ABRUPTO

18.6.05


INTENDÊNCIA

Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.

Actualizada a nota TESTEMUNHOS DA VIOLÊNCIA URBANA / O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES.

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COISAS SIMPLES


Feodor Tolstoy

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JORNALISMO DE RECADOS

Este título Veto britânico inviabilizou vitória negocial portuguesa , entre muitas outras peças jornalísticas, (em que se destaca o correspondente em Bruxelas da RTP que organiza as suas intervenções segundo um molde discursivo oficial e oficioso), é puro jornalismo de recados, dados por assessores e alimentado por confidências de governantes, durante os trabalhos, para preparar a opinião pública para considerar um “sucesso” governamental qualquer que seja o resultado

Como não se sabe o que o governo queria à partida, como não se sabe dos dissabores na negociação, se havia plataforma de recuo e qual o ponto de não recuo, caso existisse, este tipo de manipulações resulta sempre. Leia-se a imprensa britânica, alemã ou francesa, para ver como é diferente o modo como se noticiam estes eventos, chegando a denunciar, (como a britânica e alemã faz mais que a francesa), as tentativas dos governos de apresentarem tudo o que acontece como “vitória”.

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EARLY MORNING BLOGS 520

Rua Duque de Palmela 111


Pelo lado dos lódãos ao fim do dia
depressa se chega agora no verão
à pedra viva do silêncio
onde o pólen das palavras se desprende
e dança dança dança até ao rio.


(Eugénio de Andrade)

*

Uma sala coberta de livros, ao mesmo tempo sala de ler, de escrever, de comer, com uma cozinha incrustada, uma janela para as traseiras, as traseiras do Porto com quintais, na direcção do Douro. Na entrada, para a direita ficava o quarto de banho e o quarto, com janela para a Duque de Palmela, uma rua silenciosa quase sem trânsito, numa parte do Porto perdida do centro, mesmo estando perto do centro. Cinco minutos até S. Lázaro, donde se partia para o resto do mundo, pelos Poveiros, pela Batalha, pelas Fontainhas, pelo Padrão. Uma dispensa cheia de livros, no caminho à esquerda. Um desenho de Jean Cocteau no corredor, onde, na assinatura e na fluidez do traço, se percebia que o Eugénio tinha ido ali buscar, na sua juventude, a assinatura. O seu “Eugénio”, depois o seu “E.” estavam no Cocteau. O asterisco com que marcava nos livros as passagens que mais o interessavam ou entusiasmavam, vinha do Cocteau.
Esta foi sempre a sua verdadeira casa.

Bom dia!

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17.6.05


O QUE HÁ DE BOM NOS BLOGUES

numa altura em que a blogosfera não está brilhante, são pequenas reportagens como a do Santo António na Bica no O Céu sobre Lisboa, ou as fotos do Porto na Cidade Surpreendente.

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INTENDÊNCIA

Actualizadas as notas TRIBULAÇÕES DE UM IGNORANTE, NOTAS BREVES SOBRE OS ÚLTIMOS DIAS (1º série) e A LER.

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TESTEMUNHOS DA VIOLÊNCIA URBANA / O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES

Já o disse na Quadratura e repito-o aqui: a comunicação social, em particular a televisão, falhou completamente na sua missão sobre o que se passou em Carcavelos. Valia a pena fazer um trabalho de jornalismo colectivo tentando não só repor os factos, mas também confronta-los com as “notícias” e seus responsáveis. Tudo isto é demasiado sério, teve demasiadas repercussões, para que fique tudo na mesma. Por seu lado, a forma como o debate político se apossou de forma imediata dos acontecimentos, confrontando-se as habituais teses securitárias ou laxistas na interpretação do que aconteceu, sem cuidar de saber o que aconteceu, torna ainda mais difícil um esclarecimento fundamental para se tirarem conclusões.

Alguns leitores do Abrupto enviaram textos testemunhais e comentários sobre a violência urbana e os acontecimentos de Carcavelos. São bem-vindos, para ajudar a interpretar. São testemunhos, com todas as vantagens e os inconvenientes dos testemunhos, mas ajudam-nos a entender não só factos como percepções sobre os factos. É que esta matéria é das mais graves que se possa imaginar nos dias de hoje porque corrói a nossa vida colectiva.

*
Ouvi ontem no programa 'Quadratura do Circulo' as suas observações ao já apelidado 'arrastão' de Carcavelos. Claro que penso ser impossível quantificar os ditos 500 indivíduos, mas baixá-los para 40 ou 50 é completamente excessivo. Moro muito perto da zona, conheço gente que lá estava, e posso-lhe garantir que era um numero muito expressivo de garotos, normalmente 'capitaneados' por um mais velho e dados os relatos de testemunhas insuspeitas, a movimentação era coerente e deliberadamente dispersa para melhor confundir as pessoas, o que pressupõe alguma preparação prévia e alguma comunicação entre os grupos, esses sim de 40 a 50 miudos.

Não vale a pena abordar as já tão decantadas razões sociais ou de prevenção. O que me preocupa, é se não estaremos perante um movimento com motivações políticas, do tipo do que assolou a América nos anos 60. Como sabe, uma pequena elite bem politizada pode com facilidade aproveitar-se destes pequenos gangs, utilizando os mais variados pretextos identitários, tornando-os verdadeiros operacionais, mesmo que eles não estejam conscientes da sua utilização política.

(JM)
*

O que aconteceu em Carcavelos é grave, gravíssimo, mas na verdade só o é porque apareceu na televisão.Confude-se cada vez mais a realidade com a televisão.A maior parte da realidade não aparece na televisão.

Tenho uma loja de conveniencia na Av da Liberdade. No dia das marchas era para estar aberta até às duas da manhã. Fechou à uma, tendo os empregados fingido que sairam pelas traseiras, pois um gang armado de pistola preparava-se para a assaltar. Isto passa-se na Av da Liberdade no centro de Lisboa.Com milhares de pessoas na rua. Um comerciante pode ser roubado todos os dias que não acontece nada aos ladrões. É permitido roubar.

Um amigo meu tinha varios supermercados nos arredores de Lisboa. Um na charneca da Caparica foi assalto 5 vezes num ano , um delas à mão armada as outras enfiaram um carro pela montra dentro Em Santo Antonio dos Cavaleiros onde ele tinha outra loja , era assaltado todos os dias por gangs. O gerente era espancado regularmente.No Monte do Estoril,onde ele tinha outra loja, foi assaltado à mão armada tendo a espigarda de um dos assaltantes diparado acidentalmente um segundo depois de ter estado apontada à cabeça de uma caixeira. Ele vendeu os supermercados e agora joga na bolsa...È mais seguro...Assim só perde dinheiro.

Quando um gang entra numa loja não há nada a fazer a não ser tentar ser amigo deles. Estamos em cima de um barril de pólvora, o que aconteceu em Carcavelos não acontece mais vezes porque a rapaziada dos gangs ainda não percebeu bem o poder que realmente têm. Podem, na realidade fazer o que lhes apetecer. Ainda não houve bairros saqueados porque ainda não se lembraram disso. Mas qualquer dia lembram-se. E daí até à «justiça popular» é um instante. Se o Estado não toma conta disto rapidamente podemos estar nas vésperas de um massacre.

(FM)
*
Então agora deu em "postar" testemunhos da irmandade branca?
É claro que existe um problema na sociedade portuguesa com os imigrantes e não só com os de ascendencia africana. E se quiser ser justo (assim como a sua luta pelo não a esta constituição europeia se baseia no principio da igualdade entre paises) e imparcial, deveria postar ou tentar ouvir a "voz" dos africanos, ucranianos, moldavos que sofrem na pele todos os dias a exclusão que se manifesta em empregos onde o patrao não paga e nada lhe acontece ate a sua exclusao que se manifesta em meras situações sociais.

Diz o sr. JC no seu post que teme que se esteja a repetir o ue aconteceu na America, mas esse senhor teme que as pessoas lutem por uma igualdade de oportunidades? Esse senhor sabe o que eram os negros na America nessa altura?Este post é mero populismo.

E vejo que apoia a manifestaçao da Frente nacional. Porque o seu silencio quanto a isso e compremetedor.

(Antonio Rosa)


*
RAZÃO teve Pacheco Pereira quando, na «Quadratura do Círculo», verberou a actuação da Comunicação Social na cobertura dos acontecimentos de Carcavelos. De facto, de 2000 indivíduos passou-se rapidamente para 500, depois para 400, e a breve trecho para apenas 50. E ontem mesmo (e sem humor), «A CAPITAL» garantia que, afinal, não sucedeu nada.

Por via das dúvidas, leia-se o que disse a Direcção Nacional da PSP e se encontra transcrito aqui. Mas, mais saboroso do que o conteúdo dessa notícia, ainda é o respectivo título - da autoria de um lírico anónimo: SÓ 50 ROUBARAM E AGREDIRAM

Ora este «SÓ» vale bem um prémio! Não de poesia, claro (pois esse pertence, por direito, a António Nobre), mas de ridículo.

(Carlos Medina Ribeiro)

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CORINO DE ANDRADE



É pena que se tenha esquecido nestes dias, ou pouco lembrado, a morte deste homem. Da mesma geração de Cunhal, foi um grande médico e uma personalidade que marcou todos os que com ele trabalharam. E os seus doentes, da "doença dos pezinhos" que ele descobriu. Ou aqui ou nos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO (Corino era um opositor tenaz do regime de Salazar) tentarei remediar a falta.

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NOTAS BREVES SOBRE OS ÚLTIMOS DIAS (Continuação)

Em Portugal, há verdadeiros entusiastas de combater imaginariamente as batalhas já travadas, decididas, vencidas ou perdidas, conforme os casos. Agora, a propósito das mortes recentes, há toda uma repetição dos combates de 1975, como se eles não estivessem também já decididos. Em 1975, já se sabe quem “ganhou”, quem “perdeu”, quem contribuiu para ganhar, por aí adiante. Não vale a pena continuar a espadeirar para o ar, como se estivéssemos em 24 de Novembro de 1975. Não estamos, felizmente, mas por mérito dos da altura, não dos de agora. E não são os da altura que se ouvem agora proclamar vitórias e proclamar fúrias no vazio.

*

Estas sagas do “ganhador” / “perdedor” são demasiado yuppies para o meu gosto.

*

Para além disso, na história, só há perdedores. É só deixar passar o tempo. Às vezes nem muito.


(Continua)

Foram actualizadas as notas anteriores.

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OS LIVROS DA SÁBADO

UM LIVRO QUE NÃO PODE CONTINUAR ESGOTADO E INACESSÍVEL


O livro de Silva Marques O PCP visto por Dentro – Relatos da Clandestinidade, editado pelo Expresso em 1976, foi a primeira memória portuguesa de um antigo militante comunista sobre os seus anos de clandestinidade como funcionário do PCP. Quando foi publicado era um livro de grande coragem, sem precedente numa memorialística quase sempre heróica e apologética, relatando com humor e precisão, os mecanismos internos da clandestinidade, incluindo cenas típicas que nunca em Portugal tinham visto letra de forma, como a cena em que Silva Marques é expulso por Carlos Brito. Era uma análise fina, sociológica e psicológica, muito atenta à diferença entre as palavras e a realidade, e ao valor da nomeação, de chamar nomes às coisas como se elas mudassem por isso, que está no coração do mundo comunista. Por que é que nos temos de tratar por “amigos” e não por “camaradas”, perguntava o jovem funcionário Silva Marques? Na resposta está, como em todas as coisas deste mundo claustrofóbico e impregnado tanto de dedicação como de cegueira, toda uma visão do mundo.

Resumindo e concluindo: o livro de Silva Marques permanece, quase trinta anos depois, a melhor memória do interior comunista jamais publicada em Portugal e um livro de leitura agradável e que prende o seu leitor. Não se percebe que continue esgotado e inacessível.

(Este texto foi escrito antes da morte de Cunhal. A completa ausência do livro de Silva Marques nos documentários televisivos, preparados com muita antecedência, é mais um sinal da memória curta da comunicação social. Memória curta, ou seja, ignorância.)

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A LER

o Bombyx Mori, o bicho da seda, onde se encontra boa seda como esta:

"Momento neon-realista

Um jornalista da TVI, no meio da multidão, entrevista um popular (de uma certa idade) no funeral de Álvaro Cunhal:

Então o senhor o que veio cá fazer?
Eu sou um dos esteiros, um dos filhos dos homens que nunca foram meninos…
[bruscamente] O senhor é de Lisboa?
Não, sou de Alhandra.
Onde é que isso fica? [não perguntou, mas pela cara não faltou muito]"


e a excelente série Frases que impõem respeito e muito mais.

*
Sou eu o jornalista da TVI, é verdade que estava "no meio da multidão", entrevistei "um popular" ( a expressão é sua, foi certamente contagiado por outros jornalistas, eu não a uso), estava no velório e não no funeral de Álvaro Cunhal.

Até aqui, menos mal. Agora o resto...

Bruscamente??

- "O popular" contou, emocionado, que era um dos "homens que nunca foram meninos" para quem Soeiro Pereira Gomes escreveu "Esteiros" ( e continuou contando, sem reticências e interrupções; não digo mais, se viu)

- A seguir fiz-lhe outra pergunta ( longa, não lhe digo qual, se viu)

- Só então perguntei-lhe de onde era ( isso viu, como terá visto os autocarros que chegaram a Lisboa para o velório e funeral de Álvaro Cunhal)


Onde é que isso fica? [não perguntou, mas pela cara não faltou muito]"

- Não perguntei (isso sabe)

- Pela cara não faltou muito?Pela cara? Pela cara?


Bom, eu pela sua cara ( de uma certa idade mas que aparece muito mais no neón da televisão do que a minha) nunca diria que o senhor é desonesto e escreve, no Abrupto, usando das técnicas de um jornalista de tablóide. Como não faço generalizações, digo apenas que, desta vez, sim.

(Pedro Moreira)

NOTA: Pedro Moreira devia ler com mais atenção e reparar que o texto não é de minha autoria, mas citado. Não tem importância. Retrata um estilo.

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COISAS SIMPLES


Feodor Tolstoy

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NOTAS BREVES SOBRE OS ÚLTIMOS DIAS


Alguém diz (e pelos vistos ninguém disse, mesmo estando tudo ligado por auricular) aos senhores e senhoras jornalistas (da SIC e da RTP) que repetiam à saciedade que “agora iam cantar a Internacional Socialista”, que não existe nenhuma canção revolucionária chamada “Internacional Socialista”, mas sim a “A Internacional”, uma velha música já centenária e que é suposto ser de cultura geral conhecer?

*

De igual modo, alguém diz a uma senhora jornalista (da RTP?) que não se está de “pulso erguido”, mas sim de punho erguido, e que punho e pulso são partes diferentes do corpo e que, a não ser que se seja amputado, não se “ergue o pulso” sem erguer a mão?

Adenda: ver Microfone Cego em Alice Vem Jantar.

*

Uma das tendências da comunicação social dos tempos recentes é a obtenção de opiniões de pessoas que são académicos de profissão sobre matérias estritamente políticas enquanto académicos. Esta prática era já comum na área da economia ou da ecologia, onde o político quase que desapareceu, e hoje alastra para todos os domínios, mesmo os da política “pura”, com a crescente audição de “politólogos”, que o que fazem é emitir opiniões políticas como quaisquer outras.

A ideia que preside a essas consultas é a mesma que leva os políticos a, sempre que há uma matéria difícil, fazer-se substituir na decisão por comissões “de especialistas”, de “peritos”, e insere-se no pressuposto que é possível haver uma voz técnica que possa, em nome desse conhecimento técnico, definir uma solução política. Na prática, é mais um dos sintomas da recusa da política e das suas responsabilidades e da prestação de contas correlativa, muito forte num país que herdou do salazarismo o ódio ao político e a paixão do consenso por cima da luta política.

A voz do conhecimento, da técnica, da ciência, tem o seu lugar na decisão ou opinião política, mas não é da mesma natureza dessa decisão, nem pode ser colocada no lugar dela. É importante conhecer as qualificações profissionais de quem omite opinião, e a qualidade de historiador ou cientista político são relevantes, como a de empresário ou economista igualmente o são quando se trata de opiniões que correspondem a um domínio do saber ou da actividade profissional. Mas isso não as torna outra coisa diferente de opiniões políticas, de cidadãos, no espaço público, nem lhes dá uma legitimidade acrescida enquanto opiniões de natureza política. O resultado desta confusão está patente no exemplo de hoje da Capital, igual pela sua natureza a muitos outros (Eleições autárquicas - Para os especialistas em ciência política, a ausência de coligações e a transferência de votos do eleitorado de esquerda beneficiam PS. Divisão da direita ajuda candidatura de Carrilho). O resultado ou são truísmos (a transposição de um resultado académico ipsis verbis para uma afirmação de carácter político raras vezes resulta noutra coisa) ou são puras opiniões políticas, a que o estatuto académico dá uma aura de isenção e intangibilidade que confunde o debate público.

(Continua)

*

Também houve outras "engraçadas" (tristes, mas que dão vontade de rir):

1 - Jornalista pergunta: Então o PCP vai continuar a ser comunista?

resposta: Claro !

Pergunta: e Marxista-Leninista?

Resposta: É ideologia comunista !!!!

2 - Ouvia-se o Hino Nacional e diz o jornalista: Canta-se agora o Avante!

3- Entram agora no crematório !

(Pedro Castaño)

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EARLY MORNING BLOGS 519

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.


(Eugénio de Andrade)

*

Bom dia!

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O SÍTIO DO NÃO SUSPENSO

Seria certamente mais fácil encontrar vontade política para uma negociação minimalista de um novo tratado do que ultrapassar as consequências políticas dos “nãos” já dados e as hipóteses muito prováveis dos outros “nãos” que não chegaram a ser dados. O adiamento não é sensato, nem eficaz. É uma medida típica do modo como a União está hoje. Adia-se tudo. É uma medida que prolonga o défice democrático actual. Com medo do “não”, foge-se do voto. A insistência num documento morto, e morto pelo voto, é irrealista e denota muita arrogância. É uma medida de cegueira, que hipoteca o realismo dos pequenos passos à sobrevivência da carreira política dos responsáveis por um “grande passo” para o abismo e que não querem admitir que erraram. Todas as ambiguidades de antes, continuam.

Adiado o referendo, cujo objecto deixou de se saber qual é, o SÍTIO DO NÃO é suspenso até que de novo a questão se coloque. Permanecerá em linha, aberto o seu sistema de comentários e eventualmente, sempre que se justifique comentar qualquer facto ou decisão que condicione o referendo português, voltará à vida.

Se a União tivesse bom senso, prudência e resolvesse sair do caminho utópico, arrogante, desigual e não democrático onde se meteu e de onde parece não saber sair, podia até ser que renascesse como SÍTIO DO SIM. Provavelmente terá que continuar como está, o lugar do “não”, e voltar de novo ao trabalho na altura própria.

Mas renascerá em melhores condições. Com a equipa dos voluntários que se ofereceram. Com o sucesso dos seus mil comentários, em tão pouco espaço de tempo. Com a força de ter contribuído para um debate que muitos não quiseram travar, e que só o “não” obrigou e conseguiu. Cumpriu a sua missão. Para já.

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15.6.05


EARLY MORNING BLOGS 518

O sal da língua


Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.

Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.


(Eugénio de Andrade)

*

Bom dia!

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14.6.05


INACEITÁVEL

Eu não me importo com a utilização jornalística dos dados e das interpretações contidos nos meus livros sobre Cunhal. É normal que isso aconteça e mais vale que se utilizem informações que foram verificadas, do que a lista habitual de imprecisões e erros. Para além disso, os factos são os factos e pertencem a todos e não são propriedade de ninguém. Mas já é inaceitável, para não dizer outra coisa, trabalhos jornalísticos de todo o tipo, feitos quase exclusivamente a partir dos livros, a que se acrescenta um ou outro depoimento, e às vezes nem isso, seguindo estritamente a interpretação e nalguns casos as palavras e afirmações, sem pelo menos os citar, ou nomear como fonte. Isso é inaceitável e pouco honesto.

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APRENDENDO COM EÇA DE QUEIRÓS

Depois considera o derradeiro pecado, negríssimo. Tu fundas, com o teu novo jornal, uma nova escola de intolerância. Em torno de ti, do teu partido, dos teus amigos, ergues um muro de pedra miúda e bem cimentada: dentro desse murozinho, onde plantas a tua bandeirola com o costumado lema de «imparcialidade, desinteresse, etc.», só haverá, segundo Bento e o seu jornal, inteligência, dignidade, saber, energia, civismo; para além desse muro, segundo o jornal de Bento, só haverá necessariamente sandice, vileza, inércia, egoísmo, traficância! É a disciplina de partido (e para te agradar, entendo partido, no seu sentido mais amplo, abrangendo a literatura, a filosofia, etc.) que te impõe fatalmente esta divertida separação das virtudes e dos vícios. Desde que penetras na batalha, nunca poderás admitir que a razão ou a justiça ou a utilidade se encontrem do lado daqueles contra quem descarregas, pela manhã, a tua metralha silvante de adjectivos e verbos – porque então a decência, se não já a consciência, te forçariam a saltar o muro e desertar para esses justos. Tens de sustentar que eles são maléficos, desarrazoados, velhacos, e vastamente merecem o chumbo com que os traspassas. Das solas dos pés até aos teus raros cabelos, meu Bento, desde logo te atolas na intolerância! Toda a ideia que se eleve, para além do muro, a condenarás como funesta, sem exame, só porque apareceu dez braças adiante, do lado dos outros, que são os réprobos, e não do lado dos teus, que são os eleitos.

Realizam esses outros uma obra? Bento não poupará prosa nem músculo para que ela pereça: e se por entre as pedras que lhe atira, casualmente entrevê nela certa beleza ou certa utilidade, mais furiosamente apressa a sua demolição, porque seria mortificante para os seus amigos que alguma coisa de útil ou de belo nascesse dos seus inimigos – e vivesse. Nos homens que vagam para além do teu muro, tu só verás pecadores; e quando entre eles reconhecesses S. Francisco de Assis distribuindo aos pobres os derradeiros ceitis da Porciúncula, taparias a face para que tanta santidade te não amolecesse, e gritarias mais sanhudamente: «Lá anda aquele malandro a esbanjar com os vadios o dinheiro que roubou!»

Assim tu serás no teu jornal. E, em torno de ti, os que o compram e o adoptam lentamente e moralmente se fazem à tua imagem. Todo o jornal destila intolerância, como um alambique destila álcool, e cada manhã a multidão se envenena aos goles com esse veneno capcioso. É pela acção do jornal que se azedam todos os velhos conflitos do mundo – e que as almas, desevangelizadas, se tornam mais rebeldes à indulgência. A sociabilidade incessantemente amacia e arredonda as divergências humanas, como um rio arredonda e alisa todos os seixos que nele rolam: e a humanidade, que uma longa cultura e a velhice tem tornado docemente sociável, tenderia a uma suprema pacificação – se cada manhã o jornal não avivasse os ódios de princípios, de classes, de raças, e, com os seus gritos, os acirrasse como se acirram mastins até que se enfureçam e mordam.

O jornal exerce hoje todas as funções malignas do defunto Satanás, de quem herdou a ubiquidade; e é não só o Pai da Mentira, mas o Pai da Discórdia. É ele que por um lado inflama as exigências mais vorazes – e por outro fornece pedra e cal às resistências mais iníquas. Vê tu quando se alastra uma greve, ou quando entre duas nações bruscamente se chocam interesses, ou quando, na ordem espiritual, do s credos se confrontam em hostilidade: o instinto primeiro dos homens, que o abuso da civilização material tem amolecido e desmarcializado, é murmurar «paz! juízo!» e estenderem as mãos uns para os outros, naquele gesto hereditário que funda os pactos. Mas surge logo o jornal, irritado como a Fúria antiga, que os separa, e lhes sopra na alma a intransigência, e os empurra à batalha, e enche o ar de tumulto e de pó.

O jornal matou na Terra a paz. E não só atiça as questões já dormentes como borralhos de lareira, até que delas salte novamente uma chama furiosa – mas inventa dissensões novas, como esse anti-semitismo nascente, que repetirá, antes que o século finde, as anacrónicas e brutas perseguições medievais. Depois é o jornal...

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TRIBULAÇÕES DE UM IGNORANTE

Que viu a notícia de última hora no Público Norton de Matos apresentado por uma época no Setúbal e que se convenceu, na sua absoluta ignorância, que era do velho general republicano que se falava. Não percebia o título, mas enfim há muitas notícias de que não se percebe o título. Até pensei que era uma peça de teatro.E depois sai-me um treinador de futebol de uma coisa chamada Vitória de Setúbal…

*
Eu percebo que não esteja a par dessas questões do futebol , que deste senhor Norton não saiba nada. Mas há aí outra questão... É que eu, além de ser do Porto - Gaia , mais exactamente, e de ser um adepto não muito "ferrenho" - que isso nunca achei justificável- do Porto ( F.C.) - já viví uns anos em Setúbal. E em muitas outras terras deste país ( prof. de mochila às costas por vários anos ). Só que nestas terras as equipas de futebol são um forte lugar e apoio da identidade das gentes , por mais insignificantes que sejam . Até, aqui, o Avintes e o Oliveira do Douro o são, naturalmente , apesar da forte concorrência dos "grandes"...
Assim, achei muito infeliz sobretudo quando diz ..que é.treinador "de uma coisa chamada Vitória de Setúbal ". Já agora acrescento que " a coisa " , caso não saiba foi este ano o Campeão Nacional, ganhando na final contra o Benfica. Outra "coisa" que vem alimentar o "ego" por algum tempo dos homens do Sado, nestas terras tão "carentes" de auto-estima e valorização...
Compreendo que isto possa ser levado para aspectos negativos do chamado "bairrismo", etc., mas acho que esta nota é importante. O mesmo diria se estivessemos falando do Braga, do Leixões ou do Guimarães ou até das Columbófilas que , não sei ainda explicar , tanta gente teima em manter activas.

(José A. Casanova)
*
No entanto neste seu artigo de opinião, julgo que foi um bocado longe demais. Sei que infelizmente se dá demasiada importância ao futebol, que ele comanda as noticias, as conversas e até as próprias vidas das pessoas.
Sei que às vezes não estamos minimamente interessado que A ou B tenham jogado, ou perdido ou que este ou aquele jogador foi negociado por valores que são um autentico atentado à dignidade de pessoas que trabalham várias horas todos os dias e que sobrevivem com o salário mínimo nacional. Mas apesar disso, julgo que foi infeliz na expressão “E depois sai-me um treinador de futebol de uma coisa chamada Vitória de Setúbal…”

Então o Vitória de Setúbal é uma coisa? Um clube de bairro não é uma coisa mesmo quando tem apenas meia dúzia de associados, quanto mais um clube com décadas de existência, vencedor de algumas taças de Portugal e que nos vai representar este ano nas competições europeias.

Por favor sr Pacheco Pereira, lá que não goste de futebol tudo bem, e até percebo, mas tenha algum respeito pelas pessoas que gostam e se apaixonaram pela modalidade, e pelo clube que devido à sua dimensão já muito fez pela promoção da cidade e desenvolvimento desportivo de jovens nas mais diversas modalidades.

(Rui Rodrigues)
*
Quando pela primeira vez li o post "TRIBULAÇÕES DE UM IGNORANTE" pensei para com os meus botões: o que é preocupante não é que Pacheco Pereira pense que uma notícia sobre o novo treinador do Setúbal diga respeito a um velho general republicano da oposição a Salazar. O que é preocupante é que para a esmagadora maioria dos portugueses uma notícia sobre o general Norton de Matos seria tomada como uma notícia sobre o novo treinador do Setúbal.
Afinal a coisa ainda é pior. Está instalada a revolta, porque Pacheco Pereira disse que essa coisa que é o clube de futebol de Setúbal era isso mesmo, uma coisa.
Estranha coisa esta a que ainda chamamos Portugal.

(António Cardoso da Conceição)

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INTENDÊNCIA

Em actualização os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO e o SÍTIO DO NÃO.

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A LER

Perez Metelo, "Vão-se embora, já saíram todos!" , Diário de Notícias, 14/6/2005

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COISAS COMPLICADAS


nas mãos de S. Jerónimo, pintado por Masaccio.

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EARLY MORNING BLOGS 517

Sê tu a palavra


1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.

2.
Só o desejo é matinal.

3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.

4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.

5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.

6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.

7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?


(Eugénio de Andrade)

*

Bom dia!

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O QUE NÃO SE PODIA TRADUZIR

O Eugénio considerava este poema de Antonio Machado o exemplo da impossibilidade da tradução:

La plaza tiene una torre

La plaza tiene una torre,
la torre tiene un balcón,
el balcón tiene una dama,
la dama una blanca flor.

Ha pasado un caballero.
¿Quién sabe por quién pasó?
Y se ha llevado la plaza,
con su torre y su balcón,
con su balcón y su dama,
su dama y su blanca flor.

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OS MEUS LIVROS QUE SÃO DO EUGÉNIO

No meio da confusão das vidas fiquei com algumas coisas do Eugénio e ele minhas. Nem ele as quis recuperar, nem eu. Ele pode-as recuperar sempre, eu dou-lhe as minhas.

Em cada livro está o seu nome, a bela assinatura “Eugénio” que ele usava há mais tempo, antes de se reduzir ao “E” que parecia um épsilon. Poucas assinaturas têm a ligeireza e a beleza desta, em que o nome se lança a partir da primeira letra, com uma força e elegância rara. Quem conhece a sua poesia, percebe na assinatura o mesmo movimento da sua voz, quase partida do nada e lançando-se para a frente de forma arrojada, voando, para se perder no “o” final, separado do resto do nome. Ponto final. Parece árabe escrito ao contrário, da esquerda para a direita.

Num Rilke francês, num Apollinaire, num Thomas Mann, num…

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13.6.05


MANIFESTAÇÃO

Tenho poucas dúvidas que o funeral de Álvaro Cunhal vai ser a maior manifestação comunista das últimas décadas na Europa. Não em Portugal, mas na Europa.

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: HOJE


(Foto de RM)

Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?

(Eugénio de Andrade)

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ELO

Entre Eugénio e Álvaro Cunhal: Eugénio tinha em muita consideração o facto da sua poesia ser lida nas prisões políticas. Disse-me mais do que uma vez, antes do 25 de Abril, que soubera com muito gosto que os seus livros circulavam nas prisões. Atribuía esse facto, que lhe teria sido comunicado numa carta ou numa mensagem com origem em Peniche ou em Caxias, ao carácter solar, pagão, erótico, dos seus versos, uma boa companhia para as sombras da cadeia e para as privações afectivas de quem deixou de ter vida livre.

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A CEIFEIRA NOCTURNA

Passou, rápida, levando a sua ração de vivos.

Levou o Eugénio, meu amigo do coração, que conheci quando, depois do Ostinato Rigore, sentia uma crise na sua poesia. As palavras tinham chegado a tal estado de depuração que Eugénio não sabia como iria conseguir escrever mais. Achava que tinha gasto as palavras, as suas palavras, o seu dizer, a sua limpidez, o seu rio interior. Falámos muitas vezes dessa usura, em longos passeios que começavam em S. Lázaro e iam mais longe que Masssarelos, junto ao rio, passando nas noites mais tépidas pelas carcaças dos barcos que faziam, num passado já antigo, a faina fluvial do Douro. Uma noite comparou-se a esses barcos meio enterrados no lodo, cinzento sobre cinzento, na pouca luz de então. Foi a música, pela música, pela música de camera, a música que era tão contida como as suas palavras obstinadas e rigorosas, pelos quartetos de Beethoven e Haydn, que se libertou para escrever de novo. Ele ouvia nos quartetos a mesma luta entre uma contenção terminal, em que as palavras se tornavam nós, e depois via-as soltarem-se na voz da música, voando para o ar, sem perder rigor, nem obstinação, mas falando. Falando com ele, falando connosco. Foi essa fala que encontrava na música que o fez de novo escrever, até que a música lhe faltou e o traiu.

Levou Álvaro Cunhal, a quem tenho dedicado muito do meu tempo, sobre o qual escrevi já mais mil e quinhentas páginas e me preparo para acrescentar muitas mais. Tinha estado a escrever sobre ele, na hora em que morreu, sem saber que morria. Terminava o capítulo em que descrevia a sua chegada a Peniche em 1956, após o longo isolamento da Penitenciária, e o misto de sentimentos entre quem começava a perceber que não iria ser tão cedo (ou em qualquer dia) libertado, embora já tivesse cumprido a pena a que fora condenado, e a alegria de reencontrar os seus camaradas mesmo na prisão. Nesse capítulo falo numa das várias formas de violência moral que a ditadura tinha, agora felizmente inexistentes porque não vivemos em ditadura, mas infelizmente também esquecidas e ignoradas. Era uma coisa tão simples e tão dramática como isto: os presos sujeito a medidas de segurança, um artificio jurídico obra de grandes juristas e professores de direito, para entregar à PIDE o controle do tempo de prisão – Cunhal, por exemplo terminou a pena em Janeiro de 1956 e só saiu da prisão porque fugiu em Janeiro de 1960 – tinham que demonstrar que não tinham “perigosidade” para poderem ser libertados. Isso significava para um comunista ter que declarar uma qualquer forma de abjuração dos suas ideias, garantir que nunca mais fazia política e se afastava do partido. Cunhal era todos os anos colocado perante esse dilema, continuar na prisão eternamente, ou abjurar frente à PIDE. Que era um verdadeiro dilema moral, um fio da navalha que cortava pelo carácter e pela personalidade, revela-se nas respostas angustiadas que deu repetidamente. Estas violências que não eram físicas mostram a face iníqua de um regime com que muita gente hoje se mostra complacente.

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À MEMÓRIA, DA MEMÓRIA

AS AMORAS


O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.


(Eugénio de Andrade)

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EARLY MORNING BLOGS 516

Édit funéraire


Moi l'Empereur ordonne ma sépulture : cette montagne hospitalière, le champ qu'elle entoure est heureux. Le vent et l'eau dans les veines de la terre et les plaines du vent sont propices ici. Ce tombeau agréable sera le mien.

o

Barrez donc la vallée entière d'une arche quintuple : tout ce qui passe est ennobli.

Étendez la longue allée honorifique : — des bêtes ; des monstres ; des hommes.

Levez là-bas le haut fort crénelé. Percez le trou solide au plein du mont.

Ma demeure est forte. J'y pénètre. M'y voici. Et refermez la porte, et maçonnez l'espace devant elle. Murez le chemin aux vivants.

o

Je suis sans désir de retour, sans regrets, sans hâte et sans haleine. Je n'étouffe pas. Je ne gémis point. Je règne avec douceur et mon palais noir est plaisant.

Certes la mort est plaisante et noble et douce. La mort est fort habitable. J'habite dans la mort et m'y complais.

o

Cependant, laissez vivre, là, ce petit village paysan. Je veux humer la fumée qu'ils allument dans le soir.

Et j'écouterai des paroles.

(Victor Segalen)

*

Bom dia!

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12.6.05


INTENDÊNCIA

Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO e o SÍTIO DO NÃO.

Actualizada a nota DAS DUAS, UMA e OS CINQUENTA MOMENTOS POLÍTICOS MAIS IMPORTANTES DEPOIS DO 25 DE ABRIL (1974-2005).

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: O MESMO FIM DE TARDE


O mesmo crepúsculo, o mesmo lento desaparecer do Sol, a mesma noite antiquíssima e lustral. Em Marte, por cima das paredes da cratera Gusev.

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EARLY MORNING BLOGS 515

"Cuando se proclamó que la Biblioteca abarcaba todos los libros, la primera impresión fue de extravagante felicidad. Todos los hombres se sintieron señores de un tesoro intacto y secreto. No había problema personal o mundial cuya elocuente solución no existiera: en algún hexágono. El universo estaba justificado, el universo bruscamente usurpó las dimensiones ilimitadas de la esperanza. En aquel tiempo se habló mucho de las Vindicaciones: libros de apología y de profecía, que para siempre vindicaban los actos de cada hombre del universo y guardaban arcanos prodigiosos para su porvenir. Miles de codiciosos abandonaron el dulce hexágono natal y se lanzaron escaleras arriba, urgidos por el vano propósito de encontrar su Vindicación. Esos peregrinos disputaban en los corredores estrechos, proferían oscuras maldiciones, se estrangulaban en las escaleras divinas, arrojaban los libros engañosos al fondo de los túneles, morían despeñados por los hombres de regiones remotas. Otros se enloquecieron... Las Vindicaciones existen (yo he visto dos que se refieren a personas del porvenir, a personas acaso no imaginarias) pero los buscadores no recordaban que la posibilidad de que un hombre encuentre la suya, o alguna pérfida variación de la suya, es computable en cero."

(Jorge Luis Borges)

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Bom dia!

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AR PURO


M. Svabinsky

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