ABRUPTO

18.3.06


COISAS DA SÁBADO: MILOSEVIC

Flag of Serbia and Montenegro

Milosevic morreu numa cela limpa e confortável, espartana é certo, como é suposto ser uma cela, mas aquecida e dotada do mínimo indispensável para se viver e trabalhar intelectualmente. Na cela, predominava o aço e o betão, os sinais da dureza da prisão, da sua solidez impessoal para que os que entram não possam sair.

Esta realidade da cela holandesa dificilmente poderia ter maior contraste com o mundo de Milosevic. No seu apogeu do poder, ele conheceu o brilho já um pouco degradado do fausto de Tito, que gostava de dourados e luxos, e que transformou os lugares do poder, muitos herdados da nobreza da periferia do império austro-húngaro, em palácios para a nomenklatura comunista. Milosevic, na sua dedicada carreira de funcionário, conhecia também o outro lado da paisagem do comunismo, a péssima qualidade das habitações, a má manutenção de tudo, as paredes escalavradas, as cortinas escurecidas, o cheiro a carvão e gasolina, o desleixo quase institucionalizado de tudo que não fosse bem de consumo. Esta era a sua paisagem natural, não a solidez capitalista da cela de Haia.

Milosevic fez o trajecto do Partido Comunista para o nacionalismo, como muitos outros antigos dirigentes comunistas, mas uma coisa é ser-se nacionalista na Ásia Central, outra nos Balcãs. Nos Balcãs todas as misturas explosivas da história europeia estão presentes, e a memória dos homens é mais longa. Os sérvios, mais do que qualquer outro dos “povos” dos Balcãs, sentem-se vítimas de uma conspiração internacional, que os aponta sempre como os principais culpados de tudo o que aconteceu desde o desmembramento da Jugoslávia. Tem mais razão do que se pensa; porque motivo o croata Tudjman ou o bósnio muçulmano Itzebegovic, tão ferozes no seu nacionalismo, nunca foram perseguidos? A maior limpeza “étnica” durante a guerra atingiu os próprios sérvios, expulsos da Krajina pelos croatas, mas só se ouve falar dos bósnios e dos albaneses do Kossovo. Duplicidades.

Por tudo isto, o corpo de Milosevic pode ser agora atirado para uma terra alheia (*) – embora Moscovo não seja terra hostil – mas acabará, como dizia uma velha que colocava uma ortodoxa vela num memorial de Belgrado, por regressar à sua Sérvia como um herói nacional.

(*) Posteriormente a esta nota ter sido escrita, o corpo foi autorizado a ser enterrado na Sérvia.

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© José Pacheco Pereira
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