ABRUPTO

18.3.06


PORTO HOJE, À ESPERA DE CHUVA


Vem chuva. (O Porto-agora mesmo).

(Gil Passos Coelho)

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NUNCA É TARDE PARA APRENDER

Um dos aspectos mais memóráveis da resistência que os ingleses organizaram em Creta, depois de terem sido batidos pela invasão aerotransportada alemã, foi o apoio sem falhas da população da ilha, que sofreu por isso duríssimas represálias dos alemães. Uma meia dúzia de oficiais ingleses do SOE e dos serviços secretos, passeavam-se por Creta, disfarçados de improváveis cretenses, louros e rosados, sem que os populares, que sabiam bem quem eles eram, alguma vez os tenham denunciado. Um dos erros de etiqueta que cometiam era enganarem-se na prioridade das saudações com quem encontravam , quem andava é que devia saudar em primeiro lugar, o que levava a ouvirem em resposta coisas do género: "bom dia, que regresse bem à sua terra". O clandestino inglês devia engolir em seco quanto à qualidade do seu disfarce, e agradecer aos velhos deuses do Monte Ida pelo ódio dos cretenses aos alemães.

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COISAS DA SÁBADO: MILOSEVIC

Flag of Serbia and Montenegro

Milosevic morreu numa cela limpa e confortável, espartana é certo, como é suposto ser uma cela, mas aquecida e dotada do mínimo indispensável para se viver e trabalhar intelectualmente. Na cela, predominava o aço e o betão, os sinais da dureza da prisão, da sua solidez impessoal para que os que entram não possam sair.

Esta realidade da cela holandesa dificilmente poderia ter maior contraste com o mundo de Milosevic. No seu apogeu do poder, ele conheceu o brilho já um pouco degradado do fausto de Tito, que gostava de dourados e luxos, e que transformou os lugares do poder, muitos herdados da nobreza da periferia do império austro-húngaro, em palácios para a nomenklatura comunista. Milosevic, na sua dedicada carreira de funcionário, conhecia também o outro lado da paisagem do comunismo, a péssima qualidade das habitações, a má manutenção de tudo, as paredes escalavradas, as cortinas escurecidas, o cheiro a carvão e gasolina, o desleixo quase institucionalizado de tudo que não fosse bem de consumo. Esta era a sua paisagem natural, não a solidez capitalista da cela de Haia.

Milosevic fez o trajecto do Partido Comunista para o nacionalismo, como muitos outros antigos dirigentes comunistas, mas uma coisa é ser-se nacionalista na Ásia Central, outra nos Balcãs. Nos Balcãs todas as misturas explosivas da história europeia estão presentes, e a memória dos homens é mais longa. Os sérvios, mais do que qualquer outro dos “povos” dos Balcãs, sentem-se vítimas de uma conspiração internacional, que os aponta sempre como os principais culpados de tudo o que aconteceu desde o desmembramento da Jugoslávia. Tem mais razão do que se pensa; porque motivo o croata Tudjman ou o bósnio muçulmano Itzebegovic, tão ferozes no seu nacionalismo, nunca foram perseguidos? A maior limpeza “étnica” durante a guerra atingiu os próprios sérvios, expulsos da Krajina pelos croatas, mas só se ouve falar dos bósnios e dos albaneses do Kossovo. Duplicidades.

Por tudo isto, o corpo de Milosevic pode ser agora atirado para uma terra alheia (*) – embora Moscovo não seja terra hostil – mas acabará, como dizia uma velha que colocava uma ortodoxa vela num memorial de Belgrado, por regressar à sua Sérvia como um herói nacional.

(*) Posteriormente a esta nota ter sido escrita, o corpo foi autorizado a ser enterrado na Sérvia.

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COISAS COMPLICADAS


Mario Giacomelli

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EARLY MORNING BLOGS 739

M. Degas Teaches Art & Science At Durfee Intermediate School--Detroit, 1942


He made a line on the blackboard,
one bold stroke from right to left
diagonally downward and stood back
to ask, looking as always at no one
in particular, "What have I done?"
From the back of the room Freddie
shouted, "You've broken a piece
of chalk." M. Degas did not smile.
"What have I done?" he repeated.
The most intellectual students
looked down to study their desks
except for Gertrude Bimmler, who raised
her hand before she spoke. "M. Degas,
you have created the hypotenuse
of an isosceles triangle." Degas mused.
Everyone knew that Gertrude could not
be incorrect. "It is possible,"
Louis Warshowsky added precisely,
"that you have begun to represent
the roof of a barn." I remember
that it was exactly twenty minutes
past eleven, and I thought at worst
this would go on another forty
minutes. It was early April,
the snow had all but melted on
the playgrounds, the elms and maples
bordering the cracked walks shivered
in the new winds, and I believed
that before I knew it I'd be
swaggering to the candy store
for a Milky Way. M. Degas
pursed his lips, and the room
stilled until the long hand
of the clock moved to twenty one
as though in complicity with Gertrude,
who added confidently, "You've begun
to separate the dark from the dark."
I looked back for help, but now
the trees bucked and quaked, and I
knew this could go on forever.


(Philip Levine)

*

Bom dia!

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17.3.06


VALE A PENA?


(Actualizado)

Vale a pena corrigir o jornalismo péssimo que se faz em Portugal? Verdadeiramente acho que não vale a pena. Então em vésperas de um Congresso do PSD em que os jornais, rádios e televisões, precisam de afirmações bombásticas, tudo serve. Soube agora pelo noticiário da SIC Notícias, que pedi a "demissão de Marques Mendes". Nem mais, nem menos. De facto, não adianta: nunca defendi tal coisa. O que disse na Quadratura do Círculo, e apenas aí, foi que, se as propostas de revisão estatutárias de Mendes não fossem aprovadas, ele ficaria numa posição tão frágil que mais valia demitir-se. Na maneira como as coisas estão há-de aparecer sempre algum jornalista a dizer que é a mesma coisa, quando não é. Não, não vale a pena.

*
senão não fazia mais nada...

já agora, o sururu do caderno quadriculado:

"Embora sem dossiers em cima da secretária, Cavaco levou consigo um banal caderno A4, de argolas, onde se adivinhava uma agenda longa de assuntos a debater." in Público 16-03-2004

" Há uma outra diferença, mais subtil mas politicamente mais relevante: Cavaco recebeu Sócrates não no habitual sofá reservado aos anteriores encontros entre Sampaio e o chefe do Executivo mas à volta de uma pequena mesa circular, sugerindo desde logo uma atmosfera de trabalho. Mais austera, mais de acordo com o perfil cultivado pelo próprio Cavaco durante os dez anos que permaneceu em São Bento como primeiro-ministro. " in Público 16-03-2004

Cavaco devia ter um daqueles moleskines da Louis Vuitton. Uma mesa de carvalho maciço quadrada com cadeiras a condizer e um sofá a perder de vista. Só assim se pode ser "alguém" na vida para a comunicação social...

(Filipe Figueiredo)

*

Concordo plenamente com o seu post das 12:15 sobre o jornalismo em Portugal.


Gostaria no entanto de acrescentar que fiquei surpreendido, mas desta vez com o que ouvi no Jornal da Tarde da RTP. Informaram nesse noticiário, também de forma muito ambígua, que o Dr Pacheco Pereira 'sugeria' a demissão de Marques Mendes. Mais interessante foi ver nas imagens um jornalista da RTP a falar consigo como se tivesse sido ainda ontem! Suponho que não tenha feito quaisquer declarações à RTP pois, se assim fosse, poriam no ar as suas palavras...

Como costumo fazer frequentemente, esta semana vi a Quadratura do Círculo. Ficou claro que, de alguma forma simpatiza com Marques Mendes (comparando com as suas opiniões sobre PSL). Ficou também claro que considerava a demissão de Marques Mendes como expectável, caso o presidente do PSD não conseguisse aprovar a sua moção no congresso que hoje se inicia. Não se percebe por isso como é que os jornalistas conseguem pegar neste tipo de declarações e invertê-las completamente.

Só mesmo num país onde a informação é servida tipo fast-food é que este tipo de jornalismo pode ter algum sucesso. Qualquer ser minimamente atento apercebe-se da falta de rigor permanente e também, por vezes, da presença de má fé (ou senão de incompetência) na transmissão da notícia.

Vivo em Inglaterra desde 2002 e, sendo um 'consumidor' de informação, tenho tido a oportunidade de constatar sobre a falta de rigor e procura de sensacionalismo por parte de todas as televisões portuguesas. É frequente notar a ligeireza com que são transmitidos números de vítimas, ocorrência de catástrofes, factos políticos, etc. Às vezes dá vontade de rir, se não fosse de lamentar, quando se ouve a mesma notícia num canal português e se muda para um canal rigoroso como são, por exemplo, os da BBC. Para além da ausência de sangue, nota-se a ausência de emotividade e a procura de rigor na transmissão dos factos. Isso é aliás demonstrado nalgum atraso que às vezes se nota na transmissão da notícia por parte da BBC. Não, não é sinal de ineficiência mas sim, muitas vezes devido à necessidade de confirmar o sobre o rigor dos factos.

(Miguel Castro)
*
Quando a “deixa” sem comentário de enquadramento apareceu posteriormente, percebi logo que seria o trampolim para o que efectivamente aconteceu : desvirtuar a verdade para ter a “cacha do dia”. Não começou hoje nem vai acabar amanhã. Ter ou não ter honestidade intelectual não faz parte das preocupações de muitos “ ansiosos primários” de diferentes sectores da nossa sociedade, incluindo o jornalismo. Não são a maioria, ou antes, não subsistem enquanto discurso dominante a longo prazo, mas no jornalismo são mais notórios porque em público exercem a que deveria ser a sua profissão. Analisando friamente, muitos “transmissores de notícias” do nosso país não têm como objectivo ser jornalistas, mas sim ser “paparazzis” do quotidiano, procurando notoriedade efémera a qualquer custo, (en)cobertos pela responsabilidade de editores que, numa visão prosaica, quando os “mandam” reportar, efectivamente os mandam ladrar e morder para que a notícia não seja o que a pessoa diz mas sim a marca da mordidela na canela.

(Maurício Barra)

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RETRATOS DO TRABALHO EM LISBOA, PORTUGAL



Arrumação de uma sala do Museu Nacional de História Natural (MNHN) da Universidade de Lisboa (antiga Faculdade de Ciências). Depois do incêndio de 1978, os antigos espaços da Faculdade de Ciências têm vindo a ser recuperados e transformados em salas de exposição dedicadas às ciências naturais. Este tem sido um esforço continuado no tempo dadas as dificuldades em obter financiamentos. Esta fotografia retrata a difícil tarefa de transportar pesados armários metálicos num edifício antigo sem elevadores.

(João Cascalho)

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LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)
(17 de Março de 2006)


__________________________

No New York Times, In the Age of the Overamplified, a Resurgence for the Humble Lecture.

*


Um nebulosa enrodilhada em si mesmo, como uma dupla tira de DNA, perto do centro da nossa galáxia. Não se sabe porquê.

*

No sítio do Dicionário de Oxford há uma secção chamada Ask the experts onde os especialistas respondem a perguntas técnicas ou simplesmente curiosas. Por exemplo, qual a palavra inglesa mais longa? Pneumonoultramicroscopicsilicovolcanoconiosis, uma doença pulmonar. A este sítio aplica-se bem um dos motes do Dicionário, "passionate about language".

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AR PURO


Feodor Vasilyev

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EARLY MORNING BLOGS 738

(Me up at does)


Me up at does

out of the floor
quietly Stare

a poisoned mouse

still who alive

is asking What
have i done that

You wouldn't have


(e.e. cummings)

*

Bom dia!

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16.3.06


BIBLIOFILIA: MAIS LIVROS ENTRADOS

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David Kline and Dan Burstein, Blog! How the Newest Media Revolution is Changing Politics, Business and Culture

Simon Schama,The Embarrassment of Riches: An Interpretation of Dutch Culture in the Golden Age

Darren Harris-Fain, Understanding Contemporary American Science Fiction: The Age Of Maturity, 1970-2000 (Understanding Contemporary American Literature), University of South Carolina Press

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CONGRESSO DO PSD: DILEMAS E PERPLEXIDADES



A poucos dias da sua realização, o congresso do PSD suscita uma escassa atenção. Os jornalistas nas redacções preparam as suas malas e bagagens porque sabem que qualquer congresso do PSD tem elementos de psicodrama excelentes na televisão e que servem para preencher a pasmaceira em que o país parece envolvido após a inquietação eleitoral. Mas a opinião pública, as pessoas que têm um interesse cívico sobre a vida político-partidária, olha com indiferença para o PSD e com comiseração para aquela pequena efervescência dos habituais que têm sempre, em vésperas do congresso, uma rara oportunidade para ser entrevistados. Este é um sinal muito preocupante do estado do partido.

Pode sempre argumentar-se que tal é natural para um partido de oposição, que veio de uma importante derrota nas legislativas e que está frente a três anos de oposição desertificadora, com uma liderança contestada, que muitos consideram frágil, e pouco entusiasmante. Num país em que quem está na mó de baixo leva sempre em triplicado, a comunicação social ajuda à festa, tratando com severidade o PSD, enquanto fecha aos olhos a muitas aleivosias do PS e do Governo. Tudo isso pode ser verdade, mas convém também lembrar que o PSD há pouco mais de um ano ainda estava no governo e, já com a actual liderança, ganhou duas eleições (autárquicas e presidenciais) e que foi do seu seio que saíram o actual presidente da Comissão Europeia e o Presidente da República.

A especial conjuntura em que se encontra o PSD mostra o preço altíssimo que se pode pagar quando se deixa levar a instituição-partido a degradar-se até ao limite. No PSD, o processo começou com Cavaco Silva, mas manteve-se ininterrupto desde então, com a honrosa excepção das tentativas Marcelo-Rio da "refiliação", aliás prontamente goradas. A tese que se tornou prevalecente, quase um truísmo, é a de que o partido não interessa para nada, as políticas fazem-se a partir de lideranças fortes ou a partir da distribuição de lugares com origem na governação e que o resto é quase uma perturbação que se pretende sempre bem longe, nos fundos da casa, na cave, de preferência. De vez em quando lá vinha do alto alguém pôr ordem, mas a cave era deixada em autogestão. O problema foi quando os andares superiores ficaram vazios e os habitantes da cave começaram a subir os andares todos e a torná-los desconfortáveis para os poucos que ainda os habitavam.

Esta visão ignorou duas coisas que hoje, pela vantagem de podermos olhar para trás, percebemos. Uma, a que deixando os mecanismos do partido apenas a funcionar para o poder local, "autarciza-se" o partido, que fica dependente de mecanismos em que o caciquismo se acentua cada vez mais. Cavaco Silva, centrando no Governo a orientação política geral, cortou a relação com os órgãos superiores do partido que perderam papel na condução do processo político. É verdade que esta tendência se foi agravando à medida que as fugas de informação tornavam os órgãos colegiais menos seguros para decisões delicadas. Depois, é cada vez mais forte dentro do partido a mecânica da carreira e do emprego, moldando-se as estruturas às expectativas dos cargos disponíveis quer por eleição, quer por nomeação. O partido perdeu cada vez mais a sua relação com a sociedade civil, fechou-se aos melhores, promoveu pelo sindicato de voto e não pelo mérito. Já várias vezes insisti no facto de que, entregando o nosso sistema constitucional um número significativo de poderes aos partidos políticos e o monopólio da representação parlamentar, não se pode ser indiferente à qualidade da democracia interna desses partidos, aos seus mecanismos de promoção e carreira, aos efeitos perversos da corrupção, e a todas as manifestações oligárquicas do seu funcionamento.

O menosprezo pelo partido paga-se ainda mais caro quando se está na oposição, quando não há as prebendas, as benesses e o poder da governação. Nessa altura percebe-se melhor a inadequação do instrumento à função. Se um desses instrumentos fundamentais de fazer política, o grupo parlamentar, já for ele próprio um retrato da degradação partidária, com o incremento de intriga que parece povoar os Passos Perdidos como uma maldição antiga, então não se tem quase nada.

Penso que Marques Mendes tem aguda consciência desta situação, mas também poucos instrumentos para a mudar. Porém, poucos não significam nenhuns. No congresso, ele pode obter a chave para um rápido reforço da sua legitimidade interna concorrendo a directas a muito curto prazo (seria um erro adiá-las, devia até prever-se fazê-las o mais breve possível), e nessas eleições apresentar uma comissão política que possa não só aconselhar com qualidade, mas servir como interlocutor para fora e não para dentro. A oportunidade, caso passe a sua proposta, de eleger o líder e a comissão política num só acto, acabando com as tendências federativas que querem diluir o poder e a homogeneidade dos órgãos de direcção, obriga-o a escolher fora do seu círculo de amigos e fora de negociações eleitorais. A institucionalização de órgãos mais especializados, como é o caso do conselho estratégico, existente nas suas propostas, permite-lhe também dar uma outra legitimidade partidária a eventuais porta-vozes de políticas sectoriais, com credibilidade na sociedade. Tudo isto pode ser conseguido, mas exige de Marques Mendes um quase permanente tudo ou nada, uma actuação no fio da navalha, a única que dá poder em vez de o tirar.

A não ser assim, não é difícil antever dois caminhos contraditórios para o congresso do PSD, nenhum muito entusiasmante. Um, um congresso sem dramas, relativamente pacífico (tem mesmo de ser relativamente...), com aprovação das propostas sem grandes sobressaltos, o que só será possível por omissão e reserva mental. O segundo, bastante mais provável, é um congresso tumultuoso, cheio de voltas e reviravoltas, de declarações cínicas e inuendos, mas centrado em querelas procedimentais. Como para mudanças estatutárias é necessária uma maioria qualificada, a probabilidade de saírem do congresso soluções híbridas gerando a ingovernabilidade do partido é considerável.

Quanto ao lugar de Marques Mendes, ninguém quer o lugar dele... para já. Talvez aqui a honrosa excepção seja Menezes, que deve querer tudo e já, e pelo menos não tem hipocrisia nesse objectivo, nem reserva mental. Fora disso, todos querem que ele lá fique, mas enfraquecido o bastante para não se afirmar, mantendo a instituição em grande parte em autogestão pelas distritais e pelos autarcas, sem liderança política, nem mudanças nas primeiras linhas que criem a tensão do mérito. Tenho para mim que este congresso só vale alguma coisa se Marques Mendes actuar com intransigência, tentando mudar até ao limite do possível. Ele nada tem a perder.

(No Público de hoje.)

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NUNCA É TARDE PARA APRENDER

Há poucos limites para a crueldade da guerra, e poucos têm a ver com o direito. Na II Guerra Mundial ninguém aplicou a Convenção de Genebra como devia, embora a sua existência tivessse impedido a morte ou a tortura de muitos soldados, porque muitos oficiais do Eixo e dos Aliados a respeitavam e faziam respeitar. Apesar de tudo, apesar de tudo, no essencial as suas medidas foram aplicadas.

Uma notória excepção foi o combate em Creta, a inédita invasão por tropas aerotransportadas, iniciada pelo maior ataque de paraquedistas da história, contra a ilha onde se tinham refugiado os sobreviventes da força expedicionária britânica que viera da Grécia. Os soldados e oficiais ingleses, neo-zelandeses, australianos, maoris, que constituiam o grosso das tropas em Creta, mataram paraquedistas que se rendiam, mataram feridos, executaram oficiais e soldados. No mar, os barcos ingleses afundaram pequenos barcos com tropas que tinham hasteado a bandeira branca e teriam (o único facto controverso, os outros não são) deitado cargas de profundidade para matar por concussão os soldados que estavam na água. Os pilotos alemães responderam á letra metralhando homens na água e um navio hospital, mas foi do lado dos aliados que se deram as maiores violações às leis da guerra.

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RETRATOS DO TRABALHO EM LISBOA, PORTUGAL


(R.)

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LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)
(16 de Março de 2006)


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Grande Google! Mais um e extra-terrestre: o Google Mars.

*

Um homem valente, um colunista valente: Art Buchwald, uma das glórias americanas do género, está a morrer. Recusou a hemodiálise e espera a morte... escrevendo a sua coluna sobre a "ceifeira":
"Ordinarily, people don't talk about death. Yet it's very much a part of our lives. I'm in a hospice and seem to have a lot of time to talk about it."...

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DESPERTAR


Porto de hoje às 8:00.

(Gil MD Passos Coelho)

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EARLY MORNING BLOGS 737

185

"Faith" is a fine invention
When Gentlemen can see—
But Microscopes are prudent
In an Emergency.

(Emily Dickinson)

*

Bom dia!

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15.3.06


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
HOUVE OU NÃO HOUVE ACORDO COM O MIT E QUE ACORDO?



Aquela mensagem de Helder Machado sobre o acordo com o MIT só traz estranheza a quem se limitou a seguir a assinatura do protocolo pelos media e acabou, como de costume, a receber a notícia que os jornalistas gostariam de transmitir em lugar do facto que de facto ocorreu. Para quem esteve no CCB não há ali nenhum facto estranho. O que alí foi assinado, e ficou bem claro no discurso do responsável do MIT, Philip Clay, foi um protocolo que preve que um grupo de pessoas do MIT façam um levantamento de possibilidades de cooperação em áreas previamente definidas (estas vieram correctamente descritas pelo menos no Público) com instituições ou pessoas durante os próximos 5 meses. Se se verificar haver interesse mútuo a cooperação desenvolver-se-á, caso contrário ficará tudo como dantes... Identica informação é disponibilizada na nota de imprensa do MCTES.

A montanha pariu um rato? Resta saber quem andou a construir a montanha durante umas quantas semanas, entre casos e quezílias, criando a ideiade que o protocolo seria algo de completamente diferente e no final não foi capaz de dizer que se tinha enganado, antes continuou a enganar toda a gente mantendo a ilusão de que o que foi assinado foi algo de muito diferente do que na realidade foi... E não falo no PM ou no Mariana Gago mas sim nos jornalistas presentes... A menos que o problema tenha sido o discurso do Prof Clay ter sido proferido em inglês... Aliás a deixar claro como isto do MIT foi artificialmente empolado pelos media basta ver como um protocolo semelhante com a Universidade de Carnegie Mellon assinado esta sexta feira aqui em Aveiro passou quase inteiramente despercebido.

(João AP Coutinho)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
"VOU-LHE DAR UMA PICTURE DA SITUAÇÃO"



Defronto-me diariamente com a utilização ( crescente ) da língua inglesa nas coisas mais ridículas do dia a dia. Geralmente para substituir vocábulos Portugueses perfeitamente eficazes para o efeito que se pretende. Ora, eu entendo que a língua Portuguesa é um dos nossos maiores patrimónios, capaz de gerar riqueza e postos de trabalho e gostaria de dar algum contributo para contrariar esta tendência.

Há dias em reunião, pedi a um cavalheiro que me apresentasse um problema e a resposta foi: “vou-lhe dar uma picture da situação”.

(Manuel Pinheiro)

*
Embora concordando com o teor da mensagem "VOU-LHE DAR UMA PICTURE DA SITUAÇÃO", não posso deixar de assinalar que o seu autor, Manuel Pinheiro, parece sofrer do mal que critica. Por que motivo escreve ele o adjectivo "português" com maiúscula? (Exemplos: "vocábulos Portugueses"; "língua Portuguesa") Trata-se duma regra da língua inglesa, que não faz qualquer sentido em português. Infelizmente, é um erro bastante comum, muito frequente, por exemplo, com o adjectivo "europeu".

(Miguel Magalhães)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
CAVACO SILVA E A CAMISARIA PITTA


Ainda em relação ao post de ontem sobre a "Camisaria Pitta" e Aníbal Cavaco Silva, fui descobrir há minutos, ali na estante, um livro - edição do Jornal "Expresso" com coordenação do seu jornalista Alexandre Coutinho - intitulado "50 Lojas com Histórias", onde a "Camisaria Pitta" está, não por acaso, incluída (sabia que tinha o livro mas, sinceramente, não me lembrava se nele se incluía a loja). Passo a transcrever alguns excertos do texto assinado por por Conceição Antunes, também ela jornalista do "Expresso":

"Abriu as portas em 1885 na Rua de S. Julião... mas decorridos quatro anos a elegante camisaria mudaria para a Rua Augusta. Celebrizado pelos seus dotes de camiseiro, o fundador, A. M. Pitta, atraiu desde cedo para o estabelecimento uma clientela seleccionada, formada pela nobreza e a alta sociedade da época, acabando por tornar-se fornecedor da Casa Real. Entre esta ilustre clientela, contava-se a família dos Duques de Bragança, o rei D. Carlos e o seu filho D. Luis" ( aka D. Luis Filipe, acrescento eu). Diz, mais adiante, o actual gerente: "é a camisaria mais antiga da Península Ibérica, com estas características de confeccionar camisas à "mão". Continua o texto: "a camisaria manteve-se na família do seu fundador até 1977, altura em que, no rescaldo do 25 de Abril, passava tempos particularmente difíceis"... "as camisas continuam a ser inteiramente confeccionadas à mão, desde as casas dos botões aos monogramas bordados. Só são utilizados materiais naturais, como botões de madrepérola e linhas cem por cento em algodão". E por aí fora...

Em Londres, ostentaria pois, orgulhosamente, um, dois ou três royal warrants, mas em Portugal não conhecemos, nem sabemos cuidar do nosso património. Que diria o Senhor D. Carlos?

(João Cília)

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RETRATOS DO TRABALHO NA ANGOLA COLONIAL


Oficinas de reparação da maquinaria pesada das minas de diamantes, tirada há uns 40 anos (?)

(José Luís Pinto de Sá)

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EARLY MORNING BLOGS 736

Éloge et pouvoir de l'absence



Je ne prétends point être là, ni survenir à l'improviste, ni paraître en habits et chair, ni gouverner par le poids visible de ma personne,

Ni répondre aux censeurs, de ma voix ; aux rebelles, d'un oeil implacable ; aux ministres fautifs, d'un geste qui suspendrait les têtes à mes ongles.

Je règne par l'étonnant pouvoir de l'absence. Mes deux cent soixante-dix palais tramés entre eux de galeries opaques s'emplissent seulement de mes traces alternées.

Et des musiques jouent en l'honneur de mon ombre ; des officiers saluent mon siège vide ; mes femmes apprécient mieux l'honneur des nuits où je ne daigne pas.

Égal aux Génies qu'on ne peut récuser puisqu'invisibles, — nulle arme ni poison ne saura venir où m'atteindre.

(Victor Segalen)

*

Bom dia!

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14.3.06


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
A IMPORTÂNCIA DA CAMISARIA PITTA


(Um reparo a propósito do post da bloguítica citado no Abrupto)

Atenção! A camisaria Pitta foi, durante muitos anos e em conjunto com a "Camisa de Ouro", do Largo do Rato, o nec plus ultra das camisas "por medida", em Lisboa, quando as camisas compradas feitas não eram consideradas de "bom tom". Os clientes passavam de geração em geração, na mesma família, até há relativamente pouco tempo. "Quem era quem" era cliente e até se dizia que era condição necessária (mas não suficiente) para se chegar a ministro (quando ministro tinha outro peso, seja, na "ditadura"). Para o resto do vestuário não seria "tanto assim", mas aqui fica o reparo no que diz respeito às camisas.

(João Cília)

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COISAS SIMPLES


André Kertész

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EARLY MORNING BLOGS 735

L'Homme et l'Idole de bois

Certain Païen chez lui gardait un Dieu de bois,
De ces Dieux qui sont sourds, bien qu'ayants des oreilles.
Le païen cependant s'en promettait merveilles.
Il lui coûtait autant que trois.
Ce n'étaient que voeux et qu'offrandes,
Sacrifices de boeufs couronnés de guirlandes.
Jamais Idole, quel qu'il fût,
N'avait eu cuisine si grasse,
Sans que pour tout ce culte à son hôte il échût
Succession, trésor, gain au jeu, nulle grâce.
Bien plus, si pour un sou d'orage en quelque endroit
S'amassait d'une ou d'autre sorte,
L'homme en avait sa part, et sa bourse en souffrait.
La pitance du Dieu n'en était pas moins forte.
A la fin, se fâchant de n'en obtenir rien,
Il vous prend un levier, met en pièces l'Idole,
Le trouve rempli d'or : Quand je t'ai fait du bien,
M'as-tu valu, dit-il, seulement une obole ?
Va, sors de mon logis : cherche d'autres autels.
Tu ressembles aux naturels
Malheureux, grossiers et stupides :
On n'en peut rien tirer qu'avecque le bâton.
Plus je te remplissais, plus mes mains étaient vides :
J'ai bien fait de changer de ton.

(La Fontaine)

*

Bom dia!

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13.3.06


NUNCA É TARDE PARA APRENDER

Durante a malograda intervenção britânica para apoiar a Grécia face à invasão italiana, os ingleses mandaram na sua força expedicionária um número significativo de oficiais que eram professores de Oxford e Cambridge, ou arqueólogos , especializados na Grécia clássica. Estes académicos deram notáveis e valentes militares, muitos deles nas forças especiais. Havia, no entanto, um pequeno problema: todos falavam ou conheciam o grego clássico e havia cenas divertidíssimas quando tentavam falar com os gregos de hoje.

Embora a distância entre o grego clássico e o moderno seja maior, era o equivalente a aparecerem-nos uns paisanos estrangeiros a falar o português das cantigas de escárnio e mal-dizer.

*
Li em tempos, salvo erro num número muito antigo das "Selecções do Reader's Digest", que num desses diálogos um dos tais académicos, pretendendo inteirar-se da hora de partida de um barco que fazia a ligação com uma das ilhas, ter-se-á dirigido a uns marinheiros no porto, em termos que, traduzidos, dariam mais ou menos isto:
- A que horas partem, ó nautas, vossas flutuantes naves?

(António Cardoso da Conceição)

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BIBLIOTECAS



A biblioteca da Esnoga, a sinagoga portuguesa de Amsterdam, chamada Ets Haim (A Árvore da Vida) foi obra desta muito especial comunidade de portugueses que Portugal expulsou. A fotografia retrata em 1916 dois dos seus bibliotecários a trabalhar, David Montezinos e Jacob da Silva Rosa. Este último, um estudioso da cultura judaico-portuguesa, morreu em 1943 num campo de concentração nazi. Os nazis roubaram também a biblioteca para fazer parte do espólio do Instituto Alfred Rosemberg, mas foi recuperada depois da guerra.

*
Na verdade, os nazis levaram a totalidade dos livros da biblioteca para eventualmente fazerem parte do espólio do Instituto Alfred Rosemberg. Os livros foram levados para uma estação de comboio na Alemanha, onde ficaram armazenados durante o resto do perído da guerra. Até à chegada das tropas norte-americanas quando se aperceberam do conteúdo do armazém e decidiram reenviá-los de volta a Amesterdão. Não sem que antes disso alguns militares alemães (por certo, os mais cultos que lá estavam) tivessem metido ao bolso algumas das obras literárias mais importantes, como meio de assegurarem a sua sobrevivência nos tempos mais próximos. Alguns desses livros apareceram em leilões da Christie's nos anos '50, outros foram vendidos a preços modestos em alfarrabistas de Madrid. Felizmente, não os levaram todos. E por isso podemos apreciar a produção literária e filosófica da Nação Portugueza, sobretudo de Miguel de Barrios. E meditar sobre os debates das suas Academias (de los Floridos, de los Sitibundos).

(F.)

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LIVRARIAS


Um saco de plástico da Waterstone's.

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NOVOS DESCOBRIMENTOS: MAIS UM PANORAMA MARCIANO


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NUNCA É TARDE PARA APRENDER

Nick Freeth, Made in America: From Levi's to Barbie to Google, MBI

Se os meninos chegam de Paris numa cegonha, a sociedade de consumo chegou da América em duzentas cegonhas. Esta lista comentada de 200 produtos "made in America" mostra a fabulosa criatividade e génio de engenharia, de design industrial e talento comercial dos EUA. Muitos dos produtos nunca saíram da América, tornando-se ícones nacionais, como os autocarros Greyhound, automóveis, canas de pesca, barcos, bicicletas, rações de combate, armas, ferramentas e Mr. Potato Head. Mas a maioria está por todo o lado, nas nossas casas, nas nossas ruas, nas nossas cabeças (Hollywwood). É o caso da Alka-Seltzer, do iPod, das lâmpadas do senhor Edison, dos frigoríficos filhos do Frigidaire, dos aspiradores filhos do Hoover, do Monopólio, da Barbie, do Google, das notas Post-It, da Coca-Cola, dos carrinhos de supermercado, do ketchup,dos óculos Ray-Ban, das roupas Ralph Lauren e Clavin Klein, do Windows, da fita adesiva, etc., etc. Duas características são fundamentais nesta lista: muitos dos produtos começaram em pequenas empresas e subiram a pulso (as excepções, como as meias de nylon, vieram de grandes empresas químicas como a DuPont); e a maioria melhora as nossas condições de vida e de trabalho.

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LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)
(13 de Março de 2006)


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No Harvard Magazine uma análise sobre a perda de importância das "humanidades":
"The only thing most teachers and students of the humanities agree on, it often seems, is that these are troubled times for their field. For a whole variety of reasons—social, intellectual, and technological—the humanities have been losing their confident position at the core of the university’s mission. This represents an important turning-point, not just for education, but for our culture as a whole. Ever since the Renaissance, the humanities have defined what it means to be an educated person. The very word comes from the Latin name of the first modern, secular curriculum, the studia humanitatis, invented in fourteenth-century Italy as a rival to traditional university subjects like theology, medicine, and law."
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Fukuyama e Bernard-Henri Lévy discutem Las Vegas no The American Interest.

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No Bloguitica:
"A «classe média», oriunda de Boliqueime, teve a ousadia de ascender a Belém. Ontem, hoje e amanhã, a afronta nunca será perdoada. Como é que Aníbal Cavaco Silva ousa continuar a vestir-se na Camisaria Pitta, na Rua Augusta? E Maria Cavaco Silva não sabe que, para ser «aceite», tem de arranjar um estilista que seja conhecido em Lisboa e no Porto?"
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No Abrigo da Pastora:
"Até que ponto não se lê apenas o que se quer ler? Que espaço se dá à surpresa na leitura? Que hipóteses à corrosão de estereótipos? Será uma questão de tempo ou dinheiro o que provoca a compartimentação das ideias a que hoje se assiste? A rejeição da empatia pelos pontos de vista que são os do outro? E será esta uma vantagem competitiva?"

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EARLY MORNING BLOGS 734

"No tempo de Noé sucedeu o dilúvio que cobriu e alagou o Mundo, e de todos os animais quais livraram melhor? Dos leões escaparam dois, leão e leoa, e assim dos outros animais da terra; das águias escaparam duas, fêmea e macho, e assim das outras aves. E dos peixes? Todos escaparam, antes não só escaparam todos, mas ficaram muito mais largos que dantes, porque a terra e o mar tudo era mar. Pois se morreram naquele universal castigo todos os animais da terra e todas as aves, porque mão morreram também os peixes? Sabeis porquê? Diz Santo Ambrósio: porque os outros animais, como mais domésticos ou mais vizinhos, tinham mais comunicação com os homens, os peixes viviam longe e retirados deles. Facilmente pudera Deus fazer que as águas fossem venenosas e matassem todos os peixes, assim como afogaram todos os outros animais. Bem o experimentais na força daquelas ervas com que, infeccionados os poços e lagos, a mesma água vos mata; mas como o dilúvio era um castigo universal que Deus dava aos homens por seus pecados, e ao Mundo pelos pecados dos homens, foi altíssima providência da divina Justiça que nele houvesse esta diversidade ou distinção, para que o mesmo Mundo visse que da companhia dos homens lhe viera todo o mal; e que por isso os animais que viviam mais perto deles, foram também castigados e os que andavam longe ficaram livres."

(Padre António Vieira)

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Bom dia!

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12.3.06


A SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA



Hoje, agora, há instantes. Num damasqueiro, perto de mim.

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LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)
(12 de Março de 2006)


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Muito do que se escreve nos jornais sobre Milosevic é feito a partir da lógica do vencedor e do medo que têm os europeus quanto ao recrudescimento do nacionalismo, que a queda do Muro de Berlim trouxe para dentro das suas fronteiras. Se se tratasse apenas de condenar as violações de direitos humanos, Putin devia estar no Tribunal Internacional de Haia, pelo que fez na Chechénia. A história será mais benevolente com Milosevic, pelo menos a da Sérvia.

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Comentando as roupas da família Cavaco no Público, diz Paula Bobone: "A concepção da imagem não é XPTO, mas achei bem." Eu sempre pensei que as pessoas finas não diziam XPTO.

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Eduardo Cintra Torres no Público:
"Um ou mais canais disseram que os discursos na cerimónia de posse eram "chatos". A linguagem televisiva já não se coaduna com a transmissão integral de discursos. Como a TV controla a sua emissão, não há discursos transmitidos na íntegra, se esquecermos o episódio inenarrável de Gilberto Madail em directo às oito horas.
Mas, no caso de uma cerimónia, quem manda na TV é a cerimónia e não o contrário. A TV tem de obedecer. Ela gosta do ritual, da chegada dos "conhecidos", dos cumprimentos, do hino e da bandeira, do empurrão, do "daqui não vejo nada", do "há aqui uma certa confusão", mas não gosta dos discursos dos outros pois quer ter o monopólio discursivo no seu fluxo. Por isso todos os discursos são "chatos". No caso, não foram, nem o de Jaime Gama nem o de Cavaco Silva.
Esta situação é curiosa, porque a televisão é em grandíssima medida um contínuo discurso de talk-shows, convidados e jornalistas, artistas de novelas e de reality shows, um palrar impossível de conter. "

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RETRATOS SOCIAIS

Já temos também uma Fátima Letícia, um pobre bebé maltratado, mas com um nome da realeza e do jet-set. Segundo as autoridades que decidiram a retirada da criança aos pais e avós, "não se reconhece nem aos pais biológicos nem aos avós maternos competências e idoneidade suficientes para desempenharem de forma responsável, ajustada e protectora os cuidados parentais para com esta menor." Está tudo no nome.

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NUNCA É TARDE PARA APRENDER

The Army of Alexander the Great (Men at Arms Series, 148), written by Nicholas Sekunda / Angus McbrideNick Sekunda, The Army of Alexander the Great, Osprey, 2004

Retrato de um exército antigo. Durante milénios era uma verdade universal que não se brincava com os exércitos. Agora, na Europa, com excepção do Reino Unido, parece que nos esquecemos. No campo de batalha estava-se diante da morte, mas, atrás do campo de batalha, da vitória ou da derrota, dependia tudo, destruições, violações, tortura, escravidão. Os antigos sabiam isto muito bem. Neste estudo sobre o exército de Alexandre, várias coisas surpreendem o leitor actual. Primeiro, o grau de organização do próprio exército, compreendendo vários tipos de infantaria, de cavalaria ligeira e pesada, de unidades de reconhecimento, e a sua maleabilidade organizacional. Alexandre várias vezes o reorganizou em função do seu comportamento em combate e do tipo de reforços que o iam incorporando. Como todos os grandes generais, como Napoleão, Alexandre promovia os seus oficiais por mérito em combate. Segundo, o exército de Alexandre era o de uma confederação, incluindo tropas da Macedónia, o corpo central, e unidades das cidades gregas que estavam sobre o seu domínio. Nem todos falavam a mesma língua, por exemplo, os gregos compreendiam com dificuldade o crioulo do grego que falavam os macedónios. Nem sequer se viam muito bem uns aos outros. Os gregos achavam os macedónios uns semi-bárbaros e os macedónios retribuíam considerando os gregos uns hesitantes e uns medricas. Por último, há toda uma série de pequenos detalhes que revelam o tempo. Nas marchas os cavaleiros iam a pé ao lado das suas montadas, que não podiam correr o risco de cansar. Imaginem Alexandre e os seus Companheiros, a nobreza real da Macedónia, a andar a pé milhares de quilómetros. Os cavalos não tinham ferraduras e entre marchas e cargas de cavalaria, tinham que ser substituídos regularmente. Este era um aspecto fundamental da logística de um exército antigo. Há muito mais, sobre tendas, transporte do fogo, refeições, gritos de guerra, tudo.


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NUNCA É TARDE PARA APRENDER



Mussolini tinha três Morandis.

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EARLY MORNING BLOGS 733

"Peixes! Quanto mais longe dos homens, tanto melhor; trato e familiaridade com eles, Deus vos livre! Se os animais da terra e do ar querem ser seus familiares, façam-no muito embora, que com suas pensões o fazem. Cante-lhes aos homens o rouxinol, mas na sua gaiola; diga-lhes ditos o papagaio, mas na sua cadeia; vá com eles à caça o açor, mas nas suas piozes; faça-lhes bufonarias o bugio, mas no seu cepo; contente-se o cão de lhes roer um osso, mas levado onde não quer pela trela; preze-se o boi de lhe chamarem formoso ou fidalgo, mas com o jugo sobre a cerviz, puxando pelo arado e pelo carro; glorie-se o cavalo de mastigar freios dourados, mas debaixo da vara e da espora; e se os tigres e os leões lhe comem a ração da carne que não caçaram no bosque, sejam presos e encerrados com grades de ferro. E entretanto vós, peixes, longe dos homens e fora dessas cortesanias, vivereis só convosco, sim, mas como peixe na água. De casa e das portas a dentro tendes o exemplo de toda esta verdade, o qual vos quero lembrar, porque há filósofos que dizem que não tendes memória."

(Padre António Vieira)

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Bom dia!

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© José Pacheco Pereira
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