| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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15.6.06
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: PORTUGAL NUM LIVRO BRASILEIRO
Paulo Francis, Trinta Anos Esta NoiteNoutra altura irei ao livro propriamente dito, mas, para ilustração do nosso ego nacional fictício (agora empolado pela mudança do país para a Futebolândia), aqui vão as referências avulsas a Portugal e aos portugueses, num livro de memórias escrito por um jornalista e escritor brasileiro. As referências são interessantes porque são avulsas, a intenção do livro é autobiográfica e memorialística, mas igualmente reflexiva sobre o Brasil e os brasileiros a pretexto do golpe militar de 1964. Portugal aparece muito de relance, o que é a primeira conclusão: Portugal conta pouco para se poder falar do Brasil. E, quando conta, é assim: * O livro de Paulo Francis é uma brilhante reflexão sobre a sociedade brasileira. Li-o durante uma semana de férias no Rio de Janeiro. Não consegui sair do quarto do hotel até o terminar, tal é a clareza de ideias e sentido autocrítico do autor. Impressiona que o livro tenha sido escrito em 1994 e esteja tão atual, num país que mudou tanto desde então. Se as referências a Portugal são ácidas e escassas, a crítica ao Brasil é demolidora e assusta de tão lúcida. É preciso coragem para ler este livro e continuar a acreditar no país. Reduzi-lo às impressões sobre Portugal é um equívoco. Realmente, a elite brasileira, ademais um conceito bastante vago, não tem Portugal como referência. Seria estranho que assim fosse, uma vez que a elite portuguesa se divide entre referências intelectuais estrangeiras, precisamente as mesmas que servem de modelo ao Brasil. Além disso, qualquer pessoa que conhece o Brasil, não apenas o país das férias tropicais, sabe que as únicas regiões do país que conseguiram desenvolver sociedades mais ou menos próperas e instituições típicas de países desenvolvidos, foram aquelas onde a colonização portuguesa é pouco importante. Recomendo a leitura de um livro muito bom, publicado recentemente em Portugal, chamado "O Império à Deriva". É sobre o reinado de D. João no Brasil. Ajuda a entender o Rio de hoje e, melhor ainda, o Portugal de sempre. Se a imagem que o Brasil faz hoje de Portugal não é aquela que o nosso ego gostaria, é todavia melhor do que aquela que temos de nós próprios, pelo menos em tempo de depressão nacional. Basta ler as colunas de opinião do Público. Apenas um comentário final: é muito mais fácil ser Português aqui do que Brasileiro em Portugal. Não se deixem enganar pelas aparências. Até porque no Brasil as coisas nunca são exatamente o que parecem. (Vitor Salvador Picão Gonçalves, Portuense, Professor da Universidade de Brasília) * Não há uma única ex-colónia francesa, holandesa, alemã ou espanhola que apresente razoáveis desenvolvida. Não há sequer uma que seja mais desenvolvida do que o Brasil - talvez a Costa Rica..... e a sua meia dúzia de habitantes.... Quanto às ex-colónias só temos quatro mais desenvolvidas do que o Brasil, a Nova Zelândia, a Austrália, os EUA e o Canadá. Todos países em que as zonas desenvolvidas são de clima temperado tipo europeu, e onde foi bastante fácil transferir tecnologia agricola da Europa para as colónias - desde sementes até ao gado - ou tente um inglês levar gado e as culturas do seu clima para o Brasil para ver a produtividade que obtem... Está até o Brasil à frente da África do Sul...país onde a emigração "wasp" teve o poder até há uma década. O exemplo de desenvolvimento das restantes colónias mostra que os portugueses foram o povo que melhor interiorizou os custos de adaptação dos seus processos, metodologias e culturas a climas tropicais. Essa conversa de brasileiro só mostra uma enorme ignorância sobre o mundo e sobre ele próprio, porque sejamos francos, já são independentes há 184 anos.....e perante tanta estupidez só mesmo o desprezo de quem tem um passaporte europeu - que é o que as elites brasileiros mais pena têm de não ter. (João) * Há um enorme vazio de estudos sistemáticos das representações que persistem na actualidade sobre a presença colonial portuguesa nos diferentes espaços. Em África, por exemplo, estudos/pesquisas que versem sobre o pensamento social, sobretudo numa perspectiva de psicologia social e que fujam, de algum modo, aos modelos analíticos normalmente usados no estudo das sociedades «tradicionais» pelos antropólogos (nada tenho contra os antropólogos, pelo contrário), são praticamente inexistentes. Reduzir as representações sobre a presença colonial portuguesa a amor/ódio; as «elites» e os outros; etc. sabe a pouco, pelo menos naquilo que a África diz respeito. Quanto ao «portuga» do Brasil, acrescento que não se detecta nada de semelhante em Moçambique onde tenho feito trabalho de campo (quiçá em África). A relação é representada como que num patamar de amor/ódio, mas sem a desvalorização cultural do «outro» (ex-colono). Outra nota é a de que no caso de alguns espaços em Moçambique, como Tete, quando se fala do colono português surge sistematicamente em contraponto ao inglês e isso não se reduz ao «mau» versus o «bom». Parece-me também que a exorcização dos fantasmas da colonização está melhor consolidada nos ex-colonizados do que nos ex-colonos. Envio excertos de entrevistas realizadas em 1998 com cidadãos comuns das províncias de Maputo, Nampula e Tete (espaços urbanos e rurais) e que podem ajudar a pensar. Os entrevistados foram no geral homens adultos. É um trabalho que ainda está em andamento numa nova versão, pelo que se dispõem de outros dados. Disponibilizar o que se segue «a cru» pode originar acusações imediatas de «neo-colonialismo», «saudosismo» ou o que seja. Mas arrisco: “Serviços forçados. Fizeram isso. Mas estavam-nos a ensinar (...). Para termos uma noção direita.”; “O branco, até agora branco, muita gente que vivia nesse tempo está a chamar do branco, porque o branco ele batia, mas dava qualquer coisa a você saberes.”; “Nessa altura (...) havia algum sofrimento porque aquele que fosse trabalhar, quando faltasse um dia, era apanhado, era dado porrada. E... sabendo que o benefício era para ele mais tarde, mas tinha que disciplinar a pessoa.”; “Eles [os mais velhos] sempre falam, dizer que os colonos sempre nos educaram para andarmos asseados. Alguns... os nossos bisavós para pôr sapato era preciso ser obrigado.”; “Havia coordenação [entre nós e os portugueses]. (...) Davam palmatória para educar. Isso da escola era educação que hoje estamos a gostar. (...) Levei [muitas reguadas]! (...) Era para o meu benefício. Hoje já estou melhor. Já estou a receber. Já estou a ganhar o pão.”; “Para mim não abusou [o português].”; “(...) o colono proibia fazer aguardente aqui, tradicional (...) em parte cheguei de compreender hoje que estava a fazer bem porque as pessoas morriam com aquela aguardente porque o ácido era mais exagerado, não tinha limite.”; “(...) naquele tempo tinha quarta classe. Era limite do... do indígena. (...) era tempo de boas coisas também para nós, porque não sabia os estudos.”; “Eu gostei [do tempo colonial]. (...) Os mais novos são sempre... como até hoje nos livros só fala escravatura, escravatura, escravatura (...) e não souberam como viveram com... com os portugueses. Houve escravatura sim (...). Para construir um país tem de haver sacrifício de nós todos.”; “Gostei [de viver com os portugueses] porque tinha acostumado também aqueles ali. Tinham razão.”; “Gostei muito de viver com os portugueses naquele tempo.”; “(...) tudo era bom para mim, por causa, quando estavam aqui os portugueses nós - ah! - era satisfeito.”; “Mas o... para mim o tempo colonial foi muito bom porque aquilo que você precisava na altura, apanhava com dinheiro.”; “Pela minha parte foi bom [o tempo colonial] porque (...) eu era consciente. Não mexe (...) não era ladrão (...). É por isso que eu acho que português, pela minha parte, era bom.”; “Eu tenho muita saudade. Até aquele tempo era muito lindo.”; - “Isso sim! Isso acontecia [o negro ser penalizado por discutir com um branco]. (...) Era uma injustiça, sim.”; “Há o colono que sempre... não queria... dar o negro como pessoa. Só dar o negro como... como animal.”; “(...) só vi os meus pais serem carregados, serem amarrados para ir trabalhar forçado (...) a outra coisa foi a cultura de algodão, de arroz, também foi muito rigoroso.”; “Mas mesmo assim, aquilo tudo já passou. Aquilo tudo já passou.”; “Não há problemas para dar. Hum. Já encerrámos tudo aquilo que então se deu. Aquela ferida que alguém me cortou. Já a ferida, já está... está já encerrado.”; “Outros gente dizem que tempo daquele [colonial] até às vezes alguns, nossos bisavós, carregavam as pessoas nos ombros.”; “Abria estradas assim com as mãos. (...) Não havia coisas boas. (...) éramos tratados como escravos não sei de onde.”; “Era mal... era mal por causa que tinha chibalo, trabalho nas linhas férreas e nas plantações. (...) Aprendi isso na escola.”; “Iam à força [para o chibalo, contratados]. (...) Não recebiam! (...) Quando saíam daqui, iam para a Beira. Depois, quando acabarem aquilo na Beira, doze meses, vinham para aqui. Chegavam na administração e diziam-lhes «Olha lá: toma lá a sua guia de imposto do seu dinheiro que trabalhou na Beira!»”; “Realmente isto [racismo] senti bastante. (...) E o negro nada tinha que atribuir. (...) numa pequena falha aparecia o branco e batia. (...) Portanto, um africano perante um branco não podia agir.” (Gabriel Mithá Ribeiro) * Embora o ponto de vista sobre a pequenez de Portugal visto do Brasil seja interessante, talvez não seja inútil frisar alguns aspectos que são bem conhecidos das pessoas mais familiarizadas com a vida cultural e mediática do Brasil: 1 - O clube de fãs de Maurício de Nassau é bastante grande entre as pessoas mais ou menos letradas do Brasil. Não é caso para menos, já que a casa de Nassau trouxe para o Norte do Brasil alguns indícios de modernidade, que contrastava com a decadência e o atraso que se tinham tornado característicos da Coroa portuguesa. Os mesmos motivos levaram grande parte da elite portuguesa de então (excepto a que morreu em Alcácer-Quibir) a saudar Filipe II de Espanha como rei de Portugal. 2 - A "xingação" brasileira com a figura do Português não é muito diferente da de muitos portugueses com o Alentejano, o Galego, o Preto, etc. Trata-se sempre de achincalhar um arquétipo de pessoa pobre, esforçada e mais ou menos desadaptada da realidade circundante. 3 - Quanto à «ilustração do nosso ego nacional fictício (agora empolado pela mudança do país para a Futebolândia)», o Brasil não tem de pedir-nos lições nessa matéria. O Brasil oscila sempre, aos olhos dos seus, entre o paraíso na Terra («Deus é brasileiro», etc.) e o pior dos países («o Brasil é uma merda», etc.). 4 - Só queria sublinhar como algumas das piores características da nossa «identidade» (irrealismo, sebastianismo, infantilização perante o Estado, ausência de ética de trabalho) existem muito parecidas no Brasil. Penso que era o Agostinho da Silva que dizia que «o Brasil é Portugal à solta». Para concluir, não me incomoda nada que o nosso pequeno rectângulo europeu,cuja única grandeza geográfica reside nas águas territoriais, seja visto do Brasil como uma nação de pouca monta. O que me incomoda é que não saibamos ser mais eficazes, mais realistas, mais «virtuosos» nas nossas relações com o Brasil, pois haver no mundo um país daquela dimensão de língua oficial portuguesa não é uma questão de somenos importância para o nosso futuro enquanto país. Nada disto me impede, com é óbvio, de «torcer» por Portugal em primeiro lugar e pelo Brasil, quando nós não estamos presentes. (Miguel Magalhães) * Irritam-me solenemente estes brasileiros que culpam o atraso, o fracasso, a corrupção deles e todos os seus defeitos em Portugal. Sinceramente, considero estes brasileiros ressabiados pseudo-intelectuais de retrete uns adolescentes malcriados que culpam tudo o que existe de mal nas gerações anteriores e que nada fazem para melhorar o seu presente estado, senão parar no café, fumar ganza e mandar bocas. Se calhar as colónias espanholas estão muito melhor? E as colonias inglesas, holandesas e de outros países europeus completamente exploradas, tanto a nível económico e humano não contam? Vão ser tapadinhos lá fora! Podemos der atrasadinhos mas se eles andam na miséria é porque nada fazem para sair dela. Se calhar o Brasil saiu ao Pai. (João) * Talvez ache esta pertunta muito estúpida, mas acha possivel que pessoas habituadas a climas frios e chuvosos como os holandeses se tivessem conseguido habituar ao tropical Brasil ? O mesmo vale seguramente para os ingleses e menos para os franceses... (Eduardo Tomé) * Há muitos anos que eu sei que os nossos ex-colonizados não gostam de nós. Descobri-o relativamente aos brasileiros há uns 22 anos, quando estava a doutorar-me, frequentava os laboratórios de “Automática” de Toulouse, e convivia com os muitos bolseiros brasileiros que por lá havia. Em Timor descobriu-o o meu pai, aos 80 anos, que como velho colono nunca alimentou nenhuma estima especial pelo país donde partiu há mais de meio século, e que por lá andou há pouco a fazer levantamentos hidroeléctricos prospectivos, por conta da ONU. Veio de lá a dizer ser óbvio que as poucas estradas e outras infra-estruturas existentes foram feitas sob a ocupação indonésia e que os jovens nem sabiam falar português... E descobri-lo com os africanos não requer mais do que acompanhar os media. Esta é, aliás, uma das razões por que, por muito tempo, achei uma quimera vã a nostalgia frequente que vê no “espaço lusófono” uma aposta estratégica para o nosso desenvolvimento económico. Sempre achei a ideia com muita da ilusão salazarista. Mas com o tempo mudei um bocado de opinião. Quem na realidade não gosta de nós, nesses países, são as élites. No Brasil, quase sempre os intelectuais, especialmente os de esquerda. Em Àfrica, os detentores de cargos políticos que os herdaram da Administração colonial. E em Timor, acho que todos gostam de nós. Porém, o que tenho visto é que a nível de povo, quer em turismo, quer em negócios, é diferente. Aí, descobre-se de facto que o império deixou marcas e afectos mútos. Talvez você precise de uma “descida ao povo” desse tipo para o descobrir, Pacheco Pereira. Deixe lá a leitura dos intelectuais e vá lá comprar ou vender qualquer coisa, ou descansar em Maceió, ou instalar um negócio, e vai ver... José Luís Pinto de Sá * Um romance brasileiro onde os portugueses (ou, melhor dizendo, um português) são encarados de um ponto de vista claramente mais positivo do que no de Paulo Francis é «O meu pé de laranja lima», de José Mauro de Vasconcelos. José Carlos Santos (url)
© José Pacheco Pereira
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