ABRUPTO

24.1.04


A MINHA RÚSSIA

Esta é a minha Rússia, à qual me preparo para voltar em breve. Intensa, emotiva, violenta, uma terra sem indiferença, moldada pelo espaço e pela morte, ainda ferida pelas crueldades do passado, da “grande guerra patriótica”, esse momento peculiar de grande dor. Teve outros antes, mas desses está já quase tudo morto. Desta guerra não, ainda vive muita gente, ainda são os pais, os irmãos, os primos, que caíram nas ceifas de 1941-5.

Preparo-me. Não se visita a Rússia sem preparação. Olho para um dos “meus” sítios, no número 20 da rua Jdanov (agora Malaya Pokrovskaya), na cidade tártara de Yelabuga, para a pequena casa reconstruída onde, em 1941, Tsvetaeva se matou.

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CADERNOS DE CAMUS 5

Novas notas publicadas

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CADERNOS DE CAMUS 4

La liberté sexuelle nous a apporté au moins ceci que la chasteté et la supériorité de la volonté sont maintenant possibles. Toutes les experiences, les femmes retenues ou libres, ardentes ou réveuses, et soi-même déchainé ou circonspect, triomphant ou incapable de desir, le tour est fait. Il n'y a plus de mystère ni de refoulement. La liberté de l'esprit est alors presque complete la maîtrise presque toujours possible.

(Carnets III , Mars 1951- Décembre 1959)

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CADERNOS DE CAMUS 3

Les Anciens et les Classiques féminisaient la nature. On y entrait. Nos peintres la virilisent. Elle entre dans nos yeux, jusqu'â les déchirer.

(Carnets III , Mars 1951- Décembre 1959)

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CADERNOS DE CAMUS 2

30 avril. [1958]
Martin du Gard. Nice. Il se traîne avec son rhumatisme articulaire. 77 ans. “Devant la mort rien ne tient plus, non pas même mon oeuvre. Il n'y a rien, rien...” “Oui c'est bon de ne pas se sentir seul “ (et ses yeux se remplissent de larmes). Nous prenons rendez-vous pour juillet au Tertre “Si je suis en vie. “ Mais toujours ce méme coeur s'intéressant a tout.


(Carnets III , Mars 1951- Décembre 1959)

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CADERNOS DE CAMUS

Maman. Si l'on aimait assez ceux qu'on aime, on les empêcherait de mourir.

(Carnets III , Mars 1951- Décembre 1959)

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THE CITY DRIFTS


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EARLY MORNING BLOGS 122

Passando mais pela cidade do que o costume, a manhã amanhece urbana. Para recordar “the halcyon late mornings”, passadas e por vir, este belo poema de Lawrence Ferlinghetti:

The Changing Light

The changing light
at San Francisco
is none of your East Coast light
none of your
pearly light of Paris
The light of San Francisco
is a sea light
an island light
And the light of fog
blanketing the hills
drifting in at night
through the Golden Gate
to lie on the city at dawn
And then the halcyon late mornings
after the fog burns off
and the sun paints white houses
with the sea light of Greece
with sharp clean shadows
making the town look like
it had just been painted

But the wind comes up at four o'clock
sweeping the hills

And then the veil of light of early evening

And then another scrim
when the new night fog
floats in
And in that vale of light
the city drifts
anchorless upon the ocean


(Lawrence Ferlinghetti)

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23.1.04


BLOGUE SOBRE OS CADERNOS DE CAMUS 3

Coloquei novas contribuições recebidas nos Cadernos de Camus. A partir de agora, para não sobrecarregar o Abrupto, colocarei aí as novas notas sobre Camus.

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BLOGUE SOBRE OS CADERNOS DE CAMUS - ENTRADAS TIPO

Les collines au-dessus de Mers-el-Kébir comme un paysage parfait.

(Carnets I , Mai 1935-Fevrier 1942)



*

Le vent, une des rares choses propres du monde.

(Carnets I , Mai 1935-Fevrier 1942)

*

Sur l'échafaud, madame du Berry : "Encore un minute. monsieur le bourreau".

(Carnets I , Mai 1935-Fevrier 1942)

[A frase completa parece ter sido "Encore un moment, monsieur le bourreau, un petit moment." Para que queria a du Barry o "petit moment" ? Ou será que na hora da morte mesmo um minuto é bem vindo? (JPP)]

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BLOGUE SOBRE OS CADERNOS DE CAMUS

Começam a aparecer as primeiras contribuições para um blogue sobre os Cadernos de Camus. Numa fase ainda experimental, estou a publicá-las no Abrupto e simultaneamente em Cadernos de Camus , um blogue inteiramente provisório apenas para teste. Utiliza um template de série e não tem qualquer trabalho gráfico, nem ligações, nem nada. Serve só para arrancar, depois arranja-se uma “casa” mais digna para Camus.

Como tenho dito, a minha contribuição é apenas para o arranque; espero que depois uma equipa tome conta do projecto e lhe dê continuidade. Nesta fase inicial, para além dos comentários, era igualmente importante que fossem colocados mais fragmentos dos Cadernos em linha, para suscitar outros comentários.


Eduardo Graça - Cadernos de Camus


Releio o Caderno nº 1 (Maio de 1935/Setembro de 1937) e anoto os meus sublinhados vigorosos, aquando da primeira leitura, na segunda metade dos anos 60. Achei que nesta primeira abordagem não os devia ignorar. Eis o meu primeiro sublinhado:

Jovem eu pedia às pessoas mais do que elas me podiam dar: uma amizade contínua, uma emoção permanente.
Hoje sei pedir-lhes menos do que podem dar: uma companhia sem palavras. E as suas emoções, a sua amizade, os seus gestos nobres mantêm a meus olhos o seu autêntico valor de milagre: um absoluto resultado da graça.”


Tenho dificuldade em interpretar as razões que me levaram, com 20 anos, a fazer esta escolha mas seria capaz, hoje, de sublinhar de novo com acrescidas razões.

Com respeito às escolhas de JPP é curioso que os meus sublinhados de juventude se situam imediatamente antes e depois das citações escolhidas por JPP. Sublinhei a frase imediatamente anterior à citação de JPP com o título “A civilização contra a cultura”, ou seja,

As filosofias valem aquilo que valem os filósofos. Maior é o homem, mais a filosofia é verdadeira.

E ainda mais extraordinário a coincidência de ter sublinhado as citações imediatamente anterior e posterior daquela outra que JPP escolheu com o título: “Poder consolador do inferno”, quais sejam:

Combate trágico do mundo sofredor. Futilidade do problema da imortalidade. Aquilo que nos interessa, é de facto o nosso destino. Mas não “depois”, “antes”.”

E esta outra:

Regra lógica. O singular tem valor de universal.
-ilógica: o trágico é contraditório.
-prática: um homem inteligente em certo plano pode ser um imbecil noutros.


As minhas escolhas de juventude podiam ser as minhas escolhas actuais. As minhas escolhas actuais vão mais além mas encaminham-se, quase sempre, para uma faceta da reflexão em que Camus olha a natureza e os outros com assumido desprendimento pelas coisas materiais sempre deixando transparecer um problema nunca resolvido na sua vida: a sua relação com o sucesso. Como transparece no texto final deste Caderno nº 1 quando escreve:

“…Não é necessário entregarmo-nos para parecer mas apenas para dar. Há muito mais força num homem que não parece senão quando é preciso. Ir até ao fim, é saber guardar o seu segredo. Sofri por estar só, mas por ter guardado o meu segredo venci o sofrimento de estar só. E hoje não conheço maior glória que viver só e ignorado. Escrever, minha profunda alegria!...

Extractos, in Cadernos (1962-Editions Gallimard), tradução de Gina de Freitas, Colecção Miniatura das Edições “Livros do Brasil”, incluindo: Caderno nº1 (Maio de 1935/Setembro de 1937), Caderno nº2 (Setembro de 1937 a Abril de 1939) e Caderno nº3 (Abril de 1939 a Fevereiro de 1942).

(Eduardo Graça)

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DIÁRIOS E MÁQUINAS DO TEMPO

Hoje, em 1935, a neve caiu sobre as rosas em Nova Orleans. Edward Robb Ellis , um dos grandes diaristas americanos, registou no seu diário a excitação. “Estes sulistas dificilmente poderiam estar mais excitados, a não ser que começasse uma outra guerra entre os Estados”. Outro diarista. Arthur F. Munby, hoje, em 1864, ouviu, pela primeira vez, o barulho do comboio na nova linha de Charing Cross, o “dull wearing hum” da “maldita máquina”. Hoje, em 1848, a Charles Greville, contaram-lhe umas histórias sobre as crianças reais. Grenville anota que “talvez” possam ser interessantes para julgar o seu carácter quando crescerem.



Também sei que amanhã, em 1662, Pepys conheceu a mulher do seu tio Fenner. Não gostou. Também amanhã , em 1927, Virgínia Woolf toma chá com Vita Sackville-West. Esta mostra-lhe umas cartas de Dryden e, no meio delas, aparece uma carta de amor de Lord Dorset. Da carta cai uma madeixa de cabelo dourado. Virgínia pega nela : “One had a sense of links fished up in the light which are usually submerged”.

Ligações, links.


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22.1.04


LIVROS – PELOS LEITORES DO ABRUPTO

Curiosa e interessante (para mim) a sua referência ao livro de Karl Lowith Histoire et Salut...Acabei de ler a semana passada um outro seu livro, My Life in Germany Before and After 1933, London, The Athlone Press, 1994.

No momento actual em que se discute na Europa o renascer do anti-semitismo, das novas leis em França sobre a laicidade, este pequeno livro é de uma actualidade impressionante: uma espécie de autobiografia desde a República de Weimar passando pelo seu exílio, primeiro na Itália de Mussolini, e acabando no Japão.
Neste "relatório" (é assim que Lowith o classifica) ele conta , de uma forma assustadora, como é que um alemão culto e refinado (não só ele mas toda uma geração de pensadores brilhantes) se vê transformado num judeu abjecto perseguido pelos nazis no seu próprio país e, mais tarde, em Itália.
O drama do que Lowith aí conta não reside tanto na crítica ao regime nazi mas nas reacções individuais ao fenómeno do nazismo: a sua família, o seu quotidiano, os colegas e amigos, confrontados com opções terríveis onde a vida e a morte se misturam com o dia a dia de cada um. Aquilo de ele refere, com uma notável clareza descritiva , como "the political zoology of racial percentages". Como disse, impressionou-me a actualidade deste pequeno livro na Europa dos nosso dias.(…).

Um apontamento final: existe uma tradução portuguesa de um livro dele, O Sentido da História, Edições 70, Lisboa, 1991, que eu creio ser o mesmo livro Histoire et Salut . Mas não tenho a certeza. O meu exemplar não refere o título original em alemão.
"

(João Costa)


"The Civil War - An Illustrated History, de Geoffrey C. Ward, Ken Burns e Ric Burns é o "reading companion" de uma série documental ("The Civil War") que foi exibida em 1991 pelo PBS americano.

A avaliar pelo livro, que comprei há uma série de anos em Nova Iorque - e que é um monumento documental e pictórico fantástico, que recomendo vivamente - a série, (que nunca vi, mas é considerada "a film masterpiece and landmark in historical storytelling") deve merecer ser vista.

Não sei se é a mesma que agora seguiu e a que se refere no seu post. De qualquer modo, e como deve acontecer com os bons produtos de boas televisões (sejam públicas ou privadas) está disponível em DVD.

Já agora, a PBS, até tem uma página sobre a série.
"

(Miguel Almeida Motta)

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CORREIO

está irremediavelmente atrasado. Muitas cartas ficarão por responder, apesar de eu estar a fazer uma revisão, pelo menos desde o início do ano, entre as cerca de 2800 missivas com atraso desde Maio do ano passado. Depois, por um vicio antigo meu, quanto mais quero responder a uma mensagem ou carta, quanto mais eu a marco como de resposta obrigatória, mais ela se atrasa. Vou ver se me redimo durante os próximos quinze dias, com disciplina prussiana a responder ao correio. É que não queria que desistissem porque o correio é uma das mais vivas recompensas de escrever o Abrupto.

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BLOGUE SOBRE OS CADERNOS DE CAMUS

Tenho estado a trabalhar na ideia. Reservei no Blogger o nome, embora a escolha da plataforma final possa ser noutro sítio, e com um tratamento gráfico melhorado dada a amável oferta do autor da Retorta. Rust never sleeps.
Há já uma lista de pessoas interessadas em colaborar, incluindo alguns especialistas camusianos. A minha proposta é fazerem-se aqui algumas experiências e depois passar-se tudo, com armas e bagagens, para um blogue autónomo com uma equipa para o moderar, visto que eu não tenho condições de tempo, a não ser para colaborar.

Seguem-se alguns exemplos, abertos ao comentário: três fragmentos do primeiro Caderno, datados de 1935-7. Os textos são tirados da edição francesa da Gallimard, mas no futuro podem-se usar traduções, incluindo a portuguesa (de há muito esgotada) dos Livros do Brasil, colecção Miniatura. Para não infringir os direitos de autor, os textos terão que ser usados fragmentariamente.


*

La civilisation contre la culture.
Impérialisme est civilisation pure. Cf. Cecil Rhodes. “ L'expansion est tout “ - les civilisations sont des ilots - La civilisation comme aboutissement fatal de la culture (Cf. Spengler).
Culture : cri des hommes devant leur destin.
Civilisation, sa décadence : désir de l'homme devant les richesses. Aveuglement.
D'une theorie politique sur la Méditerranée.
“ Je parle de ce que je connais.”



[Hannah Arendt refere-se a esta frase "Expansion is everything" e ao desespero de Rhodes com a sua vontade do todo: "these stars... these vast worlds which we cannever reach. I would annex the planets if I could". Para uma análise desta frase por Arendt veja-se aqui. (JPP)]

*

Pouvoir consolant de l'Enfer.

1) D'une part, souffrance sans fins, n'a pas de sens pour nous - Nous imaginons des répits.

2) Nous ne sommes pas sensibles au mot éternité. Inappreciable pour nous. Sinon dans la
mesure où nous parlons de “seconde éternelle “.

3) L'enfer, c'est la vie avec ce corps – qui vaut encore mieux que l'anéantissement.


*

Etre profond par insincerité.

[A discutir: a mentira é da natureza do humano. Aliás, a mentira é, por sua natureza, profundamente social. Nenhuma sociedade sobreviveria sem a mentira, porque a mentira protege. Mas os homens estão cada vez mais a permitir a generalização de tecnologias da “verdade”, sem perceber a disrupção que elas provocam. Telemóveis com GPS, com câmaras que filmam em tempo real. Continua a ser possível mentir com todos esses mecanismos, mas torna-se tecnologicamente mais difícil. Haverá excluídos da mentira, prisioneiros da verdade, com uma vida social mais pobre? (JPP)]

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SERVIÇOS DE INFORMAÇÕES

Independentemente do mérito da última escolha para presidir ao SIS, não se compreende porque razão o Governo (e a oposição) entendem que juízes e magistrados são escolhas óbvias para estarem à frente dos serviços de informações. À frente daqueles serviços deve estar quem perceba, compreenda, tenha sensibilidade e conhecimento … de informações. Eles já estão tão fragilizados que não podem prescindir de alguma dinâmica … de informações. Este tipo de escolhas confunde o controlo da legalidade dos serviços com a sua direcção, sendo que o controlo, para ser eficaz, deve estar fora e não dentro dos serviços. Este tipo de escolhas revela que ainda persiste uma mentalidade complexada sobre o papel das informações de segurança.

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ONDE ESTÁ O PROGRAMA?

Pretendendo escrever sobre a questão da liberdade de voto (ou não) dos deputados do PSD na Assembleia, quis consultar o Programa do PSD, de cuja última versão fui um dos co-autores. O texto é relevante para essa questão, assim como o dos Estatutos. Com surpresa, verifiquei que o Portal Social Democrata, que abunda de informação sobre o Governo, não tem em linha o documento mais importante para qualquer partido político. Estão lá uns “Princípios Programáticos” e os programas eleitorais e de Governo. Ainda procurei para ver se estava em qualquer remoto lugar do Portal. Nada.

A não ser que esteja tão escondido que nem o motor de busca o encontra, este é um exemplo de degradação ideológica da actividade partidária. Depois não adianta jurar por Sá Carneiro.


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EARLY MORNING BLOGS 121

Hoje estamos nas línguas próximas, para uma manhã de Lorca, escrita em Granada, em Abril de 1919 (cortesia de Filipe Castro, do longínquo Texas, USA). Também para este poema, Abril é o mês mais cruel. Ainda não estamos em Abril, temos distância, “el sueño de las distancias”. Continuemos

ALBA

Mi corazón oprimido
Siente junto a la alborada
El dolor de sus amores
Y el sueño de las distancias.
La luz de la aurora lleva
Semilleros de nostalgias
Y la tristeza sin ojos
De la médula del alma.
La gran tumba de la noche
Su negro velo levanta
Para ocultar con el día
La inmensa cumbre estrellada.
¡Qué haré yo sobre estos campos
Cogiendo nidos y ramas
Rodeado de la aurora
Y llena de noche el alma!
¡Qué haré si tienes tus ojos
Muertos a las luces claras
Y no ha de sentir mi carne
El calor de tus miradas!
¿Por qué te perdí por siempre
En aquella tarde clara?
Hoy mi pecho está reseco
Como una estrella apagada.


(Federico Garcia Lorca )

*
Bom dia!

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SENA TRADUTOR DE CAVAFY

De uma carta de Roger Miguel Sulis (Professor convidado de língua e literatura grega moderna na Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil, e um dos responsáveis pelo arquivo.cavafis ):

O público brasileiro também deve ao poeta Jorge de Sena a primeira versão dos poemas do alexandrino. É o próprio poeta português que lembra o fato ao escrever um artigo para o Suplemento Literário de O Estado de São Paulo, em 28 de junho de 1962, que creio possa ser de algum interesse. Cito:

“Apliquei-me à tradução para o português dos seus poemas, e guardo como das melhores recordações da minha vida literária o convívio e a correspondência com aquele velhinho infatigável e extravagante, o dr. Mavrogordato, a quem fiquei devendo esclarecimentos, correções, verificações, e as fotografias inéditas de Cavafy que possuo. Feitas pelo texto de Mavrogordato, ignorante que sou de qualquer grego antigo ou moderno (para lá daquelas palavrinhas que o estudo da filosofia nos obriga a saber), as minhas traduções foram, com o auxílio dele, conferidas pelos originais, esses originais escritos numa língua viva para Cavafy, mas estranha mesmo para os gregos modernos, cuja crítica nunca abundou em reconhecer àquele vagabundo (que o era) de Alexandria, grandeza comparável à clamorosamente oferecida a ‘modernos’ como Seferis ou Palamas.”

Esta primeira tradução para o português, portanto, foi feita através do inglês e não do grego pelo poeta que aqui havia chegado em 1959, fugido da ditadura salazarista e que daqui também iria fugir, seis anos depois, por causa de outra ditadura, para os Estados Unidos. O desconhecimento da língua grega está explicitado no poema “Em Creta, com o Minotauro”: “Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.” É sintomático que a poesia de um estrangeiro como Kaváfis chegue ao Brasil pelas mãos de um estrangeiro como Sena, constantemente atravessado pelo tema do exílio: “(...) Nem eu, nem o Minotauro,/ teremos nenhuma pátria”.

Seu artigo para o Suplemento Literário de O Estado de São Paulo contém a tradução de “A espera dos bárbaros” que assim chega ao Brasil no início da década de 60, um momento de conflito entre o fortalecimento dos laços com o capitalismo internacional e a força utópica de setores da esquerda, que nos levam à chegada dos bárbaros com o golpe militar de 64 e a novo exílio do poeta:

“Nascido em Portugal, de pais portugueses, e pai de brasileiros no Brasil, serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem, se usam e se deitam fora, com todo o respeito necessário à roupa que se veste e que prestou serviço. Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria de que escrevo é a língua de que por acaso de gerações nasci. (...)”

Kaváfis poderia assinar este texto
.”

(R.M.Sulis)

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21.1.04



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EARLY MORNING BLOGS 120

Auden falando do "flash / Of morning's levelled gun.", que se espera e não vem.

That night when joy began
Our narrowest veins to flush,
We waited for the flash
Of morning's levelled gun.

But morning let us pass,
And day by day relief
Outgrows his nervous laugh,
Grown credulous of peace,

As mile by mile is seen
No trespasser's reproach,
nd love's best glasses reach
No fields but are his own.


Bom dia!

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20.1.04


PROTO – BLOGUISMO

Mais nomes e obras a serem analisados: com prioridade, o diário de Paul Morand, Journal Inutile 1968-1972, publicado pela Gallimard. Forte candidato a juntar-se aos Cadernos de Camus e Valery..

Jünger, Benjamin, mesmo Stendhal. Portugueses poucos, para além de Pessoa, talvez malgré lui.

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NAS TRADUÇÕES

ficamos quase sempre presos ao amor à primeira vista. Foi assim comigo, com os alemães que Quintela traduziu, Hölderlin e Rilke, os Quatro Quartetos da Ática, o Cavafy de Sena, Joyce e Pound de Haroldo de Campos, os gregos de Maria Helena da Rocha Pereira. Em cada um destes casos, depois é difícil desmontar o som original, mesmo que a tradução seja “melhor”.

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19.1.04


SOBRE UMA TRADUÇÃO DE CAVAFY

A tradução de Cavafy, que reproduzi no "Early Morning Blogs 117", suscitou muita discussão sobre a sua qualidade e rigor. Várias notas em blogues se lhe referiram (por exemplo no Absorto , na Bomba Inteligente ) , assim como em correspondência que me foi enviada. Recebi igualmente uma cópia de uma carta de um dos tradutores (R. M. Sulis , responsável pelo arquivo.cavafis ), enviada à autora do Bomba Inteligente, e sobre a qual espero os comentários da destinatária original antes de eventualmente a publicar, caso a Carla Hilário entenda não o fazer ela própria.

Por razões de longínqua autobiografia, conheço bem este poema e as suas traduções. Quando Jorge de Sena publicou as suas antologias de traduções, eu trabalhava na Editorial Inova no Porto e acompanhei a sua preparação, provas e correcções. Sobre dois dos autores traduzidos por Sena, Cavafy e Emily Dickinson, tenho correspondência com ele da época. Ora uma das maledicências associadas a Sena era saber de que língua fazia algumas traduções, visto que ele era omisso sobre se sabia grego ou não. Assisti a uma muito interessante discussão privada com ele, em que participou o Eugénio de Andrade, sobre uns poemas de Safo. Sena era uma personagem “larger than life” e quer o conhecimento epistolar, quer pessoal, que com ele tive, a primeira vez que veio a Portugal depois de um longo exílio, dava umas páginas de memórias bem animadas.

Sabendo o carácter “criativo” das traduções de Sena, as traduções do arquivo.cavafis, como aliás as de Magalhães e Pratsinis, feitas directamente do grego, tinham uma tensão verbal que não existia nas mais fluidas traduções de Sena, reconstruídas num português mais fluente porque pouco preso ao original grego. Interessava-me a comparação.


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COMPLACENCIES OF THE PEIGNOIR


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EARLY MORNING BLOGS 119

Hoje, o primeiro poema de “Sunday Morning” de Wallace Stevens, quando o dia ainda parece “wide water”. Já não é , mas parece.

Complacencies of the peignoir, and late
Coffee and oranges in a sunny chair,
And the green freedom of a cockatoo
Upon a rug mingle to dissipate
The holy hush of ancient sacrifice.
She dreams a little, and she feels the dark
Encroachment of that old catastrophe,
As a calm darkens among water-lights.
The pungent oranges and bright, green wings
Seem things in some procession of the dead,
Winding across wide water, without sound.
The day is like wide water, without sound,
Stilled for the passing of her dreaming feet
Over the seas, to silent Palestine,
Dominion of the blood and sepulchre.


(Wallace Stevens)

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VER A NOITE (Corrigido)

Está uma noite muito fria, escura, quase silenciosa. Pela primeira vez, de há muito tempo, o céu mostra parte do seu esplendor, com as constelações bem vincadas. Com os olhos mais habituados ao escuro, começam a delinear-se a Via Láctea, Orionte, Escorpião, as Ursas. Orionte, como sempre, manda na noite e em mim, pela voz de Robert Frost:

You know Orion always comes up sideways.
Throwing a leg up over our fence of mountains,
And rising on his hands, he looks in on me
Busy outdoors by lantern-light with something
I should have done by daylight, and indeed,
After the ground is frozen, I should have done
Before it froze, and a gust flings a handful
Of waste leaves at my smoky lantern chimney
To make fun of my way of doing things,
Or else fun of Orion's having caught me.”


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NOTÍCIAS DA SUBSÍDIO - DEPENDÊNCIA E NÃO SÓ

Com algum espanto, - ainda me resta algum face à “lata” (desculpem o plebeísmo, mas é a palavra mais apropriada) do nosso mundo dos subsídios culturais - li este anúncio no Público:

ARTE EM CAMPO
0 Instituto das Artes comunica que se encontra em elaboração o seu programa de actividades artísticas e culturais descentralizado, paralelo ao evento Euro 2004. Este projecto denomina-se Arte em Campo. 0 Instituto convida os criadores residentes em Portugal apresentarem projectos em volta da temática do Euro 2004 nas diversas áreas de acção do Instituto (Arquitectura, Artes Visuais, Dança, Design, Música, Teatro, Transdisciplinaridade e Arte Experimental) até dia 2 de Fevereiro, com vista ao seu possível apoio e integração na programação. A avaliação da viabilidade das propostas será efectuada por uma equipa transdisciplinar do Instituto das Artes.

Paulo Cunha e Silva, Director

14 de Janeiro de 2004


Para além do espantoso jargão do texto (o que são as categorias “Transdisciplinaridade”, ou “Arte Experimental”?), este “concurso paralelo ao evento Euro 2004”, ou seja aos jogos de futebol, deve de facto ser muito estimulante à “criação”. Em quinze dias, entre a data do anúncio e o fim do prazo, os “criadores”, animados de súbita inspiração futebolística, devem fazer propostas ao dito Instituto, devidamente orçamentadas presume-se. Depois “uma equipa transdisciplinar do Instituto das Artes” fará a avaliação, com certeza na base de um protocolo de gosto “criativo” e dos bons costumes futebolísticos. Será que se pode fazer um cartaz provocatório – categoria Design - denunciando os milhões que foram para o Euro, para ser colocado diante de todos os estádios ? Será que se pode fazer uma performance – categoria Teatro - com uma bancada em fúria a fazer de macaco quando aparece um futebolista negro? Nem pensar, isto é arte do Estado e o Estado patrocina o "evento".

Ah, grandes “criadores”! Tanto dinheiro deitado fora!

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18.1.04


PORTUGAL NO SEU MELHOR – OS PIDES FILATELISTAS

Os frequentadores dos arquivos da PIDE e dos Tribunais Plenários podem verificar que muita correspondência apreendida pela PIDE e que é anexada como prova tem os selos cortados nos envelopes. Os PIDEs filatelistas lá iam coleccionando uns selos nacionais e estrangeiros. Então a correspondência de origem internacional, nos anos sessenta, motivada pelas campanhas da Amnistia Internacional, está toda cortada. Fabulosa concepção de provas, fabulosa mesquinhez, pequenez, mediocridade de pacóvios mangas de alpaca, de pistola e mão para a bofetada. Grande retrato do Portugal da ditadura: os PIDEs filatelistas.

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PIRAMO E TISBE OU O QUE TORNOU AS AMORAS COR DE SANGUE

Sobre a história de Piramo e Tisbe (referida no poema de Gongora dos Early Morning de hoje), para o Tempo Dual.

A história é, como todas as histórias clássicas, simples, quase trivial. Um par de namorados adolescentes, Piramo e Tisbe, contrariados pelas suas famílias, vivem lado a lado. “Falam” através de uma fenda na parede da casa que é mútua. Mais do que falam, respiram juntos. Depois decidem fugir e marcam um ponto de encontro, junto de um túmulo. Tisbe chega primeiro e encontra uma leoa que acabara de matar uma presa e tem as garras ensanguentadas. Foge, mas deixa cair o seu véu. A leoa rasga-o e suja-o de sangue. Chega Piramo e pensa que Tisbe foi morta e suicida-se. Tisbe chega e, encontrando o amante a morrer, mata-se também. São enterrados junto a uma amoreira cujos frutos ficam para sempre tintos de sangue.

A fenda, o equivoco trágico, a cor das amoras.

Depois , como é uma história primeira, primeva, como é inventada pela primeira vez, tão carregada de símbolos, de metáforas, de espessura, de sentido durante dois mil anos vive e se reproduz e se reinventa sem cessar. Por ela passaram todos mas a melhor fonte é Ovidio nas Metamorfoses. Aqui fica um excerto da parte mais dramática

Pyrame, clamavit, quis te mihi casus ademit?
Pyrame, responde! tua te carissima Thisbe
nominat; exaudi vultusque attolle iacentes!
ad nomen Thisbes oculos a morte gravatos
Pyramus erexit visaque recondidit illa.
Quae postquam vestem suam cognovit et ense
vidit ebur vaccum, "tua te manus" inquit "amorque
perdidit, infelix! est et mihi fortis in unum
hoc manus, est et amor: dabit hic in vulnera vires.
persequar extinctum letique miserrima dicar
causa comesque tui: quique a me morte revelli
heu sola poteras, poteris nec morte revelli.


(Vou ver se arranjo uma tradução portuguesa.)

Em seguida, história fez caminho em toda a literatura clássica e renascentista. Está por todo o lado, em Dante , em Petrarca (I Trionfi) , Boccacio, Chaucer, Shakespeare. Existe na Internet um exaustivo ensaio sobre a sua influência na literatura espanhola.

Vem , por exemplo , no Quixote, neste soneto de Cervantes;

El muro rompe la doncella hermosa
que de Píramo abrió el gallardo pecho;
parte el Amor de Chipre, y va derecho
a ver la quiebra estrecha y prodigiosa.
Habla el silencio allí, porque no osa
la voz entrar por tan estrecho estrecho;
las almas, sí, que amor suele de hecho
facilitar la más difícil cosa.
Salió el deseo de compás, y el paso
de la imprudente virgen solicita
por su gusto su muerte; ved qué historia:
Que a entrambos en un punto, ¡oh extraño caso!,
los mata, los encubre y resucita
una espada, un sepulcro, una memoria


E o mesmo acontece em Portugal, a mesma história, a mesma influência. Camões nos Lusíadas:

Os dons que dá Pomona, ali natura
Produz diferentes nos sabores,
Sem ter necessidade de cultura,
Que sem ela se dão muito melhores;
As cerejas purpúreas na pintura;
As amoras, que o nome têm de amores;
O pomo, que da pátria Pérsia veio,
Melhor tornado no terreno alheio.


Numa redondilha

Tisbe morreu por Píramo,
a ambos matou o Amor;
a mim, vosso desfavor.
Tisbe pelo seu amante
morreu com amor sobejo;
mas eu mais morto me vejo.


E na Écloga VII

Olhai, Ninfas, as árvores alçadas,
A cuja sombra andais colhendo flores,
Como em seu tempo foram namoradas,
Que inda agora o tronco sente as dores.
Vereis também, se fordes alembradas,
Como a cor das amoras é de amores;
Em sangue dos amantes na verdura
Testemunha é de Tisbe a sepultura.


E agora continua aqui.

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NÃO ERA BEM ISSO …

que eu pretendia, mas agradeço a todos que me felicitaram por ter conseguido colocar em silêncio um canal de televisão durante dez segundos em horário nobre. Também não penso que tenha sido a primeira vez desde o 25 de Novembro, alguém já o deve ter feito. Obra era ter "tocado" integralmente o 4' 33''. O mérito é de John Cage e , claro, da SIC.

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PROCURA / NÃO PROCURES


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EARLY MORNING BLOGS 118

Vamos para Gongora e para uma poesia saudável dos prazeres ( e não para uma poesia dos prazeres saudáveis, uma contradição nos seus termos) numa bela manhã de inverno, “naranjada y aguardiente”. Já não falo de Tisbe que os costumes não o permitem. As duas primeiras linhas são o mote.


Ande yo caliente,
y ríase la gente.
Traten otros del gobierno
del mundo y sus monarquías,
mientras gobiernan mis días
mantequillas y pan tierno,
y las mañana de invierno
naranjada y aguardiente,
y ríase la gente.

Coma en dorada vajilla
el príncipe mil cuidados
como píldoras dorados,
que yo en mi pobre mesilla
quiero más una morcilla
que en el asador reviente,
y ríase la gente.

Cuando cubra las montañas
de plata y nieve el enero,
tenga yo lleno el brasero
de bellotas y castañas,
y quien las dulces patrañas
del rey que rabió me cuente,
y ríase la gente.

Busque muy en hora buena
el mercader nuevos soles;
yo conchas y caracoles
entre la menuda arena,
escuchando a Filomena
sobre el chopo de la fuente,
y ríase la gente.

Pase a media noche el mar
y arda en amorosa llama
Leandro por ver su dama;
que yo más quiero pasar
de Yepes a Madrigar
la regalada corriente,
y ríase la gente.

Pues Amor es tan cruel,
que de Píramo y su amada
hace tálamo una espada,
do se junten ella y él,
sea mi Tisbe un pastel,
y la espada sea mi diente,
y ríase la gente.


(Luis de Gongora)

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© José Pacheco Pereira
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