LENDO VENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 30 de Agosto de 2008
Para que serve a RTP ao governo? O Telejornal das 13 horas de hoje dá um magnífico exemplo, tão escandaloso como inequívoco. Todo ele foi construído para responder às críticas ao Ministro da Administração Interna e ao governo sobre a incapacidade de lidar com o agravamento da criminalidade. Depois de várias reportagens sobre operações realizadas um pouco por todo o país, um típico caso do uso das forças policiais para disfarçar um problema político de fundo, sem sabermos se os resultados são satisfatórios, se este tipo de acções são as adequadas à situação actual, se têm ou não continuidade, etc., etc., típicas acções destinadas a "encher o olho", os responsáveis pelo Telejornal foram visitar ao seu gabinete o Ministro da tutela da RTP e da propaganda, certamente a seu pedido, para este fazer uma declaração de ataque à oposição. Em contraponto, há apenas imagens antigas de declarações da oposição, entremeadas pelos ataques do Ministro Santos Silva, feitos de encomenda para a peça da RTP. A estrutura da peça é a do discurso governamental, com a agravante de ser feito de encomenda, - o Telejornal não o discurso -, para controlar os danos e dar o pódio ao Ministro.
O problema de entidades como a ERC e os seus métodos é que realidades como a do Telejornal de hoje, - insisto, uma peça escandalosa de manipulação de opinião pública, - diluem-se numa estatística e enganam-nos quanto ao uso propagandístico da RTP. Gostava de ver os homens e mulheres honestos da ERC a falarem ainda hoje sobre este Telejornal que não engana a ninguém e não oferece dúvidas. É que senão beneficiam o infractor e demitem-se do seu papel.
Para quem tenha dúvidas, veja-se o Telejornal quando a RTP o colocar em linha.
Um muito jovem Vladimir Ashkenazy ganha o prémio do concurso de piano Tchaikovsky e toca esplendorosamente na Bolshoy Zal do Conservatório de Moscovo. Tudo o que há de melhor na grande cultura russa.
(...) Und da fing im Sonnenschein Gleich die Welt zu funkeln an; Alles Ton und Farbe gewann Im Sonnenschein! Blum' und Vogel, groß und Klein! "Guten Tag, ist's nicht eine schöne Welt? Ei du, gelt? Schöne Welt!"
Nun fängt auch mein Glück wohl an? Nein, nein, das ich mein', Mir nimmer blühen kann!
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Fischer-Dieskau cantar "Der Erlkönig" de Schubert.
Wer reitet so spät durch Nacht und Wind? Es ist der Vater mit seinem Kind; Er hat den Knaben wohl in dem Arm, Er faßt ihn sicher, er hält ihn warm.
(...)
Dem Vater grausets, er reitet geschwind, Er hält in Armen das ächzende Kind, Erreicht den Hof mit Mühe und Not; In seinen Armen das Kind war tot.
When the wind works against us in the dark, And pelts with snow The lowest chamber window on the east, And whispers with a sort of stifled bark, The beast, ‘Come out! Come out!’-- It costs no inward struggle not to go, Ah, no! I count our strength, Two and a child, Those of us not asleep subdued to mark How the cold creeps as the fire dies at length,-- How drifts are piled, Dooryard and road ungraded, Till even the comforting barn grows far away And my heart owns a doubt Whether ’tis in us to arise with day And save ourselves unaided.
J’ai compris ta détresse Cher amoureux Et je cède à tes vœux Fais de moi ta maîtresse Loin de nous la sagesse Plus de tristesse J’aspire à l’instant précieux Où nous serons heureux Je te veux
Je n’ai pas de regrets Et je n’ai qu’une envie Près de toi là tout près Vivre toute ma vie Que ton corps soit le mien Que ma lèvre soit tienne Que ton coeur soit le mien Et que toute ma chair soit tienne
J’ai compris ta détresse Cher amoureux Et je cède à tes vœux Fais de moi ta maîtresse Loin de nous la sagesse Plus de tristesse J’aspire à l’instant précieux Où nous serons heureux Je te veux
Oui je vois dans tes yeux La divine promesse Que ton coeur amoureux Vient chercher ma caresse Enlacés pour toujours Brûlant des mêmes flammes Dans un rêve d’amour Nous échangerons nos deux âmes
J’ai compris ta détresse Cher amoureux Et je cède à tes vœux Fais de moi ta maîtresse Loin de nous la sagesse Plus de tristesse J’aspire à l’instant précieux Où nous serons heureux Je te veux
Os críticos do curso político dos últimos anos da UE tem dito sempre que as aventuras de engenharia político-institucional que deram origem aos falhados exercícios de Constituição e de Tratado de Lisboa, são distracções do essencial que poderia existir, houvesse vontade política, mesmo com os tratados actuais. Para a UE confrontar o que é essencial – ter políticas de “fronteira”, mesmo com base no mínimo denominador comum (ele próprio muito melhor do que a confusão actual) – são necessárias duas coisas absolutamente interligadas: ser credível do ponto de vista militar e reconstituir a aliança transatlântica com os EUA na base da boa fé e na prossecução de objectivos comuns. Existe um instrumento muito poderoso e que tem a vantagem de unir os “velhos” da UE com os “novos” e de poder servir de base para dar uma nova credibilidade à Europa: a OTAN.
É verdade que nem todos os países da UE fazem parte da aliança militar e alguns que fazem traíram-na ainda há muito pouco tempo (os belgas em particular tiveram um procedimento de efectiva traição no início do conflito iraquiano quando bloquearam o reforço do dispositivo defensivo da Turquia, à revelia das obrigações do tratado). Mas a OTAN é a única força armada das democracias europeias e dos EUA que pode contar para conter as ameaças russas à integridade territorial dos países fronteiriços como a Geórgia, e as vindas de países como o Irão. Houvesse empenho em a retirar do limbo em que se encontra e, mesmo sem qualquer tratado, a Europa ficaria mais forte.
COISAS DA SÁBADO: O SR. MINISTRO, CONSULTADO, AUTORIZA A ATIRAR A MATAR
Um exemplo que passou despercebido mostra a relação pouco sadia do Ministro com as forças de segurança e vice-versa. Mostra também como funciona a máquina da propaganda para tentar inverter a imagem de moleza do Ministro. O Ministro, o ministério, ou alguém por ele, “passou” para os jornais a informação de que fora o próprio Ministro que autorizara a atirar a matar no caso do sequestro de Campolide. Na verdade, se tal aconteceu, é sinal que muitas coisas estão erradas no âmbito das forças de segurança.
Primeiro, porque na actuação de polícias altamente especializadas em casos de criminalidade violenta, em particular no caso de forças como os GOE ou os atiradores especiais, existem protocolos de procedimentos que servem de base à sua actuação. Quem está no comando operacional dessas forças tem toda a autoridade para decidir o que for necessário para evitar males maiores, neste caso, proteger reféns em perigo, mesmo que isso signifique atirar a matar em último recurso. Só espero que agora os comandantes operacionais não vão telefonar ao sr. Ministro, seja este ou qualquer outro, para que partilhe com eles uma responsabilidade que é só sua e que vem com a função. Procedendo de outro modo, como parecem indicar as notícias tão convenientemente colocadas, seja o pedido de autorização por iniciativa do responsável operacional, ou por iniciativa do Ministro, não só se está a violar um protocolo como a agravar um perigo.
O sinal que se dá é duplamente errado: ou se indicia que as polícias tem receio de usar meios mais duros para repor a lei, porque isso as coloca como alvo de críticas, em vez dos malfeitores, como infelizmente acontece todos os dias; ou o Ministro resolveu envolver-se numa acção policial ultrapassando a cadeia de comando, para vir tirar louros do que aconteceu. Se a coisa tivesse corrido mal, certamente a intervenção ministerial não seria publicitada. O resultado é estar-se a politizar uma decisão que deveria ser apenas “profissional” e só um Ministro que não compreende o “ethos” deste tipo de acções violentas é que se lembraria de as usar para compor a sua imagem.
The fascination of what's difficult Has dried the sap out of my veins, and rent Spontaneous joy and natural content Out of my heart. There's something ails our colt That must, as if it had not holy blood Nor on Olympus leaped from cloud to cloud, Shiver under the lash, strain, sweat and jolt As though it dragged road-metal. My curse on plays That have to be set up in fifty ways, On the day's war with every knave and dolt, Theatre business, management of men. I swear before the dawn comes round again I'll find the stable and pull out the bolt.
One bourbon, one scotch, and one beer One bourbon, one scotch, and one beer Hey mister bartender come here I want another drink and I want it now
My baby she gone, she been gone two night I ain't seen my baby since night before last One bourbon, one scotch, and one beer
(spoken: And then I sit there Gettin' high Mellow Knocked out Feeling good And by the time I looked on the wall At the old clock on the wall By that time It was ten thirty daddy I looked down the bar At the bartender He said, "Now what do you want Johnny?") One bourbon, one scotch, and one beer
Well my baby she gone, she been gone two night I ain't seen my baby since night before last I wanna get drunk till I'm off of my mind One bourbon, one scotch, and one beer
(spoken: And I sat there Gettin' high Stoned Knocked out And by the time I looked on the wall At the old clock again And by that time 'T was a quarter to two Last call For alcohol I said "Hey mister bartender!" "Well what do you want?") One bourbon, one scotch, and one beer One bourbon, one scotch, and one beer
When I first thought to hobo'in, hobo'in, I took a freight train to be my friend, oh Lord You know I hobo'd, hobo'd, hobo'd, hobo'd, Hobo'd a long, long way from home, oh Lord
Yes, my mother followed me that mornin', me that mornin' She followed me down to the yard, oh yeah She said my son he'd gone, he'd gone, he'd gone Yes he's gone in a, poorsome wear, oh yeah
Yes I left my dear old mother, dear old mother I left my honor, need a crime, oh Lord Take care of my child, Take care, take care of my child
O Mio Babbino Caro do Gianni Schicchi de Puccini cantado por Montserrat Caballe.
O mio babbino caro, mi piace è bello, bello; vo'andare in Porta Rossa a comperar l'anello! Sì, sì, ci voglio andare! e se l'amassi indarno, andrei sul Ponte Vecchio, ma per buttarmi in Arno! Mi struggo e mi tormento! O Dio, vorrei morir! Babbo, pietà, pietà! Babbo, pietà, pietà!
Luigi Alva cantando Il mio tesoro do Don Giovanni de Mozart.
Il mio tesoro intanto andate a consolar, e del bel ciglio il pianto cercate di asciugar. Ditele che i suoi torti a vendicar io vado, che sol di strage e morti nunzio vogl'io tornar.
Antes de mais, e provando realmente a gente horrorosa que são os juristas (acreditem que é mesmo verdade) e a sua inegável tendência para se juntar nos sítios mais estranhos como por exemplo um blog, quero mandar um abraço ao Pedro Múrias de quem fui colega no curso de 1991-1996 e ao Doutor Moura e Silva de quem fui aluno nas aulas práticas de Direito Comunitário no 3.º ano do curso de Direito.
E também dou mais um exemplo de uma tradução mal feita que, penso que não se deverá apenas a faltas de tempo ou ordenados baixos, mas antes a uma falta algo grave de conhecimento e neste caso concreto, da língua inglesa.
Na série Lost, que seguramente terá sido imaginada por juristas, as personagens quando vêem os seus planos de fuga da ilha frustrados, soltam um "Crap!" ou um "Damnned!". Qualquer destas expressões seria satisfatoriamente traduzida por "Bolas!", "Caraças!", "Porra!" ou então o mais literário "Maldição!". No entanto, e por qualquer razão muito estranha, o que surge na legendagem é um inócuo e deslocado "Treta!". Ainda tentei depois gritar um "treta" quando me acontece ficar parado no trânsito ou quando preciso de levantar dinheiro com urgência de uma caixa de Multibanco e não há levantamentos disponíveis. Mas não é a mesma coisa.
Falta aquela explosão de raiva e frustração. Sendo assim, a legendagem da série Lost só pode ter sido feita por gente muito calma e simpática ou que não apanha trânsito e tem sempre levantamentos disponíveis nas caixas de Multibanco.
João Paulo Brito (também jurista, e bem horroroso)
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No momento em que escrevo, a TVI faz uma mega-reportagem sensacionalista sobre os assaltos verificados hoje durante o dia. Em rodapé aparece constantemente o termo "Encapuzados". A Média Capital é dominada por accionistas espanhóis, talvez eles não se ofendam com o "encapuzados", mas eu como bom português, preferia que usassem a expressão portuguesa: encapuçados. E o bom povo semi-analfabeto que vê a televisão em casa, aprende que "encapuçados" se escreve com "Z". O menino vai à escola no dia seguinte, escreve uma composição com a palavra "encapuzados" e um colega diz-lhe que está errado - e o rapaz retorque: "mas eu vi na televisão!...".
(mc)
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Provavelmente já alguém terá feito esta correcção, mas aqui vai de qualquer maneira. Um dos seus leitores indignava-se contra o termo "encapuzados", mas sem razão. De facto, é assim mesmo que se escreve, como se poderá confirmar por alguns artigos e respostas no Ciberdúvidas: http://ciberduvidas.sapo.pt/pergunta.php?id=13089 http://ciberduvidas.sapo.pt/pelourinho.php?rid=153 http://ciberduvidas.sapo.pt/pergunta.php?id=19140 http://ciberduvidas.sapo.pt/pelourinho.php?rid=1635
(Mário Azevedo)
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"Eu ergo-me corrigido." (I stand corrected).
(mc)
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A propósito das deficiências de algumas traduções, um exemplo de "inglês técnico", numa obra do Porto da Caloura, em São Miguel.
(Miguel Borges Pombo)
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Apenas para responder ao Sr. Fernando Correia:
Sim, eu sei que existe legendagem para as pessoas com problemas auditivos, mas habitualmente só estão disponíveis em formatos "offline", tipo DVD e afins, e não no momento da própria emissão do programa. Contudo, como sei que a RTP tem (ou tinha?) um serviço de teletexto de legendagem em português, posso estar errado e ser prática das cadeias norte-americanas emitir as séries com legendagem em inglês.
Em relação à minha frase "seria como os programas falados em português fossem legendados... em português)", estava a referir-me por exemplo a séries de ficção, novelas, etc, e principalmente de canais privados. Alguma vez viu por exemplo os Morangos Com Açucar serem transmitidos com legendagem em português? Pode ser que na edição em DVD dos Morangos surjam as ditas legendas em PT, mas entre a emissão do episódio e o lançamento dos DVDs há um período de tempo durante o qual as legendas não existem, e é essa lacuna que a comunidade habitualmente consegue colmatar.
Sarcophage des epoux. In terra cotta. Etruscan couple shown side by side, Recumbent on left elbows, husband pointing With his right arm and watching where he points, Wife in front, her earrings in, her braids Down to her waist, taking her sexual ease. He is all eyes, she is all brow and dream, Her right forearm and hand held out as if Some bird she sees in her deep inward gaze Might be about to roost there. Domestic Love, the artist thought, warm tones and property, The frangibility of terra cotta... Which is how they figured on the colour postcard (Louvre, Departement des Antiquites) That'd we'd sent him once, then found among his things.
Não estava à espera do interesse suscitado pelo tema, mas a discussão em torno do tema revelou-se enriquecedora, ainda mais recentemente com o contributo da área jurídica. No entanto, convém talvez não esquecer o que a despoletou, que foi a afirmação de que o uso de tal termo seria absurdo. A minha primeira intervenção foi no sentido de procurar mostrar porque não era absurdo esse uso, porque era fundado na etimologia e no uso da palavra defeito, independentemente de outras palavras poderem usar-se com idêntica adequação.
Estimulado pelo contributo dos leitores da área jurídica, fui consultar algumas obras que constam do Corpus Lexicográfico do Português (www.clp.dlc.ua.pt) . Encontram-se nalgumas dessas obras do corpus dicionarístico do português moderno, referências à palavra defeito. Dessas destaco:
Na Prosodia, de Bento Pereira, 7ª. Edição de 1697, um dicionário bilingue latim-português, surgem as definições:
Defectus, us, m.g., O defeito, a falta, fraquesa, desmaio, mancha, eclipse.
Siphia, ae, f.g., O defeito, falata, privaçaõ, circulo arithmetico, nota de números.
Imperfeiam. Falta. Defeito
No Vocabulario de Rafael Bluteau, 1721-28, surge uma referência ao “defeito, ou falta que se exproba a alguém”.
Podia, ainda, referir outros usos semelhantes, que demonstram a associação entre defeito e falta, sustentando assim na etimologia e no uso de ambos os termos, desde há vários séculos, a fundamentação para a tradução “polémica”. Assim sendo, não é de modo algum absurda a tradução feita na área das TI, independentemente de outros termos poderem ser usados com idêntica legitimidade e adequação.
(Rui Ribeiro)
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Espero não ter passado, no meu último e-mail, a ideia de que os erros crassos que muitas vezes assistimos devem ser "perdoados". Muitos são mesmo de bradar aos céus. Mas considero ainda mais grave os erros que cada vez mais verifico nos meios de comunicação em geral. Existe algum grau de justificação quando falamos das traduções, em que é necessário dominar duas línguas, uma delas estrangeira, obviamente. Existirá sempre uma maior probabilidade de ocorrência de erros. Mas, quando falamos de jornalistas "qualificados", que unicamente escrevem na sua língua materna, aí a crítica tem de ser muito mais severa.
Também há que separar o trigo do joio. Não confundir tradutores profissionais, com provas dadas e de extrema competência, com o filho da vizinha, que "até percebe de línguas", e que faz umas traduções nas horas vagas. É preciso distinguir entre tradutores profissionais e alguém que calhou de fazer uma tradução.
Deixo-lhe também um exemplo de uma tradução recente que, na minha opinião, não é das mais correctas. O título do filme (e do livro) "No country for old men" foi traduzido como "Este país não é para velhos". No entanto, olhando para o tema geral do filme e do próprio significado de "country" em inglês, poderíamos concluir que não se refere ao país, os EUA, como a tradução dá a entender, mas sim à região do Texas, onde toda a acção se desenrola. Penso que "country" tem muitas vezes o sentido de "região" ou "terra", tal como "pays" em francês. Embora em português os dicionários apontem os sinónimos de "região" e "território" para "país", não creio que se utilize o termo nesse sentido. Nunca nos referimos ao "país do Alentejo", embora haja quem diga que o Porto é uma nação! ;)
Colecção de discos de vinil, parte de um acervo particular numa residência no centro do País.
(Cristina Baptista)
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Retira-se da capa com dois dedos leves, em respeitoso silêncio, qual hóstia sagrada no acto litúrgico. Colocado o disco no prato, faz-se descer lentamente sobre ele o braço, apontando com precisão cirúrgica a agulha, que segue depois pelo tortuoso caminho da espiral hipnótica, lavrando sons enterrados nos sulcos da superfície ondulante, numa fritura branda e estranha para quem já nasceu na era digital.
A arte de baixar o braço do gira-discos devia ter um capítulo na Ars Amandi, de Ovídio. Quando a agulha penetra a espira em profundidade, inicia-se o coito musical, que pode durar apenas o tempo de uma faixa ou um lado completo: A ou B. Virar o disco tem um efeito de suspensão narrativa, um sentimento de puro gozo de antecipação, que se perdeu com o “coitus ininterruptus” do CD.
Satisfeito o desejo musical, o disco continua a girar, o braço pousado em lânguido abandono, mesmo quando a música já deixou de se ouvir: os puristas rejeitam os mecanismos de elevação automática. O amante fiel não gosta de abandonar a alcova sem uma última manifestação de carinho e limpa carinhosamente a agulha das trovas do tempo que passou.
Os gira-discos não têm a função “repeat”: cada audição de um LP é pois um acto consciente e voluntário. Os rituais cumprem-se na repetição de gestos sagrados e imutáveis, escreveu Lèvy-Strauss. No CD a música é apenas uma complexa trama de números cabalísticos: não há contacto físico entre a agulha de luz e o disco; e até o próprio acto de reprodução é regulado à distância por controlo remoto e asséptico: não há desgaste, nem risco, no duplo sentido de riscar e arriscar. É preciso tocar para compreender, ensinava Roland Barthes nos Fragmentos do Discurso Amoroso.
Eis, pois, porque há-de existir sempre quem prefira arriscar sofrer os efeitos perversos da electricidade estática, o desespero dos empenos ou a angústia da morte anunciada das espiras, em troca do prazer físico de ouvir e coleccionar LPs raros, que paradoxalmente se vão assim da lei da morte libertando.
No LP a música é representada no tempo pela actuação de uma bailarina em pontas de diamante, que evolui, ao ritmo de 33 rpm, sobre a superfície ondulante do disco. Os gira-discos são relógios analógicos: é o espaço percorrido que determina o tempo - o que já passou e o que ainda falta passar. O leitor-CD funciona como um relógio digital no qual o tempo é uma mera representação numérica.
Enquanto no analógico o tempo existe em função do espaço, no digital só o tempo existe - daí a importância da precisão do “clock” na performance dos leitores-CD. Ora o tempo, per si, sem o espaço, não passa de uma abstracção matemática.
O CD foi lançado no mercado com o arrogante slogan “perfect sound forever”. Passados apenas 20 anos, está prestes a ser substituído. Com ele cai também o mito da eterna juventude. O LP vai continuar vivo e chegar aos 100 anos, vestido de preto para poder assistir ao funeral do CD: gasta-se, risca-se, fica empenado e a voz perde claridade, quando o catarro impertinente da poeira se insinua na inteligibilidade do discurso. Et pour cause, o LP soará sempre mais natural que o CD, mais humano. Pura analogia?...