ABRUPTO

15.3.08


EXTERIORES: CORES DO DIA DE HOJE

Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver



Chegada de uma camioneta com participantes no comício do PS à zona do Lima 5, Porto.

(Nuno Granja)

*
Como a foto de Nuno Granja documenta, os autocarros do comício do PS ficaram estacionados em cima de uma faixa especial destinada à circulação de transportes públicos (faixa "BUS"). No lado oposto, na Rua João Pedro Ribeiro, onde resido, aconteceu exactamente o mesmo.

O comício (ou manifestação) foi marcado e realizou-se no Pavilhão do Académico, um espaço interior, na Rua Costa Cabral. Tanto quanto sei, não previa nem envolveu o corte de ruas ou praças da cidade do Porto e, durante o período da sua realização, os autocarros dos STCP e os Taxis da cidade continuaram a circular pela zona, mas vendo-se forçados a usar as faixas comuns de rodagem, uma vez que como referi, as que lhes estão afectas se encontravam completamente ocupadas pelos autocarros do comício.

Ignoro se houve algum pedido e autorização das autoridades públicas competentes, para cortar as faixas "BUS" durante a realização do evento, ou se tratou de uma mera violação de facto das normas reguladoras da circulação na cidade do Porto, levada a cabo com a activa colaboração das autoridades policiais. Ignoro se esta é a prática comum em comícios e manifestações de qualquer partido ou organização. Ignoro se foi esta a prática usada na manifestação de professores da semana passada, em Lisboa. Ignoro, mas gostava de ser esclarecido.

(António José Cardoso da Conceição)

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COISAS DA SÁBADO: A ILUSÃO DE QUE O PS JÁ PERDEU A MAIORIA ABSOLUTA


É uma ilusão. Primeiro, porque as sondagens que o dão a perder a maioria absoluta, dão-no por uma pequena percentagem, nalguns casos dentro da margem de erro. Segundo, porque ainda falta ano e meio e a memória das muitas dezenas de milhares na rua, pode ser daqui a uma ano, apenas isso, uma memória. O governo ainda tem muita coisa na caixinha das surpresas, como por exemplo, uma descida de impostos e regalias diversas a distribuir. Nunca pode ser muito, mas pode ser o suficiente. E terceiro e último, não se perde a maioria apenas porque há usura do governo, tem que haver alternância. E quanto a isso, a alternância que está à vista pode contribuir muito significativamente como factor de rejeição a dar mais uns votos ao PS. Em 2005, o PS potenciou e muito os seus ganhos com votos de rejeição contra a “oferta” que o PSD dava ao eleitorado. Há alguma razão para pensar que em 2009 vai adorar o que rejeitou em 2005? Nenhuma.

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EXTERIORES: CORES DO DIA DE HOJE

Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver



A primeira cor da manhã de hoje. (Ochoa)

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EARLY MORNING BLOGS


1250 - The Sad Shepherd

There was a man whom Sorrow named his Friend,
And he, of his high comrade Sorrow dreaming,
Went walking with slow steps along the gleaming
And humming Sands, where windy surges wend:
And he called loudly to the stars to bend
From their pale thrones and comfort him, but they
Among themselves laugh on and sing alway:
And then the man whom Sorrow named his friend
Cried out, Dim sea, hear my most piteous story.!
The sea Swept on and cried her old cry still,
Rolling along in dreams from hill to hill.
He fled the persecution of her glory
And, in a far-off, gentle valley stopping,
Cried all his story to the dewdrops glistening.
But naught they heard, for they are always listening,
The dewdrops, for the sound of their own dropping.
And then the man whom Sorrow named his friend
Sought once again the shore, and found a shell,
And thought, I will my heavy story tell
Till my own words, re-echoing, shall send
Their sadness through a hollow, pearly heart;
And my own talc again for me shall sing,
And my own whispering words be comforting,
And lo! my ancient burden may depart.
Then he sang softly nigh the pearly rim;
But the sad dweller by the sea-ways lone
Changed all he sang to inarticulate moan
Among her wildering whirls, forgetting him.

(Yeats)

*

Bom dia!

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JÁ ESTAVA À ESPERA DESTE TIPO DE COISAS OU DE UMA VERSÃO QUALQUER DESTE TIPO DE COISAS, MAS FICAM A SABER QUE NÃO ME INTIMIDAM COM CALÚNIAS, NEM MENTIRAS

Parece que numa entrevista que Abel Pinheiro dá ao Expresso e que sai amanhã, ele diz que me deu 1000 contos para a campanha eleitoral de Loures em 1989. Já estava à espera de uma coisa qualquer deste tipo, por razões que nem vale a pena explicar. Sucede que tal é completamente falso. Primeiro, porque vi Abel Pinheiro um vez na vida, num almoço para que José Miguel Júdice me convidou no Ritz, que penso, se a memória me não falha, nem sequer foi contemporâneo da campanha de Loures (como não tenho a certeza não garanto). Nesse almoço, Abel Pinheiro queixou-se de Jardim e de uma questão qualquer que tinha com Jardim, que já nem me lembro bem qual e a que não prestei muita atenção. Ouvi, agradeci o almoço e vim-me embora. Se Abel Pinheiro deu dinheiro ao PSD, nacional ou de Loures, desconheço em absoluto e, se o soubesse, certamente que lhe agradeceria porque tínhamos muito pouco dinheiro para a campanha e tal era totalmente legal à época. Mas reafirmo o meu completo desconhecimento deste caso, que evidentemente só se destina a querer meter gente séria no saco de gente pouco séria, para ver se na balbúrdia todos ficam sujos. É tudo o que tenho a dizer sobre o assunto, penoso como se imagina, porque fica sempre algum "fumo" no ar, mas que não me demoverá de dizer o que sempre digo e de combater o que combato. Há gente aí a trabalhar profissionalmente para lançar estas calúnias, mas comigo têm pouca sorte.

ADENDA - Agora que posso ver o Expresso fisicamente percebo que, se Abel Pinheiro se quer vingar da "serpente" sobre o Casino, do Público que dirigi por um dia, é o Expresso, pelo tratamento ambíguo e jornalisticamente miserável, que faz também um ajuste de contas. Na verdade, o que Abel Pinheiro diz é mais pacífico (mesmo que errado) do que faz o Expresso. Para ser plebeu e grosso, é vingança de Abel Pinheiro e sacanice do Expresso.

*
O que é que vc esperava depois do ataque que fez a Abel Pinheiro? O que é que vc esperava depois da reacção de Nicolau Santos subdirector do Expresso às críticas que lhe fez sobre a entrevista ao Sócrates? Eu vi logo a primeira página com a frase de Abel Pinheiro sem contexto e sem o seu desmentido, e depois, com surpresa o mesmo título na segunda página, também sem contexto, o que não é normal num jornal. A sanha era contra si. Mais ainda, tudo o que diz Pinheiro na entrevista e que não dá título é mais grave do que o que ele diz de si, mete o Soares, o PCP, milhões em notas ao barulho e é uma clara vingança dele numa frase despeitada que é colocada em título? Quem lê pensa que foi ontem o almoço e não em 1989, e vc acaba por sair manchado sem culpa nenhuma. A culpa é do Expresso, vc fez-lhes alguma coisa?

(J. Rodrigues Santos)

*

Como acontece muitas vezes nos jornais, é vítima do título e não do facto. Junta-se a muitos outros a quem acontece o mesmo.

(GS)

*

Também quem o aprecia já estava à espera disto! Era bem previsível!!!

Calculo que não precisa que o confortem, mas sei que não pode deixar de ser penoso, como diz no seu post. Contudo arrisco-me a apostar que a fortaleza que o leva a ser livre na denúncia das graves doenças do PSD também se manterá hoje, para o proteger destes embates (afinal a sua consequência!).
Nem duvido um minuto.
Mesmo assim, faço questão de me solidarizar expressamente.
Solidarizar-me com estes danos colaterais que está a sofrer. E como já 1 vez disse, "que nunca lhe doam as mãos com que escreve"! Pode acreditar que nada disso cai em saco roto (mas você sabe disso).

(Laura)

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Queria apenas deixar uma palavra de solidariedade pelo vil ataque que lhe é movido na edição de hoje do Expresso. Bem sei que os poucos que defendem a transparência devem estar preparados para todo o tipo de ataques. Contudo, ainda não entendo que uma impressa dita seria se deixe cair no jogo da contra informação. (...) Não o conheço pessoalmente mas a política e a intervenção social tem destas coisas. (...)

Tiago VPCN

*

Também já estava à espera de qualquer coisa que te fosse expressamente dirigida. Escrevo-te só para te dizer que tens a minha total e incondicional solidariedade.
A minha insuportável memória talvez te possa ser útil. Lembro-me de me teres convidado para um debate com o Rangel, o Jorge Coelho, o JCEspada, o APVasconcelos e o Domingos Amaral, sobre Televisão, que se realizou no auditório da Grão-Pará da Rua Castilho.
Eras, então, Presidente da Distrital de Lisboa do PSD. Há relatos nos jornais desse debate. Logo na abertura tu disseste que o PSD era um partido pobre porque estava na oposição e agradeceste ao Abel Pinheiro e à Grão Pará a cedência das instalações. Lembro-me bem disso e foste muito claro.

(carlos magno)

*

Há coisas que escreve com que concordo, outras de que discordo e há ainda aquelas, muito mais raras, onde mistura a sua tradicional sobranceria com uma ignorância técnica a respeito do assunto sobre o qual que se pronuncia que me fazem entrar “em órbita”… Mas hoje endereço-lhe esta mensagem por uma outra razão, em estreia, não pelo que escreve mas pelo que escrevem de si, designadamente o artigo de hoje do Expresso que é sórdido.

Não o conheço, não serviria para sua testemunha abonatória em tribunal, mas do que é conhecido da sua vida pública, parece-me fácil deduzir que, pelo seu percurso político passado, se houvesse episódios significativos a apontar-lhe já há muito eles teriam vindo ao de cima para conspurcá-lo. Não teria sido necessário esperar por agora para que um irremediavelmente marcado Abel Pinheiro se viesse “explodir” junto a si, qual mártir do terrorismo islâmico…

(A.Teixeira)

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14.3.08


BIBLIOFILIA: GRANDES CAPAS



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COISAS DA SÁBADO: OS PÓZINHOS DE PERLIMPIMPIM



As ideias de que a maioria do país tem alguma espécie de policiamento e de que as forças de segurança oferecem alguma segurança, só as podem ter quem viva nas cidades, onde mal ou bem, mal quase sempre, há polícia nalguns sítios. A esmagadora maioria do interior do país rural não tem qualquer policiamento, nem de perto nem de longe. A GNR, acantonada em meia dúzia de postos, está como o próprio nome indica, acantonada. No momento em que o governo se prepara para fechar 110 postos da GNR convém pensar duas vezes, porque se não chega a GNR a todo o lado, a droga e o pequeno crime chegam e chegam cada vez mais. Esta história verdadeira passou-se numa aldeia há menos de uma semana, a poucas dezenas de quilómetros de Lisboa, não na raia profunda. É uma história sobre as funções que só cabem ao estado e que este escandalosamente não cumpre.

Duas bicicletas de miúdos com 10, 12 anos, deixadas na rua à porta de uma pequena biblioteca onde eles estavam, foram roubadas. É dia e é uma aldeia. Eles aperceberam-se muito pouco tempo depois, quinze minutos, no máximo meia hora e vão falar com a responsável da biblioteca a chorar. Esta contacta a polícia, neste caso a GNR. Hesitou, porque de há um ano para cá, todos os dias há nessa aldeia roubos, quase sempre pequenos roubos, há uma semana ovelhas, na anterior uma despensa de uma quinta, objectos diversos, bicicletas, dinheiro aos velhos, computadores, etc, etc. Hesitou porque de todas as vezes que foram feitas queixas nunca houve qualquer sequência, nem sequer a polícia veio interrogar quem fez a queixa. Zero, nada. As pessoas duvidam que valha a pena o trabalho e o risco. Mas fez. Pouco tempo depois chega um carro da GNR.

Os seus ocupantes assumem de imediato um tom agressivo com quem fez a queixa. Quem fez a queixa, não o podia fazer. Quem a podia fazer eram os pais das crianças, que choravam ao lado pela perda das bicicletas. "Novas" diziam um deles. Se se chamarem os pais podem fazer a queixa ali mesmo diante dos agentes da autoridade? Não, têm que ir ao posto presencialmente. O posto é a 15 quilómetros de distância e nem toda a gente tem carro e não há transportes públicos a não ser segunda-feira. Estamos num sábado. E não se pode fazer a queixa por e-mail, por telefone e depois autenticá-la? As pessoas pensavam que, a fazer-se alguma coisa pela GNR, ela devia ser urgente, dado que o roubo fora há muito pouco tempo. E acreditavam no Plano Tecnológico. Não, não podem, tem que ser presencial e parece que se for em e-mail ainda demora mais, o e-mail vai para o tribunal e só daqui a dias é que alguém faz alguma coisa. Não é tarde demais? Vocês não podem fazer alguma coisa, dar uma volta à aldeia? As respostas dos guardas sobem ainda mais de tom e agressividade: "Sabem quem roubou? Se não sabem, não podemos fazer nada! Acham que temos uns pózinhos de Perlimpimpim para descobrir quem rouba? " E pedem de modo intimidatório a identificação a quem fez a queixa mas não podia fazer a queixa. Todo o comportamento foi sempre de hostilidade para as vítimas e de indiferença para com o crime.

E depois foram-se embora. Deixaram atrás impotência e revolta. Certamente esta semana haverá mais roubos e carros de grande cilindrada estacionarão nos sítios do costume para o tráfico habitual. Nesta aldeia, na do lado, na de cima, é a mesma rotina. É exactamente por tudo isto que as estatísticas do crime são matéria de ficção.

*
1. O MAI decidiu positivamente não encerrar postos da GNR ou esquadras da PSP;

2. A decisão do MAI foi tomada há mais de seis meses e anunciada na Assembleia da República de forma repetida, bem como em diversas intervenções proferidas em cerimónias oficiais, tendo sido publicitada repetidamente por todos os órgãos de comunicação social;

3. O fundamento da decisão também explicitado em público é o policiamento de proximidade, que constitui o programa deste Governo e o modo entendido adequado para reforçar o sentimento de segurança e prevenir a criminalidade;

4. Aquando do anúncio da decisão de manutenção de postos e esquadras, a medida mereceu o apoio consensual de todos os partidos com assento na Assembleia da República;

5. A medida não revoga nenhuma outra decisão política anterior, visto que a matéria ainda não havia sido decidida pelo MAI em nenhuma outra circunstância.

(O Gabinete de Imprensa do MAI)

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EXTERIORES: CORES DO DIA DE HOJE

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Nascer do dia. (Ochoa)

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COISAS DA SÁBADO: O AVANTE QUE JÁ NÃO É CLANDESTINO



O PCP fez anos e deu um presente ao país: a colocação na Internet da colecção completa do Avante! clandestino. Fez ainda mais: trabalhou a colecção, indexou-a, e procurou tornar visíveis números que eram impressos em papel escuro que os tornavam quase impossíveis de reproduzir. É uma obra colossal de dedicação e esforço, um verdadeiro serviço público, que vamos ficar a dever a um partido político numa altura em que poucos cumprem funções cívicas. A importância do acto é muito relevante para toda a história do século XX que pura e simplesmente não se pode fazer sem o Avante!. E é também um acto com significado político: pela primeira vez, o PCP coloca à disposição de todos um aspecto relevante da sua história sem o censurar de tudo aquilo que entra em choque com a sua “história oficial”. Só existia um precedente, embora imperfeito, na edição do primeiro volume das obras escolhidas de Cunhal. Se o PCP continuar neste caminho, só merece incentivo e apoio.

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EARLY MORNING BLOGS


1249 - Funny -- to be a Century

Funny -- to be a Century --
And see the People -- going by --
I -- should die of the Oddity --
But then -- I'm not so staid -- as He --

He keeps His Secrets safely -- very --
Were He to tell -- extremely sorry
This Bashful Globe of Ours would be --
So dainty of Publicity --

(Emily Dickinson)

*

Bom dia!

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13.3.08


EXTERIORES: CORES DOS DIAS DE ONTEM E HOJE

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Aproximação para aterragem de emergência do avião paquistanês, quando cruzava a Estrada da Circunvalação. Tirada às 12h25.

(Paulo Loureiro)

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BIBLIOFILIA: TRADUÇÕES CORAJOSAS, EDIÇÕES CORAJOSAS



Dois portentos da tradução, da erudição, da edição. Livros muito difíceis, que não têm precedente na sua integralidade ou em português moderno (havia umas traduções parciais em prosa do Ariosto), que têm um infinito trabalho atrás deles. A Margarida Periquito devemos o Orlando Furioso e a Pedro Alves e Carlos Morujão, as Logische Untersuchungen. Não são para ler de fio a pavio, a não ser pelos especialistas, mas são maravilhas do pensar e da criação em cada página.

Husserl era onde acabava a filosofia quando eu era estudante e isso devia-se ao jesuíta Júlio Fragata e ao seu trabalho, que fizera saltar a filosofia ensinada de Descartes, Leibniz, Espinosa, para o início do século XX, apenas porque não se podia iludir na Faculdade de Letras do Porto o que ele tinha escrito e traduzido e tinha lá discípulos. Mas era mesmo saltar, porque se passava por cima de Hegel, à porta do qual acabava cronologicamente o programa de filosofia. Depois havia uns fragmentos de Teilhard de Chardin e de Merleau-Ponty, porque eram autores sobre os quais os professores da Faculdade tinham teses. Não era um programa coerente e fugia da contemporaneidade por razões óbvias. É bom voltar àquela coisa que só os alemães fazem, depois de Tomás de Aquino, até porque a língua ajuda, pensar milímetro a milímetro, palavra a palavra, com um fôlego de pensamento e rigor sem paralelo que faz obras como a Crítica da Razão Pura, a Fenomenologia de Espírito, estas Investigações Lógicas e o Ser e o Tempo, tirarem a respiração ao comum dos mortais.

E depois há o Furioso e aquele mundo de cavaleiros, homens e mulheres com uma nobreza muito especial, que devia vir dos primórdios, de batalhas, de amores, lealdades e traições que, junto com as gravuras de Doré, fazem um pleno de som e de fúria sem paralelo. Não admira que este mesmo mundo fizesse o Quixote ficar maluco. Com estas páginas também me candidato.

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SETAS, COR, FUNDAÇÃO E HISTÓRIA



Neste caso, Menezes apenas prosseguiu um caminho de descaracterização iniciado por outros. Começou na JSD, ainda no tempo de Cavaco, e, depois acelerou-se com Durão Barroso continuou com Marques Mendes. Menezes deu apenas mais um passo, ao substituir o laranja pelo azul no fundo. A cor laranja, sabemos por vários relatos, foi escolhida em 1974 porque não havia outra disponível, mas a verdade é que a cor ficou como um traço forte de identidade feito pela história do PSD. Se dissermos os "laranjas", os "laranjinhas", sabe-se que falamos do PSD, se dissermos os "vermelhos" é com o PCP. Os outros "vermelhos", os do PS e os azuis, ficaram sem identidade colorida.

Apagar a cor é um passo significativo à luz dos dias do presente, mas, do ponto de vista simbólico, para o PSD é mais importante o que se passa com as setas do que com a cor. A cor tem a ver com a história, as setas com a fundação, o acto genético que para bem e para mal, é a marca de fundo do PSD. Ora as setas são três e não uma, e a sua transformação numa única significa apagar da memória do partido de onde é que vieram estas setas e por que razão Sá Carneiro e os fundadores as escolheram como símbolo.


Desenho de Cid que estava no sítio do PSD.

A origem das setas é a resistência da Frente de Bronze, de que faziam parte os social-democratas alemães, contra o nazismo, e essa génese foi descrita num texto de Pedro Roseta. Os resistentes alemães usavam as três setas para estragar o efeito da cruz gamada, e isso vinha descrito num livro de culto que era lido pelos que tinham possibilidade de o ler, porque estava proibido pela censura antes do 25 de Abril. Esse livro de Tchakhotine, A Violação das Massas pela Propaganda Política, foi certamente a fonte do símbolo, como se pode ver na reprodução aqui ao lado de uma das gravuras do livro. As três setas eram de um modo geral desenhadas de cima para baixo (quando virei a bandeira do PSD estava mais perto do seu símbolo do que com esta coisa ...) e significavam por parte dos fundadores a procura de uma fonte de legitimidade política para o partido, que não tivesse uma raiz marxista (como no PCP e no PS), nem conservadora. Essa procura resultou num híbrido muito especial entre o personalismo cristão, o liberalismo político e a social-democracia. Esse híbrido foi feito pela história do PSD, o "programa não escrito", e cortar qualquer uma das suas componentes genéticas é alterar o carácter do partido. Pode parecer incómodo para muita gente que as três setas sejam as mesmas do cartaz do lado, mas a história é assim, é o que é, e deixa marcas. Sem as marcas, somos outra coisa. Fazê-lo por razões de marketing, imagem e publicidade, indo para a seta única, substituindo as "antiquadas" três setas, como o PS fez com o punho, e pintar o partido do estandardizado azul (na verdade o mesmo azul da CDU e pelas mesmas razões), significa ou ignorância, ou novo riquismo deslumbrado, ou as duas coisas. Não sei se foi esta "mudança de imagem", a da setinha rabiante, , que a Somague pagou ilegalmente ao PSD. Se foi, foi um bonito serviço.

Se querem modernizar as setas, são as três setas que têm que modernizar e não uma. Se querem des-laranjar o partido têm que encontrar melhores razões do que o marketing. Se querem fazer um "novo partido", deixem este aos que ainda são fiéis ao legado de Sá Carneiro.

*
Concordo inteiramente com a análise que faz no seu post "Setas, cor, fundação e história". É de facto preocupante como obscuras razões de marketing alteram precipitadamente os traços identitários de um partido como, no caso do PSD, as três setas e a cor laranja. Devo dizer que também nunca gostei da alteração do símbolo, efectuada já no tempo de Durão Barroso, e nem sequer me parece que essa alteração traga qualquer benefício em termos de imagem.

A alteração dos símbolos expressa quase sempre uma tentativa de romper com o passado de um partido, em ordem a criar nos eleitores a ideia de que nada se tem a ver com a prática anterior. António Guterres passou a usar a rosa em vez do punho, embora este se tenha mantido formalmente como símbolo do PS. Manuel Monteiro mudou o nome do CDS para Partido Popular e também fez alterações estilísticas ao símbolo, tendo Paulo Portas desfeito essa mudança quando assumiu a liderança, voltando a falar em CDS e a usar o símbolo anterior.

Diferente foi, no entanto, a atitude de Álvaro Cunhal. No dia em que Boris Ieltsin aboliu a bandeira comunista e a substituiu por aquela que tinha sido da Rússia czarista, lembro-me de ter visto Cunhal na televisão, filmado ao lado da bandeira do PCP, a dizer: "Nós não abdicamos da nossa bandeira". Embora nunca me tenha identificado com as suas ideias, acho esta atitude muito mais coerente.

(Luís Menezes Leitão)

*

Na verdade estamos perante um truque de ilusionismo. O que aqui se tenta é deviar o foco da atenção do manancial de críticas para um outro assunto que dá sempre polémica, a mudança de imagem. Na verdade nada mudou. O logotipo é igual ao que foi pago pela Somague. A aplicação de um fundo azul não pode ser considerada uma
mudança, é só uma aplicação do Logotipo, mas que em outras situações poderá ter outro fundo. Num cartaz branco o fundo será branco. É preciso que tudo mude para que tiudo fique na mesma. Mudança de logotipo foi a efectuada nos tempos do Menino Guerreiro, em que se escolheu um globo medonho por baixo do lettering PSD. Trabalho dos famosaos consultores importados cujo trabalho em termos de comunicação política ainda hoje é recordada com espanto.

(Manuel Soares de Oliveira)

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(...) Pessoa amiga sabendo do meu "defeito", chamou-me a atenção para o post de hoje "SETAS, COR, FUNDAÇÃO E HISTÓRIA" e sabendo a profunda admiração que tive e tenho por Francisco Sá Carneiro, permitiu-se a ousadia de me pedir um comentário ao que se está a passar, especialmente porque fui uma das pessoas que lhe emprestei o livro de Serguei Tchakhotine, A Violação das Massas pela Propaganda Política (que entretanto me desapareceu...).

Ora, a descaracterização do símbolo é o final de um percurso, já encetado por outros, para apagar memórias e simbolismos. (...)

(Otília Martel)

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Há qualquer coisa aqui na questão da seta que não anda a bater certo. Esta seta ontem apresentada nem sequer é nova. Ela apareceu no tempo do Dr. Durão Barroso e não tenho ideia de tamanhas reacções. Depois veio o logo das três setas do tempo de Santana a dar a volta ao mundo (terá sido este o da Somague?). Marques Mendes foi quem reabilitou as três setinhas arredondadas, que surgiram no cavaquismo e que por sua vez já tinham sido uma modernização das três setas iniciais, mais rectilíneas.
A seta continua laranja, a cor do PSD continua o laranja.

Concordo que deveriam permanecer as três, mas também lhe digo que, para mim, esteticamente, esta nova seta laranja em fundo azul fica muito, mas muito mais bonita e interessante que todos os anteriores logos, mas isso já é subjectivo e vale o que vale, ou seja, nada. Todos os partidos, sem excepção, fizeram modernizações dos seus logotipos. Todos. O PS passou do punho para a rosa, o PCP passou de letras brancas em fundo vermelho para letras vermelhas e o último P em verde sobre fundo branco, etc. etc. Ver nisto um renegar da história parece-me muito forçado e eu no seu lugar não ia por aí, principalmente porque este é o logotipo criado originalmente no tempo de Durão Barroso e não agora, ex novo. Esse logotipo que o Senhor está a usar no post como sendo de agora e supostamente pago pela somague não é o de agora, é o logo do tempo do Dr. Durão Barroso. (...)

(Luís Bastos)

*

É muito interessante esta prespectiva. Desconhecia em absoluto a história das setas do PSD, mas dá para constatar que é exactamente o mesmo que retirarem a foiçe e o martelo a um Partido Comunista. Mexer na identidade de um partido e nos seus simbolos tem sempre uma leitura política, parece-me que no essencial a sua leitura está acertada. Por outro lado, e a propósito do azul, acho interessante um dualismo particular entre os Estados Unidos e a Europa no que diz respeito às cores. Assim enquanto por cá a cor azul está normalmente associada aos partidos conservadores( o PP em Espanha, o RPR em França, a CDU na Alemanha ou os tories em Inglaterra são disso exemplo), e o vermelho à velha esquerda, na américa dá-se o inverso- e aos Repúblicanos está associado o vermelho, enquanto os democratas são blues. Nos últimos tempos contudo parece-me que se tem diluído papel da cor na simbologia agregadora de um partido político, por força das regras do Markting. Um partido demasiado identificado com uma cor ou com um campo deixa de poder cumprir devidamente o seu papel de Cacht All. É a vitória do centrismo e do mercado eleitoral sobre os valores- sem dúvida que o é, mas não vejo modo de mudar isso, porque implicaria mudar as regras do que é fazer política no século XXI. E de resto por cá, como bem assinalou, o PCP até "equipa" de azul... Não creio que a cor nos dias que correm tenha exactamente o mesmo peso que as setas, mas percebo a preocupação dos militantes do PSD. É que há sempre um fundo de sacralidade em qualquer simbolo.

(Pedro Pita Soares)

*

Permita-me que me pronuncie sobre o caso do símbolo, ainda que nunca tenha votado PSD. Analisando o evoluir dos símbolos, apreciei o seu artigo sobre o significado de setas censoras e das do PSD.

Vejo o novo enquadramento do símbolo do PSD como:

A aplicação de uma assinatura inclinada e de uma seta encurvada e desequilibrada (muito tronco para pouca base) num centro em forma de um duplo círculo, que parece aludir à dupla volta do símbolo @

Sobre este conjunto de signos publicitários ocorre-me o seguinte:

- embora apareça em fundo desmaiado e azulado, o duplo círculo é a forma que ressalta;

- nele, a simulação de um @ remete-nos para os símbolos e os ícones da Comunicação&Informação;

- sendo este tema-ícon mais actual do que a seta curva, a sobreposição obriga-nos a um ajuste permanente de significação;

- a assinatura inclinada corresponde a pretensiosismo, pelos dados da grafologia;

- o símbolo da seta pode ser perturbador, pelo desgaste que se adivinha na determinação que pretende sugerir;

- as setas não encurvam nem rabiam - esse é o movimento que esperamos encontrar nos espermatozóides;

- existindo setas antigas, mais valeria deixá-las como nasceram.

Diria, assim, que tal símbolo nos pretendem obrigar a esta leitura subliminar: Um pretensioso espermatozóide tenta brincar com o mundo digital.

(MJ)

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1248 - La Grenouille qui se veut faire aussi grosse que le Boeuf

Une Grenouille vit un boeuf
Qui lui sembla de belle taille.
Elle qui n'était pas grosse en tout comme un oeuf,

Envieuse s'étend, et s'enfle, et se travaille
Pour égaler l'animal en grosseur,
Disant: Regardez bien, ma soeur;

Est-ce assez? dites-moi; n'y suis-je point encore?
- Nenni. - M'y voici donc? - Point du tout. - M'y voilà?

- Vous n'en approchez point.
La chétive pécore

S'enfla si bien qu'elle creva.

Le monde est plein de gens qui ne sont pas plus sages:

Tout Bourgeois veut bâtir comme les grands Seigneurs,

Tout petit Prince a des Ambassadeurs,

Tout Marquis veut avoir des Pages.
(La Fontaine)

*
Bom dia!

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12.3.08


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1247 - Haveis, padre, de viir...

Começou o frade a dar lição d'esgrima com a espada e broquel, que eram d'esgrimir, e diz desta maneira:

FRADE

Deo gratias! Demos caçada! Pera sempre contra sus! Um fendente! Ora sus! Esta é a primeira levada. Alto! Levantai a espada! Talho largo, e um revés! E logo colher os pés, que todo o al no é nada!

Quando o recolher se tarda o ferir nom é prudente. Ora, sus! Mui largamente, cortai na segunda guarda! - Guarde-me Deus d'espingarda mais de homem denodado. Aqui estou tão bem guardado como a palhá n'albarda.

Saio com meia espada... Hou lá! Guardai as queixadas!

DIABO

Oh que valentes levadas!

FRADE

Ainda isto nom é nada... Demos outra vez caçada! Contra sus e um fendente, e, cortando largamente, eis aqui sexta feitada.

Daqui saio com üa guia e um revés da primeira: esta é a quinta verdadeira. - Oh! quantos daqui feria!... Padre que tal aprendia no Inferno há-de haver pingos?!... Ah! Nom praza a São Domingos com tanta descortesia!

Tornou a tomar a Moça pela mão, dizendo:

FRADE

Vamos à barca da Glória!

Começou o Frade a fazer o tordião e foram dançando até o batel do Anjo desta maneira:

FRADE

Ta-ra-ra-rai-rã; ta-ri-ri-ri-rã; rai-rai-rã; ta-ri-ri-rã; ta-ri-ri-rã. Huhá!

Deo gratias! Há lugar cá pera minha reverença? E a senhora Florença polo meu entrará lá!

PARVO

Andar, muitieramá! Furtaste esse trinchão, frade?

FRADE

Senhora, dá-me à vontade que este feito mal está.

Vamos onde havemos d'ir! Não praza a Deus coa a ribeira! Eu não vejo aqui maneira senão, enfim, concrudir.

DIABO

Haveis, padre, de viir.


(Gil Vicente)

*

Bom dia!

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11.3.08


A PURGA

Começou.

"A Comissão Permanente do PSD chamou hoje Rui Rio a prestar declarações ao Conselho de Jurisdição Nacional do partido e, face à promessa de demissão de António Capucho, agradeceu os serviços prestados pelo social-democrata."

Menezes que atacou publicamente Cavaco, Marcelo, Durão Barroso, e Marques Mendes, em literalmente centenas de entrevistas, artigos, declarações, num blogue escrito em seu nome por um assessor da CM Gaia, em comentários televisivos na SICN, em directos feitos de sua casa enquanto decorriam Congressos do PSD em que não estava, e nalguns livros, quer intimidar e varrer do partido os seus críticos internos.

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EARLY MORNING BLOGS


1246 - a total stranger one black day

a total stranger one black day
knocked living the hell out of me--

who found forgiveness hard because
my(as it happened)self he was

-but now that fiend and i are such
immortal friends the other's each

(e.e. cummings)

*

Bom dia!

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RETRATOS DO TRABALHO



Patrulha da noite.





Trabalhos. (Ochoa)



Polícias em Florença. (Pedro Oliveira)



Pastor no Caramulo. (João P. Craveiro)

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10.3.08


LENDO
VENDO
OUVINDO
ÁTOMOS E BITS

de 10 de Março de 2008


O debate do Prós e Contras sobre a monarquia está dominado por comparações por analogia, enquanto que as únicas comparações que têm sentido são por homologia. No fundo, estamos a discutir uma espécie de Genética Transcendental, não é verdade? É que os dinossauros são homologamente muito próximos, muito próximos mesmo, das galinhas.

*
Não sei se foi informado ou reparou que estamos a meio do maior eclípse dos últimos séculos. O país está há já quase 24 horas eclipsado pelo problema do treinador do Benfica. Isto ainda não é bem uma Twilight Zone, mas já lá estamos muito perto.

(Paulo Loureiro)
De facto, já tinha visto a poderosa sombra a estender-se desde ontem até aos noticiários das 13 horas de hoje e presumo que vai continuar logo à noite. Em matéria de escapismo, somos campeões europeus.

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BIBLIOFILIA: GRANDES CAPAS



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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: AS RAZÕES DOS PROFESSORES



Muitas colaborações, críticas e notas têm chegado sobre as razões dos professores e a manifestação de anteontem, fazendo referência ou não aos textos do Abrupto. Aqui ficam algumas registadas, para memória futura destes tempos portugueses de Março de 2008.

(...) Antes de mais, convém perceber que a revolta dos professores não é de agora e tem que ver com muitos mais factores do que a Avaliação de Desempenho. De facto, há muito que se sentia entre os professores um mal-estar latente. Note-se que foi com este Ministério da Educação que, entre outras medidas, os professores passaram a ter um horário na escola mais alargado, as progressões na carreira congeladas, a idade da reforma adiada para os 65 anos, aulas de apoio e de substituição por sua conta e um regime de faltas e de interrupções lectivas muito mais apertado. Tudo isto medidas que, independentemente da sua justiça e urgência, infligiram aos professores perdas nos seus direitos outrora adquiridos.

Claro que, por si só, estas medidas não eram justificativas de grandes contestações, mas somadas, uma após outra, foram mais do que suficientes para que a classe docente se sentisse ferida e perdesse a confiança no Ministério de Educação. À custa disso, os sindicatos reforçaram o seu papel junto da classe docente e tornaram-se os principais, senão únicos, fazedores de opinião credível entre os professores, adoptando uma postura de clara oposição a tudo o que emanava do gabinete da Ministra. Está bom de ver que, a partir daqui, só faltava uma boa desculpa para que a bolha da insatisfação explodisse para fora das escolas.

Os sindicatos quando pegaram na questão da Avaliação do Desempenho dos Professores fizeram-no com óbvia má fé, fazendo crer que o que aí vinha iria tornar a vida dos professores no inferno, impossibilitando que qualquer professor subisse na carreira. Os professores, completamente manietados e acríticos, nem se deram ao trabalho de ler a legislação e de dar o benefício da dúvida ao Ministério da Educação em algo que, não sendo perfeito, é mais do que necessário e justo fazer. Afinal, a sua posição há muito que estava tomada.

João Filipe Marques Narciso (Professor de Matemática do 3º Ciclo e Secundário)

*

Sou um dos muitos milhares de professores que desceram da Avenida da Liberdade até ao Terreiro do Paço no último sábado. Sou um dos muitos milhares de professores em luta e de luto pela Escola Pública de Massas que os modelos mercantilistas e a excessiva regulamentação centralizadora têm vindo a pôr em causa. Sou um dos muitos milhares de professores que sabe muito bem porque não quer estas políticas. Mas também sou um dos que procura discutir e debater propostas alternativas.


Por isso faço parte de um dos grupos de reflexão da Associação de Professores e Educadores em Defesa do Ensino - APEDE, recentemente criada e que se fez representar também na manifestação de dia 8. Uma vez que ainda não nos é possível um acesso regular aos mídia, (...) aproveito para dar a conhecer um texto resposta a um dos opinion makers que prima pelo alinhamento governamental:
O Centralismo “democrático” e o Mercado

Os modos de regulação das políticas públicas têm vindo a alterar-se nas últimas décadas. Como é natural as políticas públicas de educação não poderiam de forma alguma ficar de fora desse movimento.

No entanto, não deixa de ser curioso constatar que algumas pessoas que têm uma aura de intelectualidade reconhecida e aparentemente honesta se deixem embrulhar pela espuma desta onda de mudanças, ao ponto de, perdendo o Norte, defenderem hoje o oposto do que defenderam toda a vida e em nome dos mesmos princípios.

Um desses casos é o de Vital Moreira que consegue, num artigo publicado na Net, defender o mercado e a mercantilização da Escola Pública, afirmando-se defensor dos princípios de igualdade, desenvolvimento e mobilidade social que apenas a Escola de Massas pode garantir.

Se o “professor” fizesse um esforço para não esquecer a História da Escola de Massas, recordar-se-ia que a estratégia desde sempre seguida pelo Estado foi a de realizar alianças preferênciais, excluindo da regulação da Escola Pública os parceiros que definiu como incómodos em cada momento histórico.

Se é verdade que assiste razão aos pais e à comunidade em geral, no que toca à sua exclusão da participação na regulação da educação, a responsabilidade desse facto não pode ser assacada aos professores mas sim ao Estado, que tradicionalmente utilizou o saber destes profissionais para estabelecer uma regulação burocrático-profissional centralizada.

Numa altura em que é manifestamente difícil para o Estado manter o controle centralizado das suas políticas e porque receia que o saber dos profissionais lhes garanta a autonomia que possa ser usada em associação directa com as comunidades, resta a esse Estado centralista e centralizador a promoção de uma aliança privilegiada com os pais, enveredando por soluções de quase mercado. Para isso torna-se imprescindível diabolizar o anterior aliado, o saber dos profissionais, através de acusações de incompetência, defesa de interesses meramente corporativos, ou controle e instrumentalização partidária. E nesses truques totalitários, o “professor” é pessoa experimentada e com provas dadas.
Francisco José Santana Nunes dos Santos, Professor Titular do Ensino Básico
(a quem a avaliação não afecta em termos de progressão na carreira)

*

Os desvaloriza... dores

Tenho, nos meus arquivos, uma grande colecção de recortes da imprensa, aos pares, que são do seguinte teor:

«Tribunal Constitucional arrasa contas dos partidos» / «Partidos desvalorizam (...)»;
«Tribunal de Contas arrasa empreitadas públicas» / «Governo desvaloriza (...)»;
«DECO arrasa serviços dos CTT» / «Administração dos CTT desvaloriza (...)»;
«OCDE arrasa (...)» / «Governo desvaloriza (...)».
«Adeptos do (...) provocam distúrbios» / «Presidente do (...) desvaloriza (...)»

E por aí fora, a que se juntam muitas outras "desvalorizações", não aos pares, mas igualmente bizarras, como a do Ministro das Finanças que "desvaloriza" o facto de o Estado deixar prescrever dívidas fiscais no valor de quase 800 milhões de euros, a do Ministro da Administração Interna que "desvaloriza" a onda de criminalidade, etc. etc.

Agora foi a vez de a Ministra da Educação e de José Sócrates "desvalorizarem" o gigantesco protesto dos professores.

Bem... cada um lá sabe de si. Mas o que pensaríamos de alguém a quem fossem avisar que tinha a casa a arder e que, com um ar de superioridade, "desvalorizasse" a informação?

(C. Medina Ribeiro)

*

No caso da avaliação dos professores, tem-se utilizado o argumento de que em 100% de funcionários da Administração Pública (AP), cerca de 30% são professores que escapam às virtudes empresariais do tipo de avaliação imposta aos restantes.

A matriz desta avaliação dos funcionários da AP existe desde 1982 e, até 2003, era aplicada como indicador de qualidade, empenho e eficácia.

Todavia, tendo-a utilizado, considero que não existiam na AP metodologias de organização, parcial e comparada, para que essa avaliação cumprisse o seu objectivo.

Embora, em teoria, admitisse uma acareação entre o dirigente que classificava e o funcionário classificado, prestava-se a desmandos.

Quer do dirigente directo do funcionário, quer do dirigente desse dirigente, quer do superior dirigente que avalizava a operação.

Prestava-se também, entre outros vícios, ao de pretender avaliar desempenhos em Serviços dependentes de Direcções subjugadas por uma ausente ou negligente orientação política. E ao de, de modo ínvio, se permitir avaliar funcionários pelo desempenho do respectivo Serviço, onde as chefias não era avaliadas.

A partir de 2003, nesta avaliação deficiente, embora aceite como justa, acrescentou-se explicitamente o critério – até aí implícito – do numerus clausus

Uma solução simplista usando um critério exclusivamente economicista para a redução da despesa da AP.

Será que, aceitando a figura da avaliação, queremos para os professores avaliações deste tipo?

Onde um Muito bom, com a aplicação dos numerus clausus acaba num Bom?

Ou, ainda pior, avaliações em que técnicos altamente qualificados sejam testados por principiantes ou por técnicos de outras áreas?

Teremos que aguentar tanta falta de rigor numa área tão científica?

(MJ)

*

1- A educação em Portugal é um dos problemas mais preocupantes do país pelos reflexos a médio e longo prazo que originarão; O FALHANÇO DA EDUCAÇÃO é uma espécie de bomba relógio que irá rebentar nas gerações vindouras. Ao contrário de outros sectores, os “buracos” na formação não se remedeiam com novas medidas. Em muitos casos o processo não será reversível­­­.

2- O investimento público na Educação é muito elevado, e não são aceitáveis as crónicas desculpas da falta de meios. A invasão do aparelho do ME por gente “especialista na educação” em que os fins se esgotam nos meios, é um flagelo só comparável à filoxera que dizimou os vinhedos do alto Douro

3- A actual equipa ministerial atacou alguns problemas importantes: escolas sem alunos, aumento de permanecia na escola no básico, aulas de substituição..Fê-lo porém de uma forma agressiva, em que desde inicio colocou os professores, não apenas os maus professores, como vilões a abater.

4- Os sindicatos, como vem sendo hábito, estiveram sempre na defesa do patamar anterior e contribuíram para que a opinião pública julgasse a posição dos professores como mera defesa corporativa de privilégios adquiridos.

5- A ministra fala em intenções louváveis, que quase toda a gente subscreve. Onde está então o problema? Simplesmente na implementação concreta de tais intenções.

6- Quando publicamente se defende a inclusão, o rigor e a aprendizagem mas as direcções regionais tentam impor até ao limite que, por exemplo alunos dos Cursos de Educação Formação que entrem, têm de sair com um diploma (falo em casos concretos devidamente testemunhados), que podemos concluir da veracidade do discurso?

7- Quando se pretende que os alunos superem a má preparação mas ao consultar a Lei n.º 3/2008 se verifica que no artigo 22 (Estatuto do Aluno) que os alunos faltosos sem justificação, tenham direito a prova especial, se falharem terão explicações especiais e se voltarem a falhar então terá de reunir o conselho de turma para ponderar o que fazer, começaremos a perceber que o sinal dado é o do mais completo laxismo para o qual haverá sempre uma recompensa.

8- Quando o aumento de tempo de permanência das escolas é totalmente absorvido a realizar esquemas de ensino, fichas das mais variados formatos e inúteis banalidades, tudo para encenar uma representação burocrática na qual os alunos em nada são beneficiados, então verificamos que algo difere profundamente entre o discurso e a prática.

9- Quando verificamos que professores no topo da carreira estão contra o processo de avaliação então o melhor é ver quais os parâmetros que vão ser contabilizados, o seu peso e significado. Descobriremos então que essa espécie de avaliação mais uma vez privilegia a burocracia e não a qualidade do ensino.

10- Quando verificamos que alguns alunos dos Cursos de Educação Formação que mal sabem escrever, mas que estão a ser integrados ficando com um título qualquer (técnico de jardinagem por exemplo), passam a ser considerados como tendo o 9º ano e assim podem progredir nos estudos sem qualquer formação complementar, concluímos que não se está a trabalhar para o futuro do país mas apenas para falsas estatísticas de sucesso.

11- Finalmente o resultado de tudo isso é uma gigantesca fraude em que os resultados de sucesso das estatísticas representam o mesmo que os resultados eleitorais das ditaduras: são inevitavelmente excelentes. Claro que uma reportagem televisiva sobre um país sujeito a uma ditadura pode conduzir-nos facilmente as mais disparatada conclusões. Claro que em cima de tudo isto há muito ruído de fundo; claro que há professores incompetentes que pretendem que a antiguidade continue a ser um posto; claro que a avaliação é apenas uma gota de água que fez transbordar o copo.

12- Finalmente COMO SE EXPLICA QUE NÃO POSSAM EXISTIR MULTIPLAS E FUNDAS CAUSA QUE LEVAM A QUE NUM PAÍS ONDE FREQUENTEMENTE 40% NÃO VAI AO FUNDO DA RUA PARA VOTAR, E AGORA UMA PERCENTAGEM MAIOR SE DESLOQUE CENTENAS DE KM PARA MANIFESTAR A SUA REVOLTA?

13- Não podemos confundir a realidade com a ficção nem procurar vislumbrá-la em espelhos distorcidos que se chamam sindicatos. Nem sempre as aparências permitem tirar conclusões certas nem é óbvio que uma bigorna e uma pena de galinha sejam atraídas de forma idêntica para o centro da terra.

(José Cavalheiro)

*

Vários Professores foram fotografados, em grupo e individualmente, por "fotógrafos", não identificados e não autorizados. Escolas foram visitadas, professores foram questionados, "por razões de segurança". Vinte autocarros, vindos de Viana do Castelo foram impedidos, na estação de serviço de Aveiras, de continuar viagem em direcção a Lisboa, supostamente por alguns docentes vagarem de pé. Ao nível da segurança rodoviária é muito grave, ao nível da motivação em participar na manifestação, é único, ao nível do impedimento de prosseguir viagem... . Permita-se a pergunta. As forças policiais acompanharam os trajectos das centenas e autocarros, repentinamente apercebem-se que nos autocarros originários de Viana há Professores em pé. Porquê, apenas em Aveiras? Existem claques organizadas que não são objecto de tão apartado controlo. Suponho que terá sido por razões de segurança que "instituições", como a PIDE-DGS foram constutuídas. Por último, devo relevar o facto de ter recebido profundo apoio de vários agentes de autoridade que observavam uma manifestação de professores em determinada cidade. Aos mesmos agradeço, não revelando o nome da cidade, por razões óbvias. Devo referir o quanto emocionante foi sentir e ouvir o aplauso de pessoas anónomas, pais e alunos ao longo da AVENIDA DA LIERDADE. A todos, um OBRIGADO do tamanho do MUNDO.

(Z)

*

(...) Contudo quanto à avaliação dos professores, penso que a haver mito, é o mito de que agora a avaliação vai ser feita com rigor e tendo em conta a excelência. Os comentários que aparecem no seu blogue disso são ilustrativos.

A avaliação anterior, que existia, contrariamente ao que afirma no seu texto, não funcionava por várias razões, nem todas imputáveis aos professores.

As acções de formação disponíveis, acreditadas pelas estruturas do Ministério da Educação eram por vezes de uma pobreza confrangedora e desfasadas das necessidades do sistema educativo. Cheguei a ouvir falar em viagens de teor turístico a darem créditos. Quem teria cometido a barbaridade de as acreditar?!. Se essas acções davam os famosos créditos que permitiam a transição de escalão, deveriam ser os professores a auto-disciplinarem para não se aproveitarem do sistema?!

As Escolas Superiores de Educação inicialmente criadas para a formação contínua dos professores foram reconvertidas em instituições de formação inicial (formação 2 em 1, aliás, mas isso é outro assunto), passando a formação contínua a ser um nicho muito restrito.

A qualidade dos formadores, acreditados também pelo sistema, era frequentemente dúbia, para não repetir confrangedora.

Muitos de nós, professores, criticávamos este sistema. Pela minha parte obtive os meus créditos com duas formações especializadas em Educação Especial (efectivei-me tarde na carreira, motivo pelo qual só tardiamente comecei a transitar de escalão e só aí precisando de créditos). Por fim, obtive uma terceira pós graduação, que agora de nada me serve, pela obtenção da parte curricular de um mestrado sobre relação pedagógica. Ficou congelada, como tudo o resto. E agora, fico a aguardar ser avaliada por um coordenador que nada tem a ver com a minha área de docência (Educação Especial) e que já informou que uns colegas a quem atribuiu a tarefa de elaborar um documento para o departamento, deveriam posteriormente ser recompensados na avaliação por terem tido mais trabalho do que os outros...

Senti-me aluna da primária novamente. Será isso a excelência?

Conceição Faustino (Leiria)

*

Há realmente muitos mitos a respeito da Escola, dos Professores e mesmo da sua dignidade profissional. Tenho acompanhado com alguma assiduidade a sua opinião sobre a postura deste Ministério da Educação. Parece-me, repito: parece-me, que a sua posição política ou "opinion maker", radica em muitas contradições. Desde logo, e a principal, o desconhecimento quase absoluto como funcionam as Escolas públicas portuguesas. E construindo uma opinião sobre o desconhecimento deste mecanismo, é pura e simplesmente opinar gratuitamente e, errar. Vou enunciar-lhe algumas inverdades, deturpações ou o que queiram chamar. Desde logo a questão da avaliação: Desde o ministro Roberto Carneiro que os Professores são avaliados, sob vários parâmetros. Mediante inspecções técnicas, mediante a apresentação de relatórios críticos periódicos sobre a sua actividade (com avaliadores) e mediante a frequência de cursos de formação contínua, igualmente com avaliação dos formandos e mesmo sem ninguém referir isso, os formadores também eram avaliados. Milhares de Professores completaram a sua formação académica com o grau de licenciatura, durante dois anos escolares nas mais insuspeitas Universidades deste país, a expensas suas, sacrificando as suas vidas familiares e melhorando as suas qualificações técnicas. Milhares de Professores continuaram a melhorar as suas qualificações académicas obtendo mestrados, a expensas suas, prejudicando as suas vidas familiares. É evidente, que estes milhares de professores o fizeram com ética e sujeitos a avaliações rigorosas, em pé de igualdade com os restantes alunos universitários. Não acha uma inverdade que os professores não eram avaliados, escrutinados e mesmo repreendidos?

Depois, há sempre os homens e as mulheres detentores de toda a sabedoria, que não imaginam o que vai acontecendo em cada célula educativa deste país. Sentados nos seus pedestais de Lisboa anos a fio, ignoram, ou pior, não se interessam pelas condições atrozes que muitos profissionais e respectivos educandos suportam. Escolas com salas frígidas de Inverno e fornalhas autênticas nos meses de Primavera e Verão. Escolas sem apetrechamento pedagógico mínimo. Escolas a funcionar em condições de insegurança incríveis; Espanto-me como a ASAE ainda não vislumbrou esta realidade. Escolas sem funcionários a tempo inteiro e em quantidade minimamente aceitável. Escolas com orçamentos ridículos, limitadores de qualquer veleidade pedagógica. Abominável então, é ter a "lata" de pedir a esses mesmos professores que improvisem, desencantem soluções milagrosas, que não estão na alçada da sua responsabilidade. Professores que pagam do seu bolso materiais para crianças desfavorecidas, que pagam do seu bolso imensos materiais de trabalho e manutenção das escolas. Uma infindável lista de injustiças que se arremetem contra os docentes. É por isso que estes ficaram fartos e diria, completamente desmotivados.

O verdadeiro problema da Manifestação de 8 de Março de 2008, não é o que a comunicação social, os comentadores políticos e o Governo querem fazer crer. Não. O verdadeiro problema, é que a Escola pública é um conjunto de situações alarmantes para a prática educativa, é uma montanha de burocracia que atafulha qualquer professor e o desvia sistematicamente do seu papel. É a falsidade do seu horário real que nada tem a ver com o seu horário laboral legal. Nenhum professor deste país cumpriria a sua função com rigor e autenticidade, se nada mais fizesse para além das 7 horas legais que lhes estão atribuídas. E não estão obrigados a mais, note-se.

São estas as questões que ficam sempre por dizer, debater e resolver. Tudo se ilude com ideias que aparentemente parecem atormentar os professores. Mas desvalorizam o que fundamentalmente continua por resolver há décadas. Porque custa muito dinheiro. Porque é invisível e não ganha votos!

Perguntava-se a uma criança ou jovem de tenra idade, o que gostaria de ser em adulto. A primeira opção que então surgia, era ser professor(a). Tenho colocado esta questão, nos últimos anos, a dezenas de crianças e jovens. Nunca aparece a opção professor. Porquê? Afinal o que mudou? O acesso à informação é muito valioso.

Tenho dois filhos e sou viúvo há vários anos. Como fiquei com a responsabilidade de os educar, tive o bom senso de os convencer a retirar-se desse caminho, que só traria incomodidade e tristeza. Muitas vezes lhes referi: prefiro ver-vos a servir numa mesa de café (sem desprimor), que ver-vos suportar o que suportei e continuo a suportar. Não vale a pena. Mesmo que a alma seja do tamanho do universo.

Este será o futuro de Portugal. Uma Escola pública sem qualidade, servida por quem não terá a qualidade necessária para erguer este país do marasmo. Já há indícios dessa degradação. Será a grande oportunidade para o serviço privado. Não haja ilusões.

Tanta propaganda falsa e atabalhoada para iludir quem porventura tem mais que fazer na vida. Permita dar um exemplo: Os números do insucesso escolar. Claro que vão baixar exponencialmente. Veja-se. Um Agrupamento estabeleceu como média de insucesso (verificando os resultados escolar anteriores) nas diversas áreas curriculares entre 1 a 3% da totalidade dos alunos (sem valorizar as realidades próprias de cada unidade). Se um professor, ao leccionar uma turma composta por 20 alunos, tiver a infelicidade de cotar 2 alunos com notas negativas (ou mesmo um!) já leva com o "casqueiro" da avaliação! Dois alunos em 20, corresponde a 10%. Se a média nem a 5% chega, é fácil deduzir o que virá a seguir. Isto é o que ninguém quer explicar, e por isso se adivinham baixíssimas taxas de insucesso. Artificialmente. Questiono: qual o Encarregado de Educação, que se irá incomodar pelo facto do seu educando transitar sempre de ano, ciclo. Irá solicitar ao Professor que não concorda, que o seu educando deve reprovar? Alguém vai acreditar nisto?

Termino, repetindo o que Jesus em vida, disse, ao insurgir-se contra o apedrejamento de uma meretriz: "Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra". Anda para aí muita gente a atirar pedras injustamente, cujos alvos são errados, estando as suas vidas , provavelmente, repletas de contradições e imoralidades.

(VL)

*

Na reportagem que a SIC fez sobre a grande manifestação de professores que aconteceu ontem, em Lisboa, e que reuniu cerca de cem mil professores descontentes com as políticas deste governo para a educação, foram dadas oportunidades a alguns manifestantes para colocarem questões à Senhora Ministra da Educação. Infelizmente não tive oportunidade de colocar nenhuma, se tivesse colocaria as seguintes: a Senhora Ministra enquanto professora universitária foi avaliada pelos resultados dos seus alunos? O que pensa a Senhora Ministra do alargamento de um sistema de avaliação de docentes com base no desempenho de alunos ao Ensino Superior? E da ideia dos Encarregados de Educação dos alunos do Ensino Superior, que são os próprios alunos, avaliarem o desempenho dos professores? Será que um sistema de avaliação de docentes que se alicerce em parte nos resultados dos alunos poderá de alguma maneira não interferir nesses mesmo resultados? Poderá de alguma forma um sistema desta natureza contribuir para a qualidade do ensino em Portugal??

(J.J. Nunes)


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EARLY MORNING BLOGS


1245 - Lowly Laureate

O Sacred Muse, my lyre excuse! -
My verse is vagrant singing;
Rhyme I invoke for simple folk
Of penny-wise upbringing:
For Grannies grey to paste away
Within an album cover;
For maids in class to primly pass,
And lads to linger over.

I take the clay of every day
And mould it in my fashion;
I seek to trace the commonplace
With humor and compassion.
Of earth am I, and meekly try
To be supremely human:
To please, I plan, the little man,
And win the little women.

No evil theme shall daunt my dream
Of fellow-love and pity;
I tune my lute to prostitute,
To priest I pipe my ditty.
Through gutter-grime be in my rhyme,
I bow to altars holy. . . .
Lord, humble me, so I may be
A Laureate of the Lowly.

(Robert William Service)

*

Bom dia!

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9.3.08

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EXTERIORES: CORES DA RUA DE ONTEM

Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver




(Vitor Ribeiro)







Presença da Escola Secundária da Amadora. (Ana Mendes da Silva)

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EXTERIORES: CORES DO DIA DE HOJE

Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver





Ria de Aveiro, hoje de manhã. (José Carlos Santos)

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ALGUNS MITOS CORRENTES SOBRE A LUTA DOS PROFESSORES (2)



O mito de que os professores "querem ser avaliados", repetido à saciedade pelos órgãos de comunicação social, assenta no facto de os professores dizerem que "querem ser avaliados". No contexto actual não podiam dizer outra coisa, porque dizerem que não queriam ser avaliados daria uma imagem de privilégio e de fuga às responsabilidades. Há no entanto professores que dizem uma coisa diferente, com menos sucesso comunicacional: a de "que já são avaliados", ou de que "foram sempre avaliados", o que são maneiras distintas de falar da avaliação, com implicações diferentes. Mas estas últimas fórmulas não têm o sucesso da que "querem ser avaliados".

Ora qualquer estudo sobre o comportamento de grupos profissionais funcionalizados e sobre sociologia das organizações dirá que ninguém (ou a maioria) alguma vez desejará substituir um sistema de progressão na carreira sem riscos (como a antiguidade) por outro que contenha riscos, que implique provas, exames, controlo pelos pares, hierarquia. Numa profissão só uma pequena minoria pode desejar a avaliação com risco se isso significar melhores condições de trabalho e melhores salários. Essa minoria é normalmente mal vista pela maioria. Quando se aplicou o sistema Taylor nas fábricas, os operários que aceleravam os ritmos de trabalho eram mal vistos (e às vezes espancados) porque mostravam que um parafuso podia ser feito com muito menos tempo do que a média de tempo usada pela maioria. Foi essa minoria que, ao ser alienada pela ministra, pela forma como foi feito o concurso para professores titulares, criou o vazio existente.

E como não é uma minoria a que esteve na rua, convinha não repetir aquilo que não é mais do que um slogan útil: a de que "os professores querem avaliação". Se fosse possível fazer uma experiência mental, um Gedankenexperiment, colocando urnas para voto secreto e vinculativo nas escolas com a pergunta se os professores querem continuar como estão, ou ser avaliados, alguém duvida da resposta maioritária? Teria é que ser vinculativo para ser a sério e não uma opinião politicamente correcta.

*
Da minha experiência profissional de vinte anos de docência, creio que um número muito considerável de professores responderia, como eu, que quer mecanismos justos e imparciais de avaliação, com efeitos na progressão na carreira.

É um lugar-comum afirmar que, em todas as classes profissionais, há boas e más práticas dos trabalhadores. No ensino, independentemente da prestação e do investimento pessoal em formação continuada, os efeitos eram idênticos. Acontece que algo de semelhante vai continuar a acontecer. Veja-se as injustiças ocasionadas pelo concurso para professor titular.

O que me parece perverso em todos este processo é a ideia, que está a passar, de que tudo vai ser resolvido com o novo sistema. Concordo com algumas das mudanças introduzidas (nomeadamente, com as aulas de substituição) mas parece-me que, quem trabalhava conscienciosamente, está agora esmagado com o acréscimo, muitas vezes inútil, de tarefas. Quem sempre trabalhou pouco, acaba(rá) por encontrar mecanismos de fuga. Se os professores empenhados narrassem o seu quotidiano profissional, ver-se-ia que dão à escola e, sobretudo, aos seus alunos, bem mais do que aquilo que está previsto na lei. Tem de ser assim, lidamos com seres humanos.

Não é fácil pôr a funcionar um sistema de avaliação de desempenho de uma classe profissional com a especificidade da da docência. Mas parece-me fundamental, em todo este processo, ver como estão a funcionar as instituições que deveriam articular o seu trabalho com o das escolas. A população escolar portuguesa mudou de tal forma, nos últimos anos, que é impossível esperar que sejam os professores a resolver problemas gravíssimos com que se deparam, todos os dias, e que obstam ao sucesso dos alunos.

Recordo um texto de Eduardo Prado Coelho, onde ele dizia que um professor precisa de ler, de ir ao teatro e ao cinema, de visitar exposições... Já nem ouso almejar tanto! Gostaria, pelo menos, de ter tempo para preparar as aulas. O que se torna difícil, quando se passa cerca de 12 horas numa escola...

Estas linhas - um tanto ou quanto desalinhadas! - não dizem nada de novo e poderiam, decerto, ser subscritas por muitos colegas meus. Não quis desfiar um rol de queixas. Foi apenas um desabafo, antes de voltar a mergulhar nas largas dezenas de provas que tenho de corrigir, hoje, domingo, dia de descanso para tantos mortais.

(Paula Figueiredo)
*

(...) Sou professor do Ensino Secundário de História, tenho um Mestrado e um Doutoramento (tirados no ISCTE) em História Contemporânea, ou seja, sou doutorado na área científica em que sou docente, mas vou ser avaliado (de acordo com as grelhas) científico-pedagógicamente na minha área de docência por um Licenciado em geografia (Coordenador de Departamento), e vou ser também avaliado pelo Presidente do Conselho Executivo, neste caso um bacharel em fim de carreira!!

Portanto, em termos académicos o Estado Português confere-me um alto grau de competência científica, grau esse que utilizo para a área de docência, depois este mesmo Estado, obriga-me a ser avaliado na minha área de docência por um Licenciado em Geografia e por um Bacharel!!! (...) acha mesmo isto correcto?? É razoável??

Pois olhe meu caro amigo isto para mim é humilhante…. Não lhe desejo que estes laivos ditatoriais e humilhantes lhe cheguem à sua porta….. Mas já sabe como é a História da Humanidade, pensamos sempre que estes males nunca chegam a nós…… mas podem chegar….

(Pedro Brandão)

*

Não tenho dúvida que se fosse possível fazer a tal gedankensexperiment, livre do politicamente correcto, a resposta maioritária seria não à avaliação. De resto, o mesmo aconteceria em qualquer grupo profissional, posto perante tal alternativa. Os professores não têm evidentemente o exclusivo de um certo tipo de atitude mental, ideia que às vezes quem manda quer deixar passar. Muitos dos que, sendo oriundos de outros grupos profissionais com avaliação desde sempre, atiram à cara dos professores o facto de terem progredido na carreira até hoje sem avaliação digna desse nome, são mais movidos pela inveja pura e dura do que pela consciência de que é dever de todos prestar contas pelo seu trabalho. Defendo há muito que a profissão docente precisa de regulação. Há pessoas lado a lado a trabalhar com diferenças de qualidade e empenho incríveis, sem que isso tenha qualquer espécie de reconhecimento, o que é evidentemente uma injustiça. Mas com este modelo de avaliação, não me parece que isso seja possível. É pena!

(Margarida Oliveira)

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