ABRUPTO

12.6.06


COISAS DA SÁBADO: OS INTELECTUAIS

Henry Kissinger

têm todas as razões para a má fama de que gozam em todos os sítios menos a França que os gerou. Um bom exemplo do mal dos intelectuais está à vista nos papéis desclassificados de Kissinger que só agora estão disponíveis. Sobram poucas dúvidas que Kissinger foi um dos grandes diplomatas do século XX, um homem que marcou a diplomacia da grande potência americana como poucos. Ele não era um homem de negócios amigo de um Presidente como alguns dos seus colegas, alguns dos quais também bons diplomatas. Kissinger era um intelectual de sólidos méritos, um académico, um estudioso da história do século XIX e um teórico das relações internacionais. Era também o protótipo do político pragmático e realista, uma encarnação viva da realpolitik, defendendo acima de tudo os interesses nacionais dos EUA. No entanto, não lhe faltava visão, como se viu em todo o processo “chinês” de Nixon.

Mas, uma vez intelectual, sempre intelectual: entre as conversações secretas desclassificadas há uma em que Kissinger coloca objecções ao processo de democratização de Espanha, manifestando-se contra a legalização do Partido Comunista. Às tantas comentou naquilo que pretendia ser um elogio, ainda sob reserva, ao Rei de Espanha: “o Rei ainda não mostrou a capacidade que têm os Bourbons para a auto-destruição”. Sabia muito, o hoje velho Kissinger. E de facto Rei não mostrou mesmo essa capacidade suicidária dos Bourbons: contrariou Kissinger, legalizou o PCE, e foi fundamental para vencer o golpe dos saudosistas de Franco. Como Bourbon não está mal.

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© José Pacheco Pereira
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