| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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28.6.08
Não estamos a falar de uma aldeia esquimó, nem do Mali. Nem numa tribo amazónia completa, nem sequer num pequeno povoado da Nova Inglaterra, estamos a falar numa cidade média europeia. Pegar na população de uma cidade, umas largas centenas de milhares de pessoas se juntarmos Porto e Gaia, que neste caso são miscíveis, e fazê-la sair ao mesmo tempo de casa, do espaço privado para a rua, o espaço público, é tão raro, inabitual, que devia vir no Guiness. Se somarmos que o faz para uma actividade tão improvável como seja andar quilómetros a bater na cabeça uns dos outros por amabilidade e partilha e que “faz” o S. João, mesmo que não faça mais nada, então ainda é mais raro porque nos dá esperança quanto ao crescimento da solidão urbana. Pelo menos numa noite, numa cidade do Norte no Sul da Europa, isto ainda não acontece. Estamos todos na rua. * Concordo totalmente com a sua análise, mas em paralelo, poucos minutos (3 ou 4) faltavam para a meia-noite na Ribeira, quando assisti à maior cena de pancadaria que algum dia tinha visto. À boa *western* eram cadeiras, garrafas e 30 ou 40 envolvidos. Não sei qual o motivo, se é que existiu motivo. (url)
POEIRA DE 28 DE JUNHO
Hoje, há quatrocentos e setenta e oito anos, o monge Aponius, um obscuro consultor do Imperador Carlos V do Sacro Império Romano, escreveu uma longa carta a um seu amigo cujo nome não está referido na cópia que chegou até nós, mas que se percebe que pertencia à corte de João Frederico, Duque da Saxónia. Aponius tinha acabado de assistir na Dieta de Augsburg a um espectáculo inusitado: contra a vontade do Imperador, dois representantes dos Príncipes evangélicos leram em latim e em alemão o documento que viria a ser conhecido como a "Confissão de Augsburg", de seu nome Confessio Augustana. No texto tinham trabalhado Lutero e Melanchton e um dos signatários era o Duque da Saxónia. Uma frase do texto, num ponto aparentemente menor sobre a confissão, repetia a pergunta do salmo: Delicta quis intelligit?Aponius ficou perturbado pela frase e é com ela que começa a sua carta. A carta é considerada por alguns autores alemães que estudaram a literatura neo-latina como um dos mais dolorosos textos sobre a amizade perdida. Aponius, que vivia isolado no seu mosteiro, mantinha há anos uma cumplicidade activa com o seu amigo saxão mais versado nos movimentos da corte. Ele era a sua companhia. Partilhavam pontos de doutrina, discussões teóricas, fúrias, amizades e inimizades, como se o seu destinho fosse comum. Não era. Por razões que desconhecia, mas que imaginava serem as piores, Aponius tinha perdido o seu amigo. Não se conseguia acomodar à sua nova realidade mais solitária porque povoada pelas memórias do passado. Na carta, conta como a memória infeliz se pega às coisas. Molhava a pena num tinteiro de prata e recordava-se da altura em que um pequeno embrulho lhe chegara, caminhava por uma vereda do mosteiro e ao lado dele seguia a sombra que com ele descera o caminho. Aponius sentia agora o seu amigo como um estranho, alguém que nunca tinha conhecido e não conseguia conviver com o contraste entre a tristeza do presente e a alegria do passado. Não se sabe se a carta chegou a ser enviada ou, se foi enviada, chegou ao destinatário. Havia uma guerra civil entre eles, dois mundos. De Aponius nada mais se sabe. *
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NUNCA É TARDE PARA APRENDER: 272 PALAVRAS DITAS NUM CEMITÉRIO RURAL (4)
Garry Wills, Lincoln at Gettysburg: The Words that Remade America, Simon & Schuster, 2006.Para Lincoln (e muitos dos Transcendentalistas seus contemporâneos) os EUA não eram uma nação como as outras, mas a encarnação de um "sentido" (a propositon). Exactamente por isso, Lincoln valorizava e muito as palavras, interessava-se pelas palavras de uma forma precisa, estudava gramática, a que atribuia uma exactidão semelhante à das demonstrações de Euclides. O outro orador, Everett , tinha estudado filologia na Europa, na tradição alemã. Por isso, um homem que considerava importante "preparing the public mind" deu todo o sentido à sua breve intervenção no cemitério quando falou da luta dos que tinham morrido por "a new nation, conceived in Liberty, and dedicated to the proposition that all men are created equal." A chave do discurso de Gettysburg não é a "liberdade", nem a "emancipação", é a "igualdade". É à "igualdade" que é dedicada a "nova nação",- os EUA não tinham ainda cem anos, - e esta reinterpretação histórica, política, constitucional, presa à Declaração da Independência We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness.Ditas num momento de grave crise nacional, elas escolhem um caminho e excluem outros. Nas suas 272 palavras, Lincoln "fez" os EUA num segundo acto fundador e, como o primeiro, em guerra. * Há um aspecto do discurso de Lincoln em Gettysburg que julgo que merece ser mencionado. É considerado um dos grandes discursos da história e, tendo esta opinião sido repetido há muito tempo e por muita gente qualificada para tal, poder-se-ia pensar que sempre foi assim considerado. Por isso, vale a pena ler o comentário que o Chicago Times fez ao discurso: «A face de cada americano deve estremecer de vergonha à medida que ele lê estas afirmações patetas, banais e entediantes vindas do homem que é descrito a estrangeiros inteligentes como o Presidente dos Estados Unidos da América.» Estas unanimidades surgem sempre depois, não na época em que os eventos têm lugar. (url) 1326 - Masks These tales of old disguisings, are they not Strange myths of souls that found themselves among Unwonted folk that spake an hostile tongue, Some soul from all the rest who'd not forgot The star-span acres of a former lot Where boundless mid the clouds his course he swung, Or carnate with his elder brothers sung Ere ballad-makers lisped of Camelot? Old singers half-forgetful of their tunes, Old painters color-blind come back once more, Old poets skill-less in the wind-heart runes, Old wizards lacking in their wonder-lore: All they that with strange sadness in their eyes Ponder in silence o'er earth's queynt devyse? (Ezra Pound) (url) 25.6.08
EXTREMÓFILOS são uma categoria de organismos que vivem nos extremos: lagoas alcalinas, águas tóxicas ou ácidas, no fundo dos mares, debaixo de enormes pressões, nos vulcões, em sítios muito quentes ou muito frios. EXTREMÓFILOS é uma colecção de livros, (dirigida por mim, editada pela Alêtheia) com histórias, estudos, memórias sobre os extremos, na política, na sociedade, na vida. O Um Divide-se em Dois é o primeiro livro da colecção EXTREMÓFILOS e é um estudo sobre o movimento marxista-leninista nos países ocidentais (de cultura política e instituições "ocidentais", da Europa à Nova Zelândia) na sua fase genética, antes sequer de se poder falar de "maoísmo" propriamente dito, antes da Revolução Cultural. Nele se analisa o modo como o conflito sino-soviético foi evoluindo para a cisão do movimento comunista mundial, a política dos chineses e albaneses face aos Partidos Comunistas, e o impacto das teses chinesas no seu interior. Embora o conflito sino-soviético tenha sido muito estudado, este aspecto do conflito, as cisões marxistas-leninistas, praticamente não o foram, pelo que se trata de um estudo pioneiro, com as vantagens e inconvenientes dessa condição. Pude no entanto beneficiar de material só agora disponível quer dos arquivos albaneses, quer dos serviços de informação, já desclassificado, e de instituições que acompanhavam com muito proximidade este processo como a Radio Free Europe. O estudo versa igualmente o impacto do conflito sino-soviético no PCP e a cisão que dá origem à FAP /CMLP, assim como o papel de Francisco Martins Rodrigues. Agradeço a quem me ajudou neste trabalho. (url)
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: 272 PALAVRAS DITAS NUM CEMITÉRIO RURAL (3)
Garry Wills, Lincoln at Gettysburg: The Words that Remade America, Simon & Schuster, 2006.Nos três dias que durou a batalha, travada nos arredores de Gettysburg, houve apenas uma vítima civil, Ginnie Wade, uma rapariga com vinte anos que estava a preparar pão para os soldados em casa da irmã, atingida por uma bala perdida. A batalha foi um confronto entre militares profissionais e milícias, mais de cento e cinquenta mil, que opôs o Exército do Potomac (do lado da União, chefiado pelo major-general Meade) e o Exército da Virgínia do Norte (do lado confederado, chefiado pelo general Lee). Meade era uma escolha de Lincoln feita três dias antes, Lee era a "alma" militar do Sul, considerado invencível e que chegava à nova batalha com uma vitória recente obtida em Chancellorsville em Maio. Ao fim de três dias havia quase oito mil mortos, distribuídos pelos dois exércitos, um número elevadíssimo para os conflitos da época, prenúncio das batalhas futuras da I Guerra Mundial. O campo de batalha estava cheio de cadáveres de soldados e de cavalos e era Julho, estava calor. Os "meninos de sua mãe" jaziam mortos e apodreciam. O ar em Gettysburg tornou-se irrespirável. Os cavalos tiveram prioridade e foram queimados numa pira. Os soldados foram enterrados à pressa, com identificações mínimas, sem grandes cuidados. Cães e porcos foram vistos a rondar as campas e alguns túmulos do lado confederado tinham sido tão mal feitos que os esqueletos ficavam visíveis. A situação era tão má que os notáveis da cidade se organizaram para fazer um novo cemitério e, em Novembro, estava em condições para ser inaugurado, ainda a guerra civil continuava. Foi convidado um dos mais famosos oradores americanos Edward Everett, figura chave do "Greek revival", e pedido ao Presidente Lincoln que proferisse algumas palavras. Everett falou duas horas, Lincoln dois minutos. (Continua.) (url)
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: 272 PALAVRAS DITAS NUM CEMITÉRIO RURAL (2)
Garry Wills, Lincoln at Gettysburg: The Words that Remade America, Simon & Schuster, 2006.Quando Lincoln proferiu o seu epitaphion eram os gregos que estavam na moda e não os romanos. Enquanto os fundadores da República, os autores da Declaração da Independência e da Constituição, olhavam para a Roma que se defendia dos tiranos, abominavam Júlio César e queriam emular as virtudes severas dos tribunos romanos, os homens da geração de Lincoln estavam em pleno "greek revival". Era para Atenas e para o discurso funebre que Péricles proferiu, segundo Tucídides, que olhavam com a sua sensibilidade romântica. E enquanto Jefferson desenhava a sua casa em Monticello seguindo as simetrias arquitectónicas clássicas que foi buscar a Palladio, os intelectuais (e os militares) "lincolnianos" gostavam da nova vaga de cemitérios rurais, lagos, sombras, árvores, veredas, longos relvados, locais para onde se organizavam excursões escolares e se ia passear aos domingos. Dois mundos. Se havia terra que precisava de um novo cemitério era Gettysburg. (Continua.) (url) (url) 1325 - Parting at Morning
Round the cape of a sudden came the sea, And the sun looked over the mountain's rim: And straight was a path of gold for him, And the need of a world of men for me. (Robert Browning) (url) 24.6.08
POEIRA DE 24 DE JUNHO
Hoje, há 45 anos, um jornalista de Córdoba, Juan Paris, publicou um artigo sobre Enrique Cadicamo intitulado Tango Gris. Estudou o poema Nostalgias, escrito em 1936, e descobriu um manuscrito de um outro poema, escrito muitos anos depois, sobre a nostalgia de deixar de ter alguém a quem dar as boas noites. Na sua opinião, é a primeira letra de tango que se refere ao telefone.
(url) Influenciado pelo uso da banda desenhada pelos situacionistas, o grupo editor do Jornal do Emigrante, (na verdade um dos grupos editores visto que o título do jornal era usado por dois distintos sectores políticos na emigração, competindo pela legitimidade do seu uso, pelo que há dois jornais com o mesmo título), publicou várias tiras aos quadradinhos, desenhos e caricaturas usando as imagens e personagens originais acrescentando-lhe frases e enredo revolucionário. (Jornal do Emigrante, 10-11, Maio-Junho 1971.) (url)
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: 272 PALAVRAS DITAS NUM CEMITÉRIO RURAL
Garry Wills, Lincoln at Gettysburg: The Words that Remade America, Simon & Schuster, 2006.Mark Twain disse uma vez que a diferença entre a palavra certa e a palavra quase certa era a mesma que distinguia um relâmpago de um pirilampo. O Presidente Lincoln, falando na inauguração de um cemitério para os mortos da batalha de Gettysburg, oito mil para um total de cerca de 50000 baixas, o combate com mais custos humanos na guerra civil, proferiu 272 palavras que tiveram o efeito de 272 relâmpagos: Four score and seven years ago our fathers brought forth on this continent, a new nation, conceived in Liberty, and dedicated to the proposition that all men are created equal.O livro de Garry Wills, que ganhou um Prémio Pulitzer, é um notável, notabilíssimo estudo, sobre essas 272 palavras e o modo como mudaram a percepção dos americanos sobre o que eram os Estados Unidos. Mais: não só forneceram um "sentido" à América, como mudaram a maneira como a retórica política se desenvolveu desde aí (as palavras de Lincoln não foram o discurso oficial, mas sim o do primeiro PhD. americano e professor de grego de Harvard, Edward Everett , e que demoraram duas horas a proferir), e estavam, palavra a palavra, cheias de uma história cultural e política, não só americana (ligadas à Declaração da Independência), mas também clássica, grega em particular. (Continua.) (url) (url) Os portugueses regressam a casa do mais improvável dos países, a Suíça. Numa atitude típica da excitação patriótica à portuguesa, sempre ao lado do mais importante, a Selecção Nacional perdeu o único jogo que não podia perder. Não, não foi com a Alemanha, foi com a Suíça. O único jogo que tinha importância, para além da venal importância de qualquer jogo, aquele que dizia muito aos nossos emigrantes para além do palavreado sobre como os suíços nos adoram e "adoptaram" a Selecção nacional como a sua Selecção B, quando não a A. É destas ilusões que vivemos e, negligentes connosco próprios, fomos perder com a equipa dos patrões dos nossos emigrantes, dando a todos uma pequena humilhação com que voltaram no dia seguinte às obras, aos restaurantes, às limpezas, à Suíça real que olha para nós lá com a sobranceria com que nós olhamos para os moldavos cá. Os portugueses regressam a casa sem vontade nenhuma de a ver não só porque a festa acabou mais uma vez - é sina das festas estarem sempre a acabar -, mas porque esta festa já tinha alguns ingredientes de última festa, aquela que nos filmes americanos antigos fazia voltar a casa o herói de smoking amarrotado e a rapariga do herói com os laços de organdi do vestido deslassados. Cada um para o seu lado. E não cantam à chuva. Entregam-se ao ciclo das estações, para não se entregarem ao muito mais cruel ciclo do fim do mês. A Primavera acabou, com o seu cortejo de traições, e o Verão implanta-se agora com a modorra dos sentidos e a estabilidade dos hábitos. O Outono está ainda longe mas ninguém quer pensar nele. Mas há, há Outono e há Inverno e lá se irá chegar. Estes ciclos das estações são importantes, as pessoas agarram-se a eles porque as fazem ultrapassar o ciclo do ordenado no fim do mês. Os taxistas não se enganam e olham sempre para os meses de forma sábia. Há mais trânsito, chegou o fim do mês, há pouco trânsito, as pessoas já gastaram o dinheiro. Nas conversas surge sempre o lugar da crise: há mais espaços de estacionamento pago vazios, há menos gente a comprar peixe nos supermercados, há menos de tudo. É certo que o Sol brilha lá fora e já falta pouco tempo para o Algarve, mas, nos nossos dias, não é a Lua que é enganadora, mas o Sol. Os nossos bons portugueses que voltam do seu conto de fadas suíço na abóbora e com os ratinhos, e sem qualquer esperança de que o príncipe os vá buscar a casa com o sapatinho certo, regressam ao mundo das más notícias, que lhes foram poupadas por essas "notícias" mais importantes, como seja perguntar à senhora pintada de índia na rua: "Então quem acha que vai ganhar"? "E por quantos vai ser"? Etc., etc. Tudo coisas de profundo conteúdo noticioso. Agora, em casa, lá têm que penosamente aparecer notícias nos noticiários, feitos em redacções que já não sabem fazer muita coisa para além do futebol e têm que lidar com o quotidiano aumento do petróleo, com o aumento dos bens essenciais, entrecortados pela dose habitual de doenças e "casos humanos", quase sempre pouco felizes. O escapismo atira-nos muito para cima, depois a queda é mais brutal. Os nossos bons portugueses a quem foi dito que o seu Portugal tinha a glória de uma "marca" de sucesso e que, como "marca", estava entre as melhores do mundo, percebem agora como é fácil passar da glória à desagregação, à recriminação, ao quotidiano exercício de maledicência. A culpa entra pela porta grande e nunca é nossa, é sempre dos outros. Os nossos bons portugueses regressam também a um país que não tem governo. Já há algum tempo que o Governo não governa, embora ainda muita gente não se tenha apercebido isso. Algures no meio das primeiras dificuldades, desistiu, passou a fazer de conta. Não é que tivesse tido vida fácil, mas a "vulnerabilidade" de que falava Sócrates é em primeiro lugar a sua. Enquanto podia fazer de "menino de ouro", como diz o título da sua hagiografia, tudo bem. Com tudo a seu favor, maioria absoluta, cooperação institucional do Presidente, oposição paralisada e descredibilizada, o Governo Sócrates vai chegar a 2009 com os mesmos (ou piores) indicadores que recebeu em 2005. Com excepção do controlo das contas públicas, que, frágil que seja, é mérito do Governo, tudo o resto está pior: desemprego, crescimento económico, inflação, empobrecimento. E não só está pior como a inacção do Governo o vai tornar pior, porque não são só os factores externos que se agravaram. As causas internas contam muito, porque, como Barroso disse da União Europeia depois do "não" irlandês, não há Plano B. Também cá não há Plano B e ficamos na dúvida se chegou a haver Plano A. Os portugueses, após anos de dificuldades, perderam toda a esperança e este é o eleitorado mais difícil de todos, para o Governo e para a oposição. Lá está o pessimista, pode-se ouvir em fundo, embora um fundo cada vez mais desmaiado. Claro que está, tem que estar, é obrigado a estar, porque só no Olimpo é que se pode ignorar o estado de perplexidade dos portugueses, um caldo de cultura que tende a dar asneira. Sem o identificarmos estamos condenados a ficar manietados dentro daquilo a que alguns chamam o "sistema" e que, numa análise mais fina, se percebe que é a democracia. E, no entanto, só ela nos salva, a democracia, só o voto é a "arma do povo" para usar uma velha fórmula, mesmo que o usemos sem grandes esperanças. (No Público de 21 de Junho de 2008.) (url) 1324 - Nicholas Bindle
Were you not ashamed, fellow citizens, When my estate was probated and everyone knew How small a fortune I left?-- You who hounded me in life, To give, give, give to the churches, to the poor, To the village!--me who had already given much. And think you not I did not know That the pipe-organ, which I gave to the church, Played its christening songs when Deacon Rhodes, Who broke and all but ruined me, Worshipped for the first time after his acquittal? (Edgar Lee Masters, The Spoon River Anthology) (url) (url) 23.6.08
CAFÉS No Norte há cafés, no Sul há pastelarias, mas são tudo lanchonetes. Chegados à hora do almoço, expulsam toda a gente para pôr as toalhas de papel e servir coisas inenarráveis. Num café junto ao mar, onde estou agora, há muitos anos vi José Régio, encarquilhado, implodido na sua pequenez, a ler um jornal e a tomar um café. Tudo era hábito, tudo normal. Eu gostava pouco de José Régio. Tinha um grande título, Davam Grandes Passeios ao Domingo, e quase mais nada. Tinha lido alguma coisa dele e sempre com um enorme enfado, como a Benilde ou a Virgem Mãe. A presunção ataca muito a certas idades. Tinha (e tenho) um carta dele a elogiar o jornal do meu liceu, o Prelúdio, com aquela letra inconfundível, aberta, redonda, de homem, mas pouco máscula, o contrário da de Vergílio Ferreira, ilegível. Anos mais tarde voltei a Régio por causa do "umbiguismo" de Cunhal. Mas agora vejo-o no mesmo sítio com nitidez, sóbrio e sombrio. Será que alguém me está a ver com os mesmos olhos? Talvez, por piores razões. Antes era pela leitura, agora é pela televisão. "É o senhor da SIC?" Sou, sou o "senhor da SIC" como se fosse dos Anéis. (url) SETE, TRÊS E OITO No casino o croupier, contente com o reconhecimento, disse-me: "aqui é que está a quadratura do círculo", apontando para o círculo da roleta e para os quadrados dos números. É. Ao meu lado, os jogadores conhecidos da mesa, o sr. João, o sr. Martins, deixavam as fichas e mudavam de mesa para jogar em duas ao mesmo tempo. "Estes cinquenta euros são do sr. Martins?". Uma mulher de meia idade escondia notas no soutien. Os jogadores compulsivos jogam sempre da mesma maneira: concentram grupos de duas ou três fichas num espaço muito pequeno, quase sempre nos números mais baixos. Não sei porquê. Se as fichas são azuis, fica um mar de azul. Uma rapariga ucraniana jogava assim. Ouve-se uma voz atrás: "às vezes sai daqui sem ter dinheiro sequer para pagar o estacionamento". Joguei no sete, no três, no oito. Sete e trinta e oito. Sabia que ia ganhar, porque é sempre ao contrário. (url)
O meu mar. Sempre o meu mar que vem dum rio. O local onde tudo começou e onde tudo vai acabar. Nada mais me interessa. A luz varia, entre o cruel e a neblina. Cada vez menos gente.
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© José Pacheco Pereira
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