ABRUPTO

20.8.05


VIVER NUM PAÍS ESTRANGEIRO

Tenho passado os meus últimos dias num país estrangeiro: o passado. Mais propriamente em Portugal entre Novembro de 1957 e Junho de 1958. Pensei que sabia tudo, ou quase tudo, sobre esse período da nossa história, a turbulenta aparição de Humberto Delgado na vida política portuguesa. Este é um dos períodos da história da oposição portuguesa aparentemente mais conhecido. Engano, engano-me. Verdadeiramente não sabia até que ponto estava no país estrangeiro de Hartley (que me fez um dia perder uma aposta…): "The past is a foreign country; they do things differently there.". They do things differently there”. São as “coisas diferentes” que me escaparam. Detalhes, pequenos pormenores, palavras, vindas de um passado e que hoje ninguém diria:

como Costa e Melo num discurso em Aveiro a propósito de Delgado ter sido proibido de aparecer fardado nas manifestações


- Ouvi ontem, de um polícia de Aveiro, quase de lágrimas nos olhos, esta pergunta:
- Então tiraram a farda ao nosso General?
Eu sosseguei-o e disse-lbe que não. Que a sua farda de General, não se tirava porque não havia forças que o fizessem. Que fora proibido, isso sim, de a usar nas manifestações.
Tentei explicar-lhe a razão aparente dessa determinação embora sentisse bem que ele sabia a razão verdadeira: a do medo daqueles que o julgaram ou julgam, por assim se julgarem, mero portador dum distintivo categorizado do exército da Pátria.
A sua farda, General, a sua farda de Homem sem medo, de libertador e de Chefe do Povo que a escolheu, essa farda tem ainda mais estrelas, tem todas as estrelas de todas as esperanças desse mesmo Povo e foi tecida com os panos ricos dos ricos e com os farrapos pobres dos pobres, numa mescla de fé que a todos une em volta do Homem que lhes falou clara e sem medo e por isso foi compreendido.
General, em nome desse Povo eu a saúdo e lhe peço que não pare.

ou o mesmo Costa e Melo sobre o “S” das fardas da Mocidade Portuguesa:

0 S e tortuoso como os répteis que se deslocam rastejando e destilam veneno e peçonha com que atingem as vitimas desprevenidas e tantas vezes confiadas. Olha-se um S e vê-se uma serpente ou uma víbora!
O H de linhas verticais e união nivelada tem naquelas o fio de prumo duma verticalidade, vertebrada e viril, e nesta, o equilíbrio duma conduta. Há qualquer coisa de igualdade naquela linha recta e nivelada que a meio e não em baixo, marca o equilíbrio
Olha-se o H e vê-se honestidade, o equilíbrio e a força duma posição firme e decidida.
Não brinquem, pois, com letras, Senhores da União Nacional
Nem essas estão convosco!!!

ou Cunha Leal dirigindo-se aos jovens

Quando os moços de agora se dirigem a pessoas, que, como eu, à semelhança de Moisés estão destinadas a morrer à vista da terra de promissão, sem conseguirem pôr nela os pés doloridos, sinto em minha alma o desejo veemente de que a juventude, essa sim, venha a pisar esse solo sagrado.
Mas ela tem de preparar-se para ser digna desse destino. Os hodiernos não tiveram, como os do meu tempo, actividade romântica e tempestuosa. São pessoas amadurecidas prematuramente, que com resulta inquebrantabilidade de carácter, juraram que não haveriam de vender a alma ao diabo. Em todo o caso, quando se convencem de perdurabilidade de tão indesejável estado de coisas, não é de admirar que o seu ingénito dinamismo os leve a desejar o desencadeamento de um terramoto social, que reduza a escombros o presente para construírem, mais tarde a cidade do futuro.
A minha velhice induz-me a pô-los de sobreaviso contra a grande periculosidade desses sonhos de destruição. Ah, não queiram eles subverter uma injustiça para gerarem outra mais desumanizada e monstruosa ainda! Assisti na minha vida a duas horrorosas carnificinas bélicas. Vi o meu país enredado em mesquinhos conflitos. Tomei conhecimento de um dos tais cataclismos sociais e de escravidão a seguir imposta durante infindáveis 40 anos a um grande povo, sob a invocação de uma sedutora miragem do porvir. Mortes, tiranias, campos de concentração, progroms - eis o que venho contemplando durante meio século apocalíptico da História! Não terá chegado a altura de tentar gozar a vida e não de sacrificar a odiosos Molochs e Quimeres?

Isto é bom. Isto é mesmo bom, diz o blogger que há em mim. Era bom em 1958, é bom em 2005.

(Continua)

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