ABRUPTO

19.10.07


A FUGA EM FRENTE DA EUROPA 25


Assistir às notícias na nossa comunicação social sobre a cimeira europeia e o Tratado Reformador faz-me lembrar a atitude da nossa comunicação social no caso Madeleine McCann (do tipo Portugal x Inglaterra em futebol). A parcialidade e o carácter quase propangandístico da maioria das reportagens, informações e comentários é, no fundo, não muito diferente do tom de preferência «clubística» aí mostrada. Em vez de uma informação que deveria procurar ser objectiva, ponderada e crítica, temos a imagem sem reflexão, a emoção, as meias verdades e a comunicação por "slogans" que inibem o pensamento. Basicamente o que temos assistido é a uma deslocação desta preferência «clubística» para o Tratado de Lisboa, mas o quadro mental é o mesmo (sem quere ser maldoso, admito que alguns dos que cobriram o caso Madeleine McCann sejam também os mesmo que estão a cobrir a actual cimeira). Não é por isso muito surpreendente o resultado final da (des)"informação" seja o que estamos assistir.

Outro aspecto muito curioso é que na nossa imprensa, tal como na generalidade da imprensa europeia, não há normalmente uma atitude benovolente face à classe político (a opinião generalizada, justificada ou não, é que estes são em média fracos e pouco competentes e não têm a estatura de outros políticos do passado), tendo estes de se confrontar, nas questões de política interna, com o escrutínio dos mais diversos assuntos e a até a agressividade crítica da mesma. Todavia, quando o tema não são questões de política interna mas da União Europeia, os políticos - que, por acaso, são normalmente os mesmos "incompetentes" da política interna actual ou passada - passam a ser geralmente vistos como "grandes líderes" que fazem andar a "construção europeia" e têm "visões grandiosas" para um papel para a Europa no mundo... só é necessário aprovar mais um Tratado (já é o quarto nos últimos quinze anos, quando nas quatro primeiras décadas de integração os Tratados foram os mesmos!) Com este jornalismo "naïf" e acrítico, não admira que a classe política portuguesa e europeia goste particularmente da UE e das suas cimeiras, sobretudo porque lhe permite retiradas estratégicas da cena nacional e fazer um conveniente "restyling" na sua imagem.

Quanto aos "sábios" da União Europeia, não posso deixar de ironizar com o assunto. Em 2002, a Constituição Europeia arrancou com enorme pompa com uma "Convenção" Europeia que pretendia evocar os Estados Gerais da Revolução Francesa de 1789. Como o processo terminou num fiasco com os referendos na França e na Holanda em 2005, o modelo agora parece ser o anterior ao da Revolução Francesa, ou seja, o do déspota Iluminado, que se auto-institituía poderes de "iluminar" e instruir o povo, sabendo, naturalmente, sempre o que era melhor para ele, sem este ser ouvido. Viva a era do novo "despotismo" iluminado europeísta !...

(José Pedro Teixeira Fernandes)

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