O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: VOZES VINDAS DAS ESCOLAS (6ª série e final)
Não podia estar mais de acordo com a sua crítica sobre a Futebulândia e os excessos dos vários canais televisivos no tempo que a este tema dedicam. Perdoe-me a franqueza, mas o mesmo não se passa com o Abrupto e o Professulândia ? Como antigo leitor, não me reconheço num Abrupto a dar abrigo ao discurso da compaixão.
Que não tem nada de mal em si mesmo e é uma decisão pessoal e soberana. Mas a sua repetição torna o tema trivial, transforma o objecto de amor numa má imagem.
Retornamos ao escapismo meu caro Abrupto: como escapar ao escapismo ??
Ouçamos Barthes:
A-Realidade. Sentimento de ausência,fuga da realidade pelo sujeito apaixonado face ao mundo.
Para me salvar da a-realidade - para retardar a sua chegada - , tento ligar-me ao mundo pelo mau humor. Sustento o discurso contra qualquer coisa (...)
- Fragmentos de um Discurso Amoroso, Edições 70, s.d. ,tradução Isabel Gonçalves
(João Costa)
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Pergunto-me se vozes vindas das escolas pertencem sempre aos professores. Eu sou aluno do último ano do secundário numa escola norueguesa – uma experiência de um ano, após 11 anos de escola em Portugal – e sou filho de uma professora de matemática do 2º ciclo que sente a sua profissão a 100% e a traz muitas vezes para casa, discutindo as novas reformas e as que estão por fazer, os casos pessoais de alunos que precisam de ajuda, procurando sempre novas ideias para pôr em prática e para tentar catalisar os interesses dos estudantes para a matemática – utilizando, para além dos livros, de jogos, truques de magia, representacões teatrais, etc. Considero que tenho assim uma perspectiva singular sobre a educação em Portugal, especialmente em comparação com a Noruega (que é, afinal, o 1º país do ranking da ONU), e é por isso que escrevo – e porque sou também uma voz dentro da escola.
Já li aí que a obrigatoriedade do ensino faz com que alunos "incorrigíveis" tenham que permanecer na escola até aos 16 anos; mas eles não são "incorrigíveis". Uma diferença substancial entre Portugal e a Noruega, é verdade, é que aqui 98% da população pertence à classe média, o que significa geralmente que tem boas condições de estudo em casa. As condições em que o estudante vive, os pais, o ambiente familiar, são extremamente importantes para a educação de um aluno - a educa ção não passa simplesmente pelos programas educativos e pelos professores, mas por um desenvolvimento social a todos os níveis. Ainda assim é mais que provável que Saramago tenha razão quando diz que ler e gostar não é para todos. E gostar de matemática também não é para todos. E é difícil mudar alunos que, por uma razão ou outra, foram "desviados". Mas é possível, e é dever de todo o professor acreditar nisso. Toda a criança e adolescente tem ou deve ter o direito de estudar e de ter professores que acreditem nele, custe o que custar.
Nem tudo é perfeito na Noruega. Durante os primeiros 10 anos de escolaridade, todos os alunos passam, independentemente das notas. É fonte de uma certa preguiça – aos 14 anos eu estudava muito mais que o meu irmão de acolhimento que tem precisamente essa idade, que apesar de tudo tem boas notas. Toda a gente da minha turma estudava muito mais. Mas apesar de tudo não se ouvem muitas críticas por aqui. É assim que é. E essa é uma diferença fundamental entre os dois sistemas de ensino: em Portugal as reformas, aqui ou ali, chegam demasiadas vezes. Imaginem o dinheiro que se pouparia em manuais escolares se ainda púdessemos usufruir dos de há dez, quinze anos anos atrás (por exemplo, os alunos podiam vender os livros mais baratos em segunda mão, como aqui na Noruega) – mas não, os programas estão sempre a mudar, recuam e depois voltam a ter o mesmo conteúdo. Aparecem provas de afericão de que os alunos ignoram o objectivo, exames para o 9º e 6º anos, os tempos escolares passam de 50 para 45 minutos, mas os blocos de 90 minutos não têm intervalos no meio, os programas são completamente modificados – eu faco parte de um ano de transicão em que tínhamos o horário do ano anterior mas o programa do ano seguinte. Em Portugal tudo está em perfeita mutação. Não existem, pelo mundo fora, sistemas de educação perfeitos. Existem sistemas de educação que dão os seus frutos após algum tempo, que precisam de aprender com os erros e que se vão refinando. Eu senti-me, muitas vezes, genuinamente confuso com estas mudancas abruptas na educacão em Portugal.
Por fim, realço outro pormenor: na Noruega as escolas têm muito mais independência em relação ao Estado, por exemplo no que respeita à capacidade de decidir sobre o pessoal docente. De despedir e contratar. Em Portugal os professores são colocados. Nos milhares de professores desempregados existem muitos com mais qualidade dos que estão colocados. Não existe um sistema de avaliação eficaz dos professores; eles entram com a ajuda da nota do estágio, por exemplo, que depende muito do supervisor que arranjaram. E o outro factor que conta é a idade e o tempo de ensino. O que deixa os jovens no desemprego. Esse não é o maior problema para os estudantes – o mais problemático é que alguns deles são melhores dos que os que estão na escola. Porque na escola existem muitos professores "piores do que estudantes", que muitas vezes faltam às aulas e que fazem pouco mais do que recitar a matéria. Mas também existem muitos que gostam do que fazem, e que se esforcam pelos seus alunos – e esses, acredito, querem ser avaliados, querem a sua própria avaliacão.
Podia escrever mais, mas talvez já tenha dito demais, por isso concluo apenas que ser professor não é fácil, e não é aceitar apenas ter alunos que estudam muito e não têm problemas, mas aceitá-los a todos.
(André Carvalho)
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Todos sabemos que a escola não vai bem. Os alunos abandonam a escola muito cedo, com níveis muito baixos de escolaridade, não conseguindo adquirir competências mínimas, indispensáveis para um mundo de trabalho globalizado e cada vez mais exigente. A falta de qualificação, quer dos jovens, quer dos adultos, torna a nossa economia menos competitiva e, desta forma, irremediavelmente afastada dos índices de desenvolvimento que ambicionamos. Por outro lado, na última década, Portugal tem feito um enorme investimento público em educação. À conta disso, Portugal é o país da OCDE que maior percentagem da despesa corrente gasta em salários de professores, e onde os rácios de aluno por professor são os mais favoráveis da União Europeia. Por isso, seria de esperar que a escola apresentasse melhores resultados. Se isso não acontece é porque o problema é muito mais do que uma questão de meios. Há muito que o problema deixou de ser o dinheiro. Essa desculpa, usada por sucessivos governos para fugirem à responsabilidade de fazer o que deveria ser feito, já não serve. Pelo contrário, num país onde o estado gasta mais do que tem, seria injusto, numa altura em que o estado tem obrigatoriamente de cortar na despesa pública, que na área de educação se deixasse tudo como está, isto é, que se continuasse a por dinheiro na escola sem dela se exigir resultados e uma melhor gestão, racionalização e optimização de meios e recursos.
Serve tudo o que acima foi dito para enquadrar a proposta do ministério de revisão do Estatuto de Carreira Docente. Porque, como é óbvio, os professores não se podem colocar à parte destes problemas, muito menos fazendo-se de vítimas.
Para além da espuma que tem ressaltado da comunicação social, nomeadamente na questão da avaliação dos professores pelos pais e noutras questões técnicas passíveis de alteração mediante negociação com os sindicatos, interessa-me discutir a questão do princípio de avaliação dos professores. Devem ou não os professores ser avaliados? Devem ou não ser distinguidos os bons dos maus professores? Deve ou não haver consequências de uma avaliação?
Não querendo gastar muitas mais linhas a retratar a situação actual, parece-me evidente que o actual Estatuto de Carreira Docente não serve. Em primeiro lugar porque é injusto para os professores, tornando os bons e os maus todos iguais, ao premiar todos. Em segundo lugar porque não assenta em nenhuma lógica de resultados e de objectivos, não estimula os que mais se empenham, torna o sistema ineficiente. Em terceiro porque é economicamente incompreensível, permitindo que, indiscriminadamente, todos cheguem, de uma forma automática, ao topo da carreira.
Para existir qualidade no ensino tem de haver uma boa avaliação dos seus intervenientes. É assim com os alunos. Deve ser assim com os professores. A qualidade tem de ser premiada e tem de haver uma clara discriminação entre os bons e os maus professores. Actualmente, a profissão de professor proporciona inúmeras situações de não ser exercida. Depois de entrar na carreira é um descanso. Para alguns, a segurança de um emprego para a vida e a certeza de uma promoção automática, são as únicas coisas que os prendem à profissão. Muitos caem na rotina, no comodismo e no facilitismo que a carreira oferece. Até os bons professores se desmotivam e acabam por entrar nesta cultura descentrada do seu objectivo principal: o sucesso dos alunos. Por isso que, para bem dos alunos e dos bons professores, é urgente mudar. A escola precisa de voltar a ser credível e isso só é compatível com uma cultura de qualidade e exigência para todos, inclusive para os professores. Porque a escola pública existe por causa dos alunos, é neles que devemos centrar as nossas atenções, ainda que isso possa resultar na perda de direitos de alguns maus professores. Por muito que custe.
João Filipe Marques Narciso (Professor contratado / Setúbal)