ABRUPTO

13.11.05


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
FÉ OU CULTURA? OU FÉ E CULTURA? OU OUTRA COISA?



O Peixe da Eucaristia nas Catacumbas de S. Calisto

Hoje, com os acontecimentos recentes em França, com a procissão em Lisboa que ontem encheu avenidas, uma ideia não me tem saído da cabeça. Quando era mais nova e andava em grupos de jovens católicos lembro-me de, um dia, um padre com algum zelo missionário dizer que a religião, (neste caso o cristianismo católico) era uma questão de fé e não uma questão cultural. Claro que esta frase deve ter sido dita num contexto específico, mas mesmo assim ela nunca me deixou confortável e nunca consegui concordar com ela. Se é inegável que a religião é uma questão individual de fé, ou de não fé, ela acaba por extravasar claramente esse domínio íntimo da forma como cada indivíduo vive a sua fé para se afirmar como uma forma de cultura e uma base civilizacional inescapável. Foi assim ao longo dos séculos e assim continuará a ser.

Talvez a nossa especificidade europeia actual seja a tentativa de esquecimento e negação dessa base cultural e civilizacional que nos é dada pela religião, através de conceitos modernos, alguns saídos daquele acontecimento único que mudou a Europa e cuja história completa e isenta ainda está por fazer, que é a Revolução Francesa, tipo liberdade, igualdade, laicismo e de outros conceitos mais actuais saídos do boom pós guerra, da descolonização, da guerra do Vietname e marginalmente do espírito Maio de 68, tipo liberdade de expressão, minorias, autodeterminação dos povos, perdão de dívida, multiculturalismo. Não quero questionar o valor ou não de tais conceitos, quero somente frisar o aspecto de que a sua valorização permitiu o esquecimento e a desvalorização de outros que sustentaram a nossa Europa durante séculos. Como diz JPP no Público desta semana: "uma Europa em cujo espelho a antiga Europa greco-latina e judaico-cristã, a única que há, não se reconhece", e "o modo como se está a ser complacente com os tumultos franceses mostra que onde devíamos ter orgulho passamos a ter vergonha, e passamos a ter culpa".

As avenidas de Lisboa cheias de pessoas que participaram activamente ou que meramente assistiram à Procissão em Lisboa, mostra talvez que, afinal a religião não é só uma questão do foro íntimo da fé: é também talvez e ainda, apesar de tudo, uma forma de cultura. Nossa muito nossa. E o catolicismo do Sul, porque mais fadado para manifestações exteriores do que o protestantismo do Norte, de vez em quando ainda nos surpreende pela sua imensa força.

É difícil não querer ver o que realmente está em causa, muito para além da "sociologia" e do "estado social", nos tumultos em França.

(J.)
*

O que eu vi, na procissão de ontem, (e vi pouco, e vi pela televisão), para além da multidão que não me impressiona, foram pessoas (mulheres) do povo, com mais de sessenta anos a chorar e a suplicar: Ajuda o meu filho! Dá-me saúde nas pernas! Faz-me ver, dá-me a vista! Não estou a ridicularizar nem a diminuir, nem a generalizar, não eram milhares de pessoas nesta atitude. Mas foram as que a televisão me mostrou.

Fé? Cultura? Fé e cultura? Outros mais habilitados do que eu para essa complexa discussão podem tê-la (e têm-na). No entanto, e era isso que vinha dizer, tem mais a ver com civilização do que com cultura propriamente dita. Mas o que não há dúvida nenhuma é que as religiões estão na matriz das civilizações e isso é que, paradoxalmente, é um dos principais catalizadores de conflitos (e nem estou a falar de conflitos actuais).

(RM)

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© José Pacheco Pereira
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