ABRUPTO

13.3.08


SETAS, COR, FUNDAÇÃO E HISTÓRIA



Neste caso, Menezes apenas prosseguiu um caminho de descaracterização iniciado por outros. Começou na JSD, ainda no tempo de Cavaco, e, depois acelerou-se com Durão Barroso continuou com Marques Mendes. Menezes deu apenas mais um passo, ao substituir o laranja pelo azul no fundo. A cor laranja, sabemos por vários relatos, foi escolhida em 1974 porque não havia outra disponível, mas a verdade é que a cor ficou como um traço forte de identidade feito pela história do PSD. Se dissermos os "laranjas", os "laranjinhas", sabe-se que falamos do PSD, se dissermos os "vermelhos" é com o PCP. Os outros "vermelhos", os do PS e os azuis, ficaram sem identidade colorida.

Apagar a cor é um passo significativo à luz dos dias do presente, mas, do ponto de vista simbólico, para o PSD é mais importante o que se passa com as setas do que com a cor. A cor tem a ver com a história, as setas com a fundação, o acto genético que para bem e para mal, é a marca de fundo do PSD. Ora as setas são três e não uma, e a sua transformação numa única significa apagar da memória do partido de onde é que vieram estas setas e por que razão Sá Carneiro e os fundadores as escolheram como símbolo.


Desenho de Cid que estava no sítio do PSD.

A origem das setas é a resistência da Frente de Bronze, de que faziam parte os social-democratas alemães, contra o nazismo, e essa génese foi descrita num texto de Pedro Roseta. Os resistentes alemães usavam as três setas para estragar o efeito da cruz gamada, e isso vinha descrito num livro de culto que era lido pelos que tinham possibilidade de o ler, porque estava proibido pela censura antes do 25 de Abril. Esse livro de Tchakhotine, A Violação das Massas pela Propaganda Política, foi certamente a fonte do símbolo, como se pode ver na reprodução aqui ao lado de uma das gravuras do livro. As três setas eram de um modo geral desenhadas de cima para baixo (quando virei a bandeira do PSD estava mais perto do seu símbolo do que com esta coisa ...) e significavam por parte dos fundadores a procura de uma fonte de legitimidade política para o partido, que não tivesse uma raiz marxista (como no PCP e no PS), nem conservadora. Essa procura resultou num híbrido muito especial entre o personalismo cristão, o liberalismo político e a social-democracia. Esse híbrido foi feito pela história do PSD, o "programa não escrito", e cortar qualquer uma das suas componentes genéticas é alterar o carácter do partido. Pode parecer incómodo para muita gente que as três setas sejam as mesmas do cartaz do lado, mas a história é assim, é o que é, e deixa marcas. Sem as marcas, somos outra coisa. Fazê-lo por razões de marketing, imagem e publicidade, indo para a seta única, substituindo as "antiquadas" três setas, como o PS fez com o punho, e pintar o partido do estandardizado azul (na verdade o mesmo azul da CDU e pelas mesmas razões), significa ou ignorância, ou novo riquismo deslumbrado, ou as duas coisas. Não sei se foi esta "mudança de imagem", a da setinha rabiante, , que a Somague pagou ilegalmente ao PSD. Se foi, foi um bonito serviço.

Se querem modernizar as setas, são as três setas que têm que modernizar e não uma. Se querem des-laranjar o partido têm que encontrar melhores razões do que o marketing. Se querem fazer um "novo partido", deixem este aos que ainda são fiéis ao legado de Sá Carneiro.

*
Concordo inteiramente com a análise que faz no seu post "Setas, cor, fundação e história". É de facto preocupante como obscuras razões de marketing alteram precipitadamente os traços identitários de um partido como, no caso do PSD, as três setas e a cor laranja. Devo dizer que também nunca gostei da alteração do símbolo, efectuada já no tempo de Durão Barroso, e nem sequer me parece que essa alteração traga qualquer benefício em termos de imagem.

A alteração dos símbolos expressa quase sempre uma tentativa de romper com o passado de um partido, em ordem a criar nos eleitores a ideia de que nada se tem a ver com a prática anterior. António Guterres passou a usar a rosa em vez do punho, embora este se tenha mantido formalmente como símbolo do PS. Manuel Monteiro mudou o nome do CDS para Partido Popular e também fez alterações estilísticas ao símbolo, tendo Paulo Portas desfeito essa mudança quando assumiu a liderança, voltando a falar em CDS e a usar o símbolo anterior.

Diferente foi, no entanto, a atitude de Álvaro Cunhal. No dia em que Boris Ieltsin aboliu a bandeira comunista e a substituiu por aquela que tinha sido da Rússia czarista, lembro-me de ter visto Cunhal na televisão, filmado ao lado da bandeira do PCP, a dizer: "Nós não abdicamos da nossa bandeira". Embora nunca me tenha identificado com as suas ideias, acho esta atitude muito mais coerente.

(Luís Menezes Leitão)

*

Na verdade estamos perante um truque de ilusionismo. O que aqui se tenta é deviar o foco da atenção do manancial de críticas para um outro assunto que dá sempre polémica, a mudança de imagem. Na verdade nada mudou. O logotipo é igual ao que foi pago pela Somague. A aplicação de um fundo azul não pode ser considerada uma
mudança, é só uma aplicação do Logotipo, mas que em outras situações poderá ter outro fundo. Num cartaz branco o fundo será branco. É preciso que tudo mude para que tiudo fique na mesma. Mudança de logotipo foi a efectuada nos tempos do Menino Guerreiro, em que se escolheu um globo medonho por baixo do lettering PSD. Trabalho dos famosaos consultores importados cujo trabalho em termos de comunicação política ainda hoje é recordada com espanto.

(Manuel Soares de Oliveira)

*

(...) Pessoa amiga sabendo do meu "defeito", chamou-me a atenção para o post de hoje "SETAS, COR, FUNDAÇÃO E HISTÓRIA" e sabendo a profunda admiração que tive e tenho por Francisco Sá Carneiro, permitiu-se a ousadia de me pedir um comentário ao que se está a passar, especialmente porque fui uma das pessoas que lhe emprestei o livro de Serguei Tchakhotine, A Violação das Massas pela Propaganda Política (que entretanto me desapareceu...).

Ora, a descaracterização do símbolo é o final de um percurso, já encetado por outros, para apagar memórias e simbolismos. (...)

(Otília Martel)

*

Há qualquer coisa aqui na questão da seta que não anda a bater certo. Esta seta ontem apresentada nem sequer é nova. Ela apareceu no tempo do Dr. Durão Barroso e não tenho ideia de tamanhas reacções. Depois veio o logo das três setas do tempo de Santana a dar a volta ao mundo (terá sido este o da Somague?). Marques Mendes foi quem reabilitou as três setinhas arredondadas, que surgiram no cavaquismo e que por sua vez já tinham sido uma modernização das três setas iniciais, mais rectilíneas.
A seta continua laranja, a cor do PSD continua o laranja.

Concordo que deveriam permanecer as três, mas também lhe digo que, para mim, esteticamente, esta nova seta laranja em fundo azul fica muito, mas muito mais bonita e interessante que todos os anteriores logos, mas isso já é subjectivo e vale o que vale, ou seja, nada. Todos os partidos, sem excepção, fizeram modernizações dos seus logotipos. Todos. O PS passou do punho para a rosa, o PCP passou de letras brancas em fundo vermelho para letras vermelhas e o último P em verde sobre fundo branco, etc. etc. Ver nisto um renegar da história parece-me muito forçado e eu no seu lugar não ia por aí, principalmente porque este é o logotipo criado originalmente no tempo de Durão Barroso e não agora, ex novo. Esse logotipo que o Senhor está a usar no post como sendo de agora e supostamente pago pela somague não é o de agora, é o logo do tempo do Dr. Durão Barroso. (...)

(Luís Bastos)

*

É muito interessante esta prespectiva. Desconhecia em absoluto a história das setas do PSD, mas dá para constatar que é exactamente o mesmo que retirarem a foiçe e o martelo a um Partido Comunista. Mexer na identidade de um partido e nos seus simbolos tem sempre uma leitura política, parece-me que no essencial a sua leitura está acertada. Por outro lado, e a propósito do azul, acho interessante um dualismo particular entre os Estados Unidos e a Europa no que diz respeito às cores. Assim enquanto por cá a cor azul está normalmente associada aos partidos conservadores( o PP em Espanha, o RPR em França, a CDU na Alemanha ou os tories em Inglaterra são disso exemplo), e o vermelho à velha esquerda, na américa dá-se o inverso- e aos Repúblicanos está associado o vermelho, enquanto os democratas são blues. Nos últimos tempos contudo parece-me que se tem diluído papel da cor na simbologia agregadora de um partido político, por força das regras do Markting. Um partido demasiado identificado com uma cor ou com um campo deixa de poder cumprir devidamente o seu papel de Cacht All. É a vitória do centrismo e do mercado eleitoral sobre os valores- sem dúvida que o é, mas não vejo modo de mudar isso, porque implicaria mudar as regras do que é fazer política no século XXI. E de resto por cá, como bem assinalou, o PCP até "equipa" de azul... Não creio que a cor nos dias que correm tenha exactamente o mesmo peso que as setas, mas percebo a preocupação dos militantes do PSD. É que há sempre um fundo de sacralidade em qualquer simbolo.

(Pedro Pita Soares)

*

Permita-me que me pronuncie sobre o caso do símbolo, ainda que nunca tenha votado PSD. Analisando o evoluir dos símbolos, apreciei o seu artigo sobre o significado de setas censoras e das do PSD.

Vejo o novo enquadramento do símbolo do PSD como:

A aplicação de uma assinatura inclinada e de uma seta encurvada e desequilibrada (muito tronco para pouca base) num centro em forma de um duplo círculo, que parece aludir à dupla volta do símbolo @

Sobre este conjunto de signos publicitários ocorre-me o seguinte:

- embora apareça em fundo desmaiado e azulado, o duplo círculo é a forma que ressalta;

- nele, a simulação de um @ remete-nos para os símbolos e os ícones da Comunicação&Informação;

- sendo este tema-ícon mais actual do que a seta curva, a sobreposição obriga-nos a um ajuste permanente de significação;

- a assinatura inclinada corresponde a pretensiosismo, pelos dados da grafologia;

- o símbolo da seta pode ser perturbador, pelo desgaste que se adivinha na determinação que pretende sugerir;

- as setas não encurvam nem rabiam - esse é o movimento que esperamos encontrar nos espermatozóides;

- existindo setas antigas, mais valeria deixá-las como nasceram.

Diria, assim, que tal símbolo nos pretendem obrigar a esta leitura subliminar: Um pretensioso espermatozóide tenta brincar com o mundo digital.

(MJ)

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11.3.08


A PURGA

Começou.

"A Comissão Permanente do PSD chamou hoje Rui Rio a prestar declarações ao Conselho de Jurisdição Nacional do partido e, face à promessa de demissão de António Capucho, agradeceu os serviços prestados pelo social-democrata."

Menezes que atacou publicamente Cavaco, Marcelo, Durão Barroso, e Marques Mendes, em literalmente centenas de entrevistas, artigos, declarações, num blogue escrito em seu nome por um assessor da CM Gaia, em comentários televisivos na SICN, em directos feitos de sua casa enquanto decorriam Congressos do PSD em que não estava, e nalguns livros, quer intimidar e varrer do partido os seus críticos internos.

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6.3.08


EM DEFESA DA DEMOCRACIA INTERNA NO PSD (5)

Dez antigos secretários-gerais do PSD manifestam-se contra os regulamentos propostos pela actual direcção do PSD e exigem discussão:
«O PSD rege-se hoje por um conjunto de regras marcadas pela preocupação de garantir clareza e transparência na sua vida interna. E causa genuína e profunda perplexidade que, nos documentos agora propostos, se possam encontrar soluções que interrompem essa orientação»(...) "Não se vislumbra por isso qualquer motivo para o modo apressado como se pretende conduzir o processo, impedindo as estruturas e os militantes do PSD de participarem na discussão e de darem contributos que possam melhorar, em concreto, as regras hoje em vigor."
Cada vez mais as pessoas percebem o que se está a passar.

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EM DEFESA DA DEMOCRACIA INTERNA NO PSD (4)



Aqui estão as principais reivindicações dos especialistas em ganhar eleições através da manipulação dos ficheiros nas secções, que os regulamentos do PSD vigentes até agora dificultavam. A partir de agora, se forem aplicados estes regulamentos, podem controlar nas secções a condição de militante e os cadernos eleitorais, admitir dezenas de novos membros nas vésperas de eleições, pagar colectivamente a quota a quem entenderem, sem um efectivo controlo quer local, quer nacional.

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EM DEFESA DA DEMOCRACIA INTERNA NO PSD (3)

Espero agora ouvir Rui Rio e Marcelo Rebelo de Sousa, que foram os autores da introdução pioneira de boas práticas, saudada na época como sendo moralizadora da democracia interna dos partidos portugueses. Com estes regulamentos, essas práticas acabam de vez, o que os coloca directamente em causa.

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EM DEFESA DA DEMOCRACIA INTERNA NO PSD (2)

Castro Almeida (do Conselho Nacional) tem razão sobre as propostas de Regulamentos: "isto é andar para trás 15 anos". E exige tempo para se analisarem mudanças tão significativas pelo que tem a minha assinatura no abaixo-assinado encimado por um conjunto de conselheiros nacionais, exigindo um debate interno e externo e que muitos militantes estão a assinar.

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EM DEFESA DA DEMOCRACIA INTERNA NO PSD

A direcção do PSD prepara-se para levar a votação no próximo Conselho Nacional uma série de documentos como o Regulamento Financeiro, Regulamento de Quotas, Regulamento de Admissão e Transferência de Militantes, e Regulamento das Estruturas de Emigração, que são até agora desconhecidos dos militantes e dos próprios membros do Conselho Nacional, em vésperas da reunião. Esta situação é inadmissível num partido democrático e, a julgar pelas posições avulsas que foram conhecidas na última campanha eleitoral interna, é legítimo suspeitar que possam levar à destruição do que ainda sobrava das propostas de moralização e rigor na vida interna que datam do secretário-geral Rui Rio e de Marcelo como Presidente do PSD. Controlo dos cadernos eleitorais pela sua fixação atempada, pagamentos individuais de quotas para impedir os pagamentos colectivos a desoras nos multibancos, prazos de pagamento para evitar a viciação dos actos eleitorais, rigor nas transferências de militantes para impedir brigadas móveis que se deslocam de secções para secções ao sabor das necessidades, etc., etc., tudo isto pode estar em causa daqui a dois dias. Por isso, solidarizo-me com a exigência de um grupo de conselheiros nacionais para que haja pelo menos um período mínimo de um mês para a análise e discussão dessas propostas. É a democracia interna do PSD que está em causa, com o regresso de velhas práticas de manipulação.

ADENDA: Os regulamentos foram entretanto divulgados na página do PSD, a 48 horas da reunião, e uma primeira leitura permite confirmar as piores suspeitas. Introduz-se o pagamento a dinheiro sem controlo, a possibilidade das secções passarem a receber directamente as quotas, o que abre caminho às práticas de caciquismo já conhecidas do passado. Pretender aprovar estes documentos, desconhecidos da maioria dos membros do partido e nunca discutidos, coloca seriamente em causa a democracia interna do PSD.

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2.3.08


OS PERIGOS DO CALCULISMO NO PSD

O que eu digo sobre a liderança actual do PSD não é surpresa para ninguém e, como não sou candidato a nenhum lugar, não tenho a tentação de medir as minhas palavras nem ao metro, quanto mais ao milímetro. É verdade que, mesmo que o fosse, hoje faria o mesmo, falaria na mesma, porque penso que não vale a pena as pessoas enfeitarem-se com silêncios e pudores e prudências e tácticas, quando o problema de fundo é suficientemente grave para exigir outra atitude. O facto de o PSD caminhar para as eleições de 2009 sem sequer a remota esperança de ser uma alternativa, é um problema nacional. A falta de tónus crítico e a desesperança na sociedade portuguesa reflectem o facto de esta não se reconhecer no sistema partidário como instrumento de mudança e acabar por protestar usando veículos como os sindicatos da CGTP. Historicamente foi o PSD que forneceu esse contraponto ao PS, hoje não é. A visita de Menezes à Fenprof, em si, não teria nada de mal, porque os sindicatos não são pestíferos, porém no momento actual ela significa o encontro de um fraco diante de um forte, o encontro de uma oposição ineficaz com uma oposição eficaz, uma admissão de impotência deixando atrás de si um ónus grave para qualquer governo do PSD que queira fazer reformas.

Há quem diga, num resto da cultura antiga de partido-camisola, que falar como eu falo é que impede o caminho glorioso do PSD para o poder. Acho isto uma treta, se me permitem usar um plebeísmo. Uma liderança que se afirmasse junto do país, e isso é que conta, nunca seria sequer beliscada pelo comentário político, que aliás já tem a maturidade e independência suficiente para reconhecer, caso existisse, o mérito de uma solução mesmo contra as opções pessoais. O problema do PSD não sou eu, nem Marcelo, nem nenhuma das vozes críticas, é Menezes, a sua direcção e entourage, uma parte da qual permanece discreta fora dos lugares, e é um partido cujo rank and file não quer de todo admitir que as suas escolhas messiânicas, desde o "menino guerreiro" ao actual líder, não querem defrontar os verdadeiros problemas do partido e da sua relação com o país, a crise enorme de credibilidade a nível nacional, a falta de esclarecimento e responsabilidade em casos como o do casino, ou todos os que, sendo assacados ao PP, ocorreram em governos com primeiros-ministros PSD que são obrigados a explicar o seu papel. Ora o PSD prepara-se para chegar a 2009 com face da derrota de 2005 e, por muito que isso possa agradar a Santana Lopes, para pela enésima vez se medir com o seu próprio espelho, é péssimo para o PSD e o país.
Marques Mendes podia ter tido a tentação de escrever isto contra Menezes, mas, mérito seu, nunca o escreveu. Nem a Distrital do Algarve teve alguma vez qualquer problema em ver Menezes a criticar Marques Mendes nas "nas tribunas de opinião que generosa e não inocentemente lhes são atribuídas na comunicação social portuguesa", certamente com a conivência do PS, como o Correio da Manhã, na SICN, em livros e em múltiplos reuniões, colóquios e entrevistas, "numa gigantesca campanha de assassinato político em curso contra o líder do PSD":
"Tal campanha conta com a vergonhosa cumplicidade e conivência activa de um conjunto de protagonistas, cujo nome ainda figura na listagem de militantes do PSD, e que nas tribunas de opinião que generosa e não inocentemente lhes são atribuídas na comunicação social portuguesa, não se coíbem de exibir com despudor as suas críticas à liderança do PSD, ultrapassando todas as regras mais elementares do respeito pela dignidade política e pessoal"
Mas há outras responsabilidades. Há no PSD quem seja candidato à liderança, ou pense que o possa ser, que tem a pior das ideias sobre a situação do partido e a sua liderança, e que mesmo assim ande enredado em palavras mansas e institucionais e prudentes e... hipócritas. Quando ouço dizer que "Menezes deve cumprir o seu mandato", ou que "é preciso dar tempo a esta liderança para mostrar o que vale", por parte de pessoas que não têm nenhuma dúvida sobre o que ele "vale", e que no fundo só estão à espera que ele perca as eleições, assunto sobre o qual não têm também a mais pequena dúvida, eu tendo a pensar que elas são parte do problema e não da solução. Menezes é também filho desses cálculos.

Já o argumento de Marcelo, que lhe marcou o prazo de validade para o Verão, de que os militantes mais activos do PSD, os da camisola, ainda não estão convencidos de que Menezes não chega lá, porque ele anda a dizer nos almoços e jantares de fim-de-semana que subiu nas sondagens, deve ser tomado mais em consideração. Penso, aliás, que é verdade, que ainda não se esgotou a esperança do milagre do "já", que foi um elemento fundamental da sua vitória sobre Marques Mendes, e que, como Menezes faz o grosso da sua actividade para dentro do partido numa nunca acabada campanha eleitoral junto das "bases", isto cria um ecossistema blindado ao que pensa o país. Mesmo assim, a esperança já mirrou muito, mesmo entre muitos dos votantes de Menezes.

Porém, quatro meses e meio depois, um tempo que tem que ser medido psicologicamente em função das expectativas geradas, Menezes já não pode contar com os silêncios de complacência iniciais. Basta ler os jornais e ver os noticiários da rádio e da televisão para se perceber que as línguas já se soltaram, porque até agora só eu e Paula Teixeira da Cruz não fizemos este lip service ao silêncio de circunstância, que é uma atitude que me parece muito falsa, porque leva as pessoas a estarem a dizer coisas em que não acreditam para não agitarem as águas, a não ser "quando for o tempo". O problema é que já de há muito que é "o tempo", para falar com franqueza, em bom rigor desde a coligação PSD/PP que já era "tempo". Mas, mais vale tarde do que nunca.

Os exemplos são diários. Nuno Morais Sarmento desmantelou a superficialidade da proposta de Menezes sobre a televisão (aliás, tão ad hoc como as outras que apresentou na entrevista) e Aguiar Branco fez o mesmo no dia seguinte. Não concordo com nada do que disse Morais Sarmento sobre a televisão pública, mas ele tem, como Aguiar Branco, razão num aspecto crucial: as propostas de Menezes são tão pontuais, casuísticas, desirmanadas e disparatadas que nem sequer podem ser tomadas a sério. Elas não representam qualquer reflexão de conjunto que justifique sequer discuti-las e são apenas afirmações tácticas para marcar uns pontinhos no sítio e com o público pretendido. Na SIC eram para Balsemão ouvir, na Fenprof para os professores, e noutros sítios para os autarcas, ou para as "bases", nunca para a governação.

António Capucho foi ainda mais longe numa entrevista ao Diário Económico e disse que "Menezes é desastroso" e que afasta "as figuras (...) mais importantes no partido em termos de credibilidade [que] estão a ser alvo de gestos de desconsideração gratuita", e mesmo Ângelo Correia só à terceira insistência de Mário Crespo na SICN é que respondeu que "sim", que "se reconhecia na liderança de Menezes". Depois sugeriu, de forma elíptica, que a principal razão porque o fazia era porque ele rompia com "vinte anos de partido", ou seja, com Barroso e Cavaco, com quem tem contas a ajustar. Com tanto entusiasmo, talvez seja por isso que Ângelo Correia está prudentemente a procurar-lhe um sucessor.

As línguas soltaram-se, mas os cálculos não. Quais são os cálculos? Um, e fundamental, é a falta de confiança na possibilidade de o PSD ganhar as eleições em 2009, não com Menezes, que isso estão todos tão certos como dois e dois serem quatro, mas com "eles". Sabem que Menezes não ganha, mas também pensam que não são capazes de ganhar e esperam por melhores tempos, que o ciclo político mude e seja tiro e queda, partido hoje, governo amanhã. Esta indiferença face ao facto de o PS poder ir governar mais quatro anos, isso sim, me parece ser de "mau PSD".
Associado à ideia de que não é preciso nenhuma urgência para mudar a situação está o cálculo de pensar-se que, como Menezes espera sentado que Sócrates caia, outros esperam sentados que Menezes caia. Esperar sentado é pelos vistos um hábito nacional, mas, se num ou noutro caso resulta, como com Barroso face a Guterres, não me parece que esta geração Menezes-Sócrates, que são políticos profissionais desde pequeninos, se deixe tirar a não ser "à bomba", como diz Menezes.

Dito isto tudo, a situação está tão feia que só há uma pequena oportunidade que pode dar grandes resultados: apareça, o mais cedo possível, um candidato credível, que os há vários, credível acima de tudo junto da sociedade, honesto, lúcido, incomodado com o estado do país, dedicado à causa pública, com um programa alternativo ao do PS, que também não é difícil de fazer, que fale língua da gente e não "politiquês", que se deixe de calculismos e arrisque tudo, e vamos ver se então muita coisa não muda mesmo. Mas para isso não é preciso que Menezes queira ou não, é preciso que o PSD o queira e esta é que é a questão mais complicada, porque o país só acredita numa mudança quando ela for a doer, começando por defrontar os erros do PSD e corrigindo-os.

Veremos. Talvez uns acreditem numa forma de milagre, eu noutro. No fundo, somos todos irremediavelmente crentes. Pelo menos nalgumas ocasiões o Senhor podia ajudar o PSD, que bem precisa. Ámen.

(versão do Público de 1 de Março de 2008.)

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15.2.08


COISAS DA SÁBADO: ESTADO DE ESTUPOR

A palavra “estupor” tornou-se um insulto e, mesmo como insulto, está a cair em desuso face a outros mais brutos, humilhantes e eficazes. Mas “estupor” é uma palavra com uma velha história médica. Significa uma forte diminuição das funções intelectuais, acompanhada de uma espécie de catatonia física. Até vem na Wikipedia. Os tratados médicos dizem-nos que o indivíduo em estado de estupor pensa que está bem, lá por dentro pensa numas coisas dispersas, mas não tem consciência da sua desconexão com o mundo exterior e “repete movimentos estereotipados”. O “estado de estupor” está algures entre o “estado onírico” e o “estado de delírio”, e não é certamente bom para a saúde. Infelizmente é como o PSD está, em estado de estupor.

Já repararam que, na maioria das questões, o PSD não toma posição, não toma posição a tempo, promete tomar e depois esquece-se de tomar posição, ou qualquer destas três variantes? Nuns casos, parece que está à espera para ver o que dizem os jornais no dia seguinte. Noutros, os múltiplos comités de assessores, agências e sábios convidados para photo opportunities, ou não tem nada para dizer ou então estão à espera de ver o que os outros dizem para reagir, ou, como concordam com o governo, ou porque é matéria espinhosa, ficam calados e aconselham silêncio. A teoria do “estado de estupor” vigente no partido é que “é preciso não se cometer asneiras” e por isso fica-se calado a ver se se foge pelos interstícios dos telejornais, aparecendo porque é bom para os barómetros que são “apareçómetros”, mas sem se dizer nada. Claro que depois, de repente, há uns movimentos desconexos, também típicos do “estado de estupor”, com consequências desastrosas, que só reforçam os conselheiros da teoria catatónica como política, mais vale estar calado, a ver se o engenheiro se despenha por si.

O “estado de estupor” do PSD, o silêncio do PSD como partido de oposição é um dos factores mais perturbadores da vida política nacional.

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10.2.08


COISAS DA SÁBADO: A OPOSIÇÃO QUE NÃO QUER ONDAS



Na continuidade deste texto e deste.

Não me admira. A oposição, enterrada até ao pescoço nos casos do governo PSD-PP, que uma divina justiça, um deus ex-machina, distribui sempre como pancada aos dois (PSD e PS) quando um se porta mal (PS), ou vice-versa, como se houvesse sempre um arquivo de malfeitorias à disposição para distribuir num preciso momento, não quer ondas porque nunca sabe se se vai molhar. É por isso que há esta sensação de impunidade na lama, todos estão lá metidos, logo nada é importante. No momento em que um eco gigantesco amplifica as palavras do Bastonário da Ordem dos Advogados, tudo isto é muito, muito, incómodo.
Guilherme Silva, há muitos anos um dos exemplos do que é um bom deputado, num parlamento que os tem cada vez menos, foi a voz solitária vindo da vida política activa contra esta tenebrosa sensação de pastosidade em que estamos metidos.

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1.2.08


COISAS DA SÁBADO:
UM MÉRITO DE MARQUES MENDES QUE JÁ PASSOU À HISTÓRIA PARA NOSSO MAL: PENSAR QUE A ÉTICA REPUBLICANA NÃO É APENAS A LEI



Quando Pina Moura foi confrontado com a incompatibilidade ética de exercer as funções de deputado e ser Presidente da Iberdrola, respondeu que para ele (e para o PS) “só havia uma ética republicana, a lei”. Ou seja, tudo que não é proibido por lei é permitido a um político, mesmo que se tratasse, como era o seu caso e de mais alguns deputados, de uma incompatibilidade ética evidente: ser presidente de uma empresa estrangeira que concorria com empresas nacionais e ter acesso, como deputado, a informação privilegiada sobre decisões que afectavam o mercado em que a sua empresa actuava.

Durante um breve período de tempo num partido português, o PSD, Marques Mendes entendeu o contrário: que havia circunstâncias que não implicavam nem a assunção de ilegalidades, nem a sua condenação em tribunal mas que implicavam a suspensão do exercício de alguns cargos políticos ou a retirada da confiança política. Ele formulou a questão correctamente, insistindo que não se tratava de fazer um pré-decisão de condenação, ou de uma norma genérica que punha em causa arguidos apenas por serem arguidos. Ele insistiu que se tratava de um juízo político pontual, caso a caso, mas que tinha implícito que determinados comportamentos podiam exigir uma sanção política, mesmo sem ser ilegais e sem presunção de culpa. Perdeu três câmaras por causa disso, Oeiras, Gondomar e Lisboa, e o seu partido não lhe perdoou, pelas piores razões. Caiu-lhe tudo em cima, confundindo aquilo que ele sempre dissera ser político e pontual, nalguns casos até com solidariedade pessoal com os acusados e sua defesa pública, para, na amálgama, condenar o precedente que ele com coragem iniciou.

Não houve qualquer inocência no ataque que foi vítima Marques Mendes, que uniu solidamente os “profissionais” do PS e o PSD. Se o que ele inaugurou, a responsabilidade dos partidos em sancionarem determinados comportamentos como eticamente inadmissíveis, mesmo que não sejam ilegais, se tornasse uma regra, muita coisa que hoje se faz impunemente teria custos políticos para os que os praticam. O mesmo se pode dizer para a Comissão de Ética da Assembleia: tivesse a Comissão autoridade e independência para sancionar determinados comportamentos dos deputados, que causam e com razão escândalo público, e a Assembleia sairia mais prestigiada.

Muita da antecâmara da corrupção e do tráfico de influências não é ilegal, está numa zona cinzenta que os partidos conhecem bem. Começa na complacência com as próprias fraudes internas, a falsificação de assinaturas em declarações de voto, os procedimentos do “gangue do Multibanco” pagando centenas de quotas às 3 da manhã, para acabar no proto-tráfico de influências que se torna muita vez a principal actividade de secções e federações e depois sobe por aí acima, passando pelas alcatifas, até chegar aos tapetes persas. É que muita coisa que pode ser feita contra a corrupção e os seus caminhos, não precisa de novas leis, nem de polícias, nem tribunais, precisa de políticos que se incomodem com o que vêem à sua volta e actuem politicamente. Foi o que fez Marques Mendes e correram-no também por isso.

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27.1.08


A NOVELA VENEZUELANA



Eu não sei se são incompatibilidades, se são prevenções, mas mais vale começar por aqui do que ficar sujeito àqueles "hum, bem te entendo, não gostas dos tipos e depois dizes isto...", tão português e tão cúmplice do "são todos iguais". Na verdade, se houvesse alguma memória, nem sequer era preciso dizer "isto", tão antigo, público e documentado está. É só ir à Internet e aos arquivos dos jornais, muito anteriores à "novela venezuelana" e, no entanto, a encaixar-se perfeitamente nela. Mas isso dá trabalho e obscurece a novidade jornalística que tem que nascer todos os dias como o sol.

O "isto" são três coisas: uma é que acho que Menezes é um desastre para o PSD, disse-o solitário e em bom tempo e os factos encarregam-se do o mostrar; segundo, que Cunha Vaz, que encontrei uma única vez e ainda por cima para o defender (de Carrilho), já teve ocasião, numa carta insultuosa, de explicar que não tem por mim "estima e consideração, nem mesmo respeito pessoal", jurando aliás que"o dr. Luís Filipe Menezes não tem agência":
"O dr. Luís Filipe Menezes teve a colaboração da minha agência durante a campanha eleitoral interna para a liderança do PSD. Neste momento, ou melhor, desde que o congresso do seu partido terminou, a Cunha Vaz & Associados não trabalha com o PSD, com o seu líder ou com qualquer outra estrutura político-partidária. Nunca o fez. Nunca trabalhou com qualquer governo ou instituto público, nunca serviu qualquer partido."
E a terceira e mais importante, porque penso de há muito e já várias vezes o escrevi, que a relação entre políticos e agências de comunicação, publicitários e técnicos de marketing é um dos sintomas da degradação da política contemporânea. Acrescento a este último ponto que o problema é em primeiro lugar dos políticos; os outros vão para onde estiver o mercado e, quando muito, defendem o alargamento do mercado mostrando a indispensabilidade dos seus serviços e protegendo os políticos que os empregam, em detrimento dos antiquados que desconfiam da "comunicação" profissional. Para não me estar a repetir mais uma vez, aqui fica o que escrevi a propósito de Cunha Vaz e o PSD em Novembro de 2007:
"Continuo a achar que não se deve substituir a política por técnicas de comunicação, nem as comissões políticas por agências de comunicação. Mas esta crítica é aos políticos e não às agências."
E também aqui sobre o "partido-empresa" "A questão de fundo é que também este tipo de aconselhamento especializado está longe de ser administrativo ou burocrático, mas sim um problema político, porque o que rompeu a ligação do partido à sociedade, aos grupos profissionais, de onde viria toda a informação e aconselhamento necessário foi a crise de credibilidade partidária agravada pela última experiência governativa do PSD. Para além disso, não há aconselhamento, por capaz que ele seja, que supere as deficiências da produção de políticas pelos órgãos próprios (comissão política e permanente) e da sua "locução", por exemplo, no Parlamento, onde escasseiam competências em muitas áreas cruciais do debate público, como se pôde ver na recente discussão parlamentar.

Não são assessores que fornecem um conselho político, sob forma "profissional", quer dizer assalariada, que podem remendar uma crise de credibilidade que rompeu a relação do PSD com os sectores mais dinâmicos da sociedade e dos grupos profissionais, como não são cibercafés que dão um toque tecnológico às sedes do PSD, nem carros pretos que dão a imagem de Estado."
Por tudo isto, a "novela venezuelana" de que Menezes fala a propósito das aventuras da agência de comunicação que trata da sua "imagem" é exemplar da política dos dias de hoje e merece atenção muito para além dos seus "protagonistas". A interessante designação de "novela venezuelana" é mais certeira do que parece. Menezes queria referir-se às interpretações que os jornais e os seus críticos fazem da bicefalia com Santana Lopes, mais uma vez a funcionar mal, acabando-se sem saber se a Cunha Vaz & Associados vai fazer a "comunicação" do grupo parlamentar ou arrumar os arquivos, tarefa que deve ficar um pouco cara de mais para entregar aos profissionais de uma agência de comunicação.

Menezes, que diz que não se importa "de arrostar com as críticas mais vis" por razões patrióticas, nem mais nem menos que "em nome de Portugal e dos portugueses", quer convencer-nos que está tudo bem entre ele (e Cunha Vaz), e Lopes (sem Cunha Vaz). E, como é uma "novela venezuelana", há também um terceiro homem, Ribau (e Cunha Vaz). Não está. E basta ler comparativamente o blogue de Santana Lopes e a página pessoal de Menezes para se perceber o que partilham, mas também as diferenças entre ambos e os seus projectos. Espero que, ao falar sobre isto não esteja a violar nenhum boudoir, dado que ambos, dentro do espírito da "novela venezuelana", consideram que é matéria de "intimidade". Esqueceram-se foi de dizer isso a Cunha Vaz.
Há aqui também um outro problema de incompatibilidades de que não se falou até agora. Quando vi na televisão Cunha Vaz a abrir a porta ao carro em que Carlos Santos Ferreira chegava a uma reunião no BCP, perguntei-me como é que este mesmo homem e a sua empresa podem garantir uma boa "comunicação", ou seja, sucesso nas suas "mensagens", ao mesmo tempo ao atirador e ao alvo, a Menezes, crítico da solução CGD-PS no BCP, e a Carlos Santos Ferreira que Cunha Vaz, solícito, acompanhava e a quem a estratégia do PSD de o acusar de partidarizar o BCP para o PS não interessa de todo. Como é possível aconselhar estratégias eficazes a um e a outro sem se sofrer de doença bipolar, presumindo que nenhum problema ético está presente (e obviamente tem que estar)?
A página pessoal de Menezes é claramente pensada pelos profissionais da agência e substitui o seu antigo blogue, feito por um assessor da Câmara da Gaia, que copiava e assinava em nome de Menezes textos da Wikipédia sobre Bergman e Antonioni para dar um tom cultural à coisa. O blogue de Lopes, a quem a forma de blogue calha bem com a personalidade, é essencialmente sobre aquilo que ele pensa que é. E ninguém melhor que o próprio para lhe dar o tom narcísico absoluto da personagem dentro daquilo que é a sua ecologia do gosto. A página de Menezes é sobre aquilo que Cunha Vaz acha que Menezes deve parecer que é. E por isso é muito mais de plástico.





A página de Menezes é pessoal e não partidária, como a de Lopes. Ambas estão intituladas com o nome próprio: "Pedro Santana Lopes" é o nome do blogue e "Luís Filipe Menezes" é o nome da página e ambas têm a fotografia, Lopes sorrindo prazenteiro, Menezes esboçando um sorriso forçado, esmagado pela dignidade do Estado. Na página de Menezes, não há a mínima referência ao PSD no layout feito por uma empresa profissional, a 4Best, presumindo-se que seja paga pelo próprio, visto que a página tem copyright (© Luís Filipe Menezes) e pertence-lhe pessoalmente e não ao partido. O PSD, a sua cor, a sua bandeira, são cuidadosamente omitidos e a palavra PSD só aparece na primeira página (no momento em que a estou a ver) num título lateral de material de arquivo sobre as eleições de Setembro de 2007. Menezes aparece contra um fundo evanescente das quinas da bandeira de Portugal, num tom vermelho escuro e negro, ao lado do artigo inaugural escrito pelo príncipe Hamlet e que diz "mudar ou não de opinião: eis a questão". Como diria o José Magalhães, eis uma página grávida de interesse nacional, mas estéril quanto ao PSD. Metem-se comigo por causa das bandeirinhas ao contrário, mas aqui é muito mais grave: Menezes (e Cunha Vaz) dizem aos portugueses que para se ser bom homem de Estado e candidato a primeiro-ministro, o PSD deve ser escondido cuidadosamente como uma mulher de má fama ou um parente louco. Em Menezes isto não soa a falso, soa a falsíssimo.

Esta página de Menezes mostra o problema de a política se subordinar a tecnologias de comunicação e não o contrário. A esquizofrenia que daqui vem resulta numa coisa contraproducente, num híbrido construído em laboratório, nem carne, nem peixe. Desse ponto de vista percebe-se bem a recusa de serviços de Cunha Vaz por Santana Lopes, porque híbrido ele não é. E já percebeu na pele que, quando o tentou ser, como no discurso de posse, dá sempre para o torto. Mas Menezes não é Santana Lopes e isso é que é a essência da "novela venezuelana" ou da shakespeareana questão com que ele inaugura a página: mudar ou não de face, eis a questão. Só que não dá e a "novela venezuelana" vai acabar mal para Menezes, Ribau e Cunha Vaz, enquanto Lopes, que atingiu uma stasis que lhe permite passar pelos intervalos da chuva, vai ainda passar para o próximo episódio. O problema é que também não dá para o PSD, a oposição e, imaginem, o país das quinas que esvoaçam atrás de Menezes.

(Versão do Público, 26 de Janeiro de 2008.)

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19.1.08


COISAS DA SÁBADO:
ENTÃO É A “LIDERANÇA” OU SÃO AS “BASES” QUE VÃO ESCOLHER OS DEPUTADOS?


Então Menezes vem agora dizer que quem é contra ele não tem lugar em nenhum lugar, das Juntas de Freguesia ao Parlamento Europeu, e ninguém se lembra? (Já não pergunto se ninguém protesta perante este festival de raiva e vingança, tão habituado que estou aos convenientes silêncios...) Como não tenho memória curta, lembro-me que uma das promessas eleitorais que Menezes fez ao aparelho do partido era que seriam as “bases” e não a direcção do PSD a escolher tudo, deputados, deputados ao Parlamento Europeu, autarcas. Espero pois candidaturas individuais múltiplas, eleições directas por todo o lado, não sei bem com que base estatutária, mas não faz mal, visto que para colocar o PSD de pantanas há sempre especialistas. Mas esta proposta devia ser levada a sério, sendo exigido o seu cumprimento, porque tem o mesmo papel de expiação do cálice de fel na fé cristã. Há que provar o fundo, como instrumento de redenção. O problema é que no PSD o fundo parece sempre mais fundo.

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7.1.08


AGORA QUE VOLTOU O TEMPO DAS CONSPIRAÇÕES


só tenho uma coisa a sugerir: vale mais falar em público, dizer o que se pensa, deixar-se de fontes anónimas, deixar-se de recados, dar entrevistas com o rosto todo, assinar com o nome, fazer o esforço de discutir, escrever artigos, explicar alternativas políticas, criticar com C grande no espaço público, para todos verem tudo, saberem quem e porquê e assim estabelecer-se um contínuo entre os debates intra-partidários e o debate público sobre Portugal e os portugueses. Sempre é mais saudável do que andar a conspirar para depois colocar nos jornais, o que não é boa política e é péssima conspiração.

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25.11.07


A EMERGÊNCIA DO PARTIDO-EMPRESA


Era tão inevitável como a revolução dos astros: a impregnação da política pela linguagem da economia em que o "economês" se junta ao "futebolês" no mesmo lugar do pensamento e do discurso, no léxico do "politiquês". Nos últimos anos a ascensão do "economês" na política e no jornalismo traduzem a crise do referente político-ideológico, por um lado, porque este se transformou num mundo estereotipado de metáforas mortas, desgastado comunicacionalmente; por outro, porque a iliteracia política também cresceu com a ascensão ao poder das "juventudes" partidárias, formadas num jargão utilitário muito reduzido no seu vocabulário e na sua instrumentação teórica. Futebol e economia, jornais desportivos e imprensa económica fornecem chavões e palavras de encher o ouvido, que todos entendem porque lêem e vêem o mesmo, logo funcionam como lubrificante do discurso. Quem é que não percebe quando se diz que "o PS meteu um golo na sua própria baliza", ou que no PSD há agora um CEO e um chairman, como repetiam à exaustão os jornalistas no último congresso do PSD? Passou-se pois assim do relvado e do mister para os players no mercado eleitoral, ou seja, o que antigamente chamávamos "o povo".

Convém, no entanto, não nos iludirmos muito com o brilho modernizador da linguagem acreditando que lá porque se fala "moderno" se pensa e se age "moderno". É evidente que há muita coisa que esta linguagem com funções propagandísticas esconde e que é muito mais terra-a-terra e bem fácil de classificar de modo antigo. Por exemplo, por detrás de uma "reorganização" e "qualificação" do "pessoal" (nos partidos nunca há um downsizing), trata-se de substituir um corpo de funcionários por outro, com base nos mesmos esquemas de patrocinato, clientela e obediência pessoal e de grupo com que se constituiu o anterior.

Motoristas, secretárias, funcionários diversos, nos partidos e nos grupos parlamentares, raras vezes chegaram a essa situação por mérito, mas, nos primeiros tempos, por militância, depois por cunhas e pagamentos de favores a nível nacional, ou regional. Havia quotas locais e regionais, quotas dos secretários-gerais e dos presidentes do partido, e assim se constitui uma burocracia que depois funciona pelas regras da própria burocracia, muito depois de passarem os líderes e os secretários-gerais. Em seguida, como é normal, depois de estarem "dentro", com o poder que isso significa (se há sítio onde os funcionários "sabem" de mais é nos partidos políticos), exercem o poder "de dentro", para chamarem famílias inteiras, maridos, mulheres, filhos, primos, namorados(a), etc., em pacote. Aqui, os partidos não são muito diferentes de muitas outras instituições portuguesas, mesmo muito "modernas", como foi a Gulbenkian, e não só, durante muitos anos.

Se a vida política não se tivesse degradado, seria normal, em particular quando os lugares têm uma componente política de confiança, que as pessoas saíssem com aqueles com quem entraram. Do mesmo modo que os novos ocupantes também saberiam que teriam de sair com os seus empregadores. Um partido não é uma burocracia com funcionários públicos, e a legislação permite, por exemplo, que um funcionário do grupo parlamentar seja "despedido" a qualquer momento por uma assinatura, exactamente porque se pretendeu salvaguardar a condição intangível da "confiança". Se fosse o retorno à dedicação cívica e política, à militância, como norma do trabalho dentro de um partido, que estivesse em causa nesta "modernização" de que se fala agora, eu seria o primeiro a aplaudir. Mas isso é certamente considerado caduco, pouco "moderno", ineficaz, antiquado, coisa de outros tempos, do pós-25 de Abril.

Não é pela utilização do "economês" reorganizativo que se esconde o facto de que o problema para a nova direcção é que eles não fazem parte da "casa", da "casa" de Lisboa, da "sede nacional" e que esta pouco tem a ver com o grupo de fiéis nortenhos (e os fiéis sulistas dos fiéis nortenhos) que querem trazer para ocupar os lugares já tomados pelos velhos habitantes da "casa". Por isso, por detrás de muito deste mambo-jambo "modernizador", há uma simples vontade de despedir aqueles em quem não se tem confiança e dar os lugares e os empregos aos amigos e próximos da nova liderança. É para pagar indemnizações e fazer novos contratos de pessoal que é necessário vender o património. Como escreve João Marques Santos numa análise lúcida do "PSD, SA":
"[Menezes ] quer ser o accionista número um da empresa PSD. Quer que a empresa trabalhe para o patrão, como todas as empresas que se prezam. E que dê lucros. Anseia por dividendos. Prefere, por isso, desdenhar militâncias e pagar a quem o sirva. Para melhor poder despedir quem não execute as suas ordens. Porque os militantes não se despedem, mas os trabalhadores da empresa sim."

(Correio da Manhã)
Um problema complementar tem a ver com aquilo de que uma direcção política (nome que, como antiquado que sou, prefiro a liderança) precisa do aparelho partidário. E aqui também a linguagem do "economês" e o pensamento do partido-empresa é, para além de uma moda, uma ocultação da questão de fundo. É verdade que os recursos do partido estavam erradamente distribuídos (como os do PS aliás, embora um partido no poder compre esses "serviços" a partir do governo), não sobrando meios para apoiar um trabalho de qualificação da acção partidária que deve centrar-se nos governo-sombra e think tanks, organizados dentro e fora do "movimento" partidário. É verdade que sobram motoristas, secretárias e funcionários sem qualificação e faltam economistas, juristas e "estrategos da comunicação" (curioso sinal dos tempos, ninguém fala dos seguranças que parece terem-se tornado mais necessários...), mas o lugar da falta não é o mesmo.

É interessante notar que a nova direcção do PSD, que entende fazer concursos dentro do partido para os lugares de assessores, nunca lhe passou pela cabeça deixar de contratar agências de comunicação profissionais, certamente porque estas lhe fornecem uma ponte para os órgãos de comunicação social já previamente existente e que os assessores que vão contratar não lhe podem dar. Eu, se fosse jornalista, preocupava-me muito com o facto de o aconselhamento económico, jurídico, técnico em geral poder ser dado por assessorias ad hoc e que a "estratégia de comunicação", ou seja, a propaganda moderna, só possa ser feita por agências profissionais.
A sucessão de notícias sobre a "reorganização" do PSD em jornais como o Expresso e o Público revela o novo funcionamento das "fontes" denunciado por Alcides Vieira e comentado por mim aqui. É muito interessante ver como as notícias controladas e as mensagens que intencionalmente são divulgadas, o spin, sobre esta matéria, resultam em notícias favoráveis em termos de propaganda, acríticas e assépticas. São o equivalente das sessões que o Primeiro-ministro organiza com casting de meninos da escola, powerpoint e filmes com animações de computador. Governo e PSD tem hoje as relações com os jornalistas muito profissionalizadas, em detrimento da qualidade da informação e da sua independência crítica. Cada vez mais há "papinha feita", é só comer.
A questão de fundo é que também este tipo de aconselhamento especializado está longe de ser administrativo ou burocrático, mas sim um problema político, porque o que rompeu a ligação do partido à sociedade, aos grupos profissionais, de onde viria toda a informação e aconselhamento necessário foi a crise de credibilidade partidária agravada pela última experiência governativa do PSD. Para além disso, não há aconselhamento, por capaz que ele seja, que supere as deficiências da produção de políticas pelos órgãos próprios (comissão política e permanente) e da sua "locução", por exemplo, no Parlamento, onde escasseiam competências em muitas áreas cruciais do debate público, como se pôde ver na recente discussão parlamentar.

Não são assessores que fornecem um conselho político, sob forma "profissional", quer dizer assalariada, que podem remendar uma crise de credibilidade que rompeu a relação do PSD com os sectores mais dinâmicos da sociedade e dos grupos profissionais, como não são cibercafés que dão um toque tecnológico às sedes do PSD, nem carros pretos que dão a imagem de Estado.
O Expresso de 17 de Novembro explica que dentro de um plano de gestão de imagem, Menezes vai passar a andar sempre em classe executiva nos aviões e a deslocar-se pelo país com staff , em " dois ou três carros escuros" (ipsis verbis). O artigo é consituído por declarações de Ribau Esteves, de um "especialista" da agéncia de comunicação Cunha e Vaz e Associados e por várias frases de fontes anónimas, não se percebe bem porquê. A conclusão assinada por Ângela Silva é esta : "para quem leva dois meses de líder, nada mau!", com ponto de exclamação e tudo.
Não é às fábricas de aparências, cor-de-rosa ou cinzentas, que se deve ir buscar inspiração, nem aos mitos do "futebolês" e do "economês", mas ao conhecimento da sociedade, às virtudes cívicas e à política ao serviço do "bem comum". Seria mais útil lerem, por exemplo, Sá Carneiro, esse político antiquado e pouco "moderno".
Uma "resposta" a este artigo e a outro de teor semelhante de Vasco Pulido Valente encontra-se no blogue de Pedro Santana Lopes.
(No Público de 24 de Novembro de 2007.)

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9.11.07


UMA CARTA DE ANTÓNIO CUNHA VAZ


A carta, que recebi, no endereço do Abrupto, de António Cunha Vaz (para quem não saiba responsável pela agência de comunicação ligada à campanha de Luis Filipe Menezes) poderia ser perfeitamente devolvida ao remetente, em particular num blogue que tenta seguir critérios de direito de resposta ainda mais rigorosos do que os habituais nos órgãos de comunicação social e que evita uma linguagem e um tom de má educação e baixo nível. Não se percebe a que responde ou a quem Cunha Vaz responde (ou melhor percebe-se bem demais), e tem um tom pessoalmente insultuoso e ad hominem que por si só a levaria a seguir para o lixo.

Mas, mesmo assim, vou publicá-la integralmente porque me parece muito significativa e, pelo seu estilo, se percebe a autoria de uma das campanhas eleitorais mais degradadas, agressivas, insultuosas, que jamais se viu em Portugal: a campanha eleitoral interna no PSD. Se há coisa em que houve unanimidade na comunicação social foi em caracterizar essa campanha e ninguém duvida que o principal responsável pelo tom utilizado foi Menezes, cliente da Cunha Vaz & Associados .

Se tivesse mantido um dever de reserva e não falasse demais, atribuindo-se na primeira pessoa atitudes do seu cliente (e tudo a que me referi vem na imprensa sem qualquer desmentido até agora), talvez Cunha Vaz não se tivesse exposto às notícias sobre a sua agência que, não é difícil presumir, lhe criam dificuldades quer com o cliente, quer com a opinião pública, quer com o mercado. Mesmo a minha "imensa ignorância" não me impede de perceber a razão porque escreveu esta carta.

De uma coisa pode estar certo António Cunha Vaz, não terei "tento na língua, na pena e no teclado". Em mim não colhem quaisquer ameaças de donos de agências de comunicação por muitas malfeitorias que eles possam fazer. Continuo a achar que não se deve substituir a política por técnicas de comunicação, nem as Comissões Políticas por agências de comunicação. Mas esta crítica é aos políticos e não às agências. Ele pode não perceber as diferenças, mas percebe que lhe afecta o mercado.

Percebo bem as suas dores, porque tendo exprimido várias vezes a sua admiração política pelo cliente que ajudou a ganhar, presumo que o deve ter apoiado graciosamente. Espero para ver as contas da campanha, visto que Luiz Filipe Menezes ainda não cumpriu a promessa que fez numa conferência de imprensa de divulgar as suas contas, nem cumpriu até hoje aquilo a que se comprometeu numa carta ao PGR em que se
"comprometia «a adequar-se ao escrupuloso cumprimento da lei, no que tange à recolha e conservação dos fundos recebidos e sua afectação ao fim da campanha eleitoral em curso no PSD». Desta forma, (...) a sua candidatura irá nomear uma comissão especial, constituída por três membros, e que será responsável pela recolha dos fundos e sua afectação ao fim anunciado. Além disso, será especificamente constituída para o efeito uma conta bancária, «onde são depositadas as respectivas receitas e movimentadas todas as despesas relativas à campanha». Será ainda designada «uma entidade especialmente responsável pela elaboração das contas de campanha, de acordo com os princípios do Plano Oficial de Contas, que deverá ser um revisor oficial de contas ou uma sociedade de revisores oficiais de contas». (Diário Digital)
Espero pois para ver. Antes disso, antes de saber quanto custou tanta dedicação, não voltarei ao assunto.

*

Aqui vai a carta de António Cunha Vaz na íntegra:
Senhor Dr. José Pacheco Pereira,

Percebo o incómodo de V. Exa. perante a vergonha que deve sentir de si próprio. percebo, também, que o incómodo que lhe deve causar o facto de já ter participado em campanhas políticas – pagas por alguém – o leve, nos dias de hoje, a lamentar tê-lo feito da forma que o fez. Percebo, ainda, que o facto de se sentir confortável com o vasto palco que a comunicação social lhe dá – e em que os por si visados não têm direito ao contraditório – lhe permita tecer sobre o comportamento de terceiros considerações que se lhe aplicariam directamente. É próprio dos portugueses. Por isso é que isto é o que é.

Julgo saber que é honesto. Dizem-me amigos comuns. Também julgo saber que não suporta enganar-se. Problema seu. Mas a ignorância é sempre má conselheira. Aquela de que usa e abusa na televisão e nas suas crónicas perante tantos telespectadores, ouvintes e leitores que, desconhecendo o mesmo que o senhor desconhece, se deixam embevecer pela verborreia pseudo-intelectual que ostenta só ofende quem se deixa ofender. Mas o que é demais, no caso em apreço, é nocivo.

Em nome da honestidade que alguns amigos dizem que tem – não a qualifico porque, ao contrário de si não falo do que não sei – peço que tenha tento na língua e na pena – ou no teclado. O Dr. Luís Filipe Menezes não tem agência. O Dr. Luís Filipe Menezes teve a colaboração da minha agência durante a campanha eleitoral interna para a liderança do PSD. Neste momento, ou melhor, desde que o congresso do seu partido terminou a Cunha Vaz & Associados não trabalha com o PSD, com o seu líder ou com qualquer outra estrutura político partidária.

Nunca o fez. Nunca trabalhou com qualquer Governo ou instituto público, nunca serviu qualquer partido, antes tendo trabalhado pontualmente com Carmona Rodrigues (PSD2005 autárquicas e como independente em 2007) – e não foi esta agência que espalhou calúnias sobre nada nem ninguém durante as duas campanhas – Mário Soares – em que não deixámos a campanha a meio por respeito pelo candidato, embora estivéssemos em total discordância com a direcção de campanha – e, mais recentemente, esta campanha interna.

Gostaria, com certeza, V. Exa. que outros liderassem o PSD porque, como é próprio de quem nada faz a não ser criticar o que outros fazem, teria mais matéria para comentar numa outra próxima derrota estrondosa do Partido – que é o seu. A Cunha Vaz & Associados entendeu dar o seu contributo a um desafio. Que se afigurava difícil – nas suas e nas palavras de outros era mesmo impossível – mas que, por essa mesma razão, nos apeteceu abraçar.

Cada um, nesta vida, é para o que nasce. Eu nasci para trabalhar. Honestamente, pagando impostos – todos, criando postos de trabalho reais – sustentados – dando formação a quadros jovens, em Portugal e no estrangeiro, e não posso aceitar que, sem o mínimo cuidado de preencher a imensa ignorância que lhe vai no cérebro sobre a matéria em que tantas vezes é sábio, teça considerações sobre a minha empresa ou a minha pessoa.

Porque o meu tempo é precioso e em abono do espaço que ocupa nos ecrãs, rádios e jornais deste país, peço apenas que fale do que sabe. Sei que pouco terá a dizer, mas esse já não é problema meu.

Por último posso dizer que já vi obra do Sr. Dr. Luís Filipe Menezes. Quanto à sua, só escrita e, por vezes, mal.

Como não sou hipócrita não me vou despedir com estima e consideração, nem mesmo com respeito pessoal. Todos eles se conquistam. Não se aproveite da ignorância que tanto critica para "armar ao pingarelho".


António Cunha Vaz

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6.11.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 6 de Novembro de 2007


O país político está muito estranho, ou então está como sempre esteve, nós é que desejaríamos que fosse diferente. No telejornal das 13 horas, a RTP resumiu o Prós e Contras à intervenção do Ministro das Finanças, traduzindo a realidade de um programa que não teve Contras. Ou melhor teve, mas foi deixada aos sindicatos e ao PCP essa função. Oposição do PSD ou do PP não existiu, e Mira Amaral no fundamental esteve lá para concordar com o Ministro. Bizarro um programa destes em que está o governo e não há oposição. Não é só não estar a oposição do centro e da direita, é não haver oposição. Deixar a oposição aos sindicatos é o mais cómodo que há para o governo. Mas, na verdade, o Prós e Contras revela involuntariamente uma verdade maior: há hoje menos oposição em Portugal do que há uns meses, no que verdadeiramente conta, no que dói ao PS e ao governo.

Distraídos com a coreografia do debate desta tarde, excelente pasto comunicacional pelo seu aspecto de duelo ao sol, esquecemo-nos de que os problemas políticos estão longe de se reduzirem ao espectáculo teatral da Assembleia. O que Menezes disse na conferência de imprensa de ontem é muito mais importante e explica o Prós e Contras e os múltiplos silêncios do PSD dos dias de hoje. Ele anunciou a vontade de "entendimentos alargados" com o PS, numa série de sectores fundamentais da vida pública, indo mais longe do que Marques Mendes alguma vez foi com o seu modesto Pacto de Justiça.

Pode ser um exercício comunicacional proposto pela sua agência para "lavar" a imagem populista e dar ar de responsável? Duvido que resulte, porque Menezes anunciou uma dupla política: por um lado, colaboração com o PS em todas as áreas fundamentais da vida pública; por outro. oposição casuística tipificada na "Educação, os episódios de criminalidade no grande Porto, a crise no Hospital de Faro". Esta redução da oposição à casuística comunicacional (uma das coisas que criticava em Mendes) reduz o PSD a um papel tribunício, e minimiza-o como partido de alternativa de governo.

Repito: pode ser um exercício comunicacional proposto pela sua agência para "lavar" a imagem populista e dar ar de responsável? Pode, tudo é possível. Mas há razões para se tomar a sério a sua proposta porque ela acrescenta um "entendimento alargado" sobre as Obras Públicas e isto percebe-se que é a valer. Ora esta é a única proposta que o PSD não pode de todo fazer num país como Portugal, onde esse é o terreno do verdadeiro "bloco central de interesses" que mina o estado, corrompe os partidos e a política, e que exige o maior escrutínio de uma oposição que se toma a sério. Esta é a mais preocupante proposta do PSD, numa área em que nada justifica "consensos", por muito que estes sejam pedidos pelos empreiteiros por razões que se percebem muito bem. As grandes obras públicas são política pura, nenhum partido que tenha um projecto para Portugal alternativo ao dos socialistas pode achar que esta é uma zona de "consenso", nem deixar de perceber a perigosidade da proposta.

*

As palavras "realistas" de Silva Lopes foram o momento mais interessante do Prós e Contras e um verdadeiro retrato do que não é dito na política socialista, mas está lá. Silva Lopes disse, preto no branco, duas coisas: uma, que os orçamentos do PS não diminuem as disparidades sociais que se agravam em Portugal; outra, que é a classe média que deve pagar a crise, são os seus rendimentos que devem ser diminuídos para garantir maior equilíbrio social. Ou seja, traduzido em não-socialistês, o estado deve agravar a política de agressividade fiscal sobre a "classe média", os "remediados", para redistribuir aos "verdadeiramente pobres". Nesta equação, que corresponde ao modo como o PS pretende salvar o "modelo social", embora dito com mais crueza, não há qualquer consideração para o papel que a "classe média" possa ter na criação de riqueza, ou dito de outro modo, qualquer papel para o crescimento económico que, com uma "classe média" a caminhar para o remediamento mais absoluto, será impossível. É um programa de empobrecimento colectivo, lento mas seguro.

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31.10.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 31 de Outubro de 2007


A continuar assim este "pensamento único" sobre a Europa, ainda vai acabar por ser crime pronunciar-se contra este curso recente da política europeia traduzido no Tratado chamado "reformador" ou "de Lisboa". Ainda nos vai acontecer o que aconteceu àqueles pobres sindicalistas que não tiravam o barrete proletário à passagem da novel bandeira republicana: paulada em cima. Já é um verdadeiro delito de opinião, um sinal de marginalização, de leviandade, de velhice do Restelo, de anti-modernidade, uma atitude populista, demagógica, irresponsável, mesquinha, anti-nacional, anti-fundos, anti-desenvolvimento, anti-paz perpétua, anti-humanista, anti-gloriosas tradições de "diálogo civilizacional", pró-americana ou seja pró-Bush, neo-liberal, reaccionária, nacionalista, quiçá racista, anti-multiculturalista, pró-skin, saudosista, antiquada, e muito mais de mau e vil e provocador. Quarenta anos depois de ser subversivo, estou outra vez subversivo.

*

Tretas. Tenho cada vez menos paciência para os que pensam que, servindo-nos tretas, temos que almoçar, jantar, comer tretas. Esta história da entrada de Menezes no Conselho de Estado, na versão do comunicado do PSD divulgado ontem, é uma colecção de tretas. Primeiro, mente-se dizendo que nunca se pretendeu que Menezes estivesse no Conselho de Estado, e que tal nunca foi pensado na actual direcção do PSD. Ribau diz que isto foi uma manobra de outros, da comunicação social, não se sabe bem de quem. Eu sugiro um culpado: as fontes do Diário de Notícias que garantiam a pés juntos que Menezes iria para o dito Conselho e toda uma coreografia associada, incluindo ataques a Capucho. Depois, foi todo um processo conduzido com os pés, atabalhoadamente, sem rigor, nem seriedade, que acabou por receber a bofetada de luva branca de Capucho e de luva preta do Presidente. Por fim, como as coisas correram mal, faz-se como o menino que queria o bolo e como não o teve, embirra e diz que afinal o bolo é péssimo e está estragado e nunca lhe passou pela cabeça comê-lo.

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20.10.07


COISAS DA SÁBADO: NOTAS SOBRE O CONGRESSO DO PSD

http://www.nature.ca/notebooks/images/platypus.gif1. O poupar sai caro. O desinvestimento que os órgãos de comunicação social tem feito no jornalismo político e, dentro dele, na cobertura partidária está à vista nas paupérrimas reportagens feitas do Congresso do PSD, em particular na televisão. Todos os defeitos do jornalismo, o “pack journalism”, todos a dizerem as mesmas coisas, todos a repetir sem cessar as mesmas palavras. Era o “presidente” e o “administrador executivo”, era o “pedido de casamento” a Manuela Ferreira Leite, era o “tabu” da liderança parlamentar,– a palavra “tabu” devia ser proibida durante dez anos nos jornais - eram mais duas ou três coisas, sempre as mesmas, o fala-não-fala de Lopes alimentado pelo próprio e repetido n vezes. Enfim, muito pouco. A despolitização deste tipo de relatos, somada à repetição dos mesmos momentos “espectaculares”, reduz a política ao protagonismo pobre e, como o espaço é limitado, esta vacuidade “ocupa” tudo. Um exemplo de como a cobertura jornalística foi desatenta é terem ignorado o que disse Jardim e que refiro mais à frente, a favor de irrelevâncias várias.

http://www.nature.ca/notebooks/images/platypus.gif2. Diarquia. O PSD tem hoje dois centros do poder, um na Câmara de Gaia e na Secretaria-geral, outro no Grupo Parlamentar. Menezes deixou que tal acontecesse sob os seus pés e quando o quis atalhar já era tarde. Deixou-se enredar na teia de Santana Lopes, anunciou um absurdo “acordo institucional” (os jornalistas juram que foi nestes termos que tal acordo lhes foi anunciado), e depois ao realizar reuniões sucessivas com Santana Lopes transmitiu uma mensagem de negociação e de tradeoff, de partilha de território. Para quê tantas reuniões se não havia problema? Deu sinais de que não desejava Lopes na direcção parlamentar, sondou outras pessoas para o lugar, o seu Conselheiro preveniu contra a “espuma” do “santanismo”, e depois teve que aceitar o facto consumado. A facilidade com que Menezes foi condicionado, mesmo no apogeu do seu poder, antes mesmo do teste do Congresso, mostra fragilidade e hesitação na liderança.

http://www.nature.ca/notebooks/images/platypus.gif3. Palmómetro. O Congresso teve dois momentos: antes das listas e depois das listas. Depois das listas, metade da sala deixou de se importar de ser filmada sem estar a bater palmas ostensivamente. O número de palmas baixou muito e houve até alguns assobios. O problema que Menezes tem é que, ganhando-se com o aparelho tem-se garantias de eficácia eleitoral mas, com muita facilidade se geram descontentamentos e hostilidades. No PSD sempre que é aparelho contra aparelho, há sempre 60% versus 40%, na melhor das hipóteses, com uma forte transumância de um lado para o outro nos momentos das escolhas para listas e cargos.

http://www.nature.ca/notebooks/images/platypus.gif4. Órgãos. A comissão política de Mendes era a pura expressão do aparelho que apoiava Mendes e era para funcionar como gestora do dito aparelho, não tendo qualquer papel político de relevo. A de Menezes foi feita para dar sinais de “unidade” para a comunicação social, o que não conseguiu. E não é para funcionar. Menezes continuará a controlar o partido a partir do seu núcleo duro, o que agora se vai instalar na sede da S. Caetano, e aquele que continuará no Norte, não apenas em Gaia mas também no Porto e no Minho.

http://www.nature.ca/notebooks/images/platypus.gif5. O tribunal do partido. O Conselho de Jurisdição é o órgão que mais devia preocupar o partido, e preocupou de facto, dado que foi essa a pior votação das listas de Menezes. Muitos delegados ao Congresso manifestaram aqui o seu máximo descontentamento possível. Escolhendo a sua composição entre os mais fiéis dos fiéis, depois de ter sugerido nomes respeitáveis como o de Costa Andrade, a isenção do Conselho terá que ser cuidadosamente escrutinada. Começo a ser favorável a que a eleição deste órgão necessite de uma votação qualificada de dois terços, para evitar acusações de facciosismo.

http://www.nature.ca/notebooks/images/platypus.gif6. Agências. Com Menezes, pela primeira vez, que se saiba, uma agência de comunicação - que tem mostrado a sua eficácia na razão inversa da qualidade do nosso jornalismo, e cujas pegadas são visíveis em muitas notícias e desinformações - instalar-se-á na sede do partido como parte habitual do processo político. Eles fazem parte da Comissão Política de facto.

http://www.nature.ca/notebooks/images/platypus.gif7. Como se manipula a informação. Um exemplo de uma operação de desinformação: pré-anunciar tipologias para a constituição da Comissão Política, do tipo “terá antigos ministros de Sá Carneiro, Cavaco e Durão Barroso”, para condicionar e enquadrar o comentário, prendendo-o a essas tipologias e não a outras. Na verdade, ter antigos ministros de vários governos não significa nada, tanto mais que alguns deles foram irrelevantes, outros saíram a mal e, acima de tudo, não há qualquer coerência nem garantia de qualidade e abertura nessa classificação. Como Ângelo Correia e Menezes tinham dito, em campanha contra Marques Mendes, a maioria desses ex-ministros não significavam nada, eram um zero em termos de prestígio e capacidade eleitoral.

http://www.nature.ca/notebooks/images/platypus.gif8. A eficácia de Menezes. A eficácia retórica de Menezes é superior à de Marques Mendes. Este facto já se tinha visto no anterior congresso. Menezes transmite melhor a “mensagem”, é mais empático e usa uma linguagem mais acessível e popular. Transmite mais convicção e, como usa a emotividade, é mais espectacular num sistema mediático dominado pelo Pathos. No entanto, quando deixa o registo político mais corriqueiro, enreda-se e complica-se, e perde clareza, como aconteceu nas declarações sobre o tratado europeu à saída da audiência com o Primeiro-ministro.

http://www.nature.ca/notebooks/images/platypus.gif9. Propostas. Muitas propostas de Menezes são louváveis e positivas. Umas já vinham de trás, outras receberam um novo impulso. É positivo que se proponha um avanço na privatização de áreas importantes do Estado, é positiva uma maior afirmação liberal da economia. No entanto, é difícil tomar a sério uma parte do discurso sem se entrar em contradição com outra. Na verdade, a chave do nosso atraso encontra-se no Estado, no excesso de Estado, não apenas na economia, mas enquanto garante do “modelo social europeu”. Não há Estado mínimo com “modelo social europeu”, não há liberalização do Estado e da economia com “modelo social europeu”. Pode-se privatizar as águas, mas não se podem diminuir despesas nem baixar os impostos, logo uma parte brutal do trabalho e da riqueza dos portugueses continuará a ir para o Estado. Há por isso uma profunda contradição entre o discurso social e o agitar de todas as insatisfações, que são a força do discurso de Menezes, e uma política liberal mais que nunca necessária.

http://www.nature.ca/notebooks/images/platypus.gif10. Os zeros. Há várias matérias em que quase nada se disse no Congresso e constituem verdadeiros zeros na política do PSD - por exemplo, as relações internacionais, a cultura, as universidades, a investigação e a novas tecnologias.

http://www.nature.ca/notebooks/images/platypus.gif11. Cá se fazem, cá se pagam. Jardim aplicou a Menezes a receita que este aplicou a Mendes: ou há sucesso claro nas sondagens e na mobilização eleitoral em início de 2009 ou a há que tirar “este” e pôr lá “outro” mais capaz. Jardim exigiu a Menezes o que este exigia a Mendes que mostrasse provas antes das eleições e não nas ditas. Como Menezes fez com Mendes. Esta intervenção, a mais hostil a Menezes no Congresso, passou despercebida no meio das distracções jornalísticas. Jardim, para que não houvesse, dúvidas explicou ao RCP no dia seguinte, que queria dizer exactamente o que disse; a avaliação de Menezes far-se-á antes das eleições e não perante o facto consumado. Não sei se é wishfull thinking de Jardim mas que o disse, disse.

(Na Sábado de 18 de Outubro de 2007)

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