ABRUPTO

27.11.07


EARLY MORNING BLOGS


1167 - Segunda señal: pierde el conocer

Otra señal, muy más apertada,
que ya no conoce; que es más perdimiento.

Ya no conoce a su criador,
Ya no conoce para qué es criado,
Ya no conoce qué cosa es pecado,
Ya no conoce se tiene señor;
Ya no conoce a su Redemptor,
Ya no conoce sus santos consejos,
Ya no conoce ni mozos ni viejos,
Ya no conoce cuál cosa es mejor.

(Gil Vicente, Señales del Fin del Mondo )

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)



Anoitecer em Lagos. (João Almeida)



Luz da noite em Setúbal.



Último minuto de Sol em Setúbal. (Ochoa)



Presépio no centro de Braga. (Jorge Costa)



Anoitecer junto de Fátima. (Luis Reino)



Dia de Sol na Lagoa de Óbidos. (António)

(url)

26.11.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 26 de Novembro de 2007


Cada vez mais os jornalistas tem a informação que lhes dão e não a que procuram. Isto faz uma diferença abissal.

*

"A menina (...) estava a comer na cozinha, quando a TV lhe deu a nova. Começou a dar murros na cabeça, na mesa, até acalmar no colo da 'mãe'."

(Destaque da página 20 do caderno principal do Expresso desta semana, com conteúdo semelhante no corpo do texto.)

Gostaria de saber como é que o Expresso garante a fiabilidade desta informação. Foi-lhe dada por quem, e com que credibilidade? Caso tenha sido apenas informação da família que actualmente mantém consigo a menor em causa, considero isto um insulto ao leitor, mais até do que uma enorme manifestação de incompetência. Mas pode ser que haja uma boa justificação... Aguardo desenvolvimentos.

(Tiago Azevedo Fernandes)

*
Parece que chegou o momento, a propósito da nossa comunicação social, a adicionar à caracteristica que já identificou, de deixar de relatar factos apurados para passar a ser mero transmissor de informação que outros proporcionam (preferencialmente já com o texto integral, que é ainda mais simples, nomeadamente com as notas oficiais). Concretamente, o que está (também) em causa é a qualidade dos referidos jornais e jornalistas. E entre muitos casos, abordamos apenas dois.

Um é a palavra que, depois do primeiro, todos os jornalistas passaram a noticiar: os remédios (nas OPA´s já se vê). Mas porquê este nome e não o mais apropriado: condições (ou termos). É que ainda por cima os dois conceitos não têm nada que ver um com o outro, dado que remédio é algo para erradicar um problema (mas acabando com ele) e condição é um requisito para algo se concetizar (continuando o seu substrato). E, depois, já todos falam de "remédio" para cá, "remédio" para lá e quem não consegue entender o porquê de tal designação só pode deduzir que "o rei vai nú".

O segundo caso é o da proposta (falhada) de fusão do BPI com o BCP (por incorporação deste naquele, diga-se aliás). Salvo erro, todos os jornais e jornalistas, mesmo os que supostamente são "especializados" na área, indicaram logo no inicio que a proposta era de "troca de 2 acções do BCP por 1 do BPI", o que deixa logo muito desconfiado qualquer ser racional. Então a entidade maior troca 2 acções suas por 1 da menor! Mas ainda assim, os referidos especialistas não foram capazes de detectar que estavam a ver tudo "ao contrário", sendo que teria sido suficiente, e fácil, ler, por exemplo no site do BPI, qual a proposta que estava em causa: "2. Relação de troca: a cada acção do Banco Comercial Português, SA corresponderão 0,5 acções do Banco BPI, S.A". Ou seja, se 2 acções do BCP correspondem a 1 do BPI, então o termo de troca é precisamente o inverso: 1 acção do BCP por cada 2 do BPI.

Em conclusão, e o que está em causa, é o seguinte: se quem, supostamente, divulga informação, mais ainda especializada, comunica o contrário do real, não existe dúvida que também aqui se confirma que o problema nacional é o amadorismo sob a capa do "jeitoso". E também se verifica que, além do problema da matemática, também o do português é determinante na actual situação nacional.

(Luis Cupertino)

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)



As praias da Bafureira e Avencas hoje com o pescador de polvo. (David Estêvão Gouveia)


(url)


PROBLEMAS DE UM ENCICLOPEDISTA MODERNO (2): POR QUE É QUE AS MULHERES USAM OS NOMES DOS MARIDOS QUANDO CASAM?

Só tenho uma resposta: para me complicar a vida, aumentando a dificuldade da procura dos nomes femininos na Rede para a enciclopédia. Acabo por me tornar tão feminista como os autores do Dicionário do Feminino que resolveram abolir os nomes dos maridos apensos aos das mulheres nas entradas do livro, o que me pareceu mal se elas os usavam como acrescento de identidade. Para além disso eram mulheres do século XIX e dos primeiras décadas do século XX, percebia-se, era costume. Agora antigas esquerdistas, revolucionárias, bolcheviques modernas, maoístas, trotsquistas, soixante-huitards, que acabaram com o nome do marido no fim, já é matéria de estudo, mesmo apesar das complicações da identidade. Agora, minhas amigas, companheiras, camaradas, por favor, se casarem agora deixem o nome como está, não me compliquem a vida.

*

Porque uso o sobrenome do marido:

- Porque é um acrescento à identidade

- Porque mulher gosta de acrescentos, como de bijutaria

- Porque marido serve para usar

- Porque mulher gosta de usar o marido

- Porque é um disfarce

- Porque mulher gosta de disfarce

- Porque mulher gosta de qualquer disfarce

- Porque - esquerdista, revolucionária, bolchevique, moderna, maoísta, trotsquista, soixante-huitard - a mulher disfarça sempre

- Porque começa logo a disfarçar como filha, como mãe, como

- Porque maior disfarce é usar apenas o nome do pai

- Porque igual disfarce é usar apenas o nome da mãe

- Porque há vida para além da rede, das enciclopédias e dos registos

- Porque ‘never mind mind, essence is not essential, and matter doesn’t matter’ (Woody Allen – ‘My Philosophy’ in Getting Even, 1996, cap 4, sec. I)

(MJ)

(url)


PROBLEMAS DE UM ENCICLOPEDISTA MODERNO: OS NOMES COMUNS, OS SILVA, OS OLIVEIRA, OS COSTA, OS SANTOS

O enciclopedista moderno tem o Grande Livro da Rede à sua frente, a realização dos mais bravios e improváveis sonhos de todos os enciclopedistas do passado. Vale bem duzentos nègres, mais do que os de Dumas, a escreverem-lhe os romances, ou os assalariados do Dr. Johnson a prepararem as entradas do dicionário. Vale bem mil listas telefónicas, um dos instrumentos do enciclopedista antes da Rede. Listas, catálogos, reportórios. Mas este aprendiz de enciclopedista, que entre outras coisas, labora com cerca de 1700 entradas biográficas, a crescer todos os dias, defronta-se com uma praga: os nomes comuns, vulgares, os Silva, os Costa, os Pereira, os Santos. Para cada um dos 1700 nomes , de pessoas a 80% vivas, 20% mortas, faço uma pesquisa na Rede. Os esquerdistas, minha matéria biográfica, deixam, de um modo geral, abundantes traços na Rede. Com excepção dos operários e de outros trabalhadores, que esses não existem no mapa electrónico, sobra a maioria que era constituída por estudantes, e que hoje são professores, académicos ilustres, membros do governo, jornalistas, escritores, publicitários, médicos, advogados, autores de blogues, autarcas, deputados, empresários, ou seja, uma parte substancial da elite portuguesa na sua faixa etária, quarenta para cima. Eu lido só com os que deram sinais de esquerdismo antes do 25 de Abril e foram muitos.

Os resultados positivos das procuras na Rede são vários: as profissões e cargos actuais, os locais de trabalho, alguns artigos e entrevistas, um ou outro blogue, endereços de e-mail, a ocasional notícia de uma morte. Bons pontos de partida para as fases seguintes - estrutura, estrutura, que é o que mais se deseja na abertura de uma entrada. Pilares, estrutura, pontos de partida, marcadores de identidade, fronteiras com a entrada anterior, com a seguinte. Só que muitas vezes aparece a Praga. A Praga dos nomes comuns, vulgares, que dão milhares de resultados no Google e nenhum útil. As múltiplas variantes dos "José Silvas" e dos "Antónios Costas" e das "Marias Santos", em Portugal, no Brasil, nas genealogias depositadas no Utah, nas notas das turmas da brasileira Aparecida, ou nas actas da Assembleia Municipal de Silves. O tempo perdido a "folhear" páginas inúteis dava para mais 1700 nomes novos complicados. E não adianta em muitos casos ter nomes completos, porque quase ninguém tem o nome completo na Rede a não ser nalguns casos em listas eleitorais, cubes de caçadores ou em despachos burocráticos e há sempre dez brasileiros com o mesmo nome direitinho. Como eu desejo os nomes raros, os Tibúrcios, os Anacletos, os Donas, os Sentieiro, os Teixeirinha, os Teives, os Vidaul, os Barracosa, os nomes estrangeiros a seguir a um Manuel ou a um José, senão aparecem-me australianos ou brasileiros, embora haja sempre um brasileiro algures. E se fosse possível durante uns anos, para efeito de facilitar o trabalho do enciclopedista, também não seria mau um número único, um código de barras, um chip.

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.

"To collect photographs is to collect the world."

(Susan Sontag, On Photography)



Lua na manhã de hoje. (RM)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1166

tsure mo naku no ni suterareshi fuyu no tsuki

Sem ter companhia,
E abandonada no campo,
A lua de inverno.

(Roseki, tradução de Edson Kenji Iura)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)

25.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.

"To collect photographs is to collect the world."

(Susan Sontag, On Photography)



Serralves hoje. (Mónica Granja)



Hoje de tarde. Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

(url)


A EMERGÊNCIA DO PARTIDO-EMPRESA


Era tão inevitável como a revolução dos astros: a impregnação da política pela linguagem da economia em que o "economês" se junta ao "futebolês" no mesmo lugar do pensamento e do discurso, no léxico do "politiquês". Nos últimos anos a ascensão do "economês" na política e no jornalismo traduzem a crise do referente político-ideológico, por um lado, porque este se transformou num mundo estereotipado de metáforas mortas, desgastado comunicacionalmente; por outro, porque a iliteracia política também cresceu com a ascensão ao poder das "juventudes" partidárias, formadas num jargão utilitário muito reduzido no seu vocabulário e na sua instrumentação teórica. Futebol e economia, jornais desportivos e imprensa económica fornecem chavões e palavras de encher o ouvido, que todos entendem porque lêem e vêem o mesmo, logo funcionam como lubrificante do discurso. Quem é que não percebe quando se diz que "o PS meteu um golo na sua própria baliza", ou que no PSD há agora um CEO e um chairman, como repetiam à exaustão os jornalistas no último congresso do PSD? Passou-se pois assim do relvado e do mister para os players no mercado eleitoral, ou seja, o que antigamente chamávamos "o povo".

Convém, no entanto, não nos iludirmos muito com o brilho modernizador da linguagem acreditando que lá porque se fala "moderno" se pensa e se age "moderno". É evidente que há muita coisa que esta linguagem com funções propagandísticas esconde e que é muito mais terra-a-terra e bem fácil de classificar de modo antigo. Por exemplo, por detrás de uma "reorganização" e "qualificação" do "pessoal" (nos partidos nunca há um downsizing), trata-se de substituir um corpo de funcionários por outro, com base nos mesmos esquemas de patrocinato, clientela e obediência pessoal e de grupo com que se constituiu o anterior.

Motoristas, secretárias, funcionários diversos, nos partidos e nos grupos parlamentares, raras vezes chegaram a essa situação por mérito, mas, nos primeiros tempos, por militância, depois por cunhas e pagamentos de favores a nível nacional, ou regional. Havia quotas locais e regionais, quotas dos secretários-gerais e dos presidentes do partido, e assim se constitui uma burocracia que depois funciona pelas regras da própria burocracia, muito depois de passarem os líderes e os secretários-gerais. Em seguida, como é normal, depois de estarem "dentro", com o poder que isso significa (se há sítio onde os funcionários "sabem" de mais é nos partidos políticos), exercem o poder "de dentro", para chamarem famílias inteiras, maridos, mulheres, filhos, primos, namorados(a), etc., em pacote. Aqui, os partidos não são muito diferentes de muitas outras instituições portuguesas, mesmo muito "modernas", como foi a Gulbenkian, e não só, durante muitos anos.

Se a vida política não se tivesse degradado, seria normal, em particular quando os lugares têm uma componente política de confiança, que as pessoas saíssem com aqueles com quem entraram. Do mesmo modo que os novos ocupantes também saberiam que teriam de sair com os seus empregadores. Um partido não é uma burocracia com funcionários públicos, e a legislação permite, por exemplo, que um funcionário do grupo parlamentar seja "despedido" a qualquer momento por uma assinatura, exactamente porque se pretendeu salvaguardar a condição intangível da "confiança". Se fosse o retorno à dedicação cívica e política, à militância, como norma do trabalho dentro de um partido, que estivesse em causa nesta "modernização" de que se fala agora, eu seria o primeiro a aplaudir. Mas isso é certamente considerado caduco, pouco "moderno", ineficaz, antiquado, coisa de outros tempos, do pós-25 de Abril.

Não é pela utilização do "economês" reorganizativo que se esconde o facto de que o problema para a nova direcção é que eles não fazem parte da "casa", da "casa" de Lisboa, da "sede nacional" e que esta pouco tem a ver com o grupo de fiéis nortenhos (e os fiéis sulistas dos fiéis nortenhos) que querem trazer para ocupar os lugares já tomados pelos velhos habitantes da "casa". Por isso, por detrás de muito deste mambo-jambo "modernizador", há uma simples vontade de despedir aqueles em quem não se tem confiança e dar os lugares e os empregos aos amigos e próximos da nova liderança. É para pagar indemnizações e fazer novos contratos de pessoal que é necessário vender o património. Como escreve João Marques Santos numa análise lúcida do "PSD, SA":
"[Menezes ] quer ser o accionista número um da empresa PSD. Quer que a empresa trabalhe para o patrão, como todas as empresas que se prezam. E que dê lucros. Anseia por dividendos. Prefere, por isso, desdenhar militâncias e pagar a quem o sirva. Para melhor poder despedir quem não execute as suas ordens. Porque os militantes não se despedem, mas os trabalhadores da empresa sim."

(Correio da Manhã)
Um problema complementar tem a ver com aquilo de que uma direcção política (nome que, como antiquado que sou, prefiro a liderança) precisa do aparelho partidário. E aqui também a linguagem do "economês" e o pensamento do partido-empresa é, para além de uma moda, uma ocultação da questão de fundo. É verdade que os recursos do partido estavam erradamente distribuídos (como os do PS aliás, embora um partido no poder compre esses "serviços" a partir do governo), não sobrando meios para apoiar um trabalho de qualificação da acção partidária que deve centrar-se nos governo-sombra e think tanks, organizados dentro e fora do "movimento" partidário. É verdade que sobram motoristas, secretárias e funcionários sem qualificação e faltam economistas, juristas e "estrategos da comunicação" (curioso sinal dos tempos, ninguém fala dos seguranças que parece terem-se tornado mais necessários...), mas o lugar da falta não é o mesmo.

É interessante notar que a nova direcção do PSD, que entende fazer concursos dentro do partido para os lugares de assessores, nunca lhe passou pela cabeça deixar de contratar agências de comunicação profissionais, certamente porque estas lhe fornecem uma ponte para os órgãos de comunicação social já previamente existente e que os assessores que vão contratar não lhe podem dar. Eu, se fosse jornalista, preocupava-me muito com o facto de o aconselhamento económico, jurídico, técnico em geral poder ser dado por assessorias ad hoc e que a "estratégia de comunicação", ou seja, a propaganda moderna, só possa ser feita por agências profissionais.
A sucessão de notícias sobre a "reorganização" do PSD em jornais como o Expresso e o Público revela o novo funcionamento das "fontes" denunciado por Alcides Vieira e comentado por mim aqui. É muito interessante ver como as notícias controladas e as mensagens que intencionalmente são divulgadas, o spin, sobre esta matéria, resultam em notícias favoráveis em termos de propaganda, acríticas e assépticas. São o equivalente das sessões que o Primeiro-ministro organiza com casting de meninos da escola, powerpoint e filmes com animações de computador. Governo e PSD tem hoje as relações com os jornalistas muito profissionalizadas, em detrimento da qualidade da informação e da sua independência crítica. Cada vez mais há "papinha feita", é só comer.
A questão de fundo é que também este tipo de aconselhamento especializado está longe de ser administrativo ou burocrático, mas sim um problema político, porque o que rompeu a ligação do partido à sociedade, aos grupos profissionais, de onde viria toda a informação e aconselhamento necessário foi a crise de credibilidade partidária agravada pela última experiência governativa do PSD. Para além disso, não há aconselhamento, por capaz que ele seja, que supere as deficiências da produção de políticas pelos órgãos próprios (comissão política e permanente) e da sua "locução", por exemplo, no Parlamento, onde escasseiam competências em muitas áreas cruciais do debate público, como se pôde ver na recente discussão parlamentar.

Não são assessores que fornecem um conselho político, sob forma "profissional", quer dizer assalariada, que podem remendar uma crise de credibilidade que rompeu a relação do PSD com os sectores mais dinâmicos da sociedade e dos grupos profissionais, como não são cibercafés que dão um toque tecnológico às sedes do PSD, nem carros pretos que dão a imagem de Estado.
O Expresso de 17 de Novembro explica que dentro de um plano de gestão de imagem, Menezes vai passar a andar sempre em classe executiva nos aviões e a deslocar-se pelo país com staff , em " dois ou três carros escuros" (ipsis verbis). O artigo é consituído por declarações de Ribau Esteves, de um "especialista" da agéncia de comunicação Cunha e Vaz e Associados e por várias frases de fontes anónimas, não se percebe bem porquê. A conclusão assinada por Ângela Silva é esta : "para quem leva dois meses de líder, nada mau!", com ponto de exclamação e tudo.
Não é às fábricas de aparências, cor-de-rosa ou cinzentas, que se deve ir buscar inspiração, nem aos mitos do "futebolês" e do "economês", mas ao conhecimento da sociedade, às virtudes cívicas e à política ao serviço do "bem comum". Seria mais útil lerem, por exemplo, Sá Carneiro, esse político antiquado e pouco "moderno".
Uma "resposta" a este artigo e a outro de teor semelhante de Vasco Pulido Valente encontra-se no blogue de Pedro Santana Lopes.
(No Público de 24 de Novembro de 2007.)

Etiquetas:


(url)


EARLY MORNING BLOGS


1165


The image “http://www.bl.uk/learning/images/21cc/utopia/houyhnhnms.jpg” cannot be displayed, because it contains errors.I am not in the least provoked at the Sight of a Lawyer, a Pick-pocket, a Colonel, a Fool, a Lord, a Gamester, a Politician, a Whore-Master, a Physician, an Evidence, a Suborner, an Attorney, a Traitor, or the like: This is all according to the due Course of Things: But when I behold a Lump of Deformity, and Diseases both in Body and Mind, smitten with Pride, it immediately breaks all the Measures of my Patience; neither shall I be ever able to comprehend how such an Animal and such a Vice could tally together.


(Jonathan Swift, A Voyage to the Country of the Houyhnhnms)

*

Bom dia!

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Esta noite em Znojmo, Republica Checa. Usando o Abrupto como janela.

"Photographed images do not seem to be statements about the world so much as pieces of it, miniatures of reality that anyone can make or acquire."

(Susan Sontag, On Photography)









Bar / discoteca em Znojmo, Republica Checa, esta noite. (MC)

(url)

24.11.07


COISAS DA SÁBADO: VEM AÍ O LOBO

Todos os dias, um jovem pastor levava um rebanho de ovelhas às montanhas perto da aldeia. Um dia, por brincadeira, ele correu de lá de cima gritando: - Um lobo! Um lobo! O Habitantes da aldeia trataram de apanhar pedaços de pau para caçar o lobo. E encontraram o pastorzinho às gargalhadas, dizendo: - Eu só queria brincar com vocês! E, vendo que a brincadeira realmente assustava os aldeões, gritou no dia seguinte: - Um lobo! E novamente os moradores da aldeia trataram de apanhar suas armas de madeira.

Tantas vezes o fez que a gente da aldeia não prestava mais atenção aos seus gritos. Mais uns dias e ele volta a gritar: - Um lobo! Um lobo! Socorram-me! Um dos homens disse aos outros: - Já não acredito. Ele não nos engana mais.

E era de fato um lobo, que dizimou todo o rebanho do pastorzinho.


(Esopo)
Os alertas da Protecção Civil quanto ao mau tempo agora, e antes quanto ao calor, ao Sol e aos incêndios, têm-se sucedido como nunca antes tinha acontecido. Será que subitamente o Mundo mudou e todas as chuvadas são catastróficas e todo o calor ceifa pelos velhos adiante? Será mais uma prova do distúrbio ambiental que os ecologistas e o Sr. Al Gore querem colocar como tema número um na agenda mundial? Será que finalmente nos apercebemos da nossa fragilidade estrutural a qualquer Inverno e a qualquer Verão mais rigoroso? Ou será apenas um excesso de precaução, não vá o diabo tecê-las e depois aparecerem os mal-avontadados do costume a pedir contas ao governo? Não sei, mas é capaz de ser um pouco de tudo e, sendo um pouco de tudo, apenas a última razão me parece de acautelar.

O efeito da trivialização dos alertas tem relação directa com a sua frequência, mas também com o modo como os órgaõs de comunicação social, em particular as televisões os ampliam. Como os alertas ainda são uma relativa novidade e o medo é muito televisivo, as televisões ampliam a dramatização e as pessoas fecham-se em casa. Depois, se não se verificar um cataclismo cada vez que há um alerta, funciona o princípio do rapaz e do Lobo, de tanto gritar que vem aí o Lobo, quando ele efectivamente aparece, as pessoas já não tomam a sério o alerta.

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Entre ontem e hoje em Lisboa, Almada, Funchal, Amarante, Porto, Setúbal , Barreiro, Hungria e Índia.
Usando o Abrupto como janela.

"To photograph is to appropriate the thing photographed. It means putting oneself into a certain relation to the world that feels like knowledge -- and, therefore, like power. "

(Susan Sontag, On Photography)



Barreiro. (António Cabral)



Lua de Setúbal. (Ochoa)




Anoitecer sobre o Barreiro. (António Cabral)



"Feira do livro" em Deli. (LM)



Pai Natal no Centro Comercial de Almada.



Na Ponte. (RM)





Porto: Feira de Vandoma.



Porto: Rua de S. Catarina e Loja do Cidadão - Torre das Antas. (Álvaro Leite de Sá)



Preparações de Natal no Funchal. (João Almeida)



Aeroportos: Porto e Lisboa. (J. Rego)



Luz de Amarante sobre o Tâmega. (Helder Barros)



Amanhecer sobre a Hungria. (Gil Regueira)



Anoitecer no Funchal. (Carlos Oliveira)

(url)


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: RECLAMAÇÕES DE CIDADANIA


(Continua a discussão começada em O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: RECLAMAÇÕES DE CIDADANIA)


Estive a ler atentamente as histórias que publicou de leitores a queixarem-se do Fisco.

Posso até simpatizar com todas as queixas mas ainda vi poucos a colocar o dedo na ferida: o problema da fiscalidade em Portugal é a sua complexidade o que obriga, por exemplo, os contribuintes a gastar vastos euros para pura e simplesmente apresentar as suas declarações fiscais.

O sistema é complexo, opaco, com resmas de códigos e regras, prazos confusos e difusos e com pouca fiscalização aos que fogem e muitas multas aos que cumprem.

Consultando o site da DGCI pode-se ver existem 15 códigos ligados à área fiscal:

É simplesmente demais. Para além disso é inútil porque não consegue garantir que a carga fiscal seja repartida de forma equitativa pelos diferentes agentes económicos.

Para rematar transcrevo aqui o artigo 14 do Código do IVA. Porque é que lhe envio isto? É a prova mais que provada que o sistema é complexo e estúpido.

Quem redigiu este artigo deve ter dito um verdadeiro orgasmo jurídico porque no número 1 do referido artigo quase que consegui chegar à alínea Z.

Aqui vai para quem tiver coragem:

Artigo 14.º do Código do IVA

Isenções na exportação, operações assimiladas a exportações e transportes internacionais

1 - Estão isentas do imposto:

a) As transmissões de bens expedidos ou transportados para fora da Comunidade pelo vendedor ou por um terceiro por conta deste; (Redacção dada pelo art. 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro)

b) As transmissões de bens expedidos ou transportados para fora da Comunidade por um adquirente sem residência ou estabelecimento em território nacional ou por um terceiro por conta deste, ainda que, antes da sua expedição ou transporte, sofram no interior do País uma reparação, uma transformação, uma adaptação ou qualquer outro trabalho, efectuado por terceiros agindo por conta do adquirente, com excepção dos bens destinados ao equipamento ou abastecimento de barcos desportivos e de recreio, de aviões de turismo ou de qualquer outro meio de transporte de uso privado e dos bens transportados nas bagagens pessoais dos viajantes com domicílio ou residência habitual em outro Estado membro; (Redacção dada pelo art. 1.º do Dec.-Lei n.º 82/94, de 14 de Março)

c) As prestações de serviços que consistam em trabalhos realizados sobre bens móveis, adquiridos ou importados para serem objecto de tais trabalhos em território nacional e em seguida expedidos ou transportados para fora da Comunidade por quem os prestou, pelo seu destinatário não estabelecido em território nacional ou por um terceiro por conta destes; (Redacção dada pelo art. 1.º do Dec.-Lei n.º 82/94, de 14 de Março)

d) As transmissões de bens de abastecimento postos a bordo das embarcações afectas à navegação marítima em alto mar e que assegurem o transporte remunerado de passageiros ou o exercício de uma actividade comercial, industrial ou de pesca; (Redacção dada pelo art.º 2.º do Dec.-Lei n.º290/92, de 28 de Dezembro)

e) As transmissões de bens de abastecimento postos a bordo das embarcações de salvamento, assistência marítima e pesca costeira, com excepção, em relação a estas últimas, das provisões de bordo; (Redacção dada pelo art. 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro)

f) As transmissões, transformações, reparações, operações de manutenção, construção, frete e aluguer de embarcações afectas às actividades a que se referem as alíneas d) e e), assim como as transmissões, aluguer, reparação e conservação dos objectos, incluindo o equipamento de pesca, incorporados nas referidas embarcações ou que sejam utilizados para a sua exploração; (Redacção dada pelo art. 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro)

g) As transmissões, transformações, reparações e operações de manutenção, frete e aluguer de aeronaves utilizadas pelas companhias de navegação aérea que se dediquem principalmente ao tráfego internacional, assim como as transmissões, reparações, operações de manutenção e aluguer dos objectos incorporados nas mesmas aeronaves ou que sejam utilizados para a sua exploração; (Redacção dada pelo art. 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro)

h) As transmissões de bens de abastecimento postos a bordo das aeronaves referidas na alínea anterior; (Redacção dada pelo art. 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro)

i) As transmissões de bens de abastecimento postos a bordo das embarcações de guerra classificadas pelo código 8906 00 10 da Nomenclatura Combinada, quando deixem o país com destino a um porto ou ancoradouro situado no estrangeiro; (Redacção dada pelo art. 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro)

j) As prestações de serviços não mencionadas nas alíneas f) e g) do presente número, efectuadas com vista às necessidades directas das embarcações e aeronaves ali referidas e da respectiva carga; (Redacção dada pelo art. 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro)

l) As transmissões de bens e as prestações de serviços efectuadas no âmbito de relações diplomáticas e consulares, cuja isenção resulte de acordos e convénios internacionais celebrados por Portugal; (Redacção dada pelo art. 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro)

m) As transmissões de bens e as prestações de serviços destinadas a organismos internacionais reconhecidos por Portugal ou por qualquer outro Estado membro da Comunidade Europeia, ou a membros dos mesmos organismos, nos limites fixados nos acordos e convénios internacionais que instituíram esses organismos ou nos respectivos acordos de sede; (Redacção dada pelo art. 1.º do Dec.-Lei n.º 82/94, de 14 de Março)

n) As transmissões de bens e as prestações de serviços efectuadas no âmbito do Tratado do Atlântico Norte às forças armadas dos outros Estados que são Partes no referido Tratado, para uso dessas forças armadas ou do elemento civil que as acompanha ou para o aprovisionamento das suas messes ou cantinas, quando as referidas forças se encontrem afectas ao esforço comum de defesa; (Redacção dada pelo art. 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro)

o) As transmissões de bens para organismos devidamente reconhecidos que os exportem para fora da Comunidade no âmbito das suas actividades humanitárias, caritativas ou educativas, mediante prévio reconhecimento do direito à isenção; (Redacção dada pelo art. 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro, e Declaração de rectificação nº 1/93, D. R. I Série-A, de 30/01/93)

p) As prestações de serviços, incluindo os transportes e as operações acessórias, com excepção das referidas no artigo 9.º deste diploma, que estejam directamente relacionadas com o regime de trânsito comunitário externo, o procedimento de trânsito comunitário interno, a exportação de bens para fora da Comunidade, a importação temporária com isenção total de direitos e a importação de bens destinados a um dos regimes ou locais a que se refere o n.º 1 do artigo 15.º; (Redacção dada pelo art. 1.º do Dec.-Lei n.º 82/94, de 14 de Março)

q) As prestações de serviços, com excepção das referidas no artigo 9.º deste diploma, que se relacionem com a expedição ou transporte de bens destinados a outros Estados membros, quando o adquirente dos serviços seja um sujeito passivo do imposto, dos referidos na alínea a) do n.º 1 do artigo 2.º, registado em imposto sobre o valor acrescentado e que tenha utilizado o respectivo número de identificação para efectuar a aquisição; (Redacção dada pelo art. 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro)

r) O transporte de pessoas provenientes ou com destino ao estrangeiro, bem como o das provenientes ou com destino às Regiões Autónomas, e ainda o transporte de pessoas efectuado entre as ilhas naquelas Regiões; (Redacção dada pelo art. 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro)

s) As prestações de serviços realizadas por intermediários que actuam em nome e por conta de outrem, quando intervenham em operações descritas no presente artigo ou em operações realizadas fora da Comunidade; (Redacção dada pelo art. 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro)

t) O transporte de mercadorias entre as ilhas que compõem as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, bem como o transporte de mercadorias entre estas regiões e o continente, ou qualquer outro Estado membro, e vice-versa; (Redacção dada pelo art. 1.º do Dec.-Lei n.º 82/94, de 14 de Março)

u) As transmissões para o Banco de Portugal de ouro em barra ou em outras formas não trabalhadas; (Redacção dada pelo art. 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro)

v) As transmissões de bens e as prestações de serviços destinadas às forças armadas de qualquer outro Estado que seja parte no Tratado do Atlântico Norte, que não seja o Estado membro da Comunidade Europeia para o qual os bens são expedidos ou os serviços prestados, para uso dessas forças armadas ou do elemento civil que as acompanham, ou para o aprovisionamento das respectivas messes ou cantinas, quando as referidas forças se encontrem afectas ao esforço comum de defesa (Redacção dada pelo art. 1.º do Dec.-Lei n.º 82/94, de 14 de Março)

x) (Revogada pelo art. 1.º do Decreto-Lei n.º 206/96, de 26 de Outubro)

z) (Revogada pelo art. 1.º do Decreto-Lei n.º 206/96, de 26 de Outubro)

2 - As isenções referidas nas alíneas d), e) e h) do n.º 1, no que se refere às transmissões de bebidas, efectivar-se-ão através do exercício do direito à dedução ou da restituição do imposto, não se considerando, para o efeito, o disposto na alínea d) do n.º 1 do artigo 21.º.

(Redacção dada pelo artigo 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro)

3 - Para efeitos do estabelecido neste Código, entende-se por bens de

abastecimento:

(Redacção dada pelo art. 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro)

a) As provisões de bordo, sendo considerados como tais os produtos destinados exclusivamente ao consumo da tripulação e dos passageiros;

b) Os combustíveis, carburantes, lubrificantes e outros produtos destinados ao funcionamento das máquinas de propulsão e de outros aparelhos de uso técnico instalados a bordo;

c) Os produtos acessórios destinados à preparação, tratamento e conservação das mercadorias transportadas a bordo.

4 - Para efeitos do presente artigo, é assimilado ao transporte de pessoas provenientes ou com destino ao estrangeiro o de pessoas com proveniência ou com destino às Regiões Autónomas e ainda o transporte de pessoas entre as ilhas das mesmas Regiões.

(Redacção dada pelo art. 2.º do Dec.-Lei n.º 290/92, de 28 de Dezembro)

5 - As isenções da alínea d) e f) do nº 1 não se aplicam às operações aí referidas quando se destinem ou respeitem a barcos desportivos ou de recreio.

(Redacção dada pelo nº1 do artº 35º da Lei nº 109-B/2001, de 27 de Dezembro) Redacção anterior

Que seja pelo bem da Nação!

(Daniel Nunes)


(url)


EARLY MORNING BLOGS


1164 - A blade of grass


You ask for a poem.
I offer you a blade of grass.
You say it is not good enough.
You ask for a poem.

I say this blade of grass will do.
It has dressed itself in frost,
It is more immediate
Than any image of my making.

You say it is not a poem,
It is a blade of grass and grass
Is not quite good enough.
I offer you a blade of grass.

You are indignant.
You say it is too easy to offer grass.
It is absurd.
Anyone can offer a blade of grass.

You ask for a poem.
And so I write you a tragedy about
How a blade of grass
Becomes more and more difficult to offer,

And about how as you grow older
A blade of grass
Becomes more difficult to accept.

(Brian Patten)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)

23.11.07


COISAS DA SÁBADO: QUERIA A MINHA INFORMAÇÃO BEM LIMPINHA MAS...
"O acesso à informação está cada vez mais condicionado. Já existem agências profissionalizadas que fazem a ponte com as fontes e que sabem trabalhar pelo seu interesse. (Mais do que pressões, existe) a estratégia da agência de comunicação, que muitas vezes é assegurada por ex-jornalistas que se formaram nas redacções e que sabem como fazer chegar o que pretendem. A fonte é cada vez mais intermediada pelas agências de comunicação. "

(Alcides Vieira, director de informação da SIC , Jornal de Notícias, 18 de Novembro de 2007 citado aqui. )
Tenho agora uma nova desconfiança face aos jornais, rádios e televisões. Antes eu tinha esta guerra com o mundo corporativo dos jornalistas, exactamente porque esse mundo era corporativo, e protegia a politização das notícias, as ideias feitas e arrogantes sobre o “poder” da comunicação social e muita incompetência. Hoje muita gente que subia pelas paredes das palavras acima com o que eu dizia, dá-me razão retrospectivamente. É melhor do que nada. Só que agora, sem ter desaparecido o mundo anterior, começo a ter crescente suspeita das “notícias de agência”, tão direitinhas me aparecem certas “mensagens”, tão apropriadas, tão de encomenda, tão oportunas, que me pergunto como é que o “ninho de víboras” que eu no passado criticava na sua atitude cínica face ao poder, é hoje tão ingénuo e inocente. Só me ocorre a palavra inglesa, gullible, que os dicionários dizem significar “ser facilmente enganado”, “crédulo”, “confiante”, “simples” no sentido bíblico, “verde” no sentido de inexperiente, uma palavra cujo som me dá a sensação de que me querem fazer engolir alguma coisa sem eu saber quem a fez, o que está lá e que efeitos tem.


(url)


LUZES REAIS-DIGITAIS DO DIA DE HOJE EM LISBOA E À VOLTA DE LISBOA



De manhã à noite.

(url)


NUM BLOGUE PERTO DE SI, NUMA GALÁXIA MUITO LONGE



NESTES DIAS

Prosseguem aqui O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: RECLAMAÇÕES DE CIDADANIA as denúncias de várias malfeitorias da máquina do fisco + novos comentários.

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Cristo-Rei visto de Alcochete. (António Cabral)



Luz das 17.30. (RM)



Lisboa às 17 horas. (João Brito)



Barco da Transtejo.



Helicóptero da Marinha descendo no Montijo. (António Cabral)



Tropismes, Bruxelas. (FR)





Manhã em Lisboa. (RM)

MOMENTOS EM TEMPO REAL: INTERIORES



(António Cabral)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1163 - Envy and impotent Desires are their prevailing Passions

After this Preface he gave me a particular Account of the Struldbruggs among them. He said they commonly acted like Mortals, till about thirty Years old, after which by degrees they grew melancholy and dejected, encreasing in both till they came to four-score. This he learned from their own Confession; for otherwise there not being above two or three of that Species born in an Age, they were too few to form a general Observation by. When they came to four-score Years, which is reckoned the Extremity of living in this Country, they had not only all the Follies and Infirmities of other old Men, but many more which arose from the dreadful Prospect of never dying. They were not only Opinionative, Peevish, Covetous, Morose, Vain, Talkative, but uncapable of Friendship, and dead to all natural Affection, which never descended below their Grand-children. Envy and impotent Desires are their prevailing Passions. But those Objects against which their Envy principally directed, are the Vices of the younger sort, and the Deaths of the old. By reflecting on the former, they find themselves cut off from all possibility of Pleasure; and whenever they see a Funeral, they lament and repine that others have gone to a Harbour of Rest, to which they themselves never can hope to arrive. They have no Remembrance of anything but what they learned and observed in their Youth and middle Age, and even that is very imperfect. And for the Truth or Particulars of any Fact, it is safer to depend on common Traditions than upon their best Recollections. The least miserable among them appear to be those who turn to Dotage, and entirely lose their Memories; these meet with more Pity and Assistance, because they want many bad Qualities which abound in others.

(Jonathan Swift, A Voyage to Laputa, Balnibarbi, Luggnagg, Glubbdubdrib, and Japan)

*

Bom dia!

(url)

22.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Alfarrabista em Tomar. (RM)

(url)


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: RECLAMAÇÕES DE CIDADANIA


Estive a dar uma vista de olhos no “Relatório de Execução 2006 do Programa Operacional Pescas” (disponível em www.qca.pt/pos/download/relatorios_2006/MARE2006.pdf) e fiquei espantado quando reparei que aí consta que o total do investimento da 1ª fase da nova fábrica da ACUINOVA em Mira é de €91.440.000 e que deste montante, metade, ou seja €45.720.000, são provenientes de dinheiros públicos. Parece-me incrível que a nossa imprensa, tão solícita a louvar os benefícios deste investimento, não refira uma linha sobre este ponto. Afinal, a fábrica não é só da ACUINOVA: metade é nossa.

(Carlos Frutuoso Maia)

*

A máquina fiscal começa a ser insuportável. A mim estão a pedir-me 54 euros de coima por não ter feito um pagamento por conta em 2004, quando nesse ano não tive rendimentos de trabalho independente, direitos de autor, que me obrigassem a essa pagamento. Dei-me até ao trabalho de ir em 2004 à Repartição da minha área de residência confirmar que não devia pagar. Resposta: não pague, ignore.

Agora argumentam que na liquidação do IRS desse ano vinha erradamente que eu devia ter pago cento e tal euros por conta e como não reclamei do erro tenho que pagar a coima, para o que fui notificado por correio registado. É kafkiano. Fiz o requerimento para o Chefe da Repartição, mas disseram-me logo que o recurso não seria deferido porque era uma questão de legislação e não de bom-senso.

Vou pagar, sem esperar pela resposta do Chefe, antes que me penhorem a mobília por 54 euros, mas só em 2008. Podem até enviar-me mais cartas de cobrança. (...) Ou seja, não me venham falar da Venezuela como se nós aqui estivéssemos na Suécia.

(M. P.)

*
Lendo um dos últimos posts de um leitor do Abrupto e relativo à "atitude implícita" da máquina fiscal lembrei-me que talvez fosse elucidativo contar o que me aconteceu no último IRS: Ao proceder à declaração electrónica (2º período) falhou-me o anexo dos rendimentos do trabalho por conta própria. Por esse motivo a declaração foi assim classificada como fora de prazo. Passados alguns dias dei por isso, procedi a nova declaração e incluí os citados rendimentos em falta, que o sistema aceitou com indicação de "declaração dentro do prazo".

Passados uns tempos recebi em casa uma intimação para pagar uma multa (cerca de 50 euros, salvo erro) relativa ao suposto prazo excedido da 1ª declaração, aquela que já não tinha valor legal por ter sido substituída pela 2ª, a rectificativa.

Contactada a minha Repartição de Finanças informaram-me que embora parecesse não era erro do sistema, era assim mesmo e que pelo conhecimento que tinham destes casos não valeria de muito perder tempo a elaborar exposições. Assim fiz: Paguei e afastei-me rapidamente do local.

Não vale a pena comentar de nenhum ponto de vista, da justiça, da legalidade, da inteligência, da urbanidade nas relações entre Estado e Cidadão, etc..

(António Matos Rodrigues)

*

O problema é nós termos a reacção do leitor António Matos Rodrigues – a qual não estou de forma alguma a criticar e considero absolutamente compreensível. O Estado, ao criar a teia burocrática e kafkiana existente, leva os cidadãos à incompreensão e ao desespero. Mesmo que seja uma iniquidade, mais vale pagar e calar do que andar meses ou anos a discutir uma minudência (muitas das vezes nem sequer são assim tão minudências, mas a reacção é a mesma). Isto é que demonstra que Portugal, neste género de day-to-day life, não é um Estado de Direito democrático, mas sim um verdadeiro país do terceiro mundo. Cumpre-nos a nós, que queremos invocar o estatuto de cidadãos na sua plena acepção, o dever de contribuir para alterar mentalidades. E essa contribuição passa inevitavelmente pelo conceito de desinstalação, ainda que isso traga muitas dores de cabeça.

(Rui Esperança)

*

Sobre a insuportabilidade de minudências fiscais, penso que um seu leitor acima apenas refere parte do problema. A questão é sobretudo kafkiana, como também alguém escreveu.

Atualmente o Fisco é um importante produtor de receita fiscal para o Estado. Pergunte-se isto a qualquer funcionário das Finanças, ou a qualquer advogado especialista em direito Fiscal. Tenho em mão um problema de reversão de dívida contra sócios de uma pequena empresa. A dívida real significa certa de €75 mil euros, toda ela com mais de 15 anos mas que vistos colocados nos processos impediram que
prescrevesse. No entanto, muitas outras com 10 anos, maiores e menores que esta, mas que não tiveram a atenção 'especial' de um funcionário muito seletivo no seu zelo, prescreveram. Depois, outros cerca de €75 mil euros representam juros de mora e coimas. Ao contrário do que o generalidade das pessoas pensa, cerca de 50% das dívidas publicadas nas famosas listas da DGI referen-se a juros de mora e multas e não a valores que efectivamente os contribuintes ficaram a dever ao Estado.

Este caso é ainda mais grave, porque a este total somam-se dívidas de cerca de €100 mil euros em IVA, IRC, multas e coimas que as Finanças indiciaram à tal Empresa apesar de ela não estar em funcionamento há cerca de sete anos, portanto, um valor completamente fabricados pelas regras com que são programados os computadores da DGI. Portanto, de cerca de €250 mil euros de dívidas, €175 mil foram produzidos/inventados pelas regras fiscais em vigor. Desinteligências entre sócios, desaparecimento de alguns, fazem com agora alguém em particular tenha de pagar por todos o que se devia, o muito que as regras fiscais inventam. Esta pessoa, de idade avançada, passará o resto da sua velhice na miséria, num autêntico ato da excussão injusta e ignóbil a favor das Finanças.

Milhares de pessoas são atualmente alvo fácil de um Estado devorista, que gasta muito e mal e que se serve de tudo para obter dinheiro, incluindo extorquir aos contribuintes receita inventada nas regras fiscais. Tudo isto contando com a atitude cúmplice da oposição ao Governo, bem como o apoio imbecil da comunicação social
colaboracionista e politicamente correta.

(Paulo Porto)

*

Provavelmente a resposta à insuportável supremacia do estado através da teia burocrática e kafkiana dos recursos às coimas, nomeadamente às pequenas quantias, esteja na expectativa do próprio Fisco de que para pequenas quantias o cidadão prescinda de reclamar e com isso arrecada quantias substanciais de receitas. Ora qual será o peso destas pequenas receitas no total das receitas do Fisco? Alguém sabe?

(B.N.)

(url)


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 22 de Novembro de 2007


Devia haver um novo tipo de boletim meteorológico que nos anunciasse desde de manhã a intensidade da chuva de futebolite do dia na Futebolândia. A julgar pelo noticiário das 8 da RTP, hoje é dia de alerta vermelho de futebolite: das 8 às 8.30 mais de dois terços foi futebol, o de ontem e o de sempre, o que existe no "relvado" e o de conversa. Até uma reportagem sobre uma petição na internet com o tema de "volta Figo" teve prioridade noticiosa, como se já não houvesse futebol do patriótico a mais. Hoje pode cair o mundo que o futebol choverá a cântaros. O Governo agradece, a oposição está a ver o futebol.

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1162

Dizía Máximo [Maximiniano] qu'el juez jamás por amor ni desamor ni por miedo ni dádivas no cate inclinando a la vna parte ni a la otra; seguro va por todo el mundo que Dios le es estado contra todo mal que le prosiguiese, e mucho más seguro yrá delante del juyzio de Dios, ca al tal es el çielo abierto e prometido asy commo su propia posesión. E desía avn que asy quiere Nuestro Señor Dios qu'el juyzio sea egual, que todo tienpo la verdad vaya adelante de toda amigança e parentesco e bienfecho e piadad, en tal manera que por piedad ni por obligaçiones de bienfechos que ayan [ms.: aya] rreçebidos ni por parentesco ni por amigança el juizio que no se aparte de verdad, e tal juyzio es egual e el juez loado por los ángeles e ensalçado por la verdad e defendido por la justiçia e proveydo por Dios fasta que sea en gloria.

(Compendio de dichos de sabios y philósofos, traducido del catalán al castellano por Jacob Çadique de Uclés, 1402)

*

Bom dia!

(url)

21.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Noite em Penha de França, Lisboa. (Luis Pereira)



Noite vista do teleférico em Avila, Venezuela. (MJ)



Por-do-sol depois da chuva em Águeda. (Gil Regueiro)



Teatro em Coimbra. (A)



Moinho de maré no Montijo. (António Cabral)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1161 - Choose

The single clenched fist lifted and ready,
Or the open asking hand held out and waiting.
Choose:
For we meet by one or the other.

(Carl Sandburg)

*

Bom dia!

(url)

20.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Guarda à noite. (João Cabral)



Saída da escola. (Ochoa)



Por-do-sol no Porto. (Luís Paiva de Sousa)



Por-do-sol em Setíbal. (Ochoa)

(url)


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: A ESFERA AZUL, A BOLINHA POLICROMADA, A TERRA, VISTA DO INFERNO

http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/image/0711/earthrise_kayuga_big.jpg

Obrigada aos japões, como diria o "peregrinador", pela visão.

(url)


QUEM MANDA INFLUENCIA SEMPRE


Não pelos actos de mando, legítimos ou ilegítimos, mas porque vivemos num país que tem reverência com o poder, que tem pouco espaço para escapar à retaliação do poder, que tem pouco emprego fora dos cordelinhos do poder, que precisa sempre de qualquer decisão favorável do poder, que tem pouca, muito pouca, independência face ao poder e pouca, muito pouca, força cívica na opinião e na liberdade. É um velho atavismo, gostamos de ser mandados no corpo e na cabeça, nunca queremos responsabilidade, mas aceitamos a obediência. Somos desorganizados e incumpridores e desleixados, mas gostamos de saber que, algures, permanece uma ordem qualquer, para os outros claro, para os desviantes, para os mal-pensantes que têm a arrogância de não se entusiasmar com as regras do rebanho.

Portugal está cheio desta ordem do mando, como há muito tempo não se verificava. Ela está no PS, no PSD, no PP, no PCP e no BE, ela está no Governo dirigido por um conducator tecnocrático, autoritário e vingativo, para quem a liberdade e a democracia são valores menores subordinados à eficácia e ao culto do progresso, ela está numa comunicação social reverente e cada vez mais condicionada por agentes de comunicação profissionalizados, ela está numa economia tão dependente do Estado e do governo que se organiza mais para a influência junto ao poder do que para a competição, ela está numa sociedade civil tão dependente que não gera espaços de liberdade.

QUEM FICA MAIS POBRE DEVAGAR ACEITA CADA VEZ MAIS O MANDO

Porque é que já estivemos melhor e agora estamos pior e há retrocesso? Porque estamos a ficar mais pobres, com menos esperança, mais presos ao pouco que temos, mais confinados ao mesmo espaço minúsculo, todos em cima dos bens cada vez mais escassos a patrulhar para que os outros não fiquem com eles. Estamos a pagar o preço de um modelo “social” único, de uma Europa única, de um pensamento único que racionaliza este caminho para a pobreza como não tendo alternativa e pune a dissidência.

Só se pode ser pessimista e agir como pessimista, até porque a ideia de que os pessimistas não fazem nada é típíca dos optimistas na sua beatitude.

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Agora. Usando o Abrupto como janela.



Quotidianos urbanos com chuva. (RM)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1160 - The Fitful Alternations of the Rain

The fitful alternations of the rain,
When the chill wind, languid as with pain
Of its own heavy moisture, here and there
Drives through the gray and beamless atmosphere.

(Shelley)

*

Bom dia!

(url)

19.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Chuva em Lisboa. (MJ)



Nuvens no Rio Minho.



Outono. (António Cabral)



Campos de ténis molhados em Setúbal. (Ochoa)

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Agora. Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

(url)


HÁ ALTURAS ASSIM



Há alturas assim, parece que se vive naqueles sonhos em que se quer correr e não se sai do sítio. Freud explica, qualquer manual dos sonhos explica, mas a gente continua a sonhar o mesmo. Tudo é pastoso, parece um barco que entra no lodo e não avança mais no meio de um grande e enorme rio. Toda a agitação é vã, sabe-se que algures há um perigo indefinido, uma escuridão que avança, um movimento profundo nas águas. Não é por acaso que esta é um das "sete tramas fundamentais" na literatura. Está no Beowulf, está na lenda de S. Jorge e o Dragão, está nos livros de Stephen King, está no Portugal de 2007. O barco está bem encalhado no meio do rio e não se consegue fugir para fora do perigo.

A gente olha para o Correio da Manhã, aquilo que os anglo-saxónicos chamam uma "fatia de realidade", e vê bem o sonho do quero andar, mas não ando. ""Marta" (nome fictício), de 24 anos, confessou ontem às autoridades que deitou o seu filho num contentor do lixo", atrás de muitas outras "martas" que desde tempos imemoriais mataram os seus filhos, ou os deixaram na roda, ou na estrada para serem encontrados com um fiozinho e uma medalha para, dizem os leitores de Dickens e os espectadores de telenovelas, um dia mais tarde se dar o improvável rencontro, ou se confirmar qualquer tragédia incestuosa. Destinos. "Marta" não leu a intelectual Prospect, que coloca o dilema ético-social sobre se há direito a ter filhos que não se podem alimentar, ou dito de outro modo, se é moralmente legítimo e socialmente aceitável os pobres terem filhos que depois vão viver dos impostos dos ricos que não os procriaram. Amanhã haverá outras "martas". O barco decididamente não anda.

A "assassina do ácido voltou a ser posta em liberdade" escreve, perturbado, o jornal perante mais uma saga judiciária. Escrevendo em "juridiquês", uma linguagem que hoje se tornou popular de tão usada que é, vê-se que a "assassina do ácido", que estava detida em Tires para cumprir sete anos e nove meses de pena, "recebeu a ordem de libertação imediata, emanada pelos juízes desembargadores", após recurso do advogado. Continua o jornal: "Nessa altura, o colectivo de juízes considerou que o acórdão condenatório tinha transitado em julgado e, por consequência, estava esgotado o prazo para um eventual recurso. Para chegar a esta deliberação, os juízes guiaram-se pelos prazos dos processos urgentes, mas (o advogado) contestou. Primeiro, entrou com um pedido de habeas corpus (libertação imediata) da sua cliente, que foi indeferido. Depois, alegou que a decisão dos juízes da primeira instância teria efeitos suspensivos sobre a eficácia dos mandados de captura (...) o que foi aceite pelos juízes desembargadores." Corre Kafka, busca Kafka, bom cão Kafka!

A "assassina do ácido" anda nesta saga desde Maio de 2001, há mais de seis anos. O crime de amor, ciúme e raiva, que a levou a matar o namorado, crime do "coração" (o mesmo "coração" com que o povo se enleva no "pai de coração") já não suscita sequer atenção de per si, a não ser no epíteto de "assassina do ácido", são agora as peripécias jurídicas, o outro pântano, a outra areia que está debaixo do barco. Antes o mundo parecia simples: julgada, condenada, presa, libertada no fim da pena. Agora não, há advogados, juízes, polícias, desembargadores, um nome tão arcaico que se percebe bem encaixar na coisa. De que é que tens medo Kafka, não está nada aí, é só uma sombra...



Mantendo-nos nos crimes, temos mais um acto da saga mediática da "pequena Maddie", opondo os defensores da tese do rapto aos defensores da tese do assassinato, hoje uma matéria patriótica. Cada revelação, num ou noutro sentido, faz parte da também pequena guerra civil que os portugueses travam contra John Bull, contra a pérfida Albion, que insiste em nos tratar como comedores de sardinhas, insulta o nosso embaixador, goza com os nossos polícias, e suspeita que, se algum louro britânico, algum cidadão civilizado dos países frios, cai nas malhas desses brutos (nós) é como no tempo da Inquisição. E nós, nessa altura, ficamos todos índios venezuelanos diante do Borbón que nos manda calar, nós explorados desde o Tratado de Methuen, vítimas dos vexames de Beresford, espoliados pelo Ultimato e que temos agora que aturar a sobranceria desses "bifes" que acham que podem vir cometer crimes ao nosso Algarve e voltaram para casa a dizer mal do senhor inspector de Portimão. Nós que até lhes ganhamos, de vez em quando, no futebol. Agarrem-me senão eu faço e aconteço, ouve-se no barco encalhado pelo medo.

Depois o Correio da Manhã explica-nos que há portas e portas. Umas servem para abrir, outras para snifar e ganhar muito, muito dinheiro. São "portas da percepção" diria Huxley, cheias de felicidade terrestre, contendo a módica quantia de 301 quilos (o quilo a mais dos trezentos seria para pagar o transporte?) de cocaína metida numas portas vindas do Brasil, cerca de três milhões e cem mil doses individuais com valor de cerca de 15 milhões de euros. No mesmo dia, mostrando a diferença entre o poderoso cartel latino-americano e a pobreza dos PALOP, um infeliz guineense identificado como Isolmané trazia três quilos numa mala de viagem vindo de Caracas e foi direitinho parar à prisão, porque só lhe devia faltar ter escrito na T-shirt ao que vinha e com que vinha. Nas casas de banho da noite chique de Lisboa, onde os famosos da Nova Gente riscam umas linhas de neve, não vai faltar produto, nem que seja a consumir a porta. Se no barco encalhado se tem medo e se quer fazer de conta que não se passa nada, há sempre maneira de o fazer, no nariz, na veia, na garganta.

O resto? Nem no Correio da Manhã sobra alguma coisa como resto: uma greve na Valorsul, uma empresa que dá "valor" ao lixo do Sul; uma mãe que quer que a filha ouça e arranjou o dinheiro para a operação e diz, sábia, que "as mães não devem ficar à espera do Estado"; uma senhora professora que nem três cancros diferentes chegavam para ser aposentada e que só conseguiu "ter justiça"; a ASAE, mostrando como se leva a sério a gestão política das polícias, deixou por um dia de funcionar como braço armado do fisco, para apreender numa humilde loja das Portas de Santo Antão umas aparelhagens de quinta categoria que servem para escutas, obtendo assim um bom título no jornal para o senhor ministro da Administração Interna. O barco está mesmo encalhado e afunda-se pouco a pouco. Haverá piranhas, crocodilos neste rio? Há sempre.

A culpa é do Correio da Manhã? Longe disso, aquilo é o Portugal de 2007, tal como ele é, irrelevâncias antigas, infelicidades de sempre, vidas miúdas, perdidas num mundo que cada vez menos se controla, de que cada vez menos se descola. Não é obra de cínicos intelectuais que só querem dizer mal e não partilham do glorioso optimismo dos governantes, é o retrato do pântano do nosso lento empobrecimento a que nos condena o "modelo social" vigente, da desorganização atávica das nossas instituições, do salve-se quem puder, de uma mediania muito perto da pobreza e do atraso. É o que o espelho da verdade nos mostra.

É como nos sonhos, bem se quer correr, mas é difícil correr no meio de gelatina, da pasta viscosa da nossa anomia, quando uma a uma se perdem as raríssimas oportunidades de fazer diferente. Até o Papa percebeu isso e fez o que fez aos bispos, só que nós, se o tivéssemos à civil, atirávamos pedras ao homem. Não se é feliz no país do Correio da Manhã, mas o país do Correio da Manhã é o nosso país.

(No Público de 18 de Novembro de 2007)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1159 - Forty hour week (for a livin’)

There are people in this country who work hard every day.
Not for fame or fortune do they strive.
But the fruits of their labor are worth more than their pay.
And it’s time a few of them were recognized.

Hello detroit auto workers, let me thank you for your time.
You work a forty hour week for a livin’, just to send it on down the line.
Hello pittsburgh steel mill workers, let me thank you for your time.
You work a forty hour week for a livin’, just to send it on down the line.

This is for the one who swings the hammer, driving home the nail.
Or the one behind the counter, ringing up the sale.
Or the one who fights the fires, the one who brings the mail.
For everyone who works behind the scenes.

You can see them every morning in the factories and the fields.
In the city streets and the quiet country towns.
Working together like spokes inside a wheel.
They keep this country turning around.

Hello kansas wheat field farmer, let me thank you for your time.
You work a forty hour week for a livin’, just to send it on down the line.
Hello west virginia coal miner, let me thank you for your time.
You work a forty hour week for a livin’, just to send it on down the line.

This one is for the one who drives the big rig, up and down the road.
Or the one out in the warehouse, bringing in the load.
Or the waitress, the mechanic, the policeman on patrol.
For everyone who works behind the scenes.
With a spirit you can’t replace with no machine.

Hello, america,
Let me thank you for your time.

(Letra de uma canção dos Alabama)

*

Bom dia!

(url)

18.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Anoitecer em Lisboa. (António Cabral)



Montra. (Fernando Gonçalves)



Brasília vista da torre da TV. (Samuel Pires)



Buarcos/Figueira da Foz, esta tarde. (José Manuel)



Hoje de tarde. Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1158 - A terceira margem do rio (fragmento)

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia.

(João Guimarães Rosa)

*

Bom dia!

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Estes dias na Figueira da Foz, em Tomar, Amarante, Funchal, S. Petersburgo, Dublim.
Usando o Abrupto como janela.



Entardecer: Tamargueira/Buarcos/Figueira da Foz. (José Manuel)



Outono em Amarante. (Anabela Magalhães)



Boneco de neve em S. Petersburgo. (João Tiago Santos)



Ruas de Dublim. (Vasco Portugal)



Mata nacional de Tomar. (RM)



Pai Natal no Forum Funchal. (Carlos Oliveira)

(url)

17.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Estes dias. Usando o Abrupto como janela.



Uma das Portas da Basílica da Sagrada Família, Barcelona. (Luís de Matos Gonçalves)

(url)


COISAS DA SÁBADO: TEMOS QUE SER 25% PORTUGUESES

The image “http://www.artistas-espectaculos.com/paginas/foto_art/quimbarreiros.jpg” cannot be displayed, because it contains errors.O sistema de quotas “nacionais” na cultura e na comunicação social é um dos absurdos proteccionistas que temos que suportar em nome de um multiculturalismo e de uma protecção aos culturalmente “fracos” imposta pela lei. Ontem, tínhamos que aportuguesar os nomes dos heróis anglo-saxónicos das histórias aos quadradinhos, e Bib Ben Bolt na origem tornava-se o nosso “Luís Euripo”. Hoje, temos que ter variantes da “excepção cultural” francesa para nos proteger do tenebroso complexo militar - industrial - cultural que tem sede em Hollywood. Na rádio tem que passar 25% de música portuguesa à força, seja boa, seja má, tenha público ou não tenha. Na Antena 2, para encher os 25% lá terá que se intercalar, no meio do palavreado que caracteriza hoje a estação, Bach e Mahler com Joly Braga Santos e Luís de Freitas Branco. Todos os dias. Todos os dias. E as gentis emissoras que nos dão jazz entremeado pelo Professor Bambo, que até fala francês, terão que passar a ter a épica do bacalhau, da cabrinha e do ketchup que anima as nossas festas de Verão. Tudo em nome das melhores razões, dos melhores princípios.

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1157 - Octobre

Les petits savoyards sont de retour, et déjà leur cri
interroge l'écho sonore du quartier ; comme les hiron-
delles suivent le printemps, ils précèdent l'hiver.

Octobre, le courrier de l'hiver, heurte à la porte de
nos demeures. Une pluie intermittente inonde la vitre
offusquée, et le vent jonche des feuilles mortes du
platane le perron solitaire.

Voici venir les veillées de famille, si délicieuses
quand tout au dehors est neige, verglas et brouillard,
et que les jacinthes fleurissent sur la cheminée, à la
tiède atmosphère du salon.

Voici venir la Saint-Martin et ses brandons, Noël et
ses bougies, le jour de l'an et ses joujoux, les Rois
et leur fève, le carnaval et sa marotte.

Et Pasques, enfin, Pasques aux hymnes matinales et
joyeuses, Pasques dont les jeunes filles reçoivent la
blanche hostie et les oeufs rouges !

Alors un peu de cendre aura effacé de nos fronts l'ennui
de six mois d'hiver, et les petits savoyards salueront
du haut de la colline le hameau natal.

(Aloysius Bertrand)

*

Bom dia!

(url)

16.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Estes dias. Usando o Abrupto como janela.





Apanha de berbigão na Ria de Alvor, pela manhã. (José Santos)





Antigo ritual que pede aos deuses que concedam chuvas abundantes. Também designado como La danza de los hombres pájaro, a este ritual chamam-lhe Los Voladores de Papantla, cidade no estado de Veracruz, Mexico. (Sérgio Lopes)



Nascer do Sol em Caxias. (Paulo Alves)

(url)

14.11.07


EARLY MORNING BLOGS


1156

sore-zore no hoshi arawaruru samusa kana

Estrelas, surgindo
Aqui e acolá
Ah, o frio!

(Taigi, tradução de Edson Kenji Iura)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)

13.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Ribera del Duero, Espanha. Vinhedo com o castelo de Peñafiel ao fundo. (Gil Regueiro)



Na Ponta do Sal, S. Pedro do Estoril, hoje às 10.15. (David E. Gouveia)



Alvorada à saída da ponte Vasco da Gama. (António Cabral)

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: INTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.




Gavetas. (Ochoa)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1155 - Glosa

A su mote que dice: "Ni miento ni me arrepiento"

Ni miento ni me arrepiento,
ni digo ni me desdigo,
ni estoy triste ni contento,
ni reclamo ni consiento
ni fío ni desconfío;
ni bien vivo ni bien muero,
ni soy ajeno ni mío,
ni me vengo ni porfío,
ni espero ni desespero.

Fin

Conmigo solo contiendo
en una fuerte contienda,
y no hallo quien me entienda,
ni yo tampoco me entiendo;
entiendo y sé lo que quiero,
mas no entiendo lo que quiera
quien quiere siempre que muera
sin querer creer que muero.

(Jorge Manrique)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)

12.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



T-Centralen, no metro (tunnelbana) de Estocolmo, hora de ponta. (Paulo Alexandre Ramos)





Incêndio de hoje na Refinaria de Leça da Palmeira. (José Padrão)

MOMENTOS EM TEMPO REAL: INTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(susana reis)

(url)
(url)


EARLY MORNING BLOGS


1154 - The First Men on Mercury

-We come in peace from the third planet.
Would you take us to your leader?

-Bawr stretter! Bawr. Bawr. Stretterhawl?

-This is a little plastic model
of the solar system, with working parts.
You are here and we are there and we
are now here with you, is this clear?

-Gawl horrop. Bawr Abawrhannahanna!

-Where we come from is blue and white
with brown, you see we call the brown
here ‘land’, the blue is ‘sea’, and the white
is ‘clouds’ over land and sea, we live
on the surface of the brown land,
all round is sea and clouds. We are ‘men’.
Men come –

-Glawp men! Gawrbenner menko. Menhawl?

-Men come in peace from the third planet
which we call ‘earth’. We are earthmen.
Take us earthmen to your leader.

-Thmen? Thmen? Bawr. Bawrhossop.
Yuleeda tan hanna. Harrabost yuleeda.

-I am the yuleeda. You see my hands,
we carry no benner, we come in peace.
The spaceways are all stretterhawn.

-Glawn peacemen all horrabhanna tantko!
Tan come at’mstrossop. Glawp yuleeda!

-Atoms are peacegawl in our harraban.
Menbat worrabost from tan hannahanna.

-You men we know bawrhossoptant. Bawr.
We know yuleeda. Go strawg backspetter quick.

-We cantantabawr, tantingko backspetter now!

-Banghapper now! Yes, third planet back.
Yuleeda will go back blue, white, brown
nowhanna! There is no more talk.

-Gawl han fasthapper?

-No. You must go back to your planet.
Go back in peace, take what you have gained
but quickly.

-Stretterworra gawl, gawl…

-Of course, but nothing is ever the same,
now is it? You’ll remember Mercury.

(Edwin Morgan)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)

11.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



A sede do Banco Central Europeu brilha ao sol de Frankfurt. (João Pedro Francisco)



Regatas hoje no Tejo. (RM)



Cathédrale Saint-Pierre Genéve. (MJ)



Ensaio de instrumentos de sopro em St Pierre, Genéve. (MJ)

(url)


ESTADO DO ABRUPTO

O Abrupto teve hoje alguns pequenos trabalhos de manutenção. Passou a ter uma entrada de "procura", que não é a ideal mas ajuda e não altera muito o aspecto minimalista da página activa. Comecei a actualizar "etiquetas", incluindo os poetas dos "early morning". Cerca de 300 notas foram "etiquetadas" e o trabalho continuará sempre que possível. Também não desisti de ir, pouco a pouco, recuperando as imagens perdidas por incompetência do Blogger.

Graças aos seus leitores o Abrupto continua de excelente saúde, isto para usar a fórmula com que a NASA começa os comunicados sobre a sonda Cassini. Continua no topo de todas as medições e de todos os
rankings, situação que mantém quase ininterruptamente há quatro anos, caminha para os sete milhões de visitas e para os oito milhões de page views, e tem um Page Rank no Google de 5. Centenas de leitores, centenas mesmo, colaboraram com textos e fotografias, enviados de todo o mundo. O Abrupto tem leitores fiéis na Europa, no Brasil e nos EUA, e em mais de 100 países vem cá gente com alguma regularidade, embora eu não me iluda muito com as estatísticas dos leitores de Madagáscar. Esta nota já muito desactualizada dá uma ideia do que o Abrupto deve aos seus leitores.

Tudo isto sem comentários abertos, um dos meios mais fáceis para obter "audiências", nem os truques técnicos que abundam hoje, usados por conselheiros especializados de como se sobe nas listas, como se falsificam
rankings, listas e lugares no Google . Esta situação do Abrupto incomoda muita gente, que utiliza todos os truques do ofício para arranjar listagens com critérios "subjectivos" que forneçam rankings diferentes, que misturam blogues genuínos com falsos blogues pornográficos, na maioria dos casos com o evidente objectivo de evitar que o Abrupto apareça sempre nos primeiros lugares. Quando os instrumentos de medida que permitem comparar blogues, como o Page Rank, o Google Analytics ou o Technorati, teimam em colocar o Abrupto à frente, atacam os mensageiros, que "como todos sabem, não prestam". A prática deliberada de muitos blogues de fazerem ligações a tudo menos ao Abrupto assim como de citar sem "ligar", tem as suas consequências: o Abrupto é muito mais citado do que "ligado", como se verifica quando se faz uma procura pelo nome do blogue ou do seu autor. Porém, como os milhares de leitores quotidianos do Abrupto estão fora destes pequenos círculos interiores da blogosfera, o blogue continua de boa saúde e recomenda-se. No entanto, não precisam de se afadigar tanto, a lei das coisas é que tudo o que sobe tem que descer e é só esperarem sentados.

Há, no entanto, várias coisas que estão mal. Umas dependem muito da minha disponibilidade, do tempo, outras resultam de não conseguir fazer melhor. O Abrupto é um blogue de uma pessoa só e isso faz com que haja dias vazios e dias de recurso. Depois há outras coisas que estão mal e precisam de ser melhoradas quer do ponto de vista gráfico, quer do conteúdo, quer técnico, das funcionalidades do blogue. À medida que puder tentarei fazer corresponder o Abrupto à dedicação e interesse dos seus leitores.


Obrigado.

Etiquetas:


(url)


UMA HISTÓRIA DE DOIS MUSEUS

http://estudossobrecomunismo2.files.wordpress.com/2006/07/museuneorealismo.jpg /

Os museus não costumam ser motivo de grandes polémicas em Portugal, embora o sejam por vezes lá fora. Mas não são imunes a discussões entre a história e a política que confrontam as suas "pedras mortas" com a vida que parece nunca deixarem de ter. Com o retorno de uma discussão sobre a "memória" e a história, e por um debate público à volta do "esquecimento" da ditadura e da guerra colonial alimentado também pelo exemplo espanhol da Lei da Memória, retorna uma polémica sobre o que deve ou não deve estar dentro de um museu e, estando-o, como nos deve ser apresentado. Escrevi memória entre aspas para se perceber que é uma determinada "memória" ainda recente, a que comporta um elemento pedagógico, programático, ilustrativo, de denúncia moral, em detrimento de uma memória factual histórica, limpa tanto quanto se pode considerar alguma coisa da história como limpa.

Não há nesta matéria tipos ideais, tudo está impregnado. Mas podem estabelecer-se diferenças qualitativas entre projectos museológicos e santuários, mesmo apesar da impregnação inevitável. Dois museus, um existente, o do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, outro inexistente, o suscitado pela intenção da autarquia de Santa Comba Dão de fazer um "Museu Salazar", levantam a questão de fundo de saber como lidar com a história que ainda está viva e mexe.

A discussão sobre o neo-realismo não é tão simples, inequívoca e fechada como parece. Num debate em que participei, exactamente no Museu do Neo-Realismo, dois pontos polémicos mostram como muita coisa permanece em aberto na definição das fronteiras de tal museu. Um foi suscitado por mim e pode ser assim colocado: deve o Museu do Neo-Realismo ignorar as produções oriundas da extrema-esquerda que são subsidiárias de uma estética e duma política que, num sentido largo, faz parte do mundo do comunismo do século XX? É verdade que essa produção é muito menor, por regra de má qualidade, mas também no museu se acolhem livros, revistas, quadros e filmes de muita má qualidade estética mas representativos da corrente que dá o nome ao museu. Quando falo dessas produções da extrema-esquerda, refiro-me às canções de Tino Flores, às peças de teatro na emigração por grupos de "teatro operário", e aos poemas, contos e peças apresentadas, por exemplo, nos Jogos Florais organizados pelo Salto em Paris, ou publicadas em efémeros jornais clandestinos. A mesma ilusão romântica revolucionária que Eduardo Lourenço descreveu como o âmago do neo-realismo português, os mesmos paradigmas estéticos, o mesmo tipo de heróis e vilões, a mesma visão social e política estão presentes nessa literatura, nesse grafismo, mesmo quando as imagens que ilustram os textos têm os olhos em bico, em imitação dos cartazes chineses da Revolução Cultural. O idílio com a literatura chinesa e albanesa não é muito diferente do enlevo pelo triângulo amoroso operário-kolkoziana-tractor dos nossos neo-realistas.

Todas estas produções não ocuparão mais do que uma pequena estante, mas deve essa estante ter lugar num museu que guarda a 90 por cento obras de autores para quem o PCP era a encarnação do destino manifesto? A resposta a esta pergunta pode ser a diferença entre um museu ideologicamente fechado ou historicamente aberto e este dilema acompanhou sempre o Museu do Neo-Realismo. A existência do museu não é isenta de polémica, mas este tem crescido e melhorado porque todas as ambiguidades têm sido sempre resolvidas a favor do tratamento histórico do movimento que lhe dá o nome, com distanciação científica e histórica. Isso significa que o Museu do Neo-Realismo é uma realização de mérito, útil para o conhecimento da nossa história literária, artística, social e política, e uma efectiva valorização identitária para a região de Vila Franca de Xira- Alhandra-Póvoa de Santa Iria, uma das zonas emblemáticas do neo-realismo.

Capa de Alavanca, órgão do Centro Outubro, 1973


O segundo problema levantado nessa discussão no Museu do Neo-Realismo permite-me passar para o outro museu, virtual e polémico, o de Salazar em Santa Comba Dão. No debate este problema foi colocado por Luís Filipe Rocha quando perguntou se, se o que contava era a estética, não devia estar no museu o filme A Revolução de Maio de António Lopes Ribeiro? O filme é a história de uma conversão à "revolução" que, invertida a polaridade política das figuras, contaria a mesma história da mesma maneira fílmica. Se onde estava o bombista comunista convertido ao Estado Novo e a Salazar pelo agente da PIDE, ficasse um exilado "branco" regressado à URSS, a sua Santa Rússia, para vingar a família convertido por um tchekista à utopia dos sovietes, haveria alguma diferença quer na história narrativa, quer na maneira como era contada por um cineasta que tinha aprendido na escola de Eisenstein como nos estúdios do expressionismo alemão?



César Valente, o perigoso "profissional da desordem", prestes a ser convertido por Maria Clara.

Se tivesse que responder à pergunta de Luís Filipe Rocha, diria que sim, numa parte do museu em que se mostrasse como a estética do neo-realismo, principalmente a filo-soviética, comunicava esteticamente com a do totalitarismo nazi. É esta capacidade de comparação (e distanciação) que afasta o museu da apologética e permite que se "aprenda". O problema do hipotético Museu de Salazar em Santa Comba Dão ganha com a experiência do Museu do Neo-Realismo, que só se tornou um museu no pleno sentido do termo quando progressivamente abandonou a tentação da apologética. Se o museu de Vila Franca fosse um altar do jdanovismo estético, não ficaria mal na sede do PCP ou na Festa do Avante!, mas eu seria o primeiro a exigir que não houvesse um tostão do erário público para o financiar e, muito menos, reconhecer-lhe "utilidade pública". O mesmo problema se coloca para o hipotético Museu Salazar: se o património que se pretende colocar num museu se destinar a fazer uma espécie de santuário a Salazar, como se passa na China ou na Coreia do Norte com as casas onde nasceram os Grandes Líderes, a autarquia pode fazê-lo. Porém, não será um museu mas um altar e nem um tostão de dinheiro dos contribuintes o deve financiar.

Isso não significa que, ao contrário dos signatários do abaixo-assinado entregue na Assembleia da República, defenda que o museu deva ser proibido, pois, se assim fosse, violar-se-ia o princípio da liberdade, que, insisto, deve ser sempre exigida para quem não pensa como nós. Para além disso, do ponto de vista cívico, não considero que haja nenhum mal em haver um altar a Salazar em Santa Comba Dão. Aí irão em peregrinação os mesmos saudosistas que se reúnem no 28 de Maio nos restaurantes, e será pouco mais do que uma curiosidade local, a acumular pó ao fim de dois ou três anos de excitação. O que lá estará fora do contexto são pouco mais do que meia dúzia de trastes pessoais de Salazar. Dará uma imagem a contrario da austeridade e "pobreza" do seu dono em contraste com o percebido nepotismo dos políticos em democracia? Dará. Mas essa imagem existe, com museu ou sem ele, porque o problema político do salazarismo "popular" é muito mais vasto do que o museu-altar que venha a existir em Santa Comba. É uma herança de mentalidade antidemocrática que existe à esquerda e à direita, que vem dos 48 anos de Estado Novo e que não desaparece se não houver museu.

O Museu Salazar desejado em Santa Comba Dão é uma má política de valorização da autarquia, que ganhava muito mais em preservar esses bens e a casa de Salazar e tentar integrá-los num tratamento histórico e científico distanciado. Ou será que a autarquia se pensa a si própria no "espírito" de pobreza do seu homenageado? Quererá o mesmo país pobre e rural, atrasado e limpinho, com altas taxas de analfabetismo e de mortalidade infantil e toneladas de ouro no Banco de Portugal, que Salazar preferia aos riscos da revolução social que significava a industrialização e o "progresso"? Seguirá o senhor presidente da câmara o exemplo austero de Salazar e porá uma mantinha nos seus joelhos e dos vereadores para poupar à autarquia umas despesas suplementares desnecessárias? Que mal tem a mantinha se o dinheiro poupado dá para um fontanário?

Se Santa Comba Dão se pretende valorizar como terra de futuro pelo culto de Salazar, dá de si uma péssima imagem, como daria a sua congénere de Vila Franca de Xira se se ficasse pela nostalgia dos meninos dos esteiros e dos trolhas de Pomar. Pensem nisso.

(No Público de 10 de Novembro de 2007)

Etiquetas: , ,


(url)


OS LIVROS DA MINHA VIDA 8
(OS PROPRIAMENTE DITOS, OS VERDADEIROS, OS DA BAYER)

João Guimarães Rosa, Miguilim e Manuelzão, Lisboa, Livros do Brasil, s.d.

Eu pensava que sabia até onde o português podia ir, fosse grave, fosse lúdico, fosse sério, jocoso, didáctico, sentimental, lamechas, marcial, afrancesado, mais doce ou menos doce, com mais "flor do Lácio" ou com menos. Havia Vieira, o padre Bernardes, Aquilino. Puro engano. Quando li Miguilim e Manuelzão foi como se a língua portuguesa explodisse para outra dimensão, para outro português que estava lá por baixo daquele que conhecia e imperfeitamente usava. Foi como Miguilim míope quando lhe emprestaram uns óculos:

"Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo..."

Havia ali um festim com as palavras, uma densidade vocabular, como a de Aquilino, mas com uma dimensão diferente, menos de amador de preciosidades e de antiguidades do léxico, menos de folclore, mas uma dimensão épica em que a palavra mandava para dar substância ao movimento da multidão que a épica exige.

Depois li Sagarana e o Grande Sertão: Veredas, que revisitei na exposição do Museu da Língua Portuguesa em S. Paulo, um museu naturalmente "guimarãesrosiano", onde as palavras passam como as "formiguinhas" que Miguilim via com óculos. A sensação de como, a nós portugueses, o português nos escapou há muito, só se acentuou com o Museu, mas começou com Guimarães Rosa.


(Ver no Abrupto: exposição de Bia Lessa sobre o Grande Sertão: Veredas : 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14 )

Etiquetas:


(url)


EARLY MORNING BLOGS
1153 - Ignorance

Strange to know nothing, never to be sure
Of what is true or right or real,
But forced to qualify or so I feel,
Or Well, it does seem so:
Someone must know.

Strange to be ignorant of the way things work:
Their skill at finding what they need,
Their sense of shape, and punctual spread of seed,
And willingness to change;
Yes, it is strange,

Even to wear such knowledge - for our flesh
Surrounds us with its own decisions -
And yet spend all our life on imprecisions,
That when we start to die
Have no idea why.

(Philip Larkin)

*

Bom dia!

(url)

10.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Neva sobre Rimsky-Korsakov, S. Petersburgo. (João Tiago Santos)

(url)


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 10 de Novembro de 2007


O acontecimento mais importante dos últimos tempos envolvendo o Portugal profundo ocorreu hoje: o Papa Bento XVI repreendeu a Igreja portuguesa de uma forma unívoca e intencionalmente pública. Disse aos bispos sentados à sua frente que

é preciso mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II, na qual esteja bem estabelecida a função do clero e do laicado, tendo em conta que todos somos um, desde quando fomos baptizados e integrados na família dos filhos de Deus, e todos somos corresponsáveis pelo crescimento da Igreja

Não me lembro de qualquer precedente deste tipo de repreensão pública para a Igreja portuguesa e estou certo que é bastante incomum em geral. Embora o Papa tenha valorizado a "escola de fé" de Fátima é impossível não ver nestas palavras uma distanciação do Papa de um modelo de "reprodução" do "povo católico" assente essencialmente na religiosidade popular.

Vale a pena seguir com muita atenção esta questão.

Etiquetas:


(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Hoje de tarde. Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

(url)


COISAS DA SÁBADO: TOMAR A SÉRIO O CASO EM VOLTA DO CASO CASA PIA?



Catalina Pestana foi escolhida para ficar à frente da Casa Pia num momento difícil da instituição. Dois governos validaram essa escolha, o que significa que, de algum modo, passou o teste de ter o lugar apenas por compadrio político. É verdade que o critério para se estar à frente da Casa Pia, como da Santa Casa da Misericórdia, é um pouco bizarro e mal esclarecido, pois corresponde a um perfil muito sui generis de pessoas, que inclui sempre alguma relação privilegiada com a Igreja e com redes de influência entre o trabalho social, o militantismo católico, mesmo heterodoxo, e algumas maçonarias sem nome, como a que existia à volta de Maria de Lurdes Pintasilgo. São também, nos últimos anos, “lugares de mulheres”, na ideia que estas serão mais sensíveis aos problemas sociais que essas instituições defrontam. É uma mescla estranha, de que Catalina Pestana faz parte, mas isso neste caso funciona mais como território de independência.

O que Catalina Pestana tem vindo a dizer preto no branco em entrevistas públicas, a que se soma a informação que acrescentou em privado e confidencialmente aos responsáveis do MP e da Casa Pia, é que existe uma acção concertada, para proteger um grupo de poderosos envolvidos em crimes de pedofilia. Aponta o dedo a círculos do PS e da maçonaria. Concretiza as suas acusações reafirmando a sua convicção da culpabilidade de Paulo Pedroso e acusando os socialistas de terem alterado os Códigos para proteger os acusados no processo Casa Pia. Catalina Pestana não faz meias acusações, coloca nomes, circunstâncias e factos suspeitos na sua voz, na primeira pessoa.

A resposta a Catalina por parte dos visados é, para não ir mais longe, frouxa e incomodada. Por um lado, há uma clara tentativa de a desacreditar, por outro, uma ausência de acção que só dá força às suspeitas lançadas. Por exemplo, nomeia directamente Paulo Pedroso, que no passado processou muitos dos seus acusadores e jornalistas que trataram o caso, mas que agora diz ter intenção de não o fazer à sua acusadora actual. Do mesmo modo, continua sem ser esclarecida a história das alterações aos Códigos nos seus artigos mais sensíveis para o caso Casa Pia, sem se perceber o que aconteceu às actas da Comissão e quem introduziu essas alterações. Sabe-se quem diz que não foi responsável, não se sabe quem foi o responsável e parece cada vez mais que há um encobrimento sobre essa alterações.

Não me parece haver loucura especial nas palavras de Catalina Pestana e os que agora a tentam desacreditar foram alguns dos que a escolheram ou a aceitaram para as funções que exerceu. É verdade que essas palavras são diminuídas pelo clima de perseguição contra os políticos em geral para que o MP deixou descambar o processo Casa Pia cujas fragilidades são evidentes. Tanto se quis pescar de arrasto que se perdeu o foco nos primeiros peixes da rede, e há deficiências que Catalina aponta que não precisam de ser explicadas por qualquer conspiração, basta a negligência e a politização justicialista da investigação para as explicar. Mas, descontando tudo isto, alguma coisa sobra e é suficientemente grave para não ser coberta por qualquer manto de silêncio. O que Catalina Pestana diz, caso seja verdade, conduziria, em qualquer país civilizado, à queda do governo e à incriminação de todos os envolvidos naquilo que é, na verdade, o retrato de uma conspiração.

Etiquetas: ,


(url)


EARLY MORNING BLOGS
1152 - Tu sei come una terra

Tu sei come una terra
che nessuno ha mai detto.
Tu non attendi nulla
se non la parola
che sgorgherà dal fondo
come un frutto tra i rami.
C'è un vento che ti giunge.
Cose secche e rimorte
t'ingombrano e vanno nel vento.
Membra e parole antiche.
Tu tremi nell'estate.

(Cesare Pavese)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)

9.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Estes dias. Usando o Abrupto como janela.





Arte Lisboa.

(url)


UMA CARTA DE ANTÓNIO CUNHA VAZ


A carta, que recebi, no endereço do Abrupto, de António Cunha Vaz (para quem não saiba responsável pela agência de comunicação ligada à campanha de Luis Filipe Menezes) poderia ser perfeitamente devolvida ao remetente, em particular num blogue que tenta seguir critérios de direito de resposta ainda mais rigorosos do que os habituais nos órgãos de comunicação social e que evita uma linguagem e um tom de má educação e baixo nível. Não se percebe a que responde ou a quem Cunha Vaz responde (ou melhor percebe-se bem demais), e tem um tom pessoalmente insultuoso e ad hominem que por si só a levaria a seguir para o lixo.

Mas, mesmo assim, vou publicá-la integralmente porque me parece muito significativa e, pelo seu estilo, se percebe a autoria de uma das campanhas eleitorais mais degradadas, agressivas, insultuosas, que jamais se viu em Portugal: a campanha eleitoral interna no PSD. Se há coisa em que houve unanimidade na comunicação social foi em caracterizar essa campanha e ninguém duvida que o principal responsável pelo tom utilizado foi Menezes, cliente da Cunha Vaz & Associados .

Se tivesse mantido um dever de reserva e não falasse demais, atribuindo-se na primeira pessoa atitudes do seu cliente (e tudo a que me referi vem na imprensa sem qualquer desmentido até agora), talvez Cunha Vaz não se tivesse exposto às notícias sobre a sua agência que, não é difícil presumir, lhe criam dificuldades quer com o cliente, quer com a opinião pública, quer com o mercado. Mesmo a minha "imensa ignorância" não me impede de perceber a razão porque escreveu esta carta.

De uma coisa pode estar certo António Cunha Vaz, não terei "tento na língua, na pena e no teclado". Em mim não colhem quaisquer ameaças de donos de agências de comunicação por muitas malfeitorias que eles possam fazer. Continuo a achar que não se deve substituir a política por técnicas de comunicação, nem as Comissões Políticas por agências de comunicação. Mas esta crítica é aos políticos e não às agências. Ele pode não perceber as diferenças, mas percebe que lhe afecta o mercado.

Percebo bem as suas dores, porque tendo exprimido várias vezes a sua admiração política pelo cliente que ajudou a ganhar, presumo que o deve ter apoiado graciosamente. Espero para ver as contas da campanha, visto que Luiz Filipe Menezes ainda não cumpriu a promessa que fez numa conferência de imprensa de divulgar as suas contas, nem cumpriu até hoje aquilo a que se comprometeu numa carta ao PGR em que se
"comprometia «a adequar-se ao escrupuloso cumprimento da lei, no que tange à recolha e conservação dos fundos recebidos e sua afectação ao fim da campanha eleitoral em curso no PSD». Desta forma, (...) a sua candidatura irá nomear uma comissão especial, constituída por três membros, e que será responsável pela recolha dos fundos e sua afectação ao fim anunciado. Além disso, será especificamente constituída para o efeito uma conta bancária, «onde são depositadas as respectivas receitas e movimentadas todas as despesas relativas à campanha». Será ainda designada «uma entidade especialmente responsável pela elaboração das contas de campanha, de acordo com os princípios do Plano Oficial de Contas, que deverá ser um revisor oficial de contas ou uma sociedade de revisores oficiais de contas». (Diário Digital)
Espero pois para ver. Antes disso, antes de saber quanto custou tanta dedicação, não voltarei ao assunto.

*

Aqui vai a carta de António Cunha Vaz na íntegra:
Senhor Dr. José Pacheco Pereira,

Percebo o incómodo de V. Exa. perante a vergonha que deve sentir de si próprio. percebo, também, que o incómodo que lhe deve causar o facto de já ter participado em campanhas políticas – pagas por alguém – o leve, nos dias de hoje, a lamentar tê-lo feito da forma que o fez. Percebo, ainda, que o facto de se sentir confortável com o vasto palco que a comunicação social lhe dá – e em que os por si visados não têm direito ao contraditório – lhe permita tecer sobre o comportamento de terceiros considerações que se lhe aplicariam directamente. É próprio dos portugueses. Por isso é que isto é o que é.

Julgo saber que é honesto. Dizem-me amigos comuns. Também julgo saber que não suporta enganar-se. Problema seu. Mas a ignorância é sempre má conselheira. Aquela de que usa e abusa na televisão e nas suas crónicas perante tantos telespectadores, ouvintes e leitores que, desconhecendo o mesmo que o senhor desconhece, se deixam embevecer pela verborreia pseudo-intelectual que ostenta só ofende quem se deixa ofender. Mas o que é demais, no caso em apreço, é nocivo.

Em nome da honestidade que alguns amigos dizem que tem – não a qualifico porque, ao contrário de si não falo do que não sei – peço que tenha tento na língua e na pena – ou no teclado. O Dr. Luís Filipe Menezes não tem agência. O Dr. Luís Filipe Menezes teve a colaboração da minha agência durante a campanha eleitoral interna para a liderança do PSD. Neste momento, ou melhor, desde que o congresso do seu partido terminou a Cunha Vaz & Associados não trabalha com o PSD, com o seu líder ou com qualquer outra estrutura político partidária.

Nunca o fez. Nunca trabalhou com qualquer Governo ou instituto público, nunca serviu qualquer partido, antes tendo trabalhado pontualmente com Carmona Rodrigues (PSD2005 autárquicas e como independente em 2007) – e não foi esta agência que espalhou calúnias sobre nada nem ninguém durante as duas campanhas – Mário Soares – em que não deixámos a campanha a meio por respeito pelo candidato, embora estivéssemos em total discordância com a direcção de campanha – e, mais recentemente, esta campanha interna.

Gostaria, com certeza, V. Exa. que outros liderassem o PSD porque, como é próprio de quem nada faz a não ser criticar o que outros fazem, teria mais matéria para comentar numa outra próxima derrota estrondosa do Partido – que é o seu. A Cunha Vaz & Associados entendeu dar o seu contributo a um desafio. Que se afigurava difícil – nas suas e nas palavras de outros era mesmo impossível – mas que, por essa mesma razão, nos apeteceu abraçar.

Cada um, nesta vida, é para o que nasce. Eu nasci para trabalhar. Honestamente, pagando impostos – todos, criando postos de trabalho reais – sustentados – dando formação a quadros jovens, em Portugal e no estrangeiro, e não posso aceitar que, sem o mínimo cuidado de preencher a imensa ignorância que lhe vai no cérebro sobre a matéria em que tantas vezes é sábio, teça considerações sobre a minha empresa ou a minha pessoa.

Porque o meu tempo é precioso e em abono do espaço que ocupa nos ecrãs, rádios e jornais deste país, peço apenas que fale do que sabe. Sei que pouco terá a dizer, mas esse já não é problema meu.

Por último posso dizer que já vi obra do Sr. Dr. Luís Filipe Menezes. Quanto à sua, só escrita e, por vezes, mal.

Como não sou hipócrita não me vou despedir com estima e consideração, nem mesmo com respeito pessoal. Todos eles se conquistam. Não se aproveite da ignorância que tanto critica para "armar ao pingarelho".


António Cunha Vaz

Etiquetas: ,


(url)


EARLY MORNING BLOGS
1151 - Es una forma juvenil que un día

Es una forma juvenil que un día
a nuestra casa llega.
Nosotros le decimos: —¿Por qué tornas
a la morada vieja?
Ella abre la ventana, y todo el campo
en luz y aroma entra.
En el blanco sendero,
los troncos de los árboles negrean;
las hojas de sus copas
son humo verde que a lo lejos sueña.
Parece una laguna
el ancho río entre la blanca niebla
de la mañana. Por los montes cárdenos,
camina otra quimera.

(Antonio Machado)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)

8.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Estes dias. Usando o Abrupto como janela.



Pôr-do-Sol visto do ferry que faz a ligação Caminha (Portugal) a Goian (Espanha). (Rui Gabriel Rodrigues)



Primeira neve do ano em S. Petersburgo. Vista do Conservatório para a Praça dos Teatros, com o monumento a Mikhail Glinka em frente. (João Tiago Santos)



Céu de Bruxelas. (FR)






Abóboras, hoje. (António Cabral)



Manhã de hoje junto ao Tejo. (RM)

(url)

6.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Esta noite na Figueira da Foz. (José Manuel)



Linha férrea no Alentejo. (Telmo Martins)

MOMENTOS EM TEMPO REAL: INTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Parede de um restaurante na Serra de Monchique. (Ochoa)

(url)


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 6 de Novembro de 2007


O país político está muito estranho, ou então está como sempre esteve, nós é que desejaríamos que fosse diferente. No telejornal das 13 horas, a RTP resumiu o Prós e Contras à intervenção do Ministro das Finanças, traduzindo a realidade de um programa que não teve Contras. Ou melhor teve, mas foi deixada aos sindicatos e ao PCP essa função. Oposição do PSD ou do PP não existiu, e Mira Amaral no fundamental esteve lá para concordar com o Ministro. Bizarro um programa destes em que está o governo e não há oposição. Não é só não estar a oposição do centro e da direita, é não haver oposição. Deixar a oposição aos sindicatos é o mais cómodo que há para o governo. Mas, na verdade, o Prós e Contras revela involuntariamente uma verdade maior: há hoje menos oposição em Portugal do que há uns meses, no que verdadeiramente conta, no que dói ao PS e ao governo.

Distraídos com a coreografia do debate desta tarde, excelente pasto comunicacional pelo seu aspecto de duelo ao sol, esquecemo-nos de que os problemas políticos estão longe de se reduzirem ao espectáculo teatral da Assembleia. O que Menezes disse na conferência de imprensa de ontem é muito mais importante e explica o Prós e Contras e os múltiplos silêncios do PSD dos dias de hoje. Ele anunciou a vontade de "entendimentos alargados" com o PS, numa série de sectores fundamentais da vida pública, indo mais longe do que Marques Mendes alguma vez foi com o seu modesto Pacto de Justiça.

Pode ser um exercício comunicacional proposto pela sua agência para "lavar" a imagem populista e dar ar de responsável? Duvido que resulte, porque Menezes anunciou uma dupla política: por um lado, colaboração com o PS em todas as áreas fundamentais da vida pública; por outro. oposição casuística tipificada na "Educação, os episódios de criminalidade no grande Porto, a crise no Hospital de Faro". Esta redução da oposição à casuística comunicacional (uma das coisas que criticava em Mendes) reduz o PSD a um papel tribunício, e minimiza-o como partido de alternativa de governo.

Repito: pode ser um exercício comunicacional proposto pela sua agência para "lavar" a imagem populista e dar ar de responsável? Pode, tudo é possível. Mas há razões para se tomar a sério a sua proposta porque ela acrescenta um "entendimento alargado" sobre as Obras Públicas e isto percebe-se que é a valer. Ora esta é a única proposta que o PSD não pode de todo fazer num país como Portugal, onde esse é o terreno do verdadeiro "bloco central de interesses" que mina o estado, corrompe os partidos e a política, e que exige o maior escrutínio de uma oposição que se toma a sério. Esta é a mais preocupante proposta do PSD, numa área em que nada justifica "consensos", por muito que estes sejam pedidos pelos empreiteiros por razões que se percebem muito bem. As grandes obras públicas são política pura, nenhum partido que tenha um projecto para Portugal alternativo ao dos socialistas pode achar que esta é uma zona de "consenso", nem deixar de perceber a perigosidade da proposta.

*

As palavras "realistas" de Silva Lopes foram o momento mais interessante do Prós e Contras e um verdadeiro retrato do que não é dito na política socialista, mas está lá. Silva Lopes disse, preto no branco, duas coisas: uma, que os orçamentos do PS não diminuem as disparidades sociais que se agravam em Portugal; outra, que é a classe média que deve pagar a crise, são os seus rendimentos que devem ser diminuídos para garantir maior equilíbrio social. Ou seja, traduzido em não-socialistês, o estado deve agravar a política de agressividade fiscal sobre a "classe média", os "remediados", para redistribuir aos "verdadeiramente pobres". Nesta equação, que corresponde ao modo como o PS pretende salvar o "modelo social", embora dito com mais crueza, não há qualquer consideração para o papel que a "classe média" possa ter na criação de riqueza, ou dito de outro modo, qualquer papel para o crescimento económico que, com uma "classe média" a caminhar para o remediamento mais absoluto, será impossível. É um programa de empobrecimento colectivo, lento mas seguro.

Etiquetas: ,


(url)


SOBRE OS OBJECTOS EM EXTINÇÃO: CDs

Sobre esta nota do Abrupto.

É bem provável que o CD de música seja um objeto em vias de extinção. Poderíamos discutir se isso é bom ou mau, considerando que a qualidade sonora de um iPod é inferior, sobretudo à de um SACD, ou que a relação táctil com o objeto, à semelhança do livro, fica prejudicada. Para quem gosta de música clássica, é particularmente irritante procurar músicas num iPod com 500 CD’s. Nunca sei se devo procurar Haydn ou Franz J Haydn ou até o nome do intérprete, que por vezes aparece na secção “artista”. Sei que tudo isto vai melhorar e que a substituição do CD é inevitável. Afinal, este tipo de opção industrial sempre foi guiada pela praticidade. O LP de 33 rotações substituiu o de 78 porque era mais prático, apesar de oferecer qualidade inferior. O CD também substituiu o LP pela praticidade, mais do que pela qualidade sonora. Só que nestes casos não mudou a forma de gravar e divulgar música. A indústria evoluiu, mas sem mudar muito. Agora, o modelo iTunes/iPod não representa apenas uma nova forma de comprar e ouvir música. É antes a face visível da emergência de uma nova “indústria” musical, mais livre, mais diversa, mas também menos perene e mais ajustada ao produto descartável. Boa parte das pessoas instruídas que têm hoje mais de 40 anos guardam bibliotecas de música, em muitos casos em LP e CD. Não foi sempre assim. Como será daqui a 20 anos? A análise econômica e as tendências deste novo mundo merecem reflexão. Vale a pena ler o blog de 20 de Setembro “What’s the Future of the Music Industry? A Freakonomics Quorum; By Stephen J. Dubner” .

Quanto ao DVD me parece inevitável a extinção, apesar do formato de alta definição. A qualidade do arquivo tipo iTunes vai melhorar e não muda nada na indústria. É só esperar pela integração plena do computador com a TV digital, o que não deve demorar muito para acontecer em grande escala.

(Vitor Salvador Picão Gonçalves)

*

Apenas um comentário relativamente ao que diz dos CD’s. Tenho um enorme fascínio por livros e por CD’s. Bastante menos por DVD’s. Tal como a si, aconteceu-me nos últimos anos deixar de comprar CD’s em decorrência directa da obtenção de um iPod, tendo começado a comprar música na Internet, nomeadamente através do iTunes (tanto álbuns inteiros como músicas avulso, que, de resto, constitui uma das grandes vantagens deste tipo de compra).
Não é, no entanto, sem algum desgosto que me vejo nesta situação, empurrado que fui (como tantos e tantos milhões de pessoas) por uma indústria musical que na verdade nunca compreendeu que vender CD’s a € 20,00 em média é atentatório da inteligência dos consumidores, especialmente quando os mesmos podem canalizar as suas preferências da forma que se vê. Por isso – e perante a incapacidade dessa indústria musical em adaptar-se (a agonia na venda de CD’s é evidente) – considero, apesar de tudo, que existirão nichos de mercado em relação aos quais não haverá perdas. É o caso da música clássica, jazz, alguma étnica, e pouco mais. Quanto ao resto, ao mainstream mais ou menos comercial, estou de acordo consigo: acabará em devido tempo. Mas é pena. Até porque o iPod e outras formas de “mp3” não estão ainda, em termos de qualidade sonora, ao nível do digital mais perfeito, o que coloca questões muitas vezes complicadas a quem gosta de ouvir música e vai – hélas! – seguindo as tendências (veja-se a este propósito que o iTunes comercializa música com qualidade superior mais cara que os habituais € 0,99 a peça). Mas mais: ninguém nem iTunes nenhum vão conseguir destruir o prazer que a materialidade dos CD’s tem, um pouco, de resto, à semelhança do que sucede nos livros.

(Rui Esperança)

*

O seu texto sobre o CD como objecto em extinção levanta uma questão que, não sendo nova, é talvez mais pertinente nos dias de hoje, em que o valor da tecnologia se exprime tão facilmente em números: até que ponto se dispõem os utilizadores a trocar qualidade por conveniência
de utilização? A resposta parece-me ser, "sem hesitar". É engraçado notar como o típico utilizador transporta música no seu leitor portátil em formato MP3 com qualidade de 128Mbps, sobretudo por isso permitir armazenar cada álbum inteiro nuns meros 50MB de memória
permanente (este valor naturalmente muito aproximado, como outros adiante). Porém, por exemplo num iPod, é perfeitamente possível utilizar um formato comprimido sem perdas, que permite em média armazenar cada álbum nuns 300MB com toda a qualidade do CD. Ou seja, o
típico utilizador prefere a conveniência de ter 6 vezes mais música disponível no seu leitor (mesmo que com uma qualidade pouco superior à duma emissão de rádio) à possibilidade de usufruir da qualidade sonora com que a música foi efectivamente editada. Esta preferência é
confirmada pelo modo como se vende música por descarga através da Internet: a maioria dos sítios de venda disponibiliza apenas o formato de 128Kbps, dado ser esse o que satisfaz a grande maioria da procura. Dir-se-á que esta questão é um preciosismo, mas um teste com uma dúzia
de faixas bem editadas e um bom par de auscultadores rapidamente evidencia a diferença em termos de prazer de audição entre os ubíquos 128Mbps e uma reprodução cristalina, sem perdas. Torna-se então interessante notar como um álbum adquirido por descarga na Internet
custa tipicamente uma fracção muito significativa (metade ou mais) do preço do CD equivalente (que normalmente inclui ainda algum material impresso). Presumo que a preferência dos utilizadores só mudará quando a capacidade de armazenamento dos leitores e a velocidade de descarga forem tais que se torne irrelevante o tamanho dos ficheiros envolvidos. Até lá, seria bom que o CD em vias de extinção permanecesse uma espécie protegida...

(Pedro Gomes)

Etiquetas:


(url)


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: OPOSIÇÕES VÁRIAS

Poucos minutos antes do primeiro intervalo do Prós&Contras a apresentadora entendeu que era necessário o Ministro das Finanças falar sobre a concessão das estradas por quase um século a troco de mais um aumento do ISP que não é pequeno, segundo consta. Não é um assunto qualquer. O Ministro ripostou que queria falar, mas não por essa ordem. A apresentadora insistiu muito para que explicasse aquilo de imediato, antes do intervalo, e o resto depois. O Ministro simplesmente insistiu novamente, calando-a, e ela remeteu-se a um silêncio absoluto e submisso, tomando ele conta das rédeas do programa e do seu alinhamento, deixando esse ponto para depois, nas suas palavras. Depois foi nunca, seguindo as técnicas de condensação e evaporação usadas pelo chefe supremo, conforme as notícias sejam boas ou más. Acresce que seria uma resposta a uma questão colocada por outro convidado. Chegados do intervalo, o programa já era outro. E pago eu este “serviço” público, esta vergonha e a falta dela, este lixo.

(Paulo Loureiro)

*

A senhora Ministra da Educação quando em 2005 justificou a necessidade de aulas de substituição, fê-lo alegando e cito de cor,que:"a Escola deve ocupar sempre os alunos do básico e do secundário para que não vão para o café,para o tabaco e pior".Ora acontece que agora em 2007, ao pretender justificar um novo Estatuto do Aluno em que se acaba com a distinção entre faltas justificadas e injustificadas , afirmou em entrevista televisiva e volto a citar de cor:"o que é relevante não são as faltas,mas sim se o aluno sabe ou não sabe".
Desta feita parece ter deixado de se preocupar se o aluno que falta vai "para o café, para o tabaco ou pior". Então em que ficamos?!

(António José Ferreira)

(url)


EARLY MORNING BLOGS
1150 - Romance de Fernán d'Arias

Por aquel postigo viejo que nunca fuera cerrado,
vi venir pendón bermejo con trescientos de caballo;
en medio de los trescientos viene un monumento armado,
y dentro del monumento viene un ataúd de palo,
y dentro del ataúd venía un cuerpo finado.
Fernán d'Arias ha por nombre, hijo de Arias Gonzalo.
Llorábanle cien doncellas, todas ciento hijasdalgo;
todas eran sus parientas en tercero y cuarto grado;
las unas le dicen primo, otras lo llaman hermano,
las otras decían tío, otras lo llaman cuñado.
Sobre todas lo lloraba aquesa Urraca Hernando,
¡y cuán bien que la consuela ese viejo Arias Gonzalo!
-¿Por qué lloráis, mis doncellas? ¿por qué hacéis tan grande llanto?
No lloréis así, señoras, que no es para llorarlo,
que si un hijo me han muerto, ahí me quedaban cuatro.
No murió por las tabernas, ni a las tablas jugando,
mas murió sobre Zamora, vuestra honra resguardando;
murió como un caballero con sus armas peleando.

(Anónimo)

*

Bom dia!

(url)

5.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Sol poente no Alentejo. (Telmo Martins)





Henry Dunant e o texto precursor da Convenção de Genebra - Museu da Cruz Vermelha, Genebra. (MJ)





Nova igreja de Fátima. (Ochoa)

(url)


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 5 de Novembro de 2007


Se ler alguns destes romances de sucesso, aplicar-lhes-ei as oito regras de Kurt Vonnegut que me parecem adequadas a este tipo de ficção:

"1. Use the time of a total stranger in such a way that he or she will not feel the time was wasted.

2. Give the reader at least one character he or she can root for.

3. Every character should want something, even if it is only a glass of water.

4. Every sentence must do one of two things -- reveal character or advance the action.

5. Start as close to the end as possible.

6. Be a sadist. No matter how sweet and innocent your leading characters, make awful things happen to them -- in order that the reader may see what they are made of.

7. Write to please just one person. If you open a window and make love to the world, so to speak, your story will get pneumonia.

8. Give your readers as much information as possible as soon as possible. To heck with suspense. Readers should have such complete understanding of what is going on, where and why, that they could finish the story themselves, should cockroaches eat the last few pages."
A regra em que serei mais intransigente é a quarta.

Etiquetas: ,


(url)


EARLY MORNING BLOGS
1149 - Anything Goes

In olden days a glimpse of stocking
Was looked on as something shocking
Now heaven knows, anything goes

Good authors too who once knew better words
Now only use four letter words writing prose
Anything goes

The world has gone mad today
And good’s bad today
And black’s white today
And day’s night today
When most guys today that women prize today
Are just silly gigolos

So though I’m not a great romancer
I know that you’re bound to answer
When I propose, anything goes

(Letra e música de Cole Porte cantada, entre outros, por Frank Sinatra)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)

4.11.07


NUM BLOGUE PERTO DE SI, NUMA GALÁXIA MUITO LONGE




(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: INTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Nemesio na televisão. (RM)



Computador com fotografia. (Ochoa)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Ponte Dona Maria no dia dos seus 130 anos. (Tiago Azevedo Fernandes)



Oliveiras perto de Santo António na Serra Aire. (E. Diniz)








Feira de S. Martinho na Golegã. (RM)





Árvores e campos da Golegã. (RM)

(url)


A PRIVACIDADE E O USO DOS SENTIMENTOS NA PROPAGANDA POLÍTICA



A rápida erosão da privacidade é uma das consequências mais evidentes do ascenso da demagogia, da massificação das sociedades contemporâneas no consumo de bens culturais, da utilização perversa de novas tecnologias para disseminar boatos e calúnias, controlar, espiar e "revelar", culminando tudo isto numa vida pública dominada pelo espectáculo e pelo sentimento, corroendo a democracia por dentro.

É verdade que, nesta matéria, como em muitas outras, há uma história social que nem sempre vemos com clareza. De facto, os mais pobres nunca valorizaram a privacidade porque nunca a tiveram. Vivendo em condições de promiscuidade num mundo da "aldeia", ou atirados para as "ilhas", para as "vilas" e depois para as várias versões dos HLM franceses, dos bairros sociais, dos subúrbios, a parte de "baixo" da sociedade não tinha "espaço" para essas delícias da riqueza que era ter quartos individuais. O luxo e o dinheiro protegiam, como ainda protegem, a privacidade limitando o "acesso", mas nem por isso se pode considerar a privacidade como um privilégio dos de "cima". A privacidade é, no seu melhor sentido, um dos adquiridos do mundo burguês, da casa, do espaço familiar ou reservado, da liberdade de mostrar ou esconder o que nos parece ser a última propriedade: o mundo próprio do ser. Nasceu, como muito do que consideramos adquirido nos nossos direitos, liberdades e garantias, do mundo dos quadros de Vermeer, da revolução vinda do capitalismo mercantil da Holanda da Idade do Ouro. Como não estou disposto a abdicar desse espírito humanista no melhor sentido da palavra, não abdico do ter nem do ser privado, em favor de uma nova forma demagógica do colectivismo voyeurista das multidões.

Não é fácil, pelo modo como as coisas caminham em Portugal, seguindo, aliás, as passadas de outros países, a que se soma a habitual mediocridade do nosso meio. Hoje temos uma vida pública que se alimenta a si própria com uma "comida" sentimental e emotiva banalizada, com um discurso superficial sobre tudo, com um ataque à razão a favor da pieguice televisiva, excitada em telejornais de crimes, doenças, acidentes e "casos", caso da "pequena Maddie", caso Esmeralda, caso Casa Pia, casos de pedofilia, importantes e irrelevantes, misturados num mesmo tipo de narrativa excitada nos directos. Neste mundo, o mais pequeno pretexto serve para deixar de haver esfera íntima e privada, seja para um antigo inspector da PJ vir falar da vida sexual dos McCann, seja para uma multidão dos novos interpretadores dos sentimentos, psiquiatras, psicólogos, pedopsiquiatras e pedopsicólogos, a nova fauna comunicacional, nos explicarem as almas perdidas nos seus estados perturbados, seja do "pai do coração" versus o "pai biológico", seja na mãe matadora de um qualquer "bebé", arrastada para gaúdio de outras mulheres ululantes a gritar "assassina!", nuns pobres jeans coçados e numas algemas, seja na súbita aparição pública do novo fantasma do susto colectivo, o pedófilo que, vindo da Rede negra e obscura dos chats ou da escola e da sacristia, se prepara para assaltar o único símbolo que resta da inocência do mundo, as crianças.

Este caminho é cada vez mais trilhado, está-se a tornar normal este assalto à intimidade e à privacidade. Já disse isto várias vezes, repito-me certamente, convicto de que é um protesto ineficaz nos seus resultados. E o pior ainda está para vir, porque, no plano mais vasto da educação cívica, estamos a gerar uma juventude que cada vez menos preza a privacidade e a intimidade. Os milhares de jovens que se expõem na Rede, nos blogues, nos sítios "sociais", que usam o telemóvel como instrumento de controlo, que aceitam com absoluta normalidade que este tenha uma câmara de vídeo, ou um localizador de GPS que permita a outrem saber sempre onde se está, crescem sem prezar o seu espaço íntimo e privado. O mundo em que vão viver é povoado por câmaras de vigilância, escutas, controlos electrónicos de identidade, redes de informação que vão do cartão de crédito à Via Verde, e isso parece-lhes absolutamente normal. Juntam-se assim ao povo que espreita a saída dos presos nos tribunais e que acha que só se preocupa com a privacidade quem tem coisas para esconder.

A ideologia deste voyeurismo tem nas revistas cor-de-rosa a sua melhor expressão, embora na Rede também já haja sinais muito preocupantes das mesmas tendências. "Assumir" é uma das palavras-chave da nova promiscuidade pública. Nos seus raros textos editoriais, as revistas cor-de-rosa e os seus cronistas apelam a "assumir" namoros, traições, noivados, fugas, gravidezes, apetites, orientações sexuais, parceiros e outras "assunções" que servem de alimento a essas publicações. Verdade seja dita que, mais do que a "assunção" pública de qualquer destas coisas, com a consequente perda de mistério e segredo, logo de valor cor-de-rosa, o que essas revistas desejam é "assumir" o papel castigador de serem elas, em fotos indiscretas tiradas às escondidas ou em colunas "sociais" escritas numa linguagem só aparentemente críptica, a "revelar" aquilo que ou não se revela porque se deseja privado, ou porque não se deseja público. A privacidade e a sua defesa tornam-se assim uma fraqueza moral, um vício secreto que se esconde, que não se "assume".

Cada vez mais essas revistas, alguns programas televisivos e locais na Rede começam a receber uma atenção já mais profissionalizada, que usa o voyeurismo público e a erosão da privacidade para intervir no mercado demagógico dos sentimentos, com objectivos quer de manipulação da opinião pública, quer de promoção social e política de personalidades, de contenção de danos, ou, menos visivelmente, para conduzir campanhas hostis contra adversários. Uma das características deste novo espaço demagógico e sentimental é a sua fácil utilização e manipulação por profissionais que o conhecem bem, com as suas regras e tendências, como é o caso da nova geração de agências de comunicação.

Onde antes havia uma "assunção" pública forçada ou meio forçada pelos paparazzi que habitam o aeroporto de Lisboa ou o espaço entre o Camões e a Rua do Carmo, ou alguns locais mais in da cidade, agora existe uma "assunção" desejada, estimulada e controlada por agências de comunicação. O caso mais recente é a utilização da vida privada por Luís Filipe Menezes, de que resultou capas em todas as revistas do "coração", entrevistas, declarações e fotos, não só consentidas como encenadas, com a curiosidade de se perceber a mão da agência de comunicação, aliás admitida publicamente, na similitude da encenação e das "mensagens" do produto final. Já não é a exposição pública desejada e consentida por quem gosta de viver no mundo cor-de-rosa da Caras, da Nova Gente, da Flash, etc., etc., e a quem essa exposição é agradável e socialmente desejada, mas de quem hoje utiliza a vida privada como instrumento de acção política, como mecanismo de envio de mensagens e imagens que se destinam a obter dividendos políticos no crucial mercado do sentimento demagógico. É sempre um caminho arriscado a prazo, como Santana Lopes ou Manuel Maria Carrilho perceberam à sua custa, porque costuma dar para o torto, pela própria natureza da exposição pública e da sua procura de transgressão como valorizador da notícia. Mas, entretanto, vai dando frutos.

Existe outro problema, que transcende a vontade de cada um jogar este jogo arriscado, e que é que, por cada político ou "figura pública" que se expõe, diminui o espaço de privacidade dos que não o desejam fazer, abrindo-se caminho para a impunidade voyeurista cor-de-rosa. A erosão da esfera íntima que deveria ser intocável mesmo nas chamadas "figuras públicas", e da esfera privada, mesmo com alguma perda de "espaço" nas "figuras públicas", é um mau caminho para uma sociedade que preze liberdades e direitos.

(No Público de 3 de Novembro de 2007)

*

Acabei de ler no seu blog "A PRIVACIDADE E O USO DOS SENTIMENTOS NA PROPAGANDA POLÍTICA", concordo totalmente com o que escreveu.

Também eu me questiono e me perturbo com o que se passa com a privacidade, ou melhor, com a ausência dela um pouco por todo o lado. O que mais me perturba e me deixa realmente preocupado são as pessoas e especialmente os mais jovens, não se preocuparem minimamente com a sua privacidade.

Existem duas formas de pensamento que se distinguem até pela idade das pessoas a quem se lhes pede que dêem opinião sobre este assunto.

A primeira, é o argumento de que "quem não deve não teme", esta forma de pensar encontro-a geralmente associada a pessoas com mais de 35 anos.
Como é óbvio este argumento não colhe, se assim fosse porquê por exemplo enviar uma carta e não um postal pelos correios, se nada tenho a temer porque não enviar postais sobre qualquer assunto que tenha a tratar, se assim fosse não haveria necessidade de haver leis sobre a inviolabilidade da correspondência.

A segunda forma de pensamento que associo na maioria dos casos a jovens, é algo ainda pior, é o total desconhecimento da sua privacidade estar em causa ou algo que considero ainda mais grave, a total aceitação da perda dessa privacidade.

Os ditadores deste mundo, os potenciais "big brothers" Orwellianos devem estar a aplaudir e até a fomentar esta cada vez maior perda de privacidade, que no limite acabará por ter graves implicações nas sociedades que se querem democráticas e livres.

Para mim é extremamente difícil por vezes explicar que não me inscrevo em determinados sites como hi5's, que uso encriptação nos meus mails etc etc. e depois tentar mostrar o porquê dessa situação, infelizmente geralmente as pessoas a quem explico estas coisas básicas ou dizem que sou maluquinho ou acham que não há problema nenhum em destruirem a sua privacidade/liberdade.

(RJNunes)

*

Ainda a propósito do post que colocou sobre privacidade, encontrei esta notícia sobre os EUA e o que pretendem fazer com o mail.

é por estas e por outras que mesmo não tendo nada a temer o meu mail usualmente vai encripatado. : No email privacy rights under Constitution, US gov claims.

(RJNunes)

Etiquetas:


(url)


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: WIKIPEDIAS

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/63/Wikipedia-logo.png/600px-Wikipedia-logo.png

Faz hoje um ano que publicou no Abrupto o texto «O PROBLEMA DA WIKIPEDIA: OS ERROS DO ARTIGO “PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS”». Passado um ano, aquele artigo está na mesma. Nenhuma daquelas passagens a que fez referência foi alterada, nem mesmo o erro objectivo, grosseiro e facílimo de corrigir relativo ao local onde decorreu o quinto congresso. Visto que quando ataca a Wikipedia eu tenho por hábito defendê-la, pode parecer estranho que eu faça notar isto. Mas faço-o por constatar (e lastimar) uma cada vez maior diferença de qualidade entre a Wikipedia em inglês e a Wikipedia em português. Pode-se facilmente ver em quase qualquer artigo para o qual haja uma versão em ambas que a qualidade deste em inglês é claramente superior à sua qualidade em português e isto não só vendo a qualidade do texto em si mas também a qualidade e a quantidade das referências bibliográficas e links externos. Há uma diferença cultural entre os utilizadores das duas versões que é bastante patente.

(José Carlos Santos)

*
Agora que penso nisso, julgo que 100% dos links que coloquei para a Wikipedia no Sargaçal, e foram bastantes, foi para o inglês. Nem sequer foi em consciência, mas está em linha com o que diz o leitor José Carlos Santos. Por coincidência, ontem procurava informações sobre o Liquidambar (estive a plantar dois) e na Wikipedia em português, há o título, o chamado
"esboço" que não é sequer esboço nenhum e é assim que vive esta versão portuguesa da Wikipedia -- de títulos para parecer que os artigos são muitos. Pode-se comparar com a versão em inglês

(http://en.wikipedia.org/wiki/Liquidambar), francesa
(http://fr.wikipedia.org/wiki/Liquidambar), espanhola
(http://es.wikipedia.org/wiki/Liquidambar), alemã
(http://de.wikipedia.org/wiki/Liquidambar)...

Há um ano, assinalou erros no artigo sobre o comunismo. Como grande especialista, foi lá corrigir? Não foi. Passaram por aqui muitas dezenas de milhares de pessoas diferentes, alguma foi lá corrigir? Não foi. Eu fui lá corrigir? Não fui, também não percebo nada do assunto.
Do que percebo já escrevi ou corrigi alguma coisa? Nunca escrevi, nunca corrigi. Acho que não está no DNA dos portugueses colaborar neste tipo de projectos para o bem comum. Não nos está no sangue. Já nos podemos dar por felizes pelo conteúdo que lá existe e sobre o que falta ou está
errado, podemos queixarmo-nos apenas de nós mesmos.

(José Rui Fernandes)

Etiquetas:


(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: INTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Mola de bambu. (susana reis)

MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Entre a noite de ontem e o dia de hoje. Usando o Abrupto como janela.









Paisagem dos Alpes do Sul, a 50 kms de Nice, vista a caminho e, do planalto de La Madone de Utelle, no val de la Vésubie.

(josé rego)

(url)


EARLY MORNING BLOGS
1148 - Poem 42

n

OthI

n



g can



s

urPas

s



the m



y

SteR

y



of



s

tilLnes

s


(e. e. cummings)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)

3.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Entre a noite de ontem e o dia de hoje, em Portugal, Rússia, Austria e Brasil..
Usando o Abrupto como janela.



MacDonalds em S. Petersburgo. (João Tiago Samtos)



São Francisco do Sul, Estado de Santa Catarina, Brasil Os sinais dos Açores. (Ovídio Linhas)




Hoje de manhã. Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)







Noite de sexta-feira em Viena. (MC)

(url)


EARLY MORNING BLOGS
1147 - Leaves Compared With Flowers

A tree's leaves may be ever so good,
So may its bar, so may its wood;
But unless you put the right thing to its root
It never will show much flower or fruit.

But I may be one who does not care
Ever to have tree bloom or bear.
Leaves for smooth and bark for rough,
Leaves and bark may be tree enough.

Some giant trees have bloom so small
They might as well have none at all.
Late in life I have come on fern.
Now lichens are due to have their turn.

I bade men tell me which in brief,
Which is fairer, flower or leaf.
They did not have the wit to say,
Leaves by night and flowers by day.

Leaves and bar, leaves and bark,
To lean against and hear in the dark.
Petals I may have once pursued.
Leaves are all my darker mood.

(Robert Frost)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)

2.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Praça Jamaa El Fna, em Marrakech. (Eliana Cruz)

(url)


COISAS DA SÁBADO: CARACTERES OU ESTEREÓTIPOS?

O último livro de Frederico Lourenço, Caracteres, é um exemplo de como nem sempre um longo convívio com os clássicos faz bem aos livros que se escrevem. Os clássicos tentam demais e tentaram um seu notável tradutor e conhecedor a fazer um livro pobre e pouco interessante. A mim sempre me pareceu que os livros de “imitação”, no bom sentido dos clássicos que se “imitavam” como cânone, são os mais difíceis de fazer nos dias de hoje, em que o género está em desuso. O livro de Lourenço é uma imitação dos clássicos Caracteres de Teofrasto, um texto que suscitou sempre muitas imitações, a mais célebre das quais é a de La Bruyère que foi a primeira que li.

Confrontando-se directamente com os originais qualquer versão dos Caracteres tem dois problemas: um, manter a ligeireza da forma, concisa, saltando do geral para o particular, exemplar e irónica; outro, construir “caracteres” efectivos, observáveis e reais, na sua “física” e no seu comportamento, que “actualize” o que é de sempre. Resumindo, o mundo está sempre a dar-nos variações dos mesmos tipos de Teofrasto, mas a frescura da descrição é cada vez mais difícil. E este livro não consegue cumprir o desafio.

Nenhum “carácter” tem humor, nem sequer representa bem um “tipo”. É demasiado estereotipado, previsível e superficial. Os tipos são quase todos urbanos e socialmente limitados entre a classe média baixa que vive em Telheiras e a classe média alta que vive na Linha. Até os cães, que tem direito a “carácter”, fazem parte da mesma estirpe social, não são rafeiros. Antes de lermos cada “carácter” já sabemos como é que eles vão ser: o “padre de esquerda”, a “directora de museu”, “o romancista consensual”, os vários poetas, os vários monárquicos e o “marquês de Lovelhe”, são estereótipos, não são “caracteres”. Os tipos que não fazem parte desta roda são ainda mais rudimentares: o “burgesso” e o “latifundiário alentejano”, por exemplo, são tão desinteressantes que se percebe de imediato que o autor não os frequenta, muito menos os conhece. Duvido que o “latifundiário alentejano” seja “um português heterossexual que no seu íntimo não vê grande diferença entre uma mulher e uma galinha”, porque me parece que em todos os sentidos, as galinhas não são para aqui chamadas. Porcos, bezerros, cabras e ovelhas, vá que não vá, mas a centralidade das capoeiras nos montes está longe de ser provada.

Depois os tipos misturam-se, o que é normal na vida, mas anormal nos Caracteres, onde isso “descaracteriza”. O “médico filósofo” trata a mulher como “filha”, o mesmo que arrepia Lourenço no “burgesso”, e temos que convir que deve haver umas diferenças nestas “filhas”. Aliás o retrato do “burgesso” é um dos mais rudimentares, iria dizer “burgesso”, do livro.
Para analisar “caracteres”, os nosso bons humoristas como Herman (o Esteves, o engenheiro do Norte) e os Gatos Fedorentos (aqueles jovens representados pelo RAP que falam horas sem dizer nada) são mais certeiros e, qualquer versão moderna de Teofrasto, é com este tipo de “tipos” que se mede. A de Lourenço mede e perde. No ofício de fixar “caracteres” com perspicácia eles fazem melhor dentro do genuíno espírito de Teofrates, como faziam os Monthy Python ou, em Portugal, alguns textos da antiga revista Almanaque e da menos antiga “Mosca” do Diário de Lisboa, com a vantagem de não terem a pretensão de originarem no modelo clássico.

Etiquetas:


(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Recuperação de um antigo forte militar em Lajes do Pico: Forte de S.ta Catarina. Do existente pouco havia, apenas uma ruína em muito mau estado. Sem falsas máscaras históricas (re)fez-se o antigo conjunto de ameias, que eram 7, utilizando antigas travessas dos caminhos de ferro. Pinho nacional. E é Nacional; E é bom... (Rui Pinto)



Trabalho de limpeza das bermas no distrito de Santarém. (Ochoa)



Sapatos na Feira do Alvito, Beja. (João Espinho)



Almourol visto do ar. (Paulo Peres)

(url)


EARLY MORNING BLOGS
1146 - Perché leggere i classici

Oggi un'educazione classica come quella del giovane Leopardi è impensabile, e soprattutto la biblioteca del conte Monaldo è esplosa. I vecchi titoli sono stati decimati ma i nuovi sono moltiplicati proliferando in tutte le letterature e le culture moderne. Non resta che inventarci ognuno una biblioteca ideale dei nostri classici; e direi che essa dovrebbe comprendere per metà libri che abbiamo letto e che hanno contato per noi, e per metà libri che ci proponiamo di leggere e presupponiamo possano contare. Lasciando una sezione di posti vuoti per le sorprese, le scoperte occasionali.

M'accorgo che Leopardi è il solo nome della letteratura italiana che ho citato. Effetto dell'esplosione della biblioteca. Ora dovrei riscrivere tutto l'articolo facendo risultare ben chiaro che i classici servono a capire chi siamo e dove siamo arrivati e perciò gli italiani sono indispensabili proprio per confrontarli agli stranieri, e gli stranieri sono indispensabili proprio per confrontarli agli italiani.

Poi dovrei riscriverlo ancora una volta perché non si creda che i classici vanno letti perché «servono» a qualcosa. La sola ragione che si può addurre è che leggere i classici è meglio che non leggere i classici.

E se qualcuno obietta che non val la pena di far tanta fatica, citerò Cioran (non un classico, almeno per ora, ma un pensatore contemporaneo che solo ora si comincia a tradurre in Italia): «Mentre veniva preparata la cicuta, Socrate stava imparando un'aria sul flauto. "A cosa ti servirà?" gli fu chiesto. "A sapere quest'aria prima di morire"».

(Italo Calvino)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)

1.11.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Cemitério no concelho da Vidigueira. (Luis Reino)



Hoje à tarde no Tejo. (RM)



Hoje de manhã. Lua sobre pinheiros da Quinta do Covelo, no Porto.

(José Carlos Santos)

(url)


ICONOGRAFIA ESQUERDISTA PORTUGUESA 2



O conjunto de capas originais para o Programa da lista "Por um Ensino ao Serviço do Povo", que concorreu às eleições na AE da Faculdade de Medicina do Porto em 1973, é um dos melhores exemplos de iconografia esquerdista. A autora dos desenhos foi Maria José Abrunhosa, então estudante de arquitectura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, na altura militante da UEC(ML) com o pseudónimo "Saúl". Depois do 25 de Abril, Maria José Abrunhosa teve um papel activo no SAAL, e trabalhou como arquitecta na Guarda, onde foi uma voz activa contra a corrupção autárquica, deixando aí vários trabalhos de sua autoria. Depois da sua morte em 1999, foi erguido no concelho da Guarda um pequeno monumento em sua memória, comemorando a sua actuação como arquitecta, mas acima de tudo lembrando a sua intervenção cívica local.

Maria José Abrunhosa foi autora de capas, desenhos em comunicados e cartazes em serigrafia, publicados anonimamente em publicações associativas e políticas clandestinas, que combinavam um traço original com uma clara influência da iconografia chinesa maoísta. Outras capas deste Programa mostram essa influência chinesa mais nitidamente (mais tarde voltarei ao Programa de 1973).




(Um grupo de jovens esquerdistas na década de 70.)

O que é interessante nestes desenhos é a rara representação realista dos estudantes (se abstraírmos da tendência para os olhos ficarem em bico), embora a seriedade, calma e disciplina da cena da "Reunião de Curso" sejam idealizadas. As reuniões eram sempre muito mais tumultuosas do que esta representação pretendia.


No desenho que acompanha o caderno sobre "cultura e consciencialização dos estudantes", o que na prática significava a doutrinação política, mostra-se um grupo de estudantes a ver o Couraçado Potemkine de Eisenstein, um filme revolucionário soviético proibido, que não podia ser exibido nas salas de cinema. O filme circulava em várias cópias nos meios da oposição comunista e depois nos círculos estudantis esquerdistas. A representação da cena é também mais wishfull thinking do que realidade, dado que as projecções do filme eram feitas com cuidados conspirativos para que a PIDE não identificasse os donos das cópias e as apreendesse. Também aqui é preciso ter em conta que as tecnologias de reprodução do filme eram complicadas e caras, exigiam uma máquina com certo tamanho e as bobinas um manuseamento que implicava alguns conhecimentos técnicos.

(Continua.)

*

A propósito da sua referência ao Couraçado Potemkine, pensei em escrever-lhe, desisti num segundo momento, mas hoje não resisto. Recordo-me de ter visto o filme no Auditório da Reitoria da Universidade de Lisboa. Resta saber se foi antes ou imediatamente a seguir ao 25.4.74. Mas inclino-me firmemente para que tenha sido antes. Será que a memória me atraiçoou? Evidentemente, fiquei impressionada.

Muitos anos mais tarde, tive oportunidade de visitar o Museu do Cinema, em Londres, com a minha filha (naquela altura adolescente). Trata-se da mais surpreendente instalação museológica que conheci, com uma muitíssimo criativa interactividade com os visitantes.
Numa carruagem (presumo que tal como existiram na URSS), éramos introduzidos ao cinema de Eisenstein, com a apresentação de curtos sketches, por uma - como chamar-lhe - comissária do povo(?), vestida a rigor, com braçadeira vermelha no braço e sotaque a condizer. Voltei a ver uma passagem do Couraçado, assim como de outros filmes, explicados passo a passo. Ficámos a perceber ao certo a cena da escadaria e do carrinho de bebé e o que representavam as figuras que são vistas em primeiro plano.

A carruagem era apenas uma amostra das surpresas que o museu reservava. Mais tarde, fechou porque (explicaram eles) não era rentável. Uma perda irreparável.

(Cristina Baptista)

Etiquetas:


(url)


ICONOGRAFIA ESQUERDISTA PORTUGUESA 1

Em Março de 1971, uma "editorial Acção" publica em Lisboa o Manual de Guerrilha Urbana de Carlos Marighela. Como era habitual numa edição clandestina, a editorial não existia e era apenas uma sigla destinada a assinar a publicação de um texto proibido. O Manual foi muito influente nos anos setenta, na sequência das experiências de guerrilha e acção armada na América Latina. Marighela escrevera-o em 1969, o mesmo ano em que veio a morrer numa emboscada que, mais tarde, foi considerada pelo estado brasileiro uma execução extra-judicial.

Carlos Marighela e Carlos Lamarca tornaram-se símbolos da luta armada contra a ditadura brasileira e as suas obras e acções tiveram um impacto nos grupos portugueses que surgiram na segunda metade dos anos sessenta sob a influência do guerrilheirismo latino-americano, em particular a LUAR e mais tarde os sectores da FPLN que deram origem às Brigadas Revolucionárias. O livro de Marighela era um manual prático, ao estilo dos manuais do Comintern nos seus primeiros anos, com recomendações e instruções concretas para a realização de acções armadas. O seu carácter muito prático tornou-o um material de estudo para a própria contra-guerrilha sendo editado e analisado pela CIA e pelos militares e polícias envolvidos em conflitos não convencionais. Este carácter prático do Manual leva ainda hoje à sua retirada de vários sites na Internet onde é colocado, banido como um documento que divulga técnicas consideradas perigosas.

A iconografia nos documentos clandestinos era muito condicionada pelas tecnologias de reprodução, muito rudimentares nos anos sessenta e início dos anos setenta. A utilização do copiógrafo e a ciclostilagem dos documentos implicava limitações para os desenhos, dado que os stencis se rasgavam facilmente. Mesmo o stencil electrónico tinha sérias limitações, para além de que a PIDE controlava os fornecedores deste tipo de material de impressão. A edição portuguesa de Marighela é ciclostilada e tem uma capa peculiar, provavelmente copiada de uma edição clandestina brasileira. Estes prédios são muito mais próximos de S. Paulo do que de Lisboa



e estas cartucheiras parecem demasiado latino-americanas, até porque a maioria dos esquerdistas portugueses que poderia ter feito esta edição deveria desconhecer este tipo de suporte para as balas com os pormenores que se observam.


(Continua)

*
Lembro-me perfeitamente desse "manual" e da cultura geral que aprendi nele! :-)))
Refiro-me à sensata regra de nunca se ir para um combate com o estômago cheio, por causa da possibilidade de se levar um tiro no aparelho digestivo, e da técnica de fabrico dos "cocktails Molotov", uma arma inventada na guerra civil de Espanha. Em boa verdade, entretanto, acho que já não me recordo do 3º elemento que se deveria misturar à gasolina e à areia do "cocktail"... Mas, no início dos anos 70, que me lembre os guerrilheiros urbanos na moda eram os tupamaros, que ainda há poucos anos deram nas vistas no Peru de Fugimoro.

(Zé Luís Sá)

Etiquetas:


(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



Nascer do dia na subida em Cem Soldos. (Ochoa)

(url)


EARLY MORNING BLOGS
1145 - The History of the Apple-Tree

It is remarkable how closely the history of the Apple-tree is connected with that of man. The geologist tells us that the order of the Rosaceae, which includes the Apple, also the true Grasses, and the Labiatae, or Mints, were introduced only a short time previous to the appearance of man on the globe.

It appears that apples made a part of the food of that unknown primitive people whose traces have lately been found at the bottom of the Swiss lakes, supposed to be older than the foundation of Rome, so old that they had no metallic implements. An entire black and shrivelled Crab-Apple has been recovered from their stores.

Tacitus says of the ancient Germans that they satisfied their hunger with wild apples, among other things.

Niebuhr observes that "the words for a house, a field, a plough, ploughing, wine, oil, milk, sheep, apples, and others relating to agriculture and the gentler ways of life, agree in Latin and Greek, while the Latin words for all objects pertaining to war or the chase are utterly alien from the Greek." Thus the apple-tree may be considered a symbol of peace no less than the olive.

(Henry David Thoreau)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)

© José Pacheco Pereira
Site Meter [Powered by Blogger]