"Bases" - a palavra "bases" para designar os militantes de um partido, aquilo que os ingleses chamam rank and file, é uma interessante manifestação vocabular da influência de Maio de 1968 onde menos se espera. Os Comités de Base, as organizações de base, a Base - FUT, "todo o poder às bases", ou "as bases contra as cúpulas", foram algumas das designações e usos que trouxeram, pela extrema-esquerda, a palavra "bases" para o vocabulário de partidos como o PSD, muitas vezes por via do catolicismo progressista. O PSD não tinha tradição própria, hesitava em usar o vocabulário corrente nas tradições jacobina e comunista ("cidadãos", "camaradas", preferia "companheiros"), e passou a usar as palavras que circulavam nos meios não-comunistas do socialismo radical como o MES, ou em sectores do MFA. Muito significativamente nenhum dirigente do PCP trata os militantes do seu partido de "bases", mas sim de "comunistas" ou "militantes", do latim "milites", soldado. A expressão não é também usada correntemente no PS, ficou na identidade do PSD.
(Continua.)
*
Os vocabulários nos partidos sempre tiveram piada. Por ex. no MES havia uma palavra com muita importância e significado que era “orla”. Era um grau acima ao da “base” e com uma conotação mais intelectual. Havia quem militasse nas bases e quem militasse nas orlas. Vir das “orlas” significava um pouco como deixar de ter dúvidas. E havia os que voltavam às orlas. Era uma espécie de limbo ao qual se dava por princípio muita atenção e onde havia sempre muita discussão.
On s'est trompé lorsqu'on a cru que l'esprit et le jugement étaient deux choses différentes. Le jugement n'est que la grandeur de la lumière de l'esprit; cette lumière pénètre le fond des choses; elle y remarque tout ce qu'il faut remarquer et aperçoit celles qui semblent imperceptibles. Ainsi il faut demeurer d'accord que c'est l'étendue de la lumière de l'esprit qui produit tous les effets qu'on attribue au jugement.
(De la Rochefoucauld, Reflexions ou sentences et maximes morales )
Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver
Letreiro numa loja de Nova York. (Ana Pimentel)
Vista das traseiras do café-restaurante do Centro Comercial Roma, em Lisboa, assaltado esta madrugada (de 28 para 29 de Abril). À parte o ladrão que se feriu nos vidros (há sangue visível), parece que, na realidade, já ninguém se preocupa muito.
( C. Medina Ribeiro)
Camponesa a «cortar erva», como se diz em Sul. (José Manuel de Figueiredo)
Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)
Ya la espada de hierro ha ejecutado La debida labor de la venganza; Ya los ásperos dardos y la lanza La sangre dcl perverso han prodigado. A despecho de un dios y de sus mares A su reino y su reina ha vuelto Ulises, A despecho de un dios y de los grises Vientos y del estrépito de Ares. Ya en el amor del compartido lecho Duerme la clara reina sobré el pecho De su rey pero ¿dónde está aquel hombre Que en los días y noches del destierro Erraba por el mundo como un perro Y decía que Nadie era su nombre?
Un habile homme doit régler le rang de ses intérêts et les conduire chacun dans son ordre. Notre avidité le trouble souvent en nous faisant courir à tant de choses à la fois que, pour désirer trop les moins importantes, on manque les plus considérables.
(De la Rochefoucauld, Reflexions ou sentences et maximes morales )
Interessantes e imaginativas formas de consulta às "bases":
Um grupo de 58 militantes destacados do PSD/Algarve decidiu hoje por larga maioria apoiar a candidatura de Alberto João Jardim à liderança do PSD, numa votação em que Manuela Ferreira Leite obteve apenas 3 por cento de votos favoráveis. Questionados directamente sobre uma eventual candidatura do presidente do Governo Regional da Madeira, 52 por cento dos militantes consideraram-na «a melhor» e 29 por cento «talvez», contra apenas 17 por cento de «nãos», revelou Mendes Bota à Lusa no final da reunião, destacando que «81 por cento abriu as portas a Alberto João Jardim». (...) Convocada pelo presidente da distrital de Faro, Mendes Bota, a reunião, de carácter informal, teve como base de convocatória a comissão que há seis meses apoiou a candidatura de Luís Filipe Menezes, bem como os órgãos distritais, as secções e vários presidentes de câmara. Mendes Bota reconheceu que não foram convidados alguns militantes e autarcas sociais-democratas ...
(LUSA)
Um boletim de voto encolhido e "simplificado":
No Porto, a Comissão Politica Alargada escolherá hoje entre "Votar em Pedro Passos Coelho, Alberto João Jardim ou APOIAR OUTRA SOLUÇÃO EM ALTERNATIVA" - assim mesmo, em letras gordas, e excluindo Santana Lopes e Ferreira Leite.
O Presidente tem-se dedicado a falar dos benefícios da “palavra presidencial”, um contributo para a sua teorização da função. “Cooperação estratégica” e o uso da “palavra presidencial”, são as suas contribuições para já. Quanto a esta última, Cavaco Silva considera-a na sua dupla vertente de “palavra pública” e “privada”. Considera a primeira “um dos mais importantes instrumentos de actuação do Presidente da República” e defende o seu uso “ponderado” em “falar de modo a ser escutado” resistindo à “pressão mediática”. A palavra em privado exige
“contenção da sua parte como pode exigir que actue com discrição, longe dos holofotes da comunicação social, e que sujeite certas matérias a um dever de reserva. Este dever de reserva não significa, (...) , alheamento ou passividade relativamente às políticas e às medidas governamentais, nem uma renúncia definitiva a, se for caso disso, sobre elas vir a tomar posição pública.”
No texto em que faz esta teorização do uso da “palavra presidencial” dá vários exemplos concretos de como a usou no segundo ano do seu mandato, e de um modo geral, tal uso parece ser equilibrado. Mas foi exactamente baseado nestas ideias sobre a sua “palavra” que o Presidente se recusou a dizer alguma coisa, e a fazer alguma coisa. Se o tivesse feito sabia-se pela natureza impossível do “privado” desse fazer no que diz respeito à recusa de Jardim e dos deputados do PSD em fazerem uma sessão solene do parlamento regional para receber o Presidente na sua instituição. Tudo isto com a agravante de Jardim, no seu estilo habitual, ter chamado “loucos” aos deputados da oposição.
Quando confrontado com o seu silêncio o Presidente remeteu para o que tinha escrito sobre a “palavra presidencial”, para justificar reserva pública. Só que neste caso não há palavra privada que substitua a pública, a matéria não é aliás passível de tratamento privado, não é do mesmo teor que o apaziguamento entre o governo regional e o nacional, não se trata de nenhuma matéria de discussão em que o Presidente modere. Não trata-se de pura política democrática, tratava-se do Presidente mostrar, usando a sua palavra, com ponderação e prudência, que não era indiferente a não ser recebido no parlamento regional, porque a maioria acha que a oposição são uns “loucos”. É uma matéria política que exigiria uma palavra presidencial sobre as instituições, que só podia ser pública. E que não podia ser silenciada, como foi.
Em alturas como estas há sempre um enorme surto do correio. Em momentos mais pacíficos, já não lhe dou resposta adequada. Agora então é que não consigo dar-lhe resposta a não ser ínfima. Peço desculpa a todos. Leio tudo, nada fica sem atenção, mas não posso garantir resposta atempada.
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Os Estudos sobre o Comunismo estão a ser actualizados, incluindo o texto "Francisco Martins Rodrigues e a Reunião do Comité Central do PCP de Agosto 1963 em Moscovo", versão simplificada e sem notas de parte de um capítulo de um livro que estou a terminar, intitulado O “Um Dividiu-Se Em Dois”. Origens e Enquadramento Internacional dos Movimentos Pró-Chineses e Albaneses nos Países Ocidentais e em Portugal (1960-1965).
LENDO VENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 23 de Abril de 2008
Vale a pena ler como os Beatles escreveram Paperback Writer e a memória de duas livrarias que conheci bem:
"There was a shop on Charing Cross Road that sold nothing but Penguins, and a few doors away, Better Books also sold their complete catalogue, taking up half a room. In the days before hardback publishers had their own paperback lines, Penguin was able to publish George Orwell, Evelyn Waugh, Virginia Woolfe, Aldous Huxley, F. Scott Fitzgerald, James Joyce, D.H. Lawrence, virtually every major author. Everyone knew their colour coding: orange spine for fiction; blue for the non-fiction Pelican line; green for crime, black for classics. Germano Facetti had already introduced illustrations to the covers, but the typography and layout was still strictly standardised."
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Finalmente (presume-se) avança o Galileo, o GPS europeu. Os americanos sempre colocaram uma objecção de fundo a este sistema, a possibilidade do seu grau de precisão poder servir para a prática de actos terroristas. O sistema GPS americano existente tinha uma desfocagem entre o uso militar e o civil para impedir em situações de emergência a localização precisa de alvos. Os europeus não se sentem alvos...
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O Galileo não vai cumprir o objectivo para que foi imaginado: ser um negócio. Todos os investidores privados se retiraram. Tudo será pago com o dinheiro dos nossos impostos, sem se perceber o que ganham os europeus com um programas que tem anos e anos de atraso. Só se percebe o que ganham os franceses: os seus mísseis são os únicos guiados por GPS. Cada vez que lançam um, têm de informar os americanos e pedir os códigos que dão acesso à geolocalização com precisão militar. Eles não gostam, pois são franceses. E nós vamos todos pagar, porque somos “europeus”. Entretanto continuaremos a dizer que somos multilateralistas (deve ser por querermos um GPS só nosso) e os americanos é que são unilateralistas (deve ser por deixarem os franceses utilizar o deles).
Pelo que sei, os jornalistas franceses conhecem estas motivações do seu país. Mas nunca encontrei nada escrito por eles sobre o assunto. C’est lá liberte de presse à la française…
(JAT)
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O GPS tem neste momento uma precisão capaz de satisfazer a esmagadora maioria das necessidades de navegação, o que pode levantar dificuldades ao Galileo, que serão agravadas se o Glonass russo vier a ser concluido antes do sistema europeu e entrar no mercado comercial. Após o Selective Availability ter sido desactivado, com a introdução de sistemas de correção e integrados de nova geração, é normal que o erro seja inferior a poucos metros. Mais detalhes aqui.
Sem se "consertar" primeiro o PSD, restituindo-lhe um mínimo de credibilidade, o que significa mudar estilos, linguagem, processos e pessoas, não adianta avançar com grandes arroubos programáticos porque pura e simplesmente ninguém os percebe, nem os ouve, nem os faz. Qualquer outra proposta pode ser muito bonita no papel, mas é profundamente irrealista, e serve os "maus", ou é mera retórica. Claro que este meu "primeiro" não deve ser entendido como isolando o "conserto" da renovação programática, as duas coisas têm que ser feitas ao mesmo tempo, mas com uma certa maneira, um certo ritmo, tempo e modo. Aliás, é esta a última oportunidade de ainda o fazer. Se falhar, acabou. Mas se não se cuida da primeira razão (o "conserto"), não se faz a segunda (a cesura política) e não o contrário. Como todos os intelectuais eu também prezo as rupturas, mas é difícil romper mais o que já está rompido, e o que não está rompido está tão puído, que se pode rasgar todo. Poderá dizer-se que ainda bem, estrague-se o PSD para fazer outra coisa, mas eu não faço parte daqueles que querem deixar o país entregue ao PS por mais uma década.
LENDO VENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 23 de Abril de 2008
Cito as primeiras frases do que escrevi hoje na Sábado: O acontecimento mais importante para a nossa vida pública nas próximas décadas vai passar sem que ninguém dê por nada. Deveria ser um escândalo público, mas nem sequer é um vago interesse ciciado. Em tão poucas coisas mostramos mais a nossa apatia cívica do que na questão do Tratado que terá o nome de Lisboa.
This I saw on an April day: Warm rain spilt from a sun-lined cloud, A sky-flung wave of gold at evening, And a cock pheasant treading a dusty path Shy and proud.
And this I found in an April field: A new white calf in the sun at noon, A flash of blue in a cool moss bank, And tips of tulips promising flowers To a blue-winged loon.
And this I tried to understand As I scrubbed the rust from my brightening plow: The movement of seed in furrowed earth, And a blackbird whistling sweet and clear From a green-sprayed bough.
É muito interessante ver Luis Delgado na SICN a tratar os militantes do PSD, as "bases" que, segundo ele, Menezes e Santana controlam, como o sr. Joãozinho das Perdizes tratava os "eleitores de Pinchões":
Atrás vinham os eleitores de Pinchões, velhos e moços, ricos e pobres, mas todos com o olhar tímido e estúpido, todos com movimentos enleados, todos com os olhos no caudilho, para saber o que deviam fazer; se ele parava a cumprimentar um amigo, paravam todos com ele; a direcção que tomava, tomavam-na todos a um tempo; apressavam ou demoravam o passo, segundo a velocidade que ele dava aos seus; se ria, sorriam; se praguejava, tudo ficava sério. O cortejo parou à porta da igreja. O morgado passou revista à sua tropa, à qual deu instruções. Os homens, com os cabelos para diante dos olhos, os braços estendidos e a cabeça baixa, não ousavam fazer um movimento e conservaram-se enfileirados até nova ordem do Sr.Joãozinho. Pareciam envergonhados de serem precisos a alguém. No bolso de cada um destes homens havia um oitavo de papel almaço dobrado, no qual estava escrito um nome; um nome de um homem que eles nem sabiam se existia no mundo. No momento devido, cada um deles, chamado pela voz do escrutinador eleitoral, respondia "presente" ; aproximar-se-ia da urna, entregaria ao presidente da mesa aquele papel e retirar-se-ia satisfeito, como se descarregado de um peso que o oprimia. Se lhes perguntassem o que tinham feito, qual o alcance daquele acto que acabavam de executar, não sabiam dizê-lo; se lhes perguntassem o nome do eleito para advogado dos seus interesses e defensor das sua liberdades, a mesma ignorância; se lhes propusessem a resignação do direito de votar, aceitariam com júbilo; se, finalmente, lhes dissessem que naquele dia estavam nas suas mãos e dos seus pares os destinos do país, abririam os olhos de espantados, ou sorririam com a desconfiança própria dos ignorantes.
Vai ser preciso muito esforço para remendar os rasgões que a demagogia das "bases" contra os "notáveis" fez e faz no PSD. Nem de um lado estão as "bases", mas sim um grupo de verdadeiros funcionários do partido, cuja actividade profissional é ou depende de serem dirigentes locais do PSD; nem do outro estão "notáveis", mas sim muitas pessoas que pela sua profissão, actividade, mérito, têm influência profissional, capacidade e credibilidade junto do país, que vai para além da sua qualidade de serem militantes do PSD. E têm independência, têm onde cair mortos. O problema é que num PSD cada vez mais encolhido, mais pequeno, com 26% nas sondagens, os profissionais partidários têm cada vez menos lugares para distribuir e como não têm na sociedade qualquer recuo, qualquer capacidade de manterem o estatuto, o carro, o telemóvel, o salário, precisam de varrer tudo à frente, mesmo se for preciso destruir o partido pelo caminho.
Não tive ocasião de ver os episódios da série sobre a guerra colonial que o Joaquim Furtado fez para a RTP quando passaram originalmente. Como às vezes me acontece quando quero mesmo ver alguma coisa e não tenho tempo para a ver toda, todos os episódios, toda a série, adio para depois e acabo por não ver. Disfunções. Faltas de tempo. Pouco interessa. Tenho visto agora alguns episódios referentes ao ano de 1961 e junto-me tardiamente ao coro dos louvores sobre a qualidade e a importância da série, a primeira a mostrar o drama da guerra colonial nas suas componentes testemunhal e visual, exactamente as mais "poderosas" e as que mais faltavam no nosso conhecimento. É uma grande série documental de televisão em qualquer sítio do mundo e, no caso português, uma contribuição para a nossa autognose que não se vê com indiferença. Já é história, mas ainda não é história - é a nossa história.
Mas há mais. Ela coloca-nos perante o melhor e o pior de nós mesmos, não no passado longínquo para onde fugimos quando queremos encontrar as virtudes que faltam no presente, mas para acontecimentos, atitudes, que nos são contemporâneas, sobre as quais poderíamos também testemunhar porque aconteceram de algum modo connosco. Eu saio da visão daqueles episódios com um forte sentimento de admiração por quem nunca pensei tê-lo assim: pelos nossos soldados, por aqueles portugueses pequenos e desajeitados, com fardas bizarras e atamancadas, que poderiam parecer que estavam no filme errado e que pediam para os tirarem dali. Não, pelo contrário, estavam no filme certo, num filme trágico, mas certo.
Sem deixar de ser o que sou, e o que era, sem dúvidas existenciais sobre o meu anticolonialismo nem a minha oposição à guerra, dou por mim a ver os documentários de Joaquim Furtado e a identificar-me com aqueles soldados e oficiais portugueses que em 1961, quase sem nada, foram mandados para uma guerra para que não foram preparados, perdidos no meio das matas perante um inimigo ou invisível no meio do capim, ou demasiado visível nos seus ataques suicidas em massa, sem armas capazes, sem munições, sem comida, e que avançavam para hastear a bandeira portuguesa em meia dúzia de edifícios desventrados no meio de terras do café que lhes deveriam ser totalmente estranhas.
Está lá o colonialismo, mas não é nos soldados, é nas ridículas, então e hoje, afirmações de "portuguesismo" dos negros de Angola, a cantar uma estranha A Portuguesa, a saudar a bandeira, a servir de decoração à tardia mistificação que éramos todos portugueses quando ainda ontem éramos uns portugueses, outros indígenas: uns pretos e outros brancos. Isso é que soa a falsete e era falsete, porque em 1961 não havia negros bons a não ser na propaganda. A série de Joaquim Furtado mostra uma realidade que continuamos a esconder, é que aos massacres da UPA se seguiram massacres perpetrados pelos portugueses, pelos colonos e pela tropa, a que não escapava um racismo instrumental onde o único negro em que se podia confiar era no negro morto. Foi assim em 1961, e é um serviço para a nossa memória colectiva que se conheça como foi.
Voltemos aos soldados. Percebe-se que aqueles homens estão lá profundamente convencidos de que estão a defender uma realidade que para eles, ali em Angola, no mais estranho dos lugares, não é etérea - estavam a defender Portugal. Portugal pelo qual estão dispostos a sacrificar-se, a correr riscos e a morrer. O que os motiva é aquilo que é um dos sentimentos mais estranhos, complicados, mortíferos que há, o patriotismo. E percebe-se que estão motivados. Não é a tropa de 1970, é a tropa de 1961, os primeiros contingentes chegados a Luanda, recebidos pelos colonos desesperados e atirados no dia seguinte para as picadas do Norte.
Olhando aqueles homens, rudes, vindos de um Portugal então muito rural, desajeitados, com capacetes de aço feitos para a II Guerra Mundial, no meio das picadas, ainda tendo como obstáculos principais árvores cortadas e sem minas, os aviões e avionetas de um catálogo de velharias, vendo a face do medo que os homens corajosos têm, sentimo-los não só próximos, nossos, mas como gente que merece um reconhecimento que não lhes demos porque ficaram do lado que perdeu. Só que também nós perdemos com eles e não o queremos reconhecer. Num país à míngua de virtude e com um enorme catálogo de defeitos colectivos, lá estão aqueles homens, que mostram que somos capazes, no meio do maior deserto moral como era o Portugal de Salazar, de ter "portuguesinhos valentes", uma frase que diz imenso, tão capazes de uma heroicidade simples como a que louvamos nos de "quinhentos" e que hoje achamos perdida.
Eu olho do lado oposto. A guerra colonial também fez a minha vida, por isso não sou indiferente àquelas imagens e relatos que não o são de tempos normais, mas sim excepcionais. Ali matava-se e morria-se, não é a mesma coisa que ir trabalhar pela manhã, estudar pela tarde, ler um livro, pagar uma conta, ter um engarrafamento ou uma gripe. Aquilo é a sério e onde é que estava eu? Como é que a guerra colonial me "interpelou"?, para usar uma palavra de que os católicos gostavam nos tempos em que era preciso ter compromissos.
Como muitos jovens da minha geração que combatiam o regime de Salazar e Caetano, nunca me passou pela cabeça fazer a guerra. Sabia que, a uma determinada altura, o dilema se colocava e nunca duvidei um segundo sobre o que fazer quando tivesse que prestar serviço militar: fosse em que circunstância fosse, como refractário ou como desertor, iria para o estrangeiro ou para a "sombra" da clandestinidade. Não era sequer um dilema, era uma certeza, sobre a qual nunca hesitei. A guerra colonial não me colocava nenhum dilema, não me "interpelava", sabia o que devia fazer.
Hoje, como não há memória, pode-se pensar que este caminho que milhares de jovens da minha geração tomaram era fácil e cómodo. Não era. Também não era o medo da guerra, porque de um modo geral havia mais coragem em recusá-la do que em fazê-la, era mais um acto de vontade recusá-la do que seguir na onda da obrigação legal, mesmo que contrafeita.
A frase anterior resulta ambígua e permite críticas como a que fez Vítor Dias no Tempo das Cerejas, que são legítimas devido exactamente à frase não ter ficado clara. Não era minha intenção fazer qualquer medição de coragem que seria sempre absurda. O que eu queria dizer é que, no momento da decisão, de ir ou não, a última escolha implicava de imediato mais consequências, a começar pelo facto de se estar a cometer um acto ilegal que interrompia de imediato a possibilidade de se continuar uma vida normal . A decisão de ir era mais passiva. Não penso que neste dilema ir / desertar se possa sobrepor o par coragem / cobardia, mas penso que a decisão consciente de recusa da guerra, com todas as suas consequências, era uma decisão corajosa.
Claro que aqui há, nesta questão levantada por Vítor Dias a sobrevivência de uma polémica, que só os que padecem de memória excessiva se lembram hoje, entre o PCP e a extrema-esquerda na altura, sobre o modo como se devia actuar contra a guerra, ir ou não à tropa, ser refractário ou desertor, desertar onde e como e com quê (com as armas por exemplo).
O caminho da emigração política era complicado, implicava riscos consideráveis para se passar a fronteira, ou as fronteiras, porque havia duas antes de chegar a França, ambas perigosas. Fronteiras que se passava indocumentado, porque a maioria não era autorizada a ter passaporte quando estava em idade de cumprir o serviço militar.
Era o exacto oposto daquilo que hoje se chama uma "carreira", era um caminho de imprevisibilidades. Era, como diziam os pais sábios, "estragar a tua vida". Rompidos os laços com Portugal, que se presumiam sem retorno, o que é que se podia fazer lá fora, muitas vezes com poucos recursos e em ruptura também com a família? No Portugal do início dos anos sessenta, o "estrangeiro" era uma incógnita para um país periférico e isolado e era uma aventura ir para lá. Muitos dos que recusaram a guerra viveram com muitas dificuldades, trabalharam como contínuos, em fábricas, em restaurantes, em hotéis, em aviários, numa profusão de profissões menores e só alguns estudavam com as bolsas que eram dadas pelos países de acolhimento. É verdade que não durou muito, mas ninguém sabia que não iria durar muito. Alguns ficaram para sempre e vivem na Holanda, na França, na Suécia, na Itália, no Reino Unido. Para eles, Portugal perdeu-se de vez.
O que é que movia quem se recusava a fazer a guerra colonial? Ideologia, "anticolonialismo", ser contra Salazar, comunismo, pacifismo, objecção de consciência? De tudo um pouco, mas, bem vistas as coisas, a esta distância, é a mesma atitude que vejo nos homens de 1961 que aparecem nesta série televisiva: patriotismo. Por isso, uma natural proximidade devia envolver os homens desses dois mundos, cada um patriota a seu modo, acima de tudo na disponibilidade de viver uma vida difícil e perigosa por alguma coisa que não era individual, mas estava acima do conforto de cada um.
I had a bitter enemy, His heart to hate he gave, And when I died he swore that he Would dance upon my grave; That he would leap and laugh because A livid corpse was I, And that's the reason why I was In no great haste to die.
And then - such is the quirk of fate, One day with joy I read, Despite his vitalizing hate My enemy was dead. Maybe the poison in his heart Had helped to haste his doom: He was not spared till I depart To spit upon my tomb.
The other day I chanced to go To where he lies alone. 'Tis easy to forgive a foe When he is dead and gone. . . . Poor devil! Now his day is done, (Though bright it was and brave,) Yet I am happy there is none To dance upon my grave.
1280 - ...avere per precettore uno mezzo bestia e mezzo uomo...
Quanto sia laudabile in uno principe mantenere la fede e vivere con integrità e non con astuzia, ciascuno lo intende; nondimanco, si vede per esperienzia ne' nostri tempi quelli principi avere fatto gran cose che della fede hanno tenuto poco conto, e che hanno saputo con l'astuzia aggirare e' cervelli degli uomini; e alla fine hanno superato quelli che si sono fondati in sulla lealtà.
Dovete adunque sapere come sono dua generazioni di combattere: l'uno con le leggi, l'altro con la forza: quel primo è proprio dello uomo, quel secondo è delle bestie: ma, perché el primo molte volte non basta, conviene ricorrere al secondo. Pertanto, a uno principe è necessario sapere bene usare la bestia e lo uomo. Questa parte è suta insegnata a' principi copertamente dagli antichi scrittori; li quali scrivono come Achille e molti altri di quelli principi antichi furono dati a nutrire a Chirone centauro, che sotto la sua disciplina li custodissi. Il che non vuole dire altro, avere per precettore uno mezzo bestia e mezzo uomo, se non che bisogna a uno principe sapere usare l'una e l'altra natura; e l'una sanza l'altra non è durabile.
COISAS DA SÁBADO:A LÓGICA DOS SINDICATOS E A LÓGICA DOS PROFESSORES
As notícias sobre as grandes cedências do Ministério da Educação aos Sindicatos de professores correm o risco de terem sido muito exageradas. Menezes, Portas, alguns comentadores e blogues, vieram logo dizer que o verdadeiro Ministro da Educação era Mário Nogueira da FENPROF e que Maria de Lurdes Rodrigues era a “ex-ministra”. Depois veio Mário Nogueira, cinco segundos depois, ainda o acordo estava fresco, falar da “grande vitória” não fossem as pessoas aperceber-se de alguma coisa bizarra e perceber que a avaliação afinal continuava mais ou menos como estava. A frágil Ministra aparecia a falar mansamente nas mesmas televisões, dizendo que tinha havido um “acordo” e isso era bom, mas que estava salvaguardado o essencial, a “avaliação estava a fazer-se e ia continuar a fazer-se”. Mas o que são estas palavras tímidas e quase sussurradas face à tonitruante declaração de vitória sindical, a seguir confirmada pelo espelho da incoerência da oposição que, sem estudar, nem saber nada do que realmente tinha sido conseguido ou não, sem falar com os professores, veio logo com a conferência de imprensa fácil declarar que houvera “um grande recuo do governo”?
Ora, homem sensato desconfia quando há tanta pressa de correr para a televisão a dizer que se ganhou e ainda por cima em grande. Homem sensato sabe como funcionam o PCP e os Sindicatos, sabe como eles estavam num beco sem saída criado pela sua própria vitória. Depois de contribuírem para a gigantesca manifestação sabiam que não podiam dar continuidade à “luta” com uma greve e tinham que recuar. Homem sensato sabe que, por muito sucesso que tenha tido e teve, a luta dos professores, a seguir à manifestação viria um refluxo, como veio. Sabe o homem sensato e sabem melhor do que ele os sindicalistas profissionais. Homem sensato e com memória já viu muitas vezes como para os comunistas e os seus sindicalistas, o mais importante não são os anéis, são os dedos. Os dedos aqui são manter o adquirido e o adquirido é o reforço dos Sindicatos e do PCP na vida pública nacional, pensando também em 2009, ano de eleições. Nunca, jamais, em tempo algum, organizações mais experientes a dormir que mil líderes da oposição acordados, sabem que não podem correr o risco de ir mais longe e pôr em causa a percepção de vitória, com aventureirismos ou impasses cujo apodrecimento mostraria as fragilidades sindicais. O PCP e os seus Sindicatos sabem, melhor do que ninguém, que precisavam como pão para a boca de um acordo e sabiam que o Ministério também precisava do mesmo. Um precisava de parecer que ganhava e o outro de parecer que cedia.
Foi por isso que, de repente, se chegou a um acordo que, pelos vistos, os “professores”, citados pelos jornais, entendem como uma derrota e não como a “grande vitória”. Percebe-se porquê: os professores que se manifestavam não queriam, na sua esmagadora maioria, nenhuma avaliação de desempenho, e vai continuar a haver avaliação. Eles sabem disso, os sindicatos sabem disso, a Ministra sabe disso, o resto é coreografia.
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Acabo de ler a sua entrada (post) sobre as dinâmicas políticas que animam os eventos recentes entre Min.Edu. e Sindicatos. Do ponto de vista político, nada acrescento. Porque me parece coerente com o que vou aferindo da conduta sindical. E do Min.Edu. e da Ministra, em particular.
Mas, sendo docente e tendo participado na manifestação de dia 8 de Março (porque já tinha participado nas infindáveis e muito complexas reuniões de Departamento e Grupo para estudar/preparar/implementar um modelo de avaliação... impraticável), espanto-me que conclua que "os professores que se manifestavam não queriam, na sua esmagadora maioria, nenhuma avaliação de desempenho". É falso. Tanto quanto pude discutir com inúmeros colegas - não é todos os dias que se pode contactar com colegas de diferentes escolas e regiões - o que se pretendia fazer, como mostra todo o comportamento da titular da pasta da Educação, era criar dificuldades nas escolas. Promovendo uma percepção social negativa dos professores e do seu trabalho. Assim conseguindo apoio para "acabar com os privilégios desses que não trabalham". Desse modo, domesticava a classe docente, impondo um edifício legal que corrompe a própria natureza do que é suposto fazermos: ensinar. Se analisarmos outras peças desse edifício legislativo, veremos que o que esta equipa ministerial pretende é nocivo e (até) contrário aos desígnios estatísticos que pretendem para o sistema educativo nacional. E é pena que sejam apenas estes desígnios a motivar o que quer que seja para a Escola Pública. O que ficar de toda esta confusão, não será bom. E durará. Por outro lado, a reacção (de uma parte apreciável, asseguro-lhe) negativa da classe docente ao "entendimento" prova, não que receia a avaliação, mas que os problemas são muito sérios e têm que ser tratados para lá das dinâmicas políticas que animam os seus representantes (Min.Edu. e Sind). Nasceram tarde para estes problemas? Talvez, mas porque têm um dilema complexo na sua representação institucional e social: segundo parece não podem escapar da representação sindical e à sua... agenda. Enquanto coincidiam, a convivência era possível, mas a bolha rebentou e há muita gente que, não se revendo, procura alternativas. Se as encontramos, não sei.
(Luís Vilela.)
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Este acordo, perdão, entendimento, era uma questão de tempo e de timing político. A partir do momento em que o Ministro Correia de Campos “pediu para sair” e o Primeiro-ministro não sugeriu igual pedido à Ministra da Educação, a que se juntou a inesperada, mesmo pelos sindicatos, manifestação de 8 de Março, o ambiente ficou assustador e, potencialmente incontrolável, quer para o ME, quer para a Frente Sindical. Ficou assim determinada a necessidade de acordo. Aparece então este eufemismo do entendimento, assegurando o ME que tem avaliação de professores enquanto a Frente Sindical assegura que a avaliação pretendida pelo ME não passou e, pensam, não passará. Veremos. Para já é coisa nenhuma, o que também não se estranha.
(José Morgado)
*
Se o propósito da existência de professores é ensinar aos nossos jovens aquilo que se convencionou necessário que eles saibam, por que motivo a avaliação dos professores não incide unicamente nos resultados obtidos pelos respectivos alunos, resultados esses demonstrados em provas nacionais concebidas por agentes independentes?
Previsivelmente, os resultados de diferentes escolas e ambientes de ensino, poderão ter que ser afectados com coeficientes de correcção tendo em conta as médias e os desvios padrão, ferramentas que um profissional das estatísticas sabe aplicar.
Eu conheço métodos de avaliação implementados em grandes empresas, como é o caso da EDP, onde fui avaliado e avaliador, e não os recomendo a ninguém. Não têm outro objectivo senão sancionar escolhas prévias, destinadas à promoções de amigos ou à contenção da massa salarial. Quando se depara com critérios do género “competência comportamental” parece que está tudo dito. Para mais, processos destes nas mãos de socialistas são um manifesto perigo. Os professores que se cuidem.
NUNCA É TARDE PARA APRENDER (4) : TAKFIR (تكفي) Um dos temas deste livro é a análise dos erros da intelligence americana em aperceber-se do risco de um atentado em território americano, principalmente pela compartimentação da informação entre a CIA e o FBI. Com base nos dados que Wright utiliza é mais a CIA que aparece como responsável da sonegação de informação vital, que o FBI. Este poderia ligar os dados que a CIA tinha da presença de um grupo da Al Qaeda em território americano com outras investigações em curso, e, eventualmente, desmantelar a conspiração do 11 de Setembro, se eles lhes fossem fornecidos. Embora nunca se saiba até que ponto as coisas aconteceriam de diferente se, os inquéritos realizados levaram a uma maior coordenação de todas as agências de informação em matérias do terrorismo. O livro de Wright dispersa-se um pouco nesta parte ao cair na tentação de personalizar a história no agente do FBI John O'Neill, que morreu no atentado, numa tradição jornalística de "contar as histórias" com base em protagonistas, que aqui não resulta. Mas, com esta excepção, trata-se da melhor introdução jornalística ao fundamentalismo muçulmano da Al Qaeda.
E a confirmação por vários leitores da edição portuguesa cuja capa coloco aqui.
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Tem graça que acabei de ler o livro há dias - na edição americana, capa menos feliz do que essa da Penguin...) Fiquei com a impressão que o papel de bin Laden (aqui e ali determinante, é verdade) foi, na maior parte do tempo, mais instrumental (talvez mesmo quase "instrumentalizado") do que outra coisa. Não lhe parece que Zawahiri tenha tido (desigualmente, é verdade) um papel mais decisivo, "estratégico"?
Há condições para haver uma mudança no PSD com uma candidatura séria e credível reconhecível por todos, dentro e fora do partido. Há mesmo. Mas a seriedade de uma candidatura deste tipo exige um debate igualmente sério, uma equipa, um programa e só é possível fazê-lo com pelo menos o mesmo tempo que teve Menezes para concorrer com Marques Mendes. Senão tudo isto é para enganar e Menezes quer apenas uma farsa.
ADENDA: Ribau explica os prazos: "É preciso um equilíbrio (...) para não gastarmos tempo de mais, porque o partido está numa situação em que tem de arrumar [a situação] bem e o mais depressa possível. Não podemos deixar que se arraste o tempo. Em Junho queremos estar todos a apoiar solidariamente a selecção nacional de futebol", no Campeonato da Europa. (Lusa)
Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não fui eu que me calei sobre tudo o que envolvesse nepotismo, corrupção, práticas eticamente indevidas dos actores políticos, clientelismo, quer no PS, quer no PSD, preferindo falar de inuendos sobre a vida privada e sobre "eventuais relacionamentos pessoais" de pessoas "próximas" do Primeiro-ministro.
Questões políticas programáticas que as candidaturas devem esclarecer: papel do estado na economia e na sociedade face a casos concretos. Por exemplo, privatização ou não da CGD, ou da RTP, papel estrutural dos impostos para além do deficit, modelo "social", etc.
Questões políticas tácticas que as candidaturas devem esclarecer: política de alianças pré e pós-eleitorais numa estratégia para ganhar ao PS. O PSD deve ter uma posição clara sobre o seu entendimento (ou não) com o CDS - PP, partido com que partilhou a governação e com quem tem alianças autárquicas. É preciso clareza nesta questão e não boutades sobre táxis e veículos afins.
Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não fui eu que disse isto:
"Não disse nada diferente do que venho a dizer há largos meses: quando houvesse eleições para escolher o líder do meu partido, se as condições do País e as condições do PSD fossem as de agora, eu seria candidato. É verdade que esta afirmação, apesar de repetida muitas vezes, teve uma ênfase mais evidente por existir uma situação de alguma descrença em toda a oposição. O que pode ser um sinal de esperança, de vitalização, acaba por ter um enfoque muito maior. Mas também o fiz por pensar que devemos desdramatizar a ideia de que é negativo haver alternativas permanentes à liderança dentro dos grandes partidos. Essa é a realidade normal europeia. Só em Portugal esta questão costuma ser dramatizada: são tiques da ditadura que se perpetuam até hoje.
(...) Mas isso, repito, não é dramático: os líderes dos partidos democráticos têm de começar a viver com isto. Quando uma liderança é suficientemente forte cria à sua volta condições de vazio que não permitem que vozes dissonantes se afirmem. Portanto, quando as vozes dissonantes têm alguma audição é um sinal de que as lideranças não estão a afirmar-se."
Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não sou eu que digo em cada sítio aquilo que agrada ao dono do sítio: na SIC, para agradar a Balsemão, que queria acabar com a publicidade da RTP sem saber quanto custava, nem para que modelo de televisão pública.
Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não sou eu que digo em cada sítio aquilo que agrada ao dono do sítio: na Madeira, para agradar a Jardim, defendendo uma "autonomia sem limites".
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: FINANCIAMENTOS
A propósito dos seus textos ‘nunca é demais para aprender‘, está em curso uma curiosa polémica, que se levantou esta semana no Reino Unido, visível nas páginas jornais Guardian e Telegraph, sobre o financiamento dos centros de estudos islâmicos nas universidades. Lá como cá, às universidades competem para obter fundos privados para o seu financiamento, de forma a se tornarem auto-sustentáveis, ou até mesmo rentáveis. Neste contexto, várias universidades britânicas - incluindo as prestigiadas Oxford e Cambridge Oxford e Cambridge -, parecem ter descoberto uma nova forma de financiamento: os donativos de membros família real saudita e de outras organizações de países árabes e islâmicos. Assim, oito universidades britânicas (Oxford, Cambridge, University College of London, London School of Economics, Exeter, Dundee e City) teriam recebido mais de 233, 5 milhões de libras, nos últimos doze anos, tendo a maioria desse dinheiro sido destinado a centros de estudos islâmicos. Todavia, estes actos de filantropia, aparentemente desinteressados e a promover a melhoria do conhecimento, parecem estar a condicionar a investigação académica e científica na área. É pelo menos isto que denuncia um trabalho de investigação feito pelo professor Anthony Glees. Segundo este, o governo britânico prossegue ‘as políticas de educação erradas, feitas pelas pessoas erradas, e com os financiamentos errados‘. Este aponta até o exemplo da prestigiada Universidade de Oxford onde, nos últimos cinco anos, 70% das palestras efectuadas no St Antony´s College teriam sido ‘implacavelmente hostis ao Ocidente e a Israel‘ (algo que a universidade nega). Ironicamente, desta forma, estará não só a ser pervertido o ideal de investigação académica e científica, como estarão a ser abertas as portas à difusão da ideologia islamista e de versões retrógradas do Islão, dentro de algumas das instituições de ensino mais conceituadas. Face a esta situação, Anthony Glees sustenta que o governo britânico deverá adoptar rapidamente as seguintes medidas: interdição das universidades aceitarem dinheiro saudita e de outras organizações para o financiamento; divulgação de todos os donativos recebidos pelas universidades; e inquérito público sempre que os donativos tenham origem estrangeira. Este caso sugere uma lição interessante, de como os donativos e a filantropia podem trazer consigo ‘danos colaterais‘ para as instituições educativas e não só.
Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não fui eu que violei todos os pactos assinados pelo PSD e inclusive votei contra legislação proposta pelo partido, apenas para agradar a grupos de interesse.
11.
Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não fui eu que mudei os regulamentos eleitorais para impedir que haja cadernos eleitorais nas eleições dentro do partido, que se possam pagar quotas em dinheiro e sem controlo e outras medidas que tornam o PSD o partido mais aberto a práticas de clientelismo, patrocinato e caciquismo.
Só há duas lógicas de candidatura possíveis para se oporem a Menezes (que está a fazer mais uma rábula para regressar com um projecto inquisitorial): uma, de "unidade do partido", uma personalidade que pela sua autoridade nacional, prestígio interno e externo, possa travar o caminho para o espatifar do partido (que é a lógica de Menezes, espatifar para ficar agarrado ao caco maior), e ser credível face a ao PS e a Sócrates; outra, de ruptura, que esteja disposta a correr todos os riscos, inclusive o de perder, para dar uma volta na situação interna do PSD e restituir-lhe o papel reformista que já teve na vida pública portuguesa.
Ambas tem vantagens e inconvenientes. Ambas são boas para o partido e para a oposição ao PS. Ambas colocarão o PSD em condições de ganhar as eleições de 2009, coisa absolutamente impossível com Menezes. Ambas devem merecer a dedicação total de todos os militantes que estão preocupados com a situação no PSD. Não há óptimos nos dias que correm, há possíveis com muita força e ainda bem.
"Sou médico, que jurou lutar pela vida. Eu nunca matei ninguém pelas costas". Frase de Luís Filipe Menezes que só se pode aplicar a Ângelo Correia.
2.
Em seis meses de liderança só houve uma constância no meio da errância: a obsessão pelos "críticos", total, absoluta, patológica e ... instrumental para a vitimização e para esconder os erros políticos e a queda nas sondagens. Não há aliás nenhuma outra política consistente que não seja esta, é a única que explica tudo e vai explicar tudo.
(Há outra, mas fica para depois, os cem lugares de deputados que entre a Assembleia e o Parlamento Europeu, a direcção pode distribuir.)
3.
O prazo para as directas é um golpe puro, destina-se a que não haja discussão nenhuma, e que não haja possibilidade de organização alternativa capaz, frente à máquina que já está montada pelos especialistas. Menezes teve mais de dois meses contra Marques Mendes. Nas actuais condições de emergência pode ter que se aceitar o prazo, e ir a eleições com ele, mas ele deve ser combatido em nome da lisura e seriedade do acto eleitoral, e não deve passar em claro o truque.
4.
O argumento de que o "partido não pode passar dois meses virado para dentro" não colhe. Podem tentar usá-lo agora para impedir a discussão, mas arriscam-se a cortar agora para o ter depois. O que melhor faria ao PSD seria uma boa e frontal discussão interna, com candidatos que se confrontem sobre o programa para o país e sobre a sua visão da situação interna do PSD, incluindo o balanço do que aconteceu nos tempos mais recentes, e nunca foi verdadeiramente discutido: o acordo com o PP e o governo de coligação, a fuga de Barroso, o governo de Santana Lopes, o desastre de 2005, as direcções de Marques Mendes e Menezes. Só assim vale a pena e só assim o país pode prestar atenção ao PSD e reconstituir a sua credibilidade.
5.
Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não fui eu que, como primeiro acto de liderança, pedi acordos ao PS em todas as áreas governativas fundamentais.
6.
Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não fui eu que deixei cair o compromisso eleitoral do PSD do referendo do Tratado europeu.
7.
Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não fui eu que permiti uma liderança bicéfala.
8.
Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não fui eu que falei num "partido-empresa", em andar de carro escuro de luxo em comitiva, na classe executiva dos aviões, etc., etc.
En un día del hombre están los días del tiempo, desde aquel inconcebible día inicial del tiempo, en que un terrible Dios prefijó los días y agonías hasta aquel otro en que el ubicuo río del tiempo terrenal torne a su fuente, que es lo Eterno, y se apague en el presente, el futuro, el ayer, lo que ahora es mío. entre el alba y la noche está la historia universal. Desde la noche veo a mis pies los caminos del hebreo, Cartago aniquilada, Infierno y Gloria. Dame, Señor, coraje y alegría para escalar la cumbre de este día.
NUNCA É TARDE PARA APRENDER (3) : TAKFIR (تكفي) A personagem principal deste livro, menos aliás do que se poderia supor, é Bin Laden. O milionário saudita que, à data em que se iniciam as actividades terroristas da Al Qaeda, já não o é, aparece como uma personagem cinzenta, uma daquelas personagens na história que é decisiva em muitos momentos, mas que parece a maioria das vezes ser um pano de fundo para uma sucessão de eventos de que é mais testemunha do que autor. Em bom rigor, o livro de Wright atribui-lhe dois papéis chave, em momentos e circunstâncias diferentes, no "caminho" para o 11 de Setembro: um, o seu papel como financiador por conta própria ou alheia (dos americanos e dos sauditas) da guerrilha afegã contra a invasão soviética, e na viragem da Al Qaeda para os alvos americanos, num processo de globalização do terrorismo, das Filipinas a Nova Iorque, sem precedente. Quando assume o segundo papel, já está longe do primeiro, porque Bin Laden fica numa situação de quase penúria quando tem de sair do Sudão para o Afeganistão e a família real saudita lhe tira a mesada da firma familiar e a nacionalidade saudita. Nesse momento, a Al Qaeda, que é ainda uma organização de acolhimento e suporte para os fundamentalistas combatentes de todo o lado do mundo, e que funcionava mais como organização "social" do que como organização terrorista, evolui para o que é hoje.
Contrariamente ao que se repete por todo o lado, o papel dos americanos em "fazer" Bin Laden é muito pequeno. A maioria dos guerrilheiros que combateram no Afeganistão pouco tinham a ver com Bin Laden e os seus "árabes afegãos", cuja capacidade militar desprezavam, e que eram muito mais activos em discussões religiosas em Peshawar no Paquistão, do que a lutar na frente de batalha. E o perfil de Bin Laden é um puro produto do Islão saudita, preso numa religiosidade medieval, e ao mesmo tempo capaz de uma total modernidade na utilização das novas tecnologias. Lawrence da Arábia conheceu gente desta, gente do deserto, religiosa, contemplativa, "poética" num certo sentido, hábil na falcoaria, ladrões de estrada, cruéis chefes de tribos, corajosos, e fáceis de introduzir aos explosivos, detonadores, sabotagem e afins.
Bin Laden é daquelas personagens com intensa fé religiosa que "melhora" na adversidade mais extrema. Rigoroso, cumpridor sem falha do estrito programa de vida que se impôs, vivendo uma vida ascética, a que apenas a paixão árabe pelos cavalos dá alguma cor, juntou à sua volta gente muito diferente mas que controla mais pelo exemplo do que pelo poder. E este é o perfil típico de um homem muito, muito perigoso.
NUNCA É TARDE PARA APRENDER (2) : TAKFIR (تكفي) Wright abre o livro com Sayyd Qutb nos Estados Unidos, entre Nova Iorque, Washington e uma pequena cidade do Colorado, no final dos anos quarenta. Um intelectual egípcio, já com mais de quarenta anos, tímido e solitário, desenvolve uma relação de repulsa pelo mundo americano quase visceral. Nos textos sobre a sua experiência nos EUA há todo o caldo de cultura de uma recusa moral do mundo americano, uma análise devastadora de terra sem fé (Wright nota como essa percepção é a oposta à que os europeus tem dos EUA, terra do Bible Belt, onde as notas de dólar tem inscrito In God We Trust), presa a valores materiais, corrupta, injusta, fascinado pelo dinheiro, pelo sucesso e pelo pecado. Este retrato de Qutb da América é muito próximo da demonologia comunista anti-americana, mas também de muitos intelectuais europeus, como Aldous Huxley, por exemplo, que achava que os americanos queriam construir uma sociedade conformista e normalizada, onde Our Lord seria substituído por Our Ford. Qutb acrescenta a esta reacção uma profunda misoginia, uma mistura de ódio e de pavor face às mulheres, que aparecem sempre como sedutoras e fonte do pecado, numa atitude não muito distinta da descrição das mulheres como "vasos de corrupção" em certos autores cristãos.
Para manter íntegro o seu mundo, Qutb lê exaustivamente o Corão lançando as bases de uma obra que nos anos cinquenta em diante vai inspirar gerações de jovens muçulmanos e que vai ser levada para dentro da Al Qaeda pelo grupo egípcio de Zawahiri, talvez mais importante do que o próprio Bin Laden na definição de um quadro político-religioso na organização. Na sua obra mais conhecida Marcos na Estrada (Ma'alim fi al-Tariq, معالم في الطريق) e nos seus comentários ao Corão, Na Sombra do Corão (Fi Zilal al-Qur'an في ظِلالِ القرآن), Qutb lançou as bases do fundamentalismo islâmico, em particular a ideia da necessidade do retorno a uma "comunidade muçulmana que de há muito desapareceu":
"um grupo de pessoas cujos costumes, ideias e conceitos, regras e leis, valores e critérios, derivam todos de uma fonte islâmica. Uma comunidade com estas características desapareceu no momento em que as leis de Deus foram suspensas na terra."
A restauração desta "comunidade" tornou-se o programa dos militantes muçulmanos radicais que, no Egipto, na Arábia Saudita, no Yemen, no Sudão, na Argélia, no Paquistão e no Afeganistão se foram agregando à volta de um saudita milionário Bin Laden, que tivera um papel fundamental na canalização dos fundos sauditas e americanos para apoiar a guerra contra os invasores soviéticos no Afeganistão. Tudo isto aconteceu depois de Qutb ter sido um "mártir" ele próprio, procurando o martírio na recusa absoluta de qualquer gesto que o poupasse a ser condenado à morte e enforcado no Egipto em 1966.
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: TAKFIR (تكفي) Lawrence Wright, The Looming Tower : Al Qaeda's Road to 9/11, Penguin Books, 2007
Este excelente livro (de que penso existe uma recente tradução portuguesa que desconheço) é o exemplo, mais um, da qualidade do jornalismo de investigação americano, que está longe de ser apenas jornalismo, mas uma fusão do trabalho na imprensa com instituições, universidades, centros de investigação, de que resultam livros como este. The Looming Tower é uma narrativa factual, daí a parte jornalística no sentido nobre, da criação e desenvolvimento da Al Qaeda, uma biografia de Bin Laden e dos outros membros proeminentes da organização, e um retrato do contexto cultural, político e religioso que criou e alimenta o terrorismo fundamentalista islâmico.
Para quem está habituado a ler escritos preguiçosos sobre o fundamentalismo islâmico, é um prazer ir com este livro mais longe. A preguiça intelectual irmana hoje os que condenam todo o Islão, todo o mundo muçulmano por ideias e práticas de uma "vanguarda", no perfeito sentido leninista, fundamentalista e radical; como aqueles que usam a Al Qaeda para demonizar a política americana, que seria, em última instância, a responsável, quando não a "criadora" de Bin Laden e da organização terrorista. A repetição ad nauseam destas asneiras pode ser politicamente instrumental, mas nem por isso deixam de ser asneiras.
O livro de Wright mostra como as ideias da Al Qaeda se formaram na conjugação de uma série de "fundamentalismos", em particular a obra e a acção de Sayyd Qutb, transportada para o meio saudita pelo grupo egípcio de Zawahiri, na experiência afegã de luta contra os soviéticos e depois no contexto da disseminação de várias concepções, entre o político e o teológico, pelas redes de mesquitas e madrassas de Londres a Kuala Lumpur, como o "takfirismo", a generalização da prática de proclamar alguém "cafre" (kafir, افر), ou seja, fora do Islão, apóstata, infiel, logo passível de ser morto. O "takfirismo", importado do Egipto e da Argélia, deu às discussões da Al Qaeda o argumento teológico que lhe permitia matar indiscriminadamente homens, mulheres e crianças, inclusive muçulmanos.
Um telemóvel esteve no centro do momento público mais dramático da educação portuguesa nos últimos tempos. Uma semana antes do telemóvel, foi uma manifestação de professores. Uma semana depois da manifestação, uma senhora magra e baixa de gabardina branca, pequena e frágil, a lutar contra uma adolescente gigante, feita de cereais matinais e vestida de escuro. Na mão das duas, agarrado pelas duas, está um objecto que não existia há dez anos, um telemóvel pequeno que cabe num bolso dumas calças de ganga. No episódio a que me refiro, e que passou na televisão centenas e centenas de vezes, não há um, mas dois telemóveis, um que está no centro da luta, outro que filma. À volta do telemóvel que filma está uma turma do ensino secundário, está uma escola da cidade do Porto, está Portugal, está a Europa, está o mundo inteiro. Está o YouTube.
O pequeno objecto é o mais ubíquo de todos os objectos que existem hoje em Portugal, mais visível do que outro objecto tão omnipresente como o telemóvel e tão subversivo socialmente como o telemóvel: o relógio de pulso. Telemóvel e relógio são instrumentos de poderosas transformações sociais que eles revelam tanto como potenciam. Não são eles por si só que produzem essas transformações, porque nenhuma tecnologia por muito nova e revolucionária exerce efeitos sociais sem a "sociedade" estar preparada para a usar, sem que corresponda ao tempo e ao modo, à forma, às correntes de mudança da sociedade que já estão em curso e "descobrem" o objecto acelerando o seu curso com ele.
É o caso do relógio que saiu do laboratório das excentricidades, um pouco como precursor de um Meccano ou um Lego moderno, ou de um jogo de habilidade mecânica, ou de um objecto de luxo tão curioso como inútil, para se transformar numa necessidade tão vital que biliões de homens o trazem no pulso. Se exceptuarmos o uso dos relógios nos navios para calcular a longitude, os relógios não serviam para nada quando a esmagadora maioria das pessoas trabalhava de sol a sol, ou ao ciclo das estações, e estas dependiam de um calendário que estava escrito nos astros. Calendários eram precisos, relógios não eram precisos, até ao momento em que a Revolução Industrial apareceu e mudou quase tudo por onde passou. Milhões de pessoas vieram dos campos para as cidades, para as fábricas e para as minas, e precisavam de horas. O relógio subiu primeiro para as torres ou para o centro da fachada neoclássica das fábricas e lá continuou, passando depois para dentro, e depois para o bolso dos ricos e por fim para o pulso de todos. Hoje o relógio ordena o nosso tempo com um rigor muito para além do biológico e manda no nosso corpo, como nenhum objecto do passado. É tão presente que parece invisível, nem damos por ela que está lá, é parte do nosso corpo, mais do que objecto estranho. Um figurante do Ben Hur esqueceu-se dele, e nos filmes há quem vá para a cama sem ser para dormir, só vestido no pulso.
O telemóvel é o objecto que mais mudou os nossos hábitos sociais desde que existe. Não é o computador, nem a Internet, nem o cabo, é o telemóvel. E continua a mudar sem darmos muito por isso, porque a mudança se faz de forma desigual, quer no que muda, quer em quem muda. Dito de outra maneira, muda certas coisas nos jovens e muda outras nos adultos e os seus efeitos estão longe de ter terminado ou sequer de se saber até que ponto de transformação vão. Uma coisa é certa, o telemóvel, ou seja um instrumento de contacto instantâneo e portátil entre mim e todos e todos e mim, que usa predominantemente a voz e, daqui a poucos anos, usará a voz e a imagem, emigrará para ainda mais perto de mim, para a minha roupa, para os meus ouvidos, como já emigrou para as paredes do meu carro. O que ele transporta não é uma ficção, não é um avatar ou um nick mais ou menos anónimo, não é a minha prefiguração virtual como no Second Life ou nas caixas de comentários ou nos blogues anónimos, é a minha voz, a minha imagem, ou seja, eu. Não seria tão poderoso se fosse um instrumento do meu teatro virtual. Bem pelo contrário, é uma encarnação da minha persona, é o meu lugar na sociabilidade dos outros.
Por isso, luta-se por um telemóvel, porque num telemóvel de um adolescente está muito do seu mundo: telefones dos amigos, telefone dos namorados, passwords, fotografias, mensagens, vídeos, o equivalente a um diário pessoal, em muitos casos mais íntimo que um diário à antiga, com a sua chavinha de brincar que dava a ilusão de que ninguém o lia. À medida que se caminha pela idade acima o conteúdo do telemóvel muda, mas continua pessoal e intransmissível, com os SMS comprometedores que arruínam muitos casamentos, até se tornar quase um telefone de emergência que os filhos dão aos pais com os números deles já gravados e os das emergências: "é só carregar aqui e eu atendo, se houver qualquer problema, assim não se sente sozinho." Sente.
Mas as mudanças não se ficam por aqui. Já escrevi sobre algumas, como a presentificação obrigatória, a obrigação socialmente exigida de se estar sempre presente, porque o corpo e o telemóvel vão juntos. Deixou de se poder estar longe de um telefone, já para não dizer que se deixou de poder não ter telemóvel. A recusa de dar um número de telemóvel é tida como uma má educação ou uma insensata e insociável vontade de não estar disponível. Com o telemóvel está-se sempre disponível, ficam sempre os recados, queira-se ou não recebê-los, e o novo código do telemóvel exige que haja sempre resposta. Por que razão tenho eu que receber recados que não solicitei, e dar respostas que posso não ter tempo ou disponibilidade ou vontade para dar? Não posso, porque a máquina não aceita um não por resposta, ela vive do tráfego, e deseja mais tráfego. Por isso oferece-me voice-mail, e-mail no telemóvel, mensagens, sem eu o pedir.
Nos mais jovens o telemóvel é apenas mais um instrumento para a completa insensibilidade à perda de privacidade e intimidade. Crescendo num mundo que não preza e não educa para esses valores, um mundo que incentiva a exposição pública, o telemóvel fornece um meio de registo, incorporando a máquina fotográfica e o vídeo, no qual qualquer fronteira entre o que é público e privado se esbate. Qualquer um é um paparazzi de si próprio e dos outros e o rapaz que filmou o vídeo em glória do 9.º C da escola Carolina Michaëlis estava a pensar nessa dimensão lúdica e social do YouTube onde a vã glória de maltratar uma professora ou de uma fight na turma iriam dar fama na rede de chats e no Hi5 onde milhares de raparigas, adolescentes ou já nem tanto, se mostram em poses provocadoras, já para não falar no resto. Não sei se quando crescerem se vão arrepender, mas então já será tarde, porque uma vez na rede sempre na rede.
Por último há o controlo, o magnífico instrumento de controlo que é o telemóvel, pessoa a pessoa, numa rede que prende os indivíduos numa impossível fuga àquilo que é o objecto sempre presente, sempre ligado (os telemóveis desligados são de desconfiar), no qual a primeira pergunta é sempre "onde tu estás?", uma pergunta sem sentido no telefone fixo, esse anacronismo. Adolescentes jovens ou tardios, casais, maridos, mulheres, amantes, namorados, patrões e empregados, jogam todos os dias esse jogo do controlo muito mais importante do que a necessidade de falar ao telemóvel. Na verdade a esmagadora maioria das chamadas de telemóvel não tem qualquer objecto ou necessidade de ser feita, ninguém as faria num mundo de telefones fixos, que não seja pelo controlo, pela presentificação do indivíduo no seu jogo de inseguranças, solidões, afectos, e medos, através da caixa electrónica que se segura numa mão.
Não é a necessidade que justifica a presença quase universal dos telemóveis desde as crianças de seis anos até aos velhos, os milhões de chamadas a qualquer hora do dia, em qualquer sítio, da missa à sala de aulas, do carro à cama, é o complexo jogo de interacções sociais que ele permite, sem as quais já não sabemos viver. Viver num mundo muito diferente e cada vez mais diferente.
(No Público, 12 de Abril de 2008)
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No seu texto «O telemóvel» refere-se ao relógio como uma «necessidade tão vital que biliões de homens o trazem no pulso». Será um tanto difícil, pois só há cerca de seis mil e seiscentos milhões de seres humanos. Está aqui a cometer o erro clássico de traduzir o termo inglês «billion» por «bilião», o que não está correcto; «billion» significa «mil milhões». Recomendo a leitura do texto «Em torno do bilião» que está no nº 18 de «A folha - Boletim da língua portuguesa nas instituições europeias».
(José Carlos Santos)
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Não subscrevo a observação do leitor José Carlos Santos. Não me parece que se trate de um erro clássico de tradução do termo billion.
Por um lado, sem ter qualquer procuração de JPP, o contexto em que é produzida a expressão “biliões de homens o trazem no pulso” não tem pretensões de rigor científico que justifique o preciosismo de saber se bilião quer dizer milhar de milhões (um 1 seguido de nove zeros, de acordo com a norma americana) ou milhão de milhões (um 1 seguido de doze zeros, de acordo com a norma europeia).
Por outro lado, não é ilegítimo que um europeu recorra à norma americana se o contexto não deixar dúvidas. É o caso. Uma vez que o número de seres humanos que existem sobre o planeta é de cerca de 6 000 000 000 (um 6 seguido de nove zeros, não chegando portanto aos doze zeros), se disser 6 biliões sei que, neste contexto, bilião não pode estar de acordo com a norma europeia mas sim com a norma americana.
(Jorge Oliveira)
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Quanto às opiniões do seu leitor Jorge Oliveira, quero começar por observar que, ao contrário do que ele parece julgar, não existe uma «norma europeia» e uma «norma americana». O que existe é a «escala longa», que é usada na maioria dos países da União Europeia (entre as excepções contam-se o Reino Unido e a Grécia) e a «escala curta», que é usada nos países de língua inglesa e no Brasil (o resto da América Latina usa a «escala longa»).
Não ponho em causa que, neste caso, seja fácil de ver o que significa «biliões» quando se fala de «biliões de homens». Mas em muitos casos não é. É o caso, por exemplo, se estivermos a falar da dívida externa de um país. Além disso, se eu escrever que «dvemos corrijir erros cem ezitar» é claro para qualquer leitor que isto significa que «devemos corrigir erros sem hesitar»... mas perturba um tanto a leitura, não é verdade?
O hábito de não ligar a estes «preciosismos» pode ter consequências funestas. Foi o caso, há uns 20 ou 30 anos, de um casal francês que teve de pagar ao seu jardineiro 7500 francos. Só que, como estavam habituados a pensar em termos de «francos antigos» (o franco francês passou a valer em 1958 um centésimo do que valia antes) pagaram-lhe 750000 francos. Quando tentaram reaver o dinheiro, o jardineiro argumento perante o juiz que já não o tinha, pois gastara a maior parte em casinos. O juiz não o condenou.
(José Carlos Santos)
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Eu não queria entrar em polémica com o leitor José Carlos Santos, mas a verdade é que voltamos ao campo do preciosismo. Eu não "julgo" que exista uma norma europeia e uma norma americana. Para todos os efeitos, existem. Embora nenhuma delas esteja cunhada, no cabeçalho, com a designação de origem, e não sejam exclusivas dos EUA e da Europa, é assim que são conhecidas e referidas em toda a parte. Escala curta e escala longa não são mais do que os sistemas de nomenclatura de números grandes adoptados em cada um dos casos.
A norma "americana" recorre à escala curta. É muito mais simples e facilita o acompanhamento mental da escrita dos números grandes. Logo que se entra nos milhares de milhões, os americanos, melhor dizendo, a generalidade dos países de língua inglesa e alguns outros, incluindo o Brasil, empregam o bilião. O Reino Unido recorria à norma "europeia", mas em 1974 adoptou a americana.
Em lugar de gastarmos tinta a escrever, por exemplo, que o PIB português é de 150 mil milhões de Euros (e a ajustar o nosso pensamento à bateria de algarismos que isso comporta) seria bem mais fácil escrever 150 biliões de Euros. Diz-nos de imediato que já estamos na "casa" seguinte à dos milhões. E se passarmos a casa dos biliões entramos na dos triliões, etc. É mais intuitivo.
(Jorge Oliveira)
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No seguimento da interessante troca de ideias acerca das formas de referir os 'números grandes' (nomeadamente os 'biliões'), não queria deixar de referir o uso indistinto da 'vírgula' e do 'ponto' quando estão em causa números decimais - pois, como se sabe, é a primeira que se deve usar em Portugal. Por sinal, a situação mais bizarra dá-se quando, da boca de uma mesma pessoa (e até numa mesma frase!), se ouvem coisas como «As acções X subiram 'um-vírgula-quatro por cento', enquanto as Y desceram 'dois-ponto-três'».
Who has seen the wind? Neither I nor you. But when the leaves hang trembling, The wind is passing through. Who has seen the wind? Neither you nor I. But when the trees bow down their heads, The wind is passing by.
Eu tenho uma tese acerca de onde nascem estas coisas. Estão os nossos dirigentes políticos, mais os deputados, mais os seus amigos e funcionários, em permanente conversa. A conversa, 24 horas sobre 24, é sempre sobre as mesmas coisas: sobre as malfeitorias dos Inimigos Próximos e dos seus tenebrosos motivos, da rede de interesses, dinheiros, cama e parentela que os une com a comunicação social numa conspiração “contra o líder”; e, as menos importantes e acima de tudo menos mobilizadoras de fúria, as malfeitorias dos Adversários, que até são uns tipos com quem se pode beber um copo, mas a quem tem que se parecer que se quer ganhar eleições, principalmente quando eles não querem partilhar o bolo. Dessas conversas resultam um conjunto de anedotas, factóides, informações em terceira mão, títulos de jornais, pseudo-análises, opiniões avulsas, mas acima de tudo muito daquilo a que se costuma chamar “bocas”. Muitas e muitas “bocas”, uma espécie de blogue verbal.
A isto soma-se uma ou outra coisa desirmanada ouvida num almoço com uma personalidade que aceitou vir encontrar-se com o “líder” e que deu uma ou outra ideia “engraçada”, que, de regresso à sede, se torna numa iniciativa política a apresentar no jantar com militantes logo à noite, pré-anunciada aos jornalistas como “uma grande iniciativa política” e pensada já com título no jornal de amanhã. Se o jornal de amanhã não deu título, ou a “mensagem” saiu mal, a culpa é dos Inimigos Próximos que a corromperam dizendo coisas malévolas, como “mas isso é contraditório com o que ele disse há um mês”, ou “ele não fez as contas bem em quilómetros de auto-estrada”, ou “qual é o nexo, qual é o interesse, em que é que isso interessa ao país?”
De um modo geral, tudo isto é feito na base de muitas conversas de café, bar e restaurante, pouca leitura que não seja dos jornais e revistas, quinhentas chamadas de telemóvel, pouca observação que não seja a da televisão, meia dúzia de recados, do género, “olhe que eu acho que você devia levantar esta questão porque isto é muito grave e o X só faz asneiras nesta área”, intenções avulsas, frases engraçadas, citações erradas, e muita conversa em circuito fechado entre pares, com os mesmos “conhecimentos” e, acima de tudo, a mesma vida.
A tudo isto soma-se a convicção pessoal de que se é portador de um génio político inato, de uma intuição mil vezes testada pela adversidade “mas que me fez chegar onde estou” e logo temos uma política. Ou melhor, duas, ou melhor várias no tempo, ou melhor, uma para hoje e outra para amanhã, ou melhor, um “discurso”, uma “mensagem”, um “desígnio”, um “destino”.
UM EXEMPLO DAS COISAS QUE DAQUI NASCEM
O que é que leva um partido como o PSD a considerar como matéria de iniciativa pública, com envolvimento parlamentar, o facto de a RTP ter feito uma encomenda em 2007 a uma produtora externa (o que é uma prática habitual de todas as televisões) de um programa sobre bairros sociais e de essa empresa ter encomendado um trabalho a uma jornalista profissional do Diário de Notícias que já tinha escrito sobre a matéria e tinha experiência de televisão? Não se percebe qual a razão de interesse público para um partido levantar a questão. Produtoras externas na televisão pública quando “deveria ter optado por um profissional da casa”? Esta foi a explicação de recuo, por quem pelos vistos nunca vê a RTP, que floresce de produtoras externas. Nunca viram os Gatos Fedorentos das Produções Fictícias? A Contra-Informação da Mandala? Tudo coisas em que se “deveria ter optado por um profissional da casa”?
Mas a “razão” percebe-se quando se está atento às palavras. Diz Branquinho: “Trata-se de uma decisão escandalosa, pornográfica até.”. Diz Rui Gomes da Silva no Congresso do PSD da Madeira que “questionou as competências profissionais da jornalista e levantou suspeitas sobre eventuais relacionamentos pessoais que terão favorecido a escolha.” (sublinhados meus)
Eu sei a “razão” e é a pior. A jornalista em causa é tida como próxima do primeiro-ministro, o tipo de matérias que floresce como bolor nas conversinhas que referi acima, entre o machismo e a maledicência. Só isso. Não há nada de interesse público no caso. Apenas uma política que voa muito, muito baixo. E é assim que se mata um partido.
Numa coisa PSD e PS são iguaizinhos: os seus especialistas de aparelho, que conhecem as técnicas todas, mostram uma imaginação sem limites para “ganhar” eleições. No PS da Guarda veio agora saber-se que entre 400 novos militantes, várias dezenas moram na Associação de Dadores de Sangue da Guarda e os que não moram lá, moram na sede do PS de Celorico da Beira, que deve ser local muito aconchegado. A não ser que se trate de um takover do PS da Guarda por um grupo de vampiros que até agora dormia sossegado numa caverna na serra da Estrela, é muito socialista dador de sangue, com tanto empenho que vive de tubo posto e até manda a correspondência para a cama da Associação. Estas maravilhas de inscrição de militantes envolvem outro militante que têm também o perfil habitual: militante do distrito - funcionário da sede do PS – assessor do Grupo Parlamentar – assessor de Sócrates, que, questionado, responde não comentar porque são “questões internas” do PS. Tudo perfeito. Onde é que eu já vi isto?
Fly envious Time, till thou run out thy race, Call on the lazy leaden-stepping hours, Whose speed is but the heavy Plummets pace; And glut thy self with what thy womb devours, Which is no more then what is false and vain, And meerly mortal dross; So little is our loss, So little is thy gain. For when as each thing bad thou hast entomb’d, And last of all, thy greedy self consum’d, Then long Eternity shall greet our bliss With an individual kiss; And Joy shall overtake us as a flood, When every thing that is sincerely good And perfectly divine, With Truth, and Peace, and Love shall ever shine About the supreme Throne Of him, t’whose happy-making sight alone, When once our heav’nly-guided soul shall clime, Then all this Earthy grosnes quit, Attir’d with Stars, we shall for ever sit, Triumphing over Death, and Chance, and thee O Time
Pienso en el parco cielo puritano de solitarias y perdidas luces que Emerson miraría tantas noches desde la nieve y el rigor de Concord. Aquí son demasiadas las estrellas. El hombre es demasiado. Las innúmeras generaciones de aves y de insectos, del jaguar constelado y de la sierpe, de ramas que se tejen y entretejen, del café, de la arena y de las hojas oprimen las mañanas y prodigan su minucioso laberinto inútil. Acaso cada hormiga que pisamos es única ante Dios, que la precisa para la ejecución de las puntuales leyes que rigen su curiosos mundo. Si así no fuera, el universo entero sería un error y un oneroso caos. los espejos del ébano y del agua, el espejo inventivo de los sueños, los líquenes, los peces, las madréporas, las filas de tortugas en el tiempo, las luciérnagas de una sola tarde, las dinastías de las araucarias, las perfiladas letras de un volumen que la noche no borra, son sin duda no menos personales y enigmáticas que yo, que las confundo. no me atrevo a juzgar la lepra o a Calígula.
Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver
Mau tempo em Matosinhos. (Helder Barros)
Chuva do fim da tarde no Funchal.
(As fotografias enviadas em nome de Leonor Rodrigues são na realidade de autoria de Marco Freitas, a quem se pede desculpa por um erro de atribuição, mesmo sem ser de responsabilidade do Abrupto. )
1271 -Lines Indited With All The Depravity Of Poverty
One way to be very happy is to be very rich For then you can buy orchids by the quire and bacon by the flitch. And yet at the same time People don't mind if you only tip them a dime, Because it's very funny But somehow if you're rich enough you can get away with spending water like money While if you're not rich you can spend in one evening your salary for the year And everybody will just stand around and jeer. If you are rich you don't have to think twice about buying a judge or a horse, Or a lower instead of an upper, or a new suit, or a divorce, And you never have to say When, And you can sleep every morning until nine or ten, All of which Explains why I should like very, very much to be very, very rich.
The three men coming down the winter hill In brown, with tall poles and a pack of hounds At heel, through the arrangement of the trees, Past the five figures at the burning straw, Returning cold and silent to their town, Returning to the drifted snow, the rink Lively with children, to the older men, The long companions they can never reach, The blue light, men with ladders, by the church The sledge and shadow in the twilit street, Are not aware that in the sandy time To come, the evil waste of history Outstretched, they will be seen upon the brow Of that same hill: when all their company Will have been irrecoverably lost, These men, this particular three in brown Witnessed by birds will keep the scene and say By their configuration with the trees, The small bridge, the red houses and the fire, What place, what time, what morning occasion Sent them into the wood, a pack of hounds At heel and the tall poles upon their shoulders, Thence to return as now we see them and Ankle-deep in snow down the winter hill Descend, while three birds watch and the fourth flies.
Escrever sobre Maio 68 e começar por Sarkozy não é muito auspicioso. O homem, na campanha, num comício em Bercy em Abril de 2007, gritou "que era necessário liquidar a herança de Maio de 1968". Um ano depois, o mesmo Sarkozy casou com uma senhora que foi modelo, que no exercício da sua carreira apareceu várias vezes em trajes menores e mesmo sem trajes nenhuns e que, sem Maio de 1968, muito dificilmente poderia ser primeira-dama de França, nem a ninguém passaria pela cabeça que fosse, a começar pelo putativo esposo. Na tradição de Mitterrand e Chirac seria quando muito uma espécie de "segredo de Estado" permitido e consentido por velhas regras machistas e pela douce France, num universo paralelo ou em Tóquio, mas não no Eliseu. Goste-se ou não - e eu não gosto da exposição excessiva da privacidade, mas gosto que Sarkozy possa escolher ter a vida que quiser -, os costumes mudaram. As sociedades têm face à vida pessoal uma atitude mais laica e menos normativa, a hipocrisia continuou mas desabitou alguns lugares e isso é do "espírito do tempo". O problema de Maio 68 é que o mês "a liquidar" está bem dentro da cabeça dele e ele não sabe, ou faz que não sabe.
Escrever sobre Maio de 1968 começando pela vida que Sarkozy expõe como vida privada ainda é menos auspicioso. Na verdade, não foi só Maio de 1968, que é uma abstracção construída também pela ficção, que fez a vida privada de Sarkozy poder ser exibida sem um grande escândalo nacional que o incapacitasse de continuar Presidente, mas foi o que fez o Maio de 1968 que também a fez.
A matéria desse annus mirabilis ou horribilis, conforme a versão, veio de trás e continuou para a frente. A data é simbólica porque muito visível, mas o verdadeiro "culpado" são os anos 60. É a década que fez mudar muita coisa, em múltiplos sentidos. À luz da década, vista globalmente, de São Francisco a Praga, o Maio francês não é sequer o mais significativo. Maio de 1968 beneficiou do último suspiro de influência francesa nas modas intelectuais, mas já estava no limite dessa influência. Sartre está no fim, Althusser e Lacan tinham uma influência equívoca como a do estruturalismo, Foucault, Debord, Deleuze sobreviveram pela influência numa parte dos campus universitários americanos mais à esquerda, mas a coisa estava a acabar.
Mesmo a parte propriamente estudantil e política, as revoltas nas ruas do Quartier Latin, as barricadas, a ocupação da Sorbonne, representavam uma mistura de movimentos e grupos ultrapolitizados como nunca as "massas" o são, anarquistas, maoístas e trotsquistas, cuja relação com os operários grevistas, controlados pelo PCF, era equívoca, para não dizer de oposição frontal, quase tanta oposição como a que tinham com De Gaulle. Os operários queriam mais sous, os estudantes repetir a Comuna de Paris.
Talvez por isso, passada uma dúzia de anos, passada a tentação terrorista que é a que vem sempre com o refluxo, todas aquelas pessoas entraram no mainstream de tudo, da política, da universidade, da comunicação social, da vida. Só que o mainstream, o rio principal, já não era o mesmo, e eles já não sabiam viver da mesma maneira que os seus pais e que os seus filhos. Gostavam de dinheiro e estatuto, mas não sabiam tão bem como os seus pais e principalmente como os seus filhos ganhá-lo. Gostavam de poder e de influência, mas coexistiam bem com um mundo mais conflitual e menos respeitador, até porque "não confiavam em ninguém com mais de 30 anos" e agora tinham-nos. Eram mais democratas que os seus pais e tinham causas, mesmo que às vezes essa democracia fosse laxista e condescendente e as causas confusas, mas deram o corpo ao manifesto por causas que as gerações anteriores dominadas pelas ideologias de ferro ignoravam e atacavam, como, por exemplo, o apoio aos dissidentes soviéticos.
Mais importante do que o destino dos estudantes e intelectuais franceses, que são a face do Maio de 1968, são, nos anos 60, as mudanças de influência que se passam na cultura de massas, nos consumos culturais de massas. Já havia precedentes, alguns dos quais absorvidos mesmo no padrão intelectual francês, como o cinema, a banda desenhada e os romances policiais, que já eram em 1968 objectos de culto "americanos", lidos pelos Cahiers du Cinema ou pela miríade de revistas como a Tel Quel. Mas eram, nesses anos, entendidos como icónicos, colocados no mesmo plano dos novos ícones emergentes, o col Mao e o "Yukong que movia montanhas" e vinha nas Citações de Mao Zedong, então Mao Tsetung.
Os franceses foram os últimos a perceber que o Maio dos outros era mais poderoso que o seu. Subterraneamente, o francês estava a declinar como língua franca de tudo, mesmo da revolução. O grafismo vinha de Londres e de Haigh Ashbury, a música de Londres e de Woodstock, a moda de Londres e de São Francisco, os Beatles varriam o mundo e escreviam uma canção chamada Lucy in the Sky with Diamonds:
Imagina-te num barco num rio Com arvores de tangerina e um céu feito de marmelada Alguém te chama e tu respondes muito devagar A rapariga com olhos de caleidoscópio.
Quando as ruas de Paris ardiam, esta canção tinha um ano. A maioria dos estudantes franceses não a entenderiam, não perceberiam por que razão "tu respondes muito devagar" e o céu era "feito de marmelada" e a rapariga tinha "olhos de caleidoscópio", mas, nas ruas de São Francisco, isto tinha um nome: LSD. Outro mundo, outras influências, um retorno para dentro, com todas as ambiguidades, mas que mostrava uma pulsão individualista e hedonista que as drogas revelavam mais eficazmente do que as causas políticas da Gauche Proletarienne. Para nosso bem ou mal, foi assim.
É nessa cultura de massas que percebemos o que mudou nos anos 60, mais no que nos intelectuais e nos estudantes de Maio de 1968, embora o seu ras-le-bol fosse feito da mesma matéria. A cultura dos anos 60 só era maoísta, francesa, intelectual e politizada na parte mais superficial do folclore político, porque por baixo, onde as coisas mudavam, era proletária e anti-intelectual (em Inglaterra), libertária na geração do baby boom americano, nos filhos de Archie Bunker, ou dos GI da II Guerra, que chegavam à universidade e ao flower power e, pela primeira vez, tinham dinheiro para moldar o consumo, todos os consumos, os materiais, como os seus pais, com as little boxes dos subúrbios, mas também os "espirituais" como só eles puderam fazer, discos, livros, revistas, espectáculos, shows televisivos, cinema, objectos e, mais tarde computadores, iPod, telemóveis. Eles fizeram a transição dos electrodomésticos para os gadgets, abriram caminho ao mundo da Internet e das novas tecnologias. Melhor, abriram caminho para o que nós pensamos ser o "poder" das novas tecnologias e para o seu uso.
Essa cultura era individualista num modo novo, hedonista num modo novo, "material" num modo novo, "espiritual" num modo novo, liberal e libertária num modo novo e que se incorporou no modo de vida das pessoas. Tinha uma enorme força: era feita para a felicidade terrestre e não para a celeste e os tempos estavam maduros para a receber. Por isso, as pessoas querem lá saber do Sarkozy mais a sua dama; quando muito é uma questão de gosto e nós somos mais condescendentes com as escolhas dos outros, porque prezamos a liberdade das nossas.
Eu não estou a dizer se Maio de 1968 foi mau e é para "liquidar", como quer Sarkozy, ou se foi bom como a nostalgia dos velhos combatentes soixante-huitards idealiza. O que digo é que o que foi é o que é. E o que é tem muita força por o ser e muita fraqueza porque está a deixar de ser. A grande fragilidade do mundo feito pelos anos 60 é que só sobrevive numa relativa prosperidade, precisa de riqueza, bem-estar material e segurança, para poder continuar a ser individualista, hedonista e idealista.
As fracturas no edifício dos anos 60 não vêm do retorno do conservadorismo europeu ou americano, mas da crise económica gerada pela dificuldade do mundo ocidental, onde os valores do Maio de 1968 "valem", em competir com a globalização, vem da dificuldade em manter uma abertura optimista às causas, num mundo em que há a Al-Qaeda, o 11 de Setembro, e o apocalipse está na esquina da rua, e em que um certo reforço identitário e cultural é a única defesa. Num mundo menos tolerante, e mais pobre, o adquirido do Maio de 1968 não sobrevive, nem em Paris, nem em Londres, nem em Nova Iorque. É isso.
LENDO VENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 6 de Abril de 2008
Não era suposto estar a realizar-se um grande debate nacional sobre o Tratado europeu, conforme nos foi prometido pelo governo e pelos que votaram com ele, como alternativa ao referendo?
Aconselhável a todos os que na política citam frases célebres e não acertam no nome dos seus autores, ou no contexto, ou na frase, ou em coisa nenhuma.
A edição pela Gradiva de um Dicionário de Termos e Citações de Interesse Político e Estratégico, de autoria de um militar com carreira distinta Henrique Lages Ribeiro, é mais uma contribuição para uma biblioteca que em Portugal é demasiado escassa, a das obras de referência. Este tipo de obras exige uma dedicação muito especial e muito, muito, muito, trabalho. Para o leitor saber onde fica localizada a “Schengenlândia” e quem é que falou de “revolução tranquila”, com citações em apoio.
History has to live with what was here, clutching and close to fumbling all we had-- it is so dull and gruesome how we die, unlike writing, life never finishes. Abel was finished; death is not remote, a flash-in-the-pan electrifies the skeptic, his cows crowding like skulls against high-voltage wire, his baby crying all night like a new machine. As in our Bibles, white-faced, predatory, the beautiful, mist-drunken hunter's moon ascends-- a child could give it a face: two holes, two holes, my eyes, my mouth, between them a skull's no-nose-- O there's a terrifying innocence in my face drenched with the silver salvage of the mornfrost.
COISAS DA SÁBADO: POR FAVOR, CONTINUEM A HESITAR (MUITO) SOBRE O KOSOVO
No meio de uma política europeia que tem sido de seguidismo, Portugal como nação, representado pelo governo e pelo Presidente da República, tem tido o bom senso de não se precipitar para cobrir mais um acto errado da política americana e franco-alemã no Kosovo, o reconhecimento unilateral da independência.
Os puristas europeus do beneplácito da ONU para o Iraque aqui não se importam de criar um país ilegal segundo as normas do direito internacional. E, sem o reconhecimento das Nações Unidas, impossível sem o voto da Rússia, o Kosovo permanecerá o que é: um protectorado da União Europeia e dos EUA, da OTAN como dizem os sérvios com razão, que dependerá sempre do dinheiro externo. Mas, ou me engano muito, ou quererá rédeas longas para poder ter polícia kosovar, tribunais kosovares, serviços secretos kosovares, para que a sua elite política ex-guerrilheira se dedique a actividades para que os Balcãs são uma excelente placa giratória: crime organizado. Na verdade, nem era preciso ser independente, é o que já acontece hoje. Mas ajuda.
Se querem mexer unilateralmente com as fronteiras, que é o que estão a fazer, então têm muito que fazer no mundo. Não é nenhum tabu absoluto, pode até nalguns casos ser a solução, mas é uma coisa que exige a máxima prudência, que é o que não se está a ter. A verdade é que se dividiu a Etiópia, a Checoslováquia, a Jugoslávia e, antes disso, o Paquistão. Mas não se deixou dividir o Biafra, nem o Katanga, nem se deixa dividir a Moldova, nem a Geórgia, nem a Federação Russa no Cáucaso, nem a Espanha, nem o Iraque. O Iraque é um bom exemplo. Está formalmente dividido, está de facto dividido pelo menos na zona curda, que tem auto-governo, forças militares e polícia própria, leis e administração locais, bandeira, farda e hino. Exactamente como o Kosovo, mas não tem direito a ser independente, porque se o fosse, o Sul xiita ficaria uma extensão do Irão e o triângulo sunita uma variante do poder do Baas de Saddam sem Saddam.
Não pode o Curdistão iraquiano, mas pode o Kosovo porque políticas de limpeza étnica, que é o que a independência do Kosovo albanês significa, só podem ser feitas quando o “limpado” está fraco, como é o caso da Sérvia e tem a bandeirinha azul das estrelas por cima. Não podem ser feitas quando os vizinhos poderosos, ainda por cima aliados instáveis, como é a Turquia, podem entrar em guerra por causa disso.
Por isso, santa prudência ilumine os nossos governantes e que não seja apenas “pelos riscos que correm as nossas tropas”, que é razão para cuidados, mas não é para políticas de fundo. Que seja lembrando-nos do efeito desastroso que o reconhecimento unilateral alemão da Croácia, depois imposto à UE, teve no desencadear da guerra nos Balcãs, e no pensar os riscos que uma Espanha com um governo fraco, mais uma vez refém dos nacionalistas bascos e catalães, onde há política da bala e da bomba, nos faz passar.
Marte, la guerra. Febo, el sol. Neptuno, el mar que ya no pueden ver mis ojos porque lo borra el dios. Tales despojos han desterrado a Dios, que es Tres y es Uno, de mi despierto corazón. El hado me impone esta curiosa idolatría. Cercado estoy por la mitología. Nada puedo. Virgilio me ha hechizado. Virgilio y el latín. Hice que cada estrofa fuera un arduo laberinto de entretejidas voces, un recinto vedado al vulgo, que es apenas, nada. Veo en el tiempo que huye una saeta rígida y un cristal en la corriente y perlas en la lágrima doliente. Tal es mi extraño oficio de poeta. ¿Qué me importan las befas o el renombre? Troqué en oro el cabello, que está vivo. ¿Quién me dirá si en el secreto archivo de Dios están las letras de mi nombre?
Quiero volver a las comunes cosas: el agua, el pan, un cántaro, unas rosas...
Ô vous qui, dans la paix et la grâce fleuris, Animez et les champs et vos forêts natales, Enfants silencieux des races végétales, Beaux arbres, de rosée et de soleil nourris,
La Volupté par qui toute race animée Est conçue et se dresse à la clarté du jour, La mère aux flancs divins de qui sortit l'Amour, Exhale aussi sur vous son haleine embaumée.
Fils des fleurs, vous naissez comme nous du Désir, Et le Désir, aux jours sacrés des fleurs écloses, Sait rassembler votre âme éparse dans les choses, Votre âme qui se cherche et ne se peut saisir.
Et, tout enveloppés dans la sourde matière Au limon paternel retenus par les pieds, Vers la vie aspirant, vous la multipliez, Sans achever de naître en votre vie entière.
Florestas e fogo. Vamos entrar na época de fogos. Já estou a ouvir a gritaria....os bombeiros, o combate aos fogos, a protecção civil, as "populações afectadas"... Ora acontece que o 3º quadro comunitário de apoio fechou no fim de 2006. O actual quadro comunitário de apoio está parado desde então no que se refere a apoios financeiros para limpeza de matas. Está portanto atrasado cerca de 1 ano e 4 meses. E não há notícia de que esteja para entrar em execução. Será que estão à espera da campanha eleitoral para pôr este assunto em andamento? Eu sou agricultora. Tenho uma mata para limpar. Vou acabar por limpá-la do meu bolso e sem apoio financeiro quando ele existe e está apenas a só à espera de ser desbloqueado, mas não é.
(Inês Amorim)
*
É com grande assombro que vejo o desenrolar dos acontecimentos do Carolina Michaelis. A rapariga do telemóvel e o rapaz das filmagens, assim como as suas famílias, estão a ser crucificados na praça pública por todo o tipo de gente. Por “jornalistas” e até por gente com estudos jurídicos.
Por mim, não tenho claro que a gravação do telemóvel sirva de prova em Tribunal, pois não foi obtida de modo regular. Se com outros arguidos de crimes verdadeiramente graves são respeitados até a exaustão os direitos essenciais da lei processual penal, por maioria de razão isto deverá fazer-se com menores de idade.
Mas estes menores arriscam-se a pagar muito caro o que fizeram, pois tiveram a infelicidade de aceder ao estatuto de “caso exemplar”. Mas, se já foram transferidos de modo fulminante, que mais se pretende fazer com eles? Se vemos que há crimes noutro tipo de áreas, como a desportiva, com autores muito maiores de idade, que tardam em ser, não já punidos, mas apenas julgados porque são inúmeras as questões processuais levantadas (como a validade da obtenção da prova, sem ir mais longe), será justa a punição automática destes menores? Será que eles não têm direito de gozar da mais ínfima dose de “in dúbio pro reo” de que outros arguidos maiores e responsáveis usufruem à larga?
É claro que se isto chega aos Tribunais, qualquer juiz concluirá pela irracionalidade desta trapalhada e mandará a sociedade descarregar as suas frustrações noutro lado.
Por fim, também não percebo como é que a RTP ainda não foi, ela sim, processada (em várias sedes, e até pela ERC) por ter mostrado a cena do Youtube sem se dar ao trabalho de tapar as caras dos intervenientes, pois assim é que passou pela primeira vez. Há aqui matéria para alguém lhe pedir indemnizações…
Estou a acabar um pequeno livro, mais semana, menos semana, que é um subproduto dos meus trabalhos mais extensos sobre a história da extrema-esquerda em Portugal da década de 60 a 1974. Fará parte de uma série com o título provisório de Estudos sobre a Extrema-Esquerda e compreenderá mais um (sobre a imprensa clandestina e do exílio) ou dois até ao fim do ano. Ainda não sei onde será editado, mas isso não é problema.
O que está a acabar é um estudo sobre a génese dos grupos pró-chineses e albaneses no mundo ocidental, que eu saiba, pela bibliografia académica internacional existente, o primeiro a ser feito no seu conjunto para estes anos 1960-5, beneficiando de novos testemunhos e arquivos, como o albanês. Ou seja, mesmo para o momento muito inicial da coisa, antes de haver "maoísmo" e Revolução Cultural. Incluo depois com mais detalhe a parte portuguesa, ou seja, o modo como o conflito-sino-soviético se passa no interior do PCP e a criação da Frente de Acção Popular - Comité Marxista-Leninista Português, mas apenas tratada no seu contexto internacional, ou seja nas relações com a China e a Albânia e os outros grupos marxistas-leninistas da época. O título provisório será A FAP / CMLP no Contexto Internacional dos Primeiros Grupos Marxistas-Leninistas (1960-1965).
(Ao lado, uma edição clandestina do A Propósito da Prática de Mao Zedong feita pelo PCP antes da ruptura das relações com o PC da China na sequência do conflito sino-soviético.)
Aquí la vasta enciclopedia de Brockhaus aquí los muchos y cargados volúmenes y el volumen del atlas, aquí la devoción de Alemania, aquí los neoplatónicos y los agnósticos, aquí el primer Adán y Adán de Bremen, aquí el tigre y el tártaro, aquí la escrupulosa tipografía y el azul de los mares, aquí la memoria del tiempo y los laberintos del tiempo, aquí el error y la verdad, aquí la dilatada miscelánea que sabe más que cualquier hombre, aquí la suma de la larga vigilia. Aquí también los ojos que no sirven, las manos que no aciertan las ilegibles páginas, la dudosa penumbra de la ceguera, los muros que se alejan. Pero también aquí una costumbre nueva, de esta costumbre vieja, la casa, una gravitación y una presencia, el misterioso amor de las cosas que nos ignoran y se ignoran.
In the long journey out of the self, There are many detours, washed-out interrupted raw places Where the shale slides dangerously And the back wheels hang almost over the edge At the sudden veering, the moment of turning. Better to hug close, wary of rubble and falling stones. The arroyo cracking the road, the wind-bitten buttes, the canyons, Creeks swollen in midsummer from the flash-flood roaring into the narrow valley. Reeds beaten flat by wind and rain, Grey from the long winter, burnt at the base in late summer. -- Or the path narrowing, Winding upward toward the stream with its sharp stones, The upland of alder and birchtrees, Through the swamp alive with quicksand, The way blocked at last by a fallen fir-tree, The thickets darkening, The ravines ugly.
LENDO VENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 1 de Abril de 2008 (2)
Depois de ver na RTP várias vezes e hoje no Público, este Dean Radin, investigador no Institute of Noetic Sciences da Califórnia, a "explicar" de ciência certa (e na RTP entre notícias científicas e médicas, sem distinção) aquilo que ele chama "premonição colectiva do 11 de Setembro", ou seja, adivinhação, eu de facto tenho pena que o Código da Publicidade tenha sido revogado neste artigo 22º-B por uma recomendação muito mais asséptica:
Produtos e serviços milagrosos1 – É proibida, sem prejuízo do disposto em legislação especial, a publicidade a bens ou serviços milagrosos.
2 – Considera-se publicidade a bens ou serviços milagrosos, para efeitos do presente diploma, a publicidade que, explorando a ignorância, o medo, a crença, ou a superstição dos destinatários, apresente quaisquer bens, produtos, objectos, aparelhos, materiais, substâncias, métodos ou serviços como tendo efeitos específicos automáticos ou garantidos na saúde, bem-estar, sorte ou felicidade dos consumidores ou de terceiros, nomeadamente por permitirem prevenir, diagnosticar, curar ou tratar doenças ou dores, proporcionar vantagens de ordem profissional, económica ou social, bem como alterar as características físicas ou a aparência das pessoas, sem uma objectiva comprovação científica das propriedades, características ou efeitos propagandeados ou sugeridos.
3 – O ónus da comprovação científica a que se refere o número anterior recai sobre o anunciante.
4 – As entidades competentes para a instrução dos processos de contra-ordenação e para a aplicação das medidas cautelares e das coimas previstas no presente diploma podem exigir que o anunciante apresente provas da comprovação científica a que se refere o nº 2, bem como da exactidão material dos dados de facto e de todos os benefícios propagandeados ou sugeridos na publicidade.
5 – A comprovação científica a que se refere o nº 2 bem como os dados de facto e os benefícios a que se refere o número anterior presumem-se inexistentes ou inexactos se as provas exigidas não forem imediatamente apresentadas ou forem insuficientes.
Não é que eu ache que vai com códigos, mas sempre ajudam a entender o que está em causa. É que entre Dean Radin e o Professor Bambo não há assim tanta diferença.
Neste blogue vai-se ser membro, pioneiro, entusiasta, propagandista do Virgle.
Não é de agora que me interessa o Plano B. Escrevi sobre ele várias vezes desde os anos oitenta e no Abrupto está cá desde Novembro de 2003 (embora com as imagens perdidas...). Cito-me: "resolver o dilema malthusiano entre o crescimento da população e os recursos. Resolver este dilema sob as suas formas clássicas e modernas implica várias coisas difíceis: mudar o nosso modelo predatório de crescimento industrial , controlar as pressões sobre a ecologia geradas pelo acesso das multidões do terceiro mundo a consumos de massa, descobrir novos processos agrícola, encontrar na conquista espacial um novo “espaço vital” para a humanidade ." E se for uma mentira do 1º de Abril vou lá torcer o pescoço ao e ao . Isto depois da bomba, claro. E, já agora, nestas não me importo de cair.
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Enganado! Burro! Optimista !Era mesmo para os "fools" de Abril, e eu, inocente e ingénuo, eu não reparo nas datas. Bom aqui está e se pensam que eu vou acreditar no "yet" desenganem-se:
Sorry, but the page you're looking for doesn't actually exist. Why? Well, because...we didn't have time to build it. Because we didn't think that particular page was all that important. Because this is just an early version of the Virgle site and lots more pages will be coming down the pike as the project --
-- oh, all right. Fine. April Fool's. Ha, ha, ha. It isn't real. There. Are you happy? Does it please you to drag us out of our lovely little fantasy world, to crush all our hopes and dreams? Is that really what you need to hear? Fine, you've heard it. Virgle isn't real.
LENDO VENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 1 de Abril de 2008
Interessantes conclusões do Relatório do Provedor do Telespectador da RTP (2007) - a admissão de que a RTP África não é um verdadeiro órgão de comunicação social, que responda apenas por critérios jornalísticos, feita nesta frase: "os conteúdos da RTP África não podem, em momento algum, comprometer politicamente as razões que justificam Portugal ter um canal direccionado para a lusofonia." (Sublinhados meus.)
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Outra conclusão evidente, mas que vale a pena reconhecer e que tem muito a ver com a governamentalização: "os eventos desportivos continuam a ter um destaque desmesurado. O futebol é continuamente privilegiado em relação aos outros desportos, com incidência especial na actividade dos três clubes Porto, Benfica, Sporting."
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E uma muito interessante conclusão sobre o "serviço público":
Não obstante toda a actuação que tenho desempenhado tendo presente os compromissos da RTP ser definida como detentora do «estatuto de serviço público» e das exigências que tal estatuto comporta, não deixo de ficar perplexo na sua execução prática quando me deparo com a realidade de que o programa de maior e mais constante audiência é o «PREÇO CERTO». E essa perplexidade e luta interior no próprio exercício da função e missão de Provedor não se simplifica quando me lembro das palavras que, um certo dia, o anterior Presidente do Conselho de Administração da RTP, S.A., o Dr. Almerindo Marques me dizia: «Não se esqueça que temos um compromisso: fazer televisão adequada à população que temos».
To be able to see every side of every question; To be on every side, to be everything, to be nothing long; To pervert truth, to ride it for a purpose, To use great feelings and passions of the human family For base designs, for cunning ends, To wear a mask like the Greek actors-- Your eight-page paper-- behind which you huddle, Bawling through the megaphone of big type: "This is I, the giant." Thereby also living the life of a sneak-thief, Poisoned with the anonymous words Of your clandestine soul. To scratch dirt over scandal for money, And exhume it to the winds for revenge, Or to sell papers, Crushing reputations, or bodies, if need be, To win at any cost, save your own life. To glory in demoniac power, ditching civilization, As a paranoiac boy puts a log on the track And derails the express train. To be an editor, as I was. Then to lie here close by the river over the place Where the sewage flows from the village, And the empty cans and garbage are dumped, And abortions are hidden.