ABRUPTO

14.2.04


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: VIVER EM DOIS PLANETAS E EM TRÊS HORAS DIFERENTES

Muito interessante texto sobre a vida dos cientistas que acompanham as duas sondas marcianas e a sua adaptação a estarem simultaneamente em três tempos diferentes. Por exemplo, agora está-se em SOL (o dia marciano) 41 , 23.41 na cratera Gusev, ou seja, está de noite e máquina parada, e SOL 21, 11.41, em Meridiani e o Sol brilha e tempo de trabalhar para a Opportunity. Se o Abrupto fosse a TSF ou a RTP nos dias “patrióticos” de Timor, com o sinal horário de Dili, devia por no blogue as horas marcianas.

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SCRITTI VENETI 6


Amanhã, quando chegar e olhar para a água da laguna sereníssima, lembrar-me-ei. Já será tarde para escrever, já não será “early morning”, mas se fosse seria assim

In winter you wake up in this city, especially on Sundays, to the chiming of its innumerable bells, as though behind your gauze curtains a gigantic china teaset were vibrating on a silver tray in the pearl-gray sky. You fling the window open and the room is instantly flooded with this outer, pearl-laden haze, which is part damp oxygen, part coffee and prayers. No matter what sort of pills, and how many, you've got to swallow this morning, you feel it's not over for you yet. No matter, by the same token, how autonomous you are, how much you've been betrayed, how thorough and dispiriting is your self-knowledge, you assume there is still hope for you, or at least a future.

(Brodsky, Watermark)

(Marcas de água, watermark, filigranas, coisas que os filatelistas conhecem. Impressas quase no limite da invisibilidade e no entanto verdadeiras marcas de posse, garantias de genuinidade, riscos subtis de pertença. Já quase não se usam.)

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POEMAS COM PRETEXTO DO DIA 1

Allégeance

Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n'est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l'aima?

Il cherche son pareil dans le voeu des regards. L'espace qu'il parcourt est ma fidélité. Il dessine l'espoir et léger l'éconduit. Il est prépondérant sans qu'il y prenne part.

Je vis au fond de lui comme une épave heureuse. A son insu, ma solitude est son trésor. Dans le grand méridien où s'inscrit son essor, ma liberté le creuse.

Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n'est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l'aima et l'éclaire de loin pour qu'il ne tombe pas?


René Char, Eloge d'une soupçonnée

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YET MORE AND MORE TIME PASSES SILENTLY


Jean-Baptiste Corot, Le Pont de Mantes

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NOTAS SOBRE AS FORMAS ANTIGAS DE SENSIBILIDADE: O HOMEM ANTIGO TUDO SABE

O homem antigo tudo sabe, tem a maldição de não ter surpresas. Ele centra-se num cânone, não numa variação. Surpresas só da natureza, não dos homens.

Os antigos sabiam que nada há de mais previsível que os sentimentos vulgares, essa espécie de relógio programado para a satisfação comum, para os prazeres pobres. Por isso é tudo tão previsível.

A ideia que as pessoas são imprevisíveis, que os arroubos sentimentais, que as mudanças, que os surtos são a essência da vida está ligada à sensibilidade moderna, de génese romântica. Emily Dickinson, que só tinha vida sentimental na cabeça, elogiou essa “surpresa”:

Surprise is like a thrilling—pungent—
Upon a tasteless meat
Alone—too acrid—but combined
An edible Delight.


Nada seria mais alheio aos antigos. Eles sabem o que atrai na “surpresa” de Dickinson: ela é profundamente desresponsabilizante, porque efémera. As palavras perdem o valor, os gestos são repetições, a usura é vaidosa, mas é usura. É o mundo das trinta moedas que Cristo, que, não sendo romano era universal, tomou como símbolo da sua traição. Também ele sabia antes o que se ia passar.

As pessoas modernas fazem exactamente, exactamente, o que se espera que elas façam. É por isso que são modernas.



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EARLY MORNING BLOGS 139

Hoje é o dia do amor liofilizado. Não demorou duzentos anos até que a paixão romântica, com o seu pathos curto, egocêntrico e intensamente artificial, desse lugar na sensibilidade moderna a uma ficção comercial do amor. A primeira (a paixão satisfeita) faz mais mal que o segundo (o marketing) , mas as coisas são como são. Para ir para outro lado, pela manhã, a conversa da noite:

Talking In Bed

Talking in bed ought to be easiest
Lying together there goes back so far
An emblem of two people being honest.

Yet more and more time passes silently.
Outside the wind's incomplete unrest
builds and disperses clouds about the sky.

And dark towns heap up on the horizon.
None of this cares for us. Nothing shows why
At this unique distance from isolation

It becomes still more difficult to find
Words at once true and kind
Or not untrue and not unkind.

(Philip Larkin)

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VER A NOITE

Augúrios. Hoje há um pássaro que canta ou que grita, minuto a minuto, no meio da noite. O que fará um pássaro cantar assim, quando ninguém o ouve?

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13.2.04


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS:: O “ESPÍRITO” E MIMI

O “Espírito” caminha para Mimi, uma rocha.
Não se admirem se a rocha responder:

Sì, Mi chiamano Mimì,
ma il mio nome è Lucia.
La storia mia è breve:
a tela o a seta
ricamo in casa e fuori...
Son tranquilla e lieta
ed è mio svago
far gigli e rose.
Mi piaccion quelle cose
che han sì dolce malìa,
che parlano d'amor, di primavere,
di sogni e di chimere,
quelle cose che han nome poesia...
Lei m'intende?


Já se viram coisas mais estranhas e a confraternidade das rochas está cheia de surpresas.

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500 HORAS AO SERVIÇO DO FUTEBOL PAGAS COM DINHEIROS PÚBLICOS


A RTP anunciou hoje que prevê transmitir entre 400 a 500 horas sobre o Euro 2004. Espantoso! Se uma pessoa se sentasse, no início do Euro 2004, numa cadeira podia estar vinte dias consecutivos, sem dormir um minuto a ver futebol. Isto num evento que dura mês e meio. E sem contar com a parte dos noticiários com futebol e o mais que se verá…
Espantosa noção de serviço público que transforma tudo o que acontece em Portugal e o mundo nuns breves momentos envergonhados, e obviamente perdidos, desse grande desígnio nacional que é o futebol. Podiam mudar o nome do país para Futebolândia e vender bilhetes à entrada.

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TOMAR-NOS POR PARVOS

O Bloco de Esquerda gosta de nos tratar por parvos. Esta semana resolveu dedicar a sua atenção aos medicamentos, às drogas terapêuticas, matéria sem dúvida nobre. Por singular coincidência, que nada tem a ver com a sua posição sobre as drogas leves, escolheu como medicamento a estudar a … cannabis. Certamente por acaso, entre mil e uma substâncias com possibilidade de terem efeitos terapêuticos, escolheu a amável erva de que se fazem uns entusiasmantes fumos. E lá veio a trupe comunicacional tomá-los a sério e contribuir para nos tomar a nós por parvos.

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES

Sobre PERGUNTAS CERTAS SOBRE AS FARMÁCIAS


Aquilo que escreveu no Abrupto sobre as farmácias fez-me lembrar a seguinte história que li há anos atrás numa publicação francesa. Uma revista de defesa dos consumidores enviou um repórter a dez farmácias. O repórter tinha um boné com o símbolo da revista e levava consigo uma pasta com o mesmo símbolo. Em todas as farmácias perguntou se venderiam produtos para reduzir o peso a qualquer pessoa que os tentasse comprar, independentemente de parecer ou não que a pessoa em questão não precisaria de tais produtos. Em todas elas lhe disseram que, caso o produto não parecesse indicado para a pessoa em questão, tentariam explicar-lhe os potenciais inconvenientes para a saúde. Em seguida, enviaram da revista uma funcionária às mesmas dez farmácias, mas desta vez sem nada na sua aparência que a ligasse à revista. Se a memória não me engana, a senhora em questão tinha 1m67 de altura e 55kg de peso. Em todas as farmácias pediu um determinado produto para emagrecer e em nove delas venderam-lho sem fazerem qualquer pergunta ou comentário. Só na décima farmácia levantaram algumas dúvidas sobre se o produto seria o mais adequado.

(José Carlos Santos)

Perguntas simples sobre o regime das farmácias:

1. A margem de comercialização é de 20%?
2. Alguém sabe quantos negócios podem aplicar uma margem deste teor?
3. È verdade que os juros cobrados pela Associação Nacional de Farmácias ao estado, pelas dívidas no pagamento das comparticipações, são de 12% ao ano?
4. Quantas vilas e aldeias deste país com menos de 5000 habitantes posuem farmácia?
5. Existe algum estudo sobre quantas farmácias corem o risco de fechar caso a lei venha a liberalizar a instalação de novas farmácias?


(M. Barrona)


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Louis Ducros

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12.2.04


SCRITTI VENETI 5

Daqui a uma semana, começa em Veneza o festival de poesia erótica em honra do poeta libertino Zorzi Alvise Baffo. A multidão dos prazeres e os cognoscenti misturar-se-ão com os “académicos”, os apreciadores de grappa e, de um modo geral, os amadores de antigas sensibilidades. São tempos de Carnaval e, num canto qualquer perdido da cidade, serão ainda tempos venezianos e não japoneses, nem americanos, nem alemães. A alma de Aretino ressuscitará, Casanova voltará a passar pelas ruas à noite. Não se recomenda.

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SCRITTI VENETI 4






Veneza , hoje de manhã, muito cedo, junto da paragem dos barcos em S.Tomá, no Canal Grande em direcção a Rialto. Cinzento.

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POEIRA

Hoje , há setenta e sete anos atrás, Virgínia Woolf descobria que tinha pouco cabelo e essa situação não se iria alterar. Virgínia escreve que, agora que não tinha mais “any claims to beauty”, havia que tirar proveito disso:

Having no longer, I think, any claims to beauty the convenience of this alone makes it desirable. Every morning I go to take up [my] brush and twist that old coil round my finger and fix it with hairpins and then with a start of joy, no I needn't. In front there is no change behind I'm like the rump of a partridge. This robs dining out of half in terrors.”

Também hoje, há cinquenta e três anos atrás, John Steinbeck inaugurou o seu novo quarto para escrever. Tudo no sítio, mesa e cadeiras confortáveis, lápis aguçado, “paper persuasive”, boa luz e …”no writing”.

Now that I have everything, we shall see whether I have anything. It is exactly that simple.”

Nesse ano Steinbeck escreveu East of Eden.

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COMO É SAUDÁVEL TER O SEU ACONCHEGO, / E A SUA VIDA FÁCIL!


Cézanne, Pommes et Biscuits

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EARLY MORNING BLOGS 138

Do outro génio, para além de Camões e Pessoa, este “Num Bairro Moderno”. Como o bom dia ficaria lá em baixo tão longe, vai dado desde aqui, e quando chegarem às “duas frugais abóboras carneiras", voltem ao príncipio.

Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estacam-se as nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.

Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama dos papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.

Como é saudável ter o seu aconchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde eu agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.

E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho de horta aglomerada,
Pousara, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a:
Pôs-se de pé; ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ela se curva, esguedelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:
«Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais.» E muito descansado,
Atira um cobre lívido, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.

Subitamente - que visão de artista! -
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!

Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma ou outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando.

E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, aos bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injectados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum belo cabelo que se ajeite;
E os nabos - ossos nus, da cor dp leite,
E os cachos de uvas - os rosários de olhos.

Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como dalguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que me lembrou um ventre.

E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vívida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

O sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me, prazenteira:
«Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!...»

Eu acerquei-me dela, sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantámos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

«Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!»
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dos excessos de virtude
Ou duma digestão desconhecida.

E enquanto sigo para o lado oposto,
E ao longe rodam as carruagens,
A pobre afasta-se, ao calor de Agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
Duma janela azul; e, com o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrelas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.

Chegam do gigo emanações sadias,
Oiço um canário - que infantil chilrada! -
Lidam ménages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.

E pitoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E, como grossas pernas dum gigante,
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras carneiras.


(Cesário Verde)


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POEIRA

Hoje, há oitenta e nove anos, Kafka queixava-se que as discussões da senhoria com um vizinho não o deixavam escrever. “Desespero absoluto”! Será que sou perseguido por senhorias que não me deixam trabalhar, pergunta Kafka?

Simone de Beauvoir, pelo contrário, não tinha que aturar senhorias. Passou este dia, há cinquenta e sete anos, a barafustar contra os costumes americanos. Beauvoir estava em Nova Iorque e irrita-se com as montras preparadas para o Dia de S. Valentim, cheias de coraçõezinhos. Os americanos “gastam o tempo” com isto, anota irritada. Ainda mais a irrita o costume de cantar “Parabéns a você” nos locais públicos. Estou com ela.

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11.2.04


FOI NAS ONDAS NARCISO PRESUMIDO


Levis Corinth, Welchen See

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES

Sobre AUGÚRIOS

No post de hoje do Abrupto: “Os antigos acreditavam nos augúrios. Nós não.”
Não acredito! Basta ver as páginas de astrologia e coisas ainda mais estranhas nos jornais! Mas como é possível dizer isso quando um professor (Boaventura Sousa Santos) numa universidade escreve um livro onde se lê:
«A ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica para a considerar melhor que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia (Um Discurso Sobre as Ciências: p. 52) Ou seja, BSS escreve preto no branco que ciência = astrologia = religião = arte.
Quando alguém escreveu contra este disparate, veio o vice-rei dos pós-modernos, o Eduardo Prado Coelho, numa defesa brilhante, dizer que «BSS pensa exactamente o contrário daquilo que está a expor... uma característica fenomenológica para a sociologia". É espantoso como se atreve a dizer».
Ou seja, o EPC diz que BSS pensa o contrário do que escreveu! Brilhante!
E ainda diz o Pacheco Pereira que nós não acreditamos em augúrios! Era bom!


(Alexandre Silva)

Sobre CLÁSSICOS

O Pacheco Pereira chama a atenção para a "sensibilidade contemporânea (…), que será muito diferente (ou distante) da sensibilidade de outros tempos. Talvez o seja. Ou talvez sejam outras coisas que mudaram, mas não a sensibilidade. Ou talvez seja sobre a noção de "sensibilidade" que se alimente o equívoco. Concordo plenamente que há hoje um apetite renovado pelos clássicos, que não é apenas uma moda mas talvez a intuição de que algures se perdeu o fio ou se emaranhou o novelo e que vale a pena recapitular o percurso para destrinçar os nós que entretanto nos confundiram.
A este propósito, ainda que aparentemente sem propósito nenhum, recomendo-lhe vivamente um livro recente: Reformation de Diarmaid MacCulloch (Penguin Books).


(Francisco de Sousa Fialho)

Sobre OS NOVOS DESCOBRIMENTOS : A ALEGRIA

Creio que a afirmação que faz no seu post (…) de que terá sido "[n]a rocha Adirondack onde foi feito o primeiro buraco jamais realizado num outro planeta" não estará totalmente correcta.
Tanto quanto julgo lembrar-me, os primeiros buracos foram sido abertos na Lua, pelos astronautas do programa Apollo, com uma broca Black and Decker sem fios.


(Paulo Alves)

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A CAMINHO DA ILHA DOS JUDEUS


John Constable, Brighton Beach with Colliers

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EARLY MORNING BLOGS 137

A névoa ainda é muita, a manhã pequena. Pessoa acordava assim na figura de Caeiro:

Todos os dias acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei-de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer cousa para eu acordar de novo.


(Alberto Caeiro)

*

Bom dia!


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AUGÚRIOS

Os antigos acreditavam nos augúrios. Nós não. A noite está cheia deles, como esta luz que está lá fora, vinda de meia lua. Tudo prepara o esplendor celeste dos grandes planetas do próximo mês, mês de todos os augúrios, o mês antes do “mais cruel dos meses”. Será certamente.

Augúrios também no brilho eléctrico do correio. O correio que ninguém transporta, o correio sem carteiro, que chega a qualquer hora. O correio da noite, o correio dos solitários, o que não traz remetente, o que vem vazio para dizer que existe, o das cartas e das cartinhas. Chegou.

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10.2.04


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: MAIS LONGE QUE NUNCA

andou o “Espírito” num só dia: 21 metros. O recorde anterior era de 7. E há mais: rugas e estrias feitas pelo vento. Pelo tempo.
Tudo aqui.

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MAIS POEIRA

Hoje, num dia muito semelhante ao meu, há 343 anos, Samuel Pepys escreveu:

Took physique all day, and God forgive me, did spend it in reading of some little French romances

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CADERNOS DE CAMUS

Actualizados

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CLÁSSICOS

Cada vez mais me convenço que a frequência dos clássicos (que é mais que a leitura) é , como se dizia numa antiga classificação de filmes, só para adultos com sérias reservas. E não é pela libertinagem pagã, pelas obscenidades, pela crueza das cenas, é pelas ideias, é pelo modo de sentir, é pelo modo de viver. Tão alheio, tão alheio, à sensibilidade contemporânea.

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PERGUNTAS CERTAS SOBRE AS FARMÁCIAS (Actualizado)

são feitas num artigo de Vital Moreira, hoje no Público sobre as razões da manutenção de um conjunto de privilégios corporativos dos farmacêuticos. Só para a pequena história acrescento que há alguns anos numa sessão de “brainstorming” no PSD, destinada a sugerir novas iniciativas legislativas, eu fiz as mesmas perguntas – porque razão só os farmacêuticos é que podem ser donos de farmácias, porque razão não é livre e concorrencial a abertura de farmácias, porque razão certos medicamentos de consumo e acesso corrente, que são suficientemente inócuos para não necessitarem de receita médica (como as aspirinas), não se vendem nos supermercados como acontece em muitos países – e deparei com uma rápida e taxativa reacção de alguns meus colegas parlamentares, como se isso fosse um tabu indiscutível. Percebi.

Nota: não é preciso ser adivinho para ver como vão surgir reacções rápidas e vigorosas ao que diz Vital Moreira.

*

Em geral as considerações de Vital Moreira sobre o regime proteccionista das farmácias são para mim indiscutíveis. Mas há duas questões que VM se esquece de referir no artigo do Público. A primeira e que viola todos os princípios básicos de concorrência é a limitação de propriedade a apenas um estabelecimento. Quer para os farmacêuticos, quer para outros que venham no futuro a ser proprietários, esta medida é manifestamente injusta. Imaginemos o que seria limitar o Sr. Belmiro de Azevedo a apenas um hipermercado. Toda a gente acharia escandaloso.
A segunda questão reside na limitação do lucro imposta, e bem, pelo Estado. Tratando-se de um bem de primeira necessidade, os medicamentos têm o preço fixado pelo estado e daí que para compensar os proprietários sejam impostos limites territoriais e de capitação. Imagine-se por exemplo aldeias ou pequenas povoações, onde a maioria da população é idosa e com baixos rendimentos. Não há por certo grande consumo de cosmética farmacêutica ou de brinquedos para bebé. Assim, o lucro da farmácia é constituído em grande parte pela venda de medicamentos em que o preço é fixado pelo Estado. Havendo várias farmácias e atendendo ao reduzido n.º de pessoas, percebe-se que dificilmente qualquer uma delas resistiria financeiramente. Por outro lado, nas grandes cidades, nomeadamente Lisboa, o problema da concorrência não se coloca, pelo menos na maior parte do território. Se não vejamos o exemplo da zona de Alvalade que na mesma rua tem cinco farmácias.


(Ricardo Sousa)


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NOTAS SOBRE AS FORMAS ANTIGAS DE SENSIBILIDADE: IMITAÇÃO

Na muito interessante carta que Rui Oliveira ( do Superflumina) me enviou acrescenta, numa parte que não publiquei anteriormente, o seu “enorme fascínio” pelo “conceito de imitação” clássico. Acrescenta

Os românticos, na ânsia da originalidade, deitaram este conceito ao opróbrio, mas quanto mais se lê a literatura que vai do séc. XV ao XVIII, podemos ver como esse conceito era essencial para a produção de uma obra original.”

Nestas notas sobre formas antigas de sensibilidade, no fundo, sentimentos em extinção ou extintos, o valor da “imitação”, com o seu sentido do cânone da palavra poética, sistematicamente repetido e recriado, a caminho de uma ideia de perfeição formal, traduz também um mundo no qual a tradição e o respeito pelo adquirido antigo eram uma pedra sólida para o presente e para o futuro. Como muita coisa que os românticos, pais da sensibilidade contemporânea, estragaram, está esse sentido de continuidade e permanência, assim como a dura disciplina, do “fabbro”, da “fabricação” criativa.

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS : A ALEGRIA

O sítio da NASA onde são apresentados para o grande público os resultados dos trabalhos das sondas marcianas transpira da alegria da descoberta. Os títulos – como por exemplo “Spirit Self-motivates” ou “Opportunity Views of a Rock Called Stone Mountain” – são o retrato dessa alegria dos cientistas que estão à frente de um projecto que está a correr muito bem, em que cada dia há novas surpresas. Por exemplo, ontem, porque é que a rocha Adirondack onde foi feito o primeiro buraco jamais realizado num outro planeta, parece ter sido queimada a maçarico? Não era suposto.
Deve-se dormir pouco de entusiasmo na Califórnia.

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SOL IMUNE ÀS LEIS DA METEROLOGIA


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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES

Sobre NOTAS SOBRE AS FORMAS ANTIGAS DE SENSIBILIDADE


Quanto as formas de sensibilidade propriamente ditas, por exemplo, lembro-me muito bem de um videograma da Universidade Aberta da responsabilidade de Júlio Machado Vaz com o título, salvo erro, "Pedagogia Homossexual na Grécia Antiga". Essa forma de educação chocaria tremendamente a sensibilidade moderna.

Mas, o poema de Estratão de Sardes que publicou levou-me a escrever (…)

A tradução de Marguerite Yourcenar não é esclarecedora acerca do sexo do escravo:

Jeune esclave

Si tu ne savais rien, j'hésiterais peut être / Mais tu reçus déjà les leçons de ton maître, / Il s'endort près de toi aussitôt contenté.
/ Moi, je t'offre l'amour, la tendre intimité, / Le rire, le propos qui succède au baiser, / La douce liberté, parfois, de refuser.

Mas conhecendo outros poemas de Estratão, não é difícil prever que será um escravo e não uma escrava. Obviamente não conhecendo o grego é-me difícil ter uma opinião definitiva sobre o assunto. No entanto, se houve, efectivamente, na tradução portuguesa, uma alteração ao sexo é algo que, na história da tradução, foi recorrente por vários motivos (nomeadamente morais), mas que também hoje em dia (por motivos politicamente correctos) também acontece. A tradução também tem a sua ideologia.

Lembro-me por exemplo das traduções que conheço do poema 16 de Catulo (sem dúvida um génio, mas com muitos poemas que ainda hoje escandalizariam muitas pessoas). O primeiro (e último também, pois é repetido) verso "Pedicabo ego uos et irrumabo" é traduzido, na edição das Belles Lettres que tenho(de 1982, mas 1.ª edição 1923), por "[Je vous donnerai des preuves de ma virilité]". Tenho presente que Jorge de Sena traduziu este poema sem traduzir este verso, deixando-o assim mesmo no início e no fim do poema. A única tradução explícita que tenho do poema é brasileira, feita nos anos 90 (penso eu).

Há, por assim dizer, um certo pudor que se manteve até há muito pouco tempo. Em 1789, Miguel do Couto Guerreiro fez uma tradução de Ovídio cujo título começava assim "Cartas de Ovídio chamadas Heroides, expurgadas de toda a obscenidade, e traduzidas em Rima vulgar."

Na "Prefação" a esta tradução, o tradutor escreve:

"Ninguém espera as palavras e frases do Autor: essas no original as tem; o que se espera na Tradução é o conceito que essas palavras e frases significam, expresso com energia e elegância. Contudo, acharás que em alguns lugares não concorda o meu sentido com o do Autor: assim sucede todas as vezes que ele se faz indigno dessa concórdia. Os bons costumes clamavam que ou omitisse totalmente o que o Autor dizia nesses lugares, ou o suprisse com pensamentos honestos e decentes. Algumas vezes omiti, onde o sentido não ficava mutilado; porém, onde ficava, supri com pensamentos próprios, querendo antes que nesta parte me culpasses de infiel, que de imitador. Lembrou-me mandar imprimir esses lugares com diversa letra, mas também me lembrou que isso mesmo excitaria a curiosidade de alguns leitores, para que os fossem ver no original, e é melhor livrá-los desse trabalho."

No entanto, como digo, neste caso não sei se a tradução que apresentou tem algo a ver com esse pudor. Mas é sempre interessante verificar estes casos (é claro que a partir destas afirmações pode fazer-se bastantes outros comentários sobre a tradução, mas fica para outra altura).


(Rui Oliveira , Superflumina)


Sobre OS NOSSOS OLHOS MARCIANOS

"Tenho acompanhado a missão da Opportunity e da Spirit nas últimas semanas, mas não estava mesmo à espera da imagem com que me deparei pela primeira vez no Abrupto, tirada pela Opportunity do seu pára-quedas e parte do escudo térmico a alguams centenas de metros de distância.

Não é estranho ter este robô em Marte a tirar fotografias de 360º em sua volta e perceber que os únicos indícios de "vida" são os nossos próprios vestigios? Isto é, olhar em redor e só vermo-nos a nós próprios, reflectidos nos aparelhos e mecanismos usados para ali chegar? Admirável."


(Pedro)

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EARLY MORNING BLOGS 136

Voltaram as andorinhas. Aproxima-se a Primavera, a estação de todos os enganos.

A manhã continua química. Em sua honra este elogio ao “mais prático dos sóis”:

Num Monumento à Aspirina

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda a hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia...


(João Cabral de Melo Neto)

*

Bom dia!

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9.2.04


OS NOSSOS OLHOS MARCIANOS



Olham da “Oportunidade” para trás para verem o para quedas e o invólucro que a trouxeram. Longe, a “Oportunidade” emancipou-se, já está noutra.

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NOTAS SOBRE AS FORMAS ANTIGAS DE SENSIBILIDADE

A uma jovem escrava

Fosses tu ainda inocente talvez reconsiderasses antes de te falar
Há tempos no entanto que recebes lições do teu amo
que adormece a teu lado mal o deixas satisfeito. Eu ofereço-te o
amor a terna intimidade o riso e essa suave conversa que
prolonga o acto da carne. A doce liberdade (se assim o
entenderes) de não aceitares nenhuma destas coisas.


(Estratão de Sardes)

A tradução do poema é de Jorge Sousa Braga. Recordo-me , embora não possa agora verificar que, na versão de Yourcenar, não era uma “jovem escrava” , mas “um jovem escravo”. O poema de Estratão faz parte de uma antologia de poemas intitulada posteriormente Musa puerilis, ou seja uma série de poemas pedófilos, e foi recolhido nalgumas versões da Antologia Palatina e censurado noutras. Johann Jacob Reiske, um grande helenista alemão do século XVIII, dizia do vício de Estratão : Computrescat in illo coeno qui animum ad meliora nequit attollere.

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THE DAY / TURNED AND DEPARTED SILENT


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ESTADOS DO CORPO

O autor do Abrupto está um pouco febril, um pouco "tocado", como se diria no século XIX e na Montanha Mágica, e teve que cancelar todos os compromissos itinerantes. Das duas, uma: ou o blogue fica em serviços mínimos, ou então beneficia dessa vaga perturbação corporal. Se começar a delirar, então desliguem tudo.

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EARLY MORNING BLOGS 135

Todas as manhãs esqueço "my morning wishes", para acompanhar a pressa dos dias:

Days

Daughters of Time, the hypocritic Days,
Muffled and dumb, like barefoot dervishes,
And marching single in an endless file,
Bring diadems and fagots in their hands.
To each they offer gifts, after his will,--
Bread, kingdoms, stars, or sky that holds them all.
I, in my pleach?d garden, watched the pomp,
Forgot my morning wishes, hastily
Took a few herbs and apples, and the Day
Turned and departed silent. I, too late,
Under her solemn fillet saw the scorn.


(Ralph Waldo Emerson)

*

Bom dia, às primeiras luzes, que passarão também depressa.

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8.2.04


POEIRA

O tempo que nos chega como poeira de actos. Ontem, em 1856, Tolstoy teve uma enorme discussão com Turgenev. Os dois homens não gostavam por aí além um do outro, embora, como se dizia na época, se frequentarem. Tolstoy escreveu no seu DiárioTurgenev é muito aborrecido” . Em casa de Tolstoy , Turgenev dançou um can-can para os filhos do anfitrião. “Triste can-can” escreveu Tolstoy.

No campo de concentração de Bergen-Belsen, hoje, em 1945, Abel Herzberg dependurou o casaco num armário para depois descobrir que lhe tinham roubado os botões. Há sítios onde tudo é precioso.

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PELA PRIMEIRA VEZ







Um buraco perfurado numa rocha marciana. Como seria o som? Nós temos lá olhos, mas não temos ouvidos, e Marte tem uma atmosfera ténue, mas existente. Logo, deve ouvir-se alguma coisa. Haverá eco? Haverá outros sons que ninguém previu? Rugidos do interior, silvos do vento, rochas a caírem. Sons de alegria ou tristeza? De medo ou de curiosidade? E a broca? Que enorme estranheza deve ter sido...

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WORLDS - A FLOOD


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EARLY MORNING BLOGS 134

Abro as portas matinais do Abrupto com este poema de Emily Dickinson:


"Morning" -- means "Milking" -- to the Farmer --
Dawn -- to the Teneriffe --
Dice -- to the Maid --
Morning means just Risk -- to the Lover --
Just revelation -- to the Beloved --

Epicures -- date a Breakfast -- by it --
Brides -- an Apocalypse --
Worlds -- a Flood --
Faint-going Lives -- Their Lapse from Sighing --
Faith -- The Experiment of Our Lord


E não é preciso nada mais. Bom dia!

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DIAS DE IMPERMANÊNCIA

Sem âncora. Soltos, sem pouso, sem pensamento. Aviões, barcos, carros. Ar, terra e mar, Marinhagem em cada porto. Chegar e partir, chegar a partir. Faces, de passagem. Quando é que ao judeu errante Deus perdoa não lhe ter dado água?

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© José Pacheco Pereira
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