O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: VOZES VINDAS DAS ESCOLAS (4ª série)
(...) Perguntem a qualquer professor digno desse nome se ele quer ser avaliado. E a resposta é SIM! Claro que sim! Mas qual é o bom profissional que investe na carreira e que quer ter o mesmo Satisfaz automático num relatório para progressão na carreira que aquele que vê o ensino como uma forma de ganhar dinheiro "para os alfinetes"? Qual é o bom profissional que investe muito do seu tempo e da sua energia para querer depois ser "metido no mesmo saco" daquele que pouco ou nada faz??? Qual é o professor digno desse nome que gosta de ganhar o mesmo (ou ainda menos, se estiver num escalão inferior) do que aquele que é bem pior profissional do que ele?
Será este país tão estúpido e tão cegamente arrogante para achar que pode existir sem professores? Será este país tão estúpido para achar que a forma de limpar o ensino dos maus profissionais (que existem, claro que sim! E não contem comigo para ser corporativista...) é atacar todos os professores, atribuir-lhes as causas de todos os males da sociedade, desde os meninos que se drogam porque os professores faltam (ouvi isto da boca do senhor Albino, da Confederação de Pais) até aos de falta de produtividade do país? Será este país tão estúpido e tão arrogante que entenda poder não reconhecer as horas que os professores dedicam a preparar as aulas, a pensar em como “agarrar” aquele aluno que anda meio perdido, a telefonar vezes sem conta para os pais do outro miúdo que anda completamente desorientado, a gastar dinheiro do seu bolso em materiais de apoio, a levá-los em visitas de estudo a ver museus, teatros, exposições, conhecer coisas que muitos pais, confortáveis nos seus fins de semana de centro comercial, não estão para fazer? Já agora, para os que dizem que os professores só querem passear, pensem que o podemos fazer com os nossos filhos e amigos, sem ter que passar 12 horas fora de casa de um dia que, passado na escola, seria de muitas menos e sem a responsabilidade de tomar conta dos filhos dos outros. Será este país tão estúpido e tão arrogante que esqueça que são os professores, como é, obviamente, sua função e responsabilidade, a dar a todos os alunos o melhor das ferramentas de que dispõem, sejam elas científicas, intelectuais, sociais, de cidadania e de tudo o mais que possam imaginar e entender necessárias?
Será este país tão estúpido e tão cegamente arrogante que não perceba que sem os professores que tentam tirar os miúdos do miserabilismo intelectual em que muitos vivem (independentemente da classe social) teremos cada vez mais uma escola de pobrezinhos onde, para não haver insucesso, devo partir daquilo que "a criança" é e sabe, descer ao encontro dos seus interesses, por causa do insucesso, etc,etc,etc... (como isto dá jeito aos donos dos colégios...)? Assim, ajudamos os “pobrezinhos” a cumprirem o seu (pré)desígnio na vida... Será este país tão estúpido que não perceba que sem os professores que se estão a borrifar para estes determinismos sociais e que tanto trabalham, se for essa a vontade do aluno, para ser médico o filho do cozinheiro como o do deputado, teremos cada vez mais o país da elite, a quem tudo é possível, e o dos outros, fechados e condenados ao atraso e a perpetuarem o meio onde tiveram o azar de nascer?
Será este país de "professores de bancada" (pois, tal como no futebol, todos parecem saber mais do que é ser professor do que nós, pelos vistos os mais incompetentes de todos os profissionais deste país!) capaz de parar de gastar o tempo (tempo este em que muitos se poderiam dedicar, digamos, a educar os próprios filhos, a ir à escola saber deles, a dedicar-lhes uns minutos, sei lá...!) a fazer analogias entre as empresas privadas e os professores? Será este país tão estúpido e tão cego que não veja, nas empresas, as políticas de incentivo, os prémios de produtividade, os seminários de motivação, os telemóveis de serviço, os computadores da empresa para trabalhar em casa e, sem ir ao mais óbvio, os ordenados? Será este país tão estúpido que não entenda que os professores são profissionais qualificados, não têm o 9º ano nem tão só o 12º? Portanto, sejam pelos menos honestos (se não conseguirem ser inteligentes!) nas comparações.
Será este país tão estúpido e tão cegamente arrogante? Quantos de vós não devem muito do que são a professores que tiveram? Ou os vossos filhos?
Será o meu país tão cego e tão arrogante???
Assim, perguntem a qualquer professor digno desse nome se ele que ser avaliado... E ele responde-vos que SIM! O que não queremos mais é ser constantemente humilhados, culpabilizados, achincalhados, denegridos, tratados sem a consideração, o respeito e a inteligência que a minha profissão e o meu profissionalismo me concedem o direito de exigir!
E, citando Almada Negreiros:
UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D'INDIGENTES, D'INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO!
... cada geração tem o Dantas que merece! Mas também tem nas suas mãos o poder de o reduzir à sua insignificância... Até porque do Dantas, o verdadeiro, o Júlio, não fora o testemunho/desabafo do Almada Negreiros, e já se teria dissolvido na poeira dos tempos...
5 de Junho de 2006
(Ana Cristina Mendes da Silva, professora do departamento de Língua Portuguesa do quadro de nomeação definitiva da Escola Secundária da Amadora)
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Sou professor do ensino primário (do 1º ciclo na terminologia actual), tenho 49 anos de idade e cerca de 28 de serviço (20 dos quais na educação especial). Ao longa da minha vida profissional sempre tentei estudar e aprender. Antes da "formação em serviço" fornecida pelo ministério paguei do meu, na altura, magro salário muitas inscrições em cursos e seminários. Em 1988 tive a oportunidade ir estudar a tempo inteiro durante 2 anos (DESE em Educação Especial na ESE do Porto) e em 1998 fiz um mestrado em educação na Universidade do Minho.
Sempre defendi a avaliação das escolas e dos professores. Mas, neste momento, sinto-me ofendido pela ministra.(...) É muito mais fácil avaliar os professores do que avaliar as escolas. Mas, uma boa avaliação das escolas, com medidas de acompanhamento para as escolas com problemas, como fazem os ingleses, permitiria melhorias na qualidade da escola. Temo bem que avaliando-se apenas os professores o único resultado que se conseguirá é, no curto prazo, travar as progressões automáticas e contribuir para a redução do défice. Devo dizer que não sou simpatizante do PSD, concordei com algumas das medidas do Dr. David Justino e discordei de outras, mas tenho de reconhecer as medidas eram articuladas e tinham uma lógica.
Voltando à actual ministra continuo sem perceber a atitude dos sindicatos (talvez seja por isso que deixei de ser sócio há mais de 10 anos). Esta equipa ministerial tem mostrado uma incompetência escandalosa na implementação de algumas medidas e, sobre isso, os sindicatos nada dizem.
Passo a citar apenas alguns exemplos:
- Foi criado um quadro de professores de educação especial. Até agora estes professores eram colocados de acordo com o nível de ensino correspondente à sua formação inicial. No novo quadro são criados 3 grupos de docência correspondentes a diferentes tipos de deficiência dos alunos. A estes lugares podem concorrer professores de qualquer grau de ensino (desde o jardim de infância ao secundário), desde que sejam especializados. Esta especialização é conferida pela frequência de uma pós graduação de cerca de 300 horas.
Ou seja, como não se diferenciaram as vagas por níveis de ensino, pode acontecer que num agrupamento sejam colocadas apenas educadoras de infância que terão de apoiar alunos até ao 3º ciclo. Noutro podem ter sido colocados só professores de 3º ciclo, que terão de apoiar todos os alunos, incluindo crianças de jardim de infância e, eventualmente, até bebés.
Devo esclarecer que não estou minimamente preocupado com os professores. Estou preocupado com as crianças, sobretudo as mais pequenas porque esses anos são fundamentais para o seu desenvolvimento. Na educação especial quanto mais cedo começa uma intervenção de qualidade mais hipóteses há de minorar os problemas da criança.
- Neste "famoso" concurso os professores só poderiam concorrer se tivessem a especialização, mas a nota dessa especialização não contava para a sua graduação profissional. A experiência profissional em educação especial também não. Aos professores era perguntado se possuíam pelo menos 365 dias de serviço na educação especial. Assim, um professor com 20 anos de serviço total que tem apenas um ano de experiência em educação especial fica à frente de outro com 19 anos e 364 dias de serviço total que tem 12 anos de experiência em educação especial.
- Para "completar o ramalhete" o despacho que regulamentava as habilitações foi acrescentado 3 vezes, duas delas durante o próprio concurso!
- No final do ano lectivo anterior foi alterado à pressa o despacho 105 (não sei o ano), que regulamentava a educação especial, e foi substituído pelo Despacho n.º 10856/2005 que poucas alterações introduziu. Uma dessas alterações passou a ser a obrigatoriedade de os professores realizarem, em Maio, um relatório individual sobre cada aluno. Esse relatório seria validado pelas Equipas de Coordenação (ECAE) e enviado às direcções regionais que, por sua vez, o enviariam para o ministério. Foi definido um modelo de relatório e criado um formulário em Microsoft Word para o seu preenchimento. Pelo menos tomaram uma decisão sensata: o relatório seria enviado em formato electrónico.
- No presente ano lectivo comecei, em devido tempo, a perguntar se haveria alterações ao modelo do relatório. Foi-me dito que aguardasse. Há cerca de duas semanas finalmente chegou o novo modelo. Agora é feito on-line (é o choque tecnológico). Até aqui tudo bem, o problema é que atribuíram a mesma password aos professores de dois concelhos (abrangido pela mesma ECAE) e o nome de utilizador é o da ECAE. Ou seja, qualquer professor destes concelhos, ao aceder ao sistema tem acesso não só ao nome completo das crianças, como também ao que os colegas escreveram.
Estou com um problema de consciência grave: tenho de fazer os relatórios mas, simultaneamente, queria proteger os meus alunos e as suas famílias. Os pais e as crianças com problemas não têm direitos?
Podia continuar a citar um conjunto de incidentes em que há ordens e contra ordens. A ministra ou um dos seus secretários de estado reúnem com os conselhos executivos e dão uma ordem. As coisas funcionam mal no terreno, há contra ordem. Desde há muitos anos que não se sentia uma tão grande instabilidade nas escolas. Felizmente decidi deixar a educação especial e voltar ao ensino regular, e digo felizmente apesar de ir ganhar menos e ter mais 5 horas de aulas por semana.
A propósito de horários, a ministra voltou à ideia de, "nos agrupamentos em que não haja outros meios", nos pôr a servir de babysiter aos meninos após as 5 horas diárias de aulas. Quando é que preparo aulas e corrijo trabalhos? Nunca me preocupei se excedia as 35 horas semanais mas, este ano, se me transformarem em babysiter passarei a ter cuidado para não as exceder.