ABRUPTO

10.4.06


TEMPOS COMUNICACIONAIS E PROPAGANDA



O intervalo que passa entre o anúncio das medidas do governo e a sua execução efectiva e impacto real, favorece o efeito propagandístico. O que “passa” nas sessões de anúncio, cuidadosamente preparadas por especialistas de relações públicas e assessores de comunicação, onde toda a mensagem é controlada sem contraditório e sem ruído, são as intenções, e as “intenções” são muitas vezes consensuais e de aplaudir, pelo que o efeito é positivo. Este tempo comunicacional dos anúncios é prime time, tempo nobre. Quando se começa a perceber a diferença entre as “intenções” e a realidade, o tempo comunicacional é já bem mais pobre do o do seu anúncio e a mensagem muito menos eficaz até porque muitas vezes já nem sequer está no centro da agenda política.

Se se quiser agora e reler, à luz do que já se sabe, e que já se pôde estudar o SIMPLEX ou o PRACE, e se começa a perceber quais os investimentos que vão ser concretizados, ou a realidade do Plano Tecnológico, ou analisar o primeiro resultado de 6% na política orçamental à luz do relatório Constâncio sobre o défice, quem achará que a agenda mediática actual comporta essas questões? Ninguém, porque as questões já são “velhas”.

O governo está a usar e a abusar deste efeito, mas talvez deva dizer-se que ele só é eficaz pela combinação de dois processos: um, a oposição passar a ser credível, logo a fazer-se ouvir em tempo útil (o que não mudará de um dia para o outro) reforçando a vigilância parlamentar; e outro, a comunicação social deixar de simplesmente incorporar os termos das sessões de anúncio, fazendo uma cobertura “transparente”, que mantém intacta a intenção propagandística. Está mais do que na altura de começar a haver mais distanciação crítica, até para que se perceba o que o governo faz bem e o que não faz e é só propaganda.

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© José Pacheco Pereira
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