| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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17.6.06
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NUNCA É TARDE PARA APRENDER OU " EU BEM SABIA QUE DEVIA HAVER ALGO DE DEMONÍACO NOS TELEMÓVEIS"
Stephen King, Cell. . . .. . .. . . . . . . O fim do mundo chega pelos telemóveis. (url) LUIS FILIPE CASTRO MENDES - PORTUGAL E O BRASIL : ATRIBULAÇÕES DE DUAS IDENTIDADES ![]() Como foi que temperaste, Portugal, meu avôzinho, Esse gosto misturado De saudade e de carinho? MANUEL BANDEIRA Numa terra radiosa vive um povo triste. Legaram-lhe essa melancolia os descobridores que a revelaram ao mundo e a povoaram. PAULO PRADO I DA INFELICIDADE DE SER IBÉRICO… Um preconceito histórico, persistente no nosso universo cultural desde o Século das Luzes, enfatiza o atraso e a barbárie dos desgraçados povos ibéricos, afastados pelo obscurantismo político e religioso das luzes da civilização, um degrau apenas acima dos mouros e dos cafres, culpados de não serem protestantes, norte-europeus e, consequentemente, trabalhadores, individualistas e empreendedores. Durante os séculos XVIII e XIX, Portugal e a Espanha são vistos pelo mundo civilizado (isto é, o mundo organizado conforme os interesses das potências dominantes) como qualquer coisa de intermédio entre a civilização e o exotismo, não tão estranhos que coubessem nos estudos dos orientalistas, mas suficientemente bizarros para despertarem a ironia superior dos viajantes e o fascínio erótico dos poetas e novelistas. Ironia da História: esta unidade de destino entre portugueses e espanhóis decorre mais da rejeição de que os dois países foram alvo por parte dos novos centros de poder mundial emergentes no limiar da modernidade, isto é, no fim da idade barroca, do que de uma real identidade de projectos históricos. No século XVI, portugueses e espanhóis, ciosos das suas soberanias e rivais na expansão marítima, sentiam-se, não obstante, partilhar uma cultura comum. Mas esta identidade cultural ibérica, bem visível em Gil Vicente ou Camões, quebrou-se no século XVII, com a tentativa filipina de unificação política sob hegemonia castelhana, que veio determinar um persistente divórcio político e cultural entre os dois países, de que só hoje começamos, felizmente, a sair. Eduardo Lourenço, no seu ensaio Nós e a Europa ou as Duas Razões, contrapõe à razão cartesiana, que funda a nossa modernidade, uma outra razão, ibérica, contra-reformista, barroca, de que o expoente seria Gracián, o da Agudeza e Arte de Engenho. Nessa razão barroca participaram espanhóis e portugueses, mas também o que, a partir dos espanhóis e dos portugueses, se formava do outro lado do Atlântico: não são Sor Juana Inés de la Cruz e o Padre António Vieira expressões maiores do barroco universal, como o virá a ser, num genial anacronismo, a escultura do Aleijadinho? Não foi a Ratio Studiorum dos jesuítas uma matriz fundadora da cultura no Brasil? Mas a verdade é que esta rejeição da cultura ibérica foi assumida por um grande número de historiadores brasileiros como a chave que explicaria todos os atrasos, injustiças e opressões sofridos pelo Brasil. A colonização portuguesa seria o pecado original desta terra, o que lhe vedara o acesso ao paraíso ou os caminhos da modernidade. Esta ideia encontra-se formulada exemplarmente na obra clássica de Sérgio Buarque de Holanda Raízes do Brasil. Todos os obstáculos ao desenvolvimento do Brasil derivariam dos traços de carácter herdados do colonizador português, reconstruídos como um tipo-ideal, à maneira de Max Weber, e contrapostos (sempre seguindo a lição de Weber) àqueles que fundamentam o espírito moderno, essencialmente derivados da ética do protestantismo. Daí o grande confronto, obsessivo na cultura brasileira, entre o Brasil e os Estados Unidos, encarados estes, mesmo quando demonizados, como o supremo paradigma. Bandeirantes e Pioneiros de Vianna Moog é a triste elegia a um Brasil que poderia ter sido, um Brasil que se poderia vir a identificar com os Estados Unidos. Conhecemos a grande obra de interpretação do Brasil antagónica desta visão, que foi a de Gilberto Freyre. Para o autor de Casa Grande e Senzala foi da colonização portuguesa e da escravidão africana que provieram toda a originalidade e a inovação da civilização brasileira, através do processo de miscigenação. Freyre não idealiza o processo colonizador, mas escreve de uma história olhada sem ressentimentos, com o amor fati nietzscheano e a permanente gula dos sentidos que o tornam o mais moderno de todos os seus contemporâneos. Com a notável excepção de Vamireh Chacon, as correntes dominantes do pensamento social brasileiro de tendências mais progressistas tenderam a identificar as teses de Gilberto Freyre com o conservadorismo e a nostalgia de uma sociedade patriarcal e pré-moderna, colocando assim as ideias do mestre de Apicucos como mais um obstáculo ao progresso e à emancipação dos brasileiros. Uma rejeição global que José Guilherme Merquior, grande desmistificador, qualificou um dia de “suprema burrice”. Sem querer intervir neste debate (porque penso, como Alfredo Bosi, que é uma questão ociosa escolher agora quem teriam sido os melhores colonizadores), julgo necessário integorrarmo-nos em que medida as duas correntes de interpretação aqui demarcadas partilhariam um terreno comum, uma visão que da imagem construída do passado histórico deriva para um olhar intemporal sobre o Outro, o português, e em que medida nós, os portugueses, nos confrontamos ainda e sempre com essa imagem intemporal que de nós foram tecendo os brasileiros no processo de construção da sua própria identidade (a piada de português é apenas a manifestação mais superficial e inocente dessa imagem estereotipada). II …À DESGRAÇA DE SER PORTUGUÊS O facto é que Portugal hoje aparece no Brasil, de forma inédita, e para surpresa e desconcerto de alguns brasileiros, como um país exportador de investimentos produtivos, alguns em sectores de elevada tecnologia, e não mais como um mero exportador de mão-de-obra pouco qualificada para pequenas empresas de comércio e serviços. Esta mudança da base material da presença portuguesa no Brasil, embora custe muito a ser digerida por alguns (para o historiador Luís Felipe de Alencastro, por exemplo, o investimento português seria apenas um braço subordinado do capital espanhol, esse sim o verdadeiro actor da História), não deixou de trazer mudanças sensíveis à percepção de Portugal do outro lado do Atlântico. Acresce que a imagem de Portugal como persistência de uma sociedade de Antigo Regime encravada na modernidade europeia, tão cultivada também pela intelectualidade brasileira, mesmo quando solidariamente a denunciava, dificilmente se sustenta face à realidade actual de um país democrático, moderno e integrado na União Europeia. Convém não esquecer que a imagem de Portugal para os brasileiros foi durante muito tempo a de um país atrasado, arcaico, imune à mudança, ancorado no tempo como uma nau de pedra silenciosa. Para os conservadores autêntico guardião das tradições de que nasceu o Brasil, para os progressistas resumo de tudo o que o Brasil deveria destruir dentro de si para ser verdadeiramente moderno e autenticamente justo, Portugal só era tratado pelos brasileiros como um antepassado. A recente comemoração dos 500 anos do “descobrimento” ou “achamento” ou “encontro” dividiu o Brasil. De um lado os que aceitam a herança portuguesa como uma matriz fundadora da identidade brasileira; do outro aqueles que, não podendo negar essa realidade, não se conformam com ela, porque pensam sinceramente que todos os atrasos e as injustiças do Brasil derivaram em linha directa da colonização portuguesa. Para dar um exemplo, entre os mais notáveis, um livro como Os Donos do Poder de Raymundo Faoro, na sua visão fixista da sociedade brasileira (tudo se joga na sociedade estamental herdada da colonização portuguesa, que se mantém metafisicamente incorrupta através dos séculos), vem tornar mais compreensível a dificuldade que os brasileiros sentem em reconhecer no antigo país colonizador mudanças que muitas vezes não conseguem ver no seu próprio país. É que o Brasil nunca será “um imenso Portugal”, como cantava Chico Buarque, pela simples razão de que há quase 200 anos que vivemos separados. Na verdade, para um português é mais claro e mais saudável este sentimento de separação do Brasil do que para um brasileiro. Para nós, o colonialismo português jogou-se no nosso tempo nos dramas de África e há muito já que reconhecemos o Brasil como uma outra nação. Não assim no Brasil, que, de um certo modo, introjectou Portugal, incorporou-o a si mesmo (antropofagicamente, como diriam os modernistas de 1922), olhando-o quase como um capítulo do seu passado, como uma referência incontornável (para o bem e para o mal) da afirmação da sua própria identidade, mas que, por isso mesmo, se tornou estranhamente invisível aos brasileiros enquanto realidade existente e país actual, como diagnosticava Eduardo Lourenço na sua lúcida Nau de Ícaro. Como se para os brasileiros o único sentido de ser português fosse vir a tornar-se brasileiro… Acresce que à escala mundial vivemos hoje tempos de uma curiosa ofensiva ideológica anti-europeia, fomentada por algum pensamento “politicamente correcto”. Através do conceito de “pós-colonial”, concebe-se por vezes uma estranha frente entre os Estados Unidos, o antigamente chamado Terceiro Mundo e os países industrializados exteriores à Europa (Japão, Canadá, Austrália), opostos em bloco aos europeus por esta nova construção ideológica, que foi denunciada, entre outros, pelo marxista Perry Anderson. Toda a ideia (já veiculada em 1992, quando do quinto centenário da viagem de Cristóvão Colombo) de que “comemorar os 500 anos é comemorar a violência e a rapina do colonialismo” vem hoje dessa matriz ideológica “pós-colonial”, bem mais do que do velho marxismo, que sempre soube que a violência é parteira da História e nunca simpatizou excessivamente com etnias e sociedades tradicionais. E vem também muitas vezes (e particularmente no caso que nos ocupa) daqueles que, na esteira de certas leituras de Max Weber, atribuem todas as virtudes civilizatórias aos Estados Unidos e aos colonizadores brancos, anglo-saxões e protestantes e todos os estigmas aos colonizadores ibéricos, por acreditarem ingenuamente nas histórias piedosas que os norte-americanos contam sobre si próprios. Assim, se por um lado os preconceitos anti-portugueses estão conhecendo hoje no Brasil um evidente recuo, registando-se da parte dos intelectuais e dos jovens brasileiros uma nova curiosidade pela nossa cultura, hoje reconhecida nas manifestações da sua novidade e não mais como expoente de manifestações arcaizantes, não deixou algum velho anti-lusitanismo de ressurgir por ocasião das comemorações dos 500 anos, como por exemplo quando o insigne brasilianista inglês Leslie Bethell veio escrever que foi a meu ver um grande erro do Brasil permitir que os portugueses praticamente sequestrassem a celebração do 500 aniversário do Brasil com a ênfase dada ao descobrimento pelos portugueses. A virtude anglo-saxónica vela sobre o Brasil… Contudo, se atentarmos na mais recente geração brasileira de estudos históricos, sociológicos e até estéticos e literários, não poderemos deixar de ficar impressionados por uma nova ideia de Portugal por eles trazida, bem mais objectiva, crítica e isenta das grandes visões de “tipo-ideal” que os famosos “intérpretes do Brasil” quiseram introduzir afinal como “ideologias do Brasil”. A investigação fez-se menos sequiosa de grandes sínteses de interpretação do destino nacional e mais atenta à rigorosa impiedade dos factos. Face a este quadro, parece-nos evidente que uma política cultural externa portuguesa para o Brasil deveria ousar trazer a este país as manifestações mais vivas e actuais da nossa cultura e não continuar a responder à sede de tradições conhecidas e requentadas, que apenas confirmam no brasileiro a imagem de um Portugal instalado para sempre nas brumas do passado. Este é o desafio da nossa geração. Mais do que continuar a mostrar como soubémos bem navegar no século XVI, há que demonstrar como sabemos hoje dominar e praticar as linguagens e as tecnologias do nosso tempo. III – TEMOS TODOS A MESMA IDADE Mas afinal a História foi sempre feita de paixão e de violência, de sonho e de furor. Quem se lembra de negar o que é, porque a sua origem não é a que desejaria, é como a bela alma hegeliana, incapaz de se inserir no curso da História: um anjo torto. Porque envergonhar-se da própria origem é a atitude típica do homem do ressentimento, manifestação daquilo a que Freud chama romance familiar, o desejo frustrado de ter pais mais ricos e poderosos. A América foi um sonho dos europeus. Os portugueses sonharam tanto com o Brasil como todos os outros europeus sonharam com a América. Por isso do que deixámos podemos orgulhar-nos, sem ilusões idílicas nem remorsos tardios (ter remorsos, dizia Espinoza, é pecar segunda vez), porque a violência da História foi para nós, como para todos, o quinhão da mesma humanidade. E Portugal são os portugueses e as portuguesas de hoje, não esse país obscuro e de antanho, convidado de pedra no tempo e na memória, que tantas vezes os brasileiros identificam com Portugal, projectando em nós a imagem do seu próprio passado. Desse passado vimos, mas também contra esse passado nos fizémos no que somos hoje, para o bem e para o mal. Desmentindo o belo poema de Manuel Bandeira, os portugueses não podem ser os avózinhos dos brasileiros, pelas simples razão de que nós, as gerações de hoje, temos afinal a mesma idade. (url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: VOZES VINDAS DAS ESCOLAS (6ª série e final) ![]() Não podia estar mais de acordo com a sua crítica sobre a Futebulândia e os excessos dos vários canais televisivos no tempo que a este tema dedicam. Perdoe-me a franqueza, mas o mesmo não se passa com o Abrupto e o Professulândia ? Como antigo leitor, não me reconheço num Abrupto a dar abrigo ao discurso da compaixão. Que não tem nada de mal em si mesmo e é uma decisão pessoal e soberana. Mas a sua repetição torna o tema trivial, transforma o objecto de amor numa má imagem. Retornamos ao escapismo meu caro Abrupto: como escapar ao escapismo ?? Ouçamos Barthes: A-Realidade. Sentimento de ausência,fuga da realidade pelo sujeito apaixonado face ao mundo. Para me salvar da a-realidade - para retardar a sua chegada - , tento ligar-me ao mundo pelo mau humor. Sustento o discurso contra qualquer coisa (...) - Fragmentos de um Discurso Amoroso, Edições 70, s.d. ,tradução Isabel Gonçalves (João Costa) * Pergunto-me se vozes vindas das escolas pertencem sempre aos professores. Eu sou aluno do último ano do secundário numa escola norueguesa – uma experiência de um ano, após 11 anos de escola em Portugal – e sou filho de uma professora de matemática do 2º ciclo que sente a sua profissão a 100% e a traz muitas vezes para casa, discutindo as novas reformas e as que estão por fazer, os casos pessoais de alunos que precisam de ajuda, procurando sempre novas ideias para pôr em prática e para tentar catalisar os interesses dos estudantes para a matemática – utilizando, para além dos livros, de jogos, truques de magia, representacões teatrais, etc. Considero que tenho assim uma perspectiva singular sobre a educação em Portugal, especialmente em comparação com a Noruega (que é, afinal, o 1º país do ranking da ONU), e é por isso que escrevo – e porque sou também uma voz dentro da escola. Já li aí que a obrigatoriedade do ensino faz com que alunos "incorrigíveis" tenham que permanecer na escola até aos 16 anos; mas eles não são "incorrigíveis". Uma diferença substancial entre Portugal e a Noruega, é verdade, é que aqui 98% da população pertence à classe média, o que significa geralmente que tem boas condições de estudo em casa. As condições em que o estudante vive, os pais, o ambiente familiar, são extremamente importantes para a educação de um aluno - a educa ção não passa simplesmente pelos programas educativos e pelos professores, mas por um desenvolvimento social a todos os níveis. Ainda assim é mais que provável que Saramago tenha razão quando diz que ler e gostar não é para todos. E gostar de matemática também não é para todos. E é difícil mudar alunos que, por uma razão ou outra, foram "desviados". Mas é possível, e é dever de todo o professor acreditar nisso. Toda a criança e adolescente tem ou deve ter o direito de estudar e de ter professores que acreditem nele, custe o que custar. Nem tudo é perfeito na Noruega. Durante os primeiros 10 anos de escolaridade, todos os alunos passam, independentemente das notas. É fonte de uma certa preguiça – aos 14 anos eu estudava muito mais que o meu irmão de acolhimento que tem precisamente essa idade, que apesar de tudo tem boas notas. Toda a gente da minha turma estudava muito mais. Mas apesar de tudo não se ouvem muitas críticas por aqui. É assim que é. E essa é uma diferença fundamental entre os dois sistemas de ensino: em Portugal as reformas, aqui ou ali, chegam demasiadas vezes. Imaginem o dinheiro que se pouparia em manuais escolares se ainda púdessemos usufruir dos de há dez, quinze anos anos atrás (por exemplo, os alunos podiam vender os livros mais baratos em segunda mão, como aqui na Noruega) – mas não, os programas estão sempre a mudar, recuam e depois voltam a ter o mesmo conteúdo. Aparecem provas de afericão de que os alunos ignoram o objectivo, exames para o 9º e 6º anos, os tempos escolares passam de 50 para 45 minutos, mas os blocos de 90 minutos não têm intervalos no meio, os programas são completamente modificados – eu faco parte de um ano de transicão em que tínhamos o horário do ano anterior mas o programa do ano seguinte. Em Portugal tudo está em perfeita mutação. Não existem, pelo mundo fora, sistemas de educação perfeitos. Existem sistemas de educação que dão os seus frutos após algum tempo, que precisam de aprender com os erros e que se vão refinando. Eu senti-me, muitas vezes, genuinamente confuso com estas mudancas abruptas na educacão em Portugal. Por fim, realço outro pormenor: na Noruega as escolas têm muito mais independência em relação ao Estado, por exemplo no que respeita à capacidade de decidir sobre o pessoal docente. De despedir e contratar. Em Portugal os professores são colocados. Nos milhares de professores desempregados existem muitos com mais qualidade dos que estão colocados. Não existe um sistema de avaliação eficaz dos professores; eles entram com a ajuda da nota do estágio, por exemplo, que depende muito do supervisor que arranjaram. E o outro factor que conta é a idade e o tempo de ensino. O que deixa os jovens no desemprego. Esse não é o maior problema para os estudantes – o mais problemático é que alguns deles são melhores dos que os que estão na escola. Porque na escola existem muitos professores "piores do que estudantes", que muitas vezes faltam às aulas e que fazem pouco mais do que recitar a matéria. Mas também existem muitos que gostam do que fazem, e que se esforcam pelos seus alunos – e esses, acredito, querem ser avaliados, querem a sua própria avaliacão. Podia escrever mais, mas talvez já tenha dito demais, por isso concluo apenas que ser professor não é fácil, e não é aceitar apenas ter alunos que estudam muito e não têm problemas, mas aceitá-los a todos. (André Carvalho) * Todos sabemos que a escola não vai bem. Os alunos abandonam a escola muito cedo, com níveis muito baixos de escolaridade, não conseguindo adquirir competências mínimas, indispensáveis para um mundo de trabalho globalizado e cada vez mais exigente. A falta de qualificação, quer dos jovens, quer dos adultos, torna a nossa economia menos competitiva e, desta forma, irremediavelmente afastada dos índices de desenvolvimento que ambicionamos. Por outro lado, na última década, Portugal tem feito um enorme investimento público em educação. À conta disso, Portugal é o país da OCDE que maior percentagem da despesa corrente gasta em salários de professores, e onde os rácios de aluno por professor são os mais favoráveis da União Europeia. Por isso, seria de esperar que a escola apresentasse melhores resultados. Se isso não acontece é porque o problema é muito mais do que uma questão de meios. Há muito que o problema deixou de ser o dinheiro. Essa desculpa, usada por sucessivos governos para fugirem à responsabilidade de fazer o que deveria ser feito, já não serve. Pelo contrário, num país onde o estado gasta mais do que tem, seria injusto, numa altura em que o estado tem obrigatoriamente de cortar na despesa pública, que na área de educação se deixasse tudo como está, isto é, que se continuasse a por dinheiro na escola sem dela se exigir resultados e uma melhor gestão, racionalização e optimização de meios e recursos. Serve tudo o que acima foi dito para enquadrar a proposta do ministério de revisão do Estatuto de Carreira Docente. Porque, como é óbvio, os professores não se podem colocar à parte destes problemas, muito menos fazendo-se de vítimas. Para além da espuma que tem ressaltado da comunicação social, nomeadamente na questão da avaliação dos professores pelos pais e noutras questões técnicas passíveis de alteração mediante negociação com os sindicatos, interessa-me discutir a questão do princípio de avaliação dos professores. Devem ou não os professores ser avaliados? Devem ou não ser distinguidos os bons dos maus professores? Deve ou não haver consequências de uma avaliação? Não querendo gastar muitas mais linhas a retratar a situação actual, parece-me evidente que o actual Estatuto de Carreira Docente não serve. Em primeiro lugar porque é injusto para os professores, tornando os bons e os maus todos iguais, ao premiar todos. Em segundo lugar porque não assenta em nenhuma lógica de resultados e de objectivos, não estimula os que mais se empenham, torna o sistema ineficiente. Em terceiro porque é economicamente incompreensível, permitindo que, indiscriminadamente, todos cheguem, de uma forma automática, ao topo da carreira. Para existir qualidade no ensino tem de haver uma boa avaliação dos seus intervenientes. É assim com os alunos. Deve ser assim com os professores. A qualidade tem de ser premiada e tem de haver uma clara discriminação entre os bons e os maus professores. Actualmente, a profissão de professor proporciona inúmeras situações de não ser exercida. Depois de entrar na carreira é um descanso. Para alguns, a segurança de um emprego para a vida e a certeza de uma promoção automática, são as únicas coisas que os prendem à profissão. Muitos caem na rotina, no comodismo e no facilitismo que a carreira oferece. Até os bons professores se desmotivam e acabam por entrar nesta cultura descentrada do seu objectivo principal: o sucesso dos alunos. Por isso que, para bem dos alunos e dos bons professores, é urgente mudar. A escola precisa de voltar a ser credível e isso só é compatível com uma cultura de qualidade e exigência para todos, inclusive para os professores. Porque a escola pública existe por causa dos alunos, é neles que devemos centrar as nossas atenções, ainda que isso possa resultar na perda de direitos de alguns maus professores. Por muito que custe. João Filipe Marques Narciso (Professor contratado / Setúbal) (url) ![]() LENDO / VENDO /OUVINDO (BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES) (17 de Junho de 2006) Os nossos homens no espaço. A Estação Espacial vista da terra: ![]() * Mais uma contribuição para a irrelevância da UE, ou, visto de outra maneira, mais uma demonstração do mesmo curso suicidário: "Os líderes europeus decidiram ontem que uma parte substancial dos debates entre os ministros dos 25 Estados-membros passarão a ser abertos às câmaras de televisão, depois de o assunto andar a ser discutido há anos. "Queremos que entre ar fresco na casa da União Europeia", explicou o chanceler austríaco, Wolfgang Schüssel, que preside à UE até ao próximo dia 1 de Julho. Assim, "todas as deliberações do Conselho Europeu sobre os actos legislativos a adoptar em conjunto com o Parlamento serão abertos ao público, tal como as explicações de voto dos membros do Conselho", afirma o documento com as conclusões da cimeira dedicada à "política da transparência", noticiou a AFP."Os ingleses foram dos poucos a protestar porque sabem melhor do que os seus congéneres europeus o que é governar e decidir e a necessidade de o fazer de forma discreta, com a liberdade de debate e franqueza de opiniões, pouco compatíveis com a exposição pública dos locais de decisão. Foi o que fez a ministra britânica dos Negócios Estrangeiros, Margaret Beckett. Esta variante do populismo mediático assenta na crença absurda de que este tipo de escrutínio em tempo real melhora a democracia, mas terá os efeitos exactamente contrários. Ao se parlamentarizarem os conselhos de ministros da UE, a política real, pura e dura, envolvendo interesses nacionais e dinheiro, tenderá a emigrar para locais informais onde não há qualquer escrutínio e responsabilização. Lóbis, funcionários, pessoal dos gabinetes, consultores, agradecem. Os conselhos de ministros europeus ficarão para a conversa políticamente correcta ou para as tiradas destinadas a serem publicitadas para efeito eleitoral interno. Os conselhos tornar-se-ão uma sucursal do Parlamento Europeu. (url) EARLY MORNING BLOGS 795 Uma Após Uma![]() Uma após uma as ondas apressadas Enrolam o seu verde movimento E chiam a alva 'spuma No moreno das praias. Uma após uma as nuvens vagarosas Rasgam o seu redondo movimento E o sol aquece o 'spaço Do ar entre as nuvens 'scassas. Indiferente a mim e eu a ela, A natureza deste dia calmo Furta pouco ao meu senso De se esvair o tempo. Só uma vaga pena inconsequente Para um momento à porta da minha alma E após fitar-me um pouco Passa, a sorrir de nada. (Ricardo Reis) * Bom dia! (url)
INTENDÊNCIA
![]() Actualizada a nota NUNCA É TARDE PARA APRENDER: PORTUGAL NUM LIVRO BRASILEIRO com colaborações muito interessantes dos leitores. Em breve, colocarei em linha fragmentos de um artigo que Luis Filipe Castro Mendes gentilmente me enviou, sobre as "atribulações" das identidades portuguesa e brasileira , que foi publicado há três anos na revista do MNE em Portugal, e na revista do Real Gabinete de Leitura no Brasil. Em breve, a 6ª e, em príncipio, a última série de O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: VOZES VINDAS DAS ESCOLAS. (url) 16.6.06
RETRATOS DO TRABALHO NA ARGENTINA Maquinista da linha San Martin, dos caminhos de ferro argentinos, na estação de Villa del Parque, esperando o sinal de partida. (Francisco F. Teixeira) Etiquetas: trabalho - retratos (url) BLOGUES: A APOTEOSE DO PRESENTE Os blogues continuam a ser criados a uma velocidade de cruzeiro numa verdadeira revolução mundial de novas formas de "fala" dos indivíduos e dos grupos, o que é um dos reveladores da profunda interligação entre "estados" sociais preexistentes e tecnologias que os exprimem e potenciam. O último balanço do "estado da blogosfera" refere a existência de cerca de 35 milhões de blogues seguidos pela Technorati, uma empresa de referência no estudo dos blogues, duplicando o seu número cada seis meses. Nos últimos três anos, o tamanho da blogosfera cresceu 60 vezes, e o número de blogues criados por dia aproxima-se de 75 mil, o que significa que desde que o leitor começou a ler este artigo quase vinte novos blogues (um por segundo) foram criados em todo o mundo.(1) Claro que sabemos que "criar" e "manter" não é a mesma coisa, e que muitos dos blogues nascentes não passam do acto da criação, mas mesmo assim só um cego (e ainda há muitos cegos que não querem ver) é que não percebe que se está perante um fenómeno que marcará a nossa época, de um antes e de um depois. Não se trata aqui de avaliar os efeitos da blogosfera nas áreas que lhe são adjacentes, que todas estão a mudar por processos que tanto empurram os blogues, como as mudanças nos hábitos de leitura, de procura, de saber, de "ver", que estão associados à conjugação de novas tecnologias com mutações sociais nas sociedades industriais e democráticas a que chamamos "ocidentais". O movimento que gera o surto de blogues é muito mais profundo do que os próprios blogues, tornando-os ao mesmo tempo causa e efeito, agente de mudanças e revelador de mudanças.Duas coisas não podem porém ser esquecidas, e muitas vezes são-no, na análise da blogosfera: a primeira é que os blogues suportam-se numa forma tecnológica que valoriza determinados aspectos da "fala" que eles contêm e minimiza outros; a segunda é que a "fala" que se encontra nos blogues não é nova, tem precedentes e história. São estes dois aspectos de que falarei, valorizando o aspecto "literário" e criativo dos blogues, em detrimento de outras funções que os blogues também têm em particular no sistema da comunicação social. Comecemos pelo primeiro aspecto, o modo como a tecnologia, o software, as plataformas de suporte, moldam a forma do blogue, condicionando o produto final. Os blogues evoluíram das páginas pessoais na Rede, num momento de expansão e democratização da Internet, mas não são uma nova forma de páginas pessoais. O que em todas as plataformas populares, a começar pelo pioneiro e mais usado Blogger, se valoriza não é a apresentação de um indivíduo, dos seus interesses, das suas opiniões, do seu "universo" pessoal, mas sim tudo isto situado no tempo. Tempo é a chave da novidade dos blogues, os blogues forçam as páginas pessoais a deixarem de ser estáticas e a tornarem-se diários, locais onde opiniões, interesses, confissões, desabafos, impressões, são escritos num ecrã que se comporta como um rolo de papel, que se desdobra entre o presente e o passado. Por isso, acrescentava à frase anterior: tempo desigual, tempo essencialmente presente, é a chave da novidade dos blogues. Na verdade, o ecrã do computador não permite "ler" tudo o que está no blogue da mesma maneira, acentua o que de mais recente é colocado, valoriza no seu prime time a actualidade, o dia último, de preferência o dia de hoje, o presente absoluto. Nos blogues, a actualização é da natureza do próprio instrumento, dominado pelo presente e atirando com o passado para um "arquivo" que raras vezes é consultado. Nos blogues há uma apoteose do presente, uma menorização do passado e uma inexistência do futuro que condicionam o tipo de escrita e o seu sucesso comunicacional. Este desequilíbrio dos tempos é coerente com alguns dos efeitos da passagem do mundo comunicacional tradicional, da leitura, do silêncio, da lentidão, da memória, para a velocidade do que é "moderno", para um mundo constituído por imagens rápidas, prazer instantâneo e ilusão de simultaneidade. É o mundo dos directos televisivos, do em linha permanente, do mundo que testemunha tudo em tempo real, da aldeia na "aldeia global", da superfície, da pele das coisas do marketing e da publicidade. Os blogues trazem para a "fala" essa mesma velocidade e ilusão de instantaneidade de um mundo sem "edição", ou seja, sem mediação. O domínio do presente nos blogues molda a "fala", valorizando o comentário, a opinião, a impressão quase em tempo real sobre o presente a acontecer, mais do que sobre o acontecido e por isso comunica historicamente com a voz dos directos da rádio e da imagem da televisão. O sucesso dos blogues chamados "políticos" em Portugal, como aliás noutros países, não se deve a qualquer deformação da blogosfera, que continua a ser maioritariamente constituída por blogues de outra natureza mas com menos audiência, mas sim à natureza dos "assuntos correntes" que eles tratam de forma ainda mais "corrente" do que os media tradicionais. A competição-tensão entre blogues e os media tradicionais vem desse campo de actualidade que a forma blogue potencia e acelera. Esta relação pesada com o presente fez os blogues superar as páginas pessoais e, mesmo instrumentos fáceis e grátis que surgiram no último ano para criação de páginas pessoais (como o Google Page Creator), estão longe de competir com o interesse pelos blogues. No entanto, a forma blogue é tão perecível como todas as outras e evoluirá com rapidez para outras formas de comunicação, que por sua vez gerarão novos efeitos da "fala". Algum software já disponível introduz novas funcionalidades que combinam as vantagens da presentificação do blogue com um maior papel para modelos em que a "fala" ganha um novo volume, uma nova densidade temporal. Este caminho será facilitado também pelo aumento exponencial da capacidade de armazenamento dos computadores, aproximando-se da possibilidade de nos "meter" dentro de um disco: memórias, estados de alma, visões, sonhos, sons, leituras, imagens, falas, cheiros, afectos, gestos, saberes. Os estudos sobre o cérebro, a memória, a realidade virtual, teorias sobre os "meme" e projectos como o MyLifeBits, podem mostrar-nos como evoluirá o software do imediato futuro, disponível para que cada um "fale", em teoria para um mundo inteiro que o pode ouvir. Tudo isto acompanhará aquilo que tenho chamado a "biologização dos devices", a sua colagem ao nosso corpo, à nossa casa, a diminuição da distância física entre nós e as vozes que nos chegam de fora. Não custa compreender as enormes mudanças que estão em curso, todas diminuindo a distinção entre a realidade e a virtualidade, alterando as literacias necessárias para compreender e agir no mundo real, podendo, conforme a "riqueza" da cada um, ser mais inclusivas ou exclusivas socialmente. A análise deste processo ganha em ser compreendida também pelo passado da "fala" que perpassa nos blogues e dos seus precedentes. No próximo artigo analisarei os diários como protoblogues, escolhendo exemplos em francês, os diários-cadernos de Valery, Camus, Paul Morand e Cioran e as semelhanças e diferenças de uma escrita presa à sua circunstância vivida no tempo. (1) Utilizei como fonte State of the Blogosphere do Sifry's Alert com dados de Fevereiro de 2006 porque me interessava partir de um conjunto de dados coerentes que tinha analisado em conjunto. A revisão do Público corrigiu-os com os elementos mais recentes, de Abril-Maio, actualizando o número global de blogues para 35 milhões. O crescimento é tão rápido que quando a segunda parte do mesmo estudo foi publicada o número já tinha atingido 37 milhões. O número referido no Jornalismo e Comunicação é o actual (de ontem) de cerca de 45 milhões. O crescimento exponencial da blogosfera explica estas rápidas mudanças de números. (No Público de 15/6/2006) Etiquetas: blogosfera (url) LENDO / VENDO /OUVINDO (BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES) (16 de Junho de 2006) ![]() __________________________ No Público de hoje, um grupo de artigos sobre as "utopias" da Internet como comunismo primitivo, ou, conforme os gostos, comunitarismo cristão igualmente primitivo, ou a "civilização da gratuitidade, profetizada por Agostinho da Silva". Vai dar ao mesmo. Estas nem sempre benévolas utopias são a milionésima encarnação do repúdio pela propriedade, tão antigo como a existência da dita, tão populares e tão "primitivas" como as sociedades de caçadores-recolectores. Elas contêm em si, para além de um utopismo político que tem sempre dado péssimos resultados porque se traduz sem excepção em engenharia social "primitiva", ou seja à força, uma confusão sobre as raízes da miséria e da exclusão. No caso da Internet pode ser tudo de graça, pode acabar o direito de autor, pode o mundo dos bits ser "gratuito" (como se lembra num artigo ainda "continua a ser impossível fazer download de bifes, sapatos e casas para habitar ", ou seja, os átomos resistem aos bits), que a fronteira da exclusão/inclusão centrar-se-á nas literacias. E as literacias estão muito desigualmente distribuídas e não é impossível que as mesmas tecnologias, que parecem favorecer a "civilização da gratuitidade", acrescentem ainda mais um fosso aos que já existem. É que não são as tecnologias, nem os efeitos tecnológicos, que mudam a sociedade. É a sociedade que muda a sociedade. Está tudo explicado na obra de um alemão chamado Karl Marx, que tinha que pôr na ordem um seu amigo, Engels que era industrial e acreditava demais no progresso. Marx também acreditava, mas tinha na cabeça um outro ratinho a roer-lhe os optimismos positivistas: a luta de classes. Ah! já me esquecia , o Público não faz parte da "civilização da gratuitidade" e por isso há que comprar o jornal, ou usar uma técnica da "acumulação socialista primitiva", ou seja, o roubo, para o colocar gratuito em linha. * Parabéns, Astronomy Picture of the Day.
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EARLY MORNING BLOGS 794
The Rose Of Peace If Michael, leader of God's host When Heaven and Hell are met, Looked down on you from Heaven's door-post He would his deeds forget. Brooding no more upon God's wars In his divine homestead, He would go weave out of the stars A chaplet for your head. And all folk seeing him bow down, And white stars tell your praise, Would come at last to God's great town, Led on by gentle ways; And God would bid His warfare cease, Saying all things were well; And softly make a rosy peace, A peace of Heaven with Hell. (William Butler Yeats) * Bom dia! (url) 15.6.06
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: PORTUGAL NUM LIVRO BRASILEIRO
Paulo Francis, Trinta Anos Esta NoiteNoutra altura irei ao livro propriamente dito, mas, para ilustração do nosso ego nacional fictício (agora empolado pela mudança do país para a Futebolândia), aqui vão as referências avulsas a Portugal e aos portugueses, num livro de memórias escrito por um jornalista e escritor brasileiro. As referências são interessantes porque são avulsas, a intenção do livro é autobiográfica e memorialística, mas igualmente reflexiva sobre o Brasil e os brasileiros a pretexto do golpe militar de 1964. Portugal aparece muito de relance, o que é a primeira conclusão: Portugal conta pouco para se poder falar do Brasil. E, quando conta, é assim: * O livro de Paulo Francis é uma brilhante reflexão sobre a sociedade brasileira. Li-o durante uma semana de férias no Rio de Janeiro. Não consegui sair do quarto do hotel até o terminar, tal é a clareza de ideias e sentido autocrítico do autor. Impressiona que o livro tenha sido escrito em 1994 e esteja tão atual, num país que mudou tanto desde então. Se as referências a Portugal são ácidas e escassas, a crítica ao Brasil é demolidora e assusta de tão lúcida. É preciso coragem para ler este livro e continuar a acreditar no país. Reduzi-lo às impressões sobre Portugal é um equívoco. Realmente, a elite brasileira, ademais um conceito bastante vago, não tem Portugal como referência. Seria estranho que assim fosse, uma vez que a elite portuguesa se divide entre referências intelectuais estrangeiras, precisamente as mesmas que servem de modelo ao Brasil. Além disso, qualquer pessoa que conhece o Brasil, não apenas o país das férias tropicais, sabe que as únicas regiões do país que conseguiram desenvolver sociedades mais ou menos próperas e instituições típicas de países desenvolvidos, foram aquelas onde a colonização portuguesa é pouco importante. Recomendo a leitura de um livro muito bom, publicado recentemente em Portugal, chamado "O Império à Deriva". É sobre o reinado de D. João no Brasil. Ajuda a entender o Rio de hoje e, melhor ainda, o Portugal de sempre. Se a imagem que o Brasil faz hoje de Portugal não é aquela que o nosso ego gostaria, é todavia melhor do que aquela que temos de nós próprios, pelo menos em tempo de depressão nacional. Basta ler as colunas de opinião do Público. Apenas um comentário final: é muito mais fácil ser Português aqui do que Brasileiro em Portugal. Não se deixem enganar pelas aparências. Até porque no Brasil as coisas nunca são exatamente o que parecem. (Vitor Salvador Picão Gonçalves, Portuense, Professor da Universidade de Brasília) * Não há uma única ex-colónia francesa, holandesa, alemã ou espanhola que apresente razoáveis desenvolvida. Não há sequer uma que seja mais desenvolvida do que o Brasil - talvez a Costa Rica..... e a sua meia dúzia de habitantes.... Quanto às ex-colónias só temos quatro mais desenvolvidas do que o Brasil, a Nova Zelândia, a Austrália, os EUA e o Canadá. Todos países em que as zonas desenvolvidas são de clima temperado tipo europeu, e onde foi bastante fácil transferir tecnologia agricola da Europa para as colónias - desde sementes até ao gado - ou tente um inglês levar gado e as culturas do seu clima para o Brasil para ver a produtividade que obtem... Está até o Brasil à frente da África do Sul...país onde a emigração "wasp" teve o poder até há uma década. O exemplo de desenvolvimento das restantes colónias mostra que os portugueses foram o povo que melhor interiorizou os custos de adaptação dos seus processos, metodologias e culturas a climas tropicais. Essa conversa de brasileiro só mostra uma enorme ignorância sobre o mundo e sobre ele próprio, porque sejamos francos, já são independentes há 184 anos.....e perante tanta estupidez só mesmo o desprezo de quem tem um passaporte europeu - que é o que as elites brasileiros mais pena têm de não ter. (João) * Há um enorme vazio de estudos sistemáticos das representações que persistem na actualidade sobre a presença colonial portuguesa nos diferentes espaços. Em África, por exemplo, estudos/pesquisas que versem sobre o pensamento social, sobretudo numa perspectiva de psicologia social e que fujam, de algum modo, aos modelos analíticos normalmente usados no estudo das sociedades «tradicionais» pelos antropólogos (nada tenho contra os antropólogos, pelo contrário), são praticamente inexistentes. Reduzir as representações sobre a presença colonial portuguesa a amor/ódio; as «elites» e os outros; etc. sabe a pouco, pelo menos naquilo que a África diz respeito. Quanto ao «portuga» do Brasil, acrescento que não se detecta nada de semelhante em Moçambique onde tenho feito trabalho de campo (quiçá em África). A relação é representada como que num patamar de amor/ódio, mas sem a desvalorização cultural do «outro» (ex-colono). Outra nota é a de que no caso de alguns espaços em Moçambique, como Tete, quando se fala do colono português surge sistematicamente em contraponto ao inglês e isso não se reduz ao «mau» versus o «bom». Parece-me também que a exorcização dos fantasmas da colonização está melhor consolidada nos ex-colonizados do que nos ex-colonos. Envio excertos de entrevistas realizadas em 1998 com cidadãos comuns das províncias de Maputo, Nampula e Tete (espaços urbanos e rurais) e que podem ajudar a pensar. Os entrevistados foram no geral homens adultos. É um trabalho que ainda está em andamento numa nova versão, pelo que se dispõem de outros dados. Disponibilizar o que se segue «a cru» pode originar acusações imediatas de «neo-colonialismo», «saudosismo» ou o que seja. Mas arrisco: “Serviços forçados. Fizeram isso. Mas estavam-nos a ensinar (...). Para termos uma noção direita.”; “O branco, até agora branco, muita gente que vivia nesse tempo está a chamar do branco, porque o branco ele batia, mas dava qualquer coisa a você saberes.”; “Nessa altura (...) havia algum sofrimento porque aquele que fosse trabalhar, quando faltasse um dia, era apanhado, era dado porrada. E... sabendo que o benefício era para ele mais tarde, mas tinha que disciplinar a pessoa.”; “Eles [os mais velhos] sempre falam, dizer que os colonos sempre nos educaram para andarmos asseados. Alguns... os nossos bisavós para pôr sapato era preciso ser obrigado.”; “Havia coordenação [entre nós e os portugueses]. (...) Davam palmatória para educar. Isso da escola era educação que hoje estamos a gostar. (...) Levei [muitas reguadas]! (...) Era para o meu benefício. Hoje já estou melhor. Já estou a receber. Já estou a ganhar o pão.”; “Para mim não abusou [o português].”; “(...) o colono proibia fazer aguardente aqui, tradicional (...) em parte cheguei de compreender hoje que estava a fazer bem porque as pessoas morriam com aquela aguardente porque o ácido era mais exagerado, não tinha limite.”; “(...) naquele tempo tinha quarta classe. Era limite do... do indígena. (...) era tempo de boas coisas também para nós, porque não sabia os estudos.”; “Eu gostei [do tempo colonial]. (...) Os mais novos são sempre... como até hoje nos livros só fala escravatura, escravatura, escravatura (...) e não souberam como viveram com... com os portugueses. Houve escravatura sim (...). Para construir um país tem de haver sacrifício de nós todos.”; “Gostei [de viver com os portugueses] porque tinha acostumado também aqueles ali. Tinham razão.”; “Gostei muito de viver com os portugueses naquele tempo.”; “(...) tudo era bom para mim, por causa, quando estavam aqui os portugueses nós - ah! - era satisfeito.”; “Mas o... para mim o tempo colonial foi muito bom porque aquilo que você precisava na altura, apanhava com dinheiro.”; “Pela minha parte foi bom [o tempo colonial] porque (...) eu era consciente. Não mexe (...) não era ladrão (...). É por isso que eu acho que português, pela minha parte, era bom.”; “Eu tenho muita saudade. Até aquele tempo era muito lindo.”; - “Isso sim! Isso acontecia [o negro ser penalizado por discutir com um branco]. (...) Era uma injustiça, sim.”; “Há o colono que sempre... não queria... dar o negro como pessoa. Só dar o negro como... como animal.”; “(...) só vi os meus pais serem carregados, serem amarrados para ir trabalhar forçado (...) a outra coisa foi a cultura de algodão, de arroz, também foi muito rigoroso.”; “Mas mesmo assim, aquilo tudo já passou. Aquilo tudo já passou.”; “Não há problemas para dar. Hum. Já encerrámos tudo aquilo que então se deu. Aquela ferida que alguém me cortou. Já a ferida, já está... está já encerrado.”; “Outros gente dizem que tempo daquele [colonial] até às vezes alguns, nossos bisavós, carregavam as pessoas nos ombros.”; “Abria estradas assim com as mãos. (...) Não havia coisas boas. (...) éramos tratados como escravos não sei de onde.”; “Era mal... era mal por causa que tinha chibalo, trabalho nas linhas férreas e nas plantações. (...) Aprendi isso na escola.”; “Iam à força [para o chibalo, contratados]. (...) Não recebiam! (...) Quando saíam daqui, iam para a Beira. Depois, quando acabarem aquilo na Beira, doze meses, vinham para aqui. Chegavam na administração e diziam-lhes «Olha lá: toma lá a sua guia de imposto do seu dinheiro que trabalhou na Beira!»”; “Realmente isto [racismo] senti bastante. (...) E o negro nada tinha que atribuir. (...) numa pequena falha aparecia o branco e batia. (...) Portanto, um africano perante um branco não podia agir.” (Gabriel Mithá Ribeiro) * Embora o ponto de vista sobre a pequenez de Portugal visto do Brasil seja interessante, talvez não seja inútil frisar alguns aspectos que são bem conhecidos das pessoas mais familiarizadas com a vida cultural e mediática do Brasil: 1 - O clube de fãs de Maurício de Nassau é bastante grande entre as pessoas mais ou menos letradas do Brasil. Não é caso para menos, já que a casa de Nassau trouxe para o Norte do Brasil alguns indícios de modernidade, que contrastava com a decadência e o atraso que se tinham tornado característicos da Coroa portuguesa. Os mesmos motivos levaram grande parte da elite portuguesa de então (excepto a que morreu em Alcácer-Quibir) a saudar Filipe II de Espanha como rei de Portugal. 2 - A "xingação" brasileira com a figura do Português não é muito diferente da de muitos portugueses com o Alentejano, o Galego, o Preto, etc. Trata-se sempre de achincalhar um arquétipo de pessoa pobre, esforçada e mais ou menos desadaptada da realidade circundante. 3 - Quanto à «ilustração do nosso ego nacional fictício (agora empolado pela mudança do país para a Futebolândia)», o Brasil não tem de pedir-nos lições nessa matéria. O Brasil oscila sempre, aos olhos dos seus, entre o paraíso na Terra («Deus é brasileiro», etc.) e o pior dos países («o Brasil é uma merda», etc.). 4 - Só queria sublinhar como algumas das piores características da nossa «identidade» (irrealismo, sebastianismo, infantilização perante o Estado, ausência de ética de trabalho) existem muito parecidas no Brasil. Penso que era o Agostinho da Silva que dizia que «o Brasil é Portugal à solta». Para concluir, não me incomoda nada que o nosso pequeno rectângulo europeu,cuja única grandeza geográfica reside nas águas territoriais, seja visto do Brasil como uma nação de pouca monta. O que me incomoda é que não saibamos ser mais eficazes, mais realistas, mais «virtuosos» nas nossas relações com o Brasil, pois haver no mundo um país daquela dimensão de língua oficial portuguesa não é uma questão de somenos importância para o nosso futuro enquanto país. Nada disto me impede, com é óbvio, de «torcer» por Portugal em primeiro lugar e pelo Brasil, quando nós não estamos presentes. (Miguel Magalhães) * Irritam-me solenemente estes brasileiros que culpam o atraso, o fracasso, a corrupção deles e todos os seus defeitos em Portugal. Sinceramente, considero estes brasileiros ressabiados pseudo-intelectuais de retrete uns adolescentes malcriados que culpam tudo o que existe de mal nas gerações anteriores e que nada fazem para melhorar o seu presente estado, senão parar no café, fumar ganza e mandar bocas. Se calhar as colónias espanholas estão muito melhor? E as colonias inglesas, holandesas e de outros países europeus completamente exploradas, tanto a nível económico e humano não contam? Vão ser tapadinhos lá fora! Podemos der atrasadinhos mas se eles andam na miséria é porque nada fazem para sair dela. Se calhar o Brasil saiu ao Pai. (João) * Talvez ache esta pertunta muito estúpida, mas acha possivel que pessoas habituadas a climas frios e chuvosos como os holandeses se tivessem conseguido habituar ao tropical Brasil ? O mesmo vale seguramente para os ingleses e menos para os franceses... (Eduardo Tomé) * Há muitos anos que eu sei que os nossos ex-colonizados não gostam de nós. Descobri-o relativamente aos brasileiros há uns 22 anos, quando estava a doutorar-me, frequentava os laboratórios de “Automática” de Toulouse, e convivia com os muitos bolseiros brasileiros que por lá havia. Em Timor descobriu-o o meu pai, aos 80 anos, que como velho colono nunca alimentou nenhuma estima especial pelo país donde partiu há mais de meio século, e que por lá andou há pouco a fazer levantamentos hidroeléctricos prospectivos, por conta da ONU. Veio de lá a dizer ser óbvio que as poucas estradas e outras infra-estruturas existentes foram feitas sob a ocupação indonésia e que os jovens nem sabiam falar português... E descobri-lo com os africanos não requer mais do que acompanhar os media. Esta é, aliás, uma das razões por que, por muito tempo, achei uma quimera vã a nostalgia frequente que vê no “espaço lusófono” uma aposta estratégica para o nosso desenvolvimento económico. Sempre achei a ideia com muita da ilusão salazarista. Mas com o tempo mudei um bocado de opinião. Quem na realidade não gosta de nós, nesses países, são as élites. No Brasil, quase sempre os intelectuais, especialmente os de esquerda. Em Àfrica, os detentores de cargos políticos que os herdaram da Administração colonial. E em Timor, acho que todos gostam de nós. Porém, o que tenho visto é que a nível de povo, quer em turismo, quer em negócios, é diferente. Aí, descobre-se de facto que o império deixou marcas e afectos mútos. Talvez você precise de uma “descida ao povo” desse tipo para o descobrir, Pacheco Pereira. Deixe lá a leitura dos intelectuais e vá lá comprar ou vender qualquer coisa, ou descansar em Maceió, ou instalar um negócio, e vai ver... José Luís Pinto de Sá * Um romance brasileiro onde os portugueses (ou, melhor dizendo, um português) são encarados de um ponto de vista claramente mais positivo do que no de Paulo Francis é «O meu pé de laranja lima», de José Mauro de Vasconcelos. José Carlos Santos (url) EARLY MORNING BLOGS 793 Épigraphe pour un livre condamné Lecteur paisible et bucolique, Sobre et naïf homme de bien, Jette ce livre saturnien, Orgiaque et mélancolique. Si tu n'as fait ta rhétorique Chez Satan, le rusé doyen, Jette ! tu n'y comprendrais rien, Ou tu me croirais hystérique. Mais si, sans se laisser charmer, Ton oeil sait plonger dans les gouffres, Lis-moi, pour apprendre à m'aimer ; Ame curieuse qui souffres Et vas cherchant ton paradis, Plains-moi !... sinon, je te maudis ! (Charles Baudelaire) * Bom dia! (url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: VOZES VINDAS DAS ESCOLAS (5ª série) ![]() Como professor: uma grande parte de nós concordam com muito do que a Sra. ministra está a tentar alterar. No entanto, achamos que não era por aí que começávamos. Conclui-se rapidamente que nem o Ministério nem os sindicatos fazem ideia do que é a vida na sala de aula e na escola. Qualquer professor do activo sabe o que o ministério, em primeiro lugar devia alterar (pequenas medidas sem implicações financeiras) para que a escola fosse um local melhor e com resultados imediatos (perdoe-me a presunção). Por exemplo: sou director de turma há vários anos e, apesar dos esforços constantes, verifico que os pais, como muitos têm dito, nunca foram à escola (60 a 70%), e os que aparecem são dos alunos com melhores prestações..... Se todas as prestações sociais (abono de família, subsidio de desemprego e todos os outros) dependessem de uma informação do DT , concerteza que teríamos os pais na escola e isso era decisivo. (António Barreira) * A professora Ana Teresa Mendes da Silva começa por assumir que há professores bons (que gostariam de ser avaliados) e maus (os tais que ganham o mesmo que os outros a troco de muito pouco), mas depois desata a dizer que os professores (num todo) é que preenchem uma série de necessidades dos alunos que os seus pais (que considera também num todo) supostamente não satisfazem. Gostaria que tivesse a ideia que os pais dos alunos sabem perfeitamente que há uns professores e os outros, assim como também eles próprios podem ser cuidadosos e esmerados ou desleixados e incompetentes. Gostaria de lhe descrever um professor que conheço por ser o de um filho meu: perto do topo da sua carreira e com fama de ser um bom professor, em dois anos não fez uma visita de estudo sequer; vai repetidamente ao médico e ao dentista (digamos semana sim, semana não, dentro do seu horário lectivo) e, além de faltar com frequência às 6ª feiras, só neste ano lectivo faltou ainda 2 períodos de 15 dias. Como tarefas não lectivas, e uma vez que a escola, por falta de instalações não dispõe de prolongamento de horário, foi incumbido de periodicamente colaborar no apoio ao refeitório da escola (1º ciclo) mas não o faz alegadamente porque o cheiro da comida lhe ficava nos cabelos. Chega a dizer aos alunos que está farto deles. Claro que este professor só pode ter medo de ser avaliado não só pelos pais dos alunos como também pela sua assiduidade e pelo seu projecto de trabalho. Há dias li no Público um jornalista a indignar-se com a ideia de os pais participarem na avaliação dos professores, alegando que seria bonito por exemplo as famílias dos doentes avaliarem os médicos. Acontece que essa prática por acaso está prevista e começa a ser usada em algumas instituições de saúde. A avaliação da satisfação dos utilizadores dos serviços (que em Medicina não são só os doentes mas também os seus cuidadores) é uma componente essencial da avaliação da qualidade dos serviços, de saúde e não só. Não cabe na cabeça de ninguém que um médico (ou um professor) seja muito bom mas afinal a maioria dos utentes (ou dos pais dos alunos) não goste dele. Ainda quanto às queixas de as promoções até ao topo da carreira não serem para todos, essa é a ordem natural das coisas: quantos funcionários de uma empresa chegam aos seus quadros superiores? Mesmo na função pública e na área em que estou, para um médico chegar ao grau de chefe de serviço tem de concorrer a um concurso com vagas limitadas que podem inclusive não ser ocupadas se os médicos candidatos não atingirem o nível desejado. São provas duras a que muitos nem sequer se submetem e, de entre os que se submetem, alguns ficam forçosamente pelo caminho. As reacções em bloco desprestigiam os bons professores que se deviam querer distinguir dos outros. Sabemos que frequentemente trabalham em condições muito desfavoráveis prosseguindo por vezes objectivos mais ambiciosos que os que lhe seriam estritamente exigíveis. Todos tivemos professores desses e sabemos reconhecê-los. O que não é admissível é que as más condições de trabalho sirvam como desculpa para os que não cumprem, não se esforçam ou, simplesmente, não têm capacidade para mais mas querem, de qualquer forma, chegar tão longe como os outros. (Mónica G.) * Sem o brado mediático do encerramento de qualquer fábrica no litoral, uma verdadeira revolução está a ser operada no mundo rural. O distrito de Bragança vai perder este mês 225 escolas. Retirada qualquer tentativa de problematizar o tema, duas simples conclusões, as aldeias nunca mais vão ser as mesmas e encerra também uma das últimas esperanças para o mundo rural! (José Alegre Mesquita) * Ao longo da vida tenho deparado resultados semelhantes aos observados em relação aos professores. Será que tudo se pode resumir na frase: o sindicalismo de reivindicação salarial (ou equivalente) teve demasiado sucesso? Será que se pode dizer que é justamente o sucesso do sindicalismo que matas as “conquistas alcançadas”. Ou será que os alvos em que o sindicalismo se centra são inapropriados? Ou, ainda, será que o sindicalismo, no que respeita aos professores, já deu o que tinha a dar? Será de se passar a algum tipo de nova fase? Os professores não devem ser mercenários do ensino: se receberem, ensinam, não importa o quê ou como, ou em que condições (excluindo as salariais). Diria que falta ainda uma discussão à volta da dicotomia autoridade/formas de a exercer para a tornar efectiva ou andamos todos a cuspir para o ar. De forma mais prosaica diria: desculpem lá, meus amigos, mas em matéria de disciplina o professor tem sempre razão o pouco que sobra são excepções que confirmam a regra. (Henrique Martins) * Hoje na versão em papel do Público o Ministério da Educação publica aquilo a que chama de edital. Este edital publicita o "Enriquecimento Curricular para o 1º ciclo" e o "plano da matemática para os 2º e 3º ciclos". Normalmente são publicados na "zona" dos classificados, mas esta é uma publicidade paga. Não seria a primeira vez é certo mas o que me pasma é o facto de o edital interessar apenas às escolas públicas. Ao que sei o ME possui hoje mais do que nunca de linhas próprias de comunicação com as escolas e mesmo com os executivos. Qual a necessidade de publicitar uma medida destas? Uma simples circular como tantas outras (com ordens vinculativas) não seria suficiente? É apenas publicidade e enganosa. É apenas mais uma evidencia da forma como o ME usa a comunicação social. Usa-a para vincular uma imagem distorcida das suas politicas educativas. Hoje como nunca o assunto "professores" vende mais que o assunto "escola" os senhores professores estão na capa do Expresso, nos jornais diários e pasme-se até nas revistas cor-de-rosa. Pena é que todos falam de bancada e sem grande ponderação. Apenas e só por terem andado na escola e recordarem este ou aquele docente acham que sabem como corrigir o sistema. Será demasiado tarde quando se perceber que estas politicas não ajudam os professores a serem melhores, pelo contrário. Que não melhoram o sistema, pelo contrário. Na verdade não existe uma verdadeira politica educativa ou existindo está orientadada claramente pelas necessidades de conter a evolução da massa salarial e o seu peso no orçamento. As politicas educativas deste governo explicam-se em poucas linhas: Não há dinheiro no mealheiro (facto) A carreira dos docentes implica um aumento da massa salarial exponencial tendo em conta a actual carreira baseada na experiência (ou como dizem antiguidade); O actual peso da massa salarial no orçamento da educação é de cerca 93% ( dados da OCDE já que o ME nunca mencionou os seus próprios números) e cerca de 58% das despesas fixas do estado. Melhorar os índices de escolaridade (ainda que artificialmente) de modo a tornar mais atractivo o investimento no nosso país. Para qualquer individuo que acompanhe a actualidade compreende que este é um "Estado à Rasca" (não rasca - embora também) e que a forma mais rápida e eficaz de alcançar o equilíbrio financeiro será actuar onde as medidas surtam maior efeito neste balanço. Estamos assim perante uma necessidade isto eu compreendo embora como professor não me agrade. Qualquer um compreende desde que lhe expliquem. O que eu não entendo é que se vire toda uma sociedade contra os professores e se procure encapotar medidas económicas como educativas. Nenhuma das medidas até agora tomadas irão melhorar os resultados dos alunos e têm contribuído para a degradação das condições de trabalho dos professores e isto tem consequências. O que agrava a situação é justamente o facto de as condições de trabalho dos docentes se virem a degradar de alguns anos a esta parte. Os sindicatos devem exigir do ME condições de trabalho para os docentes e saírem do caminho relativamente às politicas educativas de modo a não serem responsabilizados pelas mesmas como hoje acontece. Devem exigir, por exemplo, que todo o tempo passado na escola seja contabilizado ou como componente lectiva ou como componente não lectivas (actualmente um professor passa cerca de duas horas na escola que não são contabilizadas - são os chamados intervalos cuja necessidade não pode ser colocada em causa), para além de uma generalizada má gestão de recursos evidente nas escolas. Pode parecer mesquinho mas o ME cortou em 5min as aulas e pôs os professores a trabalhar mais dois tempos (outras duas horas) de borla. O tempo é um aspecto importante nesta profissão. Os professores devem exigir condições de trabalho de modo a concretizarem as medidas do ministério e não passar a vida a contestar essas mesmas politicas.Eu sou professor e faço o que me mandam apenas quero condições para o fazer. A responsabilização dos alunos com consequências claras devem também ser implementadas. Não faz sentido nenhum não partilhar responsabilidades. As escolas não podem continuar a ser mais um braço do polvo do Estado Social(ista). A escola deve afirmar-se e ter à sua volta os meios e recursos para tal e não o contrario ao estar ao serviço de politicas sociais. Como cidadão estou preocupado com o rumo da educação (pública) e a forma leviana como este assunto tem sido tratado pela comunicação social e por muitos dos fazedores de opiniões. Adivinha-se o crescimento do ensino privado mas sobretudo o aparecimento de Escolas sem parelismo pedagógico com o ensino oficial mas que se afirmarão pela excelência das metodologias (e da capacidade de financiamento dos papás). (Carlos Brás) * Por causa das trapalhadas que o leitor Bártolo descreve, na definição das qualificações para o ensino especial, a minha mulher, que se dedica a esse tipo de ensino há muitos anos, que acaba de ganhar um concurso municipal por um projecto que apresentou para a recuperação de crianças com dificuldades especiais na sua àrea de escola, que tem um mestrado em Ciências de Educação e também uma dessas pós-graduações “rápidas” em ensino especial, que tem já um total de 23 anos de serviço, a minha mulher baralhou-se no preenchimento das suas qualificações no boletim de concurso e foi excluída...!!! Para o não é bem possível que fique no desemprego! (José Luís Pinto de Sá) (url) 13.6.06
COISAS SIMPLES
![]() (John Frederick Peto) (url) LENDO / VENDO /OUVINDO (BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES) (13 de Junho de 2006) ![]() __________________________ Nuvens como nunca as tinhamos visto: a Tempestade Tropical "Alberto" vista pelo novo satélite Cloudsat da NASA. Os "olhos" da meteorologia nunca mais vão ser os mesmos.
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EARLY MORNING BLOGS 792
1er janvier Enfant, on vous dira plus tard que le grand-père Vous adorait ; qu'il fit de son mieux sur la terre, Qu'il eut fort peu de joie et beaucoup d'envieux, Qu'au temps où vous étiez petits il était vieux, Qu'il n'avait pas de mots bourrus ni d'airs moroses, Et qu'il vous a quittés dans la saison des roses ; Qu'il est mort, que c'était un bonhomme clément ; Que, dans l'hiver fameux du grand bombardement, Il traversait Paris tragique et plein d'épées, Pour vous porter des tas de jouets, des poupées, Et des pantins faisant mille gestes bouffons ; Et vous serez pensifs sous les arbres profonds. (Victor Hugo) * Bom dia! (url) 12.6.06
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: VOZES VINDAS DAS ESCOLAS (4ª série) ![]() (...) Perguntem a qualquer professor digno desse nome se ele quer ser avaliado. E a resposta é SIM! Claro que sim! Mas qual é o bom profissional que investe na carreira e que quer ter o mesmo Satisfaz automático num relatório para progressão na carreira que aquele que vê o ensino como uma forma de ganhar dinheiro "para os alfinetes"? Qual é o bom profissional que investe muito do seu tempo e da sua energia para querer depois ser "metido no mesmo saco" daquele que pouco ou nada faz??? Qual é o professor digno desse nome que gosta de ganhar o mesmo (ou ainda menos, se estiver num escalão inferior) do que aquele que é bem pior profissional do que ele? Será este país tão estúpido e tão cegamente arrogante para achar que pode existir sem professores? Será este país tão estúpido para achar que a forma de limpar o ensino dos maus profissionais (que existem, claro que sim! E não contem comigo para ser corporativista...) é atacar todos os professores, atribuir-lhes as causas de todos os males da sociedade, desde os meninos que se drogam porque os professores faltam (ouvi isto da boca do senhor Albino, da Confederação de Pais) até aos de falta de produtividade do país? Será este país tão estúpido e tão arrogante que entenda poder não reconhecer as horas que os professores dedicam a preparar as aulas, a pensar em como “agarrar” aquele aluno que anda meio perdido, a telefonar vezes sem conta para os pais do outro miúdo que anda completamente desorientado, a gastar dinheiro do seu bolso em materiais de apoio, a levá-los em visitas de estudo a ver museus, teatros, exposições, conhecer coisas que muitos pais, confortáveis nos seus fins de semana de centro comercial, não estão para fazer? Já agora, para os que dizem que os professores só querem passear, pensem que o podemos fazer com os nossos filhos e amigos, sem ter que passar 12 horas fora de casa de um dia que, passado na escola, seria de muitas menos e sem a responsabilidade de tomar conta dos filhos dos outros. Será este país tão estúpido e tão arrogante que esqueça que são os professores, como é, obviamente, sua função e responsabilidade, a dar a todos os alunos o melhor das ferramentas de que dispõem, sejam elas científicas, intelectuais, sociais, de cidadania e de tudo o mais que possam imaginar e entender necessárias? Será este país tão estúpido e tão cegamente arrogante que não perceba que sem os professores que tentam tirar os miúdos do miserabilismo intelectual em que muitos vivem (independentemente da classe social) teremos cada vez mais uma escola de pobrezinhos onde, para não haver insucesso, devo partir daquilo que "a criança" é e sabe, descer ao encontro dos seus interesses, por causa do insucesso, etc,etc,etc... (como isto dá jeito aos donos dos colégios...)? Assim, ajudamos os “pobrezinhos” a cumprirem o seu (pré)desígnio na vida... Será este país tão estúpido que não perceba que sem os professores que se estão a borrifar para estes determinismos sociais e que tanto trabalham, se for essa a vontade do aluno, para ser médico o filho do cozinheiro como o do deputado, teremos cada vez mais o país da elite, a quem tudo é possível, e o dos outros, fechados e condenados ao atraso e a perpetuarem o meio onde tiveram o azar de nascer? Será este país de "professores de bancada" (pois, tal como no futebol, todos parecem saber mais do que é ser professor do que nós, pelos vistos os mais incompetentes de todos os profissionais deste país!) capaz de parar de gastar o tempo (tempo este em que muitos se poderiam dedicar, digamos, a educar os próprios filhos, a ir à escola saber deles, a dedicar-lhes uns minutos, sei lá...!) a fazer analogias entre as empresas privadas e os professores? Será este país tão estúpido e tão cego que não veja, nas empresas, as políticas de incentivo, os prémios de produtividade, os seminários de motivação, os telemóveis de serviço, os computadores da empresa para trabalhar em casa e, sem ir ao mais óbvio, os ordenados? Será este país tão estúpido que não entenda que os professores são profissionais qualificados, não têm o 9º ano nem tão só o 12º? Portanto, sejam pelos menos honestos (se não conseguirem ser inteligentes!) nas comparações. Será este país tão estúpido e tão cegamente arrogante? Quantos de vós não devem muito do que são a professores que tiveram? Ou os vossos filhos? Será o meu país tão cego e tão arrogante??? Assim, perguntem a qualquer professor digno desse nome se ele que ser avaliado... E ele responde-vos que SIM! O que não queremos mais é ser constantemente humilhados, culpabilizados, achincalhados, denegridos, tratados sem a consideração, o respeito e a inteligência que a minha profissão e o meu profissionalismo me concedem o direito de exigir! E, citando Almada Negreiros: UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D'INDIGENTES, D'INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO! ... cada geração tem o Dantas que merece! Mas também tem nas suas mãos o poder de o reduzir à sua insignificância... Até porque do Dantas, o verdadeiro, o Júlio, não fora o testemunho/desabafo do Almada Negreiros, e já se teria dissolvido na poeira dos tempos... 5 de Junho de 2006 (Ana Cristina Mendes da Silva, professora do departamento de Língua Portuguesa do quadro de nomeação definitiva da Escola Secundária da Amadora) * Sou professor do ensino primário (do 1º ciclo na terminologia actual), tenho 49 anos de idade e cerca de 28 de serviço (20 dos quais na educação especial). Ao longa da minha vida profissional sempre tentei estudar e aprender. Antes da "formação em serviço" fornecida pelo ministério paguei do meu, na altura, magro salário muitas inscrições em cursos e seminários. Em 1988 tive a oportunidade ir estudar a tempo inteiro durante 2 anos (DESE em Educação Especial na ESE do Porto) e em 1998 fiz um mestrado em educação na Universidade do Minho. Sempre defendi a avaliação das escolas e dos professores. Mas, neste momento, sinto-me ofendido pela ministra.(...) É muito mais fácil avaliar os professores do que avaliar as escolas. Mas, uma boa avaliação das escolas, com medidas de acompanhamento para as escolas com problemas, como fazem os ingleses, permitiria melhorias na qualidade da escola. Temo bem que avaliando-se apenas os professores o único resultado que se conseguirá é, no curto prazo, travar as progressões automáticas e contribuir para a redução do défice. Devo dizer que não sou simpatizante do PSD, concordei com algumas das medidas do Dr. David Justino e discordei de outras, mas tenho de reconhecer as medidas eram articuladas e tinham uma lógica. Voltando à actual ministra continuo sem perceber a atitude dos sindicatos (talvez seja por isso que deixei de ser sócio há mais de 10 anos). Esta equipa ministerial tem mostrado uma incompetência escandalosa na implementação de algumas medidas e, sobre isso, os sindicatos nada dizem. Passo a citar apenas alguns exemplos: - Foi criado um quadro de professores de educação especial. Até agora estes professores eram colocados de acordo com o nível de ensino correspondente à sua formação inicial. No novo quadro são criados 3 grupos de docência correspondentes a diferentes tipos de deficiência dos alunos. A estes lugares podem concorrer professores de qualquer grau de ensino (desde o jardim de infância ao secundário), desde que sejam especializados. Esta especialização é conferida pela frequência de uma pós graduação de cerca de 300 horas. Ou seja, como não se diferenciaram as vagas por níveis de ensino, pode acontecer que num agrupamento sejam colocadas apenas educadoras de infância que terão de apoiar alunos até ao 3º ciclo. Noutro podem ter sido colocados só professores de 3º ciclo, que terão de apoiar todos os alunos, incluindo crianças de jardim de infância e, eventualmente, até bebés. Devo esclarecer que não estou minimamente preocupado com os professores. Estou preocupado com as crianças, sobretudo as mais pequenas porque esses anos são fundamentais para o seu desenvolvimento. Na educação especial quanto mais cedo começa uma intervenção de qualidade mais hipóteses há de minorar os problemas da criança. - Neste "famoso" concurso os professores só poderiam concorrer se tivessem a especialização, mas a nota dessa especialização não contava para a sua graduação profissional. A experiência profissional em educação especial também não. Aos professores era perguntado se possuíam pelo menos 365 dias de serviço na educação especial. Assim, um professor com 20 anos de serviço total que tem apenas um ano de experiência em educação especial fica à frente de outro com 19 anos e 364 dias de serviço total que tem 12 anos de experiência em educação especial. - Para "completar o ramalhete" o despacho que regulamentava as habilitações foi acrescentado 3 vezes, duas delas durante o próprio concurso! - No final do ano lectivo anterior foi alterado à pressa o despacho 105 (não sei o ano), que regulamentava a educação especial, e foi substituído pelo Despacho n.º 10856/2005 que poucas alterações introduziu. Uma dessas alterações passou a ser a obrigatoriedade de os professores realizarem, em Maio, um relatório individual sobre cada aluno. Esse relatório seria validado pelas Equipas de Coordenação (ECAE) e enviado às direcções regionais que, por sua vez, o enviariam para o ministério. Foi definido um modelo de relatório e criado um formulário em Microsoft Word para o seu preenchimento. Pelo menos tomaram uma decisão sensata: o relatório seria enviado em formato electrónico. - No presente ano lectivo comecei, em devido tempo, a perguntar se haveria alterações ao modelo do relatório. Foi-me dito que aguardasse. Há cerca de duas semanas finalmente chegou o novo modelo. Agora é feito on-line (é o choque tecnológico). Até aqui tudo bem, o problema é que atribuíram a mesma password aos professores de dois concelhos (abrangido pela mesma ECAE) e o nome de utilizador é o da ECAE. Ou seja, qualquer professor destes concelhos, ao aceder ao sistema tem acesso não só ao nome completo das crianças, como também ao que os colegas escreveram. Estou com um problema de consciência grave: tenho de fazer os relatórios mas, simultaneamente, queria proteger os meus alunos e as suas famílias. Os pais e as crianças com problemas não têm direitos? Podia continuar a citar um conjunto de incidentes em que há ordens e contra ordens. A ministra ou um dos seus secretários de estado reúnem com os conselhos executivos e dão uma ordem. As coisas funcionam mal no terreno, há contra ordem. Desde há muitos anos que não se sentia uma tão grande instabilidade nas escolas. Felizmente decidi deixar a educação especial e voltar ao ensino regular, e digo felizmente apesar de ir ganhar menos e ter mais 5 horas de aulas por semana. A propósito de horários, a ministra voltou à ideia de, "nos agrupamentos em que não haja outros meios", nos pôr a servir de babysiter aos meninos após as 5 horas diárias de aulas. Quando é que preparo aulas e corrijo trabalhos? Nunca me preocupei se excedia as 35 horas semanais mas, este ano, se me transformarem em babysiter passarei a ter cuidado para não as exceder. (Vítor Bártolo) (url) COISAS DA SÁBADO: UMA DIVERTIDA E A SEU MODO FABULOSA REPORTAGEM DA VELHINHA QUE TINHA UMA ESTUFA DE CANABIS EM CAVEZ No Correio da Manhã dominical a história de uma velhinha de Cavez que tinha umas “sementinhas” num saco e resolveu “estrumar as batatinhas”. Tudo assim gentil e em diminutivos. As “sementinhas” eram afinal de uma “coisa perigosa para os homens”. “Ora não quer ver isto?” perguntou a velhinha quando lhe entrou a GNR em casa. Queriam ver queriam e disseram-lhe que aquilo servia para fazer “charros”. “Charros?! Que é isso? Não sei , não senhora. Chicharros? Peixe para comer…”, disse D. Carmo do alto da sua magnífica inocência. Ainda há momentos assim. Eram era tomates a crescer, na estufa (eu por mim punha as mãos no fogo pela D. Carmo se não fosse a estufa…). Mas os vizinhos já não sabem o que é um coração puro e malévolos diziam “Então uma mulher daquelas não via que aquilo não podia ser tomates!”. Maldosos, ainda a planta não tinha frutos, vizinhos, só folhas! E assim vamos no interior profundo com a chegada das culturas para o mercado, numa agricultura de subsistência.
(url) LENDO / VENDO /OUVINDO (BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES) (12 de Junho de 2006) ![]() __________________________ A Pátria com que estamos sempre a encher a boca, mas que não usamos. Montra de um alfarrabista do Porto, hoje: (Gil Coelho) * Estranha noção de serviço público: a RTP1, no telejornal da uma, demorou vinte e um minutos a perceber que um noticiário é suposto ser para dar notícias e não transmitir uns cidadãos aos saltos vestidos de vermelho e verde. Depois, despachou dez minutos de notícias à pressa e voltou aos cidadãos no seu exercício nobre de gritar. Os defensores da televisão estatal estão sempre a encher a boca com a diferença do serviço público face aos ignaros dos privados. Vê-se. * E não é que todos os comentadores se tornaram comentadores desportivos! A Futebolândia já tem "pensamento único", que escorre da televisão, dos jornais, dos blogues, das cabeças como se viesse da Cornucópia da Abundância. Estamos em plena "felicidade" pelo Esférico. Saltem muito, é o que vos desejo. A sério, saltem, saltem, pode vir daí uma desorganização das ideias que seja salutar à Pátria. Duvido, mas não excluo nenhum milagre. (url) COISAS DA SÁBADO: OS INTELECTUAIS
Mas, uma vez intelectual, sempre intelectual: entre as conversações secretas desclassificadas há uma em que Kissinger coloca objecções ao processo de democratização de Espanha, manifestando-se contra a legalização do Partido Comunista. Às tantas comentou naquilo que pretendia ser um elogio, ainda sob reserva, ao Rei de Espanha: “o Rei ainda não mostrou a capacidade que têm os Bourbons para a auto-destruição”. Sabia muito, o hoje velho Kissinger. E de facto Rei não mostrou mesmo essa capacidade suicidária dos Bourbons: contrariou Kissinger, legalizou o PCE, e foi fundamental para vencer o golpe dos saudosistas de Franco. Como Bourbon não está mal. (url)
© José Pacheco Pereira
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