O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: VOZES VINDAS DAS ESCOLAS (5ª série)
Como professor: uma grande parte de nós concordam com muito do que a Sra. ministra está a tentar alterar. No entanto, achamos que não era por aí que começávamos. Conclui-se rapidamente que nem o Ministério nem os sindicatos fazem ideia do que é a vida na sala de aula e na escola. Qualquer professor do activo sabe o que o ministério, em primeiro lugar devia alterar (pequenas medidas sem implicações financeiras) para que a escola fosse um local melhor e com resultados imediatos (perdoe-me a presunção). Por exemplo: sou director de turma há vários anos e, apesar dos esforços constantes, verifico que os pais, como muitos têm dito, nunca foram à escola (60 a 70%), e os que aparecem são dos alunos com melhores prestações..... Se todas as prestações sociais (abono de família, subsidio de desemprego e todos os outros) dependessem de uma informação do DT , concerteza que teríamos os pais na escola e isso era decisivo.
(António Barreira)
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A professora Ana Teresa Mendes da Silva começa por assumir que há professores bons (que gostariam de ser avaliados) e maus (os tais que ganham o mesmo que os outros a troco de muito pouco), mas depois desata a dizer que os professores (num todo) é que preenchem uma série de necessidades dos alunos que os seus pais (que considera também num todo) supostamente não satisfazem.
Gostaria que tivesse a ideia que os pais dos alunos sabem perfeitamente que há uns professores e os outros, assim como também eles próprios podem ser cuidadosos e esmerados ou desleixados e incompetentes. Gostaria de lhe descrever um professor que conheço por ser o de um filho meu: perto do topo da sua carreira e com fama de ser um bom professor, em dois anos não fez uma visita de estudo sequer; vai repetidamente ao médico e ao dentista (digamos semana sim, semana não, dentro do seu horário lectivo) e, além de faltar com frequência às 6ª feiras, só neste ano lectivo faltou ainda 2 períodos de 15 dias. Como tarefas não lectivas, e uma vez que a escola, por falta de instalações não dispõe de prolongamento de horário, foi incumbido de periodicamente colaborar no apoio ao refeitório da escola (1º ciclo) mas não o faz alegadamente porque o cheiro da comida lhe ficava nos cabelos. Chega a dizer aos alunos que está farto deles. Claro que este professor só pode ter medo de ser avaliado não só pelos pais dos alunos como também pela sua assiduidade e pelo seu projecto de trabalho.
Há dias li no Público um jornalista a indignar-se com a ideia de os pais participarem na avaliação dos professores, alegando que seria bonito por exemplo as famílias dos doentes avaliarem os médicos. Acontece que essa prática por acaso está prevista e começa a ser usada em algumas instituições de saúde. A avaliação da satisfação dos utilizadores dos serviços (que em Medicina não são só os doentes mas também os seus cuidadores) é uma componente essencial da avaliação da qualidade dos serviços, de saúde e não só. Não cabe na cabeça de ninguém que um médico (ou um professor) seja muito bom mas afinal a maioria dos utentes (ou dos pais dos alunos) não goste dele.
Ainda quanto às queixas de as promoções até ao topo da carreira não serem para todos, essa é a ordem natural das coisas: quantos funcionários de uma empresa chegam aos seus quadros superiores? Mesmo na função pública e na área em que estou, para um médico chegar ao grau de chefe de serviço tem de concorrer a um concurso com vagas limitadas que podem inclusive não ser ocupadas se os médicos candidatos não atingirem o nível desejado. São provas duras a que muitos nem sequer se submetem e, de entre os que se submetem, alguns ficam forçosamente pelo caminho.
As reacções em bloco desprestigiam os bons professores que se deviam querer distinguir dos outros. Sabemos que frequentemente trabalham em condições muito desfavoráveis prosseguindo por vezes objectivos mais ambiciosos que os que lhe seriam estritamente exigíveis. Todos tivemos professores desses e sabemos reconhecê-los. O que não é admissível é que as más condições de trabalho sirvam como desculpa para os que não cumprem, não se esforçam ou, simplesmente, não têm capacidade para mais mas querem, de qualquer forma, chegar tão longe como os outros.
(Mónica G.)
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Sem o brado mediático do encerramento de qualquer fábrica no litoral, uma verdadeira revolução está a ser operada no mundo rural. O distrito de Bragança vai perder este mês 225 escolas.
Retirada qualquer tentativa de problematizar o tema, duas simples conclusões, as aldeias nunca mais vão ser as mesmas e encerra também uma das últimas esperanças para o mundo rural!
(José Alegre Mesquita)
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Ao longo da vida tenho deparado resultados semelhantes aos observados em relação aos professores.
Será que tudo se pode resumir na frase: o sindicalismo de reivindicação salarial (ou equivalente) teve demasiado sucesso?
Será que se pode dizer que é justamente o sucesso do sindicalismo que matas as “conquistas alcançadas”.
Ou será que os alvos em que o sindicalismo se centra são inapropriados?
Ou, ainda, será que o sindicalismo, no que respeita aos professores, já deu o que tinha a dar? Será de se passar a algum tipo de nova fase?
Os professores não devem ser mercenários do ensino: se receberem, ensinam, não importa o quê ou como, ou em que condições (excluindo as salariais).
Diria que falta ainda uma discussão à volta da dicotomia autoridade/formas de a exercer para a tornar efectiva ou andamos todos a cuspir para o ar. De forma mais prosaica diria: desculpem lá, meus amigos, mas em matéria de disciplina o professor tem sempre razão o pouco que sobra são excepções que confirmam a regra.
(Henrique Martins)
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Hoje na versão em papel do Público o Ministério da Educação publica aquilo a que chama de edital. Este edital publicita o "Enriquecimento Curricular para o 1º ciclo" e o "plano da matemática para os 2º e 3º ciclos". Normalmente são publicados na "zona" dos classificados, mas esta é uma publicidade paga. Não seria a primeira vez é certo mas o que me pasma é o facto de o edital interessar apenas às escolas públicas. Ao que sei o ME possui hoje mais do que nunca de linhas próprias de comunicação com as escolas e mesmo com os executivos. Qual a necessidade de publicitar uma medida destas? Uma simples circular como tantas outras (com ordens vinculativas) não seria suficiente? É apenas publicidade e enganosa. É apenas mais uma evidencia da forma como o ME usa a comunicação social. Usa-a para vincular uma imagem distorcida das suas politicas educativas. Hoje como nunca o assunto "professores" vende mais que o assunto "escola" os senhores professores estão na capa do Expresso, nos jornais diários e pasme-se até nas revistas cor-de-rosa. Pena é que todos falam de bancada e sem grande ponderação. Apenas e só por terem andado na escola e recordarem este ou aquele docente acham que sabem como corrigir o sistema. Será demasiado tarde quando se perceber que estas politicas não ajudam os professores a serem melhores, pelo contrário. Que não melhoram o sistema, pelo contrário. Na verdade não existe uma verdadeira politica educativa ou existindo está orientadada claramente pelas necessidades de conter a evolução da massa salarial e o seu peso no orçamento.
As politicas educativas deste governo explicam-se em poucas linhas:
Não há dinheiro no mealheiro (facto)
A carreira dos docentes implica um aumento da massa salarial exponencial tendo em conta a actual carreira baseada na experiência (ou como dizem antiguidade);
O actual peso da massa salarial no orçamento da educação é de cerca 93% ( dados da OCDE já que o ME nunca mencionou os seus próprios números) e cerca de 58% das despesas fixas do estado.
Melhorar os índices de escolaridade (ainda que artificialmente) de modo a tornar mais atractivo o investimento no nosso país.
Para qualquer individuo que acompanhe a actualidade compreende que este é um "Estado à Rasca" (não rasca - embora também) e que a forma mais rápida e eficaz de alcançar o equilíbrio financeiro será actuar onde as medidas surtam maior efeito neste balanço.
Estamos assim perante uma necessidade isto eu compreendo embora como professor não me agrade. Qualquer um compreende desde que lhe expliquem. O que eu não entendo é que se vire toda uma sociedade contra os professores e se procure encapotar medidas económicas como educativas. Nenhuma das medidas até agora tomadas irão melhorar os resultados dos alunos e têm contribuído para a degradação das condições de trabalho dos professores e isto tem consequências.
O que agrava a situação é justamente o facto de as condições de trabalho dos docentes se virem a degradar de alguns anos a esta parte. Os sindicatos devem exigir do ME condições de trabalho para os docentes e saírem do caminho relativamente às politicas educativas de modo a não serem responsabilizados pelas mesmas como hoje acontece. Devem exigir, por exemplo, que todo o tempo passado na escola seja contabilizado ou como componente lectiva ou como componente não lectivas (actualmente um professor passa cerca de duas horas na escola que não são contabilizadas - são os chamados intervalos cuja necessidade não pode ser colocada em causa), para além de uma generalizada má gestão de recursos evidente nas escolas. Pode parecer mesquinho mas o ME cortou em 5min as aulas e pôs os professores a trabalhar mais dois tempos (outras duas horas) de borla. O tempo é um aspecto importante nesta profissão. Os professores devem exigir condições de trabalho de modo a concretizarem as medidas do ministério e não passar a vida a contestar essas mesmas politicas.Eu sou professor e faço o que me mandam apenas quero condições para o fazer. A responsabilização dos alunos com consequências claras devem também ser implementadas. Não faz sentido nenhum não partilhar responsabilidades. As escolas não podem continuar a ser mais um braço do polvo do Estado Social(ista). A escola deve afirmar-se e ter à sua volta os meios e recursos para tal e não o contrario ao estar ao serviço de politicas sociais. Como cidadão estou preocupado com o rumo da educação (pública) e a forma leviana como este assunto tem sido tratado pela comunicação social e por muitos dos fazedores de opiniões. Adivinha-se o crescimento do ensino privado mas sobretudo o aparecimento de Escolas sem parelismo pedagógico com o ensino oficial mas que se afirmarão pela excelência das metodologias (e da capacidade de financiamento dos papás).
(Carlos Brás)
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Por causa das trapalhadas que o leitor Bártolo descreve, na definição das qualificações para o ensino especial, a minha mulher, que se dedica a esse tipo de ensino há muitos anos, que acaba de ganhar um concurso municipal por um projecto que apresentou para a recuperação de crianças com dificuldades especiais na sua àrea de escola, que tem um mestrado em Ciências de Educação e também uma dessas pós-graduações “rápidas” em ensino especial, que tem já um total de 23 anos de serviço, a minha mulher baralhou-se no preenchimento das suas qualificações no boletim de concurso e foi excluída...!!!
Para o não é bem possível que fique no desemprego!