ABRUPTO

31.1.05


A MAIS ENVIESADA DAS COBERTURAS TELEVISIVAS DAS ELEIÇÕES NO IRAQUE

Não valia a pena a RTP enviar um correspondente (Luis Castro) ao Iraque porque ele foi para lá com ideias feitas, atacou a realização de eleições por todos os meios, fez todas as previsões erradas, – que podia fazer de Lisboa porque elas são as suas opiniões e não factos –, e depois, encravado e atrapalhado nas suas infundadas previsões dos acontecimentos, trata de fazer um reporting sistematicamente enviesado para se justificar. Uma linha de continuidade: as eleições nada significam, nada importam. Não é jornalismo é ideologia.

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: MAIS BELEZA INTRIGA A BOLINHA



- Por que é tudo tão bonito? É só ligeireza? É só gravidade? Porque é que ele tem um anel? É para mim?

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BIBLIOFILIA: VIOLÊNCIAS E FILOSOFIA





Richard Greene (Ed.) , The Sopranos and Philosophy. I Kill Therefore I Am, Open Court Publishing Co., 2004

James Tatum, The Mourners Song : War and Remembrance from the Iliad to Vietnam, The University of Chicago Press, 2004


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VOTO E DIGNIDADE





Votar, como nós deviamos saber com clareza depois do 25 de Abril, dá a cada um a dignidade de poder decidir. A dignidade conquistada pelos homens e mulheres do Iraque, atribulado que fosse o caminho, pertence-lhes inteiramente, até porque a conseguiram vencendo o medo. Não estava lá Saddam, mas o medo estava. E foi vencido. Não foram os americanos que o venceram, mas os iraquianos, mas todos os que contribuiram para este sorriso e para este dedo marcado de azul, só podem sentir alegria.

(Foto do New York Times)

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COISAS SIMPLES



(Harriet Backer, Chez Moi.)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: ÁRVORES

(...) no Porto passamos de 4 para 242 árvores classificadas de interesse público.
O nosso pedido feito em Janeiro de 2004 foi aceite e veio finalmente no Diário da Republica a lista (e o mapa da sua localização) das novas árvores classificadas. Assim os metrosíderos da Foz, as palmeiras e araucárias do Passeio Alegre, as magnólias de S. Lázaro, a ginkgo das Virtudes, o Jacarandá do Viriato,a araucária e os plátanos da Cordoaria estão classificados e desramar, podar, cortar, estragar estas árvores é (em princípio) mais difícil e a lei poderá punir!
Estamos contentíssimos. Contentes que nem cucos ... em cima des árvores.

(Manuela D.L Ramos dos Dias com árvores)

*

Parabéns! Não estraguem as árvores com tanta festa...

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EARLY MORNING BLOGS 418

A lucidez perigosa


Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.

Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu antes.

Pois sei que
– em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade –
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.


(Clarice Lispector )

*

Bom dia!

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: PARA CIMA DE VIANA ...



(Fátima Simões)

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30.1.05


CRISE DE REPRESENTAÇÃO (3)


1.

O que se passou nos últimos dois dias na campanha eleitoral do PSD por responsabilidade directa de Santana Lopes, as afirmações baixas nos comícios, o cartaz sub-reptício cheio de insinuações sobre quem é que os portugueses conhecem ou desconhecem, um mundo de insinuações morais transformado em campanha eleitoral, levantam a suspeição sobre se não haverá uma campanha organizada de boatos que sirva de pano de fundo a esta guinada de campanha negativa tão pouco habitual em Portugal.

2.

É tudo demasiado grave e está a atingir um nível de insuportabilidade que todos, a começar pela gente séria e honesta do PSD, sentem indignação. Entre ontem e hoje muitas mensagens que recebi têm esse tom de revolta: “ponto de saturação”, diz-se numa delas.

Creio que se chegou ao ponto de saturação acerca do 1º ministro português em exercício (!!!). Acabou-se. Não vou perder nem mais um minuto a debruçar-me sobre o que ele disse e o que fez e por onde andou. Os limites foram já ultrapassados por mais de uma vez.” (E.P.)

Sou militante do PSD há 30 anos (…) , resolvi dar um grito de revolta. Basta. “ (O. M.)

E há muitas mais e mais duras.

3.

Muitos eleitores simpatizantes do PSD e muitos militantes, a quem não passa pela cabeça votar PS, dizem que se vão abster ou votar em branco. Nunca se conheceu uma situação destas no partido e no seu eleitorado.

4.

Há pelo menos uma coisa positiva que se pode fazer: ter as cotas em dia. Vai ser preciso.

5.

Voltaremos aqui.

PS. - Há alguma controvérsia sobre se são "cotas em dia" ou "quotas em dia". As duas palavras são usadas e uma consulta ao dicionário revela que ambas têm sentido idêntico. Salvo melhor opinião, fica para já "cotas" cujo uso é mais corrente.

*
Relativamente ao uso dos termos "cota" e "quota", gostaria de lhe dizer o seguinte:
1. Embora, actualmente, os dicionários refiram a sinonímia entre "cota" e "quota", quer-me parecer que essa identidade de sentido advém do mau uso que tem sido feito de um e outro termo.
2. Aprendi, no meu tempo de escola, que são coisas diferentes e as "quotas" a que se referiu são mesmo "quotas", isto é, com "q".
3. É que esta "quota" não se confunde com a outra "cota", a qual também significa "peça de armadura, nota ou referência à margem de um livro, parte oposta ao gume de instrumento cortante", o que é substancialmente diferente de "quota" entedida como "quinhão, prestação".
4. Esta última explicação é, aliás, a que consta do Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, 24ª edição, de Magnus Bergström e Neves Reis, da Editorial Notícias, página 248.
5. Creio, pois, que o correcto é escrever-se "quota" no sentido em que o empregou para se evitarem as confusões.
(Sérgio de Almeida Correia)

Actualização: não é habitual no Abrupto fazer pesar o espaço do ecrã com muita correspondência de carácter exclusivamente político. Neste caso abre-se um excepção para se perceber melhor como as coisas se estão a passar. Embora as cartas (uma pequena amostra) sejam publicadas com iniciais, todas são de leitores identificados.

*
Entre a minha casa e dos meus Pais somos quatro eleitores simpatizantes do PSD, dos quais dois não falham uma eleição vai para trinta anos, sendo que os outros têm sido mais intermitentes. Desta vez por obra e graça de PSL podem desde já contar com uma abstenção e três votos brancos. Por cá é aceite que o PSD pelos seus princípios e bases programáticas vale muito, mas não é indissociável do que alguém a cada momento quer fazer dele.

(JCB)

*
Pelo pouco que valha, sou o militante (...) do PSD mas nestas eleições, com grande desgosto e angústia, não sou capaz de votar no meu partido.

Não posso, sequer, conceber que o meu voto sirva de justificação para o actual presidente do partido se possa manter nesse cargo após as próximas eleições, se julgar que obteve uma "derrota honrosa" ou qualquer outro resultado que considere menos mau.

Votar no PS, para mim, nunca seria alternativa. Não me parece que o Eng.º Sócrates seja muito melhor, ou muito diferente do Dr. Santana. Para além disso, traz com ele toda aquela gente do guterrismo que já governou o país com os resultados que são de todos conhecidos.

Em circunstâncias normais, perante a quase impossibilidade de votar no meu partido, votaria PP. Contudo, apesar da boa imagem que deram de si no governo (por comparação com a péssima imagem dada pelo PSD nos últimos meses), esse partido não deixa de ser liderado pelo mesmo Dr. Paulo Portas do Independente.

Perante este cenário, vejo-me forçado a votar em branco. Mas não perco a esperança. Sei que o PSD tem quadros de grande competência, tem gente muito capaz, que neste momento está afastada das cúpulas partidárias. Espero que as próximas eleições, pelo menos, sirvam para permitir a ascensão dessas pessoas, a bem do partido e do país. Porque sei que o PSD não deixa de ser um partido indispensável na nossa democracia e o único capaz de fazer as reformas de que o país tanto precisa.
(RP)

*
O que pretendem as pessoas do PSD que, por terem chegado a um ponto de saturação, como dizem, se vão abster? Logicamente o PS no governo com maioria absoluta. Pensarão essas pessoas que José Sócrates é melhor e vai governar bem? Governar bem é tomar as medidas difíceis mas necessárias que o País precisa a longo prazo. Será a memória das pessoas tão curta que já esqueceram o que foi o Guterrismo? Facilitismo e governação à vista (por sondagens) a curtíssimo prazo, medo (pânico) de qualquer manifestação e cedências constantes a todos os grupos organizados. Distribuição de milhões a rodos para calar qualquer crítica, jobs for the boys, e, no final, uma saída em passo acelerado pela porta das traseiras que a crise vem aí, e quem vier atrás que feche a porta. E agora querem mais do mesmo? Como diz MRS, Sócrates é Guterrismo de segunda. Não há ponto de saturação nem nada que justifique a abstenção. Se há gente capaz dentro do PSD, então o que é preciso é que essas pessoas cheguem à governação. O 1º ministro até pode ser ignorado.Quem tem influência no partido que se chegue à frente.
(JAL)

*
Como muitos outros militantes do PSD e que sempre votaram no Partido, mesmo quando as dúvidas eram muitas, caso das últimas eleições para a CM de Lisboa, o meu voto será em branco, pela primeira vez. Apesar das vozes discordantes que me dizem que será dar a vitória a um PS que neste momento é, parafraseando Sir W.S. Churchill, um enigma envolto num mistério, (como vai cumprir?! o que prometeu?), não me é possível votar na proposta do PSD. Aliás, em caso de reincidência, do presidente eleito, para a CML (vai ver), o meu voto será no mesmo sentido.

Como tenho contactado com outros militantes da mesma área, a confusão é enorme e mesmo os que estão mais inclinados a votar CDS/PP (acho que vai eliminar esta sigla nos tempos mais próximos, com a mesma cara que lhe deram os genes) encaram seriamente a hipótese de votar branco. A maioria absoluta vai ser alcançada com a abstenção de muitos.
(JJN)

*

Ao ler o seu blog, senti a necessidade de reforçar a ideia e de lhe confessar o seguinte (e é a primeira vez que conto isto a alguém): tenho 34 anos, nunca me abstive em nenhuma eleição e sempre votei PSD - apesar de não ser militante.

Assim se vê que sou um eleitor típico do PSD, que vota apenas com a sua consciência e sem a "obrigação" de obedecer a qualquer disciplina partidária. No entanto, sendo certo que não votarei nas próximas legislativas noutro partido, repugna-me agora votar PSD...

Talvez acabe por votar PSD, na medida em que esta eleição vai eleger um parlamento que há-de continuar para além desta liderança. Ou seja, talvez vote no escuro - talvez vote PSD na expectativa de que há-de vir outra liderança e que, essa liderança vindoura terá mais dificuldades se o PSD tiver obtido uma votação vergonhosa (o que o meu voto não irá impedir)...Mas, sinceramente, ainda não me decidi...

Feito este desabafo revoltado, desiludido e politicamente magoado, espero contribuir para que quem se preocupa com o partido possa fazer o diagnóstico político/sociológico da actual situação...E estou em crer que, como eu, muitos mais eleitores enfrentam o mesmo dilema...
(JMF)
*

Tenho seguido com muita atenção as suas notas sobre a "Crise de Representação", pelo simples motivo de me parecem mais representativas do estado de alma de muitos de nós, do que a simples condição miserável a que chegámos, de termos que escolher entre o Dr. Santana Lopes e alguém que tem tanto de Guterrismo de segunda como de Santanismo recauchutado.

Neste momento, é imperioso manter a cabeça fria e a visão límpida! Todos reconhecemos que o Dr. Santana Lopes não é o tipo de líder que precisávamos, mas o Dr. Jorge Sampaio também não é o tipo de Presidente da República que o país precisava... E qual é o tipo de Presidente da República que o país precisa? A eleição do próximo "Presidente da República" é uma "variável" sob o nosso controlo? Não me parece; por outra, é mais prudente não contarmos com isso.

A pergunta impõe-se: por causa de um problema interno mal resolvido, vamos hipotecar o futuro do país durante pelo menos mais quatro anos? Será que "dar um tiro num braço" para chamar o partido à realidade/Terra (abstenção/votos em branco), não é TUDO o que o PSD podia fazer de pior pelo futuro do nosso país? Não será isto o cúmulo do NOSSO egoísmo?

Ao contrário do que alguns dos leitores do Abrupto consideram, não me parece que o refúgio na abstenção/voto em branco seja uma demonstração de força das bases do partido; parece-me sim uma falta de força vital/regenerativa preocupante/doentia e que me parece completamente afastada da realidade.

... Uma verdadeira posição de força das bases do partido, é conseguirmos o melhor resultado que nos fôr possível conseguir nas próximas eleições. Vamos precisar desse resultado para não dependermos do Presidente da República (seja ele quem fôr) para derrubar um governo PS caso haja essa necessidade. Posição de força é mobilizarmo-nos JÁ e estarmos preparados para no dia 21 de Fevereiro, tenha o PS maioria absoluta ou não, tenha a coligação PSD/PP maioria absoluta ou não (algo que acho que está a ser substimado), apresentarmos 2.500 assinaturas para convocarmos um Congresso Nacional extraordinário o mais rapidamente possível!

Diga-me, já que conhece o funcionamento do partido melhor que eu... Mesmo no caso de um Congresso Nacional extraordinário, os órgãos nacionais do partido têm capacidade de influência significativa na eleição dos Delegados? Se tiver, temos que mudar isso rapidamente e cada um de nós vai ter que trabalhar activamente para evitar que tal aconteça; se não tiver, tanto melhor.

(HJBA ( militante n.º...))

*
Aparentemente muitos, e o próprio JPP, têm vindo crescentemente a defender – no mínimo, a divulgar – a ideia que, de tão mau que é Pedro Santana Lopes, tudo lhe é preferível. Quando digo tudo, digo uma maioria absoluta do PS, uma maioria relativa do PS ou, no limite, uma coligação maioritária da esquerda (tradicional).

Não sendo um admirador de PSL, pelo contrário, tenho fundadas dúvidas que tal corresponda à realidade, e tenho inequívocas certezas do quanto inverdadeiro é, se olhar ao estrito interesse do país. Assim, leio a “animosidade” eleitoral do PSD para com o actual Primeiro-Ministro como reflexo de apreciações meramente político-partidárias, as quais – considerando a fase aguda de desenvolvimento económico e social que o nosso país atravessa – deveriam merecer reflexão noutro tempo e noutro espaço.

E a propósito desse outro espaço, interessaria mais tarde perceber porque elegem os militantes do PSD dirigentes em quem os eleitores do PSD não votam. E que consequências daí resultam para aqueles, e que responsabilidades políticas efectivamente se apuram. Mesmo para aqueles que, por comodidade e/ou omissão, se demarcaram da eleição da actual direcção do PSD.

(JM)

*
Para onde vamos como país? Cheguei a um ponto que não sei o que fazer. As alternativas não são nada atraentes. Votei sempre no PSD (tenho 42 anos) mas desta vez não posso, porque não aguento tanta inabilidade, tanta incompetência e tanta demagogia. Não suporto pessoas que se estejam sempre a culpar os outros de tudo de mal que acontece e em permanente vitimização. Mas então que fazer? Votar no PS? Não, nunca, ainda tenho memória e lembro-me bem do "pantano". Nos partidos mais à esquerda? Nem pensar, o que ouço faz-me crer que seria desastroso se algum deles tivesse acesso ao poder através de uma eventual coligação. No PP? Não, a sua inflexibilidade em relação ao aborto seria suficiente, mas o pior é que o Sr. Paulo Portas já mostrou que pode quebrar o acordo com o PSD o que mostra que é capaz de tudo e tem um profundo apego ao poder, que nem sequer nos deve deixar admirados pois já sabiamos. Estando a abstenção fora de questão, por me sentir moralmente compelido a votar sempre, a alternativa é o voto em branco. Mas assim, será sempre mais um prego para o caixão onde o PSD está metido, pois a sua derrota é certa, só não sabemos a dimensão da mesma. Como chegamos até aqui? Somos um povo assim tão mau que dele não consegue emergir uma alternativa credivel para governar o país?
(RBM)

*
Sou mais um simpatizante do PSD que não se sente representado. Desde que voto, há 12 anos, intercalo votos em branco com votos no PSD. Não sou militante, mas sempre me identifiquei desde que me conheço com o Partido Social Democrata. Cresci a admirar Cavaco Silva, hesitei com a liderança de Fernando Nogueira, fui solidário com Marcelo Rebelo de Sousa, apoei Durão Barroso e desprezo Santana Lopes.

Não admito votar PS. Já me passou pela cabeça, o que é em si mesmo grave, mas não o farei. Serão governo, talvez com maioria absoluta, mas não com o meu voto. Não votarei PP. Já me passou pela cabeça, o que é em si mesmo grave, mas não o farei. Agora faz-se passar a ideia de que tiveram bons ministros. Mas na minha área profissional, não posso esquecer Celeste Cardona, a pior ministra da Justiça que este país já teve. O Bloco de Esquerda não é hipótese. Já me passou pela cabeça, o que é em si mesmo grave, mas não o farei. A ideia de um governo PS refém dos deputados do BE é assustadora.

A aparente solução seria votar em branco. Mas isso não contribui para o essencial nestas eleições. Santana Lopes tem de ser esmagado, para ir embora (não sendo um dado adquirido que vá embora, mesmo esmagado). Ora o voto em branco não contribui para esmagamento de PSL, porque não é contabilizado em termos de percentagem juntamente com os votos válidos. Ou seja, não torna o resultado do PSD pior. A única solução, embora pareça politicamente irresponsável, é escolher aleatoriamente um dos partidos pequenos sem hipótese de representação parlamentar. Não é um voto inútil porque conta para a aferição dos resultados e, na sua ínfima proporção, piora o resultado do PSD.

É esta a minha opção. Esperemos que após as eleições o Partido volte a ser liderado por gente competente.
(SMP)

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NATURAL CONTENTAMENTO

dos que são democratas com a corajosa participação eleitoral no Iraque contra a morte e o terror.

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BIBLIOFILIA


Um bom exemplo do amor pelos livros: a colecção de postais com fotografias da Biblioteca Pública de Braga. Imagens de livros, imagens da biblioteca, imagens de estantes, de Ana Carneiro.

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OUVINDO MENDELSSOHN


As Sinfonias para cordas pela English String Orchestra.

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COISAS SIMPLES


Kuzma Petrov-Vodkin

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EARLY MORNING BLOGS 417

Vive


Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.


(Alberto Caeiro)

*

Bom dia!

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A LER

Este artigo de Ana Sá Lopes no Público.

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DE REGRESSO

em breve.

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28.1.05


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: MIMAS, A BOLINHA



- O que é aquela bolinha, mãe?

- Um planeta, uma lua, uma lua de Saturno.

- Porque é que Saturno é tão grande?

- Para comer a bolinha.

- E ela não tem medo?

- Não, porque ainda falta muito tempo.

- No Capuchinho Vermelho era mais rápido.

- Mas isso é uma história. Aqui é verdadeiro, daqui a muito tempo a bolinha cairá na boca de Saturno.

- E não aparecem os caçadores a salvar a bolinha?

- Não. A gravidade manda nos caçadores. A vida é difícil. O lobo é mesmo mau.

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GRANDES NOMES: "FERNWEH"

Para mim a palavra alemã mais bonita é "fernweh", que significa literalmente "dor [weh; no sentido de falta/ausência de algo] da distância [fern]", isto é, desejo premente de partir para longe, ou nostalgia em relação a um lugar distante. É uma prima da "saudade" portuguesa.

(Jaime Monteiro)

Nota: para mim, em alemão, é "Heimatlos", uma explicação fica para depois.


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CRISE DE REPRESENTAÇÃO (2)

1.

Em quem é que eu voto? É a pergunta que mais me fazem. É a pergunta que mais me faço.

2.

Já tive mais certezas do que as que tenho hoje. Há quem pense que é muito simples: critica Santana Lopes, não pode votar no PSD. (De passagem, a mesma crítica não é feita aos "renovadores" que dizem ir votar no PCP, ou aos socialistas que disseram cobras e lagartos de Sócrates e vão votar PS, ou aos bloquistas que vão votar PS. A economia da coerência como arma de critica ad hominem é sempre para os outros...) Mas eu estou em oposição a Santana Lopes e não ao PSD, cujo papel na democracia portuguesa continuo a considerar vital. Seria mau para Portugal que Santana Lopes voltasse a ser Primeiro-ministro, mas seria péssimo que o PSD perdesse o seu papel único no sistema político português. Continuo a pensar que, após a ultrapassagem deste epifenómeno, que não será fácil nem pacífica, o PSD pode reencontrar o seu papel de único partido por onde passam (e passaram) todas as reformas que Portugal precisa. O futuro do PSD diz-me respeito como seu militante e não conto alhear-me dele e por isso uma fina linha de navalha de decisão me pesa. Não se pode ficar de bem com todos. Acontece.

3.

Se Sócrates chegar ao poder - como um infeliz cartaz da JSD e múltiplas declarações de Santana Lopes e Miguel Relvas todos os dias nos dizem que vai acontecer - será o retorno ao adiamento medíocre e dourado. Todos sabem o que penso do guterrismo, não vale a pena repeti-lo. Mas convém ficar claro que se Sócrates chegar ao poder, o primeiro responsável é Santana Lopes. Não é único, Durão Barroso e os unanimistas do PSD que batem palmas a tudo para reservar o seu pequeno lugar, também têm responsabilidades. Mas nunca ninguém enterrou o PSD numa crise de credibilidade tão grande como Santana Lopes, nunca ninguém dividiu o partido tão esterilmente como Santana Lopes. Houve quem dissesse há muito tempo que ia ser assim, desde o tempo da Cadeira do Poder.

4.

Há também responsabilidade nos poucos que podiam pelo menos ter tentado fazer-lhe frente, há cinco meses e agora. A tese que, para derrubar Santana Lopes, é preciso que ele perca as eleições, pode ser boa para os candidatos à sua sucessão, mas é péssima para o partido e má para o país. Fique no entanto a saber-se que muito foi tentado, felizmente sem vir para as páginas dos jornais, para que tal acontecesse. Houve muita gente que não ficou sentada e que tentou. Falhou, mas também não é verdade que muitos militantes, entre os quais me incluo, não tenham tentado persuadir, convencer, sem sucesso.

5.

A favor dos que não avançaram antes, mas o vão fazer a 20 de Fevereiro, há que ter consciência das dificuldades, dos tempos demasiado curtos, dos momentos desfavoráveis, da aceleração com que tudo ocorreu, e da degradação de muitas estruturas do partido que, desde que não lhes mexam nos lugares dos seus dirigentes, aceitam tudo e perdem o sentido do interesse nacional. Neste ciclo de pressa, Durão Barroso tem muitas responsabilidades, porque podia ter sugerido uma sucessão pelo governo, dando tempo ao partido para encontrar uma solução sem ser sob pressão e encomenda.

6.

Dito isto, fique bem claro que o PS não é alternativo aos males do PSD. Isto está de tal modo rasteiro que convém também dizê-lo explicitamente. Lembro a alguns meninos sem memória que quando eles andavam em hotéis a fazer acordos com o engenheiro, ou quando no PSD muitos se acomodavam à inevitabilidade do estado de graça permanente de Guterres e actuavam como se estivessem em bloco central para os empregos, eu fui sempre um duro crítico do guterrismo muitas vezes solitário. Quem criticou a divisão entre PS e PSD dos lugares nos conselhos de administração de algumas importantes empresas, quem criticou a venda da Lusomundo à PT, quem criticou as re-nacionalizações por via das golden shares, quem criticou a passagem dos orçamentos do PS? Não foram alguns dos patriotas da camisola dos dias de hoje.

7.

Discordo por isso em absoluto da posição de Freitas do Amaral no plano político. Insisto: no plano político, porque quanto ao plano moral, os discípulos do dr. Portas são os últimos que têm autoridade para o criticar, dado que a sua casa é o melhor exemplo do oportunismo em estado puro, com a agravante de ser exibido com arrogância e hipocrisia. Freitas do Amaral tomou uma posição de consciência, pouco fácil para quem foi o que foi e é o que é. Merece respeito por isso e discordância política.

8.

Voltaremos aqui.

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27.1.05


OUVINDO


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VÁRIOS GRANDES NOMES

O rock progressivo, arte musical que os anos 70 solidificaram, contêm inúmeras bandas, cujos nomes ficam na história como misto de humor e ironia. Ficam aqui alguns: Banco del Mutuo Soccorso (Itália), Consorzio Acqua Potabile (Itália), Debile Menthol (Suíça), Ego on the Rocks (Alemanha), Sleepytime Gorilla Museum (USA), Recordando o Vale das Maças (Brasil), Moving Gelatine Plates (França), La Confrerie des Fous (França).

No nosso rectângulo, lá para as bandas da Guarda, apareceu na década de oitenta, um corajoso grupo de amigalhaços que das malhas liceais de um rock de garagem, engendraram a banda que mais tarde daria origem aos "Gabardine 12", combo de culto e berço do actual multifacetado instrumentista Albrecht Loops, um dos mais importantes nomes da musica experimental deste país. Nesses longínquos anos oitenta, em paralelo com projectos não menos interessantes ("Dif Juz" e "Mistério das Colunas Perdidas"), existiam assim os "Sérgio and those". Ah, toda a piada da situação, era o nome original da banda: "Sergio and those who killed the father because the king tell them to do that Band". Um mimo.

E que dizer do álbum de 1984 dos Siniestro Total, a mítica banda de Vigo: "Menos mal que nos queda Portugal". Na altura definiam-se como "punk rock gallego contra el aburrimiento general". Hoje, ainda aí estão. Sinal que ainda há muito cinzentismo por aí.

(José "Von" Barata)

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GRANDES NOMES: ENA PÁ 2000

Comemoram-se agora os vinte anos de um grupo iconoclasta, inconsequente e cada vez mais a roçar a irrelevância. Mas, na altura em que surgiram, os ENA PÁ 2000 foram uma pedrada no charco da seriedade com que a Lisboa “culta” encarava o acto criativo. Talvez porque os elementos do grupo tenham surgido no âmago da elite juvenil, cultivada e cosmopolita da época. Para quem não saiba, o Manuel João Vieira (filho do excelente João Vieira, pintor) não é apenas aquele boneco patético e provocatório. É um rapaz erudito, e um pintor bastante talentoso. Escolheu um caminho que o levou a muitas pérolas, entre as quais outro grande nome, desta vez de uma canção: “Sexo na Banheira é Bom”.

(Manuel Margarido)

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GRANDES NOMES: "HABSELIGKEITEN"

A minha sugestão para "Grandes Nomes" é "Das Schoenste Deutsche Wort" ("A Palavra Alema Mais Bonita"), um concurso decorrido no ano passado para a encontrar. A vencedora foi "Habseligkeiten" (difícil de traduzir, qualquer coisa como "pertences"). Gosto particularmente da quarta classificada, "Augenblick" ("piscar de olhos"), por ser um instante mais longa do que aquilo que significa. Mais sobre o tema aqui (infeliz, mas tambem obviamente, só em alemão). Acho que nenhum povo gosta tanto da sua lingua como os alemães, e tem boas razões para isso.

Por outro lado, existe Mark Twain com a sua "The Awful German Language" (outro grande nome).

(Pedro Queiroz)

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PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE

"Quem não sabe comer, até os dentes incomodam…"

Uma variante de "Quem não sabe dançar diz que a sala está torta", enviada por João Reis.

*

"Ir buscar lã e sair tosqueado."

"A propósito da nefandice de Louçã". diz Octávio Gameiro.

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A LER

As Margens de Erro por causa das margens do erro.

E a Natureza do Mal por causa da natureza do mal. Por causa de The End of The Blog , A verdadeira morte do marxismo leninismo e os Muralistas.

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: A IDADE NOTA-SE



Envelhecer em Marte: as cores já não brilham. Pó. Pelo pó. Com o pó. Para o pó.

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A VER

Esta Lua "for early morning risers (and late to bed astronomers)."

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26.1.05


AR PURO


Arnold Boecklin

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EARLY MORNING BLOGS 416

A tempo


A tempo entrei no tempo,
Sem tempo dele sairei:
Homem moderno.
Antigo serei.
Evito o inferno
Contra tempo, eterno
À paz que visei.
Com mais tempo
Terei tempo:
No fim dos tempos serei
Como quem se salva a tempo.
E, entre tempo, durei.


(Vitorino Nemésio)

*

Bom dia!


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VER A NOITE

A Lua do Lobo, a Lua das Neves no seu esplendor. Com o frio vê-se melhor.

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25.1.05


PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE

"Quem não sabe dançar diz que a sala está torta."

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A LER

A nota Maturidade de Pedro Oliveira no Barnabé, para perceber que os caminhos da crise de representação chegam a todo o lado.

Actualizado: a ler os comentários e o tom intolerante e violento da maioria das críticas a Pedro de Oliveira. De qualquer modo, um dos raros debates ocorridos até agora na campanha eleitoral, o que tem mérito.

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PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE: LÃ DE CABRA, PÊLOS, SOMBRA DE ASNO, E FUMO

De lana caprina contendere. "Discutir a lã das cabras". Os antigos tinham muitas variantes: sobre a lana caprina (De lana caprina rixare , De lana caprina digladiari, Rixatur de lana saepe caprina), sobre os pêlos (De pilis lutove disceptare), e sobre o fumo (De fumo disceptare).

As minhas preferidas têm a ver com "Discutir sobre a sombra de um burro", um aforismo de Erasmo (De asini umbra disputare e variantes, De asini umbra disceptare, De asini prospectu incusatio est, De umbra aselli verba sunt).

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COISAS SIMPLES


Bernard

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EARLY MORNING BLOGS 415

Os ombros suportam o mundo


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


(Carlos Drummond de Andrade)

*

Bom dia!

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24.1.05


POEMA DE BLAKE TRADUZIDO POR VASCO GRAÇA MOURA

(citado no original em OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: TEMÍVEL GEOMETRIA)

O tigre

Tigre, tigre, chama pura
Nas florestas, noite escura,
Que olho ou mão imortal cria
Tua terrível simetria?

De que abismo ou céu distante
Vem tal fogo coruscante?
Que asas ousa nesse jogo?
E que mão se atreve ao fogo?

Que ombro & arte te armarão
Fibra a fibra o coração?
E ao bater ele no que és,
Que mão terrível? Que pés?

E que martelo? Que torno?
E o teu cérebro em que forno?
Que bigorna? Que tenaz
Prò terror mortal que traz?

Quando os astros lançam dardos
E seu choro os céus põe pardos,
Vendo a obra ele sorri?
Fez o anho e fez-te a ti?

Tigre, tigre, chama pura
Nas florestas, noite escura,
Que olho ou mão imortal cria
Tua terrível simetria?


(W. Blake)

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GRANDES NOMES: "CATORZE MANEIRAS DE DESCREVER A CHUVA"

É uma obra de música de câmara de Hans Eisler que data de 1941 e seu curioso título deriva do facto de ter sido escrita como música de acompanhamento para o documentário «Chuva», realizado pelo documentarista holandês Joris Ivens... em 1929! Eisler foi contratado para escrever esta obra no âmbito de um projecto da Fundação Rockefeller, o que não deixa de ser curioso se pensarmos que Eisler era comunista e que compusera, em 1937, um Requiem para Lenine.

(José Carlos Santos)

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PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE

Ubi dubium, ibi libertas. "Onde existe a dúvida, aí existe a liberdade."

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INTENDÊNCIA

Publicada no Portal do Astrónomo a nota Todo o Mundo num Só.

Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO nas bibliografias de 2004 e 2005.

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PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE

"Quem foi ao mar, perdeu o lugar."

"Quem foi à feira, perdeu a cadeira."

"Quem foi ao vento, perdeu o assento."

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GRANDES NOMES: PEREGRINATIO AD LOCA INFECTA

Título de um livro de Jorge de Sena de 1969.

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PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE

Ubi discrimen inter malos bonosque sublatum est, confusio sequitur et vitiorum eruptio. (Séneca). "Quando se remove a distinção entre os maus e os bons, segue-se uma confusão e uma erupção dos vícios."

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GRANDES NOMES: PORTUGALIAE MONUMENTA FRIVOLA

Título de um livro de ensaios e textos de Eugénio Lisboa.

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COISAS SIMPLES: NATAÇÃO


Lichtenstein

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PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE

Mores cuique sui fingunt fortunam. (Cornélio Nepos). "É o carácter que faz o destino de cada um."

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EARLY MORNING BLOGS 414

Entre duas memórias;


já separadas como estratos,
mas recordando-se uma à outra;
subimos pelo frio:
paredes altas de água a condensar-se
no ar ainda azul;com a transparência
sem som a suavizá-lo;
perguntamos indecisamente:
neve mais silêncio
igual ao fim do azul?
ou a fórmula do esquecimento;
onde passam gelos vagarosos;
deduz-se doutro modo?
seja como for,
nenhuma sombra nos prolonga
por este chão de vidro;
e o ar boreal reflecte-nos os olhos,
tão limpos,que os extingue.

(Carlos de Oliveira)

*

"Frio. Frio. Frio. Anunciam frio. Neve. Tempestades. Chegou o teu Tempo." Bom dia!

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23.1.05


DIGA LÁ EXCELÊNCIA

Na parte inicial da entrevista na Dois, Marçal Grilo descreveu com grande exactidão a situação actual do sistema partidário. Chamou a atenção para a semelhança dos critérios de recrutamento, promoção e escolha das pessoas nas estruturas intermédias do PS e PSD, e o modo como os partidos foram "tomados por dentro" por "interesses intermédios", de que o imobiliário é exemplo. A ascensão nos aparelhos partidários dos autarcas e de todo um mundo de pessoas deles dependentes, nas vereações, nas empresas municipalizadas, nos empregos municipais, ocupou e estiolou todo o espaço político das secções dos partidos e dos órgãos locais e regionais. Estas vivem à volta dos empregos e dos favores com origem no poder local.

Tudo isto é de uma grande exactidão - inclusive a ênfase de Marçal Grilo de que se trata de "interesses intermédios" e não dos "grandes interesses" como muitas vezes erradamente se mistura. Estes actuam mais ao nível do topo dos partidos e nos sectores não escrutinados dos governos, como os assessores, consultores, etc., exercendo o seu poder mais na base da pressão, da negociação e da troca de favores, do que na corrupção.

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ESTILOS CORRENTES

Os dirigentes políticos sabem, no meio dum discurso num jantar ou comício, quando entram em directo na televisão, o mais ansiado momento. Quase que se pode dizer que tudo o resto é apenas cenário para esses minutos televisivos. Por isso o que escolhem é significativo, porque falam sem mediação jornalística. Um faz promessas demagógicas, o outro politiquice para atacar alguém. É sempre politiquice para atacar alguém, que é o que ele faz com mais eficácia. É, não há volta a dar, cada um é o que é. Como se a vida fosse um eterno comício.

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PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE

Saepe ignoscendo, des iniuriae locum. (Publilius Syrus) "Desculpando com frequência, darás lugar à injustiça."

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APRENDENDO COM CARLOS DE OLIVEIRA SOBRE A GINÁSTICA DA DIGNIDADE

- Dizem em voz alta, não muito alta: que porcaria, que nojo de sociedade, e em voz baixa, baixíssima: ora, o que é preciso é “triunfar”. Esta consciência elástica lembra o chewing-gum e pega-se fatalmente à esquerda e à direita. Por mais dez réis de propaganda ou al contado (também faz jeito). Por ninharias. E no entanto a dignidade cultiva-se como a beterraba ou as abóboras. Semeando-a, adubando-a, colhendo-a na altura própria. Muito rústico? Está bem, arranja-se outra coisa. Citadina. A dignidade, desenvolve-a uma ginástica vigilante e diária, que requer apenas paciência, atenção, vontade. Com uns anos de exercício torna-se instintiva, uma espécie de segunda natureza. Pouco maleável (rentável) na prática social mas esse defeito compensa-o largamente a tranquilidade interior (moral) que permite o crescimento livre de certa intranquilidade (imaginativa, criadora), ponto de partida para toda a obra literária alguns furos acima das “necessidades do mercado”. O que sucede nos casos vulgares é a falta da primeira liquidar a outra ou impedi-la dum completo desenvolvimento. E não me venham com o exemplo de alguns génios i(ou a)morais, porque posso arranjar logo uma dúzia de outros génios para contrapor a esses e, sobretudo, porque disse: nos casos vulgares.

(Carlos de Oliveira)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES / ANTOLOGIA DA PEDRA



(Foto dos Cliffs of Moer enviada por Mariana Magalhães.)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SOBRE UMA MORTE

...em Cambridge…

Conheci muito bem e convivi muito com um religioso, Prof. Universitário, que era, e tinha sido então, o maior especialista em Dante. Quando o conheci tinha ele 73 anos. Vivíssimo, inteligentíssimo. (Todo ele era uma pessoa peculiar, excêntrica e quase bizarra que se passeava pela sua comunidade, com camisolas rotas, despenteado, dedos amarelos de cigarros inenarráveis que fumava e com uma gata ao colo, olhando para todo o lado com um ar semi-espantado). Com ele mantive uma relação muito interessante e com ele aprendi muito e foi uma das pessoas que mais me marcou ao longo da vida, e uma das coisas mais interessantes que ele me ensinou é que nada é um adquirido, nem mesmo a fé. Ele, que era religioso, padre e “scholar”, todos os dias tinha que refazer o seu percurso da fé: da palavra à revelação, da redenção à ressurreição, não se dava tréguas a si próprio; tinha que “entender”, tinha que, todos os dias se abrir de novo a Deus com trabalho e esforço.

Era esse o preço que pagava pela inteligência que tinha:
o nunca ter certezas, nem sequer que Deus existia e que Cristo era seu filho. O seu trabalho era aprofundar a fé e o estudo, quer de Dante e poesia, quer da teologia (era também estudioso de S. Tomás de Aquino), era mais um meio de, através dos homens, e da arte, chegar a Deus. Mas parece que nunca chegava…Tem muita obra publicada nas diferentes áreas que é reconhecida em todo o mundo (Vasco Graça e Moura refere-se várias vezes a ele, nas suas traduções quer de Dante quer de Petrarca).

Um dia apanhou uma pneumonia e tivemos que o levar ao hospital. Estava mal e os médicos alertaram-no para o facto de que, muito provavelmente e devido ao seu estado geral débil, poderia morrer. Ele percebia que era assim, mas o seu lado rebelde, que gostava de viver e que mordia a vida com uma fúria pouco comum e que lhe valeu ao longo de toda a sua vida alguns apuros, revoltava-se, e passou verdadeiros momentos de pânico e de medo perante a morte. As vezes que o vi no hospital, notei-lhe o pânico, o medo no olhar, a ânsia de mais um sopro que lhe levasse oxigénio aos pulmões, o medo de falar de mais e começar a tossir, o corpo velho, magro e tão frágil. Tentava parecer em controlo da situação, racional. Pediu para lhe lermos uns poemas de Gerard Manley Hopkins, agarrou a minha mão, pediu oxigénio, tossiu, sempre irrequieto, sempre revoltado, sempre apavorado, sem saber como seria a morte e se Deus estaria do outro lado a acolhê-lo. Estava muito só. Um frade não tem família. Tem os membros da comunidade que rezam por ele, mas não tem família. Daquela que sofre com ele, que o acompanha e que morre um pouco com a sua morte. Custou-me muito deixá-lo ao fim da tarde, não recebeu mais visitas. Nessa madrugada morreu. Só.

(J.)

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INTENDÊNCIA

Novos comentários à nota REACCIONÁRIOS.

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A LER

As notas no Bloguitica COLOCAÇÃO E CONDIÇÕES e no avatares de um desejo Ethos político .

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GRANDES NOMES: “QUELQUES ASPECTS DE “NOUS N’IRONS PLUS AU BOIS” PARCE QU’IL FAIT UN TEMPS INSUPPORTABLE”

Peça para piano de Debussy de 1894, mas que só foi publicada postumamente. (Sugestão de José Carlos Santos)

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COISAS SIMPLES / AR PURO


Karl Blechen

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EARLY MORNING BLOGS 413

Uma pequenina luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha


(Jorge de Sena)

*

Bom dia!

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22.1.05


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DEPOIMENTO DE FERNANDO SIMÕES, O ÚNICO PORTUGUÊS DIRECTAMENTE ENVOLVIDO NA MISSÃO HUYGENS

Vi alguns textos no vosso blog, e também em outros, e gostaria de tecer alguns comentários. Se acharem útil poderão divulgar esta informação.

1- A missão Cassini-Huygens é um projecto que já dura há vinte anos. Algumas pessoas começaram mesmo a trabalhar para ela há mais tempo.

2- Quando a sonda foi lançada, em 1997, Portugal ainda não fazia parte da ESA.

3- A missão é liderada pela NASA, mas a Huygens é 100% da ESA. Todavia, há instrumentos europeus a bordo da Cassini, bem como instrumentos americanos a bordo da Huygens. Chama-se a isso cooperação... E ciência é para a humanidade, não só para uma pessoa, um país, ou mesmo uma geração.

4- Houve pessoas que se empenharam intensamente nesta missão. Algumas delas já não estão entre nós... Passou muito tempo entre idealizar, construir, testar, enviar, e recolher os dados... Neste caso, houve quem semeasse e quem viesse colher... Eu, afortunadamente, faço parte dos que colhem o trabalho de outros, mas isso não implica mais ou menos importância, porque todos fazemos parte desta vontade humana de conhecer e de explorar...

5- Sou a única pessoa portuguesa directamente envolvida no projecto... Isso não me enche de orgulho, antes pelo contrário... Gostaria de ter começada mais cedo no projecto e que fossemos muitos mais, mas esses dias estão a caminho. Para isso há portugueses a receber formação na ESA. Só espero que aproveitem bem esse tempo.

6- Não há mais pessoas portuguesas a trabalhar directamente na missão Huygens, mas há quem também investigue Titã: Maarten Roos, David Luz, Carlos Pintassilgo, Alberto Negrão.

7- Quando estava numa das salas de reuniões do ESOC e cada «Principal Investigator» apresentou os seus resultados fiquei radiante, não só com o meu investigador principal, mas também com os outros... Porém, a minha maior admiração ficou registada para com a pessoa responsável pela experiência Doppler, para medir os ventos... Os seus olhos, apesar da frustração pessoal, conseguiam ver mais além... Eu dificilmente conseguirei perceber o que sentiu o Mike quando viu que a sua experiência tinha funcionado, mas não tinha recebido dados... Porém, nem tudo está perdido. A partir de radiotelescópios terrestres, irá ser possível reconstruir o sinal emitido pela Huygens, ainda que vá demorar mais tempo e a precisão não seja a mesma. Não é a mesma coisa, não é a sua experiência, mas nem tudo está perdido para este cientista.

8- Ainda irão ouvir falar de mim para outros projectos, mas a seu tempo saberão. Mesmo contra o derrotismo geral, mesmo com a indiferença da classe política, eu continuo a acreditar que fazer ciência é fantástico, que é no meio da adversidade que se percebe o que é verdadeiramente sublime... Quem partilhar deste sonho que não desista, pois haveremos de fazer estes projectos em conjunto...

9- Acredito firmemente que o desenvolvimento científico, tecnológico e cultural de todos nós, portugueses, passa também pelo que possamos fazer na área espacial. O meu compromisso é sério e empenhado. Haveremos de ter o nosso espaço... no espaço.

10- Nunca pensei ser o primeiro ser humano a ver o perfil de condutividade da atmosfera de Titã. Nunca esperei ser a primeira pessoa a ficar encantada com as medidas eléctricas da superfície, mas isso é somente um detalhe... O que é verdadeiramente fascinante é que vamos poder conhecer melhor Titã, o universo e a nós próprios!..


11- A missão Cassini-Huygens é um verdadeiro sucesso científico e de engenharia, seguramente o maior depois do Projecto Apolo. Depois deste projecto muitos se seguirão, e alguns estão já aí…


(Fernando Simões)


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BIBLIOFILIA PARA OS LEITORES DE BERNARDO DE CLARAVAL



Um dos últimos números da Revista Portuguesa de Filosofia é dedicado a Bernardo de Claraval, Bernard de Clairvaux, S. Bernardo, o monge Bernardo, como queiram. (No Abrupto há lá para trás, noutro tempo, uma série de comentários ao De Gradibus Humilitates et Superbiae, do nosso austero monge.) Um artigo muito interessante sobre Bernardo, Abelardo, Heloísa e o amor, e outro sobre a distinção entre Sapientia Dei e Scientia Mundi.

O modo como Bernardo fala da Scientia Mundi, lembra-nos que os maus também sabem, sabem muito, mas é um "conhecimento que conduz à vaidade (...) o conhecimento daqueles que são moralmente maus".

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AR PURO / ANTOLOGIA DA PEDRA


Richard Long

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UMA TRISTEZA EM TITÃ

Alguém esqueceu-se de ligar o instrumento”. Pura e simplesmente. “Alguém esqueceu-se de programar o comando para ligar o instrumento”. Para o professor David Atkinson, que passou dezoito anos a preparar um aparelho para medir os ventos em Titã, este falhanço é um momento de grande tristeza. Tudo correu bem, tudo correu melhor que bem. Menos isto. Dezoito anos, quase uma vida. Falha humana.


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GRANDES NOMES: A LUA DO LOBO

está a crescer hoje. Nome dado pelos nativos norte-americanos à Lua cheia de 25 de Janeiro. Os lobos estavam à solta no Inverno.

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GRANDES NOMES: CHIFRE D'AFFAIRES

Nos anos 60, uma senhora de rara beleza progredia na sociedade lisboeta e aumentava a sua conta bancária, utilizando o seguinte método: arranjava marido rico, traía-o, recebia uma razoável pensão ou dote, em troca de se afastar do cornudo, pondo fim ao escândalo, e passava ao seguinte esposo endinheirado. Era conhecida por Chifre d'Affaires.

(ACS)

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EARLY MORNING BLOGS 412

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.


(David Mourão-Ferreira)

*

Bom dia!

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BIBLIOFILIA EM MODO GALEGO



Dois livros de Rosalia de Castro e um Amor y Corte. La materia sentimental en las cuestiones poeticas del siglo XV de Antpnio Chas Aguión.

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21.1.05


REACCIONÁRIOS

Não constitui para mim surpresa o reaccionarismo do Bloco de Esquerda. É-o muito mais do que se pensa, ocultado pelo folclore das “causas fracturantes” e por uma imprensa que o descrimina positivamente. A frase de Louça contra Portas, que tive ocasião de ouvir numa síntese televisiva (de um debate que não vi),

" O Senhor não pode falar do direito à vida porque nunca gerou vida. Não sabe o que é gerar vida. Eu tenho uma filha. Eu sei o que é um sorriso de uma criança."

é um perfeito exemplo do que daria um pequeno escândalo, fosse o seu autor outro que não Louça.

*
A primeira frase pressupõe que o conceito decorre da experiência, o que é uma falsa permissa. A segunda frase contém um "argumentum ad hominem", que constitui uma falácia argumentativa. E a terceira e a quarta frases abrigam um "argumentum ad populum", que constitui também uma falácia argumentativa. Em suma, Françisco Louçã, numa frase, conseguiu não transmitir nada.
(Miguel Moura Santos)

*
De facto, o Sr. Portas, transmite uma imagem de superioridade de valores, de perfeição e competência, como se de um enviado divino se tratasse. Claro que no calor do debate e quando o Sr. Portas liga a "cassete" do costume, em que fala da "vida" como se fosse o detentor de toda a sabedoria e "a direita" referência na defesa dessa mesma vida, o argumento do Sr. Louçã faz todo o sentido.

Não devemos complicar o que é simples, as conversas também são "emoções perto da boca" e sem querer entrar em áreas de concepções de valores, acho muito sinceramente, que o problema da despenalização do aborto nada tem a ver com a defesa da vida, mas sim com uma teimosia instituida, aliás, como outras teimosias que nada resolvem, apenas entopem os tribunais!
(Alírio José Camposana)


*
O leitor Miguel Moura Santos, em análise restrita ao conteúdo manifesto das palavras do líder do Bloco de Esquerda escreve que "(...) Françisco Louçã, numa frase, conseguiu não transmitir nada". Eu acho que raras vezes ele transmitiu tanto. As pessoas irritam-se e perdem as camadas que as definem como personagens quanto mais se confrontam com elas próprias. Louçã não resistiu à 'proximidade' de Portas.
(Paulo Azevedo)

*
Louçã considerou (porque considerou mesmo - o argumento do "contexto", invocado pelos seus colegas de partido é uma falácia - honre-se Luís Januário, de Coimbra) que PP não poderia ter falado de "aborto" por não ter "gerado vida" e "não saber o que é o sorriso de uma criança". Ainda que dissesse (entre muitas aspas) que "não podia falar de aborto porque nunca tinha feito um", entender-se-ia, na lógica de um debate televisivo e com o argumento, tão estafado como errado, de que só as mulheres devem falar de um assunto que hipoteticamente só lhes diz respeito.

Mas ao dizer o que disse (e já é crescidinho para saber o que diz...) fez profissão de fé de que não falará de mulheres (creio que é do sexo e do género masculino), de homossexuais (não consta que seja), de minorias étnicas (é caucasiano), de estrangeiros (é português), de futebol (em que equipa é que ele alinhou?), da Igreja (diz-se ateu ou agnóstico), do Papa (não o é... ainda). Nem sequer de PP (ele não é ele...). Enfim. Louçã só poderá falar de uma coisa: da vida de Louçã e das experiências de Louçã. Nesse aspecto, diga-se, é coerente: na prática, só fala dele próprio e faz outro tanto de auto-propaganda. O único busílis é que nós não estamos minimamente interessados na vida do Professor Louçã. E como a democracia se constrói à custa da argumentação, do debate e da troca de ideias, Louçã é muito desinteressante para a democracia... até porque acabou por promover PP, o que já de si é um péssimo serviço à causa...Há arrogâncias que não se devem ter... seja qual for o "contexto"!
(Mário Cordeiro, Professor de Pediatria e de Saúde Pública)

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GRANDES NOMES: "APANÁGIO DO CÔNJUGE SOBREVIVO"

“Apanágio do cônjuge sobrevivo”, direito dos viúvos a serem alimentados pelos rendimentos dos bens deixados pelo falecido. Artigo 2018º do Código Civil. (Sugestão de RM)

O Direito das sucessões é pródigo em expressões/nomes bizarros: Cautela sociniana, fideicomisso, substituição pupilar e quase pupilar e por ai fora.

Aliás, o Código Civil é cheio de encantos, de entre os quais destaco os artigos 1321º e 1322º sobre animais ferozes fugidos e enxames de abelhas, respectivamente.


Reza o 1321º: “Os animais ferozes e maléficos que se evadirem da clausura em que seu dono os tiver, podem ser destruídos ou ocupados livremente por qualquer pessoa que os encontre.

(...) E o 1322º:

1. O proprietário de enxame de abelhas tem o direito de o perseguir e capturar em prédio alheio, mas é responsável pelos danos que causar.

2. Se o dono da colmeia não perseguir o enxame logo que saiba terem as abelhas enxameado, ou se decorrerem dois dias sem que o enxame tenha sido capturado, pode ocupá-lo o proprietário do prédio onde ele se encontre, ou consentir que outrem o ocupe.”

Enfim, muito se poderia dizer sobre estas disposições legais, que antecedem aliás as que se pronunciam sobre a mudança de leito, a formação de ilhas ou mouchões, lagos e lagoas, união ou confusão de boa fé, etc, etc, etc. (Ainda há quem ache que a lei não tem interesse nenhum…)

(RM)

*

(...) confesso que não percebi o sentido que o seu leitor (...) quer dar às suas palavras (...) É que se o sentido em causa conforma um certo escárnio às normas do Código Civil em questão, então tenho que lhe manifestar a minha viva contestação. As expressões do Código Civil, que foram apresentadas como sendo retiradas de um sketch dos Monty Piton, têm todas uma origem e uma razão de ser. Origem essa, na esmagadora maioria dos casos, que se liga à portentosa herança que o Direito Romano deixou um pouco por todos os sistemas jurídicos ocidentais, e donde vêm directamente muitas das palavras hoje usadas.

Outra nota de contestação: os artigos referentes aos exames de abelhas e similares além de, uma vez mais, terem que ser olhados de acordo com a sua origem história, não se aplicam apenas a casos de "abelhas" mas também a casos similares, análogos, pois o tempo do positivismo jurídico (em que se clamava a viva voz que o Direito mais não era do que a lei emanada do legislador) já lá vai, felizmente para todos nós. Hoje a lei (o Código Civil é uma lei) não é apenas interpretada de uma forma estrita mas de uma forma extensiva, o que permite que o Direito seja muito mais que uma norma (ou um conjunto delas) e que não seja apenas "a boca da lei" (caso contrário estariamos sujeitos ao arbítrio do legislador).
(Alberto Fernandes)

*
Bom, perante a viva contestação do leitor Alberto Fernandes pela minha infeliz tentativa de humor à custa do Código Civil, outra solução não me resta senão, nos termos previstos no artigo 1322 do mesmo Código, entrar pelo Abrupto dentro e perseguir e capturar as minhas palavras, após o que me retiro ordeiramente. Suportando os danos causados,claro!
(RM)

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GRANDES NOMES: MARIA BONITA

"Maria Bonita", nome pelo qual Maria Gomes de Oliveira (1911-1936) se tornou conhecida.
Foi a companheira de Lampião desde 1929 e a primeira mulher a participar num grupo de cangaceiros. Como Lampião, tornou-se uma lenda do sertão nordestino e personagem de muitas histórias de cordel. Lampião e Maria Bonita tiveram uma única filha, Expedita, nascida em 1932.

(Beatriz Tavares)


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GRANDES NOMES: ADOLFO LUXÚRIA CANIBAL

Vocalista dos Mão Morta (sugestão de Manuela D.L. Ramos). Quando se fala com o Adolfo chama-se-lhe "senhor Canibal"?

*
Naturalmente que não. Será mais delicado dizer: Dr. Canibal ou então Sr. Advogado Canibal. Esta segunda forma parece-me particularmente adequada.
(Luís Aguiar-Conraria)


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CRISE DE REPRESENTAÇÃO

Em quem é que eu voto? É a pergunta que mais recebo e mais me fazem.

É o sinal de uma crise de representação por parte de um eleitorado que votava PSD ou PS, a que se soma os que já afirmaram que iriam votar em branco. O PSD afasta, o PS não atrai. As sondagens já começam a revelar esta crise: o PS desgasta-se mais longe da maioria, o PSD não descola de um dos resultados piores de sempre, as margens sobem pouco, a abstenção ameaça níveis consideráveis. Esta realidade é mutável, mas enuncia um problema.

Voltaremos aqui.

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: TEMÍVEL GEOMETRIA


(Saturno)

Esta é a geometria do tigre :

Tiger, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?


(Blake)

A da Divina Mão.

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DE LONGE

havia o meu mar habitual. Duro, frio, regular. Onda após onda, a uma luz absoluta. O meu mar, entre a água salgada e a água do rio que rasga, sempre pouco doce. O meu mar.

Em frente, um amigo que mora, morre aos poucos. Revoltado. Já sem palavras, já sem versos.

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EARLY MORNING BLOGS 411

Cantiga do Ódio


O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?


(Carlos de Oliveira)

*

Bom dia!

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18.1.05


COISAS SIMPLES


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EARLY MORNING BLOGS 410

Had I not seen the Sun


Had I not seen the Sun
I could have borne the shade
But Light a newer Wilderness
My Wilderness has made—


(Emily Dickinson)

*

Bom dia!

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17.1.05


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: "Na mediocridade dos nossos orgulhos está a razão do insucesso dos nossos actos"

Os portugueses entram em êxtase de orgulho nacional a propósito de qualquer sucesso desportivo para o qual nada contribuíram e do qual nenhum ganho receberão.

Hoje uma sonda repousa em Titã, depois de sete anos de viagem. Nela uma pequena bandeira portuguesa, junto à de outros países europeus, assinala a nossa contribuição para a ESA. Todos os portugueses que pagam impostos deveriam estar muito orgulhosos. Contribuíram para o sucesso desta extraordinária aventura cientifica. E, a longo prazo, de formas hoje nem sequer sonhadas, toda a Humanidade beneficiará. Mas não estão. A maior parte nem sabe que tem lá uma "parte".

Só uma pequena, muito pequena minoria está orgulhosa da nossa contribuição. No número dos orgulhosos não se contarão os nossos governantes, pois estamos em risco de ser expulsos de várias instituições cientificas europeias por falta de pagamento das contribuições anuais.

Cada país orgulha-se do que quer. Nessa escolha se pode encontrar explicação para muitos outros equívocos. Afinal, as coisas são de uma simplicidade cartesiana: na mediocridade dos nossos orgulhos está a razão do insucesso dos nossos actos.


(Luís Correia)

*

Já agora para quem pensa que Portugal participa na Huygens ou na Cassini é melhor não pensar nisso. Embora seja membro da ESA, Portugal não participa nesta missão nem tem nenhuma instituição directamente envolvida. O único português directamente envolvido é o Fernando Simões, do Centro de Estudos Terrestres e Planetários da Universidade de Versalhes, cuja equipa desenvolveu um dos seis instrumentos da sonda, o HASI, para a analisar as propriedades eléctricas da atmosfera e a composição da superfície no local de aterragem. De resto, temos apenas dois investigadores a trabalhar sobre Titã. O David Luz do Observatório Astronómico de Lisboa e agora a trabalhar no Observatório de Paris-Meudon, com uma bolsa de pós-doutoramento e o Alberto Negrão em doutoramento, também no Observatório de Paris. Os dois poderão ter acesso a dados de missão assim como muitos outros investigadores espalhados por essa Europa fora. Agora temos concerteza alguns portugueses em Titã, que mandaram o seu nome a bordo do CD que foi na Huygens

(José Matos da Estrela Cansada)

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DITO NUMA CONVERSA

"A ataraxia era o momento Zen dos gregos".


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OUVINDO "SKYLARK" DE JOHNNY MERCER

uma das mais belas canções americanas:

Have you anything to say to me
Won't you tell me where my love can be
Is there a meadow in the mist
Where someone's waiting to be kissed

Oh skylark
Have you seen a valley green with spring
Where my heart can go a-journeying
Over the shadows and the rain
To a blossom-covered lane

And in your lonely flight
Haven't you heard the music in the night
Wonderful music
Faint as a will o' the wisp
Crazy as a loon
Sad as a gypsy serenading the moon

Oh skylark
I don't know if you can find these things
But my heart is riding on your wings
So if you see them anywhere
Won't you lead me there
Oh skylark
Won't you lead me there

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MAIS TITÃ

Depois de dois dias de quase congelamento dos locais da NASA e da ESA, finalmente é colocada uma nova composição fotográfica de Titã visto de dez quilómetros de altura.

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A LER

o ressuscitado Linha dos Nodos, com comentários sobre as fotos de Titã, por quem sabe destas coisas.

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PRÉMIO DA PETULÂNCIA

Parece que há um cartaz do PP que diz: "a convicção é útil a Portugal". Não tenho dúvida, mas a "convicção" plástica do PP é muito interessante: veja-se só o caso da Europa. Quem se recorda da palmeta, da pêra-rocha, e das catilinárias contra a União Europeia, e os vê (ou o vê), com a mesma "convicção", a votar sim à Constituição Europeia...

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INTENDÊNCIA

Actualizado OUVINDO PEGGY LEE.

Publiquei Seixos no Portal do Astrónomo.

Como se fosse bibliografia para o que publiquei a semana passada no Público intitulado Poeira da Mudança , este artigo do NYT de Tom Zeller, Measuring Literacy in a World Gone Digital.

Colocados no VERITAS FILIA TEMPORIS , umas memórias da Livraria Leitura de 1994, e a Lagartixa e o Jacaré 18 sobre a tragédia do maremoto, o Porto e a quota do futebol e os abusos do fisco.

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BIBLIOFILIA: A NOSSA TASCHEN NACIONAL










Este pequeno livro ignorado coleciona os nosso ícones como faz a poderosa Taschen. Os Dias da Confiança, Braga, 2004 de responsabilidade da Fundação Bracara Augusta, reproduz as embalagens dos produtos da Saboaria e Perfumaria Confiança. que qualquer nortenho antigo conhece bem, desde 1894.



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OUVINDO OUTRA VEZ O MESMO

Debussy de ontem. Há tanto fio neste tecido...

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GRANDES NOMES: MAFARRICO

Este é um nome de gosto, diz tudo sobre o dito. Como não se sabe a origem da palavra, pode-se sempre suspeitar que foi o Demo, ele próprio, o seu autor.Prova provada que ele não se leva a sério, ou será mesmo o contrário?

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GRANDES NOMES: PEDRAS PARIDEIRAS

Sugestão de Desnorte de que transcrevo:

"Na Serra da Freita há um local especial, destino de inúmeras peregrinações até há uns tempos atrás. O motivo dessas peregrinações, as chamadas pedras parideiras. Desenganem-se aqueles que achem que quem por lá encostar o traseiro (!) resolve o problema da infertilidade... Elas têm esse nome por que são pedras que parem pedras, fenómeno antigo e muito raro no mundo, conforme se pode ver na descrição existente no local e nos links que aqui deixo. E já sabe: se parou o carro para ver a aldeia da Castanheira (...), ao regressar não entre logo nele: atravesse antes a rua, suba 50 metros e talvez assista a um histórico e feliz parto!"

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MEMÓRIAS DE 1968

"Escrevi em 1968, annus mirabilis, para a "Divulgação", o antigo nome da "Leitura", o meu primeiro texto para um catálogo de exposição de pintura, fazendo uma improvável relação entre Rilke e a Commedia, entre Arlequim e as rochas de Duíno. Tudo a pretexto de uma exposição da Rosa, cuja fotografia belíssima, com um ar perfeitamente grego, aparecia ao lado do texto, tudo decorado com um cinzento suave que fazia parte das cores de que as pessoas gostavam antes da vinda do Arquitecto Taveira. Sépia, mauve, um leve ocre... Depois fiz mais catálogos para exposições do Batarda e do Mouga, escrevi sobre o Ângelo e o Zé Rodrigues, mas este foi o primeiro e o primeiro conta sempre.

Mas o mundo dos amáveis ocres estava a acabar depressa de mais. Aliás não estou bem certo que alguma vez tivesse existido, porque talvez na época não olhássemos para essas cores com o ar vagamente blasé e intelectualmente decorativo que temos hoje. Caminhavamos para a política pura, dura e radical que acabava por ser o único caminho ético possível. Eis-nos pois de 1968 a 1970 em ritmo acelerado para nos tornarmos "guardas vermelhos" e eis que a "Leitura" (então "Divulgação") resolveu contribuir poderosamente para a "demarcação entre nós e o inimigo": traz cá, em plena "liberalização" marcelista, Yevgeny Yevtushenko.

Hoje deve ser bizarro imaginar a excitação da vinda da terra das estepes, do escritor russo, digo "soviético", mas foi na época um petit scandale. Primeiro, porque a vinda de Yevtushenko era claramente uma concessão pensada do regime marcelista para mostrar o "degelo" do salazarismo; segundo, porque o escritor era um crítico do estalinismo e um símbolo da literatura soviética nos limites da crítica "consentida" ao regime; terceiro e mais fundamental, porque exactamente pelo que disse atrás, Yevtushenko era o representante máximo da "traição" da URSS, o "revisionismo" encarnado. Yevtushenko ajudou à festa - chegou a Lisboa, passeou-se com o establishement literário do PCP e dos seus compagnons de route e depois anunciou ao Diário de Lisboa que queria visitar Fátima para ver as massas rezar. A crise passou de petit scandale para grande escândalo e até o PCP, que devia conhecer alguma coisa das dificuldades de erradicar da alma russa o pathos religioso, ficou incomodado.

Como o maoismo estava então ainda em grande parte por organizar e era mais uma revolta cultural do que uma ortodoxia com regras, um grupo de pessoas, no qual me incluía, resolveu ir fazer umas "provocações" ao "revisionista", ou seja, armar uma arruaça ao Yevtushenko e aos seus mentores lisboetas. O local da cena foi a "Divulgação" de Lisboa, irmã da do Porto, e a materialização das provocações foi levar a uma sessão de autógrafos alguns livros pouco inconvenientes para o "poeta" assinar: a Bíblia, as Citações do Presidente Mao Tsé Tung,- das Editions du Seuil e não as chinesas que eram perigosas de mais -, e uns livros claramente "reaccionários". O resultado foi o previsível: Yevtushenko espantado começou a perceber que alguma coisa não estava certa e recusou os autógrafos, houve algum burburinho e eu, mais o Alexandre de Oliveira, penso que o João Bernardo (em vésperas de se tornar o "oportunista Tiago") e uns surrealistas lisboetas, fomos postos na rua pelo Carlos Porto."

(Parte de umas "Memórias da Leitura", a livraria, que em breve colocarei no VERITAS FILIA TEMPORIS).

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POEIRA DE 17 DE JANEIRO: DIÁRIO DE "RUDY"

Há setenta anos, hoje, Manuel Joaquim Baptista "Rudy", falava de "31s", matinées, chauffeurs, duas palavras novas, e cognac que não era nova. Quase todos os diários são proto-blogues.



(Ver nota BIBLIOFILIA: DIÁRIO MANUSCRITO DE MANUEL JOAQUIM BAPTISTA "RUDY", PINTOR, 1935 )

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AR PURO


Levitan

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EARLY MORNING BLOGS 409

Lot's Wife


Do not look behind you.
--Gen. 19:17

So simple a mistake. They say I turned to look;
instead it was to listen. I did not know: only the dead
can stand the music of the spheres made mortal.

Caught in my hood, the hard chords of chaos:
the childish scream, the mother's litany as she names
the loss which instantly unnames her.

And then the inconceivable: between the flint
blast and the crack of iron, I heard
the burning of the scorched moth wing,

the lily as its petals crisp to white fire,
but more than these, the footfall
of a naked man who runs to nothing.

And so I chose this brine,
now crystals shift. The salt dissolves
and I want to speak.

Whore of all hopes, I now believe
some stories survive
in order to remake their endings.


(Dana Littlepage Smith)

*

Bom dia!

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VER A NOITE / NÃO VER A NOITE

Há uma hora, a humidade baixa não deixava ver nada. Agora, com surpresa, até o cometa se vê a olho nu (mal, mas vê), e o céu está o melhor de há mais de um mês.

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16.1.05


OUVINDO

Debussy, Debussy, Debussy. Obras para orquestra pela Royal Concertgebouw Orchestra dirigida por Bernard Haitink.

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GRANDES NOMES: A "LIVRARIA DO MONDEGO"

Junto a Penacova, depois de ter recebido o Alva (afluente da margem esquerda), o vale do Mondego estrangula-se cada vez mais ao atravessar o contraforte de Entre-Penedos. Aqui, encontram-se «altas assentadas de quartzíticos silúricos, muito fracturados». Dispostos quase verticalmente, como livros inclinados numa estante, deram origem à conhecida «Livraria do Mondego». Mesmo ao pé do Porto da Raiva.

(Contribuição de Ávido)

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GRANDES NOMES: O "ERVA PARIETÁRIA"

"O imperador Trajano, de alcunha O Erva Parietária (porque em todos os edifícios que fez mandou pôr o seu nome na parede)..." (Padre Manuel Bernardes)

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PARA UMA ANTOLOGIA DA TRAIÇÃO(6): A ABJURAÇÃO DE PEDRO (EVANGELHO DE MATEUS)

"Ora, Pedro estava sentado fora, no pátio; e aproximou-se dele uma criada, que disse: Tu também estavas com Jesus, o galileu. Mas ele negou diante de todos, dizendo: Não sei o que dizes.
E saindo ele para o vestíbulo, outra criada o viu, e disse aos que ali estavam: Este também estava com Jesus, o nazareno.
E ele negou outra vez, e com juramento: Não conheço tal homem.
E daí a pouco, aproximando-se os que ali estavam, disseram a Pedro: Certamente tu também és um deles pois a tua fala te denuncia.
Então começou ele a praguejar e a jurar, dizendo: Não conheço esse homem. E imediatamente o galo cantou.
E Pedro lembrou-se do que dissera Jesus: Antes que o galo cante, três vezes me negarás. E, saindo dali, chorou amargamente."


*

Duas criadas denunciam Pedro. À primeira denúncia ele nega. À segunda ele nega e jura. À terceira ele nega e jura e fala de forma diferente. Porque o terceiro denunciante de Pedro diz-lhe “também és um deles pois a tua fala te denuncia”, ou seja, por acompanhar Cristo, Pedro passou a falar diferente. Por isso a terceira abjuração é o cúmulo da traição: Pedro nega, jura e “pragueja”, ou seja muda a língua, torce a língua, para convencer os outros da sua traição. Pedro subiu, degrau a degrau, a escada da traição e quando no fim disse “não conheço esse homem” , o galo lembrou-lhe que também na negação se deixaria de conhecer a si mesmo. No último momento, Pedro não quis perder-se de Pedro e “chorou amargamente”. Poucas histórias nos evangelhos são mais poderosas do que esta.

*

O que salvou Pedro foi lembrar-se. A sua traição foi completa mas durou pouco. Se tivesse durado mais, ter-lhe-ia poluído a memória e Pedro estaria perdido como Judas. A memória salva da traição.

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OUVINDO PEGGY LEE

a cantar Johnny Guitar.

*
There was never a man like my Johnny

The one they call ‘Johnny Guitar”…

Meu Deus! Que saudades!

Um filme inesquecível, talvez um dos três melhores “westerns” de todos os tempos e sem dúvida um os grandes, grandes filmes da cinematografia mundial.

Inesquecíveis e maravilhosos, Sterling Hayden e Joan Crawford, e acima de tudo a maior e mais extraordinária criação de ódio e ciúme, a da “Emma” – não me recordo o nome da actriz – num papel ‘secundário’ (só no nome, porque ofusca e domina o filme) como nunca mais vi nem tinha visto. Tenho esse filme gravado a fogo na minha memória, mais claro e detalhado que num DVD.

Um “shootist” que não atira a ninguém, mas que deixa a ideia de que seria capaz de matar todo o “cast” sem fazer grande esforço (a cena do tiro no revolver do jovem bandido); o mesmo jovem, ferido, escondido debaixo da grande saia branca da Crawford ao “grand piano”, o amor dos protagonistas, mais intuído que demonstrado, de uma forma sóbria que deveria fazer empalidecer de inveja todos os que precisam de actos carnais explícitos para dizer o que aqueles dois dizem quase sem falar…e acima de tudo a Emma, personificação do mal absoluto de que é capaz um ser humano.

Já não se fazem filmes assim!

Com “High Noon” e “The man who shot Liberty Valance” (grande, enorme Lee Marvin!) eis a trilogia do “western” fora do tempo e do espaço, que valem por si próprios, como monumentos ao cinema como Arte."

(Luis Rodrigues)



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COISAS SIMPLES


Chardin

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EARLY MORNING BLOGS 408

In the Next Galaxy


Things will be different.
No one will lose their sight,
their hearing, their gallbladder.
It will be all Catskills with brand
new wrap-around verandas.
The idea of Hitler will not
have vibrated yet.
While back here,
they are still cleaning out
pockets of wrinkled
Nazis hiding in Argentina.
But in the next galaxy,
certain planets will have true
blue skies and drinking water.


(Ruth Stone)

*

Bom dia!

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ENQUANTO NÃO APARECEM AS IMAGENS DEFINITIVAS


um grupo de amadores especializados processou as imagens em bruto e publicou os primeiros resultados. Muito interessante.

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POEIRA DE 16 DE JANEIRO

Hoje, há cento e cinquenta e um anos, Tolstoy foi “atingido pela beleza poética do Inverno”. Nevoeiro, humidade. Como nesta noite, depois da chuva, cheira à terra, e a um vago traço de lenha queimada. Ver a noite sozinho , por entre as árvores, as nuvens a passar em cima. Orion, incompleta, espreita e desaparece. Poucas coisas importam. Coisas simples.

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15.1.05


INTENDÊNCIA

Actualizada a nota GRANDES NOMES: MANI DI FATA.

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CHUVA

Começou. Sursum corda.

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PERGUNTAS

Se se acender um fósforo em Titã , o que é que acontece? Vai tudo pelos ares? Sempre é metano o que lá está, mas é o mesmo metano das minas, o que mata os passarinhos que avisam os mineiros? Pode-se acender um fósforo em Titã? E se não for um fósforo, mas qualquer outra coisa que "acenda"? A centelha pode incendiar a planície? Tinha razão, em Titã, o camarada Mao Zedong?

*
Em Titã, um fósforo não acende e o metano não arde porque aparentemente não há oxigénio. Além disso, está muito frio e a pressão é muito alta. Se lá tivesse existido uma poça de oxigénio, já há muito teria sido consumida, a não ser que exista algures em Titã um mecanismo que mantenha a atmosfera longe do equilíbrio, como por exemplo vida. Na Terra, a atmosfera está longe do equilíbrio químico porque o oxigénio e o azoto são de origem biológica.
(João Miranda)

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Estas são de resposta fácil. Para haver combustão, é necessário um combustível (esse está lá) e um comburente (que aqui, na velha Terra, é geralmente o oxigénio do ar) que - segundo se pensa - não está lá.
Donde, é tão impossível uma chama em Titã como aqui na nossa atmosfera, se não tiver combustível. Podemos imaginar um isqueiro BIC a funcionar em Titã, mas o depósito teria que estar cheio de ar comprimido (ou oxigénio). Enquanto aqui na Terra, com ar em todo o lado, para haver fogo temos que arranjar combustível, em Titã, com metano (combustível) em todo o lado, para haver fogo temos que arranjar ar!
(João Ventura)

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Esta é a fórmula que expressa a combustão do metano:

CH4 (g) + 2 O2 (g) CO2 (g) + 2 H2O (l)

como é evidente, se não houver oxigénio em Titã não haverá combustão.
Nem o azoto nos safa aqui, esse gás inerte que por aqui não nos aquece nem nos arrefece (a não ser que sejamos mergulhadores..)

Logo, o mais certo era nem sequer conseguirmos acender o fósforo..
(Alexandre Monteiro)

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A pergunta correcta seria «E também há oxigénio?» É dos compêndios básicos da química que uma reacção de combustão necessita de oxigénio… o metano «queima» na presença do oxigénio. Se existir oxigénio ele permitirá a combustão do metano, pelo menos enquanto existir, pois além do metano, também o oxigénio se consome nesta reacção.

O mais curioso… e pura especulação científica, delírio mesmo, a combustão do metano iria resultar em dióxido de carbono (que ajudaria a elevar a temperatura média da atmosfera e contribuiria para um saudável efeito estufa) e vapor de água. Vamos queimar Titã para obtermos um planetóide mais quente e com água? Puro delírio naturalmente… tal como há 50 anos seria delírio pensar que uma nave europeia aterraria tão longe…
(Emanuel Ferreira)

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TITÃ A COR DE LARANJA


Pedras, pedrinhas. E as conchinhas e os pedacinhos de ossos? Não há?

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© José Pacheco Pereira
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