O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O FIM DAS ESPÉCIES
"Manuais escolares do estado do Kansas vão poder por em causa a teoria da evolução" - Público.
Há uns anos atrás, não teria acreditado, se me tivessem dito que estas seriam notícias de 10 de Novembro de 2005. Teria pensado em ficção de má qualidade, em devaneios irrealistas sobre a decadência ocidental, em cenários desviantes, marginais, em baterias mal apontadas... (Artur Furtado)
Um Portugal que não se vê todos os dias atravessa neste momento Lisboa
Fora de Fátima, claro. Mas Fátima é um ecossistema. (JPP)
Abrupto
Porque visito regularmente o Abrupto a leitura dos post atrás transcritos suscitaram-me os comentários seguintes:
A forma desinformada como muitas vezes se retrata a sociedade norte-americana leva a uma generalizada convicção na Europa que os norte-americanos são geralmente pouco esclarecidos
Vem isto a propósito das notícias que, de vez em quando, aparecem na nossa Imprensa e que, propositadamente ou não, sublinham alguns aspectos aparentemente ininteligíveis do comportamento da sociedade norte-americana. Um dos mais batidos é a questão à volta do evolucionismo versus criacionismo.
Não pretendo divagar sobre o assunto que, aliás, não é susceptível de discussão científica, mas apenas referir o seguinte:
1 – Cerca de 50% dos norte-americanos está consciente que a espécie humana é resultado de um processo de evolução natural, tendo os desenvolvimentos científicos mais recentes concluído que existe uma similaridade genética da ordem dos 98,4% entre humanos e chimpanzés. O próprio Darwin, certamente, se espantaria com tão elevado grau de proximidade.
2 – Darwin, contudo, ficaria não menos espantado se soubesse que, passados 146 anos sobre a publicação da “Origem das Espécies”, cerca de 50% dos norte-americanos e uma percentagem idêntica de europeus ainda, intransigentemente, rejeita a sua teoria. Em Portugal, quantos? Não sabemos, mas a avaliar pelo que se vê à nossa volta, o número é seguramente muito superior.
3 – A principal razão pela qual o assunto é objecto de discussão, tão badalada, nos Estados Unidos decorre do facto da política tradicional de decisão dos conteúdos de ensino serem votados ao nível dos “town councils” e dos “local school boards”, encorajando uma larga variedade de opiniões que, naturalmente, tendem a competir entre si no sentido de ganhar influência e poder de decisão. Esta descentralização extrema não se faz sentir apenas ao nível do ensino e decorre do modo com os Estados Unidos se formaram.
4 – Tendo sido rejeitadas pelo Supremo Tribunal de Justiça diversas tentativas de validar o Criacionismo como Ciência, os adeptos do Criacionismo (e existem diversos ramos com diferentes perspectivas e diferentes nomes) evoluíram para uma plataforma que consiste grosso modo em afirmarem-se utilizando como contra-argumentos alguns aspectos científicos da teoria que ainda se encontram por confirmar.
5 – Em resumo: O criacionismo não é ensinado nas escolas norte americanas como ciência (por não ser legalmente consentido, enquanto tal) mas em algumas escolas de alguns Estados, o criacionismo é indicado como uma proposta que tem os seus defensores.
Não penso que venha grande mal ao mundo por isso. Uma vantagem da controvérsia pode e está, aliás, a promover o avanço da confirmação da teoria da evolução natural.
E por cá? Quantos é que se preocupam com isto? E já agora: Quantos se preocupam com o fim das espécies?
(Rui Fonseca)
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O que está em causa com a polémica à volta da introdução do conceito de "Intelligent Design" no programa da disciplina de Ciências (Science, na terminologia commun nos US) de algumas escolas públicas Americanas, é uma questão bem menos inocente do que o simples desejo motivado pela especulação intelectual, que deverá, sim, ter lugar na classe de Filosofia.
É sim o sinal de uma persistente corrente de opinião, religiosamente motivada que, derrotada no Supremo Tribunal, encontrou na caracterizção da do conceito da criação como um acto de "intelligent design", o subterfúgio para o fundamentalismo religioso que a move. É a mesma corrente que substitui as orações no início da actividade escolar por um momento de "silêncio e reflecção" e que conduz energicamente uma agenda socio-comportamental que, se implementada, transformaria os US, provavelmente, de forma irremediável. Portanto, quando RF escreve - "Não penso que venha grande mal ao mundo por isso. Uma vantagem da controvérsia pode e está, aliás, a promover o avanço da confirmação da teoria da evolução natural" - está a evidenciar uma grande dose de ingenuidade ou cinismo.
A discussão sobre o criacionismo ou "intelligent design" não deve ter lugar nas classes de Science, onde o método científico e a experimentação são ensinados. E, enquanto princípio, (não como hipótese), religiosamente motivado, não deve ter lugar na escola pública. Esta opinião é quase unânime na comunidade científica e merece largo concenso na sociedade americana. E se o exemplo recente do Kansas mereceu referência no jornal Público, é pena que idêntica nota não tenha merecido a cidade de Dover na Pensilvânia que, em eleição na passada terça feira, votou democraticamente fora do School Board todos os representantes que advogavam a introdução do coceito no curricula do respectivo distrito escolar.
Para os interessados na discussão, sugiro um salto ao programa "This Week", com George Stephanopoulos, transmitido esta manhã (o atalho para o programa de hoje deve estar disponível amanhã), onde a questão foi debatida com Sam Donaldson, Cokie Roberts e George Will.