ABRUPTO

13.11.05


APRENDENDO COM DOSTOIEVSKY:
"DÁ-LHES PÃO SE QUERES QUE ELES SEJAM VIRTUOSOS"




"O sentido, se não o texto da primeira pergunta [das tentações do deserto], é o seguinte:

- «Queres apresentar-te ao mundo com as mãos vazias, anunciando aos homens uma liberdade, que a sua loucura e a sua maldade naturais não lhes permite compreender; uma liberdade espantosa - pois que, para o homem e para a sociedade, nunca houve nada tão espantoso como a liberdade - quando, afinal, se convertesses em pão todas estas pedras nuas, espalhadas à tua volta, verias a Humanidade correr atrás de ti, como um rebanho, agradecida, submissa, receosa apenas de que a tua mão suspendesse o gesto taumaturgo e os pães se tornassem a volver em pedras.»

Mas tu não quiseste privar o homem da liberdade e repeliste a tentação; horrorizava-te a ideia de comprar com pão a obediência da Humanidade, e respondeste que «nem só de pão vive o homem», sem saber que o espírito da terra, exigindo o pão da terra, havia de levantar-se contra ti, combater-te e vencer-te, e que todos haveriam de segui-lo, gritando «Deus deu-nos o fogo celeste!» Os séculos passarão e a Humanidade proclamará, pela boca dos seus sábios, que não há crime e que, por conseguinte, não há pecado: o que há é apenas famintos: «Dá-lhes pão se queres que sejam virtuosos.»

Será esta a divisa dos que se levantarão contra ti, esse será o lema que inscreverão nas suas bandeiras; e o teu templo será destruído, e em seu lugar erigir-se-á uma nova Torre de Babel, que não será mais firme do que a primeira; quando, afinal, poderias ter poupado ao homem o esforço da sua construção e mil anos de sofrimento.

Depois, ao cabo de mil anos de trabalho e dor, voltarão para nós, buscar-nos-ão nos subterrâneos, nas catacumbas, onde nos havíamos escondido - fugindo ainda às perseguições, ao martírio, - e hão-de gritar-nos: «Pão! Aqueles que nos haviam prometido o fogo do céu não no-lo deram!» E nós, então, acabaremos a sua Babel, dando-lhes a única coisa de que terão necessidade. E fá-lo-emos em teu nome.
"

[Fala do Grande Inquisidor a Cristo, depois de o reconhecer e mandar prender, durante uma sua visita à Humanidade em Contos de Tostoi, Dostoievski, Gogol, Surguchov, Tasin, Korolenko e Garin, Lisboa, Ulmeiro, 2000, por gentileza de S.]

(url)

© José Pacheco Pereira
Site Meter [Powered by Blogger]