ABRUPTO

19.11.05


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÃO E OUTROS MEDIA
(19 de Novembro)



Para os admiradores da Blue Ball Machine, o Rocketboom de hoje. No mesmo filão há outras coisas bem divertidas: Paris Hilton doesn't change facial expressions, um exemplo para os blogues caçadores de incoerências em tempo real; um Batman: ualuealuealeuale ; um hino para os blogues que trabalham muito para as audiências ; um George Costanza sei lá para quê; e um para os blogues justiceiros. A febre de sábado de manhã vai alta.

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AR PURO


Alexei Savrasov

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EARLY MORNING BLOGS 648

Child Of The Romans


The dago shovelman sits by the railroad track
Eating a noon meal of bread and bologna.
A train whirls by, and men and women at tables
Alive with red roses and yellow jonquils,
Eat steaks running with brown gravy,
Strawberries and cream, eclaires and coffee.
The dago shovelman finishes the dry bread and bologna,
Washes it down with a dipper from the water-boy,
And goes back to the second half of a ten-hour day’s work
Keeping the road-bed so the roses and jonquils
Shake hardly at all in the cut glass vases
Standing slender on the tables in the dining cars.


(Carl Sandburg)

*

Bom dia!

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18.11.05


COM ELES



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LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÃO E OUTROS MEDIA
(18 de Novembro) - 2ª série




De um leitor:
"Enquanto por cá andamos (pais, professores e académicos) preocupados por os nossos alunos escreverem em provas escritas recorrendo a linguagem SMS e discutimos o uso de "sitio" em alternativa a site ou wireless em vez de "sem fios" pois há quem não perca tempo e se ajuste aos tempos. Já imaginou os Lusiadas ou Os Maias em linguagem SMS?
Pois agora imagine isto.

(Carlos Brás)
Um fragmento daquilo:
"As principais obras da literatura britânica foram traduzidas para linguagem de SMS, como forma de ajudar os estudantes do Reino Unido a rever a matéria para os exames. O serviço condensa clássicos como «Orgulho e Preconceito» ou as peças de Shakespeare. Frases emblemáticas como o clássico «Ser ou não ser, heis a questão» («To be or not to be, that is the question»), de Hamlet, foram transformados em «2b? Nt2b? ???». Uma tradução que, de acordo com o professor John Sutherland, da Universidade de Londres, demonstra a capacidade dos SMS de apreender os principais pontos de uma história»
*

Os "anéis de Einstein" no Jet Propulsion Laboratory.

*

Recordado por Paulo Almeida:

"The Federal Election Commission today issued an advisory opinion that finds the Fired Up network of blogs qualifies for the 'press exemption' to federal campaign finance laws. The press exemption, as defined by Congress, is meant to assure 'the unfettered right of the newspapers, TV networks, and other media to cover and comment on political campaigns.'
The full ruling is available at the FEC site. A noteworthy passage: '...an entity otherwise eligible for the press exception would not lose its eligibility merely because of a lack of objectivity...'" ( aqui.)

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INTENDÊNCIA

Actualizada a nota TEMAS PRESIDENCIAIS (3ª SÉRIE).

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
ATENÇÃO AOS IDOS DE MARÇO (QUE EM PORTUGAL SÃO EM JANEIRO)




Existe algum perigo de um atentado terrorista em Portugal nos próximos tempos? Existe, claro: na véspera das eleições - como foi o assassinato de Gaspar Castelo Branco em 86, como foi o massacre de Madrid em 2004. Ainda mais que os terroristas podem querer evitar a eleição de Cavaco Silva e ajudar Soares como conseguiram em Madrid levar à derrota o Governo do PP, um bom Governo, como dois dias antes todas as sondagens confirmavam largamente.

A Espanha participou na Guerra do Iraque e nós não? Mentira: a Espanha não participou na Guerra, limitou-se a enviar um barco-hospital que chegou ao Golfo mês e meio depois dos combates terem terminado.

Aznar esteve na cimeira dos Açores com Bush e Blair? Também Durão Barroso. A cimeira não declarou a guerra ao Iraque, tratou da moção no Conselho de Segurança que previa o uso da força contra Saddam e acabou por ser retirada antes da votação. Mas Zapatero fez toda a sua campanha a proclamar que era preciso retirar a Espanha da "fotografia dos Açores"? A mesma da "fotografia dos Açores" e a mesma amálgama alimentaram em Portugal a campanha da Bloco de Esquerda com bom proveito.

Ainda assim, que a Espanha fizera a guerra e e isso justificava o massacre de 192 passageiros civis àquela hora da manhã num comboio suburbano (como se houvesse justificações!) - foi a palavra de ordem dos manifestantes socialistas, convocados por SMS ou alertados pela Cadena Ser e pla CNN espanhola, que cercaram as sedes do PP de Aznar até às primeiras horas do dia da votação. E foi também o que afirmaram nesse dia as televisões portuguesas, a maioria das rádios e dos jornais. Prova que em Portugal é neste momento extremamente fácil criar factos políticos ao sabor dos ventos e das ondas: veja-se o arrastão "informativo" que varreu a praia de Carcavelos este Verão.

Mas Cavaco Silva não apoiou a guerra do Iraque, até considerou que os Estados Unidos se precipitaram e não fizeram o que deviam, previamente, nas Nações Unidas e no campo diplomático? Também o Rei Abdullah não apoiou a guerra do Iraque muito pelo contrário, limitou-se mais tarde a apoiar a reconstrução das forças armadas daquele País, segundo a letra e o espírito das mais recentes decisões do Conselho de Segurança.

Nem os terroristas - que são os únicos responsáveis dos seus actos - precisam de pretextos, ou, melhor dizendo, tudo lhes serve. A França, de Chirac e Villepin, liderou a oposição aos Estados Unidos, desmultiplicou-se em iniciativas anti-americanas, arvorou-se em campeã do mundo muçulmano, foi aplaudida pelas massas populares pró-Saddam, de Rabat a Jacarta. Pois quem duvida que haja dedo islamista nas revoltas dos subúrbios parisienses que alastraram e continuam? O odiado (pela esquerda bem pensante!) Sarkozy, criador do conselho muçulmano de França na sua anterior passagem pelo Governo, acaba de lançar um alerta vermelho: "é real"... o risco de atentados em França nos próximos tempos. Villepin confirma.

E do risco de atentados em Portugal ninguém fala? Desde que os terroristas conseguiram alterar o sentido do voto em Espanha com os atentados de 12 de Fevereiro de 2004, todos estamos expostos. Portugal, em primeiro lugar, que tão parecidos somos com os espanhóis, tão permeáveis a qualquer arrastão informativo, como bem se viu. Nem é preciso um grande atentado: ao menor incidente, a qualquer boca foleira de um canidato, e a comunicação social sai para a rua desembestada.

Ninguém gosta de ser profeta de qualquer desgraça. Mas como diria Almeida Santos "por favor preocupem-se".

(José Teles)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: UMA BIBLIOTECA ROLANTE


(Pedro Filipe da Silva Gaspar)

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LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÃO E OUTROS MEDIA
(18 de Novembro)



No Público, o artigo de Miguel Sousa Tavares, Desencontros, (sem ligação) que fará correr muita tinta:

"Esta teoria do primado absoluto do "direito à orientação sexual" está-se a tornar uma espécie de ditadura bem-pensante, que funciona por um método "terrorista" de silenciamento dos discordantes: quem não reconhece este sagrado direito constitucional, com todas as suas consequências, só pode ser uma abecerragem, ao estilo do dr. João César das Neves."

a contrapor às notas habitualmente assinadas f. (Fernanda Câncio) no Glória Fácil.

*

No Bloguitica AFINAL NÃO SÃO APENAS OS BLOGUES (I de II) e A OSCILAÇÃO, a viagem asiática dos autores do kottke.org, as notícias portuguesas e brasileiras do Google, que todos os dias faz uma coisa diferente. E por falar no Google vale a pena ver este filme com os diferentes logotipos usados pelo motor de busca, em cima de música de Elvis.

*

Mecanismos da informação: no dia da greve dos professores, a divulgação dos números do absentismo docente. A muito governamental RTP abre com os números do absentismo, dados aliás da forma mais conveniente, para, a seguir, noticiar a greve. É assim que se fazem as coisas.

*

Os leitores do Abrupto estão a enviar sugestões para um nome alternativo a estes LENDO / VENDO... que dê melhor a ideia do stream digital. Algumas sugestões recebidas: “Audio, video, disco - I hear, I see, I learn” (Paulo Almeida); “Correnteza”, “Na correnteza dos media” (José Nunes); "MediaPlaning", “por vezes, tal como o "AquaPlaning", também o "MediaPlaning" pode provocar despistes!" (SBC); "Regato mediático", "Córrego mediático", "O fio de Ariadne", "Leituras no éter" (Leonel Morgado), etc. Vasco Godinho escreve:
"Notas sobre o fluxo electrónico", "Notas sobre o fluxo" ou "Fluxografia" foram as minhas primeiras ideias, mas são um pouco imediatas e nenhuma responde inteiramente ao que procura, e nem sequer têm a elegância que decerto procura. Se toda a gente soubesse quem foi o inventor do ensaio e da escrita-à-medida-do-que-se-pensa-e-se-vê, eu tomaria a liberdade de sugerir que se invocasse algures Montaigne. No fundo, a culpa disto tudo é dele.

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COISAS SIMPLES


John Pilson, St. Denis (Stairwell and Elevators)

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EARLY MORNING BLOGS 647

O poema ensina a cair

O poema ensina a cair
sobre vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face antige o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

(Luiza Neto Jorge)

*

Bom dia!

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17.11.05


TEMAS PRESIDENCIAIS (3ª SÉRIE)

UMA CAMPANHA DECLARATIVA


A campanha de Cavaco Silva é diferente de todas as outras. É feita para um candidato cujas características políticas e psicológicas são muito diferentes do habitual na "classe política" portuguesa. É feita em circunstâncias também sui generis: Cavaco Silva parte com patamares de apoio superiores aos dos outros candidatos todos juntos, o que é pouco comum em eleições muito contestadas e personalizadas. Esta última característica aparece pela primeira vez na nossa história eleitoral presidencial. Nem Eanes, nem Soares Carneiro, nem Freitas do Amaral, nem Mário Soares, nem Jorge Sampaio alguma vez estiveram numa situação deste tipo. Ou tinham um favoritismo esmagador, e os outros candidatos estavam apenas a "marcar presença", ou havia uma forte bipolarização com dois candidatos igualados.

Deixo aqui de lado o mérito relativo da mensagem de cada um, minimizando o papel de manifestos e programas, dado que mais do que as palavras é o interlocutor que lhes dá sentido. As mesmas coisas ditas por Cavaco e Soares são muito diferentes e os eleitores sabem disso muito bem, visto que ambos são conhecidos como políticos. Este efeito de conhecimento é um elemento essencial desta campanha. O julgamento do eleitorado parte de um princípio de necessidade: precisa, ou acha que precisa, de uma pessoa com determinadas características e história, e não de outra. Esta é hoje a força de Cavaco e a fragilidade de Soares.

Num mundo em que não houvesse ruído, ou seja no Paraíso ou no Inferno, vale o mesmo, esta escolha seria límpida. Acontece que existe um conjunto de práticas que correspondem ao que se pensa serem (ou deverem ser) as campanhas eleitorais, umas impostas pelas nossas tradições políticas, outras pelo sistema mediático. E estas práticas moldam, durante três meses, a imagem dos candidatos num contexto de sobreexposição que tem todos os riscos ou vantagens, dependendo do tipo de campanha.

Veja-se, por exemplo, como a primeira entrevista presidencial de Cavaco Silva na TVI revelou o melhor e o pior da face mediática de Cavaco, o candidato cuja face mediática cola menos com a sua exposição "pública". Quando vi a entrevista, Cavaco pareceu-me tenso, rígido, um pouco ansioso, mas convincente. Atenho-me à última classificação, a que mais depende da vontade própria, porque admito que as outras surgem contra a vontade do candidato. A tensão de Cavaco prejudica a mensagem, porque há sempre um ruído psicológico de instabilidade e insegurança na tensão. No entanto, como ele só fala de coisas "sérias", acaba por favorecê-lo, gerando um efeito de veracidade. Aquele homem está nervoso porque está preocupado e está preocupado por nós. É muito interessante verificar que, se me pareceu que na entrevista havia rigidez a mais e incomodidade face a algumas perguntas, que Cavaco podia responder de forma simples e de bom senso sem dificuldades, já quando a entrevista é reduzida aos excertos que são transmitidos nos noticiários, estes resultam muito eficazes.

Cavaco é pouco plástico e por isso tende a seguir uma linha pré-estabelecida com muita rigidez e isso, numa entrevista mais longa, prejudica-o. Já em fragmentos, o que é valorizado é o grau de convencimento pessoal, de dedicação às suas causas, que é muito difícil um político dos nossos dias transmitir e ele consegue-o. Por isso, não há frases engraçadas nem soundbites para reproduzir no dia seguinte, como acontece com Soares, que é sempre um must televisivo, mas uma mensagem limpa e convincente de dedicação à causa pública. Cavaco não consegue o mais fácil, mas consegue o mais difícil, como aliás revelam as sondagens que os seus adversários acham que caíram injustamente do céu, sem qualquer razão.

Pela entrevista, percebe-se que o que é essencial na campanha de Cavaco é a sua natureza de campanha declarativa, afirmando determinadas coisas e só essas, e não "conversando" com as outras campanhas. É isso que exaspera Soares, que precisa de interlocutor para o seu tipo de intervenção discursiva, e não o encontra. Como o candidato Cavaco é credível e gera um efeito de confiança, o que diz é muito eficaz. Sofrerá alguma erosão, em particular face ao estilo mais comunicativo de Soares, mas pode ter resultados surpreendentes. Já os tem, porque as sondagens revelam uma excepção, não uma normalidade.


UMA CAMPANHA PROVOCATÓRIA


Mário Soares seria um excelente candidato para o Bloco de Esquerda, ou melhor, para a área do Bloco de Esquerda, e digo-o sem qualquer intenção de minimizar a campanha e o candidato. Tivesse ele sido um candidato com uma lógica exterior aos conflitos internos do PS e centrado nas áreas onde conquistou influência nos últimos anos, que podia não ganhar, como tudo indica que não vai ganhar, mas faria uma campanha muito mais animada e que lhe seria menos penosa.

Soares estaria mais próximo do que realmente pensa, e seria mais convincente, pelo menos para uma parte do eleitorado. Um Soares solto, apoiado por uma franja considerável da nossa esquerda mais radical e activista, fazendo uma campanha na base dos seus temas favoritos, o antiamericanismo, a crítica à globalização, o ataque ao "neoliberalismo", em defesa dos "direitos sociais" contra o "economicismo" do Governo, sem receio de confrontar Sócrates, traria um incremento de força e unificaria mais a esquerda do que a actual campanha híbrida e pouco convincente.

O Bloco percebeu isso e hesitou. Fernando Rosas foi ao lançamento de Soares, um gesto politicamente simbólico, e a mandatária da juventude veio do BE. Quando a campanha endurece, vemos uma comunidade de temas em uníssono, com a mandatária da juventude de Soares e Francisco Louçã a usar contra Cavaco, por exemplo, a desgraça do jovem baleado na Ponte 25 de Abril. As sondagens revelam essa fluidez entre Soares e a esquerda radical quando mostram que se o BE não tivesse candidato, seria Soares e não Alegre nem Jerónimo, o verdadeiro receptáculo dos votos radicais.

O que prende Soares numa redoma fechada é que ele se convenceu de que, aparecendo do nada, depois do seu sonoro "basta!", podia reproduzir uma campanha como a de 1985 ou de 1991, num tom unanimista e mobilizador, levando tudo atrás do "animal político" por excelência. Ele ainda não percebeu que nada disso aconteceu, nem vai acontecer, e está penosamente a tentar chegar à segunda volta. Apanhado na sua armadilha, Soares está a fazer uma campanha que Louçã não desdenharia: provocações, picardias, frases assassinas, que são sempre um sucesso comunicacional, mas que o reduzem à situação do candidato menor anti-sistema que pretende crescer apenas no confronto com o maior. Soares faz isso muito bem, porque ele é bom nisso, mas também porque este tipo de campanha encaixa bem no tom habitual da própria comunicação social. Só que este tipo de campanha dificilmente lhe dará o estatuto de um candidato com sentido de Estado e a gravidade política que as pessoas associam à função presidencial.

Soares tenta bipolarizar a todo o custo, mas tem muita dificuldade em usar o armamento pesado que, numa segunda volta, não terá pejo em utilizar. Esse armamento assenta num antifascismo forçado, recorrendo a todas as metáforas dos perigos de Cavaco e do cavaquismo como subversão da democracia. Só que Soares não está na segunda volta e candidatos como Alegre, ao serem o seu contraponto, tiram-lhe o tapete e diminuem-lhe a dramatização. Quando Soares diz que com ele podem dormir descansados, Alegre vem dizer que com Cavaco também podem dormir descansados, quando Soares se gaba da sua superioridade cultural face a Cavaco, a mera existência de Alegre o diminui, onde Soares faz um contínuo de provocações, Alegre aparece como um factor de calma e seriedade.

Vamos ver como evolui o confronto entre a campanha provocatória e a campanha declarativa, porque é no confronto entre ambas que se vai jogar o que parece ainda em aberto na campanha eleitoral: se Cavaco ganha à primeira volta, e, se houver uma segunda volta, se é Soares ou Alegre que passarão.

(Hoje no Público.)

*
Lido o seu artigo sobre as campanhas de Cavaco e de Soares, concordando na generalidade com o que diz e em absoluto no que se refere a Cavaco, gostaria no entanto, de deixar uma interpretação diferente da atitude de Mário Soares.

Tenho para mim que este é o verdadeiro Soares, contraditório prisioneiro entre princípios e carácter. Não simpatizando com a pessoa, acredito firmemente na sinceridade e boa fé dos seus princípios e da sua capacidade mobilizadora. Contudo, creio que os princípios públicos de Soares se circunscrevem a uma esfera política, em grande parte literária, teórica e essencialmente abstracta. No plano das suas relações pessoais, Soares aparenta agir regulado por motivos de decisão e acção muito diferentes e menos agradáveis que apenas a sua dimensão pessoal revela, nunca a sua dimensão pública. Foram estes diferentes motivos de acção que determinaram, entre outras, as ruturas com Manuel Alegre, em parte, com Salgado Zenha, a sua reacção após a derrota no Parlamento Europeu e, quanto a mim, a actual candidatura.

Soares vai perder estas eleições pela simples e comezinha razão de que, talvez pela primeira vez na vida, ele concorre a algo não por convicção política profunda, mas por razões de carácter. A quase total ausência de conteudo político relevante da sua campanha e a concentração quase exclusiva e hostil na pessoa de Cavaco, mais do que na campanha, vêm demonstrar, creio, este ponto de vista. Suporá talvez que já tudo lhe é permitido e esta suposição é uma questão de carácter.

(Fernando Calado Lopes)
*
«...quando Soares se gaba da sua superioridade cultural face a Cavaco, a mera existência de Alegre o diminui, onde Soares faz um contínuo de provocações, Alegre aparece como um factor de calma e seriedade...»

A lógica desta sua frase parece-me muito correcta.

A verdade isenta, parece-me, é que Manuel Alegre terá arriscado candidatar-se numa perspectiva ofendida, sem dúvida com um tom tranquilo e com um tom que toca a muitos, mas que também não toca a generalidade de um País em crise e desesperado e que está urgentemente precisado de um salvador supra-dotado. Não sei se Alegre, como Cavaco Silva, interpreta esse papel. Sinceramente, creio que Manuel Alegre, como símbolo de esquerda e provavelmente como um bom Presidente da República (porque tem um perfil melhor que os outros), tem o problema de ter a credibilidade que lhe falta; ou seja, nunca ter errado porque nunca esteve em sítio nenhum (ao contrário dos outros).

Manuel Alegre surge como uma espécie de pássaro ganhador da consciência de toda a gente, mas não tem a fibra que estamos habituados a ver nas pessoas aparentemente dotadas para o governo do País e terá o azar de não ser tempo para brincadeiras e frases genéricas de combate. O que nós precisávamos todos era de um Presidente fundador de qualquer coisa nova, e se bem que Manuel Alegre crie essa expectativa, também não possui o estatuto exemplar para uma coisa dessas. A não ser que por uma recusa visceral a Cavaco as eleições dêem por esse lado inventor. Seria engraçado que no fundo do poço os portugueses arriscassem o tudo ou nada.

Apesar de ter toda a minha simpatia (e apesar de eu gostar que ele ganhasse como elemento traído e vítima da máquina partidária que ninguém, no fundo, percebe -- numa espécie orinetação para o futuro), à situação de Manuel Alegre falta qualquer coisa que ninguém pode explicar ou arriscar inteiramente sem ser por um "vamos a isto, caramba!". Se calhar é isso que nos falta a todos. Se calhar é este o desafio que, se for devidamente identificado, pode dar numa boa campanha -- mas para isso era necessário que os meios de comunicação social não perdessem tempo com o espectáculo estranho que Soares inventou contra o candidato essencial e automático que é Cavaco Silva. Digo estranho porque Soares optou por uma campanha que sabe que não vence, e portanto há aqui um fenómeno que ninguém entende e nos anda a ocupar todos. Mas num plano de banda-desenhada que mimetiza a verdade e, pior, aquilo que realmente precisamos.


Não fosse este pormenor de Soares ter aparecido sabe-se lá porquê, teríamos umas presidenciais "à antiga", entre a direita pragmática e a esquerda fundadora. Se calhar, já ninguém pensa entre um lado e outro sem avaliar a validade das pessoas em si, e depois o excesso de informação-espectáculo (não da baixa-política, como se pretende fazer passar normalmente) está a baralhar o essencial do problema e a turvar a questão que se nos apresenta: a de decidir entre o prático Cavaco e o potencial Alegre. São dois termos muito claros que confundem qualquer simpatia.

(Vasco Godinho)

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LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÃO E OUTROS MEDIA
(17 de Novembro)



Sugestões para mudar o nome ao LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÃO E OUTROS MEDIA? Qualquer coisa como em inglês Stream, fio, fluxo, para cobrir o contínuo digital (e ainda analógico, cada vez menos) que faz estas notas?

*
Mais um novo Google, o Google Base e o Google Print chama-se agora Google Book Search.

*

Um saudável antídoto à mania acusatória, zangada, apressada e superficial, infelizmente típica de alguns blogues, na nota "Atirar pedras ao ar na Ota" no Adufe. Cito:

"Obviamente, nem todos os bloggers que exigiram os estudos que agora "começam" a ser publicados são especialistas, logo não são os críticos mais competentes para apreciar a informação. Terão seguramente a sua palavra a dizer e é do interesse de todos que os argumentos sejam suficientemente fortes e claros que permitam convencer a maioria da bondade das decisões, mas o fundamental era/é que estes mesmos estudos fossem divulgados para que todos, incluindo técnicos especializados alheios à realização dos estudos, os podessem avaliar e comentar. A lógica de facto consumado sem justificações foi em si um erro crasso nesta matéria que tem andado literalmente ao sabor dos caprichos de cada ministro da tutela."

*

Quando, muitas vezes, alguns jornalistas fazem, irritados, a pergunta retórica de quando é que "protegeram" Soares, uma das respostas está dada hoje. Soares entrou numa campanha quase de insulto pessoal, fazendo a psicanálise do seu adversário, a quem chama "complexado", ou melhor ainda, dizendo que é "complexado com ele próprio". Todo o discurso de Soares é de uma insuportável jactância e arrogância pessoal, política, mas também cultural e social. Não é muito distinto do ataque que o Independente em tempos fez a Macário Correia por ser filho de pobres. Soares não é um analista, não é um comentador, é um candidato a Presidente da República, a dita "mais alta magistratura da nação". Ora ainda não vi um único editorial de protesto contra quem está claramente a baixar o nível da campanha, editorial a que não escaparia qualquer outra personagem da política se não fosse Soares. Ou então terá o seu editorial crítico quando se encontrar qualquer coisa que permita um exercício salomónico, que, como é costume, protege o principal prevaricador. É verdade que Soares não tem tido boa imprensa ao contrário de Cavaco, mas a sua campanha também tem sido tão má que não espanta. Mas continua a beneficiar de uma enorme complacência.

*

E nos jornais vê-se também como um dos grandes méritos da discreta campanha de Alegre tem a ver com o que disse acima. Alegre fala de igual para igual com Soares, e não lhe reconhece um átomo da superioridade que Soares pensa que tem. Pode por isso responder com elegância ao "mau gosto" de Soares, como fez a propósito do boletim clínico que este anda a prometer exibir.

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: A PEDRA DE PANDORA



Mais uma pedra que conhecemos melhor. A primeira mulher. A de todas as qualidades. A que trazia a caixa com o mal. Agora vemos que não é uma caixa é uma pedra. Será que se pode abrir? Será que a Esperança continua no fundo da caixa, a única a não fugir?

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AR PURO


Richard Estes, Urban Landscapes II, Allied Chemical

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EARLY MORNING BLOGS 646

La Grenouille qui se veut faire aussi grosse que le Boeuf

Une Grenouille vit un boeuf
Qui lui sembla de belle taille.
Elle qui n'était pas grosse en tout comme un oeuf
Envieuse s'étend, et s'enfle, et se travaille
Pour égaler l'animal en grosseur,
Disant : Regardez bien, ma soeur ;
Est-ce assez ? dites-moi ; n'y suis-je point encore ?
- Nenni. - M'y voici donc ? - Point du tout. - M'y voilà ?
- Vous n'en approchez point. La chétive pécore
S'enfla si bien qu'elle creva.
Le monde est plein de gens qui ne sont pas plus sages :
Tout Bourgeois veut bâtir comme les grands Seigneurs,
Tout petit Prince a des Ambassadeurs,
Tout Marquis veut avoir des Pages.

(Jean de La Fontaine)

*

Bom dia!

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16.11.05


INTENDÊNCIA

Em actualização os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
SOBRE O "ALMOCREVE DAS PETAS", VERSÃO EM PAPEL



Lendo, como sempre o “abrupto”, encontrei uma referência ao “Almocreve das Petas”. É interessante lembrar que a primeira referência bibliográfica a este nome é do André Brun, em A malta das trincheiras (guerra de 14/18). O nome era aplicado às notícias oficiais do Estado-Maior, sobre o andamento da guerra. Passou, quase de imediato, a aplicar-se aos rumores e panfletos que circulavam entre a nossa tropa. Tinha também o simpático “nickname” de “Daskpeten Almokreven”!

É um livro de leitura obrigatória, de um humor excepcional, onde se podem encontrar pérolas como a da origem do vocábulo “cavar”, aplicado a “fugir”; e muitos outros; e onde se podem encontrar elementos preciosos para a compreensão (sociológica) do nosso Povo. Estou a citar de memória, pois há anos que não releio o autor da Maluquinha de Arroios. E cuja obra recomendo vivamente a todos.

Quem não perceber o Brun de antes da guerra (de 38/45), então – como diria o Vasco Pulido Valente – é porque não percebe nada do que se passa hoje em Portugal.

Ontem, como hoje, «o Mundo está perigoso…»

(Luis Rodrigues)

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DE REGRESSO

daqui. E está diferente!!!

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15.11.05


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÃO E OUTROS MEDIA
(15 de Novembro)



Mais um "google", Google Analytics.

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Padrões: dois blogues sobre comunicação social, o INDÚSTRIAS CULTURAIS e o Jornalismo e Comunicação são actualizados regularmente pela manhã. Blogues kantianos, seguros. O Almocreve das Petas costumava ser o mais regular blogue nocturno, sinal de bons e clássicos vícios antigos, mas está um pouco errático.

O número de blogues nocturnos (nos Frescos) está a diminuir. Sinal de uma crise do umbiguismo? Não sei. O umbigo tende a falar mais à noite, a irritação, a quezília, a mesquinhez, a inveja mais de dia. Terá o Diabo dado ritmos circadianos aos blogues?

*

Um bom artigo de Teresa de Sousa, "Más notícias", no Público (sem ligações):

"Se a União Europeia vier a ser responsabilizada pelo fracasso das negociações para a liberalização do comércio mundial - graças à teimosia cega de alguns dos seus membros no que respeita preservação da PAC -, a sua credibilidade internacional ficará reduzida a pó."

Ainda estou para saber se o pagamento dos conteúdos no Público compensa a perda de influência real do jornal no debate público. É que, para um jornal que se pretende de referência, a circulação dos seus artigos na rede é um multiplicador natural de influência, e a influência (nas elites em particular) está no centro da "referência".

*
Partilho da sua dúvida em relação ao pagamento de conteúdos do Público: será que o actual pagamento "compensa a perda de influência real do jornal no debate público"? A minha dúvida está inclinada para uma resposta, que penso será também a sua - parece-me que o Público tem perdido influência no debate. E, de facto, perder influência é ir deixando de ser referência...

Tenho para mim que, se fizessemos uma análise quantitativa ao número de citações de artigos, na Internet, o Público seria, até há pouco tempo, o jornal mais citado. Basta ver o mundo dos blogs "de referência": o seu Abrupto, o Causa Nossa, entre muitos outros, que continham citações quase diárias, e que se têm reduzido agora - passando a surgir citações de outros jornais, como o DN e JN, entre outros.

Eu próprio tenho um exemplo concreto. Sou dinamizador de um fórum de discussão (uma mailing list, que dá origem a um blog ), com notícias que normalmente retiro da minha leitura diária do jornal Público. Ora, desde que as ligações para a página passaram a estar apenas disponíveis para assinantes, o debate tem-se ressentido - nota-se uma clara diminuição. Hoje em dia, porque gosto muito de ler o Público, tenho continuado a "recortar" as notícias deste jornal, mas é provável que no futuro comece a escolher hiper-ligações doutros jornais, de forma a procurar fomentar o debate.

(Fernando Ramos)

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COISAS COMPLICADAS


Hiroshi Sugimoto, Stanley Theater

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EARLY MORNING BLOGS 645

Mélange adultère de tout

En Amerique, professeur;
En Angleterre, journaliste;
C'est à grands pas et en sueur
Que vous suivrez à peine ma piste.
En Yorkshire, conferencier;
A Londres, un peu banquier,
Vous me paierez bien la tête.
C'est à Paris que je me coiffe
Casque noir de jemenfoutiste.
En Allemagne, philosophe
Surexcité par Emporheben
Au grand air de Bergsteigleben;
J'erre toujours de-ci de-là
A divers coups de tra la la
De Damas jusqu'à Omaha.
Je celebrai mon jour de fête
Dans une oasis d'Afrique
Vêtu d'une peau de girafe.

On montrera mon cénotaphe
Aux côtes brûlantes de Mozambique.

(T. S. Eliot)

*

Bom dia!

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14.11.05


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: QUEM FOI EDUARDO MOREIRA?

Por gentileza de Ana Claúdia Vicente, publica-se aqui a biografia que fez de Eduardo Moreira na sua dissertação de mestrado A Introdução do Escutismo em Portugal. 1911-1942.

Eduardo Henriques Moreira (1886 - 1980)

Natural da cidade de Lisboa, foi discípulo do professor Erasmo Braga. Fez estudos teológicos e históricos. Tornou-se pastor da Igreja Evangélica Presbiteriana em 1913; encetou profissionalmente, dois anos depois, carreira na função pública. Desde o primeiro momento esteve envolvido na criação da Associação dos Escoteiros de Portugal (AEP), fundada em Setembro de 1913. Foi Secretário-Geral da AEP até 1922, e Comissário da Zona do Porto até 1926, onde deu início ao “Dia do Gaiato” (1923).
Em 1917, foi aceite pelo ministro de Guerra, Norton de Matos, como capelão evangélico do Corpo Expedicionário Português, missão que não chegou a cumprir devido ao golpe sidonista. Em 1920 foi eleito vereador do município de Lisboa, e no ano seguinte exerceu as funções de Vice-Presidente do Senado Camarário. Nessa altura foi aprovada, por proposta sua, a restauração da bandeira da cidade, e iniciados estudos toponímicos sobre a capital. Após ter desempenhado funções de secretário ministerial do Coronel António Maria Baptista, cessou em 1922 toda a sua participação política e carreira na função pública, dedicando-se exclusivamente à vida religiosa.

Professor no Seminário Evangélico e historiador do fenómeno protestante português (pertenceu ao Instituto Histórico do Minho e de Coimbra), preparou em 1928 uma colectânea de leis que respeitavam aos evangélicos portugueses; foi poeta e periodista. Tomou a cargo a fundação de vários órgãos de comunicação protestantes, nomeadamente a revista Triângulo Vermelho, da Associação Cristã da Mocidade, sendo Secretário-Geral desta associação de 1922 a 1928. Primeiro Secretário da Aliança Evangélica Portuguesa (1922-25), assumiu a presidência da instituição pelo menos até 1948. Representou Portugal em inúmeras reuniões internacionais, entre as quais os congressos pedagógicos protestantes de Nimes (França), em 1922 e Poertschach (Áustria), em 1924; o Congresso Evangélico Espanhol de Barcelona, 1929; ou o Congresso Mundial das Escolas Dominicais (Brasil), em 1932. Na qualidade de procurador das missões evangélicas em África, visitou durante o ano 1934 cinquenta estações missionárias em Cabo Verde, Angola e Moçambique. Aderiu à Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica, tendo sido ordenado (primeiras ordens) em Outubro de 1947, pelo arcebispo Armagh, primaz da Irlanda. Com o bispo protestante Santos Figueiredo, participou na revisão da versão seiscentista da Bíblia, da autoria de João Ferreira de Almeida. Colaborou na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, editada nessa mesma década, bem como na publicação de vários artigos na imprensa (n’ O Século, entre outros), sobretudo de divulgação económica.

(Ana Cláudia Vicente)

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HORA PIMBA 5
OU O REFRIGÉRIO DOS AFECTOS PELAS EXCITAÇÕES CULTURAIS
(OU VICE-VERSA)
(Continuação)

O Simões não percebe o Nuno : o rapaz do Nietzsche achava o vinho um "vício porco", mas apreciava "alguma companhia feminina que lhe animava um pouco as artes". O que é que lhe tinha dado? Trabalhava? O Nuno era um pequeno intelectual:
. O Simões, que tinha saído da loja para passsar pelo Centro Republicano, e não encontrara ninguém de feição, tinha-se resignado à conversa com o "selvagem do Nuno". O que é que o Nuno lia?. Estranho.

E de repente lembrou-se:.
(Continua)

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LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÃO E OUTROS MEDIA
(14 de Novembro)



Miserável o aproveitamento que Louçã e Joana Amaral Dias (mesma tradição, mesmos métodos) estão a fazer da desgraça do jovem baleado na ponte 25 de Abril. Tão miserável como aqueles que atacavam Mário Soares de ser responsável pelos suicídios de trabalhadores com salários em atraso. Aqui está um verdadeiro exemplo de como enterrar a campanha na lama.

*

O que está por cima sobrepõe-se ao que está por baixo, é a lei temporal dos blogues. A propósito do que está por baixo, vale a pena ler Roger Sandall, "Tribal Yearnings. The enemies of the open society today" no The Culture Cult.

*

Tenham medo, tenham muito medo da série de ideias ultra-politicamente correctas do pomposamente chamado Alto Comissário para a Imigração e Minorias Étnicas (eu a pensar que num mundo "multicultural" não havia "minorias étnicas"), expostas no estilo da Raposinha do Aquilino, "com muita treta", no Programa "Diga lá Excelência" e reproduzidas no Público de hoje. Aqui vai uma pobre amostra do discurso cheio de certezas do Alto-Comissário:

Só nós:
"A Europa está a viver um tempo triste em que se está a fechar numa concha, erguendo muros e barreiras à sua volta. A opinião pública espanhola era das poucas que se mantinham abertas, agora restamos praticamente só nós, os portugueses."
Onde estão "talheres" coloquem coisas como o estado de direito, a democracia, valores civilizacionais como a igualdade das mulheres e dos homens, repúdio da violência "cultural" (excisão do clitoris, etc.):
"Quando eu convido alguém para almoçar comigo não é normal que eu exija que todos comam com talheres?

Não é obrigatório. Eu acho possível sentar à mesma mesa pessoas com registos culturais, históricos e religiosos completamente diferentes.

Com pratos diferentes, instrumentos diferentes?

Exactamente. Em contexto global, é isso mesmo que temos que fazer. O grande perigo que corremos é querer que toda a humanidade se sente à nossa mesa comendo com os nossos talheres e com a nossa culinária."
Preconceitos:
"Vamos então a um caso concreto. Defende escolas só para algumas comunidades imigrantes, com currículos especiais?

Não, a interculturalidade não é isso. Isso são versões suaves de multiculturalismo, versões de segregação, de separação de diferentes comunidades.

Mas parece que a escola portuguesa não interessa muito aos filhos dos imigrantes...

É um preconceito.

O insucesso escolar nestas comunidades é um preconceito?

Mas o insucesso escolar não tem que ver com o interesse na escola portuguesa. Temos todos a ganhar com a aceitação da diversidade. De ver a realidade a partir do ponto de vista do outro."
As certezas enfatuadas e o tom dogmático eram tão evidentes que até os jornalistas habitualmente calmos estavam irritados.

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COISAS SIMPLES


Norman Rockwell, The Connoisseur, 1962

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EARLY MORNING BLOGS 644

Segredo

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.

(Carlos Drummond de Andrade)

*

Bom dia!

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13.11.05


HORA PIMBA 4
OU O REFRIGÉRIO DOS AFECTOS PELAS EXCITAÇÕES CULTURAIS
(OU VICE-VERSA)
(Continuação)

Estava o nosso jovem a ler Nietzsche como um verdadeiro pluralista

quando o Simões o interrompe.

E lá subiu para a mansarda do Nuno (era em Alfama), o "da alma sincera", com a "mesa cheia de brochuras", um guarda-chuva, o catre mal feito, a luz do petróleo.

(Continua)

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INTENDÊNCIA

Actualizada a nota O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O FIM DAS ESPÉCIES.

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HORA PIMBA 3
OU O REFRIGÉRIO DOS AFECTOS PELAS EXCITAÇÕES CULTURAIS
(OU VICE-VERSA)


De Eduardo Moreira, Duas Revoluções. História Verosímil da Actualidade, Lisboa, Livraria Evangelica, 1925

O jovem que "não vê claro no meio da confusão das doutrinas":



O "nosso amigo" estava a ler Nietzsche, em francês(é uma história "verosímil"), e quer fazer a "instrução contraditória" do cristianismo.



(Continua)

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HORA PIMBA 2
OU O REFRIGÉRIO DOS AFECTOS PELAS EXCITAÇÕES CULTURAIS
(OU VICE-VERSA)




O artista olha para o quadro e diz: "Outra vez comigo, querida fugitiva. Agora tenho duas: a inspirada e a real, a que amo...Existe a terceira que não virá..."

Virá, virá, está atrás do sr. Costa:



Conclusão: "a partir de então, Xavier Costa compreeendeu o que faltava à sua arte: o toque maravilhoso do amor..."

(Continua na Hora Pimba 3)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
IDOSA ATACADA POR UM CÃO NO PRIME TIME



(...) Envio-lhe outra reliquia. Daquelas que apenas por acaso e por ter a máquina fotográfica na mão tive o discernimento de captar o momento. Quantos me terão escapado?

(Carlos Brás)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O FIM DAS ESPÉCIES

"Manuais escolares do estado do Kansas vão poder por em causa a teoria da evolução" - Público.

Há uns anos atrás, não teria acreditado, se me tivessem dito que estas seriam notícias de 10 de Novembro de 2005. Teria pensado em ficção de má qualidade, em devaneios irrealistas sobre a decadência ocidental, em cenários desviantes, marginais, em baterias mal apontadas... (Artur Furtado)

Um Portugal que não se vê todos os dias atravessa neste momento Lisboa

Fora de Fátima, claro. Mas Fátima é um ecossistema. (JPP)

Abrupto


Porque visito regularmente o Abrupto a leitura dos post atrás transcritos suscitaram-me os comentários seguintes:

A forma desinformada como muitas vezes se retrata a sociedade norte-americana leva a uma generalizada convicção na Europa que os norte-americanos são geralmente pouco esclarecidos

Vem isto a propósito das notícias que, de vez em quando, aparecem na nossa Imprensa e que, propositadamente ou não, sublinham alguns aspectos aparentemente ininteligíveis do comportamento da sociedade norte-americana. Um dos mais batidos é a questão à volta do evolucionismo versus criacionismo.

Não pretendo divagar sobre o assunto que, aliás, não é susceptível de discussão científica, mas apenas referir o seguinte:

1 – Cerca de 50% dos norte-americanos está consciente que a espécie humana é resultado de um processo de evolução natural, tendo os desenvolvimentos científicos mais recentes concluído que existe uma similaridade genética da ordem dos 98,4% entre humanos e chimpanzés. O próprio Darwin, certamente, se espantaria com tão elevado grau de proximidade.

2 – Darwin, contudo, ficaria não menos espantado se soubesse que, passados 146 anos sobre a publicação da “Origem das Espécies”, cerca de 50% dos norte-americanos e uma percentagem idêntica de europeus ainda, intransigentemente, rejeita a sua teoria. Em Portugal, quantos? Não sabemos, mas a avaliar pelo que se vê à nossa volta, o número é seguramente muito superior.

3 – A principal razão pela qual o assunto é objecto de discussão, tão badalada, nos Estados Unidos decorre do facto da política tradicional de decisão dos conteúdos de ensino serem votados ao nível dos “town councils” e dos “local school boards”, encorajando uma larga variedade de opiniões que, naturalmente, tendem a competir entre si no sentido de ganhar influência e poder de decisão. Esta descentralização extrema não se faz sentir apenas ao nível do ensino e decorre do modo com os Estados Unidos se formaram.

4 – Tendo sido rejeitadas pelo Supremo Tribunal de Justiça diversas tentativas de validar o Criacionismo como Ciência, os adeptos do Criacionismo (e existem diversos ramos com diferentes perspectivas e diferentes nomes) evoluíram para uma plataforma que consiste grosso modo em afirmarem-se utilizando como contra-argumentos alguns aspectos científicos da teoria que ainda se encontram por confirmar.

5 – Em resumo: O criacionismo não é ensinado nas escolas norte americanas como ciência (por não ser legalmente consentido, enquanto tal) mas em algumas escolas de alguns Estados, o criacionismo é indicado como uma proposta que tem os seus defensores.

Não penso que venha grande mal ao mundo por isso. Uma vantagem da controvérsia pode e está, aliás, a promover o avanço da confirmação da teoria da evolução natural.

E por cá? Quantos é que se preocupam com isto?
E já agora: Quantos se preocupam com o fim das espécies?

(Rui Fonseca)

*
O que está em causa com a polémica à volta da introdução do conceito de "Intelligent Design" no programa da disciplina de Ciências (Science, na terminologia commun nos US) de algumas escolas públicas Americanas, é uma questão bem menos inocente do que o simples desejo motivado pela especulação intelectual, que deverá, sim, ter lugar na classe de Filosofia.

É sim o sinal de uma persistente corrente de opinião, religiosamente motivada que, derrotada no Supremo Tribunal, encontrou na caracterizção da do conceito da criação como um acto de "intelligent design", o subterfúgio para o fundamentalismo religioso que a move. É a mesma corrente que substitui as orações no início da actividade escolar por um momento de "silêncio e reflecção" e que conduz energicamente uma agenda socio-comportamental que, se implementada, transformaria os US, provavelmente, de forma irremediável. Portanto, quando RF escreve - "Não penso que venha grande mal ao mundo por isso. Uma vantagem da controvérsia pode e está, aliás, a promover o avanço da confirmação da teoria da evolução natural" - está a evidenciar uma grande dose de ingenuidade ou cinismo.

A discussão sobre o criacionismo ou "intelligent design" não deve ter lugar nas classes de Science, onde o método científico e a experimentação são ensinados. E, enquanto princípio, (não como hipótese), religiosamente motivado, não deve ter lugar na escola pública. Esta opinião é quase unânime na comunidade científica e merece largo concenso na sociedade americana. E se o exemplo recente do Kansas mereceu referência no jornal Público, é pena que idêntica nota não tenha merecido a cidade de Dover na Pensilvânia que, em eleição na passada terça feira, votou democraticamente fora do School Board todos os representantes que advogavam a introdução do coceito no curricula do respectivo distrito escolar.

Para os interessados na discussão, sugiro um salto ao programa "This Week", com George Stephanopoulos, transmitido esta manhã (o atalho para o programa de hoje deve estar disponível amanhã), onde a questão foi debatida com Sam Donaldson, Cokie Roberts e George Will.

(Arnaldo J Costeira, AJC, Houston, Texas)

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A HORA PIMBA

Um dos efeitos disto... é acabar nisto, nestas maravilhas clássicas. Ler alguns blogues portugueses também tem o mesmo efeito e não é tão divertido.



Dois clássicos. O de Jorge Martins tem um hino magnífico para o Bloco de Esquerda, os "Pobres e os Ricos". O de Quim Gouveia é pré-gripe das aves, mas tudo se esquece ao ouvir o "Viagra p'ra Mulher".



O dueto Irene Passsos / Nelo Junqueira, acompanhado à concertina por Quim Gonçalves, ainda não me convenceu a ouvir o disco "Quadras Picantes", pelo que fica só a capa para a amostra. Quanto ao "Mãe Querida 2" estamos perante um verdadeiro Diamante do Amor, como se diria no século XVIII, neste caso materno-infantil. Há a Ágata, a "sobrinha da D. Ágata", a Romana, a Ruth Marlene e o José Malhoa, e nenhuma mãe sai indiferente deste disco. E nenhum filho/a, presumo. Depois não se admirem se as criancinhas se divertem a queimar carros.


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LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÃO E OUTROS MEDIA
(13 de Novembro)



Todo o mundo cá dentro. Sinal dos semáforos de Hong Kong, para quem tem saudades. O pequeno almoço dos Googlers. Conversas de rua em Nova Iorque:

Hispanic man #1: Fucking wind. It's fucking cold up here, Holmes.
Hispanic man #2: People complain about New York too much, man. Remember how we had them killer bees...
(--120th between 1st & Pleasant Overheard by: Patrick Stegall)

Ah! e ainda há isto...


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APRENDENDO COM DOSTOIEVSKY:
"DÁ-LHES PÃO SE QUERES QUE ELES SEJAM VIRTUOSOS"




"O sentido, se não o texto da primeira pergunta [das tentações do deserto], é o seguinte:

- «Queres apresentar-te ao mundo com as mãos vazias, anunciando aos homens uma liberdade, que a sua loucura e a sua maldade naturais não lhes permite compreender; uma liberdade espantosa - pois que, para o homem e para a sociedade, nunca houve nada tão espantoso como a liberdade - quando, afinal, se convertesses em pão todas estas pedras nuas, espalhadas à tua volta, verias a Humanidade correr atrás de ti, como um rebanho, agradecida, submissa, receosa apenas de que a tua mão suspendesse o gesto taumaturgo e os pães se tornassem a volver em pedras.»

Mas tu não quiseste privar o homem da liberdade e repeliste a tentação; horrorizava-te a ideia de comprar com pão a obediência da Humanidade, e respondeste que «nem só de pão vive o homem», sem saber que o espírito da terra, exigindo o pão da terra, havia de levantar-se contra ti, combater-te e vencer-te, e que todos haveriam de segui-lo, gritando «Deus deu-nos o fogo celeste!» Os séculos passarão e a Humanidade proclamará, pela boca dos seus sábios, que não há crime e que, por conseguinte, não há pecado: o que há é apenas famintos: «Dá-lhes pão se queres que sejam virtuosos.»

Será esta a divisa dos que se levantarão contra ti, esse será o lema que inscreverão nas suas bandeiras; e o teu templo será destruído, e em seu lugar erigir-se-á uma nova Torre de Babel, que não será mais firme do que a primeira; quando, afinal, poderias ter poupado ao homem o esforço da sua construção e mil anos de sofrimento.

Depois, ao cabo de mil anos de trabalho e dor, voltarão para nós, buscar-nos-ão nos subterrâneos, nas catacumbas, onde nos havíamos escondido - fugindo ainda às perseguições, ao martírio, - e hão-de gritar-nos: «Pão! Aqueles que nos haviam prometido o fogo do céu não no-lo deram!» E nós, então, acabaremos a sua Babel, dando-lhes a única coisa de que terão necessidade. E fá-lo-emos em teu nome.
"

[Fala do Grande Inquisidor a Cristo, depois de o reconhecer e mandar prender, durante uma sua visita à Humanidade em Contos de Tostoi, Dostoievski, Gogol, Surguchov, Tasin, Korolenko e Garin, Lisboa, Ulmeiro, 2000, por gentileza de S.]

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
FÉ OU CULTURA? OU FÉ E CULTURA? OU OUTRA COISA?



O Peixe da Eucaristia nas Catacumbas de S. Calisto

Hoje, com os acontecimentos recentes em França, com a procissão em Lisboa que ontem encheu avenidas, uma ideia não me tem saído da cabeça. Quando era mais nova e andava em grupos de jovens católicos lembro-me de, um dia, um padre com algum zelo missionário dizer que a religião, (neste caso o cristianismo católico) era uma questão de fé e não uma questão cultural. Claro que esta frase deve ter sido dita num contexto específico, mas mesmo assim ela nunca me deixou confortável e nunca consegui concordar com ela. Se é inegável que a religião é uma questão individual de fé, ou de não fé, ela acaba por extravasar claramente esse domínio íntimo da forma como cada indivíduo vive a sua fé para se afirmar como uma forma de cultura e uma base civilizacional inescapável. Foi assim ao longo dos séculos e assim continuará a ser.

Talvez a nossa especificidade europeia actual seja a tentativa de esquecimento e negação dessa base cultural e civilizacional que nos é dada pela religião, através de conceitos modernos, alguns saídos daquele acontecimento único que mudou a Europa e cuja história completa e isenta ainda está por fazer, que é a Revolução Francesa, tipo liberdade, igualdade, laicismo e de outros conceitos mais actuais saídos do boom pós guerra, da descolonização, da guerra do Vietname e marginalmente do espírito Maio de 68, tipo liberdade de expressão, minorias, autodeterminação dos povos, perdão de dívida, multiculturalismo. Não quero questionar o valor ou não de tais conceitos, quero somente frisar o aspecto de que a sua valorização permitiu o esquecimento e a desvalorização de outros que sustentaram a nossa Europa durante séculos. Como diz JPP no Público desta semana: "uma Europa em cujo espelho a antiga Europa greco-latina e judaico-cristã, a única que há, não se reconhece", e "o modo como se está a ser complacente com os tumultos franceses mostra que onde devíamos ter orgulho passamos a ter vergonha, e passamos a ter culpa".

As avenidas de Lisboa cheias de pessoas que participaram activamente ou que meramente assistiram à Procissão em Lisboa, mostra talvez que, afinal a religião não é só uma questão do foro íntimo da fé: é também talvez e ainda, apesar de tudo, uma forma de cultura. Nossa muito nossa. E o catolicismo do Sul, porque mais fadado para manifestações exteriores do que o protestantismo do Norte, de vez em quando ainda nos surpreende pela sua imensa força.

É difícil não querer ver o que realmente está em causa, muito para além da "sociologia" e do "estado social", nos tumultos em França.

(J.)
*

O que eu vi, na procissão de ontem, (e vi pouco, e vi pela televisão), para além da multidão que não me impressiona, foram pessoas (mulheres) do povo, com mais de sessenta anos a chorar e a suplicar: Ajuda o meu filho! Dá-me saúde nas pernas! Faz-me ver, dá-me a vista! Não estou a ridicularizar nem a diminuir, nem a generalizar, não eram milhares de pessoas nesta atitude. Mas foram as que a televisão me mostrou.

Fé? Cultura? Fé e cultura? Outros mais habilitados do que eu para essa complexa discussão podem tê-la (e têm-na). No entanto, e era isso que vinha dizer, tem mais a ver com civilização do que com cultura propriamente dita. Mas o que não há dúvida nenhuma é que as religiões estão na matriz das civilizações e isso é que, paradoxalmente, é um dos principais catalizadores de conflitos (e nem estou a falar de conflitos actuais).

(RM)

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COISAS COMPLICADAS


Edward Hopper, The Lonely House

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EARLY MORNING BLOGS 643

Soneto Fiel

Vocábulos de sílica, aspereza,
chuva nas dunas, tojos, animais
caçados entre névoas matinais,
a beleza que têm se é beleza.

O trabalho da plaina portuguesa,
as ondas de madeira artesanais
deixando o seu fulgor nos areais,
a solidão coalhada sobre a mesa.

As sílabas de cedro, de papel,
a espuma vegetal, o selo de água,
caindo-me nas mãos desde o início.

O abat-jour,o seu luar fiel,
insinuando sem amor nem mágoa
a noite que cercou o meu ofício.

(Carlos de Oliveira)

*

Bom dia!

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© José Pacheco Pereira
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