| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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10.12.07
LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 10 de Dezembro de 2007 Em matérias europeias é espantosa a capacidade de alguns jornalistas funcionarem como uma câmara de eco das posições governamentais, da UE e do nosso "espírito de Lisboa" materializado em homem, José Sócrates. No caso da Cimeira UE - África ainda me espanta (como posso ser ainda tão ingénuo? Pergunto-me sem resposta...) a capacidade de dar voz, eco, amplificação a tudo o que é construção governamental, à voz do poder, a aceitar sem uma dúvida, sem uma hesitação, sem um distanciamento crítico, o quadro mental com que se deve analisar o que aconteceu, por singular coincidência o exacto enquadramento do spin pretendido como sendo o mais favorável para a propaganda governamental. Onde é que está aqui o jornalismo, a "edição", a análise, ou sequer os factos?O Público de hoje é impressionante neste mimetismo do poder. Por exemplo, o título do artigo de Sofia Branco (que pode não ser de responsabilidade da jornalista) diz: "Cimeira inaugurou "um novo espírito" nas relações entre a União Europeia e África". Esta agora! Isto não é um facto, é a caução pelo jornal de uma afirmação retórica de propaganda dos responsáveis da Cimeira. Como é que se mede o "novo espírito"? E quem é que o incarna, Mugabe, Oumar Konaré, o presidente do Senegal, Sócrates, Merkel, os que não vieram cá e não foi só Gordon Brown? E porque é que Mugabe foi "uma voz isolada"? Vários dirigentes africanos deram-lhe total solidariedade e foi bem acompanhado no anátema da culpa do colonialismo, a começar por Kadafi. O artigo de Teresa de Sousa é outro exemplo de abandono de qualquer distanciação crítica em relação ao establishment da UE, mas isso não é novidade e como vem apresentado como "análise", é a sua opinião. Aí o problema do jornal é a necessidade do contraditório, apesar de tudo esboçada no editorial de José Manuel Fernandes que contraria a afirmação de Teresa de Sousa de "que ninguém hesitou em chamar de "histórica" à Cimeira." O problema disto tudo é que temos um jornalismo crítico do estado da escola de S. João de Longe e cínico face às explicações do senhor Presidente da Junta de S. João de Longe sobre por que é que a escola está assim, mas beato e reverente face à Europa e à propaganda da Presidência portuguesa. E não só. * Para quem não percebeu o que foi e em que resultou a cimeira, o tempo de antena de Sócrates esclareceu: um virar de uma página em branco que alguém há-de discutir e escrever, olhos nos olhos, de igual para igual, sob a forma de uma relação madura, com esperança, entre iguais, num novo espírito, de progresso e liberdade, em que Portugal foi uma ponte perfeita, resultando a Declaração de Lisboa. Foi uma chuva torrencial de letras que juntas formaram palavras pré-fabricadas que estão algures entre o “plástico” de que falava Vasco Pulido Valente e o “parasitismo” apontado por António Barreto. Constata-se online que a cimeira vale zero (CNN), menos que a crise no Paquistão, ou que houve falha quase total, excepção feita aos chineses, que devem ter estado a festejar a noite toda e hoje de manhã cedo continuaram o seu caminho africano, silencioso, mas rápido e eficaz. De substancial, sobrou a evidência do percurso de auto-promoção pessoal europeia que José Sócrates julgou ou julga estar a traçar para si mesmo, à margem da realidade não virtual noticiada no Yahoo News, onde se lê: “But EU officials and businessmen fear growing Chinese investment in Africa could displace Europe from the top spot”. Quanto ao jornalismo, parte dele manifesta-se completamente incapaz de olhar para trás, para a Agenda de Lisboa, para Guterres e para o pântano. Etiquetas: Cimeira UE - África, União Europeia (url) 9.12.07
LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 9 de Dezembro de 2007 Bastam dois minutos para se perceber o tom do noticiário da RTP sobre a Cimeira UE - África. Em dois minutos estamos em plena retórica empolada e palavrosa, épica e grandiloquente, sem um átomo de jornalismo. Pelos vistos ninguém dá por ela na RTP. * A demonização de Gordon Brown também é interessante... * Ah! grande Merkel! Ah! pequeno Sócrates! * O "espírito de Lisboa" é na cabeça de Sócrates o seu próprio "espírito". Quando louva o "espírito de Lisboa", o que ninguém sabe o que é, gaba-se a si mesmo. * Alguém consegue saber o que aconteceu na Cimeira, o que se conseguiu e o que não se conseguiu, as fracturas UE - África que dominaram as discussões comerciais, tudo o que de novo aconteceu nestes dias, não apenas o que já estava preparado há muito? É isto que é matéria jornalística, não as múltiplas distrações incidentais e sobre isto sabe-se pouco. Lá vamos ter que ir aos jornais ingleses... * Ou a BBC cujo correspondente retrata uma Cimeira muito diferente da da RTP, assim como o Le Monde: "As the Portuguese hosts hailed a "new chapter" in relations, Senegal's president railed against new EU-African trade deals proposed by the EU. And Zimbabwe's President Robert Mugabe reportedly accused Europe of arrogance in criticising his human rights record. * Não sei o que se conseguiu e não se conseguiu. Não sei o que se ganhou ou perdeu. Nem a UE nem África. Mas sei uma coisa: a mim, como português, como europeu crente que um conjunto de países que, apesar das diferenças, compartilha ideiais de pluralismo democrático e respeito pelos direitos humanos, repugna-me ver o primeiro-ministro do meu país alardear os benefícios de um acordo (acordo? declaração de intenções? memorando de entendimento? outra coisa qualquer?...) com a Líbia, essa nação democrática, com um soba que está há décadas no poder, que compra páginas inteiras de anúncios contra o tribunal penal internacional nos principais jornais em circulação, que é suspeito de múltiplos atentados dentro e fora de portas, que se passeia com total descaramento por onde quer que vá, com óculos escuros e ar sinistro dentro dos recintos onde decorrem os "trabalhos", devidamente acompanhado por umas igualmente sinistras mulheres que são quem lhe serve de protecção pessoal. Esse mesmo chefe de estado cujos assessores queriam desgravar uma parte do filme de um repórter da RTP só porque ele perguntou se ele já tinha ou não sido confrontado com algumas questões menos simpáticas. Os mesmos assessores e seguranças que perguntavam ao conjunto de jornalistas que ali estavam, num inglês mal falado e ameaçador «do you have any problem?». Estes chefes de estado, verdadeiros líderes que se impuseram à força em países sem condições para os expulsar definitivamente, vieram cá porque Portugal exerce actualmente a presidência da UE. Nada a apontar. Mas alguns desses vieram cá e passearam a sua arrogância e prepotência, montando tendas em fortes e sendo ofertados com banquetes presidenciais. Para além do mais, ainda são agraciados com declarações únicas do primeiro-ministro, porque existem interesses económicos que, como é óbvio e qualquer um compreende, se sobrepõem claramente a quaisquer questões de princípio. Isto é hoje o meu país. Um país que cada vez tenho mais dificuldade em aceitar. Etiquetas: Cimeira UE - África, União Europeia (url) 31.10.07
LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 31 de Outubro de 2007 A continuar assim este "pensamento único" sobre a Europa, ainda vai acabar por ser crime pronunciar-se contra este curso recente da política europeia traduzido no Tratado chamado "reformador" ou "de Lisboa". Ainda nos vai acontecer o que aconteceu àqueles pobres sindicalistas que não tiravam o barrete proletário à passagem da novel bandeira republicana: paulada em cima. Já é um verdadeiro delito de opinião, um sinal de marginalização, de leviandade, de velhice do Restelo, de anti-modernidade, uma atitude populista, demagógica, irresponsável, mesquinha, anti-nacional, anti-fundos, anti-desenvolvimento, anti-paz perpétua, anti-humanista, anti-gloriosas tradições de "diálogo civilizacional", pró-americana ou seja pró-Bush, neo-liberal, reaccionária, nacionalista, quiçá racista, anti-multiculturalista, pró-skin, saudosista, antiquada, e muito mais de mau e vil e provocador. Quarenta anos depois de ser subversivo, estou outra vez subversivo.* Tretas. Tenho cada vez menos paciência para os que pensam que, servindo-nos tretas, temos que almoçar, jantar, comer tretas. Esta história da entrada de Menezes no Conselho de Estado, na versão do comunicado do PSD divulgado ontem, é uma colecção de tretas. Primeiro, mente-se dizendo que nunca se pretendeu que Menezes estivesse no Conselho de Estado, e que tal nunca foi pensado na actual direcção do PSD. Ribau diz que isto foi uma manobra de outros, da comunicação social, não se sabe bem de quem. Eu sugiro um culpado: as fontes do Diário de Notícias que garantiam a pés juntos que Menezes iria para o dito Conselho e toda uma coreografia associada, incluindo ataques a Capucho. Depois, foi todo um processo conduzido com os pés, atabalhoadamente, sem rigor, nem seriedade, que acabou por receber a bofetada de luva branca de Capucho e de luva preta do Presidente. Por fim, como as coisas correram mal, faz-se como o menino que queria o bolo e como não o teve, embirra e diz que afinal o bolo é péssimo e está estragado e nunca lhe passou pela cabeça comê-lo.Etiquetas: PSD, União Europeia (url) 28.10.07
UM REFERENDO CONTRA A INEVITABILIDADE ![]() Ninguém melhor do que os historiadores conhece a inevitabilidade. Quando eles olham para trás, para a matéria do seu estudo, tudo já aconteceu, tudo habita num país estranho e estrangeiro, tudo é um fait acompli, tudo está, como o papagaio dos Monty Python, efectivamente morto, alimenta as margaridas e deu a alma ao criador. Os historiadores conhecem melhor do que ninguém a Realpolitik, as ilusões várias cujos túmulos semeiam a História, embora também saibam que elas são muitas vezes uma força imparável. Dão um papel à complexa e controversa interacção entre as personalidades e a lenta marcha das coisas, valorizam o tempo lento, e, mesmo nas excepções, nas catástrofes, nas revoluções, tendem a vê-las a posteriori, como se fossem, o resultado de um caminho inexorável. Sabem também que da História nunca ninguém aprende nada, que somos suficientemente adâmicos para fazer sempre as mesmas asneiras, inevitavelmente. Mas este ofício de historiador é propenso a um especial cinismo sobre as coisas, muitas vezes útil contra o optimismo beato corrente, mas também levando a uma impotência cívica. Em bom rigor, é sempre possível usar a História para não se fazer nada. Tudo parece inevitavelmente, inexoravelmente, imparavelmente escrito nas estrelas. Não tenho por hábito comentar as opiniões dos que comigo partilham o espaço deste jornal, mas os argumentos de Rui Ramos e de Vasco Pulido Valente, expostos em artigos do Público, contra o referendo são posicionamentos políticos de per se numa polémica em curso. O que dizem faz parte de uma lucidez pessimista que me parece sempre muito necessária face a uma vida pública comezinha e vendida às oportunidades do presente, cega às consequências e feliz com a mediocridade que, para já, lhe é garantida. Em democracia, quando não se acredita na "felicidade terrestre", já não é mau viver na relativa facilidade do presente. Mas não chega e está muito menos adquirido do que se pensa. Por isso, partilhando com os seus textos quase todos os fundamentos, prevenções e suspeitas, considero que as suas conclusões conduzem a uma atitude de impotência cívica. Se se tomar à letra o que dizem, nunca ninguém fará nada, o cinismo tolherá todos os nossos passos e, em democracia, deixamos tudo aos outros. Claro que ninguém é obrigado a sentir-se obrigado a agir no presente, nem a ser educador de nenhuma causa, nem a pretender mudar nada. Mas, quer Rui Ramos, quer Vasco Pulido Valente já assumiram compromissos com movimentos políticos (no PSD, no Compromisso Portugal) e, quando o fizeram (e fazem), sabiam certamente que não seria difícil encontrar toda uma lista de argumentos cínicos e de "lições" da História para apresentar esses compromissos como sendo tão frágeis como os de querer um referendo nos dias de hoje. Voltemos ao referendo, às minhas razões para o continuar a defender. O que acontece é que, se se abandonar a exigência do referendo, dá-se uma completa caução ao caminho suicidário da UE, às crescentes tendências para, fugindo em frente, num aparente upgrade político que ninguém verdadeiramente deseja, estragar o que ainda sobrava de atitudes e medidas racionais na construção europeia, que também as houve. Não é um ajuste com a História é um ajuste contra as más políticas do presente. É verdade que um referendo tem todos os riscos, em particular quando não se faz parte dos entusiastas da democracia "directa", o que é o meu caso. Não valorizo nem mitifico o referendo de per se, em detrimento da ratificação parlamentar, mas considero que, nas circunstâncias do presente, o referendo tem virtualidades que nada mais garante e é a única forma de criar obstáculos a um caminho que me parece ser uma corrida para um desastre. Ninguém pode negar que o "não" francês e holandês deram uma lição ao iluminismo europeu que nada mais poderia dar. É verdade que obrigou a levar a engenharia política para dentro dos salões, a escondê-la e a torná-la ainda mais dolosa. Mas fragilizou-a muito significativamente e isso foi positivo. Há o risco do "sim" quase inevitável, apresentado como caução definitiva e eterna, a aparente legitimação do "pensamento único" que ad secula seculorum justificará tudo o que se fez e faz em nome da Europa. Um referendo com um "sim" esmagador acabará por garantir que os governantes nunca mais estarão dispostos a aceitar qualquer limitação ao seu direito de decidirem de forma iluminista sobre a Europa. E é plausível, quase inevitável, que seja esse o resultado em Portugal, dado o modo como a Europa representa uma forma de nos acomodarmos com um crescimento assistido com o dinheiro dos contribuintes alemães, uma facilidade de vida medíocre mas real, uma moderação exógena para os nossos maus costumes endógenos, tudo isso que brilha nas estrelinhas dos cartazes dos fundos. No referendo tudo se arregimentará à volta do "sim", Presidente da República, primeiro-ministro, Menezes e Portas, PSD, PP, PS, empresários, autarcas, Igreja, maçonaria, jornais e jornalistas, jornais, rádios e televisões, todo o mundo "sensato", e acima de tudo a enorme máquina de propaganda que já está instalada pela burocracia europeia. A reivindicação do referendo é a única maneira de pegar nas poucas pontas de fio que sobram para um debate sobre a Europa, pobre, inquinado, desigual, ambíguo que seja, mas mesmo assim o único possível. O referendo dá um empowerment às pessoas comuns que nada mais dará, e esse "poder" é o único que as pode interessar pelas questões europeias, que as pode levar a prestar-lhes alguma atenção. Pedem-lhe o voto no meio da indiferença geral, mas mesmo assim são interpeladas. Muitos não farão nada, continuarão indiferentes, outros farão. Haverá mil razões impuras para o fazer, até porque o referendo está por excelência cheio de razões impuras, mas será que essas razões não têm a ver com a Europa? O argumento dos que dizem que os referendos europeus tendem a concentrar razões de insatisfação contra os governos que não têm nada a ver com a Europa, para mim não colhe. Os 200.000 manifestantes levados pela CGTP e pelo PCP estão a pronunciar-se sobre a Europa à sua maneira. Os que votariam contra Sócrates por causa do centro de saúde estão a pronunciar-se sobre a Europa, porque o aperto para o controlo do défice é uma política "europeia". Hoje quase tudo na governação tem a ver com a Europa, por isso, se se votar por razões impuras de política interna, também estamos a votar no modelo de uma política que é moldada por decisões europeias. Ninguém tem ilusões, a não ser os europeístas extremos, de que existe ou é possível existir uma "consciência europeia". Mas acredito, com a fé dos agnósticos, que talvez seja possível melhorar a "consciência" dos portugueses face à Europa e que isso é melhor que nada. Sem referendo é que é mesmo nada, estamos condenados à impotência cívica. (No Público de 27 de Outubro de 2007) Etiquetas: União Europeia (url) 27.10.07
COISAS DA SÁBADO: O REFERENDO Há dois argumentos dos opositores do referendo, ambos ditos sottovoce, que revelam bem o estado da política europeia dos nossos dias: um, é que é um “perigo” levar o tratado a referendo porque pode ser recusado; outro, é que a populaça é burra, logo não pode alcançar as primícias do pensamento e as complexidades do articulado, para decidir como deve, ou seja dizer “sim”. Vital Moreira resolveu por em letra de forma o argumento da nossa colectiva burrice no seu blogue Causa Nossa:“Os que defendem o referendo sobre o Tratado de Lisboa já experimentaram lê-lo? E acham que algum cidadão comum consegue passar da segunda página? Não será tempo de deixar de brincar aos referendos?”Esta frase abre verdadeiras avenidas para a política europeia dos nossos dias, a começar pelo facto de que, se se escreverem documentos cada vez mais obscuros, menos obrigados somos a levá-los a votos. Podia-se experimentar, aliás por solidariedade com a língua mais minoritária da União, escrevê-los em maltês (hoje são escritos em burocratês). Assim acabava-se com essa actividade subversiva de querer saber e decidir o que provocou tanta alegria de encomenda para as televisões, com governantes que cada vez mais aparecem só em fundo azul. Será que nos vão passar a dar só Murganheira de boa colheita? Isso, o “cidadão comum” compreende e até é capaz de passar da segunda página de um prospecto de férias do Algarve. Para o resto, somos burros, não somos? E eu que pensava que com este tratado se reforçavam o Conselho e o Parlamento Europeu (instituições que até há uns dias eram consideradas hostis à “coesão” dos países como Portugal) e se enfraquecia a Comissão (que desde o mítico Delors era o porta-voz do equilíbrio dos países europeus face aos “grandes”); eu que pensava que Portugal, como o pequeno Luxemburgo e a grande Alemanha, podiam até agora in extremis vetar uma decisão que afectasse vitalmente o interesse nacional, obrigando a uma negociação que acomodasse todos e agora perdi essa “bomba atómica” que tornava iguais as nações da Europa como pretendiam os “fundadores” como Monnet e Schumann; eu que pensava que, passando a haver maiorias e minorias, que ninguém garante se vão ser ou não “de geometria variável” (em burocratês: significa que umas vezes se ganha e outras se perde) isto significava que Portugal deixa de poder defender qualquer “interesse vital” (em burocratês esta expressão passou a ser maldita, hoje é substituída por “mesquinhos interesses nacionais”); eu que pensava que o tratado coloca num papel pela primeira vez uma hierarquia de nações, passando a haver umas de primeira, outras de segunda e outras de terceira, e que qualquer estudante de relações internacionais, mesmo burro, sabe que isso é uma garantia de conflitos; eu que pensava que não havendo vontade dos povos e das nações para fazer um upgrade da sua política europeia comum (como se vê pelos referendos à Constituição, em que os burros bateram os iluminados e pelas posições de países como o Reino Unido, mas não só), este tratado só irá criar problemas em vez de os resolver, na medida em que ninguém acredita que as votações maioritárias possam resolver qualquer problema sério da Europa, os que são a doer (a decadência do “modelo social europeu”, a absurda PAC, a vacuidade da política externa, a incipiência de uma política de defesa, o financiamento da União e, até, vejam lá, o projecto Galileu, o GPS europeu que continua atrasado e encravado, etc., etc.); eu que pensava... mas devo pensar demais para a tribo dos burros em que Vital Moreira nos incluiu a todos. O problema é que eu penso ainda mais uma coisa: é exactamente para que os “cidadãos comuns” não percebam nada disto e não decidam sobre isto, que os iluminados não querem que haja referendo. (Na Sábado de 27 de Outubro de 2007) * De facto, muitos dos argumentos que temos ouvido em favor da não realização do referendo são verdadeiramente "sui generis" do ponto de vista do que deveria ser uma sociedade democrática e verdeiramente aberta à participação dos cidadãos, sobretudo nas questões mais importantes que se relacionam directamente com o seu futuro colectivo. O ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros, João de Deus Pinheiro disse numa entrevista televisiva que a ratificação no Parlamento era mais democrática que o referendo, porque o cidadão comum, e até alguns políticos, não conseguiam entender, por exemplo, o funcionamento do processo de votação por maioria qualificada nas instituições europeias. Por sua vez, o constitucionalista Vital Moreira argumenta que o cidadão comum não passaria da segunda página do Tratado, pelo que não vale a pena perder tempo a consultá-lo. Todavia, no limite, tais argumentos que sustentam que só um núcleo restrito de "iluminados" está em condições de ler e entender o Tratado de Lisboa, serviriam também de argumento para suprimir a própria democracia !... Será que alguém já se interrogou sobre quantos eleitores lêm os programas dos partidos políticos (e os entendem correctamente), antes de votar numa eleição para a Assembleia da República? E se interrogou também sobre quantos eleitores não votam por questões "laterais" nas eleições para a Assembleia da República, para o Presidente da República, nas eleições para o Parlamento Europeu e nos referendos já realizados sobre o aborto e a regionalização? Por outro lado, muitos dos que agora defendem a não necessidade de referendo ao Tratado andaram há pouco tempo atrás a fazer campanha pela necessidade dum referendo sobre o aborto, argumentando que o assunto era de tal maneira importante que necessitava de uma consulta directa ao eleitorado. Para além disso, elogiavam o processo como uma manifestação de vitalidade democrática. Afinal, parece que a importância do assunto não era o principal argumento, nem a vitalidade democrática mostrada pela consulta directa ao eleitorado, mas o facto de a questão estar ao alcance dos ... "burros"?! Seja ou não feito referendo sobre o Tratado (e tudo indica que não) já houve pelo menos um efeito positivo nisto: é sempre bom sabermos o que as "elites" verdadeiramente pensam do povo. Etiquetas: União Europeia, Vital Moreira (url) 22.10.07
O TRATADO QUE SE CHAMARÁ DE LISBOA O "fumo branco" papal que o Público usou para caracterizar o anúncio de um novo tratado europeu que se chamará "de Lisboa" é uma imagem apropriada à coisa. Cá fora, os fiéis e a Igreja esperaram o "fumo branco", com a ansiedade do rebanho que pensa que perdeu o seu pastor e, biblicamente, espera de novo o conforto de ser pastoreada, de encontrar um bom pastor, bons cães, boa tosquia, boa erva. Durão Barroso ficou contente, José Sócrates ficou muito contente, Sarkozy ficou contente, Merkel ficou muito contente, a Bélgica ficou contente, o Luxemburgo ficou contente, Bruxelas ficou tão contente que chegou até Paris e Berlim num breve momento de abrir as penas de pavão de "capital da Europa", em dezenas de edifícios pela Europa fora, em Bruxelas, no Luxemburgo, em Estrasburgo, nas "agências" europeias da Grécia a Portugal, nos escritórios da burocracia europeia, de Talinn a Nicósia todos ficaram muito contentes, no Euronews ficaram muito contentes, nas mil e uma actividades subsidiadas pela União reinou o contentamento. O Público está muito contente e coloca-me na situação habitual de desmancha-prazeres e temo que coloque a minha péssima fotografia ao contrário, melhorando-a como efeito perverso da Europa. Como na Europa, é ao contrário que se fica direito. O contentamento percebe-se nas suas várias modalidades. Os genuínos europeístas, federalistas na maioria dos casos, celebram mais uns passos (que consideram mesmo assim tímidos) a favor de uns Estados Unidos da Europa míticos, de uma nação "europeia" assente nos bons costumes nos direitos humanos, na cultura "humanista", no "modelo social europeu", uma potência mundial "olimpiana" que retirará aos EUA a hegemonia internacional por uma mistura de apoio humanitário, diplomacia paciente e exibição dos seus méritos multiculturais. Na cerimónia de proclamação da falhada Constituição, choraram ao ouvir o "Hino da Europa" e depois enraiveceram-se com o desaforo francês e holandês. Agora, com 90 por cento da sua Constituição fora do risco de qualquer referendo, têm razões para estar contentes.Os europeístas tecnocráticos são outras variantes de gente contente. Eles acreditam que a racionalidade europeia é superior à das nações e tem uma certa razão prática. Os burocratas, se deixados à Lei de Parkinson, tratarão em primeiro lugar de si próprios, tratarão de alargar a burocracia, mas em seguida combaterão aquilo que acham ser a "incompetência" dos políticos. Está tudo no Sim, Senhor Primeiro-Ministro esse compêndio televisivo da democracia real. Combaterão a política e essa impureza para a dignidade do bom governo que são as eleições e os votos. Eles produzirão milhares de leis, regras, regulamentos, directivas, estudos, pareceres, notas de orientação, produtos do puro saber burocrático regulamentador, que, para além da pequena pecha de implicarem sempre mais burocratas, mais escritórios, mais "agências", são produtos iluminados de um mundo perfeito onde os barcos têm duplo casco, o silicone mamário é resistente, tudo é biodegradável, as ovelhas têm transporte adequado, os peixes estão protegidos dos pescadores, a carne, as maçãs, o vinho, o queijo, estão isentos de todas as doenças conhecidas, são inodoros, não têm sabor, brilham em embalagens etiquetadas como deve ser, e os trabalhadores devem ser muito bem tratados pelo "modelo social europeu", menos os canalizadores polacos. Centenas de Sir Humphreys no topo e milhares de Bernards na hierarquia garantem esta Europa. Há quem se converta a ela, exactamente para servir de garantia para que não haja desvarios com a moeda, com o défice, com o "monstro". Cavaco Silva passou de eurocéptico a europeísta por esta via de descrença nas capacidades endógenas de Portugal se reformar e na esperança de que, se não vai de dentro, vai de fora. Apenas, apenas uma lista de uma pequena parte da burocracia europeia: as agências especializadas sediadas nos diferentes países da União:Depois, há contentamentos menos evidentes, menos conhecidos e, acima de tudo, menos reconhecidos porque politicamente inconvenientes para o discurso mítico-heróico da Europa. São estes contentamentos que mais nos deviam preocupar no caminho que este tratado abre, na sequência, aliás, do processo europeu que já levou à falhada Constituição e leva agora à fuga aos referendos. Bem sei que, para os portugueses, cujo único interesse nacional foi pôr lá o nome de Lisboa, esta coisa de manifestar interesses é não só um absurdo "nacionalismo", como incomoda, porque há sempre alguém a quem os fundos não abafam a voz, como acontece connosco. É por isso que jornalistas e comentadores tratavam com enorme desprezo os infames "interesses nacionais", ridicularizados nos gémeos polacos, no deputado italiano a mais, no cirílico do euro, etc., etc. Ao mesmo tempo, evitavam a todo o custo analisar o tratado como expressão de interesses nacionais muito mais agressivos e eficazes como os da Alemanha e da França. A seu tempo, vão admirar-se por verem que, afinal, não é assim tão simples abafar as nações numa supra-entidade nacional que tem hoje uma lógica muito mais do interesse nacional que outra coisa. O problema com este tratado é que ele não resolverá nenhum dos problemas actuais da Europa e criará alguns outros bem complicados. Basta concentrarmo-nos naquela que é louvada como a melhoria fundamental no funcionamento da Europa a 27, a substituição de uma regra implícita de unanimidade por regras de maioria qualificada. Esta por si só é uma mudança qualitativa que altera radicalmente os fundamentos consensuais em que a Europa de Monnet, Schumann e De Gasperi foi construída. Eles percebiam, a partir da experiência trágica da guerra, que uma "união" na Europa só era possível se todos se sentissem iguais, nem que fosse na possibilidade virtual de vetarem, e que isso implicava um enorme esforço de consenso e, logo, de "pequenos passos". A obsessão gaullista, retomada por Chirac e Giscard, de uma Europa superpotência competindo com os EUA, conjugada à emancipação de uma Alemanha unificada dos complexos da guerra, farta de pagar "reparações de guerra" disfarçadas de financiamentos à União, levou a uma condução europeia de fuga em frente. Não resolve a PAC, não resolve a circulação de serviços, mete-se em complicações na política externa e de defesa, menospreza tudo o que no quadro dos tratados anteriores era suficiente e permanecia por potenciar e atira-se de cabeça para a engenharia política e mandou os "pequenos passos" para as malvas da história. Fez um alargamento apressado e pouco preparado e depois, assustada pelos efeitos desse alargamento na dissolução do seu próprio poder, tentou retomar as condições de manutenção de um núcleo duro e por isso precisava tanto deste tratado "reformador". Mas nenhum tratado alterará uma Europa que hoje se concentra numa França mais proteccionista e numa Alemanha que já não precisa de ninguém (ou seja, da França) para ter uma política externa própria e quer uma Europa ao modelo dos seus Länder.Fora disso, só há ficções. Alguém pensa que uma decisão da União que seja entendida como prejudicial ao Reino Unido possa ser implementada por uma maioria de países europeus contra o Reino Unido? Tirem daí a ideia, porque, na prática, uma de três coisas resultará: ou cai o Governo inglês que aceite tal decisão sendo substituído por outro ainda mais eurocéptico, ou há mais um opting out, ou o Reino Unido sai da União, coisa aliás muito desejada pelos europeístas. O mesmo se aplica em bom rigor à França, Alemanha e Polónia. Ou seja o afã de criar maior governabilidade por sistemas de maiorias e minorias é uma receita para a prazo haver sempre ganhadores e perdedores na Europa, que terão de responder no seu país ao seu próprio eleitorado. Isto enquanto a União Europeia não conseguir substituir as eleições nacionais por eleições europeias. ![]() (No Público de 20 de Outubro de 2007) Etiquetas: União Europeia (url) 20.10.07
A FUGA EM FRENTE DA EUROPA 27 ![]() 2007. O tratado de Lisboa esta finalmente assinado! A Europa, recuperando a sua glória passo a passo constrói-se, assente num modelo social europeu que lutas justas conquistaram. O TGV une a Europa como um só, a implacabilidade de Bruxelas protege os consumidores de todos os males, as guerras estão cada vez mais remotas e longe neste oceano de paz em terra, e começamos a bater o pé mesmo aos próprios Estados Unidos. No mesmo ano de 2007, acordo as 5h00 da manha, confiando nesta Europa. na mobilidade, na protecção, na segurança. Chegando à estação de uma das poucas cidades que ainda não se envolveu nesta Europa pura, doce, cristalina, sou confrontado com o aviso de 'radicalização' da greve. E penso para com os meus botões: que exemplo mais vivo de construção do modelo europeu eu poderia ter? Sao 6h da manhã. Entretanto, penso poder compartilhar o regozijo dos comentadores portugueses com o exemplo da força sindical francesa! Plena, completa, inequívoca, cada vez mais radical. Devemos aprender com tal exemplo. Negociar tratados com gente que compreende os sentimentos das pessoas e tem lutas justas. Recomfortado por este pensamento, de que os políticos europeus sabem o que é melhor para mim, formados neste tumulto de ideias radicais (e logo, boas), posso ás 6h40 confirmar que não há TGV. Que não posso deslocar-me conforme combinado há já um mês. Estao 2 graus Celsius fora da estação. Aproveito a falar com quem está no meu suposto destino. Como o chocolate que lhe era destinado, e pelo qual paguei rigorosamente o preço de custo, numa Suiça que ainda recusa os benefícios de uma União Europeia unida, eficiente, móvel, social, pública. Quem me deveria ter recebido explica um pouco mais além o funcionamento do modelo social franc... europeu. Nas diferentes repartições perderam os documentos necessários á inscrição numa universidade. Foram para Paris, ou perderam-se talvez num dos comboios de distribuição de correio. A culpa morre solteira. E entretanto obrigam-me a pertencer a esta Europa. Sem perguntar. Eu confio... é porreiro, pá! Ironias á parte, utilizei quatro vezes comboios em França. Em duas fui afectado por greves. Assusta-me a possibilidade de esta forma de estar em greve permanente possa um dia afectar-me mais que pontualmente. Por ser isso que se passa, neste momento, com o único prestador de serviços de transporte de comboio, em França. Um dos signatários do Tratado de Lisboa. Que José Sócrates assinou por mim. Sem perguntar. (Daniel Rodrigues) * Quer mais um exemplo de um episódio (que, aliás, deve conhecer) de "Pensamento Único" que, a menos de uma mudança de escala, poderia ter sido decalcado deste último nos seus aspectos negativos? O chamado "Tratado de Bolonha", que impôs uma estrutura única no ensino superior da União Europeia: o "catch" está no facto de o nivelamento ter sido feito por baixo. Apesar de não ter atraído nenhuma atenção mediática (e acho que nos blogues também não), todos o processo decorreu da mesma forma: não se ouviu, no espaço público, uma análise crítica de fundo; por outro lado, no interior das Universidades e Politécnicos do Estado, quem criticou foi ostracizado e, em alguns casos, pura e simplesmente afastado. Chegou quase a ser obrigatória a assistência a "cursos", apoiados pelo Ministério da C&T, que não eram mais do que sessões de propaganda. Qual foi o resultado? Neste momento uma "Licenciatura" ou um "Mestrado" têm menos conteúdo científico que os antigo graus de Bacharel e Licenciado. Os alunos europeus já saem do secundário (ou equivalente) ignorantes. Agora, depois da Universidade, podem continuar no mesmo estado. Atrevo-me a dizer que o Tratado de Bolonha, apesar de muito menos mediatizado que o de Lisboa tem potencial para infligir, a longo prazo, muito mais danos. Mas aqui no nosso cantinho (e nos outros cantinhos europeus), basta abanar com frases do género "Espaço Europeu de Ensino Superior" e as faculdades critícas, caso existam, desligam-se. Será que já ocorreu a alguém que a susceptibilidade dos portugueses ao Pensamento Único seja causada pelo facto de, nas nossas cabeças, só existir espaço para um pensamento de cada vez? (João Soares) * Mas afinal alguém me aclara quantos Tratados foram assinados nestes dois últimos dias !? A julgar pela massiva difusão televisiva parece tratar-se de vários! Quais as implicações acarretam para vida dos povos europeus em geral, e para os portugueses em particular, para os 200 mil que estiveram na rua e para os outros que não estiveram. Nisso a cobertura mediática é omissa, no que concerne à substancia, a única referida foi a que jorrara das garrafas. Bem sei que isso de Tratados é coisa de, e para mentes brilhantes. Mas não precisam de me explicar, eu só quero entender. Sabendo que, quem boa ou má cama fizer nela se deitará, eu por mim quero ter a possibilidade de opinar acerca do tamanho da dobra. (Telmo Martins) * Sobre a fuga para a frente da Europa: Sobre a estratégia de Lisboa (se alguém se lembrar ainda o que é...), esse objectivo está a ser cumprido? Sermos a maior economia mundial em 2010? Não pois nao? Pois... E o protocolo de Quito, também vai ser cumprido? Qualquer dia dizem que esse tem um nome japonês e já não vale.... Melhor parar e reflectir. (Filipe Figueiredo) * O trato Grande alívio terem conseguido O acordo da joanina Confusão com o bebido Pelas tantas da matina Vencemos o bloqueio do cirílico Cedemos mais um deputado Mas que grande político Este engenheiro diplomado É enorme a alegria Deste povo de Portugal Por mais esta feitoria Deste país sem igual (José Nascimento) Etiquetas: União Europeia (url) 19.10.07
A FUGA EM FRENTE DA EUROPA 26 ![]() Pensamento único em todo o seu esplendor nas televisões no prime time: Sócrates, Mário Soares, Vitorino, João de Deus Pinheiro, etc., etc. Não ouvi ninguém criticar o Tratado, nem defender o referendo. Isto está bonito. Muito plural. * Como vê, as vozes contrárias ao "tratado reformador" remetem-se à extrema-esquerda e a meia dúzia de abruptas personalidades. É um bocado triste. Agora já sabe como eu me sinto quando me deparo com o mesmo cenário relativamente às causas ambientais, muitas tão ou mais importantes que este tratado. Há algumas diferenças -- reconheço que a comunicação Etiquetas: União Europeia (url) A FUGA EM FRENTE DA EUROPA 25 ![]() Assistir às notícias na nossa comunicação social sobre a cimeira europeia e o Tratado Reformador faz-me lembrar a atitude da nossa comunicação social no caso Madeleine McCann (do tipo Portugal x Inglaterra em futebol). A parcialidade e o carácter quase propangandístico da maioria das reportagens, informações e comentários é, no fundo, não muito diferente do tom de preferência «clubística» aí mostrada. Em vez de uma informação que deveria procurar ser objectiva, ponderada e crítica, temos a imagem sem reflexão, a emoção, as meias verdades e a comunicação por "slogans" que inibem o pensamento. Basicamente o que temos assistido é a uma deslocação desta preferência «clubística» para o Tratado de Lisboa, mas o quadro mental é o mesmo (sem quere ser maldoso, admito que alguns dos que cobriram o caso Madeleine McCann sejam também os mesmo que estão a cobrir a actual cimeira). Não é por isso muito surpreendente o resultado final da (des)"informação" seja o que estamos assistir. Outro aspecto muito curioso é que na nossa imprensa, tal como na generalidade da imprensa europeia, não há normalmente uma atitude benovolente face à classe político (a opinião generalizada, justificada ou não, é que estes são em média fracos e pouco competentes e não têm a estatura de outros políticos do passado), tendo estes de se confrontar, nas questões de política interna, com o escrutínio dos mais diversos assuntos e a até a agressividade crítica da mesma. Todavia, quando o tema não são questões de política interna mas da União Europeia, os políticos - que, por acaso, são normalmente os mesmos "incompetentes" da política interna actual ou passada - passam a ser geralmente vistos como "grandes líderes" que fazem andar a "construção europeia" e têm "visões grandiosas" para um papel para a Europa no mundo... só é necessário aprovar mais um Tratado (já é o quarto nos últimos quinze anos, quando nas quatro primeiras décadas de integração os Tratados foram os mesmos!) Com este jornalismo "naïf" e acrítico, não admira que a classe política portuguesa e europeia goste particularmente da UE e das suas cimeiras, sobretudo porque lhe permite retiradas estratégicas da cena nacional e fazer um conveniente "restyling" na sua imagem. Quanto aos "sábios" da União Europeia, não posso deixar de ironizar com o assunto. Em 2002, a Constituição Europeia arrancou com enorme pompa com uma "Convenção" Europeia que pretendia evocar os Estados Gerais da Revolução Francesa de 1789. Como o processo terminou num fiasco com os referendos na França e na Holanda em 2005, o modelo agora parece ser o anterior ao da Revolução Francesa, ou seja, o do déspota Iluminado, que se auto-institituía poderes de "iluminar" e instruir o povo, sabendo, naturalmente, sempre o que era melhor para ele, sem este ser ouvido. Viva a era do novo "despotismo" iluminado europeísta !... (José Pedro Teixeira Fernandes) Etiquetas: União Europeia (url) A FUGA EM FRENTE DA EUROPA 24 ![]() Na sua primeira intervenção parlamentar à frente da bancada, Santana Lopes enuncia imensas reservas a que haja referendo e é acossado pelo ministro Santos Silva como era previsível. E o PP "saudou" efusivamente o Tratado... Etiquetas: União Europeia (url) A FUGA EM FRENTE DA EUROPA 23 ![]() Que comunicação social é esta, em particular nas televisões, em que ninguém aparece a criticar o Tratado? Será que o Tratado é como as Tábuas da Lei, ou o Alcorão, ditados por Deus aos seus profetas? Está acima da política, é verdade revelada? Ninguém acha estranho que, numa comunicação social normalmente adversarial, se alinhe numa política sem hesitações? Ninguém acha estranho que uma farândola de europeístas vá ocupar os telejornais hoje à noite e ninguém se importe com o contraditório? Na verdade, o palco já está escolhido e depois, quando for inócuo e irrelevante, obtido o efeito psicológico, haverá uns restos para se fazer de conta que há democracia. Etiquetas: União Europeia (url) A FUGA EM FRENTE DA EUROPA 22 ![]() Eu não excluiria de todo a possibilidade do Primeiro-ministro tomar a iniciativa de fazer um referendo em determinadas condições. Essas condições são fáceis de antever: se, depois da Presidência portuguesa, outros países avançarem para o referendo esbatendo-se o compromisso tomado na Presidência alemã para proteger a França e a Holanda, e se as sondagens forem claras quanto aos resultados a favor do "sim", Sócrates pode muito bem avançar com um referendo por puras razões de política interna, e assim criar enormes dificuldades à liderança do PSD. Sócrates sabe que o "sim" em Portugal é muito favorecido pelo clima nacional-patriótico da assinatura do Tratado "de Lisboa" em Dezembro. Com todo o peso da propaganda europeia a funcionar, manipulando o tema do "vejam lá o que fazem, não vão empancar a Europa" ou variações de "não estraguem o nosso Tratado de Lisboa", as condições de sucesso são à partida grandes num combate muito desigual. Sócrates sabe que se tomar a iniciativa só tem vantagens. Fará uma campanha europeia à procura de efeitos internos, com um PSD atrapalhado nas suas flutuações de opinião e que entregou a iniciativa ao PS nesta matéria, e pode sempre vangloriar-se dos resultados da Presidência como refrescamento da sua legitimidade. Não foi ele que "fez" o tratado "de Lisboa"? Não terá ao seu lado Barroso e Cavaco? Claro que as coisas podem correr mal, e o "não" ganhar força num contexto de grandes dificuldades, com "canalizador polaco" ou sem ele. Mas, que Sócrates está a pensar nisto é evidente para quem esteja atento. Etiquetas: União Europeia (url) A FUGA EM FRENTE DA EUROPA 21 ![]() Jornalismo de "causas": na SICN refere-se que o Presidente polaco "apressou-se a cantar vitória para consumo interno". Como eu suspeito que esta frase nunca seria dita sobre Sócrates, Sarlozy, Merkel e tantos outros... que, claro, não se "apressaram a cantar vitória para consumo interno" Etiquetas: União Europeia (url) A FUGA EM FRENTE DA EUROPA 20 ![]() "José Sócrates anunciou ainda que nos próximos meses será discutida a criação de “um grupo de sábios” para analisar as prioridades da Europa face aos novos desafios, devendo o seu mandato ser decidido na cimeira de Bruxelas. Segundo o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, o grupo de sábios terá entre “dez a doze membros” e irá reflectir sobre “o futuro da Europa” e “o seu lugar na globalização”, não havendo qualquer intenção de “reabrir o debate institucional”. (Público)Só faltava mais esta! Vêm aí os "sábios" para "analisar as prioridades da Europa", um atestado de logro político. Primeiro, porque quem vai escolher os "sábios" em função da composição do grupo já sabe o que eles vão dizer, e depois porque o sinal que se dá, depois das laudas ao futuro radioso de uma Europa politicamente mais forte, é despolitizar a decisão entregando-a a uns "sábios" que não respondem nas urnas pelas suas opções. Mais: a uns "sábios" que não podem nunca concluir que o modelo institucional da Europa é um problema, porque estão proibidos pelo Presidente Sarlozy de “reabrir o debate institucional”. Ah! ... e há também um outro efeito: apresentar um simulacro de actividade frenética para distrair os europeus da exigência do referendo. Convém não esquecermos que o tratado ainda não existe legalmente e que muita água vai correr debaixo desta ponte. Etiquetas: União Europeia (url) A FUGA EM FRENTE DA EUROPA 19 ![]() Afinal parece que os polacos ganharam mesmo o braço de ferro em defesa das suas posições. Lendo a imprensa polaca, coisa que pelos vistos não interessa a ninguém por cá, encontra-se isto em vários locais: Poland gets its way in LisbonPara contrariar o nosso festival patrioteiro, temos que ir saber lá fora o que aqui não nos dizem. Por exemplo, dizem os franceses que o mérito é de Sarkozy . Citação no Libération de um próximo de Sarkozy: «Initié par le président de la République et approuvé par l'ensemble de nos partenaires, ce traité permet à l'Europe de sortir d'une crise qu'elle connaissait depuis plusieurs années. Son adoption définitive va remettre le projet européen sur les rails»Tenho quase a certeza que os alemães dizem o mesmo de Merkel. Vou ver. Para os ingleses Brown explica que "travou" Bruxelas: "Gordon Brown: No more power to Brussels (...) Gordon Brown has promised British voters that he will halt the European Union juggernaut now the issue of the new Treaty is settled. " O clamor pelo referendo sobe em vários países. Vai ser interessante acompanhar como as coisas vão evoluir. Etiquetas: União Europeia (url) A FUGA EM FRENTE DA EUROPA 18 ![]() A RTP tem um jornalista em Varsóvia, o que é de louvar. O que já não é de louvar é que este tenha aparecido no telejornal, uma noite e uma manhã depois da finalização do tratado, e não diga uma palavra sobre as reacções na Polónia, mas passe apenas um filme de propaganda de um opositor aos gémeos, a afagar umas criancinhas. Fiquei sem saber as reacções polacas, uma das matérias mais interessantes para medir o impacto da cimeira. Será que ninguém lhe deu um intérprete para ouvir a rádio e a televisão, que devem estar a falar no assunto? O que é que ele foi lá fazer? Está à espera dos jornais franceses e ingleses? Está a passear? Não tem contactos, foi para um hotel e apareceu apenas para dizer nada à hora prevista, para mostrar que a RTP estava lá? Mas que desperdício de dinheiros públicos... Etiquetas: União Europeia (url) A FUGA EM FRENTE DA EUROPA 17 ![]() As conferências de imprensa são um bom teste para se perceber a diferença entre o jornalismo português e o europeu. Na da hora do Telejornal, Esteves Martins faz uma fabulosa pergunta a José Sócrates sobre se os interesses nacionais, nesta cimeira tinham, finalmente, acabado por prejudicar a Europa. Os termos não foram bem assim, foram ainda para pior, porque Esteves Martins afirma sempre mais do que pergunta e espera ouvir o eco magistral da sua voz na do Presidente do Conselho. Vale a pena estarem atentos à performance se houver repetição. * Esteves Martins, na RTP-N, ameaça-nos com a expulsão:«A partir de agora, há uma cláusula que diz que se um país não estiver satisfeito pode ir embora. Se Portugal, ou os franceses ou os holandeses, não estiverem satisfeitos com este tratado, podem-se ir embora, podem abandonar a União Europeia.»Isto caso votemos (caso possamos votar) num eventual referendo à ratificação, a qual é (é, não é?) necessária para a implementação do tratado — e, logo, dessa cláusula. Etiquetas: União Europeia (url) A FUGA EM FRENTE DA EUROPA 16 ![]() Mas afinal parece que todos os países que tinham miseráveis "interesses nacionais" sairam vencedores da reunião: os italianos tiveram o deputado a mais, os búlgaros o "euro" em cirílico e os polacos, os tenebrosos polacos, saíram com o acordo de Joanina incluído no tratado por via de uma habilidade jurídica. Falta conhecer os pormenores, mas esta é uma boa lição. Etiquetas: União Europeia (url) A FUGA EM FRENTE DA EUROPA 15 ![]() Respondendo a Pedro Magalhães. Primeiro, ainda bem que se faz a pergunta sobre o referendo, mesmo que mais tarde em Portugal do que noutros países. Segundo, é verdade que "o "inquinado", é relativo", mas existe mesmo assim. É sempre "relativo", porque não há pureza biológica na vida pública, mas convenhamos que a ideia do "facto consumado", tão inevitável como os impostos e a morte, é uma "inquinação" muito perniciosa para as pessoas se sentirem com "empowerment" para rejeitar. Pode favorecer um voto de protesto, mas não dá a sensação aos eleitores que o seu voto conta para alguma coisa, o que é importante neste jogo muito subjectivo. Terceiro, parece-me, sem desprimor, uma falácia perguntar: "o que é mais realista e com consequências para o futuro: saber se se deseja o referendo a um tratado antes ou depois dele existir?". Na verdade, este tratado já existe desde a Constituição europeia, ou pelo menos desde a última reunião do Conselho na presidência alemã. Não há no texto actual nada que se afaste desses documentos e as principais soluções que o caracterizam são, de há muito, do conhecimento público. Sempre me pareceu este um argumento para ou negar ou adiar o compromisso do referendo, um falso argumento. Como é óbvio, não se trata de fazer o referendo antes de haver tratado, trata-se de haver um compromisso de referendo desde início do processo, o que gera uma atitude e uma mobilização diferentes. ADENDA - Ver a resposta de Pedro Magalhães. Etiquetas: União Europeia (url) A FUGA EM FRENTE DA EUROPA 14 ![]() A notícia do tratado é obviamente uma notícia de primeira linha. Mas a manifestação da CGTP também o deveria ser. Foi muita gente, muito mais gente do que qualquer previsão anunciaria. Sob os nossos olhos e os nossos pés, a CGTP reforça-se, o que significa que também o PCP se reforça, Carvalho da Silva cresce como alguém que defronta Sócrates com vigor, a UGT definha e não há desprezo nem arrogância governamental que escondam o facto. Uma das heranças de Sócrates vai ser esta, revitalizou os sindicatos para o bem e para o mal. Etiquetas: União Europeia (url)
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