| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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20.8.05
(NÃO) VER O DIA A toda a volta, um fumo disperso e intenso acabou com o dia. O sol é uma pura esfera vermelha. O cheiro a queimado envolve tudo. Nas ruas, as pessoas, como não sabem onde está o fogo, sentem-se inseguras. Será que esta "ignição" já estará "circunscrita"?
Agora (url)
VIVER NUM PAÍS ESTRANGEIRO
Tenho passado os meus últimos dias num país estrangeiro: o passado. Mais propriamente em Portugal entre Novembro de 1957 e Junho de 1958. Pensei que sabia tudo, ou quase tudo, sobre esse período da nossa história, a turbulenta aparição de Humberto Delgado na vida política portuguesa. Este é um dos períodos da história da oposição portuguesa aparentemente mais conhecido. Engano, engano-me. Verdadeiramente não sabia até que ponto estava no país estrangeiro de Hartley (que me fez um dia perder uma aposta…): "The past is a foreign country; they do things differently there.". They do things differently there”. São as “coisas diferentes” que me escaparam. Detalhes, pequenos pormenores, palavras, vindas de um passado e que hoje ninguém diria: como Costa e Melo num discurso em Aveiro a propósito de Delgado ter sido proibido de aparecer fardado nas manifestações - Ouvi ontem, de um polícia de Aveiro, quase de lágrimas nos olhos, esta pergunta: - Então tiraram a farda ao nosso General? Eu sosseguei-o e disse-lbe que não. Que a sua farda de General, não se tirava porque não havia forças que o fizessem. Que fora proibido, isso sim, de a usar nas manifestações. Tentei explicar-lhe a razão aparente dessa determinação embora sentisse bem que ele sabia a razão verdadeira: a do medo daqueles que o julgaram ou julgam, por assim se julgarem, mero portador dum distintivo categorizado do exército da Pátria. A sua farda, General, a sua farda de Homem sem medo, de libertador e de Chefe do Povo que a escolheu, essa farda tem ainda mais estrelas, tem todas as estrelas de todas as esperanças desse mesmo Povo e foi tecida com os panos ricos dos ricos e com os farrapos pobres dos pobres, numa mescla de fé que a todos une em volta do Homem que lhes falou clara e sem medo e por isso foi compreendido. General, em nome desse Povo eu a saúdo e lhe peço que não pare. ou o mesmo Costa e Melo sobre o “S” das fardas da Mocidade Portuguesa: 0 S e tortuoso como os répteis que se deslocam rastejando e destilam veneno e peçonha com que atingem as vitimas desprevenidas e tantas vezes confiadas. Olha-se um S e vê-se uma serpente ou uma víbora! O H de linhas verticais e união nivelada tem naquelas o fio de prumo duma verticalidade, vertebrada e viril, e nesta, o equilíbrio duma conduta. Há qualquer coisa de igualdade naquela linha recta e nivelada que a meio e não em baixo, marca o equilíbrio Olha-se o H e vê-se honestidade, o equilíbrio e a força duma posição firme e decidida. Não brinquem, pois, com letras, Senhores da União Nacional Nem essas estão convosco!!! ou Cunha Leal dirigindo-se aos jovens Quando os moços de agora se dirigem a pessoas, que, como eu, à semelhança de Moisés estão destinadas a morrer à vista da terra de promissão, sem conseguirem pôr nela os pés doloridos, sinto em minha alma o desejo veemente de que a juventude, essa sim, venha a pisar esse solo sagrado. Mas ela tem de preparar-se para ser digna desse destino. Os hodiernos não tiveram, como os do meu tempo, actividade romântica e tempestuosa. São pessoas amadurecidas prematuramente, que com resulta inquebrantabilidade de carácter, juraram que não haveriam de vender a alma ao diabo. Em todo o caso, quando se convencem de perdurabilidade de tão indesejável estado de coisas, não é de admirar que o seu ingénito dinamismo os leve a desejar o desencadeamento de um terramoto social, que reduza a escombros o presente para construírem, mais tarde a cidade do futuro. A minha velhice induz-me a pô-los de sobreaviso contra a grande periculosidade desses sonhos de destruição. Ah, não queiram eles subverter uma injustiça para gerarem outra mais desumanizada e monstruosa ainda! Assisti na minha vida a duas horrorosas carnificinas bélicas. Vi o meu país enredado em mesquinhos conflitos. Tomei conhecimento de um dos tais cataclismos sociais e de escravidão a seguir imposta durante infindáveis 40 anos a um grande povo, sob a invocação de uma sedutora miragem do porvir. Mortes, tiranias, campos de concentração, progroms - eis o que venho contemplando durante meio século apocalíptico da História! Não terá chegado a altura de tentar gozar a vida e não de sacrificar a odiosos Molochs e Quimeres? Isto é bom. Isto é mesmo bom, diz o blogger que há em mim. Era bom em 1958, é bom em 2005. (Continua) (url) COISAS SIMPLES
![]() Georges de La Tour, S. Jerónimo lendo ![]() ![]() ![]() (url)
EARLY MORNING BLOGS 582
Family Reunion The divorced mother and her divorcing daughter. The about-to-be ex-son-in-law and the ex-husband's adopted son. The divorcing daughter's child, who is the step-nephew of the ex-husband's adopted son. Everyone cordial: the ex-husband's second wife friendly to the first wife, warm to the divorcing daughter's child's great-grandmother, who was herself long ago divorced. Everyone grown used to the idea of divorce. Almost everyone has separated from the landscape of a childhood. Collections of people in cities are divorced from clean air and stars. Toddlers in day care are parted from working parents, schoolchildren from the assumption of unbloodied daylong safety. Old people die apart from all they've gathered over time, and in strange beds. Adults grow estranged from a God evidently divorced from History; most are cut off from their own histories, each of which waits like a child left at day care. What if you turned back for a moment and put your arms around yours? Yes, you might be late for work; no, your history doesn't smell sweet like a toddler's head. But look at those small round wrists, that short-legged, comical walk. Caress your history--who else will? Promise to come back later. Pay attention when it asks you simple questions: Where are we going? Is it scary? What happened? Can I have more now? Who is that? (Jeredith Merrin) * Bom dia! (url) LER OS JORNAIS ![]() Se, como diz Monjardino no Independente, "Soares quase não precisa de fazer campanha", porque se indigna tanto com a hipótese de "passeio" de Cavaco Silva, que classificou de "não-democrática"? No Público de hoje, jornal mais pobre que os outros porque não se pode citar em linha, Luciano Alvarez escreve uma nota intitulada O que fazer com o PS intriguista? Não se perecbe bem, lendo apenas a versão electrónica para assinantes, se é uma opinião (nada a objectar) ou um complemento das notícias (vem na secção "nacional"). "Uma tarefa extra, ainda que esperada, surgiu para o primeiro-ministro durante as suas férias africanas. O PS intriguista está de volta." Pressuposto: há dois PS, um o "intriguista", outro o que não é intriguista, que se presume está no governo, ou à volta de Sócrates (embora Sócrates, que já foi “intriguista", saiba isso bem.) "Terá Sócrates, que já se viu obrigado a recuar algumas vezes perante a pressão do aparelho socialista, cabedal para lidar e matar esta fatalidade socialista, que no passado já fez várias vítimas?" Pressuposto: o aparelho do PS "obrigou" Sócrates a tomar certas medidas que ele não desejava. De certeza? Não teria sido o próprio Sócrates a tomá-las, porque pensa como o aparelho, porque é do aparelho, sem ter havido qualquer "pressão"? Como é que se sabe? Esta dualidade PS (Jorge Coelho) versus Governo (Sócrates) é a mais cómoda que há e não é fundada em nenhum facto que se conheça. É uma presunção dos jornalistas, ou pode ser também uma "intriga" cómoda, spin útil para qualquer Primeiro-ministro? (url) 19.8.05
O QUE É QUE ACONTECEU À EUROPA?
Está à espera das eleições alemãs. Para depois fazer o quê? É espantoso que ninguém o discuta. Os povos não estão interessados. Fizeram tanta coisa nas suas costas, que eles viraram as costas também. Os governos não sabem porque se esgotaram no processo insano da Constituição e não querem voltar atrás, onde ainda há terreno seguro. (url) PREPARAÇÃO ICARESCA
![]() "Terras licet" inquit "et undas obstruat, at caelum certe patet.Ibimus illac; omnia possideat, non possidet aera Minos". (url) (url)
A LER
o que pensam os literatos franceses, também eles a defender um último cantinho, le terroir, encontram-se aqui bons exemplos, como esta crítica ao Booker Prize. Para quem quiser saber mais sobre o "mundo" literário do Le Monde, continua a ser indispensável ler o livro de Pierre Péan e Philippe Cohen, La face cachée du monde. Infelizmente não temos nada de semelhante sobre o "nosso" mundo dos suplementos literários e suas capelas, amizades, promoções editoriais, modismos, etc. No ContraFactos & Argumentos a melhor colecção de ligações para questões dos media, agora que o Ponto Media tem estado parado. A lista dos blogues de ciência merece ser seguida. A Media Capital, o Governo e a Prisa: opiniões no Jornalismo & Comunicação. A pergunta que aí se faz merece ser retomada: "Mas aqui haveria que chamar a atenção para as responsabilidades que cabem ao nosso jornalismo: então o líder do principal partido da oposição afirma, taxativamente, que o Governo está envolvido numa manobra de controlo do principal canal televisivo e ninguém o questiona (tanto quanto me pude aperceber) dos factos em que ele se baseia? Ninguém investiga?" (url) OUVINDO TERESA BERGANZA CANTAR AS SEGUIDILLAS DE SOR ![]() ![]() Como ha de resolverse para embarcarse aquel que desde lejos ve tempestades? ou Muchacha, y la verguenza, donde se ha ido? "Las cucarachas, madre, se la han comido." Muchacha, mientes, porque las cucarachas no tienen dientes. ou Cesa de atormentarme, Cruel Memoria, Acordándome un tiempo Que fui dichoso. Y aún lo seria Si olvidarme pudiera Do aquellas dichas. (url) MAU SINAL PARA QUEM COMEÇA E TEM TUDO À SUA FRENTE: UM GOVERNO NA DEFENSIVA, DEMASIADO IRRITADO, DEMASIADO ARROGANTE ![]() "A campanha actual sobre o pretenso "assalto" do PS a grupos de media é uma dessas operações de falsificação e intriga, que, aliás, esconde mal o interesse de sectores que se habituaram a dominar a bel-prazer segmentos estratégicos do mercado da informação e da opinião, e agora receiam que a dinâmica própria deste mercado lhes venha a enfraquecer posições ou retirar influência." Augusto Santos Silva no Público, de hoje “A exploração política do tema das minhas férias tem sido demagógica, injusta e mesquinha. O País teve sempre um primeiro-ministro em funções”(...) “Os ataques de que fui alvo são injustificados, não são próprios de política, mas sim de politiquices”. José Sócrates (url) COISAS COMPLICADAS
![]() Jacques Henri Lartigue (url)
EARLY MORNING BLOGS 581
Ao triste estado Passa por esse vale a Primavera, As aves cantam, plantas enverdecem, As flores pelo campo aparecem, O mais alto do louro abraça a hera; Abranda o mar; menor tributo espera Dos rios, que mais brandamente descem; Os dias mais fermosos amanhecem; Não para mim, que sou quem dantes era. Espanta-me o porvir, temo o passado; A mágoa choro de um, de outro a lembrança, Sem ter já que esperar, nem que perder. Mal se pode mudar tão triste estado; Pois para bem não pode haver mudança, E para maior mal não pode ser. (Frei Agostinho da Cruz) * Bom dia! (url)
VER A NOITE
Lua quase cheia sobre um azul metálico. Uma nuvem esticada que parece uma pena. Um vento muito frio para os costumes. (url) 18.8.05
COISAS DA SÁBADO: UM SAFARI LONGE DEMAIS ![]() Criticar o facto do primeiro-ministro ter ido passar umas férias luxuosas é pasto para todas as demagogias. Um safari no Quénia é o equivalente a ir a Bora Bora, ou a um caríssimo hotel do Dubai com piscina privativa. Não é isso que me afronta. Ele paga as férias do seu bolso, e se tem dinheiro e vontade para o gastar com a família num safari, parabéns. A concepção punitiva da vida pública que obriga os políticos a uma vida hipocritamente monástica presta-se a todos os populismos e eu não sou desse clube. Mas, se me espanta, face ao safari do eng. Sócrates, o silêncio comedido da maioria da comunicação social, sempre pronta a levantar a chama do ressentimento populista para os outros, e que não acredito que esteja calada porque aprendeu, acontece que me espanta tanto mais esse silêncio, quanto neste caso se justifica mesmo criticar o Primeiro-ministro pela sua opção de férias e exigir que as interrompa. Por várias razões: uma é porque a altura é pessimamente escolhida para ter umas férias sumptuárias quando o seu governo está a pedir a todos sacrifícios e “apertar do cinto”; outra, porque a sua ausência do país, numa altura em que o fogo, mais uma vez, destrói pessoas e bens com grande dimensão, é por si mesma uma enorme desvalorização da importância do que está a acontecer. Quando há uma emergência num navio, o capitão não entrega o comando a um qualquer outro oficial para ir ver um DVD na sua cabine. Mesmo que seja do National Geographic. * (Escrito há uma semana. Agora que o PM voltou das férias, nada dá mais razão às críticas do que a sua atitude hoje, tentando remediar, com visitas "simbólicas" e conferências de imprensa, o que há muito devia ter feito e não fez. Nada apagará o significado político da da sua atitude, do PM substituto, dos governadores civis, do Secretário de Estado do Ambiente e de muitos responsáveis com nomeações políticas para Parques Naturais, e que se resume numa só frase: nada de importante aconteceu, nada de grave, nada de irreparável. Ardeu tudo como de costume. Não faltaram nenhuns "meios". É porque ter escolhido as férias que escolheu e não as ter interrompido é uma opção política, que não é demagogia criticar as opções do PM. Hoje, no seu afã de remedeio, ele vem dar razão aos que o criticaram. Demasiado tarde. Já se percebeu a política. ) (url) COISAS DA SÁBADO: A PIOR FRASE ![]() “Com alguém com a reputação de Gareth Peirce a defender os seus interesses, é altamente provável que Jean Charles de Menezes recupere na morte a dignidade e respeito que a polícia lhe roubou” (Eunice Goes, correspondente do Expresso 6 de Agosto.) Nós já estamos tão desprovidos de capacidade de indignação à flor da pele, que pouca coisa nos faz revoltar. Mas às vezes é demais. Esta frase, escrita num artigo laudatório de um destes advogados mediáticos (neste caso é uma advogada) que assumem causas de grande impacto público, com maior ou menor mérito, parece banal, mas não é. O cidadão brasileiro que foi morto por polícias à paisana em Londres não foi “roubado” nem da “dignidade”, nem do “respeito” pela polícia. Foi vítima de um trágico engano, num momento ainda mais trágico, em que um gesto precipitado e um clima de perigo, o matou também a ele. O que me revolta é que parece que em Londres só morreu Jean Charles de Menezes e mais ninguém. Ou que a morte dele foi a Maior e as outras, as Menores. Pode-se dizer tudo e investigar tudo sobre o incidente. Pode-se e deve-se. Se a polícia actuou de forma irrazoável, se mostrou ter o gatilho leve, se os procedimentos normais foram seguidos (se é que há procedimentos normais em plena emergência em que a distância de uma bomba com sucesso, de uma explosão assassina, é apenas poder detonar um botão ou um fio ou um puxar de uma espoleta), se houve perda de calma e frieza, que, mesmo em risco, um polícia treinado deve ter. Pode-se fazer tudo isto, mas não é isso que a frase do Expresso diz. Como Mário Soares quando se pronunciou sobre os atentados de Londres e usou uma frase para os condenar e dez para acusar a polícia que “andava aí a matar pessoas”, Eunice Goes isola o incidente do seu contexto para enunciar uma Culpa, que Gareth Peirce é suposta corrigir. A Culpa não é dos terroristas da Al-Qaida, que eles sim mataram o infeliz trabalhador brasileiro, eles sim lhe roubaram a “dignidade” e “respeito”, mas a da polícia londrina para quem todas as indignações se dirigem. * Foi com alguma surpresa que vi o meu nome citado pela sua pena ilustre. Lamento apenas que as minhas palavras tenham sido tão mal-interpretadas. Confesso, que 24 horas após ter lido o seu desabafo no seu “blogue” ainda não consegui perceber como é que um perfil duma advogada se transformou num perdão aos terroristas que bombardearam a minha cidade duas vezes. Confesso a minha falta de treino nas metodologias intelectuais estalinistas, mas não tenho por hábito extrapolar muito para além do que vejo escrito, ou, seguindo a moda dos teóricos das conspirações, ligar factos desconexos e atribuir-lhes um nome. Infelizmente, o mundo é bem mais complicado. (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 580
Hino à Razão Razão, irmã do Amor e da Justiça, Mais uma vez escuta a minha prece. É a voz dum coração que te apetece, Duma alma livre, só a ti submissa. Por ti é que a poeira movediça De astros e sóis e mundos permanece; E é por ti que a virtude prevalece, E a flor do heroísmo medra e viça. Por ti, na arena trágica, as nações Buscam a liberdade, entre clarões; E os que olham o futuro e cismam, mudos, Por ti, podem sofrer e não se abatem, Mãe de filhos robustos, que combatem Tendo o teu nome escrito em seus escudos! (Antero de Quental) * Bom dia! (url) 17.8.05
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DESESPERADAMENTE À PROCURA DA INOVAÇÃO... ![]() Não há nada de novo no “choque tecnológico”. Basta ler umas coisas com mais de 60 anos e perceber qual é a sua mensagem-chave. Ou olhar para os exemplos de Silicon Valley ou mais recentemente Austin. Pois agora parece que o país descobriu a conectividade. A ideia é pôr todo o agente a conectar: estado com empresas, empresas com universidades, empresas com centros de I&D, I&D com o mercado, a Joaquina da feira de Carcavelos com o Manuel da feira dos enchidos do Fundão, o contribuinte com o guiché das finanças. São estas as “linguagens” que nos falam sobre a sociedade do conhecimento, a economia do conhecimento, a rede. Estudamos: inovação no produto v.s. processo; organizacional v.s. tecnológica. Criamos Comissões. Desenhamos Sistemas Nacionais de Inovação. Elaboramos pareceres. Decidimos para o “bem de Portugal e dos portugueses”. Mentira. Há anos que estamos parados. Semeamos esperanças em função do improviso. Há anos que ninguém com o seu perfeito juízo larga por cá o seu negócio. É claro que a Auto Europa vai desaparecer. Ficaremos com o vazio: famílias, empresas, pessoas. Não temos nenhuma ideia para a sua substituição. Não somos um país virtual. Somos o oposto. Sem velocidade. Com nenhuma rapidez. Temos tempo e espaço. Somos o mesmo fogo de 1997. Somos a mesma pessoa que chorava a perca de uma vida inteira. Somos o mesmo concurso de professores de 2000. O nosso candidato a presidente de câmara é o mesmo de há 10 anos. A nossa prevenção é ter o mesmo tipo de condução de sempre. Não gostamos de analisar. Não gostamos de planear. As nossas avaliações são sempre boas. Gostamos de copiar. Copiamos mal. Aprendemos pouco. Sem a língua do Irish coffe, o petróleo de Oslo ou o Conecting People de Helsínquia, de que capacidades podem viver as nossas inovações? De redes? Olhemos, a partir do senso comum, sobre os sentidos que atribuímos à palavra inovação: muitas vezes diferente, quase sempre melhorar e ainda sempre a expressão mudar. Pouco importa que seja um exercício de sinonímia. Revela em si, quase tudo do nosso entendimento comum sobre esta problemática. É claro que não inovamos nada. Nem Zundapp, Casal ou Famel. Consumimos inovação. Telemóveis. Os que já tiram imagens do que somos. Os carros. Os modelos novos no preço. Computadores. Processadores de texto nas salas de aulas. Não sabemos a raiz quadrada de vinte e cinco. Não sabemos diferenciar um polígono de um vértice. Não percebemos que o que fazemos, nessa mesma hora, há quase dez anos, com as mesmas palavras de sempre, pode ser feito de outra forma. Não sabemos que a barragem do Alqueva é um TGV desnecessário. Não reduz a sede a ninguém. Lá está. Majestosa na sua dimensão. A nossa rede – empresas, universidades, só existe por criação do nosso imaginário. Não temos rede nenhuma porque não nos ligamos a ninguém. Num estudo recente da EU (Innobaromter, 2004,) , cerca de 90% dos gestores de topo portugueses afirmaram que nos últimos dois anos não participaram em qualquer tipo de rede/formas de colaboração com outras empresas, universidades ou centros de I&D. O discurso cor-de-rosa do “transformemos as nossas ameaças em oportunidades” está repleto de simulacros. Somos uma sociedade de despedidas - “as suas melhoras!”. Somos o mesmo erro técnico. Nunca humano. À espera. (Jorge Gomes) (url)
A LER / A VER
TODOS OS DIAS SÃO IGUAIS no Mar Salgado. Esta fotografia da Estação espacial tirada há dias. E já lá estive! No módulo russo. Infelizmente em terra. (url)
GRANDES NOMES: O "MARTELO DOS HEREGES"
Nome dado a S. Agostinho pelo seu combate contra as heresias de Pelágio, Donato e dos maniqueus. (url) (url) COISAS COMPLICADAS
![]() Caravaggio, S. Jerónimo ![]() ![]() (url)
EARLY MORNING BLOGS 579
Fête galante Les hauts talons luttaient avec les longues jupes, En sorte que, selon le terrain et le vent, Parfois luisaient des bas de jambes, trop souvent Interceptés! - et nous aimions ce jeu de dupes. Parfois aussi le dard d'un insecte jaloux Inquiétait le col des belles sous les branches, Et c'étaient des éclairs soudains de nuques blanches, Et ce régal comblait nos jeunes yeux de fous. Le soir tombait, un soir équivoque d'automne: Les belles, se pendant rêveuses à nos bras, Dirent alors des mots si spécieux, tout bas, Que notre raison, depuis ce temps, tremble et s'étonne. (Paul Verlaine) * Bom dia! (url) 15.8.05
COISAS COMPLICADAS / AR PURO
![]() William Turner, The Mew Stone at the Entrance of Plymouth Sound ![]() ![]() (url)
EARLY MORNING BLOGS 578
The Nellie, a cruising yawl, swung to her anchor without a flutter of the sails, and was at rest. The flood had made, the wind was nearly calm, and being bound down the river, the only thing for it was to come to and wait for the turn of the tide. The sea-reach of the Thames stretched before us like the beginning of an interminable waterway. In the offing the sea and the sky were welded together without a joint, and in the luminous space the tanned sails of the barges drifting up with the tide seemed to stand still in red clusters of canvas sharply peaked, with gleams of varnished sprits. A haze rested on the low shores that ran out to sea in vanishing flatness. The air was dark above Gravesend, and farther back still seemed condensed into a mournful gloom, brooding motionless over the biggest, and the greatest, town on earth. The Director of Companies was our captain and our host. We four affectionately watched his back as he stood in the bows looking to seaward. On the whole river there was nothing that looked half so nautical. He resembled a pilot, which to a seaman is trustworthiness personified. It was difficult to realize his work was not out there in the luminous estuary, but behind him, within the brooding gloom. Between us there was, as I have already said somewhere, the bond of the sea. (Joseph Conrad, Início de The Heart of Darkness) (url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SOBRE A CAPITAL ![]() Li o seu artigo de opinião na Sábado da semana passada sobre A Capital e O Comércio do Porto e queria apenas, se me permite, tentar oferecer-lhe, com todo o respeito, uma perspectiva diferente da que traçou no seu texto. Até porque, tendo-o como alguém que age de boa fé, dou como garantido que só escreveu o que escreveu por desconhecimento. O que mais me entristeceu nas linhas que dedicou a A Capital foi sentir a ideia de que, no seu entender, a Prensa Ibérica tentou salvar um título com o seu investimento e que a direcção e os jornalistas não conseguiram corresponder ao desafio. Não tenho absoluta certeza de que foi isso que quis dizer, mas não tenho a mínima dúvida de que foi essa a mensagem que passou para quem leu. «Como de costume, as culpas são só assacadas à administração, esquecendo-se que a Prensa Ibérica salvou os jornais de uma morte anterior e deu-lhes uma última oportunidade.» (...) que última oportunidade? Contratar (em 2004, três anos depois de ter chegado) um director que trouxe com ele meia dúzia de jornalistas (o mesmo número ou até menos - com toda a certeza menos - dos que saíram entretanto) e, mais recentemente, alguns opinion-makers? É a isto que chama última oportunidade? Quando a Prensa Ibérica comprou A Capital, em Setembro de 2001, logo a transformou em mais um diário matunino. As vendas caíram a pique (...) Ao longo destes quase quatro anos, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes em que "os espanhóis" entraram em A Capital. Agora, pergunto eu: que culpa têm os jornalistas disto? Ao contrário do que pensa, os jornalistas de A Capital, com os seus defeitos e virtudes, é que foram adiando a morte do título. Foram eles, e só eles, que tornaram a morte o mais lenta possível, até não haver outra saída. Impulsionados pela irreverência do Luís Osório, muita gente (dos poucos que éramos) trabalhou das 11h30 às 23h30 sem receber mais um cêntimo por isso. Para que tenha conhecimento, havia vários jornalistas com mais de 40 folgas por gozar e dias férias de anos anteriores por tirar (pelos menos fomos compensados disso nas rescisões). «O jornal de Luis Osório tinha características sui generis que o podiam tornar interessante – e foi notório o esforço para fazer diferente. O jornal procurou novos temas, novas notícias, mas nunca conseguiu encontrar um equilíbrio entre aquilo em que era único, e aquilo em que permanecia pior do que a concorrência. A uma determinada altura, parece ter desistido e ficou uma coisa a meio termo, nem um jornal como os outros, cobrindo a actualidade diária, para que não tinha redacção nem meios, nem um jornal alternativo para que lhe faltou o fôlego.» Está cheio de razão nestes pontos. Aqui, acertou em cheio. Apenas não utilizaria a palavra fôlego. O que faltou, também para esse tal jornal alternativo, foram sempre os meios, pessoas para fazer o jornal idealizado por Luís Osório, que pretendia ser quase uma revista diária em papel de jornal. Se eu lhe disser que ao sábado e domingo, nos melhores dias, não havia mais de 10/12 jornalistas na redacção, acredita? Às vezes era um milagre meter o jornal nas bancas. Ora, isto é culpa dos jornalistas? «As fragilidades da Capital não vinham apenas da notória escassez de meios, mas também de decisões editoriais. Uma é o arranjo gráfico, porque poucos jornais tinham tão mau grafismo como a Capital. O grafismo era inimigo do conteúdo porque havia alturas em que o jornal podia ter as coisas mais interessantes do mundo, mas era ilegível, ou aborrecido até ao limite.» Bom, aqui trata-se de uma opinião meramente estética. Há que aceitar. «A Capital vai-me fazer falta, mas sempre que eu via um número revoltava-me a incúria com que era feita. Eu sei que é duro dizer isto, mas não era segredo para ninguém, a começar pelos seus leitores, que o desastre era inevitável.» Também a nós nos revoltava essa imagem que passava para o leitor. Todos os dias abríamos o jornal e constatávamos que, apesar da entrega da maioria das pessoas, havia sempre demasiados erros. Era frustrante! Um revisor para toda a edição, um jornalista para duas ou mais páginas (que, não incidindo somente na actualidade, são muito mais trabalhosas), um editor para cinco ou seis páginas... enfim, no fundo, todos sabíamos que estávamos num beco sem saída. E mesmo que os leitores não tenham consciência do que trabalharam os jornalistas, pelo menos nós, esses tais jornalistas, temos a certeza de que lutámos até ao fim. Agora, é tempo de procurar novos desafios. (Rui Antunes, "até há bem pouco tempo sub-editor de desporto do jornal A Capital.") (url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: "TALVEZ DEVESSEMOS SER MAIS EXIGENTES" ![]() Por alguns dos seus posts recentes, vejo que também critica o facto de o primeiro-ministro se encontrar de férias e não ter regressado por causa dos incêndios ou que não telefone todos os dias para o seu gabinete para saber como vão as coisas. Ora, gostava de deixar á sua reflexão dois planos em que esta questão pode ser abordada: no plano pessoal-privado, não acha que mesmo um primeiro-ministro tem o direito de disfrutar de 15 dias com os filhos, que são pequenos e não vivem com o Pai e a quem provavelmente ele prometera antes de ir para o Governo umas férias num safari onde muitos portugueses levam também os filhos? (Não tenho qualquer informação sobre isso mas trata-se de uma probabilidade). Ou será que é por ser o Quénia e ficar muito distante? Como sabe, apesar da crise, as férias exóticas estão há muito na moda e os portugueses enchem os aviões para essas paragens. Não serão demagógicas as críticas que por aí andam, de que em tempo de crise o primeiro-ministro não devia ir ao Quénia? No plano político, acha que se o primeiro-ministro tivesse interrompido as férias algo teria mudado no apoio às vítimas dos incêndios? Bem sei que seria um gesto simbólico mas será que a politica tem de ser, sempre, simbolismo e imagem? Por outro lado, tudo depende assim tanto do primeiro-ministro (este ou outro)? Ou seremos tão masoquistas que precisamos de ver todos os dias os políticos (o primeiro-ministro) na televisão para podermos criticá-los depois (e às televisões que os mostram) porque aparecem todos os dias? (Lembremo-nos do que se disse de Guterres e dos seus ministros que, no caso da queda da ponte de Entre-os.Rios, apareciam a toda a hora nos telejornais). E o que dizer dos partidos e autarcas que pedem declaração do estado de calamidade sem parecerem conhecer o que a lei diz sobre isso e as consequências que daí resultam? É verdade que não temos escolas de formação de quadros políticos e que os nossos governantes saem, em geral, dos quadros partidários, muitos deles com passagens breves por instituições públicas ou privadas, sem grande conhecimento da sociedade que depois vão "governar". Mas, essa impreparação também existe em muitos comentadores, oriundos do jornalismo e de outras áreas, de quem se esperaria uma intervenção informada e consistente, pela responsabilidade que detêm no espaço público mediático, mas que pouco mais fazem do que desenvolver um criticismo sistemático dos políticos do governo ou da oposição, feito de frases sonantes ou de sínteses apressadas de leituras em diagonal. Essas frases sonantes, tanto mais repetidas quanto mais demolidoras se revelarem, correm o risco de afastar os (poucos) que ainda lêem jornais e votam em eleições. Dir-se-ia que o deserto de ideias que se nota nos governantes existe também nos seus críticos. Que soluções, então, perguntar-se-à? Talvez devessemos ser mais exigentes, não apenas em relação aos políticos, embora devam ser estes os mais "vigiados", mas também em relação à sociedade em geral, incluindo os que detêm outros poderes para além do poder político, como sejam o poder económico, o poder mediático, etc. Aos políticos, ainda podemos castigar em eleições. Mas, e os outros? (Estrela Serrano) (url) 14.8.05
NATUREZA MORTA MATINAL
![]() (url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O FISCO E A BOLA ![]() Li na última página do Expresso de hoje e fiquei perplexa: Totonegócio Supremo condena Liga O Supremo Tribunal Administrativo chumbou esta quarta-feira a pretensão da Liga Portuguesa de Futebol em não apresentar garantias no âmbito das dívidas do «totonegócio». O argumento de que, a prosseguir a marcha da execução fiscal, as suas contas serão penhoradas e daí resultará a paralisação dos campeonatos profissionais de futebol, com severas consequências para os clubes participantes e sociedades desportivas, não convenceu os juízes. Em causa estão quase 20 milhões de euros. A Federação Portuguesa de Futebol, por seu lado, JÁ APRESENTOU UM SUBSÍDIO ESTATAL COMO GARANTIA. Neste contencioso entre o Fisco e a Liga, o Ministério das Finanças alegou que a concessão dessa suspensão «seria prejudicial para o interesse público, desencadeando o alarme na opinião pública de que 'as forças do futebol' conseguem sempre um regime condescendente, quando não claramente privilegiado e legitimando formas enviesadas de alcançar a suspensão de uma execução fiscal sem prestação de garantias nem penhora». Vou continuar a seguir este folhetim que, aparentemente e nas televisões, tinha tido fim no governo anterior. Para ver quantos jornalistas, colunistas e economistas se pronunciam sobre este assunto, para perceber quem não tem medo do sub-mundo português da bola. Dá que pensar: nunca li nem vi nenhum economista preocupado com o dinheiro dos contribuintes que é torrado em forma de subsídios para a bola. É só o déficit na saúde, nos transportes públicos, etc. que conta? (Maria Odete Teixeira Pinto) * Relativamente ao texto de Maria Odete Teixeira Pinto, a minha opinião é diversa. A bola é mediática porque desperta emoções, e as pessoas vivem das e com as emoções. Dito isto, as grandes e médias empresas que devem ao fisco, porque não despertam emoções, diluem-se no alarido que a bola levanta e nas parangonas que alimentam aleivosamente o insaciável leitor. Os governos sucessivos ou alternados também são partícipes desta engrenagem, para meter medo às médias e grandes empresas, aos grandes e pequenos senhores, já que não têm coragem de lhes exigir o que é fácil de exigir à bola. Por outro lado, as pessoas esquecem que a bola não vive num casulo ou num mundo asséptico, ou no país do nunca. Os malabarismos que entram no submundo da bola são os mesmos que pululam na sociedade. Quem desgoverna a bola são os mesmos que desgovernam fora dela. Transportam para a bola os maus hábitos de que vivem na sociedade. Acresce uma enorme ingratidão dos Governos, desde a Ditadura, para com a bola, porque têm arrecadado milhares de contos à custa do totobola, aposta mútua criada para incentivar o desporto, mas para o qual reverte a parte mais pequena, para não dizer "sem significado". Tão insignificante que aumentou as dívidas da bola. O Governo inventou então o totonegócio que consistia em o Estado passar a ficar com a parcela insignificante para ir liquidando as dívidas ao fisco. Assim, o generoso Estado é, na expressão de Octávio Paz, um "onagro filantrópico". E o resultado foi o de a bola ficar exangue, porque os Governos tiraram-lhe o que parecia ser-lhe destinado. Criada esta situação, e porque o totobola não enchia os cofres do Estado, dado o decréscimo das apostas, criou-se o totoloto, e, minguado este, seguiu-se-lhe o totomilhões. Em tais circunstâncias, agora, é fácil, depois de ter sugado todo o sangue, decretar-lhe a falência. Se a bola não andou bem, o Estado andou pior. Como Vasco Pulido Valente vem evidenciando, o país está ingovernável. A bola é apenas mais uma vítima. (João Boaventura) (url) OUVINDO LISZT
![]() tocado por Zimerman. (url)
A LER
de Eduardo Cintra Torres, ESTAMOS A GOVERNAR MAL? ENTÃO TOMAMOS A TVI, de um Público fora da Internet, mas que se justifica por este artigo. E pela Vanessa. (url) (url)
© José Pacheco Pereira
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