidade tenho eu de vir a esta estante de CD de música que gravei no iPod, podendo agora transportar toda a minha discoteca de aparelho para aparelho sem precisar de mais nada? Ao lado, os vídeos em VHS juntam-se aos discos em vinil e suponho que, a prazo, os DVD irão fazer-lhes companhia. Os selos, a mesma coisa, hoje já quase que não se usam no correio, para serem emitidos apenas para os coleccionadores. O dinheiro pouco a pouco é substituído pelos cartões e todos os cartões convergem para um só. http://static.flickr.com/78/156602769_bbb73553ab_m.jpgA rápida mudança do tempo vivido dos objectos torna obsoleto qualquer filme de ficção científica que tenha mostradores analógicos em vez de digitais, porque nós sabemos que o futuro não substituiu apenas as alavancas por botões, mas acabou com os mostradores redondos em que um ponteiro podia indicar um drama quando se aproximava do vermelho. Hoje, só para os filmes de submarinos da Segunda Guerra Mundial.

E será assim para estes objectos que tenho à minha frente, feitos de muitos hectares de floresta, esta pilha de jornais? Estão também a ir-se embora, pouco a pouco, sem nós vermos, nem nós querermos? Talvez em geral, sim, em particular para os jornais feitos ao modelo antigo, entre o jornal generalista e aquilo que se chama hoje "imprensa de referência". Vejamos o caso português, em que há várias coisas evidentes que os jornais "de referência" não quiseram ver nem entender. Uma delas é que hoje um leitor em papel pode ler a "imprensa popular", opção que não tinha no passado.

Quando só havia jornais vergados ao peso de si próprios como instituições, protegidos por um mundo em que a institucionalização era garantida entre outras coisas pela censura - que eliminava o "popular" (sentimentos fortes, crime, inveja social, críticas aos poderosos, voyeurismo, violência em geral, medos, etc.) -, a "imprensa popular" não existia.
Acabada a censura e envelhecidos os modelos dos jornais "de referência" numa sociedade em mutação, em que a ascensão das massas aos consumos "culturais" se dava pela primeira vez, era natural que uma parte dos públicos forçados até então pela ausência de alternativa escolhessem. Já não tinham apenas o Diário de Notícias, ou o Diário de Lisboa, ou o The image “http://www.mni.pt/images/conteudo/jn.gif” cannot be displayed, because it contains errors.Século, ou o Diário Popular, ou o Comércio do Porto, ou O Primeiro de Janeiro, mesmo com as suas nuances, mas podiam começar a comprar o Correio da Manhã e, mais tarde, a imprensa tablóide, que é uma outra variante de "imprensa popular". No Porto, sempre tiveram essa escolha porque tinham o Jornal de Notícias, de quem se dizia que, se se espremesse o jornal, escorria sangue, e talvez por isso é que a imprensa "de referência" de Lisboa nunca tivesse tido sucesso no Porto. (Deixo por agora de parte a concorrência com a televisão e rádio quanto à novidade noticiosa e à espectacularização).
Afastada da sensibilidade "popular", logo do público de massas, era inevitável uma perda significativa de leitores, agravada pelo aparecimento dos gratuitos. Mas a imprensa "de referência", durante muito tempo, que era também imprensa do Estado porque pública ou semipública, continuou num caminho autista até que a privatização começou a abanar os bolsos dos "donos" da imprensa com os elevados custos de jornais que perdiam leitores e, ao perderem leitores, perdiam publicidade. Quer o Diário de Notícias, quer o Público, de modo diferente, começaram a sentir há muito esta perda e ensaiaram diferentes respostas para a contrariar, cujo sucesso depende da correcção da análise dos problemas.
Uma observação sobre um reparo feito no Indústrias Culturais sobre "a colocação temporal do autismo dos media impressos. Primeiro, a imprensa de Estado (...) só existiu entre 1975 (...) e finais da década de 1980 (...). O Diário de Notícias foi desnacionalizado em Maio de 1991, ou seja, há 16 anos é propriedade privada. Entretanto, tinha surgido o Público (1990)." Tive em conta esta circunstância, mas penso que o Diário de Notícias só foi verdadeiramente des-nacionalizado quando foi comprado por Joaquim Oliveira e deixou a PT.

The image “http://dn.sapo.pt//2007/02/12//capa.gif” cannot be displayed, because it contains errors.[publico2007.JPG]O Diário de Notícias tentou tornar-se num jornal forte na economia, investindo num suplemento diário, o Público tenta conquistar os novos leitores que estão a fugir para a rede. Quer um, quer outro valorizaram o desporto e outros temas "populares" mesmo antes das reformulações realizadas, num caso e noutro muito distintas nos seus alvos. O Diário de Notícias parece ter falhado, o Público ainda é cedo para ver.
No Bloguitica Paulo Gorjão insiste em três factores decisivos na decisão de compra de um jornal "de referência": "informação de qualidade; análise de qualidade; e, opinião de qualidade. Uma trilogia de 3Q." Tem razão em identificar estes factores em que uma cultura de exigência ainda está muito longe de chegar ás redacções. Só por si, se se fosse por aqui, obter-se-iam resultados, mas não se estancaria a crise da imprensa escrita ao modo tradicional. Penso que é preciso ir mais longe na análise da crise e pensar as questões de forma (as tecnologias, o grafismo, os meios) como questões de conteúdo e ir ainda mais longe entendendo que o "consumo" de informação está a mudar não só em exigência, mas num modo diferente de ler, procurar, analisar, aprender e divertir-se. Estas mudanças fazem migrar muita coisa que antes se fazia nos jornais para outros media e implicam um novo conceito de jornal, não apenas o antigo jornal melhorado. É sobre isso que escreverei para a semana.
Perdendo os públicos antigos, que se deslocaram para a "imprensa popular", colocava-se saber por que razão não se conquistavam os novos públicos. Havia sempre duas estratégias possíveis: ou tentar tornar "popular" (e "popular" e tablóide" não são a mesma coisa, porque há imprensa "popular" de qualidade, como é o caso do Correio da Manhã) o produto, como agora se diz, ou tentar roubar novos públicos a outros media que começam a crescer, em particular na juventude, ligados a outra combinação de media. Basta ver a combinação de media que os jovens consomem - jornais desportivos, revistas de moda em papel e blogues e sítios, incluindo os jornais, gratuitos em rede - para se perceber que não era tão simples como isso lá chegar, com um produto em papel. É que as novas elites numa sociedade de massas, em particular as elites com elevada educação formal, são também elas próprias um resultado da sociedade de massas, espectacularizadas, com gostos "culturais" muito mais "populares", habituadas a uma informação mais curta, fragmentada e utilitária. Na verdade, a sociedade de consumo de massas encolheu as elites, como nós as conhecíamos do passado, e gerou elites que o são socialmente, mas que, entre outra coisas, lêem menos e lêem diferente. O retrato das elites do presente dificilmente seria considerado como sendo de elite no passado. A tradição já não é o que era.
Reproduzo aqui uma nota que publiquei no Abrupto sobre a campanha publicitária do Público :

...parece voltada em parte para esse público da "cultura de blogue", apelando às suas referências
culturais, para o trazer para a imprensa escrita em papel, o que é uma contradição nos seus termos. A contradição tem a ver com o facto dessa "cultura" ser estruturante e dos seus hábitos não serem "em papel". Não só os hábitos não são "em papel", mas sim no ecrã, como a forma de ler em volume e em profundidade (do hipertexto) é diferente da forma de ler em superfície e sequência (dos textos em papel, dos livros). Os hábitos são também mais de "ver" ( e de "ouvir") do que de "ler", o que explica o sucesso do YouTube como percursor de uma Rede em que se vai "ver" mais do que "ler".

Por isso, a campanha de publicidade resultará mais naqueles que chegaram a uma "cultura da Rede" mais do que a uma "cultura de blogue", ou seja, que não foram feitos "dentro" da "cultura de blogue", mas que ajudaram a fazê-la. Gente mais velha, com os pés em ambas as literacias, as do livro e jornal clássicos e as da Rede. Se foram estas as pessoas que deixaram de ler jornais pela décalage de interesses mais do que pelo facto de serem em papel, a campanha (e presumo que o jornal) terá sucesso, porque fará um produto mais próximo da sua agenda de interesses.

Os que já foram moldados pelos hábitos da Rede, os que se habituaram (como muitos adolescentes a chegarem ou nos primeiros anos na universidade) a olhar para o mundo no modo pick and choose típico dos blogues, nunca mais lerão em papel como se lia antes e não há campanha publicitária que os agarre. Vamos ver.
Podemos não gostar deste mundo, mas é o que existe lá fora. Neste processo, para onde foram os leitores dos jornais? Fugiram porque os jornais não lhes interessavam, ou porque já não precisam deles e não estão dispostos a pagar caro por aquilo que tem para eles apenas um utilidade marginal. Quem sobra é uma elite de uma elite, que continua a precisar e está disposta a pagar jornais de "referência", com a condição de que estes lhes forneçam informação de muito maior qualidade, o que, por regra, não acontece hoje. Só há uma maneira de os jornais competirem com os novos consumos mediáticos gerados pela televisão e pela rede, é serem muito diferentes do que eram no passado e serem únicos, ou seja, o que está ali não está em lado nenhum. E, mais fundamental ainda: não poder estar em nenhum outro lado.

(Continua)

(No Público de 17/2/2007)

*
Basta abrir a página do NYTimes na net para perceber o que é que um jornal de referencia tem de fazer para continuar a sê-lo. Como diz muito bem, é ser único no que publica. Para tal é preciso gente de muita qualidade que esteve disposta a tarimbar e a sofrer pelos pequenos jornais até chegar ao NYTimes. Já viu alguem tarimbar em Portugal? Todos querem começar em Lisboa. Quando o DN exigir que os seus jornalistas sejam licenciados, que tenham trabalhado pelo menos 5 anos nos jornais de provincia, que produzam trabalho que seja absolutamente original, por salários que nunca os farão ricos e que a fama e o respeito de seus pares é a sua verdadeira compensação, então teremos jornais de referencia. (e terem uma página na net não afecta nada, antes pelo contrário, ajuda a ganhar receitas de anúncios e leitores da cópia em papel)

(DG)

*

(...) os pontos que assinala na sua crónica no Público são sem dúvida pertinentes, e imagino que seja uma discussão que diariamente as direcções dos jornais portugueses (bom, em todo o Mundo...) se debatam. Como aumentar as vendas, como aumentar as vendas, como aumentar as vendas? Ah, e sem perder qualidade (referência vs popular/tablóide).

Todavia, julgo que se esqueceu de um caso que eu julgo que já se pode considerar de sucesso em Portugal (não é necessário irmos ao NYTimes): o Expresso.
Se há jornal de referência que conseguiu ultrapassar o processo de renovação, melhorando imensamente a qualidade e melhorando as vendas (além de resistir à nova concorrência), foi o Expresso.

E não foi só o produto em papel que melhorou. O seu sítio na Internet está, neste momento, fabuloso. Junta a simplicidade/usabilidade a uma diversidade de secções, que nenhum outro jornal tem. O Público, apesar de tudo, também tem agora um excelente site, mas não está ainda ao nível do que o Expresso conseguiu construir nos últimos meses.

Qual o sucesso do Expresso, no binómio papel/internet? Interactividade. Conseguiu com sucesso fazer com que os seus leitores interajam não só com as notícias em si, mas com os seus jornalistas, com os seus cronistas, com os seus entrevistados, com todos aqueles que fazem realmente um jornal, e com quem os leitores querem interagir.

Não basta lançar fóruns, podcasts, blogs, para pensar que se vai ter sucesso. Tem de se mobilizar aqueles que compõem o jornal a interagir realmente com os leitores, dando-lhes feed-back ao que estes dizem e escrevem, fazendo contacto directo. Os leitores não querem ser um elemento passivo, mesmo quando já há um certo grau de envolvimento com os novos meios digitais. Os leitores neste momento querem fazer parte do jornal, querem que os jornais lhes dêem importância (e não o contrário), querem que a sua opinião pessoal seja valorizada.

Pessoalmente julgo que o passo seguinte dos órgãos de imprensa, no futuro, será a sua redacção pelos próprios leitores, na linha do Wikipédia. Poderá não ser a melhor evolução, mas os jornais que não quiserem ver este passo lógico, terão certamente dificuldades...

(José Manuel Iglesias)

*

Considero que a tendência na evolução dos media em Portugal é claramente negativa. Tive esperança de que a entrada do arrojo do grupo Prisa (não vejo nenhum fantasma na pertença castelhana do capital) introduzisse qualidade, competência e competição. Mas o que o Rádio Clube até agora deu a ouvir está longe de preencher o vazio deixado pelo abandono que a TSF mostra do jornalismo de investigação e reportagem. No Rádio Clube falam, falam, mas há muito que nem sequer fale minimamente bem e ouço opiniões e comentários a mais e reportagens a menos.

Encontro o mesmo vício na imprensa portuguesa que leio (Público, DN, CM e Metro em papel, JN na net). Tornei-me leitora do DN quando há alguns meses a imagem do jornal foi refrescada e essa curiosidade me permitiu encontrar alguns textos jornalísticos interessantes, com bom equilíbrio entre notícias, reportagens e opinião e na atenção ao local e ao mundo. Apreciei a qualidade que José Pacheco Pereira refere do investimento no suplemento Economia. O DN não me satisfaz mas discordo de si (e parece que também da Administração do DN) quando afirma que o DN parece ter falhado. Pode falhar como negócio, mas deu passos firmes no jornalismo de qualidade. Aqui entra uma minha preocupação e vejo-me, eu, profundamente liberal, a interrogar-me sobre os riscos de toda a imprensa nas mãos de homens de negócios sem tradição de família de imprensa. A imprensa é um negócio, eu sei. Mas quando o “entorno” do país é rebaixado (desde o Big Show Sic e Big Brother) para o mais tablóide, quando a Escola não assume a dimensão crítica dos media, a qualidade da ambição dos consumidores de media baixa para níveis que confrangem quem tem mínimos de curiosidade sobre o mundo e sobre as boas ideias e negócios. Para acompanhar o mundo preciso de recorrer ao El Pais de que me tornei assinante, compro no fim de semana o IHT e o FT e, às vezes o Sunday Times e desfruto das indicações do excelente guia da actualidade oferecido na net pelo serviço público que é o Sena Santos Podcast (que substitui a falta de mundo dos noticiários radiofónicos). O que sabemos na imprensa portuguesa sobre o que se passa no mesmo Timor que há menos de dez anos tomou com exagero avassalador os media de Portugal? (abro excepção para uma rica short story de Pedro Rosa Mendes no Expresso de 2007-02-17). E o que sabemos de Angola e de Moçambique onde também deveríamos ser o primeiro dos observadores e transmissores da realidade? Também de S.Tomé, de Cabo Verde e da Guiné-Bissau? E da Europa a que aderimos? E do Brasil?

Temos o Público que tanto me entusiasmou quando apareceu mas que nos últimos anos passou a reflectir a realidade de um país em que os ricos recorrem à imprensa estrangeira e os pobres são alimentados pela imprensa que temos ou com os escândalos quotidianos ou com páginas e páginas de opinião. Falta a análise profunda e falta o testemunho presencial da reportagem. Senti um frémito de entusiasmo ao olhar a renovação do Público iniciada na última segunda-feira, o jornal ficou muito atraente à vista. Mas, em primeira impressão, não encontro nenhum enriquecimento de leitura, talvez até pelo contrário, e não gosto do desaparecimento de secções como Educação, Saúde ou Media. Vou esperar para ver mais e ver se me habituo.
É assim que cada vez mais me transfiro para a internet à qual estou a dedicar uma média de duas horas por dia. É na internet que encontro o fundo sonoro e é também na internet que encontro leituras que me satisfazem, mas conservo o gosto (mal correspondido) da leitura matutina de jornais em papel.

(Ana Costa)

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Sinceramente tenho quase a certeza que muitos (a maioria?) dos leitores / espectadores / consumidores de informação (mesmo os mais atentos) não se interrogam sobre estes assuntos e estas mudanças, simplesmente adaptam-se a elas fazendo as suas opções pelas várias ofertas mediáticas em função do que gostam / necessitam / valorizam. Há uns anos dei por mim a passar do papel p/ a Internet s/ dramas, quase s/ dar por ela. Hoje consumo dos 2 consoante as oportunidades que surgem (leio jornais quando viajo, uso a Internet no escritório). Esta ultima permite s/ custos uma infinidade de escolhas (site dos jornais em papel, jornais on-line, blogs, etc) no momento em que der mais jeito (pode-se ir lendo enquanto se trabalha) e por isso a prefiro. Além disso quanto menos papel se consumir mais ecológico se está a ser. Julgo que a tentativa do jornal-papel a competir c/ as multiformas informativas / opinativas da Internet é o mesmo que a carroça a tentar competir c/ o automóvel no inicio do Sec. XX, o prognóstico já era mais que certo quando o “jogo” começou. A lista de suportes de informação que apareceu e desapareceu (ou está em vias de extinção) nos últimos 100 anos é extensa e só prova a velocidade das mudanças. Ainda me lembro há pouco mais de 20 anos da guerra VHS / Beta ganha pelo 1º. Hoje já ninguém o quer. Lembro-me das enormes (no tamanho, não na capacidade) disquetes de 5 e ¼ (polegadas) serem derrotadas pelas de 3,5 (hoje CDs RW riem-se da irrisória capacidade de 1,4 MB). Foi para tudo isto que trabalhamos, para termos mais e melhores meios de suporte da informação, para termos mais e melhor acesso à informação, para sabermos mais. Como usamos as ferramentas que as melhores capacidades técnicas da humanidade puseram à nossa disposição, só depende de nós e das nossas sociedades, tal como a TV, a rádio, os jornais são aquilo que a sociedade fez deles. Não são as capacidades técnicas e características específicas dos meios de suporte / transmissão de informação que fazem deles bons ou maus, é o uso que lhes damos, a exemplo da dinamite de Nobel. Se usamos os meios que temos para trabalhos “pacíficos” ou para “bombas” a culpa será sempre das opções que as sociedades tomaram e que resultam da “soma” das opções individuais de cada um. Não foi preciso Internet p/ as revistas cor-de-rosa terem o sucesso que têm e promoverem as “figuras” que promovem e que muitos consomem, alimentando um negócio de milhões. Se numa sociedade se dá mais importância ao enésimo romance da Xáxá Carlota Joaquina do que à educação, saúde, etc, a culpa não é dos media, nem dos seus donos, é de quem compra / consome Xáxá Carlota Joaquina e se borrifa p/ a saúde e a educação. Numa sociedade democrática e c/ mercado livre o consumidor é que manda. Por muito que lhe seja mais confortável culpar os outros (os médias, os donos dos médias, os que produzem conteúdos, etc, etc) o consumidor num mercado livre é o único responsável pelo que aparece e pelo que desaparece do mercado, são as suas decisões de compra que definem o que tem e o que não tem êxito. O resto é conversa

(Miguel Sebastião)

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15.1.07



BOAS / MÁS / PÉSSIMAS COISAS NA COMUNICAÇÃO SOCIAL PORTUGUESA EM 2006
VISTAS POR UM GRANDE (EM QUANTIDADE) CONSUMIDOR (beta)


NOTAS DE ABERTURA

Escrevo no Público e na Sábado e participo num programa da SICN. Se esses são conflitos de interesse, aqui ficam registados. Este balanço depende muito do que li, ouvi e vi directamente, logo pode ser desigual e injusto com muito de bom ou mau na comunicação social. Por exemplo, ouvi muito pouca rádio este ano, vejo poucas vezes a TVI com excepção dos noticiários, mas leio quase toda a imprensa. Esta primeira versão do texto é ainda uma aproximação. Algumas entradas ainda não estão desenvolvidas. Como sempre, espero dos leitores do Abrupto opiniões, sugestões, correcções e debate, antes de fazer um texto definitivo.

BOAS COISAS


Novos jornais: Levanta-se o Sol e melhora o Expresso. O Expresso melhorou muito signicativamente com o seu novo formato e com algumas mudanças na arrumação interior. O Sol quer ser tudo e mais alguma coisa e isso tem um preço: quando têm notícias elas tendem a ser desvalorizadas


O papel crescente das novas tecnologias na comunicação social portuguesa: os podcasts na rádio, o sector multimédia da RTP/RDP e o Sapo XL ( mais ligado à SIC ) com um canal na internet.


O Provedor do Público mostra que começa a existir, pela primeira vez na história recente da comunicação social portuguesa, um ambiente favorável à verificação da qualidade do trabalho jornalístico. Esse controlo deve vir dos pares e dos leitores, do debate público e do trabalho científico e não de qualquer regulação imposta pelo Estado. É o debate público a solução. Felizmente os tempos mudaram e hoje começam, ainda que de modo ténue, a ver-se os resultados e acima de tudo as vantagens. No caso português dois factores foram fundamentais: o trabalho de alguns Provedores dos Leitores e os blogues. O Provedor dos Leitores do Público não caiu nem na complacência corporativa nem no receio de ser mal visto pelos jornalistas da casa.

Melhorias gráficas nos jornais (Diário de Notícias, por exemplo) e excelentes ilustradores e cartonistas num número significativo de jornais (Expresso, Diário de Notícias, Público, etc.), uma massa crítica com uma qualidade ímpar tendo em conta a pequenez do nosso meio comunicacional.


O Correio da Manhã é um bom jornal. É o que pretende ser e acaba por ser mais alguma coisa do que aquilo que pretende ser.


A imprensa de distribuição gratuita está boa, e é cada vez mais e mais diversificada.



A Sábado é o órgão de comunicação social portuguesa mais subestimado, vítima das “sinergias” que lhe faltam: não tem quem puxe pelas suas notícias nos outros órgãos de comunicação social. Mas que tem notícias, isso tem, por detrás daquelas capas sensacionalistas. Repito ipsis verbis o que disse o ano passado acrescentando que o sucesso da Sábado face à Visão levou-a a ultrapassá-la nas vendas em banca, o que é um feito. A Visão precisa mesmo de levar uma volta.


Alguns dos programas do Prós e Contras foram os melhores (nalguns casos os únicos) debates sobre matérias de interesse público.


Na nossa "era dos engraçadinhos" o humor tornou-se prato forte das televisões. Há de tudo, bom e mau. O Gato Fedorento é o melhor de longe, mas está a seguir o ciclo perigoso de Herman José: o sucesso começa a ter o preço do desgaste que resulta de muitos programas, muitas horas, muita publicidade e não há graça que sustente tanto "humor". Herman José na sua queda, não deixando de ser o génio do humor que sempre foi (e estou certo que voltará), deve olhar para trás e reconhecer nos Gatos o mesmo caminho que ele trilhou assombrado pelas mesmas tentações.


As séries da Fox no cabo, e nas séries, as da HBO. Muito dividido entre os Sopranos e Deadwood, inclino-me para considerar Deadwood a melhor série televisiva que jamais vi, depois da Twilight Zone original.


Na SIC Notícias: Mário Crespo. Crespo tem um estilo de entrevista informado, estudioso, empático, que resulta muito bem no espaço temporal de que dispõe. A saída de João Adelino Faria é uma perda importante para a SICN.


Na blogosfera: o debate político. Os blogues políticos de todas as cores continuam a ser a parte mais dinâmica da blogosfera, contra todas as cíclicas previsões em contrário. O debate pode ter todos os defeitos da "atmosfera", mas tem também qualidades que só há na blogosfera. Repito ipsis verbis o que disse o ano passado.

Pelo contrário, o papel da blogosfera nas micro-causas esbateu-se, em parte pela banalização do termo e da função, noutra parte, porque a imprensa em papel pega rapidamente nos temas da blogosfera e apaga a assinatura original. Os blogues de jornalismo também perderam alguma acuidade e foram menos activos e menos críticos.


Livros e revistas sobre jornalismo.


COISAS MÁS / PÉSSIMAS


A política comunicacional governativa. O objectivo de todos os governos face à comunicação social é sempre o mesmo: controlá-la, quando não se consegue controlá-la, moldá-la, quando não se consegue moldá-la, neutralizá-la, quando não se consegue neutralizá-la, penalizá-la. O actual governo do PS beneficia das velhas vantagens que os socialistas sempre tiveram na comunicação social, um número significativo de jornalistas está melhor com o PS (a "esquerda") no governo do que com o PSD ou o CDS (a "direita"). Isto é verdade para jornalistas da "esquerda", mas também para muitos da "direita" (veja-se a imprensa de "negócios"). Mas, a esta velha realidade, o actual governo soma outras: tem maioria absoluta e fraca oposição, tem muito tempo à sua frente para governar. Isso permite-lhe nomear as pessoas-chave para os lugares-chave, o principal mecanismo de controlo da informação nos dias de hoje, num número significativo de cargos dado o peso da nossa comunicação social estatal. Através de decisões "económicas" ou de regulação, pode usar a cenoura e o pau para os grupos privados, beneficiando também da enorme dependência que em Portugal existe do Estado e do governo em múltiplas decisões que deveriam estar fora do Estado e da política e não estão. Por fim, unindo muito significativamente num mesmo ministro uma função puramente política (os "assuntos parlamentares") com a comunicação social, usa o governo para legislar por forma a manter um controlo rígido sobre o sector.


Entidade Reguladora para a Comunicação Social. A ideia da sua existência já é má, a sua actuação tem sido péssima. Recebida com alguma expectativa, a que não era alheia uma certa benevolência depois do descalabro da Alta Autoridade, a ERCS auto-imolou-se na forma como tratou da questão da crítica do Público à governamentalização da RTP.

A ausência de programas de informação nas televisões generalistas.



Na RTP: a cobertura dos assuntos da UE.




A imprensa generalista cai. Agravou-se a crise e a solução não está em mais do mesmo (não há solução evolutiva, evolucionista), mas em pensar de forma radical, a nova economia global da comunicação. Em papel, na rádio, nos ecrãs (televisão e computador) e na Rede .


A Antena 2 é demasiado loquaz . Não mudou.




Truques na blogosfera portuguesa para incrementar visitas e ligações artificialmente. À medida que a blogosfera se torna mais relevante quer no plano político, quer no plano dos negócios, a tentação de usar mil e um pequenos truques - criação de falsos blogues, criação de redes de blogues densamente ligados por referências mútuas para subir no rankings, colocação estratégica de contadores, truques de indexação para aparecer no Google, número elevado de auto-ligações, etc., etc. - tem vindo a crescer.


Na 2: Clube dos Jornalistas, perdeu qualidade e relevância. Começou a ter “causas” e a querer ouvir dos seus convidados a justificação dessas “causas”. Perdeu interesse e tornou-se mais conformista com o velho jornalismo do que o que já era.

Os blogues dos jornais em geral. Há excepções, mas a regra é má. O Público é a excepção e tem a melhor série de blogues, com Ponto Media, o excelente Arte Photographica, e o Timor . Foi pena ter perdido o Da Rússia de José Milhazes. Os blogues do Expresso são a regra. No seu conjunto, esses blogues não são vistos como tais pelos seus pares como se verifica pela quase ausência de citação. É como se não existissem.


A versão em linha do Diário de Notícias que tem um sítio mal feito, mal desenhado, desleixado e mal mantido. Já me aconteceu várias vezes encontrar entrevistas em que o entrevistado nunca chega a ser identificado em linha, pelo que não se sabe de quem são as declarações. O Público alargou as matérias acessíveis sem assinatura, o que é uma evolução positiva, e tem o melhor sítio na Rede.


O excesso de futebol em todas as televisões, mas com mais gravidade na RTP que por ser "serviço público" devia escapar às pressões das audiências. O futebol invadiu o horário nobre, o burguês e o plebeu. Invadiu os telejornais, os programas de informação, numa dose que duvido sequer existir nas televisões sul-americanas.


A tendência crescente para a violação da intimidade e da privacidade em toda a imprensa, de referência e "cor de rosa". O Expresso e o Sol deram exemplos negativos e o que se passa nas revistas "cor de rosa", do jet set, do "coração" e quejandos, já ronda o mais miserável voyeurismo.


A política de gestão de canais da TVCabo.



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Não concordo com a opinião expressa sobre as entrevistas de Mário Crespo na SIC Notícias.
É um facto que nessas entrvistas se reconhece um trabalho prévio de estudo dos assuntos em debate, o que não é muito comum no jornalismo da televisão.
Mas Crespo revela-se um jornalista de tal foma radical que, muitas vezes, deixa-se enredar em pesquisas enviesadas que o levam a insistir, perante os seus entrevistados, na defesa de teses completamente absurdas.
Por exemplo: quando se trata de terrorismo e de terroristas, Mário Crespo faz as suas entrevistas partindo do pressuposto que o único problema a resolver neste capítulo chama-se Estados Unidos da América.

(Francisco Oliveira Baptista)

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Desagradou-me o texto da sua leitora Margarida Oliveira relativo a Marcelo Rebelo de Sousa. Não que esteja em desacordo com tudo o que ela escreve; por exemplo, também não gosto da maneira como ele trata as entrevistadoras. Mas não percebo porque é que recupera a tese do «contraditório». Porque é que havia de o ter? Quando ouço ou leio um analista político não estou à espero da existência de um contraditório, nem percebo porque é que deveria existir. E porquê só dizer isto de Marcelo Rebelo de Sousa? Porque não de Paulo Portas ou de Miguel Sousa Tavares? Quanto a ter uma «agenda», sim, é claro que a tem. E depois?
Mais uma vez, também é esse o caso de Paulo Portas. Já reparou como as pesoas têm tendência para só se aperceberem de que um político tem uma agenda quando não simpatizam com ele? Finalmente, quanto ao facto de as «entrevistadoras» (estou de acordo com as aspas) serem sempre mulheres, o que é que tem de especial? No tempo da TVI eram quase sempre homens.
Desde que passou para a RTP, só teve dois interlocutores que, sim, são mulheres. Mas não é verdade que quase todas as entrevistas feitas pela RTP são feitas por mulheres? Porque é que havia de ser diferente no caso de Marcelo Rebelo e Sousa?

(José Carlos Santos)

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Julgo que o aparecimento do Sol levou o Expresso a piorar e a melhorar ao mesmo tempo. Melhorou nos editoriais, na informação e na opinião, mas piorou no lado voyeur, no sarcasmo fácil de algumas colunas tendo como pior exemplo a coluna Gente (anónima), muitas vezes insultuosa. Julgo por isso que haveria ainda espaço (intelectual pelo menos) para um terceiro semanário que elevasse o nível e pudesse talvez elevar os outros dois.

A Sábado, talvez seja subestimada mas terá então muita culpa devido às capas que escolhe. Vergonhosas algumas, a de Pinto da Costa e Carlina Salgado por exemplo é de muito mau gosto.

Os três diários ditos desportivos mas que são na realidade futebolísticos (as outras modalidades raramente têm o destaque que merecem, e mesmo o futebol é mal retratado, desde a relação entre os “grandes”, onde uns “grandes” são maiores que outros, e a dos “pequenos” onde uns são menos “pequenos” que outros) devem entrar nas coisas péssimas. Primeiro por apresentarem-se como desportivos (o que não são de facto), segundo por se apresentarem como imparciais, basta pegar nas capas e vê-se bem que não o são (o exemplo do jornal O Jogo que tendo duas capas diferentes, uma para o Norte outra para o Sul, demonstra cobardia jornalística), 90% dos dias o destaque principal das capa não corresponde a uma notícia que mereça tal coisa.

O horário pós-laboral e nobre da TVI dominado por novelas de paupérrima qualidade. A exibição quase diária da série Doctor House é algo positivo embora demasiado tarde, para não falar da confusão que foi a mudança da segunda série para a terceira série sem explicação nem sequência lógica.

A revista Blitz cuja mudança de formato (de jornal para revista) parece ter sido positiva, sobretudo a nível das fotografias, exemplo disso mesmo foi o número que saíu sobre os Xutos e Pontapés.

Filipe Pinto da Silva (Bruxelas)

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No sua resenha do melhor/pior da comunicação social, parece-me injusta:


1. (no Bom) a exclusão do programa da Dois, "Por outro lado", da jornalista Ana Sousa Dias. Para além de uma escolha de entrevistados nem sempre muito "mediáticos", que nos permite conhecer pessoas com valor e que passam ao lado da maioria da informação usual, agrada-me o tom intimista da conversa e efectivamente a tentativa conseguida de obtermos o tal "outro lado" do entrevistado.

2. (no mau) a exclusão do tempo de antena dado a Marcelo Rebelo de Sousa (MRS). Mesmo reconhecendo as qualidades do Professor, nunca consigo ver o programa sem perder a ideia de que MRS tem a sua própria "agenda". Continua a não haver contraditório sendo a entrevistadora muitas vezes interrompida abruptamente por MRS. Aliás, considero a figura da jornalista neste programa do mais ingrato que há porque MRS está (mal) habituado ao que fazia na TVI (sem dúvida muito pior). Não fazem sentido as "encíclicas" dominicais de MRS.
Escaparam-me à altura as razões pelas quais Ana Sousa Dias abandonou o programa de MRS e também acho curiosa a coincidência (será?) de as "entrevistadoras" serem sempre mulheres.

(Margarida Oliveira)

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Concordo com tudo o que tem dito sobre a situação do provedor do Público, nomeadamente no caso presente do plágio que, na minha opinião, nem resulta do fascínio pela ideia alheia, mas apenas num facilitismo em que lhe parece que "pr'o que é, bacalhau basta". Fez tudo em cima do joelho achando que ninguém daria por nada.

Acontece que continua a falar do assunto como uma arrogância daquelas que me habituou a pensar "esta atitude apoia-se em quê?". Nos meus tempos de juventude perguntava sem rodeios que é que dorme com quem nesse filme, mas hoje não sei como é que estas coisas funcionam. O que sei é que, em face de algo tão grave como isto, ela continua a falr como se nada tivesse feito e a transpor as culpas para o provedor, com alguma anuência do Conselho de Redacção.

Vamos a ver se o seu entusiasmo perante um "jornal diferente" não vai acabar num lastimoso "pobre país a nosso", como já lhe aconteceu noutras alturas.

(Henrique Jorge)

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Eu sou um aficionado de desporto. Mas raramente compro jornais desportivos em Portugal .Os três jornais desportivos que existem em Portugal - A Bola http://www.abola.pt/ , O Record http://www.record.pt/ e O Jogo http://www.ojogo.pt/22-325/index.htm - são jornais em que não me revejo .

Desde logo , deviam ser apelidados de Jornais Futebolísticos , em vez de Jornais Desportivos , porque o peso do Futebol é tremendo , remetendo as restantes modalidades para o marasmo .

Alem de que é um jornalismo acrítico , repetitivo , com uma grande dependência das fontes e que se limita a servir de eco para os dirigentes mandarem os seus recados . Muitas vezes as peças assinadas nos 3 jornais referidos roçam o ridículo , como por exemplo quando se descreve as "peladinhas dos treinos " , ou as ementas dos almoços dos jogadores antes de qualquer Benfica - Sporting ou Porto - Benfica .

Nota positiva no jornalismo desportivo , a revista “ Record 10 “ , que é distribuída com a edição de Sábado do Record . Grande destaque para as “ Outras Modalidades “ , com reportagem e entrevistas com os principais atletas a nível nacional e internacional , um bom grafismo e colunistas corajosos e independentes .

(João Melo)

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