ABRUPTO

10.4.06


LENDO O LE MONDE DIPLOMATIQUE, JUNTO AO MONDEGO, NUM DIA CINZENTO, AO LADO DO BARCO "BASÓFIAS"

Tudo isto me parece um pouco sinistro, mas encaixa muito bem. Os artigos sobre a defunta lei do CPE, a começar pelo editorial de Ramonet, dão o tom às aguas. À minha volta fala-se brasileiro, língua dos empregados de restaurante em Portugal, produto da globalização. À minha frente, umas jovens senhoras, de grandes anéis de casadas, uma das quais é dona de uma boutique, mostram umas às outras um produto novo: uns colares gigantescos de madeira, iguais a milhares de outros, mas com uns "elefantezinhos" e uns "coraçõezinhos" dependurados (elas falam em diminutivos). "São bons para a tua loja". Susto e pavor.

Ramonet fala em aumentativos. Ele acha que a França, sua sociedade, sua economia, e sua cultura são gloriosas e que agora a "direita" e o "liberalismo" a rebaixam no seu valor. Toda esta conversa de "declínio" e "crise" da França é uma cedência ao "inimigo", diz Ramonet, ou seja ao imperialismo americano e o liberalismo económico anglo-saxónico. Pobre Villepin, que eu conheci Ministro dos Negócios Estrangeiros, sempre com o mesmo ar enfadado, com a arrogância da pequena nobreza rural perante um mundo que não fosse galo-franco-francês, agora passado para o "inimigo", que ele mais que tudo desprezava. Apanhado na sua própria medicina, com a esquerda alter-mundialista do Le Monde Deplomatique a agitar a tricolor.

Coimbra por trás. Sempre achei que devia haver algo de muito errado numa cidade em que os estudantes gostam de andar vestidos à padre. Passam alguns, negros e poeirentos. Uma cidade cujas livrarias na baixa são inimagináveis de provincianas, escuras, mal abastecidas, quase sem livros estrangeiros. Apenas o Direito é rei e senhor, tudo o resto leva à pergunta: como pode uma cidade universitária ter livrarias assim? Tudo triste, baço, esquecido da "modernidade" como agora se diz. Mal por mal, prefiro ver as notícias necrológicas ainda coladas nas paredes como nas aldeias e vilas do Norte. É certo que me parecem ser feitas já em computador e impressas a laser ou jacto de tinta, e depois prosaicamente copiadas. Algures ainda devem ser feitas em tipo de chumbo, apertado nas caixas a cordel, e com os filetes para ocupar espaço. Província pura, o que em si não é mal nenhum, não fosse ser esta a terra da "Lusa Atenas".

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O "Sempre achei" demonstra o preconceito, claro. Imagino o projecto matinal: "Deixa-me cá ver e ouvir algo que ilustre o que eu à partida já decidi escrever."

Eu por mim sempre achei que a análise de uma cidade exige mais do que percorrer 50 metros de rua. Suponho mesmo que, qualquer que seja a cidade no mundo, e qualquer que seja o preconceito que sobre ela se tenha, existem nessa cidade 50 metros de rua que ilustram o preconceito.

(João Filipe Queiró, Coimbra)

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É curioso que o leitor João Filipe Queiró reage contra a afirmação mas não a nega. Apenas diz que corresponde a uns metros de rua. Basta ir a Coimbra e ver, andar por aquelas ruas, a maior parte sujas, as lojas antigas, passadas, incluindo – o que é grave na cidade berço da nossa Universidade – as livrarias. Coimbra vive à sombra do que já foi. É aliás muito português... Infelizmente JPP tem razão. Mais valia não ter, mas tem.

(Rui Esperança)

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Disto tudo, ocorre-me uma coisa: porque será que só os portugueses chamam "língua brasileira" à língua que os brasileiros falam? Os brasileiros sabem bem que falam português. Nunca vi nenhum inglês fazer questão de dizer que os americanos falam uma qualquer "American language". Porque será que nós gostamos tanto de, com uma pontinha de desprezo, dizer que os brasileiros falam "brasileiro"?

(António Franco)

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Estou exactamente a ver o percurso do JPP. E não foi muito longe, de facto. Mas poderia ter andado duzentos, trezentos metros, que encontrava o mesmo cenário. É a habitual romagem ao pitoresco que se encontra em qualquer guia de viagens e que pode durar mais ou menos, conforme o tempo disponível. Normalmente retratam um mundo em extinção e é bem verdade que frequentemente já levamos esse mundo na cabeça . A Baixa de Coimbra (e a baixinha), por razões comuns a tantas outras cidades europeias, é já quase uma sombra do que foi. Já quase ninguém “vai” à Baixa. Pelo contrário, “passa-se” na Baixa para ir apanhar os transportes para a periferia, da mesma forma que se passa na Rua Augusta para ir apanhar o cacilheiro para a outra banda. E o JPP, assim como falou das capas dos estudantes, poderia ter falado nas duas ou três “tricanas” que todos os dias ainda lavam a roupa no rio, ali mesmo, muito perto daquelas duas senhoras também tão castiças, à sua maneira. Não há falta de livrarias em Coimbra, muito bem fornecidas.. Simplesmente, não passa pela cabeça de nenhum turista (acidental, ou não), percorrer a cidade à procura delas. Eu próprio, numa cidade estranha, nunca o faria. Ou estão perto do local de desembarque, ou não estão. Se estiver muito interessado, e gostar de coisas de livros, entro nelas e vejo o que por lá existe. Se não estiver interessado, limito-me a verificar o arranjo e o stock das montras. Mas nunca tinha pensado na questão dos anúncios de necrologia. Bem visto.

(António Maçarico, Coimbra)

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Coimbra, pela sua intrínseca ligação à universidade, espelha bem o bloqueio da sociedade portuguesa que subsistiu (e procura subsistir) com base nas corporações, neste caso a universidade, para as quais a competitividade e o confronto com a realidade eram factos irrelevantes. Mas antes pelo contrário, seria a realidade a ter de se adaptar à ficção - o que, a não ser em períodos curtos e sempre com resultados desastrosos, não é, diz-nos o simples senso comum, de todo possível. Ora com a globalização quem é que não está mais interessado em frequentar um curso, um mestrado ou um doutoramento numa universidade britânica ou norte americana ? Será que é o provincianismo que leva os estudantes portugueses a tentar cursar nas universidades estrangeiras ou será também aqui uma mera questão de senso comum: eu ganho mais dinheiro se tirar o curso numa universidade que seja reconhecida internacionalmente.

(Manuel Cortes)

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O que escreveu sobre Coimbra (e especificamente sobre as livrarias em Coimbra) podia ser também a descrição de Lisboa. Claro que há mais livrarias e claro que existem pérolas esquecidas na baixa, habitadas por senhores nobres que parecem esquecidos do tempo que passa lá fora (o que talvez seja a razão de tanto prazer quando os visitamos), mas na realidade, tirando estas livrarias e alfarrabistas que vivem do hábito, o que há mais?
Quando vamos a uma livraria “universitária”, o que é que encontramos? Um deserto. Os livros estrangeiros são praticamente inexistentes, com excepção do Stiglitz e outros livros de economia básicos, para dar a impressão de ser uma livraria moderna e “cosmopolita”. Não se trata de dizer que só o que não está em português é que é bom, mas antes que aquilo que se escreve noutras línguas é muito mais (e melhor) do que aquilo que é possível traduzir para a língua materna.
O retrato das livrarias em Portugal é a revelação de um país que vive apenas consigo próprio, culpando-se de tudo e, na ausência de “concorrência” ou comparação, se acha natural e paradoxalmente o melhor. O retrato do provincianismo luso é também esta incapacidade de nos medirmos realisticamente com o resto do mundo, e o panorama das nossas livrarias é um espelho disso mesmo.

(João Lopes)

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Compartilho o seu lamento sobre as livrarias de Coimbra, com maior pesar da minha parte porque nela vivo. Há muito que sonho com uma Fnac nesta cidade. Julgo que esse 'sonho', em breve, será uma realidade. As livrarias tradicionais (por falta de espaço ou de compradores?) não investem nos livros estrangeiros, tirando as colecções da penguin. Provavelmente porque não podem competir com a Internet (por exemplo, comprei mais livros no amazon do que em livrarias de Coimbra, nos últimos anos). Mas até poderíamos conviver serenamente com a ausência de livros em língua estrangeira se as editoras fizessem, como se faz em Espanha, traduções sérias e em grande escala, abrangendo a literatura, as ciências, a História, a poesia,a política... Infelizmente isso não acontece. Onde estão as traduções dos escritos que deram a Churchill o Nobel da literatura? Onde estão os 'clássicos' de Dickens? E Goethe? E Evelyn Waugh? Mesmo obras fundamentais da nossa cultura, escritas em português, se encontram esgotadas há várias décadas, impossibilitando a sua aquisição sem o recurso aos alfarrabistas.
Quanto aos estudantes universitários, estes, em geral, não compram livros, tiram fotocópias de livros. Uns fazem-no por falta de dinheiro (os livros são caros) ou porque não valorizam o livro em si, apenas o olham como um objecto de trabalho, um instrumento para atingir a nota positiva. Outros recorrem às fotocópias porque não encontram o livro à venda. E o vício instala-se.

(Paulo Agostinho)

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© José Pacheco Pereira
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